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GT-10. Música, redes y cambios en la industria del entretenimientoSupraGrupo
¿Hacia una nueva cultura?
Coordinación:
· Guillem Baladia Puche
· Eduardo Riol Carvajal

O universo das imagens do disco Computer World
Autor/-a/-s/-as:
  · Nicolau Centola

Idioma original:
  · portugues
Palabras clave:
 · arte/bellas artes
 · cibercultura
 · cibersociedad
 · cultura
 · net.art


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ABSTRACT
Este trabalho pretende analisar o universo imagético da capa do disco Computer World, da banda alemã Kraftwerk, no qual há a apropriação de um ícone tecnológico, o computador, para a criação de uma nova definição sígnica do que seria o futuro. O disco, lançado em maio de 1981, foi um balizador de uma nova forma de se pensar o mundo, apontando caminhos para uma sociedade midiática interconectada. Utilizando-se da linguagem da música pop e precursor do que hoje consideramos música eletrônica, o disco indica a importância e a iminência da formação de uma sociedade da informação, na qual altera-se a estrutura de poder analógico ligada ao binômio indústria/comércio, para a posse e manipulação digital de dados informacionais. A banda praticamente definiu a cibercultura, com o estabelecimento de uma nova concepção de arte, calcada na impessoalidade da fonte emissora, e no enaltecimento da mensagem, que nesta nova ordem, podemos dizer que assume funções cognitivas mais impactantes, porém, ao mesmo tempo, subliminares.

Introdução

Vivemos uma era de hibridização imagética. Não a hibridização proposta pelos artistas modernistas, como por exemplo surrealistas e dadaístas, uma ponte entre o sensível e o intangível. Se estes introduzem um novo paradigma criativo, com a inserção do pensamento na formulação do trabalho artístico, a pós-modernidade trabalha com as questões da desmaterialização, virtualização e simulação imagética.

A invenção da fotografia, no século XIX, foi saudada como um desenvolvimento dos processos de automatização da representação da imagem, liberando o observador da necessidade de imprimir a priori seu próprio ponto de vista à imagem captada, e deu início a uma série de estudos elaborados de decomposição da imagem em seus componentes mínimos. Com a fotografia, foi possível centrar a origem da imagem no furo da máquina fotográfica. Mas ainda faltava o controle de cada um dos componentes da fotografia. Mais que a busca pela reprodutibilidade, já àquela época conhecidos os processos químicos de fixação de pontos aleatórios em um substrato, o grande desafio tornou-se a transmissão de imagens estáticas a grandes distâncias. Estudos de Caselli, na segunda metade do século XIX, com o pantelégrafo, uma máquina de decomposição de uma imagem em uma seqüência de elementos lineares, possibilitou a transmissão experimental do contorno de imagens entre Paris e Lyon.

Mas somente com o advento da televisão, na metade do século XX, foi possível criar uma “linguagem” imagética, no sentido de uma seqüência linear com características próprias, e conceito semelhante à escrita. Decompondo através de uma varredura horizontal qualquer imagem em pontos relativamente eqüidistantes e possuidores de um determinado quantum informativo (vermelho, verde e azul), foi possível, no receptor, por síntese aditiva à mesma varredura, voltar a formar a imagem original. Porém, esta unidade referencial de imagem não podia ser modificada ou tratada.

Com o computador, o automatismo mecânico dá lugar ao automatismo digital, no qual o pixel é o componente elementar desta matriz. Ficando no meio do caminho entre a imagem e o número, o pixel é a ponte entre dois mundos, a porta de passagem do real para o virtual. A partir do momento que uma imagem é “pixelizada”, ou seja, transformada em pixels, ela perde completamente sua ligação com o real, tornando-se uma seqüência de números, aparentemente sem sentido se não for olhada com seu respectivo tradutor, que transforma a seqüência novamente para o campo da visão.

Todas as técnicas desenvolvidas antes do advento do computador (fotografia, cinema e televisão) guardam uma similaridade no processo de formação da imagem: a partir de uma irradiação luminosa, há uma aproximação entre imagem e real, seja na fixação de uma imagem fotográfica, gravação de um filme ou transmissão de um programa de televisão. A introdução de tecnologias digitais altera radical e definitivamente a relação entre imagem e realidade. Nas primeiras, a cada ponto ótico corresponde um ponto do objeto real. Nesta última, sua unidade mínima de informação, o pixel, é a representação visual de uma série de cálculos e operações matemáticas efetuadas pelo computador a partir de regras e instruções de diferentes softwares. Não existe no objeto real nenhum ponto correspondente ao pixel, mas sim está associado a este linguagem e números. Desta forma, a imagem numérica se liberta do real, não mais o representando, mas sim simulando. Não há mais nenhum tipo de relação direta com o real na imagem numérica.

Para COUCHOT (1993:42), “a imagem não é mais projetada, mas ejetada pelo real, com força bastante para que se liberte do campo de atração do Real e da Representação. A realidade que a imagem numérica dá a ver é uma outra realidade: uma realidade sintetizada, artificial, sem substrato material além da nuvem eletrônica de bilhões de micro-impulsos que percorrem os circuitos eletrônicos do computador, uma realidade cuja única realidade é virtual”. Desta forma, Sujeito, Objeto e Imagem têm fronteiras fluidas. Ainda, segundo Couchot, “o espaço muda: virtual, pode assumir todas as dimensões possíveis, até dimensões não inteiras, fractais. Mesmo o tempo flui diferente; ou antes, não flui mais de maneira inelutável; sua origem é permanente ‘reiniciável’: não fornece mais acontecimentos prontos, mas eventualidades. Impõe-se uma outra visão do mundo. Emerge uma nova ordem visual”. As técnicas figurativas numéricas não representam mais o real, mas sim utilizam as ciências para sintetiza-lo.

Outra conseqüência das imagens numéricas é a possibilidade de transporte instantâneo entre diferentes meios, de uma forma quase transparente para o usuário. Para PLAZA (1993:75), “o meio já não é mais a mensagem, pois não existe mais meio, somente trânsito de informações entre suportes, interfaces, conceitos e modelos como meras matrizes numéricas”. Nada mais que um simples processo de tradução de informação digital entre dados de entrada e de saída, a imagem numérica pode se transformar com a simples escolha do meio de saída de dados, como por exemplo fotografia, vídeo, impressão, CD-ROM etc.

Com a associação indissolúvel de imagem e número, abre-se um novo universo de virtualidade independente de suporte, com a possibilidade de criação e transformação infinitas de imagens, sem que entretanto estas existam como tais.


Música e eletrônica

A banda Kraftwerk foi criada em 1970 por Ralf Hütter e Florian Schneider, ambos músicos de formação clássica, em Düsseldorf, cidade industrial do vale do Ruhr, na Alemanha. Ambos nascidos no pós-guerra, os músicos foram influenciados pelas composições clássicas de vanguarda de Stockhausen, que propunha o abandono de estruturas formais da música clássica, em detrimento à concepção mais "aberta" da música, aproveitando ruídos captados do ambiente urbano, em sintonia com a instrumentação tradicional.

Inicialmente trabalharam com uma música de vanguarda instrumental, presente nos três primeiros discos, o que evidenciava a procura por um caminho diferenciado para suas composições. Somente a partir do quarto LP, Autobahn (1974), a banda começa a enfocar as experiências sensoriais de um motorista dirigindo seu Volkswagen pelas autopistas alemãs. Nesse momento histórico do Kraftwerk, o grupo começa a burilar o conceito do que seria um conjunto musical orientado à tecnologia. As músicas criadas, a partir de então, usavam, cada vez mais instrumentos eletrônicos (teclados, sintetizadores, baterias eletrônicas e módulos de tratamento de áudio), sendo deixados de lado os instrumentos tradicionais, usados pela banda até então, como piano, flauta, guitarra e bateria acústica.

Seus álbuns seguintes seguiriam a mesma linha: um fio condutor temático enfocando um aspecto tecnológico da vida moderna, embalado em uma imagem com ar retrô, normalmente captada de fontes e referências da primeira metade do século XX. Por exemplo, Radioactivity (1975) retrata a importância do rádio como um integrador da sociedade no século XX, fazendo um jogo de palavras com a radioatividade (radio-activity), embalado em um layout de um rádio alemão da década de 30. Trans Europe Express (1977) utiliza o trem como metáfora da unificação européia. Com Man Machine (1978), o Kraftwerk, usando elementos do realismo russo e da obra de Lissitzky, trata da convivência entre homens e máquinas em uma sociedade pós-moderna.

Mas o disco objeto deste estudo viria à luz em maio de 1981. Computer World, mais do que um simples disco, reúne diversos conceitos em torno de uma nova sociedade midiática, controlada por computadores. O PC (Personal Computer), um computador de baixo custo, seria lançado pela IBM somente em 1982. Obviamente não poderíamos supor, em 1981, que a Internet seria a ferramenta de integração entre pessoas que é hoje, pois nesse ano o conceito de rede de computadores interligados estava restrito à ARPANET, que servia à comunidade acadêmica e serviços de informação militar.

Os temas das músicas enfocam o mundo digital, uma sociedade controlada pelos computadores, que pode tanto servir às agências de espionagem como o FBI e a Scotland Yard, quanto aos bancos. Segundo este novo paradigma da sociedade, o mundo controlado pelos computadores serve para controle, negócios, viagens, comunicação, entretenimento ou mesmo como substituto das relações amorosas, temas que só aflorariam na década de noventa, quando a sociedade informacional começava a ganhar corpo e status. Segundo CASTELLS (1999), "o exagero profético e a manipulação ideológica que caracterizam a maior parte dos discursos sobre a revolução da tecnologia da informação não devem levar-nos a cometer o erro de subestimar sua importância verdadeiramente fundamental".

Antevendo o mundo globalizado, a música Pocket Calculator é lançada de forma customizada na língua de diversos países nos quais o disco é apresentado: inglês, alemão, francês, japonês, italiano e polonês. Para o Kraftwerk, a mensagem é clara: "I program my home computer, beam myself into the future" (Eu programo meu computador doméstico, irradiando-me ao futuro – Home Computer (1 ) ). Uma sociedade informatizada e interconectada, na qual o poder emana de cada nó da rede, de cada elemento gerador, de cada computador conectado.


Projeto gráfico

Analisaremos o universo imagético da capa do disco, no qual há a apropriação de um ícone tecnológico, o computador, para a criação de uma nova definição sígnica do que seria o futuro. Todo o layout da capa, encarte e selo do disco foi feito pelo artista plástico Emil Schult (2 ) , também um dos letristas da banda, e responsável pelos conceitos artísticos do Kraftwerk entre 1972 e 1982. Nascido em 1946, estudou na State Art Academy em Düsseldorf, sendo discípulo de Diter Rot, Joseph Beuys e Gerhardt Richter, desenvolvendo uma técnica de pintura no vidro. Trabalha atualmente com pintura, vídeo e multimídia, cobrindo os mais diferentes aspectos e temas relacionados ao século XXI.

Para analisarmos as cores utilizadas na capa do disco, toda composta em tons de amarelo, é preciso considerar o simbolismo e a construção da linguagem específica das cores, que, além das características biológicas, engloba também a linguagem cultural do homem. Para GUIMARÃES (2000:97), “é possível encontrar uma codificação binária que já incorpora as duas possibilidades de polaridade, dois sentidos opostos para a mesma cor: um sentido positivo e outro negativo”. Se para DONDIS (2000:65), “o amarelo é a cor que se considera mais próxima da luz e do calor... e tende a expandir-se”, é preciso considerar também que em diversas culturas esta cor está relacionada à loucura, à mentira e à traição. A cor tem também três dimensões que precisam ser consideradas: matiz, saturação e brilho. Para FRANCKOWIAK (1997:197), o amarelo “representa a força vital controlada e direcionada para os objetivos, sem desvios e perda de tempo, e denota a modalidade racional de adaptação ao ambiente”. Neste caso de estudo, o amarelo representa também o ouro, a riqueza, a importância. Seu uso em tons saturados e com brilho indica importância ao tema. O amarelo, associado ao verde utilizado em alguns momentos, referencia também os tons utilizados nos monitores dos computadores no início da década de 80.

Como referências sígnicas, na capa (anexo 1.a) vemos um close de um console de um computador TRS-80, na época muito comum e bastante utilizado em grandes corporações. É bom lembrar que o conceito de computador pessoal (Personal Computer, ou simplesmente PC) foi lançado no mercado apenas em 1982 pela IBM, que à priori não acreditava no filão mercadológico da computação pessoal. Somente depois do estrondoso sucesso de vendas, o modelo foi copiado por outros fabricantes. Os rostos dos quatro integrantes estão inseridos no monitor do computador, em um tom de verde que se assemelha aos monitores de fósforo verde existentes na época. O desenho, sem meio-tons ou sutilezas, acompanha as resoluções gráficas disponíveis na época. A tipologia de todo o disco (capa, encartes e selo do LP) é feita em caracteres similares aos utilizados em monitores rodando o sistema operacional DOS. O conceito da capa é a perfeita simbiose homem-máquina. Os humanos estão inseridos no computador, em perfeita harmonia, se observarmos os semblantes tranqüilos da banda.

Na contra-capa (Anexo 1.b), os quatro integrantes da banda, na verdade representados por quatro manequins, com feições semelhantes aos rostos dos quatro, assumem uma nova postura com relação à música, abandonando o padrão corrente da música pop, principalmente o rock’n’roll, com todos os seus signos, cabelos e vestuário rebuscado, e assumindo uma postura asséptica de um laboratório impessoal. Tal linguagem calcada em cores primárias, basicamente o preto e o amarelo esverdeado dos antigos monitores de computador, além das texturas de luz e sombra, constroem um cenário no qual robôs assumem o papel de músicos, desvinculando totalmente da estética vigente à época. A inclinação do olhar dos quatro músicos-robôs, olhando para baixo, e não para frente, como normalmente ocorre em um show, criam novas práticas culturais e antecipam a postura atualmente consolidada dos DJ’s, os principais ícones da cibercultura, pessoas comuns, de cabelos curtos, atrás de um console eletrônico, olhando para uma parafernália eletrônica, sem que possamos ver o que estão fazendo. Na parte inferior da contra-capa, temos, na mesma fonte da capa, os nomes das músicas e seus tempos de execução e a frase “Interpol and Deutsche Bank FBI and Scotland Yard”, que é parte da letra da música Computer World. Além disso, há a indicação de que grandes corporações mundial ligadas à segurança poderiam se beneficiar deste mundo conectado.

No encarte (Anexo 1.c), temos a repetição dos quatro manequins, agora de corpo inteiro, vestidos como executivos e manipulando consoles com diversos equipamentos eletrônicos, totalmente desvinculados com o universo musical. Estes equipamentos poderiam ser de uma usina elétrica, uma fábrica, qualquer coisa. No conceito da banda, cada um dos integrantes tem à sua disposição uma série de equipamentos eletrônicos, formando quatro unidades autônomas, células sonoras especializadas respectivamente em ritmo, baixos, melodias e criação de vozes sintetizadas. A imagem da banda, diametralmente oposta ao cenário pop/rock, é de quatro cientistas de cabelos curtos e vestindo ternos, que trabalham em um laboratório asséptico (o palco), criando e manipulando elementos sonoros.

No verso do encarte (Anexo 1.d), os quatro bonecos estão “tocando” os instrumentos miniaturizados utilizados na música Pocket Calculator (ver Anexo 2). Além do estranhamento que estes instrumentos possam causar ao ouvinte desavisado, há ainda a questão lúdica, que remete à brincadeira musical feita por crianças com instrumentos de brinquedo. Os créditos na parte inferior em nada se parecem com os discos tradicionais. Existem apenas denominações como hardware e software (3) . Com tamanha impessoalidade, não se sabe quais instrumentos são tocados e nem por quem, ou mesmo o que cada pessoa faz ou é responsável no “produto” Computer World.


Conclusões

Estamos diante de temáticas extensas e que ultrapassam os propósitos do trabalho. Apenas destacamos que estamos propondo a mudança de paradigmas para se estudar a cibercultura.

O disco Computer World como balizador de uma nova forma de se pensar o mundo, utilizou a linguagem da música pop para introduzir a música eletrônica no mundo ocidental. A capa, por sua vez, mostra através de um design minimalista, a iminência da formação de uma sociedade da informação, na qual altera-se a estrutura de poder analógico ligada ao binômio indústria/comércio, para a assimilação orgânica de dados informacionais. A banda praticamente definiu a cibercultura, com o estabelecimento de uma nova concepção de arte, calcada na impessoalidade da fonte emissora, e no enaltecimento da mensagem. A partir do ineditismo do tema, propomos um corte espacial e temporal – através do isolamento das décadas de 1980, 90 até os dias de hoje – para refletirmos a cibercultura a partir das contribuições da música eletrônica.


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    NOTAS
  • [1] - Tradução livre do autor
  • [2] - Site do artista plástico Emil Schult: , acesso em 25.04.2004
  • [3] - Créditos do disco Computer World (LP, 1981):
    Kling Klang Produkt 1981 Düsseldorf Germany * Hardware: Matten & Wiechers Bonn – Peter Bolling – Mr. Lab & Friend Chip Berlin – Hermann Poertner – Gerd Rothe * Software: Guenter Froehling – Emil Schult – Pit Franke – Karl Klefisch – Computergraphics System Bernd Gerike Erlangen – Falk Kuebler – Martin Tewis – Carol Martin – Takeshi Shikura – Ian Flooks – Marvin Katz – Maxime Schmitt – Ralf Hütter – Karl Bartos – Wolfgang Flür – Florian Schneider * Kling Klang Studio: Joachim Dehmann – Guenter Spachtholz


    ANEXOS




    1.a - Capa do disco Computer World



    1.b - Contra-capa



    1.c - Encarte



    1.d - Encarte



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