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Na direcção de qual Sociedade do
Conhecimento?

[Linha editorial do II Congresso On-Line do Observatório para a CiberSociedade]


Uma das consequências da popularização das tecnologias da informação e da comunicação é a aparição, durante a última década, de bastantes neologismos e novas construções que tem invadido a linguagem académica, política e social. A anunciada nova realidade social tem vindo a ser acompanhada de formas diversas de se designar a si mesma, potenciando mais uma sensação de mudança que, possivelmente, será mais do a mudança em si mesmo.

Seguramente uma das noções mais ambiciosas e utópicas com que nos temos cruzado nestes últimos anos é a Sociedade do Conhecimento. O discurso que está por de trás deste conceito, mais desiderativo que analítico ou real, pressupõe que a nova (?) sociedade intensamente técnica resultará num novo modo de produção e vida social evolucionada. De acordo com este discurso, abandonadas atrás da sociedade industrial das fumaças das fábricas e da sociedade pós-industrial do consumismo e dos mass media, amanheceremos numa nova era baseada no intercâmbio sinergético do conhecimento.

Deixando de lado a perspectiva mais ou menos utópica da ideia, o certo é que se trata de um conceito aberto, maleável e em discussão sobre o que queremos fazer, vamos girar a reflexão central e transversal deste congresso.

O primeiro objectivo deste congresso é colocar uma questão e analisar com uma perspectiva crítica este discurso. Descobrir as suas génesis, o seu desenvolvimento e a sua implicação para as diferentes esferas da realidade social, a saber, a política, a economia e a sociedade Responde a noção de Sociedade do Conhecimento a uma análise da realidade social, é uma ferramenta política ou simplesmente um conceito vazio nas mãos do stablishment?

As implicações para a esfera política passam, em primeiro lugar, pelas políticas públicas a desenvolver entre as que se destacam a aplicação e introdução das TICs na Educação ou na Administração Pública, a regulação do novo espaço socio-técnico, a luta contra a fractura digital ou o fomento de novas actividades produtivas baseadas neste sector, entre outras. Abre-se um novo espaço de participação política com a introdução das novas tecnologias nesta esfera, com conceitos como democracia digital ou electrónica. Porém, considerações sobre um papel muito mais activo e participativo da cidadania devem ser contrastadas com os cada vez mais eficazes mecanismos de controle social e ameaças à privacidade que, quiçá, a onde nos levam, toda a panóplia digital.
      Instituições locais, regionais, estatais e internacionais são chamadas não só a actuar neste campo, mas também a reflectir sobre os seus discursos e políticas. Esperamos que este seja um foro adequado para isso.

A aparição de um novo paradigma -ou o desmembramento do anterior - está a marcar a economia actual. Os processos de globalização económica e do capital internacional, a deslocalização industrial, novas formas de produção ou novos modelos de organização empresarial, assim como a aparição de novas ferramentas como as de Gestão do Conhecimento são algumas das características desta chamada nova economia do conhecimento.
      No entanto, há realmente algo de substancialmente novo nestas tendências? Até que ponto se trata de pouco mais que um refortalecimento do velho capitalismo, levado agora a uma escala macro-corporativa, planetária e libertado (finalmente) dos mecanismos de controle estatal e sindical sob os quais se desenvolveram? É possível ou desejável recuperar esse controle? De que modo? Que papel jogam nestes processos as tecnologias da informação e da comunicação?
      Torna-se necessário e urgente analisar de forma atenta o que há por detrás destas inovações, conceitos e ideias.

Em terceiro lugar, abordando por último o social, acontecimentos recentes como os fenómenos de organização espontânea/instantânea da chamada sociedade civil ante os atentados de 11-S e de 11-M colocam de forma significativa na actualidade o tema da apropriação social das novas tecnologias. Situações como estas servem de exemplo a todos aqueles que confiam/-avam e vaticinam/-navam que estamos/ávamos não perante uma mera (outra) revolução tecnológica mas ante uma revolução das tecnologias sociais.
      A expectacularidade e notoriedade destas manifestações sociais tão só vem a confirmar em maiúsculas algo que as minúsculas das ciências sociais assinalavam desde os anos noventa, quando descobriram novos processos de reticulação social, instituição e negociação de identidades individuais e colectivas, estabelecimento de novos processos e parâmetros nas relações sociais mediadas pelas tecnologias digitais, etc.
      E ainda a pesar destas novas notoriedades, segue aberto o debate sobre até que ponto são novas estas dinâmicas sociais e não, sobre se estavam ou não mais ou menos latentes na mesma sociedade de que procedemos, sobre se há ou não há, suficientes sintomas para diagnosticar que estamos nos alvores, não somente de um novo modo de produção económico ou de um novo modelo de fazer política/administração, se não também ante de um novo modelo social. A chamada (nova) sociedade do conhecimento, é realmente uma nova sociedade ? quiçá uma nova ideologia? ou somente um novo slogan?

Esta reunião de interrogações deve ser o leit-motif de este II Congresso ONLINE do Observatório para a Ciber-Sociedade. Uma sucessão de perguntas abertas e de resposta incertas que, quanto mais são postas em questões e no ponto de mira da crítica construtiva e independente, menos cairão vítima da inércia. No debate à volta da Sociedade do Conhecimento é a desculpa e o eixo a partir do qual começar (ou voltar) a pensar e discutir sobre o nosso modelo de sociedade... Técnica, digitalizada, globalizada e mais desigual que nunca... O signo de interrogação confuso com que identificamos esta convocatória quer ser uma provocação à reflexão.

O Observatório para a Ciber-Sociedade convida pois, a debater esta temática desde uma perspectiva multi-disciplinar, crítica e aberta, teórica ou aplicada, especializada ou transversal, num formato que já mostrou a sua fertilidade na primeira edição do congresso no final do verão de 2002. Nesta ocasião o nosso objectivo é fomentar a reflexão, desde todos os sectores sociais, sobre a questão de qual é o modelo de sociedade tecnológica que queremos, devemos e estamos a avançar.



Documento elaborado pelo Comitê Científico do II Congresso On-Line do Observatório para a CiberSociedade, abril de 2004