IV Congrés de la CiberSocietat 2009. Crisi analògica, futur digital

Ponent/s


Resum

A noção de autoria sofre um deslocamento na atualidade sob o impacto das redes interativas de comunicação. Este artigo pretende explorar os diferentes modos de produção textual discursiva em meio digital e identificar quais são seus traços distintivos. Em primeiro lugar, busca diferenciar as noções de leitura e escritura hipertextual, que têm sido colocadas quase como sinônimos por alguns pesquisadores. Em seguida, procura investigar quais as características particulares da escrita eletrônica, tendo como referência o pensamento de De Kerckove. Por último, apresenta alguns exemplos de autoria digital.

Contingut de la comunicació

Em todos os sentidos, o hipertexto faz ecoar a hipótese mallarmiana do Livre, esse livro “impessoal” (isto é, sem autor), que se multiplica por um movimento que lhe é próprio [...]. (MACHADO, 1996, pp. 189-190)

1. Introdução

A noção de autoria, como uma atribuição individual, vem sendo deslocada por um sem número de experiências de escrita em meio digital caracterizadas por uma produção textual distribuída, colaborativa e até, em alguns casos, automatizada. Neste artigo, a partir do campo da Comunicação, buscaremos investigar o que caracteriza essa escrita eletrônica e que processos autorais ela impulsiona ou torna possíveis.

Em primeiro lugar, a fim de construir nossa argumentação, discutiremos a própria noção de autoria nas redes interativas de comunicação a fim de diferenciá-la do que entendemos ser a leitura hipertextual, vista por alguns pesquisadores já como um ato autoral. Em seguida, iremos explorar os traços distintivos da produção discursiva nesse meio tendo como referência teórica o pensamento de Derrick De Kerckhove, da Escola de Toronto. Por último, apresentaremos alguns exemplos de modelos autorais em meio digital a fim de dar mais consistência à reflexão.

Na medida em que discute a produção textual discursiva e as transformações no processo autoral no meio eletrônico, este artigo pode contribuir para enriquecer as reflexões propostas pelo Grupo de Trabalho Digitalidad: comunicación retórica y comunicación literaria frente a la crisis analógica do IV Congreso de la CiberSociedad.
2. Navegação, autoria e leitura

Para se explorar o fenômeno do hipertexto e sua especificidade é importante ter em vista a precisão dos conceitos. Neste sentido, precisamos esclarecer em primeiro lugar o que entendemos por autoria nesse ambiente. Alguns pesquisadores têm apontado a interatividade da navegação hipertextual já como uma forma de autoria. Como afirma Lévy:

Todo aquele que participa da estruturação do hipertexto, do  traçado pontilhado das possíveis dobras do sentido, já é um   leitor. Simetricamente, quem atualiza um percurso ou   manifesta este ou aquele aspecto da reserva documental contribui para a redação, conclui momentaneamente uma escrita interminável. As costuras e remissões, os caminhos de sentidos originais, que o leitor inventa, podem ser incorporados à estrutura mesma do corpus. A partir do hipertexto, toda leitura tornou-se um ato de escrita”. (LÉVY,1993, p. 46)

Para ele, portanto, o próprio ato de fazer escolhas ao percorrer um hipertexto, clicando em elos de conexão e, assim, seguindo para outros textos e outras leituras e inventando um percurso particular, seria já uma forma de escrita ou de autoria. Leitor e autor seriam, sob esse ponto de vista, uma coisa só ou, melhor dizendo, a mesma pessoa. De modo semelhante, Machado vê uma espécie de hibridação entre o processo de escrita e leitura no hipertexto:

O processo de leitura (mas também o de escritura, visto que o hipertexto não faz distinção entre uma coisa e outra: a qualquer momento da leitura, o usuário pode acrescentar novos textos, eliminar outros, refazer os elos ou o diagrama estrutural que os organiza todos) é designado pela metáfora bastante pertinente da navegação, pois se trata realmente de “navegar” ao longo de um imenso mar de textos.” (MACHADO, 1996, p. 188)

Já Weissberg (2003) discorda dessa visão. Para ele é preciso enxergar esse novo lugar como uma zona intermediária entre a escrita e a leitura. Para isso propõe o conceito de “leitactura”, no qual a navegação, ao invés de ser encarada como uma escritura, é compreendida como “balizamento de caminhos, produção de arranjos formais, marcação de circulações” (WEISSBERG, 2003, p. 113). Esse neologismo tenta dar conta da relação entre a leitura e a escrita na navegação hipertextual, considerando que a proximidade entre esses dois “lugares” sempre existiu em certa medida, mesmo em um suporte estável como o livro, já que ler um texto é sempre reescrevê-lo internamente. Não há dúvida de que com os processos propiciados pelo suporte eletrônico da escrita – como indexação, mobilização de motores, indicação de caminho – enriquece-se semanticamente a leitura, mas isso não deve ser confundido com um tipo de co-autoria.

Dito de outro modo, é preciso ter claro que nem sempre a interatividade proporcionada pela navegação hipertextual é sinônimo de autoria. É preciso levar em conta que grande parte das publicações que têm lugar nas redes de comunicação são em alguma medida interativas, mas não necessariamente co-autorais. Na maior parte dos websites institucionais, por exemplo, o máximo de participação do leitor é escolher seu percurso pelo hipertexto e escrever uma mensagem na página de contato.

Por outro lado, existem, sim, projetos nos quais pode-se verificar uma produção discursiva co-autorada, daí a importância de se ter bem clara esta diferenciação: entre o que é meramente uma leitactura daquilo que pode ser considerado uma co-autoria. Desde os primeiros projetos de groupware da década de 1990 (LÉVY, 1993) até as experiências atuais em plataforma wiki, existem inúmeras publicações eletrônicas nas quais observamos a atuação de uma coletividade pensante, caracterizada por uma produção textual cooperativa. Aí sim, podemos falar na figura do autor em coletivo, como propõe Weissberg, ou autoria em rede, tema que norteia nossa pesquisa.

Tendo feito essas primeiras considerações, cabe agora investigar as implicações que o hipertexto traz para o modo como pensamos e escrevemos.

3. Texto e contexto

Para De Kerckhove (2003), o hipertexto não é apenas uma maneira de estruturar textos através de elos de conexão semântica. Muito mais do que isso, para este autor, o hipertexto promove uma nova forma de articulação da mente humana na medida em que é uma nova tecnologia para o gerenciamento da linguagem. Para entender este argumento, é preciso fazer uma digressão aos três estágios principais da linguagem – a oralidade, a escrita e a eletricidade – a fim de montar um quadro comparativo.

Antes de começar a desenvolver essa análise cabe frisar que cada um desses estágios foi cumulativo ao outro, isto é, a oralidade obviamente não deixou de existir nem com a invenção da escrita, nem com a chegada da comunicação eletrônica. O que se quer analisar é como cada uma dessas tecnologias influencia na maneira como a mente humana se organiza e que impacto isso pode ter no processo cognitivo.

Na sociedade oral a principal interface de comunicação é o corpo humano. “O corpo inteiro fala, o corpo inteiro lembra, os corpos de todos fazem parte do corpo político.”(DE KERCKHOVE, 2003, p. 8) A vida da coletividade se dá em contexto, isto é, para sua sobrevivência todos dependem da experiência compartilhada. Os rituais, as festas e as danças funcionam como mneumotécnicas para tornar presente e compartilhado todo o repertório semântico daquela comunidade. As canções e as rimas são técnicas de memorização compartilhadas socialmente. Desse modo, o conhecimento e a memória são vivenciados sensorialmente de forma coletiva. Assim é possível manter presente e vivo o acúmulo de conhecimento do passado. Reforçando esta visão, Lévy (1993) afirma que nas sociedades orais a própria palavra teria a função básica de gerir a memória social.

O que nos interessa destacar nessa análise é a forma como se dá o processo cognitivo na cultura oral, no âmbito do coletivo, ou como prefere frisar De Kerckhove, inserido no contexto. Neste sentido, pode-se afirmar que o próprio pensamento, assim como a memória, tem lugar nesse espaço social ampliado. Pensa-se e lembra-se em contexto, coletivamente, de forma compartilhada.

Já com a escrita surge o leitor e, com ele, a mente individualizada. A escrita, para De Kerckhove, separou o texto e o contexto. A interface dominante agora passa a ser o material impresso, que recebe um certo status de prioridade frente ao oral. A memória agora é assistida pelo texto. Não precisa mais ser guardada no corpo e nos rituais, pode ser arquivada em caracteres.

Cabe aqui fazer uma ponderação: a invenção da escrita, como se sabe, remonta a milênios, e sua incorporação pelas populações se deu de forma lenta e diferenciada. Por séculos somente alguns setores das sociedades tinham acesso à escrita e à leitura. Houve também períodos que talvez pudessem ser chamados de híbridos em relação à categorização proposta pelo autor. Na Idade Média, por exemplo, os livros eram lidos e debatidos publicamente. A prática da leitura era coletiva: uma pessoa lia para uma coletividade. Seu argumento torna-se mais forte se pensarmos na chegada da imprensa, com a disseminação de livros e do hábito da leitura, como o fator que causa o maior impacto da escrita na sociedade.

Contudo, o que de fato nos interessa nessas comparações é pensar de que forma a interface do hipertexto eletrônico articula esses diferentes estágios da linguagem – a oralidade e a escrita – e de que modo pode estar colaborando para configurar um novo estágio caracterizado por uma combinação entre os dois primeiros.

4. O contexto da rede

A eletricidade, para McLuhan, é tato. Isto quer dizer que ela estimula todos os sentidos, “exige a participação e o envolvimento de todo o ser” (MCLUHAN, 1974, p.375). Seguindo este pensamento, De Kerckhove afirma que a interatividade eletrônica é acima de tudo tato, pois envolve muito mais do que um ponto de vista em perspectiva, mas verdadeiramente um ponto de existência, que percebe a realidade de modo proprioceptivo através de próteses tecnológicas de seus sentidos (visão, audição, tato e, em alguns casos, até mesmo olfato), como numa espécie de imersão no ambiente digital, que o integra a uma escala mundial de relações humanas e maquínicas. (DE KERCKHOVE, 1997)

A mente do hipertexto, para este autor, é semelhante àquela do contexto, mas não totalmente coletiva. Ao mesmo tempo em que externaliza as mentes dos usuários nas telas dos computadores, interconectando-as e configurando uma mente coletiva e pública, possibilita, no entanto, uma navegação individualizada. Combina características dos estágios oral e escrito, com mais alguma coisa: a conectividade.

Enquanto as sociedades orais pensam em voz alta e juntas, as sociedades da escrita falam em silêncio em suas mentes, isto é, pensam, e as sociedades elétricas “escrevem oralmente”, ou seja, usam formas da fala na escrita eletrônica1. A ressonância da oralidade na era informático-mediática também é destacada por Lévy: “a imediatez dos efeitos da ação e o fato de que os protagonistas da comunicação partilham um mesmo contexto aproximam as mídias eletrônicas da oralidade” (LÉVY, 1993, p. 126)

Nesse ambiente, afirma De Kerckhove, surge um novo tipo de espaço, que interliga de modo original o espaço público e o espaço privado. O hipertexto promove, por sua vez, uma cognição compartilhada na medida em que permite o acesso a uma memória de todos. A velocidade tecnológica possibilita conexões cada vez mais amplas e mais rápidas, multiplicando geometricamente o potencial cognitivo.

Qualquer um que esteja on-line é, de fato, parte de um hipertexto mundial. [...] A mente elétrica é verdadeiramente pós-escrita no sentido que pode dar-se ao luxo de conhecer sobre si própria e sobre a mente escrita, ela pode combinar o privado e o coletivo em uma única entidade, a conectiva, sem ameaçar uma à outra”. (KERCKHOVE, 2003, p. 9)

A eletricidade, portanto, impulsiona a mente humana para outra dimensão perceptiva e cognitiva, que diz respeito não só à velocidade, mas notadamente à abrangência das interações, favorecendo sobremaneira as estratégias colaborativas. Desta forma, promove a constituição de um espaço público estendido e coletivo que abre novos potenciais à mente humana, apontando para a constituição de uma inteligência compartilhada.

Tendo examinado as características próprias do meio digital, cabe agora indagar quais são os modelos de autoria específicos desse meio, que através da combinação dos atributos distintivos dessa tecnologia da escrita inauguram novos modos de produção textual. A seguir iremos explorar algumas das vertentes autorais que têm lugar nas redes eletrônicas de comunicação.

5. Projetos de autoria em rede

Como vimos, o meio digital, com sua conectividade e eletricidade, oferece um ambiente bastante propício à produção discursiva distribuída e colaborativa, em um processo que denominamos de autoria em rede. A seguir, vamos apresentar algumas modalidades desse processo autoral que revelam um pouco da diversidade de projetos de escrita eletrônica que as redes interativas tornam possível.

5.1 Wikipédia, a enciclopédia colaborativa

Um dos modelos mais populares é o do sistema wiki, que tem seu exemplo mais notório na Wikipédia2, uma enciclopédia on-line na qual o conteúdo é desenvolvido pelo próprio público interagente de maneira cooperativa. Criada em janeiro de 2001, a publicação tem cerca de 13 milhões de artigos, escritos em 262 idiomas3. Ao consultar um verbete, qualquer um pode editá-lo e alterá-lo, seja especialista ou leigo. Existem colaboradores mais atuantes que estão constantemente monitorando as últimas modificações, e a definição final é sempre aquela que obteve consenso entre os participantes4.

Na interface da publicação, acima de cada verbete, existem quatro abas que ao serem clicadas dão acesso a diferentes áreas. A primeira delas refere-se ao artigo, contendo a definição do verbete e demais informações, que correspondem ao conteúdo das enciclopédias impressas. A segunda aba dá acesso à área de discussão, usada para se colocar questões relacionadas ao tema, como dúvidas, sugestões de complementação ou mesmo indicação de incorreções. Em uma terceira área o conteúdo do artigo é apresentado em uma caixa de edição, na qual é possível fazer alterações ao texto original. Basta salvar a modificação que a página será automaticamente atualizada, sem passar por nenhum tipo de controle editorial. Uma última área apresenta o histórico de todas edições realizadas. Desse modo, qualquer pessoa com acesso à Internet pode consultar a publicação e, se achar pertinente, editar seus artigos. Antes de editar, pode preferir discutir com a chamada comunidade de participantes as suas propostas de alteração. Também é possível criar novos artigos sobre temas que ainda não tenham sido explorados, ajudando dessa forma a manter a publicação atualizada sobre os assuntos mais recentes.

Inicialmente a Wikipédia era totalmente aberta à edição. Atualmente, para tentar se preservar a isenção em temas mais polêmicos, algumas páginas são totalmente protegidas ou semi-protegidas, isto é, só podem ser editadas ou por administradores ou por participantes registrados, respectivamente. Mais recentemente para aumentar a credibilidade dos artigos, os administradores da enciclopédia anunciaram que vão incorporar uma ferramenta à publicação, o WikiTrust5, que marcará os trechos dos verbetes que não forem confiáveis. No entanto, de todo modo, continua sendo possivelmente o exemplo mais significativo da produção textual colaborativa na Internet.

5.3 A meta-autoria

Além de projetos colaborativos, como o brevemente apresentado, outro modelo autoral tem sido destacado por alguns pesquisadores como um modo próprio de produção textual no meio digital: o da meta-autoria. Isto se dá quando uma obra é colocada como produção inacabada, que pede a interação do participante para se completar e, por vezes, também a atuação da própria máquina.

Nesses casos existem diversos níveis de participação no processo autoral: o meta-autor, que propõe o ambiente interativo, definindo conceitos e critérios; os interatores, que visitam esse ambiente e se relacionam com ele, definindo suas atualizações; e a máquina, que processa essas interações e apresenta novas variáveis passíveis de novas intervenções. Um sistema cíbrido6 e emergente, imprevisível e aberto. Nesse contexto, o papel do autor, como criador da obra, é deslocado para dar lugar a uma produção acima de tudo processual e interativa. Como afirma Matuck:

The ewriter’s activity is - or it could be - segmented in newly-conceived roles, performed at each successive authorial phase: meta-writing as planning; actwriting as actualization of an original meta-text; post-writing as final editing of the e-writing process.” (MATUCK, 2009, p. 9)7

Também considerando a autoria em mídias eletrônicas como um projeto processual que envolve vários atores, Murray (2003) argumenta que a narrativa em meio digital deve aproveitar os recursos do hipertexto e investir num roteiro não-linear e principalmente interativo. A pesquisadora defende uma autoria procedimental, na qual alguns parâmetros estarão pré-definidos mas o desenvolvimento da estória permanece em aberto. Assim, nesse contexto, o meta-autor criaria cenários, marcos no enredo passíveis de reviravoltas, ações possíveis do interator e ainda regras para seu desenvolvimento, de modo a conceber um roteiro multiforme aberto à participação. O roteiro de um ciberdrama seria, assim, concebido: um conjunto de elementos variáveis que se desenvolveria de modo potencial mas não previsível, de acordo com as interações que recebesse de cada participante.

No contexto dessas produções não é mais possível pensar na figura de um leitor ou de um autor da forma tradicional. O primeiro perde sua posição passiva para agir e definir os contornos finais da obra. O segundo, por sua vez, perde o controle sobre a narrativa para ganhar contribuições co-autorais que construirão, com base no universo de virtualidades por ele proposto, atualizações não imaginadas a priori.

5.4 A autoria maquínica

Para complexificar a questão da autoria em meio digital, há ainda um outro ator que em cena: a automação, que faz da própria máquina um agente autoral, desestabilizando de vez a noção de autoria como uma atividade individual e mesmo humana. Mais do que mero processador e armazenador de informações, o computador nesse caso é um manipulador de signos, capaz de dar um sentido inédito à construção textual. Nesse sentido, é uma “máquina semiótica” como afirma Barbosa:

O computador no seu todo (hardware mais software) equivale a uma "máquina semiótica" criadora de informação nova, o que conduz a uma alteração profunda em todo o circuito comunicacional da literatura no que concerne à criação, ao suporte e à circulação da mensagem.” (BARBOSA, 2001, p.4)

A participação do computador na criação textual é algo pouco explorado, ainda nascente, que pode ser observado especialmente em alguns projetos artísticos. Vamos nos deter aqui na análise um exemplo dessa autoria maquínica ligado à produção textual, denominado de texto generativo ou literatura generativa.

A construção desse tipo de obra se dá em dois momentos: uma do planejamento; e outra de sua execução propriamente dita. Em primeiro lugar, o homem, meta-autor, pensa o projeto e define suas variáveis, ou seja, desenvolve as diretrizes do software. Na segunda etapa, a máquina processa essas informações e apresenta múltiplos resultantes, na forma de construções discursivas que são atualizações do campo de virtualidades dado pelo meta-autor.

No entanto, as saídas criadas pelo computador são potenciais mas não previsíveis. Inventam um campo de significados não imaginados a priori e podem surpreender com a invenção de signos e sentidos originais. Como gera um novo, pode desestabilizar o pensamento e instigar reflexões. Nesse sentido, pode-se pensar a máquina como parte atuante no processo de criação artística, já que ela fornece elementos que deslocam o entendimento e a percepção de forma única e original. Como exemplo de projetos dessa natureza podemos citar o Sintext, de Pedro Barbosa8, um projeto de literatura algorítmica. A partir de um eixo sintagmático (sequência parentetizada) e um eixo paradigmático (base lexical conjugada), o computador gera uma infinidade de produções discursivas com diferentes significados. Aqui pode-se falar na existência de um texto virtual, no sentido de que é um texto que pode se desdobrar quase indefinidamente em outros textos, com sentidos originais, muito além de uma predefinição já dada.

6. Considerações finais

Os exemplos brevemente apresentados demonstram a potencialidade e a versatilidade da plataforma do texto eletrônico para o desenvolvimento dos mais diversos projetos que envolvam a produção discursiva, em processos de autoria em rede.

Tentamos aqui explorar algumas nuances da escrita digital para poder identificar quais são os seus traços distintivos e quais os novos modos de criação que ela torna possível.

Neste sentido, constatamos que, por um lado, a conectividade da rede eletrônica propicia uma ampla interação entre uma multidão de agentes que atuam, de forma colaborativa e distribuída, na produção discursiva. Por outro, observamos que a interatividade do hipertexto abre portas para novas formas de narrativa nas quais existe uma proposta de enredo mas não uma história com contornos fechados. O interator, uma nova palavra criada para falar daquele que interage no ambiente eletrônico, é quem definirá o seu desfecho.

E ainda de forma mais instigante, a escrita eletrônica coloca em cena o próprio computador como um agente autoral, capaz de propor novos sentidos e desestabilizar conceitos pré-estabelecidos. Assim, procuramos em poucas páginas traçar um esboço inicial das questões trazidas pela emergência da escrita eletrônica para o processo autoral.

NOTAS:

1 A observação da escrita em forma de diálogo em sites de relacionamento, como Orkut e Facebook, ou nos comunicadores instantâneos, como o Messenger, comprova essa afirmação.

2 Endereço eletrônico em: <http://www.wikipedia.org>.

3 Dados disponíveis em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia>. Acesso em: 12 set. 2009.

4 Não iremos tratar aqui da questão da confiabilidade das informações da enciclopédia online, tema que poderia render um outro artigo, tendo em vista que nosso foco é analisar o processo de produção discursiva.

5 Endereço eletrônico em:

6 O conceito de cíbrido surgiu no campo da Arquitetura, proposto pelo pesquisador Peter Anders, para pensar a realidade híbrida contemporânea feita do físico e do eletrônico. Para um aprofundamento do conceito, conferir ANDERS, Peter. Toward an architecture of mind. 2001. Disponível em: <http://www.uoc.edu/artnodes/espai/eng/art/anders0302/anders0302.pdf>.

7 A tradução é nossa: “A atividade de e-escrever é – ou pode ser – segmentada em novos papéis, desempenhados a cada fase autoral sucessiva: meta-escrita como planejamento; ato-escrita como atualização de um meta-texto original; pós-escrita como a edição final do processo de e-escrita.”

Bibliografia/Referències


  • DE KERCKHOVE, Derrick. A pele da cultura. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.

  • DE KERCKHOVE, Derrick. “Texto, contexto, hipertexto: três condições da linguagem, três condições da mente”. In: Revista Famecos, Porto Alegre, n. 22, p.7-12, dez. 2003.

  • LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência.- o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 1993.

  • MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1974.

  • MACHADO, Arlindo. “O sonho de Mallarmé”. In: Máquina e Imaginário. São Paulo: EDUSP, 1996, pp. 165-191.

  • MATUCK, Artur. “Ewriting prospective: re-scripting authors’ rights in the electronic domain”. 2009. Disponível em <http://mit.edu/comm-forum/mit6/papers/Matuck.pdf>. Acesso em 20 julho 2009.

  • MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck, o futuro da narrativa no ciberespaço. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

  • WEISSBERG, Jean-Louis. “Entre produção e recepção: hipermediação, uma mutação dos saberes simbólicos”. In: COCCO, Giuseppe et al (Org.). Capitalismo Cognitivo: trabalho, rede e inovação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p.109-131.


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