Este artigo discute a experiência da proposição de um modelo de museu virtual para a Arte Contemporânea da Grande Florianópolis. Ressalta as características gerais do tema e suas especificidades regionais que conduziram a proposta, principalmente as que dizem respeito aos diferentes acervos e as diferentes formas de veicular as obras dos artistas selecionados pela curadoria. Subjaz à apresentação descritiva da proposta, o objetivo de estabelecer uma linha de discussão a respeito da efetividade dos museus virtuais no estabelecimento ou na valorização de paradigmas sócio-culturais. O artigo, com isso, não pretende encerrar a discussão nem determinar uma conclusão rígida sobre o tema, mas contribuir para o estabelecimento de futuras diretrizes para a produção de ambientes virtuais que veiculem a Arte Contemporânea.
1. Introdução
O museu é uma estrutura de caráter ao mesmo tempo popular e científico, cujo objetivo é o desenvolvimento geral da cultura. Segundo o Instituto Angolano do Livro (1979), o museu deve, por um lado, levar ao povo o acesso à cultura científica, e por outro, recuperar a cultura popular. No entanto, muitas regiões vêm crescendo consideravelmente nos últimos anos e seus museus já não atendem a demanda de artistas que produzem Arte Contemporânea. Um desses casos, em particular, ocorre na Grande Florianópolis, região que compreende a Ilha de Santa Catarina e arredores, localizada no Estado de Santa Catarina.
A pesquisa preliminar realizada constatou a não-existência de museus virtuais que tratem especificamente da Arte Contemporânea na região da Grande Florianópolis. Essa lacuna não tem como justificativa a pouca produção artística, já que a região recebe, a cada ano, um número considerável de novos imigrantes. Dentre esses imigrantes figuram também diversos artistas contemporâneos. Sendo assim, o objeto resultante dessa pesquisa foi, de fato, a criação de um modelo de museu virtual que atendesse a demanda de regiões como a Grande Florianópolis. A região serviu como parâmetro para a criação do protótipo, mas a intenção do projeto foi criar um modelo que servisse como incentivo para organizações governamentais que tivessem o interesse de investir na criação de museus virtuais.
A criação do modelo de Museu Virtual de Arte Contemporânea aplicado à Grande Florianópolis não encerra as discussões acerca de novos ambientes virtuais sobre o mesmo tema. Ao contrário, fornece um parâmetro a mais na abordagem do tema que ainda promete grandes confrontos de idéias.
2. A Arte Contemporânea na Grande Florianópolis
Segundo Bueno e Ramos (2006), o termo ‘Arte Contemporânea’ é atribuído à arte desenvolvida após a Segunda Guerra Mundial, principalmente a partir da década de 1960. Antes deste período, ela ainda estava fortemente ligada ao paradigma da pintura e da escultura, mas a partir de então passou a fazer uso de novos suportes e materiais. Na Grande Florianópolis, a Arte Contemporânea chegou de forma tardia, destacando-se efetivamente a partir da década de 70, quando os artistas da região decidiram romper definitivamente com o isolamento perante o resto do país.
Filho [2001] comenta que, nesta época, jovens artistas catarinenses migraram para centros maiores do país e do exterior em busca de uma formação mais atualizada e consistente. Na metade da década de 1970, eles começaram a retornar para Santa Catarina influenciando a arte de Florianópolis, Joinville, Blumenau e de outras regiões. Esses artistas acabavam imprimindo, ao voltarem, uma dinâmica nova ao ambiente artístico. Essa nova dinâmica dava espaço às instalações1, aos objetos e às performances2, que, segundo Makowiecky (2003), começaram a marcar definitivamente a nova cena. Segundo Filho [2001], foi a ACAP3 que liderou a movimentação cultural que tornou possível os primeiros intercâmbios concretos entre artistas de Santa Catarina. A associação foi também responsável pelos primeiros cursos de Arte Contemporânea, pelo primeiro ciclo de instalações, pelas primeiras performances, pela primeira mostra de obras em grande formato, pelos outdoors, pelas interferências urbanas, etc...
Em meados da década de 1980, a ACAP promoveu um levantamento da produção jovem e chegou a uma coletiva com dezenas de artistas que objetivavam romper com o ‘tradicionalismo asfixiante’ que impossibilitava o aparecimento de novas linguagens. Esse aspecto de atualização na arte de Santa Catarina fez com que muitos artistas catarinenses recebessem seu reconhecimento nos principais centros culturais do país. Já nos anos 90, segundo Kronbauer [2001], ocorreu um “surto” das formas expandidas de representações visuais. Segundo ele, a produção de algumas metáforas visuais se deu em decorrência das tendências renovadoras que emergiram de influências multiculturais.
Andrade (2001, apud Makowiecky, 2003), afirma que um grupo notório de artistas nativos acompanhados de outros que se radicaram no Estado concentrando-se na capital, como paulistas, gaúchos e paranaenses, começou a produzir, então, uma Arte Contemporânea em Santa Catarina.
A abertura da região para a Arte Contemporânea praticada no Brasil e mundo, decorrente do fluxo migratório, fez surgir um novo impasse relacionado à melhor forma de tornar pública a visualização das obras de tais artistas. Os museus tradicionais passaram por uma reflexão quanto à sua capacidade, acesso, adequação e eficiência para essa nova realidade.
3 Museu Virtual de Arte Contemporânea da Grande Florianópolis
A exposição em um museu, especialmente no de Arte Contemporânea, não garante o entendimento pleno das obras. Isso ocorre porque, conforme afirma Canclini (2003, apud FILHO, 2005), apreciar uma obra de arte requer um ‘capital cultural’, ou seja, um prévio conhecimento da história do campo de produção dessa obra, que depende de se pertencer ou não a um dado grupo ou classe social. Em contrapartida, os museus virtuais tornam possível o acesso pleno, uma vez que permitem o entendimento do público sem, necessariamente, um conhecimento a priori no campo das artes plásticas. Esse acesso pleno é garantido graças à variedade de mídias que interagem com o público: vídeos de entrevistas com os artistas, reproduções das obras, opinião dos críticos de arte, textos e sons que narram as poéticas visuais que levaram à realização de performances, instalações, pinturas, fotografias, etc.
A contribuição dos museus virtuais para a cultura está no fato de que o virtual estabelece uma gama de conexões que pode ser delineada pelo usuário, aprofundando o seu conhecimento de acordo com seu próprio grau de interesse, dentro ou fora do ambiente do próprio museu. Além de facilitar o entendimento, o museu virtual também rompe com as barreiras físicas do deslocamento e do tempo.
A percepção da importância de tornar público o desenvolvimento cultural da Grande Florianópolis, especificamente aquele ligado à Arte Contemporânea, motivou a criação da proposta de um modelo de museu virtual, com o objetivo de servir como um mecanismo potencialmente gerador de projetos de realização integral para disponibilização ao público, por meio de ações governamentais.
O modelo resultante foi fruto de pesquisas acerca de sites de museus, que apontaram o museu virtual como uma nova proposta de museu na internet. Diferentemente dos sites de museus tradicionais que tem como objetivo apenas informar a população sobre dados do museu físico, o museu virtual foi caracterizado como um museu interativo por envolver e estimular a navegação do usuário, na maioria das vezes com recursos midiáticos (Piacente 1996, apud Pissetti, 2006). Sites de museus importantes como Louvre4, MUVA5, MAC6 e MNA de Portugal7 se enquadram nessa categoria e, por isso, serviram de base para o desenvolvimento do protótipo.
A primeira iniciativa na direção da proposta de uma modelo, aconteceu em 2002 através de um grupo de pesquisadores liderados pela Professora Vânia Ribas Ulbricht, ligada à Universidade Federal de Santa Catarina, denominado MAPEARTE8. Esse projeto, por razões diversas, não teve uma finalização satisfatória, mas deixou uma valiosa herança de material de pesquisa. Grande parte desse material foi resgatada pelos autores para a composição do novo projeto, principalmente a parte referente à coleta de material histórico e de acervo artístico, competentemente tutelado pela curadoria que havia sido instituída9. O resultado desse projeto foi a proposta de um protótipo de museu virtual com exposições permanentes de obras de 20 artistas, na qual se pode navegar de forma clara e concisa.
O protótipo resultante consiste no desenho tridimensional de uma sala de exposição, visto que ambientes criados no computador ou até mesmo réplicas de museus físicos são bastante comuns em museus virtuais, considerando que quatro dos sites citados apresentaram essa técnica. O desenho da sala criada para o protótipo é um ambiente limpo na qual é possível circular, com painéis explicativos e suportes para as obras. Mas não se trata apenas de uma sala fria com obras sem um sentido óbvio para quem não as conhece, ao invés disso, as obras convidam para o “clique” e daí se abre um leque de possibilidades em que até a vida do artista se torna desmistificada. Nessa proposta, o público tem acesso às informações de seu interesse, disponibilizadas virtualmente, sem que se sinta preso num universo totalmente distinto daquele ao qual está acostumado e com reduzidas possibilidades de dispersão no meio digital, em função da interface que possibilita recordá-lo facilmente do trajeto percorrido. A figura 1 dá uma idéia da tridimensionalidade da interface.

Figura 1 – Tela da página “Artistas” – Museu Virtual de Arte Contemporânea da Grande Florianópolis.
Ao entrar no ambiente do artista selecionado, o público se depara com um conjunto de obras de cada artista, acompanhadas de informações que possibilitam não somente a sua visualização, como também a sua inteira compreensão. Esse aprender decorre das soluções de interface que facilitam o reconhecimento de certas metáforas visuais e, ainda, às conexões que levam o usuário a caminhos diferentes, mais ou menos lógicos entre si. Um exemplo prático pode ser visto na tela Vida e Formação, do artista Paulo Gaiad (Figura 2), onde o usuário se informa sobre as “idas e vindas” do artista até fixar sua residência na Grande Florianópolis. Mas para um internauta que não residente na região, essa pode ser uma informação um tanto vaga em função da falta de informações precisas sobre a cultura e a geografia da Grande Florianópolis. Essas questões, portanto, vão sendo respondidas ao longo do percurso que o usuário fará no ambiente, através dos cliques correspondentes à suas escolhas.

Figura 2 – Tela da página “Vida e Formação” do artista Paulo Gaiad – Museu Virtual de Arte Contemporânea da Grande Florianópolis.
Cada clique pode levar o internauta a páginas distintas do museu, seja na forma de menu ou de hotwords10, garantindo, assim, que ele complete o entendimento que busca sobre uma determinada obra ou sobre o meio de onde ela emergiu. À medida que o usuário vai se aprofundando, preferindo um artista a outro, aprende sobre Arte Contemporânea e conhece os usos e costumes da região. Isso é possível a partir das interações com o ambiente que oferece narrações, vídeos, textos e imagens. Nessas condições fica evidente a distinção entre este e o museu físico. O que antes parecia estranho e abstrato, vai agora ganhando forma devido às informações disponíveis no museu. Não mais se exige um grau mínimo de conhecimento para entender a obra. Ao contrário, tudo está disponível e ao alcance de um simples clique, conforme mostra a figura 3 onde é possível visualizar um vídeo e escutar uma narração sobre a obra do artista.

Figura 3 – Tela da página “Relato de uma viagem não realizada” do artista Paulo Gaiad.
Nesse ambiente é possível navegar de um artista a outro sem voltar uma única página. Por suas características, a navegação torna-se fluida, intuitiva e instigante sem levar o usuário à desorientação. As placas de sinalização, que no museu físico marcam o caminho de volta à entrada também existem no museu virtual pela via da reconstrução do caminho percorrido. A interface típica para um navegador da web, com setas que representam retorno, quadrados que representam pausa, “X” que representa sair, diminui o esforço mental do usuário. Isso possibilita ao público acostumar-se com as metáforas visuais do museu virtual e assim assimilar o que procura como Exposições de um determinado artista, a partir, por exemplo, da visualização do resumo das exposições, mostrado na figura 4.

Figura 4 – Tela da página “Exposições” da artista Fabiana Wielewicki – Museu Virtual de Arte Contemporânea da Grande Florianópolis.
A proposta do modelo de Museu Virtual de Arte Contemporânea para a Grande Florianópolis, assim como todos os similares do mundo, não tem a pretensão de substituir os museus físicos existentes. Ao contrário, passam a constituir uma contribuição para o fortalecimento desses últimos pelo incentivo à participação, no campo das Artes Plásticas que provocam no público alvo, que não estava acostumado a freqüentar instituições culturais. Além do mais, tendo o conhecimento da obra de um determinado artista, o usuário do museu virtual, poderá sentir-se estimulado a continuar freqüentando suas exposições nos museus físicos, já que detém o conhecimento necessário ao entendimento da obra. Esse protótipo de museu, após sua necessária validação, poderá servir de referência à iniciativas nessa direção, desta feita com abrangência plena do acervo disponível na Grande Florianópolis, ou ser adaptado para outra região.
4 Considerações finais
A demanda de artistas contemporâneos vem crescendo anualmente na Grande Florianópolis, entretanto, para grande parte da população, sua obra permanecem abstratas e ininteligíveis. Isso ocorre porque nos museus físicos da região, assim como na maioria dos museus físicos de várias partes do mundo, a obra é exposta ao usuário sem a devida contextualização. Ou seja, o museu permite o acesso público à obra, mas não garante que ela seja compreendida. Em contrapartida, se projetos culturais como a implantação do modelo de Museu Virtual de Arte Contemporânea da Grande Florianópolis pudessem ser realizados, o público teria acesso a textos, vídeos, sons e imagens que tornariam mais fácil o seu entendimento com relação à produção artística contemporânea da região. Além do mais, sua participação seria mais fácil, uma vez que o museu virtual evita o deslocamento e se molda à disponibilidade de tempo do usuário. Os museus virtuais são exemplos de como a tecnologia pode ser útil na inclusão cultural de públicos ativos ou não no panorama artístico contemporâneo.
Tanto para o campo das artes plásticas, como para outras disciplinas museológicas – história, zoologia, arqueologia, etc. – os museus virtuais poderão atuar como agentes que favorecem o conhecimento por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). A convergência de mídias, proporcionada pelos ambientes hipermidiáticos, torna possível a integração dos sentidos pelos quais o indivíduo capta as informações contidas nas imagens, vídeos, áudio e textos. Os museus virtuais, a exemplo do modelo proposto, beneficiam-se dessas tecnologias e conferem ao usuário a imersão que permite tirar o desejado proveito do acervo disponível no cenário virtual.
NOTAS:
1 Manifestações artísticas que reúnem objetos em uma relação sintática definida, que acabam por ilustrar ou materializar uma idéia. Possuem vínculo com o espaço, por isso tornam-se indissolúvel e não comercializável.
2 Segundo Makowiecky (2003), as Performance são ações planejadas ou improvisadas, realizadas na presença do público, cujo propósito é irromper com uma ação artística na banalidade do cotidiano. Na Performance, a personalidade do artista passa a fazer parte da obra de arte.
3 Associação Catarinense dos Artistas Plásticos.
4 www.louvre.fr
5 MUVA – Museo virtual de artes El Pais: http://muva.elpais.com.uy/
6 MAC – Museu de Arte Contemporânea: http://www.mac.usp.br/mac/
7 MNA – Museu Nacional de Arqueologia: http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt/
8 Mapeamento e Organização da Informação da Produção Contemporânea das Artes Visuais em Florianópolis.
9 Os métodos utilizados pela curadoria do Projeto MAPEARTE para a seleção dos artistas estão disponíveis no endereço eletrônico <http://www.extensio.ufsc.br/20041/artigos_pdfs/CCE_Vania_Ulbricht.pdf>.
10 Conexões de uma parte de informação a outra por meio de palavras-chave.
BUENO, Maria L.; RAMOS, José M. º, 2006, “Cultura audiovisual e arte contemporânea”. Recuperado em 25 setembro de 2007, de http://www.scielo.br/pdf/spp/v15n3/a03v15n3.pdf.
FILHO, Durval L. 2005. “O museu no século XXI ou o museu do século XXI?” Recuperado em 28 de outubro de 2006, de http://forumpermanente.incubadora.fapesp.br/portal/.painel/artigos/dlf_museu/
FILHO, J. O. Neves. Florianópolis. [2001?]. “1º mapeamento das artes plásticas em Santa Catarina”. Exposição Itinerante In: MUSEU DE ARTE DE SANTA CATARINA. Geração atual: Santa Catarina: Agnus, p. 25 – 30.
INSTITUTO ANGOLANO DO LIVRO. 1979. Manual de museologia. 133 p.
KRONBAUER, Ruy. [2001?]. “A estética contemporânea e suas aproximações com a arte em Florianópolis e região – anos 90. “In: MUSEU DE ARTE DE SANTA CATARINA. Geração atual: 1º mapeamento das artes plásticas em Santa Catarina. Exposição Itinerante. Santa Catarina: Agnus, p. 32-37.
MAKOWIECKY, Sandra; VIEIRA, Paulo Freire; 2003. Universidade Federal de Santa Catarina. A representação da cidade de Florianópolis na visão dos artistas plásticos. Florianópolis, Volume 2. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas.
