Parabéns, Xenya, por sua comunicação!Você faz atenta para uma questão importante ao enfatizar o título do blog Diários(no plural), apontando para uma outra concepção cultural onde não existiriam duas esferas público/privado.Penso que deve ter mais cuidado com a sua afirmação de que eles cultivam a aparência apenas por ser este o único elemento de autenticidade.Numa cultura milenar, com tanta riqueza cultural em línguas, saberes, práticas rituais de intenso significado simbólico e desenvolvimento técnico, acho que o cultivo da aparência não é um 'culto ao eu', que busca desesperadamente por autenticidade, como quando um homem branco usa um novo corte de cabelo ou um piercing.Prefiro enfatizar que a aparência denota a autonomia de uma cultura, muito mais que a autenticidade individual, ainda mais tratando-se de uma cultura em que a individualidade é vista sob outro enfoque.Proponho algumas reflexões: É possível o desenvolvimento de um Sujeito apartado da técnica? O desenvolvimento técnico não seria característico de todas as formações culturais? O que dizer do elevado grau de desenvolvimento de recursos mnemotécnicos nas sociedades orais? Será que esses autores que você cita, como o Lévy, por exemplo, baseiam-se somente numa nova terminologia para propor uma nova cultura? Não vejo nenhum desacordo entre a sua análise do blog indígena e a dos autores que você propõe um distanciamento. Discordo apenas de sua afirmação quando diz que esses autores privilegiam o desenvolvimento tecnológico em detrimento do Sujeito.Recoloco então a pergunta: é possível pensar o Sujeito apartado da técnica?Apesar de algumas discordâncias teóricas, acho sua comunicação importantíssima, vou analisar um blog indígena em minha dissertação e o seu trabalho foi muito estimulante para mim.O que proponho em minha comunicação como a 'institucionalização de novas práticas culturais com a internet', não aponta porém para um distanciamento cultural, a partir da cibercultura, mas sim para uma confluência de culturas e saberes a partir do desenvolvimento tecnológico.Saudações cordiais, Renata
Enviat el 19/11/2009 - 16:58 (GMT+1)
Assumpte: Re: A presença indígena na virtualidade: um estudo de caso do Blog Diários
Oi Renata, obrigada pelos apontamentos e reflexões e desculpe a demora em respondê-la.
Seu mestrado é em comunicação também?
Bom, respondendo a tuas questões é o seguinte: quando falo da aparência é por entender que no atual contexto de desenvolvimento tecnológico ela liga-se, sim, a questão de autenticidade. Com isto entendo o ambiente do blog como um espaço de construção do eu, um local onde o sujeito e a vida dão-se a ver. Nesse sentido, que tipo de índio eu, na minha posição de pesquisadoram espera encontrar? Estivessem eles, nas fotos, de camiseta, boné ou calça jeans, seriam considerados índios? Em muitos congressos que participo as pessoas logo dizem que não se tratam de índios por estarem utilizando a tecnológia, pois o "verdadeiro" índio vive da natureza, numa relação harmônica, etc..Minha busca tem sido em entender como eles se constroem no espaço do blog e qual a relação do outro para essa construção. Essa relação é conflituosa, ao mesmo tempo que temos marcações de valores oficialidos, socialmente aceitáveis, para a construção desse índio, observamos também transformações intensas e modificações culturais, processos de ressignificação cultural. O antropológo Roberto Cardoso de Oliveira (leitura interssantíssima) tem ensaios muito bons sobre a questão da cultura e da identidade e ele diz que a certa autonomia entre essas duas categorias. Sua reflexão se dá no sentido de entender porque mesmo em processos de aculturação os índios marcam sua identidade étnica. E aí penso que o índio não deixa de ser índio por utilizar a tecnologia, mas no entanto na afirmação desse ser índio a autenticação perpassa o olhar do outro, principalmente no contexto do ciberespaço. Por isso não sei se é prudente falarmos em autonomia, mas sim em diferenciação. (Ufa! Difícil explicar escrevendo)!!
Não penso em sujeitos apartados da tecnologia ao mencionar determinados autores. No meu ponto de vista acho as visões de Lévy insuficientes para dar conta do tema, porque explica o sujeito e as transformações sociais e culturais via o desenvolvimento tecnológico. Outros autores não se baseiam na categoria 'cibercultura' para explicar a experiência nesse mundo virtual. Procuro autores que buscam entender, em contexto específicos, como os sujeitos em interação se apropriam da tecnologia e vão construindo contextos válidos para essa inserção digital. Como vivem, percebam e interpretam as experiências suscitadas pela mediação tecnológica. Com isso no blog procuro entender como emergem esses "eventos" interativos, determinadas regras socias, ações, etc... Creio que, a partir disso, podemos questionar a ideia do novo tão presente nessa temática.
Mais uma vez obrigada e espero ter contribuído para teus questionamentos.
Enviat el 25/11/2009 - 20:01 (GMT+1)
Assumpte: Re: A presença indígena na virtualidade: um estudo de caso do Blog Diários
Meu mestrado é em Memória Social. Na nossa linha de pesquisa ?Memória e Patrimônio?, temos o prof. José Robamar Bessa Freire que é uma referência em estudos de cultura indígena, acho que valeria a pena você procura-lo! Temos também a prof Vera Dodebei que desenvolve pesquisa no campo do patrimônio digital. Espero que aproveite essas referências, aproveito para agradecer sua indicação do Roberto Cardoso de Oliveira, vou procurar.Eu não acho que o Lévy tenta explicar o sujeito a partir da tecnologia, como vc afirma. Na obra Cibercultura, ele afirma que uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas e não determinada, ele segue explicando que o estribo condicionou a cavalaria e o feudalismo, permitindo que o cavaleiro ficasse em pé em seu cavalo com armaduras. Desta forma, não me parece que ele está enfatizando a ?novidade?.Tenho visto, ultimamente, a proliferação de textos que enfatizam o grau de ?novidade? das ?novas tecnologias? e como elas propiciam o surgimento de uma ?nova subjetividade?, tal ênfase na ?novidade? faz com que alguns autores considerem um ?fosso? entre as Nitcs e o desenvolvimento sócio-cultural. Devo ressaltar, porém, que não usei o termo ?processos de aculturação?, até porque penso que aculturação se dá quando afirma-se a presença idílica do índio na mata virgem. No texto cinco idéias equivocadas sobre o s índios, Bessa afirma que quando os índios tomam uma instituição emprestada eles a ressignificam e criam novas formas de usa-la, neste texto ele também afirma que o computador e o celular são usados como armas defensivas para preservar elementos de sua cultura. O índio Airton Krenak diz que ?Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica,da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina.Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exata dimensão que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar,fazer um balaio, um arco, uma flecha ou uma canoa.Quando aceitei aprender a ler e escrever, encarei a alfabetização como quem compra umpeixe que tem espinha. Tirei as espinhas e escolhi o que eu queria.? (p. 15 ,Te Mandei um passarinho...Prosas e versos de índios do Brasil. Cadernos de literatura MEC, 2007) Quando falamos de autonomia, autenticidade ou diferenciação, devemos remarcar, porém, as diferenças existentes entre as Culturas de Tradição Oral e a Cultura Letrada no que concerne a definição de ?Indivíduo?.Falo em autonomia para um sujeito índio que tem consciência da importância do coletivo em sua formação individual, como sujeito autônomo.Penso que é preciso que você tenha um cuidado e acho que você vai ter, ao afirmar a ?diferenciação?, para não incorrer no erro de olhar a cultura indígena como algo distante, já que sua herança cultural está dentro de cada um de nós, e toda formação cultural é um corpo vivo e em movimento, que se adapta e cria novos mecanismos de ação o tempo todo.Obrigada por suas observações, foram importantes para mim, espero ter contribuído para seu trabalho. Saudações cordiais, Renata Daflon
Enviat el 27/11/2009 - 20:54 (GMT+1)
Assumpte: Ré: A presença indígena na virtualidade: um estudo de caso do Blog Diários
ola xenia, muito interessante tuas reflexoes. Apenas quero deixar meu registro de congratulações pela reflexoes que tu fazes. Levaram-me a refletir sobre outras localidades e tribos q temos em nosso rico país e nas suas movimentações no universo denominado cibersociedade. acompanho um pouca da luta pela terra, nas reinvidicações e nos encontros que acontecem pelas "aty guaçu" dos indigenas nas terras sul-matogrossenses (grandes assembleias). Vejo essa inserção como tentativas para a proteção de uma identidade muitas vezes desfacelada. A tua abordagem merece ser debatida e compreendida. abs
Enviat el 29/11/2009 - 22:17 (GMT+1)
Assumpte: Re: A presença indígena na virtualidade: um estudo de caso do Blog Diários
Renata e Cecília, obrigada pelos comentários. Anotei as dicas e sugestões, afinal sempre é bom entrar em contato com outros autores e pontos de vista! Abraços, Xenya.
Assumpte: A presença indígena na virtualidade: um estudo de caso do Blog Diários
IV Congreso de la CiberSociedad
España
Enviat el 12/11/2009 - 00:00 (GMT+1)