O presente artigo explicita as configurações da aprendizagem em ambientes baseados em novas tecnologias produtivas. O objetivo é demonstrar a importancia da aprendizagem diante das brechas tescnológicas que se interpõem na cidadania digital.
Aprendizagem, cidadania e mudança no contexto organizacional
A tríade relação entre comunicação, cultura e tecnologia é enfatizada diante das brechas tecnológicas e da ausência de processos graduais de assimilação e aprendizagem. A pouca preocupação direcionada para o aproveitamento dos trabalhadores digitalmente excluídos é uma das barreiras que se interpõem entre os objetivos da efetiva cidadania digital no contexto organizacional.
Como podemos superar esses entraves? Myers (2006) ressalta que a experiência ajuda a desenvolver as conexões neurais e o aprendizado anterior prepara nosso cérebro para o pensamento, para a linguagem e para as experiências posteriores. Essa idéia tem consonância com os pressupostos de Vygotsky (2001) sobre o desenvolvimento exterior ao individuo e o papel da cultura. Para Vygotsky (2001) a experiência coletiva utiliza não só as reações condicionadas, formadas na experiência individual, mas também nos vínculos condicionados que se estabeleceram na experiência social. Nesse aspecto, as informações que recebemos do ambiente – organizacional - são processadas pelas estruturas cerebrais que, por sua vez, geram concepções que “respondem” perguntas como: Devo colaborar? Posso acreditar naquilo que me dizem? Se supusermos que essas respostas sejam negativas e que, mesmo assim, o individuo tenha que produzir determinado artefato ou executar um serviço, sua ação deverá suportar a tensão da auto-resposta negativa, porém ele deve continuar a desenvolver suas atividades. Porém, isso tem um custo humano e corporativo desfavorável, visto que o ambiente apresenta-se como um fator de estresse apesar das tentativas individuais para corresponder às exigências da empresa.
Na prática, quando o indivíduo não é capaz de corresponder às expectativas de um ambiente que introduz tecnologias de ponta, ele começa a sua exclusão digital, ou seja, quanto maior é o distanciamento entre uma tecnologia utilizada e outra a ser inserida, mais rapidamente perderá sua cidadania. Tudo o que está distante cognitivamente pode representar um ameaça. Nesse caso, não é tecnologia que excluiu o individuo, mas a brecha fomentada pela organização.
Há dois aspectos importantes, o primeiro é a concepção da mudança como um elemento alheio. O indivíduo pode rejeitar aquilo que ele é incapaz de entender e, na concepção ultracapitalista, a exclusão é gerada pelo próprio individuo que não buscou a atualização. O segundo é que, mesmo nas empresas onde a transição é contínua, o ritmo acelerado pode ser diferente do ritmo de aprendizagem e assimilação. Assim, ambos são responsáveis pelo surgimento de brechas. Logo, a ausência de cidadania ecoa as falhas diretivas de uma organização.
No primeiro aspecto, os hábitos gerados pela estagnação e a exigência de mudanças não convergem em aprendizado. “O perigo consiste apenas em que o hábito sempre significa um modo mecânico de comportamento, e por isso pode ser útil apenas onde estamos diante de uma uniformidade de condições" (Vygotsky, 2001, p. 375). Uma resposta típica do mercado é dizer que o “perfil” modificou-se e que muita pessoas não são capazes de trabalhar nos novos ambientes baseados em tecnologias de ponta. Em contrapartida surgem as reações psicológicas e fisiológicas (cefaléias, problemas de pele, insônia, distúrbios gástricos, conflitos intergrupais, entre outras) como conseqüência à imposição para a realização de ações intrinsecamente não concebidas. Esse aspecto é utilizado pelo mercado como uma maneira de justificar a exclusão. Em todas as mudanças organizacionais que geram a pressão para acertar sempre,a primeira atitude é gerar a exclusão daqueles que menos correspondem aos sistemas de tarefas modernas.
Para Mattelart (2005) o corpo é comunicação, e quando comunicamos com outros indivíduos, esse processo somente é íntegro se ocorrer uma conexão e o reconhecimento da informação. Sem isso, tudo se torna um controle skinneriano. Assim, toda brecha de conhecimento inviabiliza a continuidade do ciclo efetivamente de comunicação e assimilação. Em síntese, as brechas podem ocasionar a inadequação de uma organização ou de uma nação diante de outras (BAPTISTA, 2007). Diante de um cenário competitivo que revela, como segundo aspecto, um ambiente de pressão intensa, isso tem um alto custo, além de poder indicar a acentuada exclusão de pessoas, empresas e nações.
Córtex: memória, cognição e transição
As brechas cognitivas também estimulam as resistências e a incapacidade associada à pressão organizacional. Os ambientes isentos de cidadania digital não reconhecem a absorção gradativa e tendem em preservar os elementos da memória e o status quo cognitivo, levando o indivíduo a rejeitar ou não ser capaz de assimilar novas tecnologias. A cidadania digital, portanto, assume o conceito de competitividade, muito alem de mera benevolência ou valoração social.
As partes do cérebro responsáveis pela assimilação de um aprendizado, reforçam a tese de que as efetivas mudanças corporativas dependem de graduais sistemas de absorção. Sem isso, persistiriam os ambientes autoritários e mecanicistas que valorizariam mais os equipamentos autômatos do que as pessoas. Ressaltamos, porém, que o autômato não é capaz de atuar na diversidade, nem responder a complexidade. Veja-se o caso da resposta estereotipada. Segundo Vygotsky (2001, p. 375),
A ação por efeito da memória, pode pertencer ao número de estímulos que são mais ou menos permanentes e agem de modo estereotipado, exigindo a mesma resposta padrão [...]. Se, contudo, a “réplica pertence às circunstâncias novas, inesperadas e inusuais, se ela ainda por cima encerra algum obstáculo para o desenrolar normal das reações estereotipadas, a ação costumeira é a pior resposta a ela, além de servir apenas como entrave ao pensamento. (Vygotsky, 2001, p. 375),
As estruturas cerebrais atuam como mediadores entre as representações perceptuais dos estímulos sensoriais e a recuperação do conhecimento que o estímulo pode ativar (NICOLAU, 2007). Também, intimamente inter-relacionado a estas estruturas, está o córtex cerebral. Para Poersch, “nos pontos onde um axônio encontra um dendrito há um espaço onde se processam reações químicas: as sinapses”. Essas reações são responsáveis pelo aprendizado. Aprender significa alterar a força das sinapses” (apud Young; Concar, 1992). Nesse aspecto, conforme Catania (1999, p. 361), “supõe-se que o desenvolvimento cognitivo seja o enriquecimento gradual das representações do mundo; essas representações então tornam-se a base para o comportamento”. Nessa direção de raciocínio, pensar uma nova sociedade baseada em novas tecnologia significa repensar o ser humano.
Considerações finais
Como levar em conta as variáveis de um ambiente que apresenta uma extensa brecha de conhecimento, resistência cognitivas e conseqüentemente que não estimula cidadania digital? A resposta está direcionada ao pressuposto de que, se toda organização é composta por pessoas, logo, deixá-las de lado poderá comprometer a continuidade da própria organização. Quando as brechas são extensas, as condutas corporativas de superação tornam-se ineficazes. Contudo, a mudança de um organismo não é instantânea e não existem assimilações efetivas diante das grandes brechas. Se os indivíduos perdem sua cidadania, não há dúvidas que, tanto a organização, como a sociedade, também sofrerão perdas. Logo, podemos afirmar que as organizações se tornam frágeis quando impõem mudanças sem garantir a assimilação cognitiva.
Quando as suposições fordistas predominavam, a melhor idéia de empresa era aquela fechada em si, mas quando o entorno foi redesenhado pelas tecnologias de ponta, as conexões começaram a falhar. A memória de resposta e os hábitos não atendem mais as demandas, com o passar do tempo, nem mesmo as conexões internas são possíveis e, nessas condições, as brechas são mais evidentes. Não se pode gerar cidadania digital sem repensar os sistemas de trabalho contemporâneo, sem perceber a nítida mudança. Não é possível fomentar novos ambientes baseados em tecnologias utilizando os mesmos pressupostos mecanicistas e excludentes. Essa é a complexidade do trabalho para este século, afinal, o caminho iniciado com a Revolução Industrial ainda caracteriza as facetas de inúmeras corporações contemporâneas.
O indivíduo não deve ser concebido como uma mera redução ao estímulo-resposta, é um contra-senso pensar a mudança sem pensar a cidadania digital.
