Tendo em vista o conceito de cidadania, este trabalho analisou a cobertura feita pelos telejornais Jornal Nacional, da Rede Globo; e Jornal da Cultura, da TV Cultura, ao divulgar os dados da PNAD 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e veiculados no dia 14 de setembro de 2007 por ambas emissoras. Expressões, termos, ironias e metáforas foram destacados e analisados para a verificação dos enquadramentos noticiosos (news frames) utilizados por ambos os telejornais. O estudo analisou sete itens de observação sobre o modo que ambos os telejornais enquadraram a PNAD: Rendimento Mensal; Emprego e Desemprego; Faixas Etárias; Educação e Analfabetismo; Residências com Computador; Água e Esgoto; e, Cor ou Raça.
A Cidadania e a TV
Os meios de comunicação de massa podem exercer uma grande influência na propagação da cidadania. Entre os diferentes meios, julgamos a televisão como aquele que tem a maior probabilidade de inserção social, tendo em vista sua gratuidade, alcance e possibilidades de reunir os registros verbal, visual e sonoro em uma única mídia. A partir dos anos 50 do século XX, é possível observar um grande aumento do número de aparelhos televisores. Atualmente, em casas populares encontra-se pelo menos um destes aparelhos.
Com o avanço tecnológico, a televisão se tornou um expressivo veículo de comunicação e com grande abrangência. Considerando a relevância da televisão, pode-se assegurar que, no campo jornalístico, o telejornal é o principal meio de comunicação que a grande maioria utiliza para se informar. Assim, ele tem extrema importância na difusão das notícias, dos fatos e dos acontecimentos.
Como em qualquer outro meio jornalístico, também é possível observar no telejornalismo a angulação e o enquadramento (framing) de matérias feitas pelos jornalistas. Entman (1993) explica que os meios de comunicação sempre farão um enquadramento de um fato ao organizar as idéias, por exemplo, em uma matéria jornalística:
As maiorias dos enquadramentos são definidos por aquilo que eles omitem da mesma forma que incluem, e as omissões de definições de problemas potenciais, explicações, avaliações e recomendações podem ser tão críticas quanto as inclusões para conduzir as audiências (Entman, 1993, p.54, tradução nossa)1
O conceito de framing foi definido e desenvolvido por pesquisadores norte-americanos. O criador da abordagem de enquadramento é o sociólogo norte-americano Erving Goffman. Apesar de o próprio Goffman afirmar que o conceito tem sua origem em outros autores da tradição fenomenológica, foi ele quem desenvolveu a primeira articulação teórica mais sistemática, aplicando-o à análise das interações sociais (Porto, 2002). Em sua obra Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience, o sociólogo expõe sua percepção:
Eu assumo que definições de uma situação são construídas de acordo com os princípios de organização que governam os eventos […] e o nosso envolvimento subjetivo neles; enquadrar é a palavra que eu uso para referir a esses elementos básicos como eu sou capaz de identificar (Goffman, 1974, p. 10, tradução nossa).2
Ao interpretar tal posicionamento, Porto (2002) afirma que “tendemos a perceber os eventos e situações de acordo com enquadramentos que nos permitem responder à pergunta: ‘O que está ocorrendo aqui?’”. A partir da construção dessa abordagem, na década de 1970, feita por Goffman, outros estudos buscaram aplicar e desenvolver o conceito de enquadramento, principalmente enfatizando o uso de enquadramentos pela mídia. Em seu estudo clássico sobre a cobertura dada aos ativistas e aos movimentos de paz durante a guerra do Vietnã pela mídia americana, Todd Gitlin (1980) apresenta uma síntese do conceito de enquadramento:
Enquadramentos são princípios de seleção, ênfase e apresentação compostos de pequenas teorias tácitas sobre o que existe, o que acontece e o que é importante. [...] [Enquadramentos mídiáticos são] padrões persistentes de cognição, interpretação e apresentação, de seleção, ênfase e exclusão, através dos quais os detentores de símbolos organizam de forma rotineira o discurso, seja verbal ou visual. (Gitlin, 1980, p. 6-7, tradução nossa) 3
Nesse momento, o enquadramento passa a ser visto como uma construção tácita que organiza o discurso. Mesmo que as intenções do emissor sejam inconscientes (Scheufele, 1999). O pesquisador Robert Entman foi o responsável pela integração do conceito de enquadramento com o do processo comunicativo midiático em sua famosa definição de framing:
Enquadrar é selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e faze-los mais salientes em um texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular do problema, uma interpretação casual, uma avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito. (Entman, 1993, p. 52, grifos no original, tradução nossa)4
Essas explicações são necessárias para elucidar de modo sucinto que o enquadramento é uma abordagem teórica recente que trata principalmente com o jornalismo e que é possível observar que os enquadramentos noticiosos estão presentes em todos os tipos de plataforma jornalística, como o telejornal.
Este artigo é o resultado de uma pesquisa que investigou de que forma ocorrem esses enquadramentos no Jornal Nacional (JN) e no Jornal da Cultura (JC). A mostra selecionada foi a veiculação dos dados da Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD) em setembro de 2007. As matérias foram analisadas à luz do conceito de enquadramento noticioso, observando como elas eventualmente contrastam ou se assemelham entre si. Foi levado em conta o tempo ocupado por cada matéria em cada telejornal e sete itens de observação identificados na matéria.
PNAD - PESQUISA NACIONAL DE AMOSTRAS POR DOMICÍLIO
A PNAD é um sistema de pesquisas por amostra probabilística de domicílios, de abrangência nacional, para investigar diversas características socioeconômicas da sociedade. Ele tem um objetivo duplo: suprir a falta de informações sobre a população brasileira durante o período intercensitário; e, estudar os temas insuficientemente investigados ou não contemplados nos censos demográficos realizados a cada 10 anos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A PNAD analisa dados como: população, educação, trabalho, rendimento, habitação, previdência social, migração, entre outros temas que são incluídos na pesquisa de acordo com as necessidades de informação para o país. A implantação da PNAD ocorreu em 1967 no Brasil e simultaneamente em diversos países da América Latina, que, na época, contou com o apoio e o subsídio da Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e do Instituto Interamericano de Estatística (IASI).
Gradativamente, a pesquisa foi aumentando em abrangência geográfica nacional. Até 1970, quando foi interrompido para a realização do Censo Demográfico, o levantamento era trimestral. A partir de então a PNAD se tornou anual, tendo o mês de Setembro de cada ano como referência. Em 1981, a pesquisa já cobria todo o país, exceto a área rural da “antiga” Região Norte, que representava menos de 3% da população brasileira. Estas só seriam incluídas na área pesquisada da PNAP em 2004. A PNAD só não foi realizada nos anos em que o IBGE realizou o Censo Demográfico (1970, 1980, 1991 e 2000) e excepcionalmente em 73 e 74, quando foi feito o Estudo Nacional da Despesa Familiar - Endef. A divulgação dos resultados brutos da PNAD pode ser encontrada no site do IBGE, bem como em CD-ROMs.
A PNAD é dividida em três partes: Pesquisa Básica, Pesquisa Suplementar e Pesquisa Especial. A Pesquisa Básica é dedicada à investigação contínua da situação sócio-econômica do Brasil, composta pelos temas: características gerais da população, migração, educação, trabalho, famílias, domicílios e rendimentos. Já a Pesquisa Suplementar se volta para o aprofundamento de temas relevantes no ano da pesquisa, como telefonia móvel, acesso à internet e programas de transferência de renda. Por último, a Pesquisa Especial é realizada, em alguns anos, para pesquisar temas socialmente relevantes, cujos resultados não podem ser obtidos através da mesma base pesquisada na parte básica. Por este motivo, esta parte é chamada de especial e ela não é necessariamente realizada todo ano.
O levantamento é feito por meio de uma amostra de domicílios, estruturada por processos estatísticos matemáticos de forma a garantir a representatividade dos resultados para os níveis geográficos em que a pesquisa é produzida. Assim, uma parte dos domicílios é selecionada de forma que as informações obtidas junto aos moradores possam ser elaboradas para produzir resultados válidos para o conjunto do qual a amostra foi retirada. A amostra da PNAD é selecionada em três estágios sucessivos: os municípios (são separados entre aqueles que necessariamente participarão da amostra, e aqueles que passaram pelo processo de seleção); subdivisões de distritos e municípios; e, unidades domiciliares e unidades de habitação coletivas.
São aproximadamente dois mil pesquisadores que, durante três meses, entrevistam cerca de 470 mil pessoas, percorrendo um total de 140 mil domicílios em todo o território nacional. As entrevistas levam, em média, de 20 a 45 minutos. Até 2006, a coleta de dados era feita com um formulário de papel comum. A partir de 2007, serão utilizados computadores de mão (PDA’s) e, espera-se que o tempo de espera entre a coleta de dados e a divulgação dos resultados da pesquisa seja reduzido. O IBGE gasta nove meses para tratar dados, gerar os resultados da pesquisa e realizar as devidas análises e comparações. Somente em setembro do ano seguinte à coleta, a PNAD é divulgada - os resultados do ano vigente serão sempre relativos ao ano anterior. A PNAD 2006 completa 40 anos desde o primeiro levantamento deste tipo realizado no Brasil.
Como toda pesquisa estatística, os resultados da PNAD são estimativos, pois para que fossem absolutos seria necessário pesquisar toda a população. Mas o resultado estimado não significa que as informações não são confiáveis, ou que o relatório não representa efetivamente a realidade nossa sociedade. Pelo contrário, a margem de erro da pesquisa é de 3 a 5%.
As principais vantagens de se realizar uma pesquisa por amostra em lugar de um levantamento completo são: reduzir os custos; acelerar o processo de apuração e, conseqüentemente, divulgar os resultados com maior rapidez; aprimorar a qualidade dos resultados em função de uma preparação mais intensa do pessoal envolvido no levantamento e de um acompanhamento mais aprofundado das operações de campo; e pesquisar com maior profundidade os temas contemplados.
A COBERTURA PELOS TELEJORNAIS
Os dois telejornais foram gravados no dia 14 de setembro de 2007, quando foi veiculado o resultado dos dados da PNAD 2006. É necessário ressaltar que há uma grande diferença entre os perfis do Jornal Nacional (JN), da Rede Globo, e do Jornal da Cultura (JC), da TV Cultura. Apesar de o JN e o JC serem veiculados no horário nobre da TV brasileira, respectivamente 20h15 e 22h, um pertence a uma empresa privada e é o líder de audiência desde 1969, ano de sua estréia; e o outro, pertence a uma emissora educativa e defende o jornalismo público.
Quanto ao tempo dedicado por cada telejornal, o JN utilizou 3’35’’, enquanto que o JC, apenas, 35’’. Ou seja, o JN veiculou um espaço 6 vezes maior que o exibido pelo JC. A enorme diferença de minutagem se deveu ao fato de que o JC não realizou uma reportagem, mas optou por apenas apresentar os dados em uma tela “chapada” (videografismo). O JN, por sua vez, aproveitou-se das afiliadas da Rede Globo espalhadas pelo território brasileiro e deu ênfase em personagens e histórias de vida para dramatizar os dados da PNAD 2006.
As matérias foram transcritas e, após uma análise preliminar, foram criados sete itens de observação para ressaltar os enquadramentos de ambos os telejornais: Rendimento Mensal; Emprego e Desemprego; Faixas Etárias; Educação e Analfabetismo; Residências com Computador; Água e Esgoto; e, Cor ou Raça. Dentro de cada item de observação os enquadramentos foram considerados segundo a utilização na matéria de substantivos, metáforas, ironias, expressões, adjetivos e generalizações relativos ao item observado.
Com os dados tabulados, a pesquisa passou para uma fase descritiva, constituindo-se pelas categorizações e identificações dos enquadramentos utilizados pelos telejornais; e pela comparação do JN com o JC. Isso porque, segundo Entman (1991),:
A menos que as narrativas sejam comparadas, os enquadramentos serão difíceis de serem completamente detectados e com segurança porque muitos dos elementos dos enquadramentos podem aparecer como ‘naturais’, escolhas de palavras ou imagens não-extraordinárias. A comparação revela que tais escolhas não são inevitáveis ou não-problemáticas, mas são o centro da maneira que os enquadramentos noticiosos ajudam a estabelecer a literatura de ‘senso comum’ na interpretação dos assuntos. (Entman, 1991, p. 6, tradução nossa)5
Terminada a etapa da descrição, foi realizada uma análise interpretativa que visa à explicação do fenômeno mediante operações lógicas de síntese e de ampliação. Ampliando para um nível superior de abstração e de generalização, foi possível chegar a um balanço dos resultados alcançados, com a exposição dos objetivos conseguidos e das possíveis contribuições para o avanço do conhecimento sobre o tema.
Ambos os telejornais apresentaram os dados referentes ao Rendimento Mensal do brasileiro e reduziram o conceito ao termo “renda”, indicando uma maior proximidade com o telespectador ao utilizar palavras corriqueiras. O JC mostra que a renda média do trabalhador aumentou e “se aproxima dos 900 reais”. Já o JN, além de trazer os dados de aumento de renda e compará-los como o maior crescimento desde 1995, expôs uma provocação ao dizer que, mesmo com esse aumento, “no Brasil dos contrastes, a desigualdade social diminuiu muito pouco”. Contudo, após essa afirmação negativista, o JN reforçou a idéia de progresso utilizando uma imagem de um pai de família dizendo que hoje ele tem oportunidades de gastos com escola e plano de saúde, “coisas que antes não tinha”.
Quanto à categoria do Emprego, ambos os telejornais apresentaram o aumento em carteiras de trabalho assinadas. Porém, em contraste com este dado, o JN mostrou que “quem ainda sonha em chegar ao mercado de trabalho tem que enfrentar esta espera. Mas de acordo com a pesquisa a fila do desemprego diminuiu no ano passado. O índice foi o mais baixo desde 97”. Ou seja, o JN mostrou que ainda há uma grande procura de trabalho, apesar do aumento em carteiras assinadas e da diminuição da taxa de desemprego no ano passado. Eles estão implicitamente lidando com uma outra questão intrínseca ao trabalho que é a informalidade, atingindo metade dos trabalhadores brasileiros.
Outro ponto ressaltado pelos telejornais foi referente à ocupação de espaço no mercado de trabalho. O JC mostrou a presença maior da mulher no mercado de trabalho, principalmente em regiões sulistas. Já o JN optou por ressaltar as idades. Por um lado, o telejornal global mostra que “quatro em cada dez trabalhadores têm mais de 40 anos”. Por outro, que “a taxa de desemprego da população de 18 a 24 anos de idade é mais do que o dobro da média nacional”. O presidente do IBGE, órgão que realizou a pesquisa, comentou esse dado e reforçou que há uma população jovem entrando no mercado de trabalho e que esta precisa de uma oportunidade, principalmente em seu primeiro emprego. Isto pode ser um indicador de uma segregação etária no mercado de trabalho. Para completar o mapeamento, o JN também apresentou os dados de diminuição do trabalho infantil.
Com base nas diferentes Faixas Etárias presentes no item de observação de empregos, é preciso tornar claro como se deu esta construção de idades nos telejornais. O JC apresentou os seguintes trechos: “jovens brasileiros deixaram de ser maioria na população” e “os jovens com até 25 anos deixaram de ser maioria da população e perderam espaço de trabalho nos últimos dez anos”. Ou seja, o JC enfatizou, portanto, apenas a redução demográfica da população jovem e não a comparou com outras faixas etárias e não buscou nenhum tipo de conflito. Já o JN teve uma abordagem completamente diferente. O telejornal global mostrou, inicialmente, a inserção daqueles que possuem idade avançada no mercado de trabalho, exemplificado no trecho: “Seu José sempre teve todos os direitos garantidos. Ele faz parte de um grupo que vem crescendo no mercado. Quatro em cada dez trabalhadores têm mais de 40 anos. O farmacêutico já se aposentou. E, com 72 anos, nem pensa em parar”. O JN cria um conflito ao mostrar, logo em seguida, o trecho: “para os mais jovens a situação é mais difícil. A taxa de desemprego da população de 18 a 24 anos de idade é mais do que o dobro da média nacional”.
Após afirmar a dificuldade do primeiro emprego para os mais jovens, o JN também incluiu em sua reportagem uma representação de um garoto de oito anos que vendia coco nas ruas de Fortaleza, mas que atualmente está na escola. Quanto ao Analfabetismo, tanto o JC como o JN enquadraram de forma semelhante, ou seja, indicou que existem menos analfabetos no Brasil, porém o número total “ainda” é de cerca de 15 milhões de brasileiros. O termo utilizado indica que este quadro já deveria ter mudado para melhor na visão das emissoras. O JN, apesar de ressaltar o elevado número de analfabetos no Brasil, mostra também que “o número de crianças e adolescentes na escola aumentou” e “nas universidades, o salto foi maior”. Diferentemente do JN que trouxe dados de Educação, o JC não mostrou a situação atual dos estudantes do país.
O JC e o JN deram destaque para as Residências com Computador que praticamente dobraram nos últimos cinco anos. Porém, tiveram algumas diferenças em seus enquadramentos. Enquanto o JC ressaltou a porcentagem de famílias brasileiras com computador (22%), o JN enfatizou que “o acesso a computadores cresceu em alta velocidade no país” e mostrou o exemplo de Alison que “está em dia com a tecnologia” e “tem TV, DVD, celular, Internet”. Apenas o JN deu destaque para este item e utilizou-se do exemplo citado acima para criar um enquadramento de provocação. Por que, na casa de Alison, apesar de toda tecnologia que ele possui, não há infra-estrutura de abastecimento de água ou de esgotamento sanitário. E o JN sintetiza esta idéia no trecho: “A Internet chegou à casa de Alison, mas o esgoto e a água encanada ainda passam longe. Serviços essenciais se expandiram em um ritmo bem menos acelerado”.
A PNAD considerou cinco tipos de cor ou raça: branca, negra, amarela, parda (mulata, cabocla, cafuza, mameluca ou mestiça) e indígena. Apenas JN tratou a questão: “em 2006, o número de pessoas que se declararam pretas, segundo a classificação do IBGE, teve ligeiro aumento. E os pardos, uma pequena redução”. O ponto principal aqui é o fato de ser difícil a categorização de coloração de pele das pessoas em um país miscigenado, como o Brasil.
A ANÁLISE
Após a análise descritiva é possível chegar a alguns pontos chaves. Porém, antes de qualquer coisa faz-se necessário esclarecer que a PNAD é um levantamento de dados brutos. Ou seja, é um mapeamento da situação socioeconômica e demográfica brasileira apresentada em gráficos e tabelas. Os especialistas do IBGE fazem alguns comentários e cruzamento de dados para facilitar o entendimento dos leitores.
A mídia tem acesso à divulgação desses dados e comentários. Sendo assim, ela recebe uma grande quantidade de informações na redação. Cada veículo escolhe os assuntos e os temas da PNAD para compor uma matéria. Pode-se afirmar, sem dúvidas, que toda Imprensa de abrangência nacional fez ao menos uma matéria sobre a PNAD. Contudo, como a quantidade de dados é extensa e o tempo de redação das matérias é limitado, alguns veículos se apóiam nos comentários feitos pelos especialistas do IBGE e divulgam, principalmente, as dicotomias apresentadas nas pesquisas e assuntos que vão de encontro com o perfil editorial do veículo de comunicação.
Quanto aos veículos analisados, Rede Globo e TV Cultura, é preciso elucidar suas características. A Rede Globo é uma empresa de caráter comercial e possui um grande interesse por audiência que sustentam seu sistema de afiliações, já a TV Cultura, por outro lado, tem um caráter público e tem um tipo de acordo não-comercial com as outras emissoras educativas. Sendo assim, é fácil de supor que cada um dos seus telejornais veiculados no horário nobre, Jornal Nacional e Jornal da Cultura, teriam enquadramentos distintos. E, como foi visto na análise descritiva, houve essas diferenças, só que elas não se contrastaram de modo a serem antagônicas, mas sim se observa diferente enquadramento para um mesmo item de observação.
Cinco temas analisados apareceram em ambos os telejornais: Rendimento Mensal, Emprego e Desemprego, Faixas Etárias, Educação e Analfabetismo e Residências com Computador. Dois deles esteve presente apenas no JN: Água e Esgoto e Cor ou Raça. Essa diferença ocorreu, principalmente, por conta do tempo ocupado por cada telejornal. Enquanto o JN utilizou três minutos e trinta e cinco segundos, o JC apenas trinta e cinco segundos.
As abordagens, no entanto, foram muito semelhantes. Quanto ao Rendimento Mensal, ambos os telejornais enquadraram de modo positivo o aumento para quase 900 reais a renda mensal do brasileiro. Porém, antes de começar os dados positivos de renda, o JN fez uma crítica afirmando que “no Brasil dos contrastes a desigualdade diminuiu muito pouco”. Contudo, o JN, logo em seguida, apontou uma série de pontos positivos e ressaltou que este aumento de renda foi o maior crescimento desde 1995. Para ilustrar tal posicionamento positivista trouxe às telas Jucelino que disse: “Hoje posso pagar uma escola para os meus filhos. Posso dar um plano de saúde para os meus filhos. Coisas que antes eu não tinha”.
Quanto ao “Emprego e Desemprego”, ambos trouxeram um dado positivista referindo-se ao aumento das carteiras de trabalho assinadas. Mas, nada foi dito que esta pode ser uma situação de regularização dos trabalhadores que já estavam empregados e que trabalhavam na informalidade. O JN quase tratou esta questão, mas se restringiu em apresentar que 50% dos trabalhadores estão na informalidade. O JN, contudo, mostrou que a fila do desemprego diminuiu e que foi o índice mais baixo desde 1997. Ou seja, apesar de quase criticar, não deixa de ressaltar o “progresso” ou “avanço” do país.
Porém, ao relacionar quem ocupa este mercado há uma grande diferença. O JN fez uma diferença etária, como já foi elucidado, e o JC preferiu diferenciar a mulher que trabalha. A diferença de abordagem da mulher foi referente ao mercado de trabalho e ao estudo. O JC mostrou que elas tiveram um aumento no mercado de trabalho (42,6%), enquanto que o JN mostrou que as mulheres estudam mais que os homens. O JN mostrou o exemplo de Lais que acabou de entrar na faculdade e essa atitude é “só o começo” para ela.
Quanto às Faixas Etárias, os telejornais optaram por ressaltar as diferenças de idade, dividindo em grandes grupos. Por exemplo, o JN trouxe crianças e adolescentes, jovens e os de idade avançada. Já o JC focou apenas os jovens e nada foi falado sobre as outras faixas etárias, com exclusividade. O JC mostra apenas até quantos anos o IBGE considera como jovens, ou seja, 25 anos. Na cobertura do JN essa divisão fica ainda clara mais clara ao explicar que a idade é entre 18 a 24 anos. Os termos utilizados pelo JC para enquadrar os jovens foram “deixaram” e “perderam”. Isso remete a uma derrota em espaço ocupado na faixa etária da população, bem como no mercado de trabalho, sendo assim, a essas características seria atribuído algo negativo.
Um enquadramento semelhante esteve presente no JN quando traz a oração “para os mais jovens a situação é mais difícil”. Porém, ao afirmar isto, há uma importante diferença: o JN coloca em disputa os jovens contra os mais velhos. Isso se reflete por conta que houve uma maior inserção de pessoas de idade avançada no mercado de trabalho, o que seria positivo. Contudo, elas podem estar ocupando o lugar dos mais novos, o que seria negativo, já que eles precisam “de uma oportunidade, principalmente no seu primeiro emprego”.
Na matéria do JN fica evidente essa construção de embate na concorrência do mercado de trabalho, principalmente em dois momentos. O primeiro mostra o aposentado José, de 72 anos, que não pensa em parar de trabalhar e sua fala confirma esse ponto: “enquanto eu tiver saúde e força para trabalhar, eu prefiro continuar”. Logo em seguida, a matéria diz que “para os mais jovens a situação é mais difícil”. Por fim, o JN apresentou dados de diminuição no trabalho infantil e ilustrou a matéria com a história do menino Francisco de Fortaleza e sua mãe dizendo: “eu quero ver eles trabalhando, mas não na rua, né? Na idade certa, quando chegar o período de eles trabalhar”.
O Analfabetismo foi tratado de forma semelhante pelos dois telejornais, indicando que, apesar da redução do número de pessoas que não sabem ler e escrever, a conjuntura ainda pode melhorar. O JN ainda dedicou-se em apresentar o aumento de crianças e adolescentes nas escolas e do salto de estudantes nas universidades, criando-se assim uma idéia de avanço, progresso educacional, principalmente no nível universitário.
Com relação às Residências com Computador, tanto o JC como o JN mostraram que dobraram o número de domicílios que têm este aparelho. Porém, houve apenas uma diferença de abordagem. Como parece ser uma prática comum ao JN, o telejornal global personificou este dado com o exemplo de Alison, enquanto que o JC apenas apresentou os dados de domicílios com computador.
Os outros dois itens de observação: Água e Esgoto e Cor ou Raça não é possível fazer uma comparação, já que estes temas só foram tratados pelo JN. Tal fato evidencia que a PNAD 2006 trouxe uma série de dados que não foram veiculados ou divulgados pelas matérias. Havendo, portanto, uma omissão de alguns temas e características nacionais. Em veículos impressos, por exemplo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, criaram um caderno especial apenas para divulgar os dados do PNAD. Isso é uma evidência de quantas possibilidades de escolhas e de veiculações seriam possíveis de serem exibidas na telinha. Contudo, foram enfatizados temas semelhantes, mesmo que, por vezes, enquadrados de maneiras distintas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A PNAD 2006, como foi visto, é responsável por investigar as características gerais da população, migração, educação, trabalho, famílias, domicílios e rendimentos. Outros temas também foram pesquisados como o abastecimento de água e esgoto, o esgotamento sanitário, o destino do lixo, a iluminação elétrica, a existência de alguns aparelhos (linha telefônica fixa, fogão, filtro de água, rádio, televisão, geladeira, freezer, máquina de lavar roupa, computador) e acesso à internet.
É possível observar que os telejornais JN e JC não trataram vários temas que estavam presentes nos resultados da pesquisa. É difícil afirmar por qual motivo ambos os telejornais deram preferências para cinco temas semelhantes, com exceção do JN que trouxe outros dois e não tratou as características etárias diretamente. Contudo, é possível dizer que ambas tiveram uma escolha semelhante de quais dados deveriam ser veiculados, porém seus enquadramentos não foram tão similares assim.
Excluindo-se as observações já pontuadas neste estudo, a diferença de abordagem foi muito grande. Enquanto o JC preferiu apresentar os dados em uma tela “chapada” (videografismo), o JN apresentou personagens para “humanizar” os dados. Pode-se até afirmar que o JN retratou a PNAD como se contasse uma história narrativa, pois havia uma lógica na aparição, com vários personagens.
A seqüência narrativa do JN pode ser resumida em etapas. Primeiro, o telejornal global mostrou a presença de aparelhos tecnológicos como algo positivo na vida de Alison. Logo em seguida, mostrou sua indignação pela falta de água e esgoto em sua residência, que retratava a falta de infra-estrutura no país. Então, mostrou que a desigualdade social diminuiu muito pouco, mas trouxe os dados de aumento na renda média do trabalhador brasileiro com o exemplo de Jucelino.
Em seguida, a jornalista mostra que a fila de espera para chegar ao mercado de trabalho existe, mas que a fila do desemprego diminuiu e mais brasileiros conseguiram a assinatura na “tão desejada” carteira de trabalho. Posteriormente, mostrou que o número de pessoas acima de 40 anos vem crescendo no mercado e ele representa 40%. O exemplo do aposentado José, de 72 anos, foi utilizado para representar esta categoria. Neste ponto entra o conflito: “para os mais jovens a situação é mais difícil” e o presidente do IBGE comenta esse dado enfocando o problema da oportunidade dos jovens no primeiro emprego.
Após a divulgação dos dados referente à cor, o telejornal global mostrou a redução do trabalho infantil ilustrado com a imagem de Francisco que vendia coco nas ruas de Fortaleza e com o depoimento de uma mulher dizendo que ela quer “ver eles trabalhando” na idade certa. O último assunto da matéria envolveu a educação, mostrando que o número de analfabetos caiu e que mais crianças e adolescentes estão na escola. Antes de seu término, foi enfatizado que há mais pessoas em universidades e esse dado foi ressaltado pelo exemplo de Lais que pretende estudar muito.
Essa narrativa contada pelo JN só foi possível por meio da contribuição de imagens e reportagens de suas afiliadas. É nítido, na matéria, o sotaque e as diferenças regionais. Em um dado momento, até a canopla6 da afiliada global no Ceará foi exibida. Acredita-se que a Rede Globo, além de humanizar os dados, quis mostrar uma extensão de todo o território nacional para que o mesmo se sentisse representado pelos dados. Porém, nenhuma informação foi dividida por Unidade Federativa, tipicamente separada pela PNAD. Apenas o JC que, em apenas um momento, mostrou que as mulheres das regiões sul e sudeste estavam mais presentes no mercado de trabalho. Evitou-se, assim, uma disputa entre regiões sulistas e nortistas, presente inconscientemente no imaginário do brasileiro.
Nenhuma informação educativa ou crítica sobre a falta da cidadania enfrentada pelos cidadãos brasileiros foi apontada nas reportagens. A cobertura se restringiu aos fatos e dados. Não foi mostrada uma perspectiva analítica desses dados. Dessa forma, a cobertura fica limitada apenas a divulgação dos números e a questão cidadã fique em segundo plano – ou não seja nem sequer levantada. Quando será que a questão da cidadania será presente de maneira satisfatória no telejornalismo brasileiro? Essa é uma pergunta de difícil projeção.
NOTAS:
1 “Most frames are defined by what they omit as well as include, and the omissions of potential problem definitions, explanations, evaluations, and recommendations may be as critical as the inclusions in guiding the audience”.
2 “I assume that definitions of a situation are built up in accordance with principals of organization which govern events […] and our subjective involvement in them; frame is the word I use to refer to such of these basic elements as I am able to identify.”
3 “Frames are principles of selection, emphasis and presentation composed of little tacit theories about what exists, what happens, and what matters. […][News frames are] persistent patterns of cognition, interpretation, and presentation, of selection, emphasis, and exclusion, by which symbol-handlers routinely organize discourse, whether verbal or visual.”
4 “To frame is to select some aspects of a perceived reality and make them more salient in a communicating text, in such a way as to promote a particular problem definition, causal interpretation, moral evaluation, and/or treatment recommendation for the item described.”
5 “Unless narratives are compared, frames are difficult to detect fully and reliably because many of the framing devices can appear as ‘natural,’ unremarkable choices of words or images. Comparison reveals that such choices are not inevitable or unproblematic but rather central to the way the news frame helps establish the literally ‘common sense’ [i.e., widespread] interpretation of events.”
6 Termo usado para descrever a marca da emissora localizada na haste do microfone, abaixo da espuma de proteção.
ENTMAN, R. M. Framing: toward clarification of a fractured paradigm. Journal of Communication, New York, v. 43, n. 4, p. 51-58, 1993.
__________. Framing US coverage of international news: contrast in narratives of the KAL and Iran air incidents. Journal of Communication, New York, v. 41, n. 4, 1991.
GITLIN, T. The whole world is watching: mass media and the making and unmaking of the new left. Berkeley: University of California, 1980.
