IV Congress of CiberSociety 2009. Analog crisis, digital future

Work Team C-18: Movementos sociais e redes tecnolóxicas

A inteligência coletiva global. O protagonismo social e as novas tecnologias

Author/s


Abstract

O mundo contemporâneo está sofrendo profundas transformações, possivelmente estejamos assistindo ao esgotamento progressivo do paradigma social da era moderna, uma manifestação profícua desse ciclo de transformação social o constitui o novo protagonismo social que avança no mundo e que pode ser percebido na luta pelo código aberto e software livre, o a democracia dos direitos autorais e copyleft, nas fronteiras dos commons, na free culture and network economy, na democracia cultural levada adiante pela Wikipedia, na democratização do conhecimento e da informação presente nas redes sociais como o Facebook e a Twitter e as centenas de bitácoras (webbloggings) que se disseminam no mundo, contribuindo para novas formas de cidadania no mundo, na luta pela sustentabilidade do planeta presente nas campanhas contra o desflorestamento do Greenpeace e conservação da vida silvestre da WWF, assim como, a luta contra o extermínio das baleias nos mares do mundo liderada pela Sea Sephered, que apresentam um intenso compromisso com novos valores humanos que se manifestam na solidariedade do trabalho voluntario. O novo protagonismo social utiliza as novas tecnologias para construir uma inteligência coletiva global, que está sedimentando as bases de um novo ciclo civilizatório para a humanidade.

Paper contents

A produção social e a riqueza comum

A sociedade de massas foi construída no contexto da universalização dos meios de comunicação de massas, que contribuíram para erradicar a territorialidade e a localidade dos processos sociais e as interações intersubjetivas no planeta.

Os meios de comunicação de massa alteram o plano das relações sociais, para se comunicar os seres humanos não precisam acudir ao espaço público, na rua, na praça pública, no teatro ou no mercado. A mediação dos meios de comunicação, a interação humana passa a ocorrer na esfera privada, no micromundo real e subjetivo do individuo, a comunicação como processo ocorre além do território e além das fronteiras. O espaço público torna-se espaço privado.

A televisão e o cinema trouxeram uma nova dimensão da interação intersubjetiva, porque tecnicamente estes meios implantaram o reino da imagem técnica mediando processos de intercomunicação subjetiva entre os homens, independente da sua territorialidade e fora de todas as fronteiras locais. A interação à distância não se limitava à comunicação fônica, como também implicava a onipresença da imagem nos fluxos humanos de comunicação.

A presença social das redes digitais representa um novo estágio da sociedade tecnicamente mediada, que altera a natureza da esfera pública, a interação intersubjetiva ocorre através de tecnologias cibernéticas, no contexto de um fluxo comunicacional, que opera com alta eficiência, eficácia e performance, interligando de modo simultâneo e instantâneo todos os pontos do planeta.

Um novo marco das interações intersubjetivas num espaço público construído em torno de estruturas técnicas cibernéticas, que envolve redes digitais como a Internet, porém, se complexifica através das sucessivas inovações, como é o caso da telefonia móvel, da difusão dos computadores portáveis, cada vez menores em tamanho e mais eficientes no processo de intercomunicação global.

Os modelos mais simples permitem que num pequeno aparelho do tamanho de um maço de cigarros permite ao usuário estabelecer relações multimidiáticas em rede, construindo interações intersubjetivas com pessoas localizadas em qualquer ponto do planeta, com elevada eficiência e alto desempenho.

iPod – Multimídia com acesso a Internet

Imagem: UOL Tecnologia – Guia de Produtos – http://www.uol.com.br//tecnologia

As redes tecnológicas se tornam portáveis, levando adiante uma tendência mundial para a minituarização dos objetos tecnológicos, cujo horizonte de futuro constituem os objetos de engenharia da nanotecnologia, que provoca o pensamento imaginando um cenário futuro quando objetos do tamanho de uma letra operem redes globais com alta eficiência e performance, eliminando os limites do território e todas as restrições físicas e geográficas para a ação humana no mundo.

Computadores cada vez menores

Mininote ultraportável - Hawlett-Packard HP 2133.

Imagem: UOL Tecnologia – Guia de Produtos – http://www.uol.com.br//tecnologia

A forma mais sofistica deste novo espaço constituem a Web 2.0 e as formas de second life. Trata-se de ambientes virtuais, tridimensionais que simula aspectos da vida real e social do ser humano, originalmente desenvolvidas pela Liden Lab e abrangem diversos sistemas os mais simples operam como video-games em consoles especiais, os mais complexos constituem modelos de realidade virtual nos computadores, com capacetes e luvas e com dispositivos técnicos inseridos dentro do corpo, que submergem o indivíduo nos ambientes técnico, os projetos mais avanzados constituem ambientes hápticos movimentados mediante mediante gestos ou movimentos dos dedos, das iris dos olhos ou guiados pelo fluxo da energia vital do corpo.

Second Life – Cenas da vida artificial

Imagens: Enciclopédia eletrônica Wikipedia

O conceito “público” muda de natureza profundamente, estar no “público” não mais significa estar dentro dos limites do espaço físico e geográfico, como a praça pública ou a rua da cidade. O público sofre um profundo deslocamento, primeiro, porque a materialidade dos processos de comunicação no espaço público perde a sua materialidade significante, segundo, porque o significado tem mais transcendência que o significante, tornando a comunicação simbólica.

Pela primeira vez na história do mundo, estamos a acelerar em direção ao um novo nível de consciência privado e público ao mesmo tempo. A proximidade e a distância muda de significado e, nesse contexto, estarmos próximos ou estarmos distantes não tem mais importância já que podemos comunicar-nos, conversar, trocar mensagens, compartilhar conhecimentos e informação desde qualquer ponto do planeta em que nos encontremos. i

As novas tecnologias mudam profundamente a idéia de espaço público e alteram profundamente as dimensões colidentes da esfera pública e privada, assim como, muda profundamente o sentido do público como reunião coletiva dos indivíduos no local físico ou geográfico, da mesma forma que torna a esfera pública uma nova dimensão, não mais restrita ao aglomerado público e aos meios de comunicação de massa.

O melhor exemplo da mudança da natureza do espaço público representa o individuo sentado no espaço intimo do lar, no quarto de dormir, na solidão de si mesmo, que possui um televisor, um telefone celular e um computador ligado na Internet. Ele se encontra na solidão sozinho consigo mesmo, mas ele está reunido no ciberespaço com centenas de pessoas localizadas nos diversos lugares do mundo.

A solidão coletiva do hacker

Imagem: Enciclopédia eletrônica Wikipedia

Este fenômeno foi estudado com muito detalhe por Sherry Turkle, em numerosas pesquisas com jovens que dedicaram muitas horas das suas vidas, transitando no ciberespaço, vivenciando a “cultura da simulação” e, segundo ela, representa uma nova realidade humana marcada por uma nova percepção, uma nova estética diante do fato da supremacia do virtual e das figuras da representação abstrata. ii

Uma nova esfera social que possui uma dimensão privada e simultaneamente uma dimensão pública e, nesse espaço social virtual, não existe nenhuma possibilidade de poder diferenciar - como o fizeram Friedrich Hegel, Hanna Arendt e Jürgen Habermas -esfera privada do individuo e a esfera pública do social.

No ciberespaço a confluência entre a esfera privada e a esfera pública se transforma e as diferenças em relação com o espaço social da modernidade são cada vez mais evidentes, tendo consequências muito profundas na vida do indivíduo e da coletividade humana.

Nesse novo contexto, muda profundamente o sentido da ação social e se altera de modo substantivo o modo como os homens constroem o espaço social, gerando um novo protagonismo social e uma nova forma de ação humana no planeta. Exemplos a esse respeito não faltam em todas as partes do mundo.

Os esforços realizados para enfrentar os softwares proprietários e constituir um espaço informático livre, sem pagamento de royalties, aberto às contribuições e a colaboração de pessoas localizadas nos mais diversos pontos do planeta.

Free Software Fundations (FSF), fundado em 1983 por Richard Stallman, colocou mundialmente um novo sistema de produção e uso de software baseado no sistema GPL – Genuine Public Licence, que permite a qualquer pessoa utilizar os programas de computadores e equipamentos digitais e, podendo quando necessário, alterar a sua estrutura. O sistema estimula a liberdade de acesso ao código fonte, sem nenhuma restrição com relação à propriedade intelectual e sem necessidade de pagar royalties pelo uso e a transformação dos softwares.

Os conceitos de copyleft e software livre admitem o acesso aos usuarios do código fonte dos programas, estando os usuarios restritos à condição de nao submeter os programas derivados da mudança no código fonte a regime de direitos autorais, de forma que todas as inovações continuem sujeitas a direito público, ampliando o universo do sorftware livre.

O sistema de licenciamento e gestão de licenças abertas, livres e compartilhada de conteudos encontra-se regrada na Criative Commons – CC, que constitui um sistema padronizado licenças administradas num modelo de de gestão aberta, livre e compartilhada de conteúdos e informação (copyleft). Este sistema de licença é administrada pela Criative Commons, uma organização sem fins lucrativos, que lançou o projeto em 2001, atualiza de modo permanente o projeto e estimula um debate internacional sobre a questão dos direitos de propriedade.

Os antecedentes das licencas da Criative Commons encontram-se na Open Publication License (OPL), na GNU General Public Licence (GPL) e na GNU Free Documentation License (GDFL), originalmente desenvolvida para amparar os projetos do software livre e que foi extendedida para projetos mais amplos de cooperação e compatilhamento como é o caso da Wikipedia.

As licencas Creative Commons se diferenciam dos projetos da FSF – Free Software Fundation e da GNU/GPL, na medida que elas permitem unicamente a livre manipulação, distribuição, compartilhamento e a replicação dos conteúdos licenciados, porém, não permitem a possibilidade alterar os conteúdos licenciados.

O projeto da Criative Commnos foi lançado oficialmente em 2001 – a primeira proposta de licenças foi publicada em dezembro de 2002,, sob a liderança de Lawrence Lessig, fundador da Criative Commons e presidencia do conselho de administração. Lessig, advogado e professor da Universidade de Stanford levou a cabo numerosas ações judiciais para que o Supremo Tribunal de Justica dos Estados Unidos reconheça este sistema de licenciamentos.

Imagens: Enciclopédia eletrônica Wikipedia

Lawrence Lessig concebeu a idéia de riqueza social e cultural comum para toda a humanidade (common), estimulando a construção de processos culturais fundados na liberdade de criatividade, defendendo as obras cultrais não como objetos de mercado, mais como resultado da engenhosidade humana que teria que estar disponível para todos os seres humanos. Lessig desenvolveu um sistema de licenciamento livre que denominou creative commons, para legitimar obras culturais que estariam disponiveis para toda a humanidade, sem restriçoes das normas dos direitos autorais e do pagamento de royalties. iii

O sistema Linux foi desenvolvido por Linux Torvalds, constitui um símbolo do novo cenário da tecnologia de redes, os códigos deste sistema operacional são de domínio público, da mesma forma, que os códigos do TCP/IP, desenvolvido pelo governo americano e igualmente declarado de domínio público.

Tux - o mascote do Linux

Imagem: Enciclopédia eletrônica wikipedia

O sistema não-proprietário Linux e o projeto da Free Software Foundation liderado por Stallman representam o cenário de um novo protagonismo social. Atores sociais espraiados pelo planeta, independente de qualquer território, região ou local, fizeram colaboram para construir redes digitais, que estarão disponíveis para qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo.

Existe uma diversidade de programas de computadores produzidos no sistema do software livre, que estão sendo aprimorados permanentemente por centenas de milhares de anônimos desenvolvedores de programas, localizados em diversas partes do mundo e esses múltiplos aprimoramentos não envolvem direitos autorais nem pagamento de royalties pelo uso e apropriação do programa.

Os usuários têm acesso ao código-fonte dos programas e podem alterar e modificar a estrutura e a funcionalidade do programa, sendo imperativo não submeter essas modificações a regime de direitos autorais, conservando-se como matéria de domínio público.

Um exemplo desse intenso processo de produção social ordenado em rede mundial representa o navegador da Internet Mozilla-Firefox que está disponível em diversos servidores no mundo a partir da Fundação Mozilla.

Mascotes da Fundação Mozilla

Imagens: Enciclopédia eletrônica wikipedia

O Mozilla-Firefox constitui um herdeiro do Communicator da Netscape que participara de um intenso combate com o navegador Internet Explorer da Microsoft, inicialmente um programa avulso e que mais tarde fora inserido como um aplicativo do sistema operacional Windows, fato que ajudou à Microsoft se tornar líder mundial nos mercados de programas de computadores. iv

Imagem: Enciclopédia eletrônica Wikipedia

O espírito do Mozilla-Firefox é o mesmo que o Communicator, um programa livre e aberto, cópias (dowload) livres podem ser feitas sem pagamentos de direitos (freeware) e as versões acessadas podem ser aprimoradas livremente pelos usuários. O espírito de colaboração global aceito como meio de aperfeiçoamento de um sistema, fora dos limites do mercado, já que a produção do software a colaboração não visam interesses lucrativos.

O emblema fundamental do novo protagonismo social é a enciclopédia eletrônica Wikipedia, um portentoso esforço global para democratizar e universalizar o conhecimento científico, filosófico e cultural da humanidade. O acervo de conhecimentos e imagens da Wikipedia está disponível globalmente, podendo ser acessada por qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, sem pagamento de franquias.

Wikipedia é uma enciclopedia multilingue, que se encontra disponível na Internet, on-line, livre e colaborativa, isto é, escrita intencionalmente, de forma anónima, por diversas pessoas localizadas nas amais diversas regiões do mundo, todas elas, oferecendo conhecimentos como doacões voluntarias.

O conteúdo da enciclopeia é livre e pode ser transcrito, modificado e ampliado, desde que perservados os direitos de cópias e modificaçoes, os direitos autorais da Wikipedia se rege pela licença da Criative Commons.

Administrada pela Wikimedia Foundation, está disponivel em 257 idiomas e dialetos, no início no ano 2001 começou com um acervo de 5,1 mil verbetes, passando em janeiro de 2006 a 720 milhoes de verbetes, incluindo 1 milhao de imagens, contendo somente em ingles mais de 2 milhoes de artigos, estando disponiveis em mais de 257 idiomas e dialetos.

O modelo wiki é uma rede de paginas web contendo as mais diversas informações no mais diversos campos do pensamento humano, operado por navegadores da Internet, Explorer, Mozilla, Firefox, Netscape, Opera, Safari ou qualquer programa capaz de ler HTML (markup language).

Qualquer pessoa com acesso à Internet pode acessar e modificar qualquer artigo e cada leitor é potencialmente um colaborador do projeto, da mesma forma, a cada acesso na rede a enciclopedia muda de conteúdo, dependendo dos acessos e das colaborações, de forma que poder-se-ia imaginar como uma esfera pública global em rede, um primeiro modelo daquilo que Pierre Lévy denomina inteligencia coletiva.

A enciclopedia Wikipedia foi concebida no ano 2000 no ambito do projeto Nupedia, desenvolvido por Limmy Wales e Larry Sangers, se apropriando dos conceitos do software livre com licença GNU-GPL da Free Software Foundation (FSF) e que resultou no lancamento em 2001 da enciclopedia Wikipedia.

O número de artigos e de verbetes numa enciclopédia muda constantemente, tendo em vista a possibilidade que se oferece aos internautas que acessam o site da Wikipedia, de contribuir constantemente com novas informações, novos verbetes e novos artigos ou novas imagens, do qual resulta uma esfera pública em constante mudança.

Logotipo no portal da Wikipedia

Imagem: Imagem: Enciclopédia eletrônica wikipedia

O empreendimento da Wikipedia Foundation tem um significado social, cultural e político fundamental, estamos diante de um grande esforco para democratizar o conhecimento científico, filosófico e cultural da humanidade, permitindo o acesso livre e sem restrições de um portentoso acervo, que historicamente constituia um cohnteudo restrito a pessoas que frequntavam os sistemas formais de produção de conhecimento e informação e que mediante a rede Wikipedia chega ao homem comum.

Possivelmene o sistema do copyleft tenha um significado profundo nesse processo de democratização da ciência, da filosofia e da cultura, porque todo o conteúdo da Wikipedia não está sujeito a direitos de propriedade intelectual e aí radica o seu carater revolucionário, um consistente esforço de colaboração global, que envolve a participação voluntaria de centenas de pessoas localizadas em diversos lugares do mundo.

Para ter acesso ao acervo científico, filosófico e cultural da Wikipedia basta dispor com um computador com acesso à Internet, embora, centenas de pessoas consultem diariamente o acervo da Wikipedia, sem necessariamente possuir um computador, frequentando telecentros, bibliotecas públicas ou locando computadores nas lan-houses, espraiadas em quase todas as cidades do mundo.

A grande revolução mundial provocada pela Wikipedia radica na sua contribuição fundamental para a democratização mundial do conhecimento, permitindo aos mais diversos grupos étnicos, sociais, culturais e políticos, participar de modo activo na produção de um acervo de conhecimentos, que permanecem como um acervo livre e democrático, como um patrimonio da humanidade.

A importância da Wikipedia não consiste apenas na universalização do conhecimento, indiferente de territorio, região, local ou capacidade técnica e financeira de pessoas da mas diferente origem, o grande trunfo da Wikipedia constitui no esforço de tornar o conhecimento num valor universal, fazendo possível realizar com a mediaçao tecnológica, o ideal iluminista de ilustração e esclarecimento da humanidade.

O desafio importante que a Wikipeida terá que enfrentar nas próximas décadas é a manutenção e a conservação da infraestrutura mundial conservando intacto o modelo associativo e livre, sem recursos financeiros de origem público (político) ou privado (empresarial) e sem ter que criar espaços para avisos publicitários o recursos da mídia mundial, como o faz a fundação Google, mantendo o acesso livre e gratuíto, dependendo em gran parte de contrubuições financeiras voluntarias no mundo.

Umberto Eco realizou recentemente um esforço critico avaliando o sentido que a Wikipedia teria como projeto intelectual, deferindo algumas críticas sobre o conteúdo e o sistema de administração de conteúdo da enciclopédia eletrônica. v

Eco questiona o sistema de fidelidade sobre os artigos e a legitimidade das fontes dos artigos, advertindo sobre perigos que poderiam ocorrer diante de conteúdos que possam estar errados, mostrando os riscos para os sistemas educacionais, o engano sobre as fontes, os hábitos intelectuais cultivados nos estudantes de copiar conteúdos sem o uso do pensamento reflexivo.

O horizonte de um sistema educacional marcado pelo efêmero, que poderia tornar o processo de constituição da consciência humana uma dimensão superficial, uma fábrica de idiotas que reproduzem de modo um conteúdo de fácil acesso e sem suficiente rigor técnico e científico.

Os questionamentos de Eco são oportunos e revelam a necessidade de estimular o pensamento crítico, porém, não invalida o papel da Wikipedia na democratização da cultura global, possibilitando acesso gratuito de informação e conhecimento, contribuindo para o desenvolvimento da criatividade humana.

É importante considerar também o projeto que está sendo desenvolvido na atualidade pela UNESCO para constituir uma biblioteca digital mundial (World Digital Library), um provocativo projeto proposto por James A. Bellington do Livrary of Congress nos Estados Unidos, num encontro mundial de bibliotecários em 2005.

O provocativo projeto de digitalizar toda a riqueza bibliográfica mundial, incluindo, mapas, imagens e obras de arte, num único sistema, que estará disponível para acesso imediato, de modo livre e sem franquias, por qualquer pessoa em qualquer pessoa localizada em qualquer ponto do planeta, representa um novo paso para a democratização da cultura no mundo.

A Amazon lançou o Kindle, em novembro de 2007 um pequeno aparelho, que opera papel eletrônico, possui um processador e uma capacidade de memória para acumular mais de cem mil registros em formato digital, sejam eles, livros, revistas, jornais, matérias em multimídia dos weblogs ou simples arquivos de textos.

                  Imagem: Amazon                                                     Imagem: Enciclopédia eletrônica wikipedia

Produtos semelhantes estão sendo lançados por diferentes companhias como é o caso da Sony Librie e a Sony PRS-505, que oferecem muitos recursos, se considerarmos que todos estes sistemas possuem recursos de acesso instantâneo à Internet, se pode compreender o significado que possui a Wikipedia e as promessas de World Digital Library, para democratizar a cultura e o conhecimento humano.

Um exemplo de uma esfera pública global o representam os diversas sistemas de produção, circulação e apropriação de recursos midiaticos, como vídeos, filmes e sistemas técnicos semelhantes, uma fronteira aberta pelo YuoTube, originariamente um pequeno emprendimento de inovadores no campo das novas tecnologias e as novas mídias, que desenvolveram um sistema original aproveitando tecnologias digitais, permitindo o acesso a recursos midiaticos por parte de computadores localizados em diversos lugares do mundo.

O YuoTube formou um sistema de distribuição de recursos midiaticos fora dos sistemas formais de produção e distribuição de vídeos e outros recursos e em especial fora da grande mídia, permitindo que pessoas localizadas em diversos lugares do planeta tivessem acesso a estes recursos, tendo apenas oportunidade de acessar um computador, sem custo financeiro e sem restriçoes de nenhuma natureza. Um extenso acervo de recursos midiaticos foi desta maneira democratizado, indiferente de território, região, local e indiferente de idioma, cultura ou participação social, cultural e política.

Basta apenas ter acesso a a um computador e utilizar mecanismos digitais de busca, mediante palavras chaves, para ter acesso a uma infinidade de recursos midiaticos produzidos e disponibilizados por pessoas sem restrição nenhuma, em todo mundo, nos mais diversos idiomas e dialetos e segundo os mais diversos códigos culturais do mundo. Uma democratização profunda dos medios visuais do mundo, que atinge todas as camadas sociais de todo mundo.

O YouTube permite que usuários localizados em qualquer local do mundo, carreguem, assistam e compartilhem vídeos em formato digital, originalmente fundado por pioneiros do PayPal, um site da Internet dedicado ao gerenciamento de doações. Utiliza o formato Macromedia Flash para disponibilizar o seu conteúdo.

YuoTube hospeda um elevado acervo de filmes, vídeo-clipes, muitos deles produzidos profissionalmente, divulgando questões técnicas, sociais, culturais e políticas e outros muitos produzidos mediante sistemas amadores, para divulgar aspectos da vida cotidiana e colocar em visibilidade aspectos da vida privativa; não faltam vídeos sobre pornografia, sexualidade bizarra, sobre violência e defesa de ideologias das mais diversas origens, colocando em evidencia a multiplicidade imanente do ser humano.

O YouTube foi adquirido pela Fundação Google, é parte da rede de serviços do sistema Google, com livre acesso, permitindo que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo e em qualquer linguagem possa inserir ou assistir vídeos, sem nenhum custo, apenas respeitando aqueles que estão submetidos a direitos de propriedade intelectual.

Dentro do sistema Google encontra-se uma rede social e um importante sistema mundial de relacionamentos que reúne em rede indivíduos localizados nos mais diversos pontos do planeta, nos mais diversos fusos horários, interagindo de modo ativo, através de um sistema dinâmico organizado segundo a lógica do hipertexto e da hipermídia e com os recursos de multimídia.

A rede Orkut permite a constituição de numerosas comunidades para compartilhar visões de mundo, interesses, desejos e posicionamentos diante da vida cotidiana, cada comunidade compartilha seus valores, seus dialetos, seus códigos, compartilhando sua própria forma de viver a suas vidas e experimentar seu modo de viver em comunidade.

As redes sociais fornecem um novo sentido aos conceitos de presença e ausência, da proximidade e da distância e um novo de construir relações sociais globais, mediadas por sistemas tecnológicos de alta eficiência, eficácia e desempenho.

Todo esse elenco de relações sociais ocorre no contexto de sistemas multimidiáticos que aplicam extensamente os recursos do hipertexto e da hipermídia.

O marco das relações sociais na humanidade muda progressiva e profundamente com as redes digitais como o Orkut, por causa da eficácia, a eficiência e a alta performance, que permite utilizar sistemas mutimidiáticos - vídeos, som, imagens, fotografias, textos escritos – e por causa de um novo patamar de comunicação que permite troca de mensagens sem precisar das relações face-a-face.

As redes sociais constituem um novo ambiente dentro do qual se constroem relações sociais e se manifestam uma diversidade de posturas e atitudes sociais, que produz um ambiente social virtual, onde se produz e circula de modo intenso informação e conhecimento, interligando pessoas sem nenhuma relação com o espaço físico e geográfico, abrangendo o globo como limite.

Um exemplo dessas redes é o Facebook que foi idealizado e lançado em 2004 por Marc Zuckerberg, uma rede que permite constituir comunidades para compartilhar informações públicas e privadas, compreendendo uma enorme diversidade de objetos culturais e da vida cotidiana, envolvendo milhões de pessoas no mundo.

Nada comparado com o Twitter que se constituiu recentemente num fenômeno mundial, reunindo milhões de pessoas no mundo numa rede social que opera com mecanismo de microblogging, que permite aos usuários telas de exibição de conteúdos com 140 tweets que podem ser enviados e acessados através da Internet, por SMS ou por softwares específicos que estão sendo desenvolvidos para operar os múltiplos microbloggings da rede.

A Twitter permite que usuários desenhem um determinado perfil e operem um grupo determinado de informações que estão disponíveis para acesso, como é o caso de determinadas empresas, que disponibilizam informações para os seus consumidores. As informações disponíveis são também distribuídas para determinados usuários.

Criada em 2006 por Jack Dorsey, o Twitter cresceu de maneira exponencial no mundo e tornou-se um canal de distribuição de informações que contribuíram para enfrentar crises sociais e políticas, como foram vistos em muitos casos em diversas partes do mundo, embora, existam criticas sobre esse protagonismo e seu papel para a mobilização social. vi

A Facebook consiste uma rede de amigos que se constituem para compartilhar de modo online campos de interesses comuns, por sua parte, o Twitter que permite que seus usuários criem post e links que permanecem acessíveis pelos interessados.

O Twitter é uma rede que permite produzir uma inteligência coletiva que é compartilhada por uma grande diversidade usuários entre os quais determinados campos de conhecimentos e informações são compartilhados por muitas pessoas em diversas partes do mundo.

O sistema de busca digital da fundação Google tornou-se o símbolo de uma era onde uma enorme quantidade de informação e conhecimento se encontra disponível de modo livre, sem pagamentos de franquias, para todos os computadores do mundo, que permite um rápido acesso a diversos conteúdos, imagens, vídeos, livros, revistas, documentos científicos e tecnológico.

 

O sistema de busca do Google coloca a disposição de todos os computadores do mundo um índice mundial de informações e conhecimentos, permitindo a visibilidade da produção cientifica, cultural e filosófica mundial e colaborando para o fluxo livre da produção cultural humana.

Uma grande revolução foi provocada pelas redes tecnológicas cibernéticas, constitui as bitácoras (weblogs), que se difundiram mundialmente, como fonte de informação e de difusão de conhecimentos na internet. As bitácoras eram cadernos de apontamentos que os comandantes dos navios que cruzavam os mares mantinham como registros de acontecimentos que sucediam durante a navegação.

As bitácoras com anotações, informações e conhecimentos se difundiram rapidamente por toda rede abrangendo diferentes idiomas, dialetos e culturas e que se encontram para acesso livre e sem custos na rede mundial.

As bitácoras eram registros pessoais mantidos de modo textual para registrar momentos da vida cotidiana, à medida que a complexidade da tecnologia foi se sofisticando e vinculado ao sucesso de audiência, as bitácoras foram se profissionalizando, incorporando recursos de imagem, fotografias, vídeos (vblog), musica, assim como, introduzindo sistemas sonoros (MP3 3 e MP4) para distribuição sistemática de informações sobre arte, cultura, esportes, ciências, política etc. (podcasting).

As bitácoras espraiadas no globo, reunidas em comunidades de interessas, das mais distintas origens, desafiam a audiência da grande mídia escrita, sonora e televisiva, em alguns casos, divulgando informações que a própria mídia profissional não consegue obter, fato que coloca em evidência o debate mundial sobre a possibilidade de a grande mídia sucumbir diante do impacto das grandes redes sociais e da potência dos webblogs mundiais.

A revolução provocada pelas redes tecnológicas redimensiona profundamente o espaço público e altera profundamente a interseções entre a esfera pública e a privada, podemos pensar numa nova esfera pública, no sentido que tem o conceito em Habermas, como uma região semipública localizada que reúne espaço privado e espaço público. vii

As redes tecnológicas produzem um espaço social ampliado onde as fronteiras entre o público e o privado desaparecem progressivamente e a esfera intima se estende além dos limites da vida doméstica para se tornar aberta e em muitos casos pública. As dimensões do espaço local se ampliam adquirindo novas dimensões e novas possibilidades tecnológicas para produzir as heterotopias sociais.

A revolução das redes tecnológicas produz grandes transformações nos modos como a informação e o conhecimento são geridos estrategicamente na vida social. Os sistemas da Wikipedia e do Google geram informação e conhecimento como resultado da produção social e da colaboração. Pequenas e grandes organizações adotam software livres produzido por uma legião de programadores espalhados pelo mundo, sem se conhecerem e sem interagir pessoalmente.

Da mesma forma que um enorme acervo de informação e conhecimento é produzido anonimamente, compartilhado media sistema de licenciamento aberto, colocando centenas de obras culturais, literárias, científicas, musicais, licenciadas pelo sistema do Criative Commons.

Os commons representam uma profunda mudança de sentido nos processos econômicos e sociais e alteram de forma determinante a natureza da vida coletiva contemporânea, representa a base de um novo paradigma social que modifica de modo irreversível o processo de construção da ciência e da cultura da humanidade. “Commons são um tipo particular de arranjo institucional que governa o uso e a disposição de recursos. Sua principal característica, que os define de forma distinta da propriedade, é que nenhuma pessoa tem o controle exclusivo do uso e da disposição de qualquer recurso particular.

Os recursos administrados pela comunidade podem ser utilizados por um número de pessoas (mais ou menos bem definido), sob regras que podem variar desde o “vale-tudo” até regras claras formalmente articuladas e efetivamente impostas.viii

Os commons representam uma revolução no processo de produção de conhecimento no mundo contemporâneo, o Linux, o Mozilla, o Firefox e o Apache, provocaram profundos impactos econômicos e financeiros, mudando as estratégias da poderosa indústria do software, considere-se o caso da centenária IBM que se rendeu ao poder do software livre adotando o sistema Linux entre os seus sistemas informacionais.

Estamos diante das fronteiras de uma nova estruturação da economia mundial, trata-se de uma produção social que não tem sede e não tem agentes sociais bem definidos. Benkler denomina este complexo processo social como social production in digital networked environment. Trata-se de non-market production, já que esse sistema de produção opera mediante sistemas de cooperação e colaboração entre estranhos distribuídos em todo o planeta. ix

Considerando com atenção a natureza da produção social que ocorre no ambiente das redes tecnológicas utilizando cooperação e colaboração em massa, mediante sistemas de redes complexas como é o caso dos Peer-to-Peer (P2P) ou mesmo no caso da Internet, estamos diante de uma economia de redes.

A ciência econômica contemporânea não possui até o momento um corpo consistente de ciência e teoria para abordar esse novo contexto econômico, precisa construir um no campo teórico para interpretar este fenômeno que atinge o planeta.

A colaboração solidária

Este contexto social e cultural em construção na humanidade está permeado pela ação social de novos atores sociais que não podem ser interpretados pela ação racional guiada por fins, típica da modernidade e do capitalismo. Estes atores sociais possuem por natureza uma dimensão coletiva, agentes da sociedade civil que atuam no espaço semipúblico – a esfera pública de Habermas, fora do mercado e dos circuitos monetários e financeiros da economia mercantil e fora do espaço público político.

Atores sociais coletivos assumem a luta de causas sociais, econômicas, políticas e culturais, na sua generalidade estão constituídos por indivíduos comprometidos que agem segundo um espírito voluntário, que assumem uma identidade social e cultural que adotam como perfil da sua própria personalidade, manifestando um sentimento de pertença e de comprometimento com as causas que defendem.

Muitas organizações seguem padrões de disciplina e hierarquia organizacional rígida, nos mesmos padrões das organizações empresariais contemporâneas, porém, estas organizações não têm natureza mercantil, Constituem instituições que não tem finalidade de lucro ou benefícios pecuniários, muitos deles, sobrevivem de doações e contribuições sociais. As suas ações não estão regidas por atividades mercantis e, por conseguinte, não possuem receitas financeiras.

Segundo, porque seus objetivos não se restringem à produção e ao consumo no mercado – acidentalmente podem comercializar produtos para financiar suas atividades, pois seus objetivos estão centrados no ativismo social, cultural e político.

Intenso mobilismo social que envolve centenas de pessoas, jovens e adultos, que são envolvidos em sistemas de voluntariado, comprometidos com objetivos e causas sociais que assumem como identidade social que define sua própria identidade individual.

O envolvimento e o sistema de mobilização dos voluntários envolvem compromissos sociais e não implicam nenhuma barganha de natureza econômica, de sucesso pessoal ou de ambições egoístas, ideais sociais afastados da lógica econômica, financeira e mercantil.

Os voluntários assumem como próprias as causas sociais das organizações sociais aos quais se integram como sentido de vida, para defesa do meio ambiente, a luta contra o aquecimento global, preservação da água potável no planeta, o combate da discriminação social, religiosa e cultural.

Assim como, a proteção das crianças carentes e abandonadas nas ruas das cidades, a cooperação com anciãos, nos reclusos nos asilos, as crianças com doenças incuráveis, os doentes terminais nos hospitais, a recuperação de jovens que cometeram crimes e a luta contra a dependência das drogas ilegais e as drogas licitas como o cigarro e o álcool.

Médicos sem Fronteiras é uma rede global fundada em 1971 por Bernard Kouchner na França, reunindo médicos e jornalistas para atuar como voluntários em regiões afetadas por catástrofes naturais, em áreas de intensos combates armados e em áreas afetadas por epidemias graves, pelo flagelo da fome e a pobreza social extrema.

A organização atende em várias regiões do mundo, pessoas que sofrem o fragelo da fome, da desnutrição e estão acometidas por doenças infecciosas e contagiosas, como é o caso do HIV, que castiga extensas áreas do continente africano.

Desenvolveu suas primeiras atividades durante a crise de fome e pobreza extrema que afetou a região da Biafra, uma extensa área da Nigéria que sofreu com a guerra civil, a pobreza social e a incapacidade de produzir e importar alimentos para a população, participou ativamente diante dos atentados e as mortes durante o regime socialista no Vietnam.

Denunciou mundialmente as atrocidades cometidas em nome de princípios políticos, desenvolveu numerosas atividades em favelas brasileiras, como é o caso do complexo do alemão e foi uma das primeiras organizações a estar presentes na crise da região de Gaza no oriente médio.

Participou ativamente nas últimas décadas do debate em torno dos flagelos humanitários que afetam diversas regiões e países do mundo, tomo parte ativa na luta para incluir na jurisprudência internacional o direito de intervenção humanitária em áreas de intenso conflito social.

O Conselho de Segurança da ONU reconheceu o direito de intervir nas regiões onde ocorrem transgressões da convenção dos direitos do homem e durante grandes crises de devastações que afetam grandes conglomerados no mundo.

As centenas de voluntários da organização Médicos sem Fronteiras enfrentam com coragem áreas destruídas por catástrofes naturais, sobrevivendo em condições desfavoráveis, enfrentando perigos nas regiões afetadas pela violência política, ajudando as vitimas dos conflitos armados, como é o caso das guerras tribais na África.

Muitos deles colocam em risco as suas próprias vidas, levando adiante um ativismo social orientado unicamente pelo compromisso com a ajuda humanitária, a solidariedade humana e a defesa dos mais elevados valores da humanidade.

Há mitos anos os membros do Greenpace lutam contra a mortandade das baleias nos mares, combatem o lixo tóxico das indústrias químicas e realizam centenas de ações sociais para produzir uma nova consciência sobre a necessidade de preservar a biodiversidade do planeta, reduzir o desmatamento e evitar a extinção de biomas como a mata atlântica e a amazônia.

Imagens: Greenpeace Organization

A Amnesty Internacional desenvolve ações na defesa dos direitos humanos, combatendo a violência policial, a perseguição e a prisão de dissidentes políticos, lutando contra as condições materiais dos presos nos sistemas prisionais de diversas partes do mundo. Denuncia as condições dos preços políticos, publicando periodicamente relatórios mundiais sobre o estado social da humanidade e sobre o cumprimento por parte dos governos do mundo da convenção mundial dos direitos humanos.

Da mesma forma que o World Wild Forest – WWF luta para salvar o planeta da destruição selvagem, desenvolvendo ações em diversas partes do mundo para preservar ambientes naturais, conservando a biodiversidade e a vida selvagens, evitando o avanço destruidor das ações predatórias dos seres humanos, que extingue centenas de milhares de espécies condenadas a sua desaparição.

A Sea Sheperd é uma organização social independente criada pelo Capitão Paul Watson, para realizar estudos sobre o mar e defesa da fauna marinha, originalmente nos Estados Unidos e posteriormente em diversos lugares do mundo, executando uma ação global, em defesa da preservação dos mares, lutando contra a extinção de espécies marinhas, mobilizando trabalho voluntário originário de diversas partes do mundo.

A Sea Sheperd assumiu a defesa contra a caça das baleias para aproveitar a carne e o óleo de baleia para uso industrial, Diante do perigo da extinção desta espécie, a organização conseguiu conscientizar as Nações Unidas, onde foi aprovada uma norma probindo a caça de baleias, atendendo a necessidade de repovoar os mares evitando os riscos da sua extinção.

O dia 6 de janeiro de 2009, quando os tripulantes do Steve Irwing tentavam impedir que animais mortos fossem transferidos do navio Japonês Jushin Maru 2 para o navio fábrica Nisshin Maru, o comandante japonês não duvidou em provocar uma colisão com o pequeno barco da organização, provocando a morte de jovens tripulantes que lutavam com afinco para defender um valor supremo da humanidade. x

No leito marinho corpos de jovens tripulantes do Sea Shepherd jazem como testemunhas de uma nova visão de mundo, homens que adotam valores, combatendo valorosamente contra atitudes predadoras, amparadas numa complexa e sofisticada tecnologia, agredindo os mares, reduzindo a fauna marinha, contribuindo para reduzir a biodiversidade e provocando a extinção de numerosas espécies.

Cenas do combate no mar entre o Steve Irving e as baleeiras japonesas

Imagens: Sea Sephered Organization

Atores que agem guiados por princípios éticos e valores superiores da humanidade, espírito plural e solidário comprometidos com a preservação do planeta e com a solidariedade humana, respeitando a diversidade religiosa, social e cultural e sustentando os alicerces de uma vida social digna, tolerante, pautadas num compromisso com a equidade e a justiça social para todos os homens da humanidade.

Na sua generalidade, estes atores coletivos estão estruturados em torno de valores sociais, adquirem recursos mediante doações, operam mundialmente mediante redes voluntárias de centenas de pessoas que oferecem seu sentimento de doação e de contribuição para a humanidade.

Complexas redes sociais estão sendo construídas no mundo, contribuindo fundamentalmente para desenvolver no mundo um espírito cooperativo e solidário entre pessoas diferentes, em especial, aquelas localizadas em áreas de risco social, que sofrem perseguição política e discriminação social e vivem em áreas impróprias para a sobrevivência humana.

Redes sociais que colaboram com pessoas que vivem nos desertos, nas terras degradadas destruídas pela erosão ou a exploração predatória, afetadas pelos flagelos climáticos como a seca que lhes impede ter acesso a alimentação e ao suprimento de água doce, amontoadas em condições subumanas nas favelas das megacidades mundiais.

Redes sociais são construídas seguindo o espírito cooperativo e solidário entre todos os homens no mundo, combatendo os fundamentos da ordem social fundada no egoísmo pessoal, na concorrência predatória e na acumulação de riqueza material.xi

O LETS – Local Employment Trade System – que se desenvolveu originariamente no Canadá e progressivamente se expandiu para diversas partes do mundo, constitui um exemplo deste tipo de consciência social que está emergindo no mundo.

O LETS desenvolve o sentimento de comunidade, trocando bens e serviços entre os membros e desenvolvendo ações econômicas afastados dos mercados e dos circuitos monetários e financeiros, desenvolvendo um espírito de produção e consumo em função das necessidades prementes da humanidade.

O sucesso desta experiência inspirou numerosas ações semelhantes em diversas partes do mundo, difundindo novas comunidades que construíram redes econômicas intracomunitária que envolvia produção cooperativa e operações de troca fora do mercado e do circuito monetário e financeiro.

A produção e o consumo constituem partes do espírito comunitário e são realizados em função das necessidades comunitárias, estimulando a construção do capital social, fonte de solidariedade entre os membros da comunidade.

O CIVICUS é uma organização sediada na África do Sul com membros e parceiros distribuídos em mais de cem paises, estabelecida em 1993, desenvolve um trabalho mundial para estimular o crescimento das ações para o desenvolvimento da cidadania no mundo, fomentando a democracia participativa e o desenvolvimento de uma consciência humana da liberdade de associação em prol de idéias superiores da humanidade.

A CIVICUS desenvolve uma ação internacional estimulando o desenvolvimento de organizações locais, nacionais, regionais e internacionais, constituindo redes sociais, formando um espectro da sociedade civil, na forma de redes de confiança (faith-based network), incluindo organismos multilaterais capazes de financiar as diversas ações sociais espalhadas no mundo, como as Nações Unidas, o Banco Mundial e o Conselho Europeu.

IAVE - International Association for Volunteer Effort é uma organização mundial que reúne grupo de trabalhadores voluntários distribuídos no mundo em torno das idéias do voluntarismo, mantendo vínculos entre diversos países e diversas culturas.

IAVE desenvolve ações a novel global estimulando o desenvolvimento do espírito voluntário, criando uma rede global de organizações voluntárias, representantes nacionais e centros de trabalho voluntário, de mais de setenta paises no mundo, desenvolve ações em torno de redes globais de informações para debater os novos modos de integração e participação social mundial.

As redes sociais constituem exemplos de uma ordem econômica que desenvolve um novo sistema de mercado, como foi o caso da economia de escambo desenvolvida na Red Global de Câmbios na Argentina e as experiências brasileiras de comunidades que emitem moeda local e a utilizam como meio circulante no interior da comunidade.

O fenômeno das trocas fora das regras do mercado monetário e as normas do valor de troca é um fenômeno que se acelera em diversas partes do mundo, no meio de comunidades integradas, que estabelecem regras de emissão de moeda comunitária, impressas em papel aceito convencionalmente e estabelecem regras de trocas regidas por vínculos de solidariedade entre os membros da comunidade.

O uso de papel impresso de objetos convencionais como meio circulante no interior da comunidade, expressa um fenômeno presente em diversas partes do mundo contemporâneo, o redescobrimento da comunidade como elo de vinculação social e como rede de interação social, que reconhece a troca e o mercado, porém, o intercambio é regido pelas teias do capital social da comunidade.

A possibilidade de introduzir uma economia regida por princípios éticos e morais se difunde no mundo, como é o caso da produção cooperativa e a autogestão, onde os trabalhadores são proprietários dos seus meios de produção e a riqueza produzida é distribuída equitativamente entre todos, como testemunha no Brasil a ANTEAG – Associação de Trabalhadores em empresas de Autogestão e Participação acionaria.

A idéia de uma economia guiada por princípios éticos e morais, subordinada a um sistema de valores que resgata ideais superiores da humanidade, retoma debates milenares sobre o preço sobre o comércio justo.

Organizações sociais como a FTI – Fair Trade International, a FTF - Fair Trade Foundation e a FLO – Fair Trade Labelling Organization, resgatam princípios de uma economia que não se rege pela maximização do lucro e a acumulação individual de riqueza.

As redes sociais que estão se desenvolvendo aceleradamente no mundo se espraiam como uma malha atingindo o planeta como um todo, realizando uma revolução silenciosa, cujas conseqüências no plano mundial são impossíveis prever, o importante neste complexo processo social é o desenvolvimento do espírito cooperativo e solidário como valores que devem presidir a vida social da humanidade.

A inteligência do futuro

O mundo atravessa um período de profundas transformações, todas as evidências indicam que estamos vivendo um período de transição, onde as bases de sustentação do paradigma social moderno estão progressivamente se desintegrando e, simultaneamente, estão sendo criadas as bases de um novo paradigma social, uma nova matriz cultural está progressivamente sendo construída, gerando as bases de um novo ciclo civilizatório.

O alicerce das transformações do mundo moderno constitui as redes tecnológicas digitais, como muito bem mostrou a trilogia sobre a economia da informação publicada por Manuel Castells, na década de noventa, que abordou o fenômeno tecnológico, como um processo de transformação social, econômica e política. xii

A transformação ocorre no contexto de uma intensa revolução cientifica e tecnológica mundial e num momento de profunda mudança no paradigma cientifico moderno.

As bases da produção da informação e do conhecimento mundial estão mudando radicalmente, dando lugar a uma nova ciência e a novas tecnologias, que mudarão profundamente o mundo nas próximas décadas, abrindo caminho para um novo ciclo civilizatório humano.

A cada instante em diversos lugares do mundo se observa um fluxo intenso de inovações cientifica e tecnológicas, a cibernética, a inteligência artificial, a robótica, a nanotecnologia, as ciências da vida, a biotecnologia e a engenharia genética, incluindo as formas mais sofisticadas de nanobiotecnologia que poderá transformar profundamente a anatomia e a fisiologia dos homens e dos seres vivos no planeta.

Alguém pode afirmar que houve um salto da tecnologia analógica para a tecnologia digital, cuja manifestação são as redes tecnológicas digitais, cada vez mais sofisticadas; podemos estar nas fronteiras de um novo salto, do modelo de tecnologia digital para um modelo tecnológico baseado na mecânica quântica e a biologia molecular, cujos resultados mais reluzentes pode ser a informática bionanotecnológica, cujos impactos é difícil perceber na atualidade.

Se observarmos com atenção a revolução silenciosa que está ocorrendo no mundo através do protagonismo social amparado pelas novas tecnologias, como o mostra o impulso do software livre e os diversos movimentos sociais que se espraiam no mundo levando adiante a consciência da sustentabilidade, da defesa da biodiversidade e a proteção da biosfera no planeta, pode-se sentir a grande transformação que está sofrendo o mundo.

O novo protagonismo social é construído por uma rede de novos atores sociais individuais e coletivos no mundo, que estão construindo uma inteligência coletiva global, um despertar humano diante da crise da sociedade moderna, diante das iniqüidades da economia e da necessidade de construir uma nova sociedade sobre bases da sustentabilidade e da permanência do meio ambiente.

O conceito de inteligência coletiva alcunhado por Pierre Lévy pode ajudar a sistematizar este complexo processo de construção de uma inteligência global através do intenso protagonismo social. xiii

Estaríamos assim construindo uma nova cultura fundada na lógica dos commons, seguindo o exemplo de movimentos como o software livre e as organizações sociais que lutam por a sustentabilidade do planeta. Estaríamos construindo uma inteligência coletiva global, gênese de um novo paradigma cultural e social da humanidade.

Construir uma inteligência coletiva global que integre o protagonismo dos novos atores sociais e reúna num marco cultural e civilizatório a grandes transformações sociais que vem ocorrendo no mundo nas últimas décadas constitui a inteligência do futuro, germe de uma nova civilização humana.

A inteligência coletiva global em construção poderá reconstruir o laço social na humanidade (embeddedness) e sentar as bases de um novo paradigma social para a humanidade. Este é o sentido do conceito de inteligência do futuro, como consciência da transformação e como imperativo de um novo paradigma social para a humanidade. xiv

NOTAS:

i Derrick Kerckhove. A Pele da Cultura. Lisboa: Relógio de Água, 1997, p. 244.

ii Sherry Turkle. Life on the Screen. Indentity in the Age of the Internet. New York: Simon & Schuster, 1995.

iii Lawrence Lessig. Free Culture. How Big Media use Technology and Law to Lock Down Culture and control criatividade. Licence Creative Commons disponible in http://www.free.culture.org.

iv A Fundação Mozilla se encontra no endereço http://www.mozilla.org.

v Umberto Eco. Los riegos de Wikipedia. Buenos Aires, jornal La Nación, publicado na edição impressa de 26 de Janeiro de 2006, disponível no endereço http://www.lanacion.com.ar.

vi Silvia Blanco. Twitter no basta para la revolución, Madrid, El País, 10 de julio de 2009.

vii Sobre o conceito esfera pública vide Jürgen Habermas. Direito e Democracia. Entre Facticidade e Validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2007.

viii Yochai Benkler. A economia política dos commons in Sergio Amadeu da Silveira et al. Comunicação Digital e a Construção dos Commons. Redes Virais, Espectro Aberto e as Novas Possibilidades de Regulação. São Paulo: Perseu Abramo, 2007, p. 12.

ix Yochai Benkler. The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom. Princeton: Yale University Press, 2006, p. 91.

x Sobre os acontecimentos de final de 2008 e início de 2009 do Steve Irwing contra a frota baleeira japonesa veja o relato dos tripulantes e do Capitão Paul Watson no endereço http://www.seasehpherd.org.

xiEuclides André Mance. Redes de Colaboração Solidária. Aspectos Econômicos-filosóficos: Complexidade e Libertação. Petrópolis: Vozes, 2002 .

xii Manuel Castells. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999, 3 vols.

xiii Pierre Lévy. A Inteligência Coletiva. Por uma Antropologia do Ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.

xiv Webblog Inteligência do futuro gerido por Raul Vargas Puigbonet se encontra na Internet no endereço http://raulpuigbonet.blogsport.com e no endereço http://www.raul.puigbonet.zip.

Bibliography/References



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