IV Congress of CiberSociety 2009. Analog crisis, digital future

Work Team F-35: Desenvolvimento da Comunicação Mediada

Interatividade: refletindo sobre a interação mediada por computador

Abstract

Resumo: Para discutir a interação mediada por computador, este trabalho propõe refletir sobre o relacionamento entre os interagentes (participantes da interação). A proposta é: não estudar nenhuma parte isoladamente, isto é, não se deter nas especificações técnicas dos sistemas informáticos, nem na complexidade das características do sujeito. Mesmo reconhecendo a importância e os resultados dos estudos sobre produção, recepção, bem como as recentes pesquisas sobre as tecnologias de informação e comunicação, o que interessa nessa discussão é destacar o relacionamento entre os participantes durante o desenrolar da interação. As discussões priorizarão o debate sobre o significado e abrangência dos conceitos de interatividade e interação. As reflexões de Alex Primo sobre interação mútua e interação reativa serão apropriadas para deslocar o foco que privilegia o estudo centrado no emissor ou no receptor, concentrando a investigação na interação, isto é, o que ocorre entre os interagentes, as mediações.

Paper contents

1. Introdução

O desenvolvimento das chamadas novas tecnologias, especialmente da rede mundial de computadores – Internet –, e sua utilização na esfera econômica e política tem modificado de diferentes maneiras e em diferentes graus as dimensões sociais, interferindo no relacionamento entre os indivíduos, entre grupos representativos da sociedade e entre Estado e cidadão. Para muitos, uma nova sociedade pode estar surgindo a partir das transformações trazidas pelas últimas conquistas humanas nas ciências, principalmente nas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Outros vêem as mudanças com menos otimismo, considerando o avanço tecnológico mais um estágio do desenvolvimento humano, sem grande interferência nas relações de poder.

Apesar de todo discurso sobre as novas tecnologias cada vez mais performáticas, muitas vezes chamadas inteligentes, o computador continua sendo uma máquina “burra”, funcionando a partir de impulsos elétrico/eletrônicos. Um conjunto de instruções codificadas, chamado software, organiza as tarefas de entrada e saída de informações – denominadas input e output – e realiza o processamento dessas informações, estabelecendo com o usuário um processo de comunicação. O software, criado por profissionais de informática, exerce o papel de agente e interage com o usuário através de interfaces (telas). A facilidade, ou não, de utilização dessas telas – entre outros fatores – vão determinar o grau de interatividade entre interagente1 humano e computador. A liberdade dos usuários e seus movimentos interativos são direcionados por um processo mecânico, automatizado, onde as ações possíveis são meras reações já previstas pelo software.

No contexto das novas tecnologias da informação e comunicação, o termo interatividade é intensamente explorado e parece, hoje, ligado inexoravelmente à informática. Para muitos, a interatividade é entendida como um fenômeno que despontou com a evolução dos computadores e suas interfaces, merecendo estudos aprofundados em diversas áreas do conhecimento. Porém, a partir de que ponto o relacionamento usuário-computador pode ser considerado uma ação interativa de fato?

Nos últimos anos, o termo interatividade passou a ser utilizado indiscriminadamente, tornando-se um adjetivo usado nos mais variados contextos, qualificando qualquer coisa que permita ao seu “usuário” algum tipo de participação, troca, intercâmbio. Hoje, o termo apresenta-se como um argumento de venda, agregando valor a produtos e serviços. Sinônimo de tudo que é inovador, moderno e tecnológico, o termo tornou-se tão elástico que seu sentido foi esvaziado.

A publicidade, por sua vez, estimula a chamada “indústria da interatividade”: cinema interativo, vídeo lousa interativo, boneca interativa, e por ai vai. E o consumidor, seja ele espectador ou usuário, deixa-se seduzir pela promessa de participação ou interferência no produto/serviço adquirido.

Embora o adjetivo “interativo” possa vender produtos e serviços, percebe-se que a qualidade de interação possível é muito variada e nem sempre satisfatória. Podemos comunicar-nos sem, entretanto, interagirmos em grau apreciável.

Partindo do princípio que a interação mediada por computador é uma forma de se comunicar, e que em um dos lados existe um interagente humano, seu estudo, para ser completo, requer a inserção das pesquisas sobre a comunicação interpessoal. Assim sendo, neste trabalho pretende-se abordar o tema “interatividade” partindo de uma reflexão sobre a interação humana e o processo comunicacional. O conceito de interação é fundamental para o entendimento do conceito de processo, na comunicação.

A comunicação representa uma tentativa de conjugar dois organismos, de cobrir a lacuna entre dois indivíduos pela produção e recepção de mensagens que tenham sentido para ambos. Por melhor que seja, é uma tarefa impossível. A comunicação interativa busca esse ideal (BERLO, 1999: 136).

Busca-se, desse modo, superar a idéia de que o interagente humano é apenas um disparador de programas “inteligentes”. Como afirma Sousa (1994),

Hoje não se compreende a vida das pessoas e dos grupos sociais sem a presença das tecnologias de comunicação, nem é possível reduzir a comunicação a seus veículos tecnológicos. Em conseqüência aparecem enfoques e tendências de análises da comunicação, que remetem às dimensões de processos, quer os sociais e políticos, quer os econômicos, nos quais se encontram as tecnologias e a própria comunicação como um cenário a ser resgatado na sua configuração atual e como objeto de estudo da comunicação (SOUSA, 1994, p.9).

Para discutir a interação mediada por computador, este trabalho propõe refletir sobre o relacionamento entre os interagentes (participantes da interação). A proposta é: não estudar nenhuma parte isoladamente. Mesmo reconhecendo a importância e os resultados dos estudos sobre produção, recepção, bem como as recentes pesquisas sobre as tecnologias de informação e comunicação, o que interessa nessa discussão é destacar o relacionamento entre os participantes durante o desenrolar da interação. Dessa forma, o foco não estará nos interagentes individuais, isto é, não se deterá nas especificações técnicas dos sistemas informáticos, nem na complexidade das características do sujeito. As discussões priorizarão o debate sobre o significado e abrangência dos conceitos de interatividade e interação.

2. Interação mediada por computador

A maior parte dos estudos sobre interação mediada por computador enfatiza apenas a capacidade e características da máquina. Sob esse enfoque, os seres humanos e as relações sociais envolvidas tornam-se coadjuvantes no processo. Essa linha de investigação sobre a implementação de sistemas informáticos prioriza pontos como velocidade de acesso e capacidade de armazenamento de informação, relegando ao plano secundário as ações humanas, cada vez mais subordinadas às interfaces oferecidas.

É preciso ampliar a forma de percepção da comunicação para refletir-se sobre a interação mediada por computador. O foco do estudo deve privilegiar a investigação das relações mantidas, observando, prioritariamente, o que se passa entre os interagentes, e não os participantes em separado.

Thompson (1998) entende que interações mediadas “implicam o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas, etc.) que possibilita a transmissão de informação e conteúdo simbólico para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo, ou em ambos” (THOMPSON, 1998, p.78). Portanto, se a interação face a face (presencial) implica um contexto de co-presença, o mesmo não ocorre com os envolvidos na interação mediada por computador, especialmente, via Internet.

Se a utilização das TICs permite respostas e interpretações simultâneas, reduzindo o constrangimento espaço/temporal nas relações interpessoais, por outro lado, provoca uma redução no fluxo de “deixas simbólicas” – complementos gestuais ou sonoros à comunicação como sorrisos, mudanças na entonação da voz, gestos, etc. As especificidades das “deixas simbólicas” da interação face a face, presencial – na qual os referenciais de tempo e espaço dos atores envolvidos são simétricos –, não podem ser atingidos pela interação mediada pelo computador.

Observar a interação como simples transmissão de informações é um caminho recorrente no estudo da interação mediada por computador, utilizado principalmente pelas teorias tecnicistas que tentam igualar – de maneira reducionista – a cognição e o comportamento humano ao computador e seu funcionamento.

Em qualquer situação interativa, reduzir a interação a aspectos meramente tecnológicos “é desprezar a complexidade do processo de interação mediada. É fechar os olhos para o que há além do computador” (PRIMO, 2007, p.30).

É preciso entender a interação a partir da relação que se estabelece entre os interagentes – fator muitas vezes desconsiderado nos estudos da comunicação mediada –, reconhecendo que esta vai sendo definida pelos participantes durante o processo. Como a interação é uma “ação entre”, cada agende depende do – e cria uma dependência no – outro. De acordo com Berlo (1999),

O termo interação denomina o processo de adoção recíproca de papéis, o desempenho mútuo de comportamentos empáticos. Se dois indivíduos tiram inferências sobre os próprios papéis e assumem o papel um do outro ao mesmo tempo, e se o seu comportamento de comunicação depende da adoção recíproca de papéis, então eles estão em comunicação por interagirem um com o outro (BERLO, 1999, p.135).

Dessa forma, o objetivo da interação é a “fusão” dos indivíduos envolvidos no processo comunicacional, o que possibilita exercitar a “capacidade de antecipar, de predizer e comportar-se de acordo com as necessidades conjuntas da pessoa e do outro” (BERLO, 1999, p.130), ou seja, exercitar a chamada capacidade empática. Assim, interação deve ser entendida como um processo no qual o indivíduo se engaja. Para evitar o que chamou de “visões distorcidas” do que seja comunicação, Berlo se dedica a esclarecer o que entende por processo, ampliando a definição encontrada nos dicionários: “Se aceitarmos o conceito de processo, veremos os acontecimentos e as relações como dinâmicos, em evolução, sempre em mudança, contínuos. Quando chamamos algo de processo, queremos dizer também que não tem um começo , um fim, uma seqüência fixa de eventos. Não é coisa estática, parada. É móvel. Os ingredientes do processo agem uns sobre os outros; cada um influencia todos os demais” (BERLO, 1999, p.23-24). Importante destacar que a relação desenvolvida entre os interagentes é dinâmica e tem a recursividade como característica transformadora.

Os autores da “pragmática da comunicação humana” – obra de Watzlawick, Beavin e Jackson – dedicaram-se a investigar a relação entre interagentes, mediada pela comunicação, valorizando a relação interdependente do indivíduo com seu meio e com seus pares. Nesse sentido, cada comportamento individual é afetado pelo comportamento dos outros, e a interação é vista como uma série de mensagens complexas trocadas entre as pessoas. Os pesquisadores afirmam que “não é possível não se comunicar”, pois todo comportamento é comunicação:

Em primeiro lugar, temos uma propriedade do comportamento que dificilmente poderia ser mais básica e que, no entanto, é freqüentemente menosprezada: o comportamento não tem oposto. Por outras palavras, não existe um não-comportamento ou, ainda em termos mais simples, um indivíduo não pode não se comportar. Ora, se está aceito que todo o comportamento, numa situação interacional, tem valor de mensagem, isto é, é comunicação, segue-se que, por muito que o indivíduo se esforce, é-lhe impossível não comunicar (WATZLAWICK; BEAVIN; JACKSON, 1967, p.44-45).

Primo (2007) concorda com Watzlawick et all ao abordar o diálogo interpessoal. O autor entende que o comportamento de um interagente afeta o do outro e vice-versa, ocasionando transformações sucessivas. Essas transformações não são predeterminadas, pelo contrário, “a interação demonstra um alto grau de flexibilidade e indeterminação. E devido a essa flexibilidade, os interagentes podem lidar com a novidade, com o inesperado, com o imprevisto, com o conflito” (PRIMO, 2007, p.65).

Assim, pode-se afirmar que os comportamentos do receptor não ocorrem independentemente dos comportamentos do emissor (fonte) e vice-versa, pois, em qualquer situação de comunicação – incluindo a interação mediada por computador –, fonte e receptor são interdependentes.

Existe uma relação de interdependência na interação, afirma Berlo (1999), onde cada agente depende do outro, isto é, os agentes influenciam-se mutuamente, variando em grau, qualidade e de contexto para contexto. O conhecimento do sujeito depende de seu contínuo aprendizado em relação ao seu meio. Sendo assim, “Não há, pois, como separar esse sujeito de sua cultura, de seus pares ou opositores, da política, de suas crenças religiosas (ou ausência delas), da linguagem, das instituições etc” (PRIMO, 2007, p.72). Resumindo, não há como isolar o sujeito da comunicação do contexto onde esta se dá. O autor alerta, porém, para o risco de entender-se interação apenas como ação e reação. Ao se adotar o paradigma ação-reação, adota-se também a visão do processo de uma forma linear, de mão única, onde a fonte é responsável pela emissão da mensagem, cabendo ao receptor apenas o feedback – que teria como única função comprovar a “eficácia” da mensagem transmitida.

Os termos “ação” e “reação” rejeitam o conceito de processo. Implicam que há um começo na comunicação (o ato), um segundo acontecimento (reação), acontecimentos subseqüentes, etc., e um fim. Implicam a interdependência dos acontecimentos dentro da seqüência, mas não implicam o tipo de interdependência dinâmica que se compreende no processo da comunicação (BERLO, 1999, p.117).

Embora defina interação como “ideal da comunicação, a meta da comunicação humana”, Berlo (1999) afirma que, “grande parte do nosso comportamento social envolve a tentativa de encontrar substitutos para a interação, de encontrar bases de comunicação que consumam menos energia” (BERLO, 1999, p.130). Encontra-se aí uma das premissas para o avanço vertiginoso das TICs.

3. Interatividade

Responder o que é interatividade não é uma tarefa simples. Entretanto, pretende-se aqui levantar alguns aspectos importantes para o seu tratamento, principalmente, no que se refere ao processo de comunicação entre os interagentes.

Não resta dúvida que o termo “interatividade” popularizou-se graças às campanhas publicitárias de venda dos mais diversos produtos, além, é claro, do próprio discurso da indústria de informática e seu público-alvo. Dessa forma, “Como o mercado aproveita-se de todo avanço tecnológico para ampliar o impacto comercial das modas, o termo ‘interatividade’ tem sido usado de maneira abusiva como modismo, como slogan de venda” (PRIMO, 2007, p.53). Porém, nota-se também no meio acadêmico um excesso de definições e tipologias, prevalecendo os estudos com visão tecnicista, apoiados prioritariamente na Teoria da Informação. E é justamente a articulação entre a visão tecnicista e a Teoria da Informação que fundamenta grande parte dos estudos sobre a interatividade e a interação mediada por computador:

Tendo em vista o caráter tecnicista e matemático da Teoria da Informação, tal visão de comunicação disfarça-se como adequada para o estudo da interação mediada por computador. Emissor-canal-receptor se transformam em webmaster-interface-usuário. Associando-se a essa concepção, o par comportamentalista de estímulo/resposta traduz-se como input/output no contexto informático [...] Nesse contexto, a quantidade de metáforas (a mente como um computador, uma máquina que conversa etc) toma conta da arena, fazendo a diferenciação entre interação humana e as trocas entre máquinas parecer irrelevante” (PRIMO, 2007, p.73).

A maneira predominante como a interatividade é vista em ambientes informáticos tem sido fortemente influenciada pelos paradigmas mecanicistas e as perspectivas lineares da comunicação. As discussões colocam o foco unicamente sobre a máquina. Já as tentativas de explicar a relação do usuário – interagente humano – com o computador destacam sempre as possibilidades do software, posicionando o usuário como agente passivo das ações racionalizadas pela tecnologia.

De fato, a relação de predomínio do emissor sobre o receptor é a idéia que primeiro desponta, sugerindo uma relação básica de poder, em que a associação entre passividade e receptor é evidente. Como se houvesse uma relação sempre direta, linear, unívoca e necessária de um pólo, o emissor, sobre o outro, o receptor; uma relação que subentende um emissor genérico, macro, sistema, rede de veículos de comunicação, e um receptor específico, indivíduo, despojado, fraco, micro, decodificador, consumidor de supérfluo; como se existissem dois pólos que necessariamente se opõem, e não eixos de um processo mais amplo e complexo, por isso mesmo, também permeado por contradições (SOUSA, 1995, p.14).

Citando Rabaté & Lauraire, Silva (2000) entende que o semantismo de base da palavra “interatividade” é formado por dois componentes lexemáticos: “inter” e “ativo-atividade”:

O primeiro lexema vem do latim, significando “entre” e pode ser tomado em vários valores semânticos: espaçamento, repartição, relação recíproca, etc. O segundo está constituído sobre a base de uma relação de antinomia ativo vc passivo e pode ser tomado em sua importância cultural que inclui conotações afetivas e morais, onde o “ativo” se vê valorizado e o “passivo” se vê desvalorizado como aquele que “suporta”, que “sofre”. Daí as apropriações do termo nos discursos socioideológicos (SILVA, 2000, p.87-88).

Considerando “vastíssimo” o campo semântico do termo interação, Silva (2000) conclui ser quase impossível conferir-lhe novas especificidades. Porém, quanto à afirmação de G. Multigner – para quem o termo interação “transmuta-se em interatividade no campo da informática” –, Silva faz alguns questionamentos: “que motivos teriam levado a tal transmutação?; por que ocorreu exatamente no campo da informática?; teria sido a necessidade de reservar a um termo novo a especificidade que o termo interação não pode comportar devido à sua extensão semântica?” (SILVA, 2000, p.97). O autor arrisca algumas respostas:

Como o conceito de interação veio da física, foi incorporado pela sociologia, pela psicologia social e finalmente, no campo da informática, transmuta-se em interatividade, permanece a indagação: que aspectos específicos teriam motivado tal transmutação? Talvez a necessidade de garantir ao termo “interatividade” singularidades dispersas no conceito vasto de interação. Talvez a necessidade de lhe conferir aspectos novos ausentes em todas as acepções do termo “interação” (SILVA, 2000, p.105).

Ainda sobre a questão da “transmutação” da interação em interatividade, Silva (2000) dialoga com F. Tinland sobre a especificidade da interatividade e, deixando a polêmica de lado, propõe-se a mapear o perfil dos conceitos – interação e interatividade – e “jamais defender a migração de um conceito para o outro” (SILVA, 2000, p.97). Dessa forma, o autor define interatividade como,

[...] a disponibilização consciente de um mais comunicacional de modo expressivamente complexo, ao mesmo tempo atentando para as interações existentes e promovendo mais e melhores interações – seja entre usuário e tecnologias digitais ou analógicas, seja nas relações “presenciais” ou “virtuais” entre seres humanos (SILVA, 2000, p.20).

Em contrapartida, é comum encontrar referências ao “diálogo” como característica da interatividade, embora esse termo seja normalmente usado de forma metafórica – uma das metáforas utilizadas em ambientes informáticos é, por exemplo, a comparação de diálogo a mecanismos de busca na Internet –, revelando generalização indiscriminada do conceito “interativo”. São raros os autores que destacam a importância do diálogo como uma prática real de conversação, onde cada rodada modifica os interlocutores, suas mensagens, seus comportamentos, alterando o próprio relacionamento estabelecido entre eles. Conclui-se então que, para ocorrer a interatividade é necessário que os comunicadores se respondam, e que uma resposta em uma seqüência dependa das transações anteriores e do conteúdo intercambiado.

4. Interação reativa e interação mútua

Dentre os pesquisadores que se dedicam ao tema interação/interatividade em ambientes informáticos, Primo (2007) é o que apresenta uma concepção mais abrangente ao abordar a interação mediada por computador. Após investigar variados enfoques sobre o termo interatividade – e constatando que a maioria dos autores utiliza argumentos demasiados “tecnicistas” – Primo, utilizando os conceitos da pragmática da comunicação interpessoal, decide adotar o termo interação como “ação entre”. Centraliza, dessa forma, o foco de sua análise na relação estabelecida entre os interagentes – entendidos como “participantes” do encontro –, e não nas partes que compõem a relação estabelecida. O contexto, diz o autor, é outro aspecto importante que deve ser valorizado, destacando sua influência na interação.

Em suas reflexões, Primo (2007) propõe o deslocamento do foco que privilegia o estudo centrado no “emissor” ou no “receptor”, concentrando a investigação na interação, isto é, o que ocorre entre os interagentes, as mediações.

A intenção não é limitar a discussão sobre reações que o computador pode oferecer em um ambiente mediado, mas destacar as relações que ocorrem entre as pessoas mediadas pelo computador, especialmente pela Internet. Primo e Cassol (1999), explorando o conceito de interatividade, entendem que:

Se de um lado, os paradigmas mecanicistas e lineares fundamentam interfaces de interação tipicamente reativas e restritivas, perspectivas como a construtivista e da pragmática da comunicação valorizam a construção entre os interagentes, isto é, uma interatividade não-previsível e de conteúdos que emergem durante a relação (que não estão prontos a priori como no modelo anterior) (PRIMO ; CASSOL, 1999, p.77).

Seguindo uma abordagem sistêmico-relacional, Primo (2007) define dois tipos de interação mediada por computador – que podem perfeitamente ocorrer de forma simultânea –: a interação mútua2 e interação reativa. De acordo com o autor a interação mútua é caracterizada por relações interdependentes e processos de negociação, na qual cada interagente participa da construção inventiva da interação, afetando-se mutuamente, enquanto a reativa é limitada por relações determinísticas de estímulo e resposta.

A discussão sobre princípio de abertura dos sistemas é utilizada por Primo (2007) para determinar os dois tipos de interação.

Assim, a diferenciação entre sistema aberto e fechado leva em conta vários fatores: um sistema aberto permite a troca com o ambiente, já um sistema fechado não é afetado pelo meio; se um sistema fechado e estável pode chegar ao equilíbrio puro, o mesmo não ocorre com um sistema aberto, embora este possa atingir a estabilidade (mas nunca um equilíbrio perfeito); o estado de um sistema fecha­do é necessariamente influenciado pelas condições iniciais, por outro lado, um sistema aberto não depen­de de suas condições iniciais para atingir um estado estável. Os exemplos de interação mútua referem-se a sistema aberto, enquanto a interação reativa exibe exemplos pertencentes ao conceito de sistema fechado.

A interação mútua vai além do automatismo da ação-reação e do input determinado e único. Abrange o complexo de relações que ocorrem entre os interagentes e leva em conta a complexidade dos contextos sociais, culturais, temporais, físicos, também dos comportamentos (intencionais ou não, verbais ou não).

Os interagentes, participantes de interação mútua, reúnem-se em torno de problematizações contínuas, cuja solução (momentânea) inventada pode fazer parte de problematizações futuras. Assim, a interação será sempre influenciada por traços deixados por interações anteriores. Ao ser confrontado com novas situações, o indivíduo movimenta experiências passadas, esquemas cognitivos, crenças culturais, etc. Além disso, afirma Primo (2000),

A própria relação entre os interagentes é um problema que motiva uma constante negociação. Cada ação expressa tem um impacto recursivo sobre a relação e sobre o comportamento dos interagentes. Isto é, o relacionamento entre os participantes vai definindo-se ao mesmo tempo em que acontecem os eventos interativos (nunca isentos dos impactos contextuais e relações de poder). Devido a essa dinâmica e em virtude dos sucessivos desequilíbrios que impulsionam a transformação do sistema, a interação mútua é um constante vir a ser, que se atualiza através das ações de um interagente em relação à(s) do(s) outro(s), ou seja, não é mera somatória de ações individuais (PRIMO, 2007, p.228).

Em contraponto, a interação reativa – inserida em um sistema fechado – possui relações unilaterais e line­ares pré-estabelecidas, permitindo pouca ou nenhuma condição do reagente alterar (influir em) o agente. Trabalhando no automatismo, os sistemas reativos não podem apreender (ou apreendem parcialmente) a maioria das informações dessa complexidade que envolve a interação plena.

No sistema reativo as trocas, tanto o estímulo quanto a resposta, são definidas previamente. Esse cenário pré-determinado de trocas rígidas, imutáveis, padronizadas não permite a interação plena, pois, no processo comunicacional os signos estão sempre em construção e resignificação nos contextos em que ocorrem.

Diferentemente das interações mútuas (cuja característica sistêmica de equifinalidade se apresenta), as reativas precisam estabelecer-se segundo determinam as condições iniciais (relações potenciais de estímulo-reposta impostas por pelo menos um dos envolvidos na interação) – se forem ultrapassadas, o sistema interativo pode ser bruscamente interrompido (PRIMO, 2007, p.228-229).

Partindo desses apontamentos, pode-se afirmar que a interação reativa depende do estabelecimento antecipado das alternativas viáveis de entrada e saída e uma delimitação prévia das trocas possíveis. Prevalece, assim, o equilíbrio estático, pois, “[...] em uma interação reativa, um desequilíbrio (como um input não previsto em um programa) pode bloquear a interação, em virtude do travamento do software” (PRIMO, 2007, p.121).

Já a interação mútua se define gradualmente no decorrer do relacionamento. Além disso, os comportamentos comunicativos dos interagentes não são rigidamente previstos por uma regra. Ao contrário, na interação mútua o relacionamento é reinventado a cada novo embate durante o intercâmbio, caracterizando-se pelo equilíbrio dinâmico – fruto da constante negociação entre os interagentes – no transcorrer de contínuos desequilíbrios. Cabe afirmar que, as interações mútuas tornam-se complexas e desenvolvem-se diante dos desequilíbrios, e estes conduzem sempre a novas atualizações. Dessa forma, o conflito não deve ser entendido apenas como algo prejudicial a um relacionamento, mas como possibilidade de sua revolução.

Os processos de negociação – presentes na interação mútua – são fundamentais nas relações interpessoais. Partindo do princípio que os interagentes são diferentes, a negociação torna-se um processo de comunicação para a resolução de diferenças. São os sucessivos processos de negociação que vão definindo a relação. Embora cada parte interagente defenda sua posição, a negociação estabelecida possibilita a realização de trocas sociais. Essas trocas, porém, nem sempre resultam em maior aproximação entre os interagentes, pois além da cooperação, comunhão e integração, as relações necessitam maior compromisso, principalmente, disponibilidade para a contínua renegociação das posições assumidas.

5. Conclusão

Impressiona o número de pesquisadores que, mesmo filados aos estudos da comunicação, se rendem facilmente ao discurso espetacularizado das novas tecnologias. A interação mediada por computador recebe de grande parte desses pesquisadores um tratamento teórico que destaca apenas as características técnicas da máquina: banco de dados, arquitetura de rede, capacidade de processamento, programas, linguagens, e tudo mais que estiver relacionado com tecnologia. Esse enfoque tecnicista direciona a discussão para a análise da “capacidade do canal”, deixando de lado a complexidade do processo comunicacional.

Por outro lado, a valorização da interação em si possibilita uma abordagem teórica que prioriza o que acontece entre os interagentes, com foco na qualidade da relação. Abordar o tema sob inspiração dos estudos da comunicação humana – entendendo que as relações se dão de forma mútua e negociada – permite destacar a importância do agente humano, limitando a ênfase sobre a capacidade da máquina. Em outras palavras, permite enxergar o indivíduo (agente humano) em frente ao computador, interagindo com telas e programas informáticos.

O primeiro ganho do usuário – interagente humano – com as novas tecnologias, especialmente a Internet, é a “liberdade”, propagam os teóricos tecnicistas, otimistas com as recentes conquistas das redes de telecomunicação. Ora, de nada adianta alardear a “liberdade” dos usuários para clicar e navegar por onde quiser se, na maioria dos ambientes informáticos, os limites estabelecidos pela programação das máquinas são rígidos, não permitindo ao interagente ultrapassá-los.

Não é demais lembrar que o sistema informático possui gênese nas ciências exatas e funciona exclusivamente por meio de operações binárias matemáticas, constituindo-se num sistema reativo. Assim, a própria concepção dos programas de computador não permite considerar relevante o contexto social, noções de realidade, processos significativos ou interpretativos. Também não pode abranger processos como resignificação e contextualização em constante atualização, características presentes na interação mútua. Conclui-se que a interação entre agente humano e computador não pode fugir da dualidade “sim-não”, “ligado-desligado” ditada pela máquina.

Como vimos, para que possam interagir, os sistemas informáticos necessitam de algum dado considerado correto ou verdadeiro, isto é, o interagente humano deve entrar com inputs reconhecíveis pela máquina. Se o input não for satisfatório o computador pode ignorar a entrada ou, de maneira arbitrária, “travar” seu funcionamento e interromper a interação. Em contrapartida, mesmo possuindo convicções distintas, os interagentes humanos, participantes de interação mútua – presencial – poderão assumir novas posições e reconsiderar suas “certezas temporárias”, e até se contradizer, sem que isso prejudique a interação.

No atual estágio da evolução tecnológica, a interação mútua em ambientes informáticos – que seria ideal para o governo eletrônico – só é possível para as situações em que o computador é utilizado como meio de comunicação. Objeto do campo de pesquisa da inteligência artificial, o computador como interagente ativo e criativo, capaz de manter percepções e interpretações contextualizadas e inteligentes, ainda é um projeto reservado ao futuro.

NOTAS:

1 Alex Primo (2007) justifica a utilização desse termo: “Trata-se de uma tradução livre do conceito interactant, utilizado em pesquisas de comunicação interpessoal. Conforme comentário anterior, ‘interagente’ será utilizado no sentido de evitar-se termos reducionistas, como ‘usuário’, ‘emissor’ e ‘receptor’” (PRIMO, 2007: 56). De qualquer maneira, esses termos serão utilizados no decorrer deste trabalho sempre houver a necessidade de enfatizar um dos atores da interação.

2 A palavra “mútua” foi escolhida para salientar as modificações recíprocas dos interagentes durante o processo. Ao interagirem, um modifica o outro. Cada comportamento na interação é construído em virtude de ações anteriores. A construção do relacionamento, no entanto, não pode jamais ser prevista. Por conseguinte, o relacionamento construído entre eles influencia o comportamento de ambos. Dessa forma, justifica-se a escolha do termo “mútua”, visando salientar o enlace dos interagentes e o tríplice impacto simultâneo que cada ação oferece: ao interagente, ao outro e ao relacionamento (PRIMO, 2007, p.57).

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