IV Congress of CiberSociety 2009. Analog crisis, digital future

Work Team F-33: Identidades e relações em linha

Memória criativa na blogsfera entre as esferas pública e privada da Internet

Author/s


Abstract

Discute as possibilidades de construção de uma memória criativa com base em características referentes às trocas comunicacionais que ocorrem nos blogs da internet. De que forma alguns princípios constituintes da Web 2.0, tais como livre-expressão, cooperação e autoria compartilhada, podem influenciar a configuração dos modos de subjetivação contemporâneos? Que questionamentos e proposições, relativos à noção de Memória Social, podem ser suscitados por uma subjetividade fundamentada em outras concepções de espaço e temporalidade? Ressalta-se que as novas formas de reflexividade surgem concomitantemente às alterações tecnológicas, necessitando, porém, da construção de mecanismos institucionais para naturalizarem-se no 'corpo social'. Considera-se a internet como uma instituição. Desta forma, destacam-se alguns de seus padrões capazes de instituir um modelo cognitivo, uma espécie de 'pensamento da internet' que seria baseado em um conjunto específico de normas e maneiras de agir. Adota-se uma postura metodológica baseada em alguns parâmetros constitutivos do campo conceitual da 'historiografia do cotidiano'. Seguindo esta linha de pensamento, ressalta-se a importância de algumas práticas culturais do ciberespaço que se caracterizariam enquanto práticas cotidianas surgidas nos usos do espaço público e que são fundamentais para a construção de identidades individuais e coletivas. De que forma, porém, a cibercultura evidencia e acentua os processos transindividuais inerentes à construção da Memória Social? Este artigo levanta algumas destas questões, a partir da investigação dos diversos usos da Blogsfera, em meio à configuração de um campo tensional entre o público e o privado que favorece a reflexividade baseada em princípios de comunicação pós-massivos, como criatividade e horizontalidade.

Paper contents

INTRODUÇÃO

Este trabalho parte da premissa de que a Internet pode ser considerada uma Instituição. Na defesa desta afirmativa, refletiremos sobre as práticas culturais surgidas com os usos da Internet, constituintes daquilo que configura uma cultura específica, ou como nomeia Pierre Lévy (1999) Cibercultura. Pretendemos investigar de que forma estas práticas instituem um modelo cognitivo específico, uma espécie de 'pensamento da Internet' que seria baseado em um conjunto de normas e maneiras de agir que são característicos dessa Instituição.

Nossa análise restringir-se-á a um âmbito da Internet onde podemos perceber melhor de que forma o pensamento institucional influencia as trocas comunicacionais e produz um tipo de memória que nomeamos de criativa, para contrapor à idéia comumente aceita de que a memória é constituída apenas do passado. A análise dos usos dos blogs nos permite entrar em contato com um conjunto de práticas culturais, que constituem um espaço virtual específico, a Blogsfera. O conceito de práticas culturais será entendido aqui segundo Michel de Certeau (1998), que procura enfatizar seu caráter tácito e inconsciente, capaz de compor um sistema de valores estruturantes das identidades individuais e de grupo.

Teremos como objetivo específico ressaltar a discussão sobre as fronteiras entre espaço público e espaço privado nos blogs. A partir dos conceitos de 'esfera pública' e 'esfera privada' em Jürgen Habermas (1983), pensaremos questões como a privatização do espaço público, a publicização da vida privada e outras tensões contemporâneas que dizem respeito à produção de conhecimentos e à constituição da memória coletiva no espaço virtual. Vale ressaltar, que entendemos ser esta discussão de grande valia para refletirmos sobre a constituição do sujeito contemporâneo.

Segundo Rose Meire Carvalho de Oliveira (2009), os blogs constituiriam, na contemporaneidade, espaços para os indivíduos se dizerem, criarem uma consciência de si e sobre si no mundo. Nesse sentido, só podemos pensar as interfaces entre o público e o privado nos blogs, justamente porque a Internet pode ser considerada uma instituição, com normas, práticas culturais e regras específicas, capaz de instituir novos limites, calcados não mais numa separação rígida entre público e privado, mas na constituição de uma rede de sociabilidade horizontal, baseada numa nova compreensão de Si e do Outro.

Estes novos processos de sociabilidade trariam também novos questionamentos para o sujeito contemporâneo, tanto no que se refere à constituição de subjetividades, quanto sua expressão na coletividade. É pertinente, então, lançarmos a questão da construção de uma memória coletiva, fundada nas possibilidades de uma rede de relacionamentos virtual. A existência da web, enquanto espaço de endereçamento que só existe no plano virtual, recoloca para outros espaços ditos reais, a questão da virtualidade, da possibilidade potencial, da transitividade, ressaltando a condição de construção processual do cotidiano e, sobretudo, de uma Memória Criativa.

O AMBIENTE DA VIRTUALIDADE

O surgimento sócio-histórico de nosso objeto de pesquisa é apresentado por Castells (1999), que o contextualiza, a fim de analisar as conseqüências sociais involuntárias da tecnologia. A Internet surge durante a Guerra Fria, a partir de um esquema imaginado durante a década de 1960, como forma de impedir a destruição do sistema norte-americano de comunicação pelos soviéticos, em caso de guerra nuclear. Desta forma, surge a ARPANET, rede estabelecida pelo Departamento de Defesa dos EUA, baseada numa arquitetura de rede que não poderia ser controlada a partir de nenhum centro, sendo composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas. Esta seria a base de uma rede de comunicação horizontal global, composta de milhares de redes de computadores. Essa rede foi apropriada por indivíduos do mundo inteiro, com objetivos bem diferentes de uma instinta Guerra Fria.

Os blogs constituem a ferramenta mais popular da web social ou web 2.0, sobretudo, por sua facilidade de produção e uso de conteúdos. O conceito de web social foi cunhado por Tim O'Reilly em 2004, num contexto de crise das empresas que realizavam investimentos na Internet. As empresas O'Reilly e MediaLab International realizaram uma análise das empresas que haviam sobrevivido à crise, englobando-as por uma etiqueta, um termo comum - web 2.0, para distingui-las das empresas denominadas web1.0, que englobavam aqueles sites web que não haviam tido o crescimento esperado. Foi o próprio O'Reilly que, em um artigo publicado de sua empresa, estabeleceu os três pilares de funcionamento da web social, quais sejam: 1- a web como plataforma: em que já não se programa para um sistema operativo concreto, como as aplicações desktop, mas sim, para serem acessíveis de qualquer computador conectado a internet e a um navegador web; 2- remesclar a web: ou mesclar conteúdos e compartilhar recursos; esta característica referindo-se aos mash-ups ou aplicações web híbridas, onde se mesclam informações de diferentes sites; e, 3- arquitetura da participação: quando o usuário se converte em protagonista e não apenas consome informação, mas cria conteúdos, ampliando sua participação. (ARNAL, 2008 p:7-9)

Segundo Lemos (2008), a web 2.0 (blogs, microblogs, podcasts, wiki...) permite ainda agregar mapas, fotos, vídeos e mobilidade aos blogs, revelando, assim, experiências de ancoragem nos “espaços de lugar”que criam a possibilidade de testemunho de acontecimentos, importantes ou banais, ao vivo, de troca de informações para reforço comunitário e para a gestão do tempo e do espaço no cotidiano.

O termo blog vem de weblog, contração dos termos web e log (arquivo web) e foi usado pela primeira vez por John Barger em 17 de dezembro de 1997, para descrever a atividade de logging the web, referindo-se a um conjunto de sites que colecionavam links interessantes na web, como o seu Robot Wisdon (AMARAL,RECUERO& MONTARDO, 2009.p:28).

Os blogs podem ser definidos do ponto de vista estrutural e, nesta concepção, são entendidos como ferramenta de publicação caracterizada pelo seu formato e os leitores quase sempre possuem a opção de comentar em postagens individuais. A estrutura do blog é constituída por textos curtos (posts) publicados no topo da página em ordem cronológica reversa e frequentemente atualizados, bem como uma possível lista de links laterais indicando sites similares. A definição funcional privilegia sua função enquanto ferramenta de comunicação, utilizada como forma de publicar informações para uma audiência. Já a concepção dos blogs como artefato cultural, vai entendê-los enquanto repositório das marcações culturais de determinados grupos no ciberespaço. (AMARAL, RECUERO & MONTARDO, 2009. p:29-33)

Para mostrar que esse não é um fenômeno menor, forneço alguns dados para compreender a sua amplitude. Em dezembro de 2007, Technorati contava 112 milhões de blogs. A cada dia, são criados mais de 175 mil novos e produzidos 1,6 milhões de posts (cerca de 18 por segundo). Últimos dados do State of the Blogsphere de 2006 indicavam que o número de blogs dobra a cada 5,5 meses e que um blog é criado a cada segundo todo dia. Em relação ao Brasil, estima-se que há entre 3 a 6 milhões de blogueiros/blogs e 9 milhões de usuários (as estatísticas variam muito em fontes como Ibobe/NetRatings, Intel, entre outras), o que corresponde a quase metade dos internautas ativos no país. Nos EUA, por exemplo, 64% dos adolescentes participam de alguma forma de criação de conteúdo on-line. Os blogs são mantidos por 28% deles, e 39% disponibilizam e compartilham suas próprias criações artísticas on-line (fotos, vídeos, textos, etc.). Os dados são de um estudo de 2006 realizado pelo Pew Internet & American Life Project. Matéria do Estadão On-line aposta que, em 2012, 25% do conteúdo da internet será criado pelos próprios usuários. Essa é uma das diferenças entre as mídias de função massiva e as mídias de função pós-massiva. Segundo a pesquisa, “...as pessoas terão um desejo genuíno não só de criar e compartilhar seu próprio conteúdo, como também de fazer remixagens e mashups, e passá-los adiante em seus grupos – numa forma de mídia social colaborativa (...)”. Artigo do francês Telerama de fevereiro de 2008 informava que os blogs ultrapassaram o jornal The New York Times como fonte para busca das informações mais importantes da atualidade. (LEMOS, 2008. p:11)

A contextualização histórica dos conceitos recortados para nossa discussão visou lançarmos um olhar para eles com maior rigor, lembrando-nos da dinâmica existente entre o contexto de criação do conceito e seus diversos usos sociais, bem como, de seus processos de institucionalização, tema central deste trabalho.

O PENSAMENTO INSTITUCIONAL DA INTERNET

Até que ponto a Internet enquanto Instituição pode influenciar a cognição humana e esta, após absorver um pensamento institucional específico, pode interferir naquela? Mary Douglas (1998) busca refletir sobre a necessidade de uma teoria das instituições que modifique a atual visão não-sociológica da cognição humana, como também de uma teoria cognitiva que ofereça um suplemento às debilidades da análise institucional. Em Como as Instituições Pensam, podemos perceber que a autora faz tanto uma análise sociológica da cognição, quanto uma análise cognitiva da instituição, revelando-nos o domínio exercido pelas instituições em nossos processos de classificação e de reconhecimento.

Mary Douglas retoma a epistemologia sociológica de Durkheim para propor as bases de um pensamento institucional. Poderíamos falar, então, de uma epistemologia cibersociológica? Propomos tal questão, a fim de que possamos avançar nossa análise, no sentido de fundamentar as origens das práticas culturais da web, numa epistemologia que dê conta de relacionar essas práticas cotidianas com uma forma de pensar específica. Falar de um pensamento da internet não implica em remetê-lo à artificialidade de uma conexão de máquinas, mas sim, entender que as categorias de funcionamento social propostas pela Instituição Internet funcionam como categorias de pensamento, ao tempo em que possibilitam a existência de uma comunicação cibersocial mediada por computador. É possível que a cibersociedade do mundo virtual retroalimente a sociedade do mundo real, na medida em que uma propõe à outra novas formas de entendimento do ser humano.

Ainda em Douglas (1998), vemos que Fleck estabelece o conceito de estilo de pensamento, que estaria muito próximo da idéia de um esquema conceitual, que controlaria a cognição individual com tal rigor a ponto de excluir a comunicação transcultural. O que seria um estilo de pensamento da internet? Baseando-nos nas análises de Durkheim e Fleck, retomadas por Douglas em Como as Instituições pensam podemos conjecturar a existência de esquemas conceituais próprios da internet que limitariam e controlariam a cognição individual.

Podemos perceber também, a grande contribuição apresentada por Taylor (apud DOUGLAS, 1998), ao entender a ordem social como um bem público. Em seu estudo sobre comunidades, destacam-se características extra-racionais na manutenção deste bem, como a cooperação voluntária e o processo de socialização, nos quais ocorrem sanções coletivas como forma da ação coletiva para manutenção da ordem. Transpondo esta noção para o espaço virtual, podemos supor que a Instituição Internet teria preocupação cada vez maior em manter a ordem cibersocial vigente, utilizando-se de métodos como a cooperação voluntária e a aplicação de sanções coletivas.

Os blogs, por exemplo, apresentam ferramentas que facilitam a troca de conteúdos e experiências, e qualquer referência ao conteúdo de um blog é facilmente rastreada por sites de busca. No âmbito das discussões referentes à questão dos direitos autorais na internet, surge em 2001, a Creative Comons, instituição sem fins lucrativos, que tem como objetivo, trazer ao sistema de copyright moderação, equilíbrio e compromisso, levando em conta, igualmente a inovação e a proteção do autor (FOSCHINI & TADDEI, 2007) Temos, assim, um exemplo de como a internet, enquanto instituição, preocupa-se em manter a ordem cibersocial.

Durkheim e Fleck (apud DOUGLAS, 1998) levam em conta o problema epistemológico referente ao modo como nascem os sistemas de conhecimento, considerando-os como bens coletivos que a comunidade está construindo em conjunto. Não é irrelevante supor que, a internet enquanto Instituição possa criar sistemas de conhecimento. Desta forma, faz-se fundamental pensarmos uma epistemologia cibersocial, para que não percamos de vista o problema das origens dos sistemas de conhecimento, e, para que possamos ampliar nossa capacidade de pensamento crítico e ativo, ou melhor, criativo, sobre os fenômenos do mundo virtual, que alargam a cada dia suas capacidades de ação.

Um grupo social gera, sem intenção de fazê-lo, pensamentos que mantém sua própria existência, alcançando, desta forma, a ação coletiva, produto de um universo cultural comum, capaz não só de criar um bem coletivo, como também, de manter o acordo entre seus membros. A partir desta análise, podemos supor que a interação entre blogueiros - indivíduos que criam blogs, bloguers - indivíduos que os acessam, e, ainda trolls - indivíduos que praticam xingamentos ou flamings (LEMOS, 2009), criem uma prática cultural comum a esta coletividade.

Este universo de pensamento construiria um estilo de pensamento comum, que, posteriormente, controlaria e institucionalizaria as suas práticas. Estes indivíduos passariam a inserir um modelo de ordem social, ou melhor, cibersocial, em suas mentes, e, somente após esta etapa, seria possível a constituição de uma cibersociedade. Afinal, se estabelecermos analogia com Durkheim, devemos considerar que o laço social elementar só se forma quando os indivíduos inserem em suas mentes um modelo da ordem social.

Em relação ao aspecto convensacional da Instituição Internet, poderíamos dizer que algumas convenções estabeleceram-se a partir de um comum acordo entre os usuários da rede, ou internautas. Nesse sentido, poderíamos também afirmar que convencionou-se uma espécie de espírito da rede, calcado, segundo Antoun (2009) em determinados princípios, como cooperação, colaboração e livre expressão. Estas convenções encontrariam nos blogs um espaço propício para se institucionalizarem enquanto prática social.

ESFERAS PÚBLICA, PRIVADA E BLOGSFERA

Pensaremos agora as novas configurações das esferas pública e privada que surgem a partir das práticas e usos dos blogs. Vamos supor a possibilidade de existência de uma nova esfera de ação social do sujeito, constituindo-se não necessariamente como uma esfera exclusivamente pública ou privada, mas como um território onde estas fronteiras estão em processo de reconfiguração, segundo tensões estabelecidas a partir de subjetividades em constante processo de formação, no cenário específico da Blogsfera.

Para construir uma reflexão sobre as tensões contemporâneas referentes ao público e o privado nos apoiaremos no pensamento de Jürgen Habermas (1983) que concebera que após a constituição da esfera pública burguesa, as pessoas privadas estariam fadadas a agir politicamente. Podemos perceber, no entanto, que a dinâmica da esfera pública vêm se modificando ao longo do tempo. Para Habermas, este novo espaço social é concebido como uma esfera das pessoas privadas que se relacionam entre si como público.

A esfera pública burguesa surge no século XVIII, a partir do campo tensional entre Estado e sociedade, à medida que o moderno aparelho do Estado se separa cada vez mais da corte, autonomizando-se em relação à figura pessoal do monarca. A cidade constitui-se como uma primeira esfera pública literária, que encontra suas instituições nos cofee-houses, nos salons e nas comunidades de comensais, contrapondo-se, desta forma, à corte. Desta forma, o setor público, limita-se ao poder público. No setor privado, temos a esfera pública propriamente dita, já que ela é composta de pessoas privadas. A esfera privada compreende tanto a sociedade civil burguesa, enquanto setor de troca de mercadorias e de trabalho social, como também, a família, com sua esfera íntima. A esfera pública política provém da literária, apresentando-se como intermediária entre Estado e sociedade, através da formulação da opinião pública.(HABERMAS, 1983).

A esfera pública burguesa impôs-se, desta forma, à esfera pública controlada pelo poder, organizando a discussão permanente entre pessoas privadas. Neste sentido, poderíamos considerar o blog como uma espécie de fórum público de pessoas privadas, mesmo funcionando exclusivamente no espaço virtual. Desta forma, a ação política na esfera pública seria reformulada. Um outro fator de mudança da ação política na esfera pública está associado ao desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação.

A maior liberdade de produção de informação leva a uma maior participação política via internet. Um exemplo seria o fenômeno também conhecido como “netroots”, ativismo político de “raiz” que é organizado com as NTICs e se constitui enquanto “paradigma de incorporação da web pela democracia representativa,ou seja, diferentemente do que ocorria no século anterior, o ativismo político hoje se realiza na e pela mídia, na “ágora virtual”, em vez da “ágora real” e concreta das cidades, transformando os mecanismos da ação política. (PENTEADO, SANTOS E ARAÚJO, 2009)

Habermas, ao acompanhar a evolução da esfera pública burguesa, afirma que passa a ser exigida uma espécie de sociabilidade que pressupõe algo como a igualdade de status, mas que inclusive não é levada em consideração. Contra o cerimonial de hierarquias impõe-se tendencialmente a polidez da igualdade. Surge uma concepção de público institucionalizada enquanto idéia, baseada na paridade, em que as leis do mercado e do Estado não encontrariam lugar. A fim de que possamos pensar as possíveis contribuições dos blogs para uma reflexão sobre a emergência de novos meios de sociabilidade, propomos um questionamento sobre o status social dos sujeitos envolvidos na comunicação por blogs. Os processos de sociabilidade que ocorrem no âmbito da Blogsfera passariam, finalmente, a levar em consideração a igualdade de status pressuposta na esfera pública?

Os blogs são cada vez mais percebidos como um espaço imbuído da personalidade de seu autor, conhecido como blogueiro e um espaço para expressão de sentimentos, revelados na constituição da personalização do blog. Desta forma, blogs não seriam apenas ferramentas caracterizadas pelo seu produto, mas formas de publicação apropriadas pelos seus usuários como formas de expressão. (AMARAL, RECUERO & MONTARDO, 2009). A compreensão dos blogs enquanto espaço pessoal faz-nos pensar sobre algumas questões decorrentes deste processo de personalização. Procuraremos construir uma reflexão sobre o tema, a partir de discussão levantada por Oliveira, (2009) em seu artigo Ciberespaço e a escrita de si na contemporaneidade: repete o velho, o novo blog?, ressaltando, assim, a possibilidade de lançar um olhar para os blogs, concebendo-os enquanto espaços de narrativa de si e de escrita íntima.

Desta forma, os blogs podem favorecer formas de subjetivação e reflexividade. Estes processos ocorrem, no entanto, diante de um espaço público que pode configurar um espaço de vigilância, sobretudo, a partir da consciência da observação do weblog como espaço pessoal e da construção das impressões que o blogueiro deseja expor para sua audiência. (AMARAL, RECUERO & MONTARDO , 2009)

A pessoa pública passa a apresentar os processos de constituição de si em público, podemos supor, desta forma, que se tratariam não mais de pessoas públicas, mas de subjetividades públicas, consideradas aqui no sentido foucaultiano de narrativa de si (FOUCAULT, 1992).

Conforme já discutimos anteriormente, a esfera pública política provém da literária, constituindo-se, através da opinião pública, em intermediária entre o Estado e as necessidades da sociedade. Os indivíduos apropriam-se da esfera pública, compondo-lhe o público, e adquirindo autonomia para transformar a conversação em exercício de crítica contra o poder do Estado. Habermas denominou esse processo de refuncionalização (Umfunktionierung) da esfera pública literária. De que forma poder-se-ía entender um possível processo de refuncionalização da esfera pública referente aos blogs?

DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DE UMA MEMÓRIA CRIATIVA

Pensar a construção de uma memória coletiva com as novas configurações sociais e subjetivas surgidas com o advento e a popularização dos blogs nos leva a privilegiar uma investigação dos processos de autoria e de validação nos blogs, entendidos como formas de reivindicar uma participação individual mais ativa no processo de construção da memória coletiva.

Neste sentido, poderíamos supor que os modos de funcionamento dos blogs, questionariam o processo de vassalização da esfera pública efetuado pelos mass-mídia que, segundo o pensamento habermasiano, retira o poder seletivo dos usuários do espaço público.

Ainda em Lemos (2009), as mídias de função pós-massiva apresentam-se como uma forma de mídia social colaborativa, onde os usuários podem criar e compartilhar seus conteúdos a partir de outros blogs, fazendo o que se denomina mixagens ou mashups. A liberação da emissão pelos blogs permite uma reconfiguração da vida social, quer dizer, dar voz a todos, pois pressupõe uma reelaboração da esfera pública. Desta forma, os blogs tornam-se um dos fenômenos mais populares da cibercultura, refletindo um desejo reprimido pela cultura de massa: o de ser ator na emissão, na produção de conteúdo e na partilha de experiências.

A cultura de massa criou o consumo para todos. A nova cultura pós-massiva cria, para o desespero dos intermediários, daqueles que detêm o poder de controle e de todos os que usam o corporativismo para barrar a criatividade que vem de fora, uma isegonia - igualdade de palavra para todos. Os blogs refletem a liberação do pólo da emissão característico da cibercultura. Agora, todos podem (com mínimos recursos) produzir e circular informação sem pedir autorização ou o aval a quem quer que seja (barões das indústrias culturais, intelligentsia, governos...). O fenômeno dos blogs ilustra bem essa cultura pós-massiva que tem na liberação do pólo da emissão, na conexão telemática e na reconfiguração da indústria cultural seus pilares fundamentais. (LEMOS, 2009)

Os Blogs trariam importantes contribuições para os estudos relativos à Memória Social, na medida em que se constituiriam como possibilidade de um exercício da memória criativa (LOPES, 2003). A informação, nos blogs, circula em rede ou vias de comunicação, sempre transformando outras e a si mesma, num processo de criação contínua, como ocorre com nossa memória individual.( DODEBEI, 2009)

No intuito de avançarmos no nosso entendimento dos mecanismos institucionais da internet, faz-se pertinente reafirmarmos que esta memória social criativa, característica da internet, seria atualizada através de um pensamento institucional específico, que estaria preocupado em instituir a criatividade como valor. Nesse sentido, vale retomar o pensamento de Mary Douglas, segundo o qual, qualquer instituição começaria a controlar a memória de seus membros, levando-os a esquecer experiências incompatíveis com aquela imagem de correção que eles têm de si mesmos e trazendo para suas mentes acontecimentos que apóiam uma visão de natureza que lhe é complementar. A instituição propicia as categorias dos pensamentos de seus membros, estabelecendo assim os termos para o autoconhecimento e fixando as identidades. (DOUGLAS,1998:116)

Seguindo a trilha de nosso 'pensamento institucional', poderíamos supor que as regras que funcionam na internet, dizem muito a respeito da constituição de sua memória enquanto Instituição. Ainda em Douglas (1998), a organização institucional procura resolver os problemas que decorrem do fato de a racionalidade humana ser limitada. Desta forma, a experiência passada é encapsulada nas regras de uma instituição, funcionando como guia daquilo que se deve esperar do futuro. Temos na criação do selo Creative Commons, um importante exemplo deste aprendizado institucional:

Durante um bom período a internet ficou conhecida como terra de ninguém. Qualquer material disponível era facilmente copiado e distribuído sem consideração com os direitos dos autores. Felizmente, com a evolução do meio, esse faroeste ficou para trás.São várias as opções para quem deseja distribuir textos pela rede com a devida assinatura. Os próprios blogs criaram ferramentas que facilitam a troca de conteúdos e experiências. Qualquer referência ao conteúdo de seu blog é facilmente rastreada. Sites de busca como Technorati,Google e Yahoo! são capazes de apontar quem está fazendo referências ao que você publicou.Para tornar mais flexível a legislação de direitos autorais e criar um meio termo entre "todos os direitos reservados" e o plágio puro e simples,surgiu em 2001 a Creative Commons. Segundodefinição dessa instituição sem fins lucrativos, o objetivo é trazer ao sistema de copyright"moderação, equilíbrio e compromisso, levando em conta igualmente a inovação e a proteção doautor", como consta em seu site.A Creative Commons propõe o seguinte: em vez de dizer que o conteúdo publicado em seu blog é seu, e de mais ninguém, há outra opção, mais no espírito da rede. A proposta é dizer que o seu trabalho pode ser copiado ou distribuído à vontade, desde que... aí você define o que quer em troca. (Taddei & Foschini,2007. p:24-25 )

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao formularmos aqui nossa concepção da Internet enquanto Instituição, baseada, sobretudo, na emergência de modalidades de práticas cotidianas calcadas em mecanismos cognitivos da Cibercultura, não estamos deixando de ressaltar também, o aspecto processual e de permanente reconfiguração das redes institucionais em geral. Desta forma, a web 2.0 poderia favorecer a potencialidade criativa do cotidiano, bem como, reforçar os aspectos coletivos necessários à constituição dos processos de individuação, favorecendo, assim, a incessante construção de uma Memória do tempo presente, capaz de percorrer virtualidades temporais e espaciais.

Vimos nos estudos de Lévy, que este fluxo informacional evidencia um pensamento constantemente vinculado à técnica e à ação, que, ao invés de afastar-se do humano enquanto valor, reforçaria características próprias à humanidade. Consideramos então, que a Cibercultura amplia a virtualidade imanente à criação artística maior, ou seja, àquela que o homem realiza ao construir a Si Mesmo em meio aos seus modos de Subjetivação.

É neste sentido que as trocas comunicacionais realizadas em Blogs apontam para uma espécie de 'institucionalização criativa' dos comportamentos sociais. Os Blogs podem ser vistos como um espaço onde a validação é proporcional à difusão da informação e à reapropriação de conteúdos (através de mashups, por exemplo) que se dá nesse processo. Vimos em Habermas que o poder de validação na esfera pública é de muitos, o público leigo adquire o poder de julgar a obra de arte, surge, assim, uma nova profissão, a dos 'árbitros de arte', considerados como 'mandatários' e 'pedagogos do público', que passam a exercer a crítica profissional de arte. A partir do momento em que a Arte passa a ser vista como mercadoria, o público percebe, então, os processos de conversação e discussão, como formas de reapropriação da obra de arte.

Na Blogsfera, a validação poderia, finalmente, ser efetuada 'realmente' por muitos? Os blogueiros não consomem uma informação que lhes é imposta verticalmente, mas, são autores das informações que publicam, da mesma forma, os usuários de blogs podem, ao percorrer o caminho dos hiperlinks, apontar de onde vem as fontes de informação que consomem, e, interferir sobre ela 'em tempo real'. Que formas de subjetivação podem, no entanto, emergir num processo de autoria compartilhada?

Este trabalho buscou apresentar algumas contribuições para entendermos os processos de subjetivação contemporâneos. Neste sentido, os blogs enquanto um novo espaço público na web, criado com uma comunicação baseada em princípios como cooperação, colaboração e livre expressão, apresentam-se como uma rica fonte de pesquisa. Os blogs relembram-nos que a memória é um processo criativo e contínuo. A crescente apropriação desta ferramenta comunicacional na web, traz questionamentos referentes à constituição de um novo imaginário representado no ciberespaço, fundador de aspectos culturais específicos.

Ainda há muito que discutir, mas, entre tantas questões, algumas podem iluminar um caminhar rumo à autonomia intelectual. Em que medida a compreensão da Internet enquanto Instituição, poderia reforçar a discussão sobre a identificação do sujeito contemporâneo em meio a tão discutida crise de identidades? Como a aquisição de normas e valores instituídos no mundo virtual pode ampliar as possibilidades do sujeito?

Bibliography/References


  • AMARAL,Adriana;II.RECUERO,Raquel;III.MONTARDO,Sandra(orgs.),2009, Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial.

  • AMARAL,RECUERO&MONTARDO, 2009, “Blogs.Mapeando um objeto” en: Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial.(p:27-53)

  • ARNAL,Dídac Margaix,2008 Informe APEI sobre Web Social. Gijón. Asociación Professional de Especialistas en Información.

  • ANTOUN, Henrique, 2009, “Posfácio. Os Blogs e seu Além.”, en: AMARAL, RECUERO & MONTARDO (orgs.) Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial,pp. 277-285

  • CASTELLS,Manuel, 1999 “Prólogo:A rede e o Ser”, en: A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra.

  • CERTEAU ,Michel de,1998 A invenção do cotidiano. Artes de fazer. 3. ed. São Paulo: Vozes

  • DODEBEI,Vera.2009 Novos meios de memória. Livros e leitura na época dos weblogs.en: Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação; Edição Especial- primeiro semestre 2009: Pesquisas em Ciência da Informação no Brasil e no Canadá.

  • DOUGLAS,Mary, 1998. Como as Instituições pensam. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo

  • FOSCHINI, Ana Carmem & TADDEI, Roberto Romano,2007. Coleção Conquiste a rede.Blog. Disponível em: http://www.overmundo.com.br/banco/conquiste-a-rede-blog. Acessado em 7 de julho de 2009.

  • FOUCAULT, Michel, 1992. A escrita de si. en: ____ O que é um autor? Lisboa, Veja. p. 129 – 160.

  • HABERMAS, Jürgen,1983.[1962] Estruturas sociais da esfera pública. en: Mudança estrutural da Esfera Pública. RJ, Tempo Brasileiro. pp. 42-74

  • LEMOS, André, 2008 “Prefácio” en: AMARAL, RECUERO & MONTARDO (orgs.) Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial.pp.7-19

  • LÉVY, Pierre, 1999. [1997] Cibercultura. Tradução:Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Ed. 34.

  • LOPES, Andréa Carreiro Kubitschek, 2003. Da possibilidade de exercício de memória criativa: internet, blog e bloggers. Rio de Janeiro: UNIRIO/PPGMS.

  • OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho de, 2009. Ciberespaço e a escrita de si na contemporaneidade: repete o velho, o novo blog? en: AMARAL, RECUERO& MONTARDO (orgs.) Blogs.com. Estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial.p:55-74

  • PENTEADO, SANTOS & ARAÚJO, 2009. O movimento Cansei na blogsfera: o debate nos blogs de política. en: AMARAL,RECUERO & MONTARDO (orgs.) Blogs.com: estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento Editorial.p:135-159


Acknowledgement (cc- by 3.0 or any other later)