IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo F-33: Identidades e relações em linha

A identidade da Tinga: sua construção histórica e representação em comunidades do Orkut

Ponente/s


Resumen

O propósito deste artigo é refletir sobre uma comunidade chamada Restinga, onde eu tenho vivido e trabalho desde 2007. Esta comunidade é parte da capital do estado do Rio Grande do Sul, que é Porto Alegre. O objetivo é pensar sobre como a identidade da Tinga foi e está sendo construída, como esta identidade tem sido, atualmente, problematizada, como as diferenças foram e continuam sendo marcadas e como novos posicionamentos estão sendo tomados por esta comunidade. Este artigo considera: 1) minhas percepções pessoais sobre a comunidade da Restinga; 2) as dez comunidades da rede de relacionamentos do Orkut a respeito da Restinga com maior adesão de membros. A perspectiva não-essencialista de identidade, parte dos Estudos Culturais, será a principal orientação deste trabalho. Este artigo irá propor que mais do que pensar sobre os posicionamentos pessoais em relação a uma identidade, importa investigar como uma identidade é construída e produzida social e historicamente.

Contenido de la comunicación

O conceito de identidade aqui desenvolvido não é, portanto, um conceito essencialista, mas um conceito estratégico e posicional. Isto é, de forma diretamente contrária àquilo que parece ser sua carreira semântica oficial, esta concepção de identidade não assinala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história. (HALL, 2000: 108)

Pretendo, no presente artigo, refletir sobre a história da comunidade onde moro e trabalho há quase dois anos, do bairro Restinga de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul: da construção de uma identidade da Tinga, da forma como diferenças foram e continuam sendo marcadas, de problematizações atuais desta identidade e de novos posicionamentos que atualmente estão sendo tomados; a partir de minhas vivências e percepções pessoais e das dez comunidades da rede de relacionamentos do Orkut a respeito da Restinga com maior adesão de membros.1 Este trabalho está sendo realizado tendo em vista uma perspectiva não-essencialista sobre identidade, na linha dos Estudos Culturais, propondo que mais do que refletir sobre posicionamentos pessoais diante de uma determinada identidade, importa investigar os modos com que a identidade é construída e produzida, histórica e socialmente.

WOODWARD (2000: 9) demonstra, a partir de um relato sobre os sérvios e os croatas, que “a identidade é relacional”. A identidade é a partir de algo que ela não é. Assim, a identidade é caracterizada pela adesão de um número de indivíduos a uma representação. Mas, ocorreu-me se também não é possível existirem, de alguma forma, identidades não afirmativas, identidades de exílio. Penso nas instituições de educação que também existem em função de indivíduos que não são alguma coisa e precisam vir a ser. E penso naqueles que foram levados por outros a uma restinga e tornaram-se a comunidade da Restinga.

Na década de 60, do século passado, havia no centro da cidade de Porto Alegre uma grande população que se abrigava em malocas; eram agricultores de todo o estado que decidiram mudar-se para a capital do estado em busca de melhores condições de vida. Então foi criado, em 1965, o Departamento Municipal de Habitação, cujas autoridades deslocaram essa população para a Restinga, onde não havia casas, nem água encanada, energia elétrica, saneamento básico ou transporte; somente um campo com lonas e barracas. Depois de alguns meses, surgiram as primeiras melhorias: algumas pequenas casas substituíram barracas e lonas, foi instalada água encanada nas esquinas dos lotes e foram disponibilizadas linhas de ônibus que buscavam trabalhadores até o centro pela manhã e levavam-nos de volta à noite (Nunes, 1990).

Diante desse cenário, pode-se conjeturar possíveis afirmações, como por exemplo: “Prefiro ficar na Restinga do que voltar para o interior, ou tentar permanecer no centro, ou tentar rebelar-me.” Porém, diante das condições descritas, parecem prevalecer negações como: “Vou ficar na Restinga porque não tenho escolha, não tenho outro lugar para ir, não tenho condições para fazer algo diferente.” Surge uma comunidade de pessoas identificadas com a Restinga, vinculadas especialmente àquele local geográfico; não que aquele fosse um local de melhores condições de vida, mas porque não havia outro lugar para ficar.

Afirmar a identidade significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre o que fica dentro e o que fica fora. A identidade está sempre ligada a uma forte separação entre ‘nós’ e ‘eles’” (SILVA, 2000: 82). Se a identidade é relacional, é formada através da diferença, “numa relação de estreita dependência” (SILVA, 2000: 74), então pertencer à Restinga era ser a parte fraca de uma oposição em relação ao centro. Porém, isso não fez com que essas pessoas fugissem de sua identificação com a Restinga. Pelo contrário, essa identificação se fez até necessária para reivindicar o cumprimento de promessas que lhes tinham sido feitas. Ser da “Tinga” passou a ser algo maior do que ser Porto-Alegrense ou gaúcho, assim como há muitos gaúchos que se consideram mais gaúchos do que brasileiros. De que maneira foi constituída uma identidade da Tinga?

Woodward (2000: 15) afirma a respeito da identidade que o essencialismo pode fundamentar suas afirmações tanto na história quanto na biologia. Ser da Tinga não parece ter como principal traço um fundamento biológico: poderia ser lembrado que a maioria eram negros, mas muitos também não o eram, e vieram todos de diferentes lugares. Ser da Tinga teve como princípio comum um evento histórico, a remoção daquelas pessoas para uma restinga; evento repetido no decorrer dos anos também com outras pessoas, formando uma grande comunidade que, atualmente, conta com quase cento e cinqüenta mil pessoas.

Construção de uma identidade da Tinga

Irei realizar alguns apontamentos relacionados a dez principais aspectos da identidade e da diferença, enumerados por Woodward (2000: 13-15).

  1. Conceituar e dividir a identidade em suas diferentes dimensões.

Já disse que ser da Tinga, inicialmente, era ter sido removido do centro de Porto Alegre para uma restinga. Em geral, pessoas de um êxodo rural que procuravam melhores condições de vida em Porto Alegre. Atualmente, há em seus habitantes um forte estigma de marginalização e violência. Por esses motivos, devemos nos restringir à região geográfica da Restinga, e às condições de vida alí existentes. Atualmente, as condições de vida podem ser descritas da seguinte forma:

Moradia: Na Restinga Nova, as casas são relativamente boas, com cinco cômodos; ruas pavimentadas, energia elétrica, água encanada e saneamento básico. Na Restinga Velha, há muitos casebres, construções pequenas e rústicas; muitas com apenas dois ou três cômodos; ruas de chão batido, energia elétrica e água encanada na maioria das residências, porém graves problemas de saneamento e alagamento, em dias de chuva.

Família: O bairro foi formado, em sua maioria, de pessoas provenientes de outros municípios; por isso, muitos se encontram longe de seus parentes e isolados no lugar em que vivem. Devido a dificuldades legais, monetárias e à brevidade dos relacionamentos conjugais, encontram-se diversos tipos de estrutura familiar.

Saúde: Os hospitais mais próximos localizam-se a dez quilômetros e, muitas vezes, não têm leitos disponíveis. Há pequenos postos de saúde com atendimento de clínicos gerais; consultas em alguma área específica precisam ser marcadas com semanas de antecedência.

Educação: Há muitas escolas, principalmente municipais, com freqüência da maioria das crianças e jovens; porém, há pouco ensino técnico qualificado. Os adultos, em geral, têm pouca instrução e, também por isso, sofrem para conseguir ou até permanecer num emprego.

Trabalho: A maioria da população trabalha longe do bairro, no centro da cidade ou, ainda, em outras cidades. Também por isso, muitos não conseguem emprego.

Transporte: A quantidade de linhas de ônibus oferecida não é suficiente, havendo superlotação principalmente nos horários de ida e volta do trabalho. A maioria das famílias não tem carro próprio.

Segurança: A região apresenta grande vulnerabilidade social e é considerada uma área de risco. Está entre os bairros de Porto Alegre onde ocorre o maior número de homicídios, principalmente de jovens entre 10 e 24 anos, relacionados à intensa atividade de compra e venda de drogas.

Esporte e lazer: Há muitas praças com quadras de futebol; alguns projetos sociais fazem um bom trabalho junto aos jovens, bastante variado e organizado, mas é necessário mais oportunidades a toda população. Além destas oportunidades mais dispersas, a escola de samba Estado Maior da Restinga é considerada uma referência do carnaval de Porto Alegre.

Religiosidade: Há várias denominações cristãs diferentes, sendo predominantes a igreja católica, igrejas pentecostais e neo-pentecostais, e religiões afro-brasileiras.

  1. Reivindicações essencialistas sobre pertencimento.

O aspecto principal de pertencimento parece ter sido a data de chegada e a permanência na Restinga. Houve, e ainda há de modo mais brando, uma grande diferenciação entre a Restinga Velha, local de assentamentos na década de 60, e a Restinga Nova, local de assentamentos a partir da década de 70. A Restinga Nova foi muito melhor planejada, com melhor infra-estrutura, causando revolta na população da Restinga Velha que não era atendida em suas necessidades. Esta é a principal reivindicação existente. Mas, também dentro da Restinga Nova, há diferentes unidades de invasões e assentamentos. Por isso, as principais questões de pertencimento são: há quanto tempo você vive na Restinga? E onde você mora dentro dela?

  1. Reivindicações baseadas na natureza ou na história.

Há uma reivindicação baseada na história, principalmente sobre os primeiros anos da Restinga. Esse foi o tempo mais difícil da comunidade; por isso, ter participado da “fundação” do bairro e ter vivido aquela situação inicial é um grande diferencial para portar a identidade de ser da Tinga.

  1. Marcação simbólica relativamente a outras identidades.

O artefato que marca a identidade da Tinga em relação aos demais habitantes de Porto Alegre é a sua localização geográfica. Enquanto os bairros geralmente crescem próximos a outros bairros, como um prolongamento da cidade, a Restinga foi estabelecida a 23 quilômetros do centro, uma distância bastante considerável para aquela época, para aqueles que queriam trabalhar e fazer parte da vida de Porto Alegre. Este marco geográfico pode ser notado ainda hoje na grande diferenciação existente entre a Restinga e os demais bairros próximos hoje existentes. Outras marcações podem ser observadas como decorrentes da localização, como higiene, roupas, meios de transporte, condições de estudo, trabalho e saúde, e situação econômica.

  1. Condições sociais e materiais.

A população da Restinga estava, simultaneamente, numa relação de inimizade em relação ao centro e, também, numa relação de dependência, pois necessitava de trabalho e sustento, além de esperar direitos prometidos de melhoria das condições de vida na Restinga. Já o centro, demais bairros e cidades vizinhas, viam na Restinga uma população de mão-de-obra barata. Dessa forma, até hoje, os bens e a mão-de-obra da Restinga são desvalorizados, mantendo-se um estado de pobreza.

  1. O social e o simbólico.

O simbólico, através das marcações, e as condições sociais decorrentes já foram abordados acima. Esses dois processos alimentaram-se mutuamente ao longo dos anos na construção e, principalmente, na perpetuação de uma identidade.

  1. Exame dos sistemas classificatórios.

Já foram identificados e descritos, nos tópicos anteriores, os principais grupos de oposição: a oposição Porto Alegre x Restinga e a oposição Restinga Nova x Restinga Velha. Ainda poderia ser identificada a oposição nativos x forasteiros, antigos e novos moradores da Restinga; uma diferença que não é restrita a um lugar, mas está embaralhada, entrelaçada, em todo o bairro.

  1. Diferenças obscurecidas.

Essa marcação geográfica do bairro, tornando-se a principal e determinante de tantos aspectos, obscurece outras diferenças também existentes. Essa diferença geográfica está ligada diretamente a uma questão de classe; talvez decorrente desta. Diferenças de raça estão diretamente vinculadas à questão de classe. Obviamente existem diferenças de gênero, pertinentes principalmente numa visão mais interna, familiar e no bairro; também pertinentes para o trabalho, mas não tanto quanto às diferenças de classe e raciais. Creio que a própria marginalização da Restinga era obscurecida de duas formas diferentes: porque a remoção das famílias do centro de Porto Alegre foi dada como algo necessário e porque as contínuas melhoras no bairro, entendidas como beneficentes, davam à população da Restinga um sentimento de proximidade e pertencimento a Porto Alegre.

  1. Contradições e negociações de identidades.

Gostaria de citar apenas uma contradição e negociação, que para mim parece uma das principais. Se existe essa tensão a partir da base histórica da fundação do bairro, dessas comparações sobre há quanto tempo e em que lugar se vive no bairro, então como são classificados os jovens que nasceram e cresceram na Restinga? Um jovem de 15 anos de idade pode não estar lá tanto tempo quanto outros na Restinga; mas, esteve todo o seu tempo de vida até então alí, e não conhece nenhuma outra realidade melhor do que aquela. Um jovem de 15 anos também não vivenciou aquela difícil realidade inicial, mas não teve oportunidade de escolha, e pode até questionar seus pais por terem permanecido naquele local. Os jovens não podem ser classificados de forma satisfatória de acordo com as questões tradicionais de pertencimento, por isso desestabilizam e criam negociações.

  1. Posições de Identidade

Especialmente numa realidade em que o que mais prevalece é uma escassez de oportunidades de escolha, de liberdade, é que considero pertinente perguntar como determinadas posições de identidade são assumidas. De que formas alguém assume, mantendo e transformando, uma identidade em si mesmo?

Como a diferença continua sendo marcada.

Além das várias diferenças já abordadas, há duas características que são mais atuais e que ainda não foram devidamente consideradas: o tráfico de drogas e, sobretudo, a violência. Realmente, há um grande comércio de drogas. Freqüentemente é dito que este tornou-se uma alternativa para suprir necessidades básicas de subsistência. Já a violência, no bairro, parece bastante restrita a este comércio de drogas. Pouco se ouve sobre roubos, assaltos, seqüestros, etc, mas há bastantes assassinatos, execuções, disputa por território, sempre de alguma forma envolvidos com o tráfico, disputa de território, cobrança de dívidas e/ou promessas. Em geral, a população tem um menor cuidado ou medo em relação à violência, se compararmos com outros bairros. Mas o estigma da Restinga ser um bairro violento é algo bem conhecido.

Um sistema classificatório aplica um princípio de diferença a uma população de uma forma tal que seja capaz de dividi-la (e a todas as suas características) em ao menos dois grupos opostos – nós/eles; eu/outro. (WOODWARD, 2000: 40)

Se discriminações referentes à classe social e à raça perderam força nas últimas décadas, uma qualificação moral como a violência, aliada com a ineficiência em resolver ou amenizar o comércio de drogas e suas conseqüências, contribui para que a Restinga, sua região e população, continuem sendo vistos sob suspeitas.

A identidade da Tinga e a marcação de diferenças on-line

Chamo a atenção para as dez comunidades da rede de relacionamentos do Orkut a respeito da Restinga com maior adesão de membros. Apresento os nomes das comunidades, o número de membros participantes, a data de criação da comunidade e algumas características mais significativas da descrição destas comunidades. À primeira vista, pode ser entendido que o número de membros é bastante restrito em relação à população total do bairro, mas devem ser levados em conta a condição sócio-econômica e o acesso à tecnologia bastante limitados.

  • ResTinga teu povo te ama – 3.473 membros – 17 de junho de 2004 – Restinga é um bairro de Porto Alegre/RS. Temos orgulho de sermos da periferia. Moramos no maior bairro da América do Sul. São apresentadas duas mídias: TV-Restinga e Chat dos Restinguenses.

Esta comunidade, que tem como nome o lema do Estado Maior da Restinga – Tinga, teu povo te ama –, parece ser a principal comunidade do bairro. Nela, a Restinga não é caracterizada como um bairro de Porto Alegre, apesar de estar na periferia; mas, é ressaltado o orgulho de ser da periferia, talvez apesar de pertencer a Porto Alegre. O orgulho é estrito ao bairro, sua população – sua força? – como o maior da América do Sul.

  • S.R.B Estado Maior da Restinga – 2.030 membros – 31 de dezembro de 2005 – Fundada no dia de março de 1977. Esta entidade tem contribuído para o desenvolvimento e crescimento do carnaval de Porto Alegre.

É representativa a data de fundação da escola de samba que faz recordar o início do bairro e sua história. Também é interessante notar que a entidade é referida como aquela que contribui para o desenvolvimento e crescimento do carnaval no município; em outras palavras, como um esteio dessa atividade.

  •  Eu PeGo ReStInGa LoTaDo & – 1.296 membros – 4 de julho de 2005 – Pra quem jah pegou restinga (ônibus – transporte municipal)2 lotado ou sempre pega. Sempre quando está lotado sempre tem um q tem seu desodorante vencidu. Se cuide pra quem anda de bone pq na hora de descer qualquer discuido puxam de sua cabeça.

O transporte público aparece como uma das características principais do bairro, talvez pela marcação simbólica da distância em relação ao centro. A superlotação e o desodorante vencido podem ser vistos como símbolo de uma locomoção não cômoda e desagradável. Ainda em relação ao transporte público é citada a insegurança bastante comum diante da grande aglomeração de pessoas.

  •  MSN – RESTINGA – POA/RS – 931 membros – 5 de outubro de 2005 – Pra todos os usuários do MSN Messenger do bairro. Trocar informações. Procurar seus amigos ou fazer novas amizades.

A internet aparece como meio de comunicação também a partir do programa MSN Messenger. Troca de informações e relacionamentos pessoais aparecem como aspectos principais dessa mídia. Pode ser lembrado que a prefeitura de Porto Alegre quer disponibilizar acesso gratuito à internet, via sinal de rádio; e o primeiro bairro a receber essa benesse é a Restinga.

  •  RESTINGA BATERIA NOTA “1000” – 842 membros – 6 de março de 2006 – Para homenagear os ritmistas da bateria, do Estado Maior da Restinga. A bateria de melhor cadência a mais parecida com as baterias do Rio de Janeiro. Quem gosta de nós é nós mesmo!!! “O orgulho da comunidade”!!!

É enfatizada a qualidade da escola de samba, e principalmente da bateria que se distingue das demais, sendo comparada às melhores do país. Pode ser considerada o orgulho de uma comunidade bastante marginalizada e desprestigiada. A frase “Quem gosta de nós é nós mesmo” é significativa, de sua marginalização concomitante com a afirmação de sua identidade.

  •  Falam, mas adoram a Restinga – 613 membros – 14 de agosto de 2005 – Se você como eu está sempre escutando piadinhas por morar na Restinga, mas está sempre vendo as pessoas q fizeram as piadinhas na Restinga essa é a sua comunidade. Pra que falar se estão sempre aqui?

A descrição da comunidade não está clara, mas parece tratar de comentários de moradores da Restinga que tentam diminuir o valor do pertencimento à Restinga, através de piadinhas. Esta descrição parece ser uma crítica a pessoas que falam mal de sua própria comunidade; que falam mal, assim, de si mesmos. Mas, a dúvida sobre a identidade a partir dessa manifestação permanece: são pessoas que moram na Restinga mas que gostariam de se mudar para outro local ou são pessoas que internalizaram representações negativas sobre o que é pertencer à Restinga?

  •  Eu moro na Restinga e to vivo – 519 membros – 21 de junho de 2007 – Se vc mora na restinga e nunca levou uma bala, entra na minha comunidade, e já era estamos vivos!

Esta descrição parece ser exorbitante diante da realidade da Restinga, mas também não tanto: são realmente poucas as pessoas que conheci que já foram vítimas de um projétil; mas, conheço pessoas que estão bastante próximas de tiroteios que perduram, eventualmente, vários dias consecutivos.

  •  Lotação na Restinga, já!!! – 422 membros – 8 de março de 2006 – criada pro pessoal que não agüenta mais pegar o Tingão lotado, atrolhado, esmagado, discutindo cedu da manhã, fedendo a suvaco... Fora a demora que é...

Novamente aparecem críticas ao transporte público, as suas péssimas condições que afetam radicalmente o bem-estar público.

  •  211 Restinga Velha – 385 membros – 13 de maio de 2006 – Para aqueles que andam de restinga velha todos dias, conhecem alguém que pega ou gostaria de poder pegar esse ônibus maravilhoso... ônibus novos, ar-condicionado, câmbio automático, suspensão a ar, motor ecológico. Só os da nova tem esses direito.

Além da marcação simbólica da qualidade dos ônibus oferecidos à comunidade da Restinga Velha, de qualidade bastante inferior à maioria dos ônibus existentes no município, também emerge a distinção histórica entre os moradores da Restinga Velha e da Restinga Nova.

  •  Comissão de Frente da Restinga – 356 membros – 1 de setembro de 2005 – A todos que curtem o carnaval de Porto Alegre e admiram o trabalho que essa Comissão de Frente desempenha no nosso carnaval.

Novamente, o trabalho da Estado Maior da Restinga é mencionado como motivo de admiração da comunidade da Restinga.

A identidade da Tinga está em crise?

Hoje, as fronteiras geográficas não são mais tão rígidas como em décadas passadas. Certamente, agora é mais fácil entrar em contato, visitar ou mudar-se para outros lugares. Não apenas a mídia facilita o conhecimento do mundo; meios de transporte estão mais acessíveis, há maior campo de trabalho e, também, formas de financiar um imóvel. Além disso, a proximidade de outros bairros pode ter contribuído para que a fronteira da Tinga perdesse sua força.

A globalização, entretanto, produz diferentes resultados em termos de identidade. A homogeneidade cultural promovida pelo mercado global pode levar ao distanciamento da identidade relativamente à comunidade e à cultura local. De forma alternativa, pode levar a uma resistência que pode fortalecer e reafirmar algumas identidades nacionais e locais ou levar ao surgimento de novas posições de identidade. (WOODWARD, 2000: 21)

Como pode se dar uma homogeneidade cultural ou uma resistência na Restinga? Voltando a pensar nos jovens (que conheço), problematizando sua saída ou permanência no bairro, observo que os jovens da Restinga Velha desejam mais sair do bairro, por falta de amizades e pela forte violência existente, especialmente por tiroteios. Já os jovens da Restinga Nova não parecem desejar sair da Restinga, não porque queiram fortalecer o pertencimento à Restinga, mas porque a consideram um lugar realmente bom e favorável para se viver. Mas ser da Tinga não é mais tão decisivo para avaliar a si mesmo e a outros. O pertencimento à Restinga continua a ser algo importante, reforçado por diferentes movimentos ainda hoje; contudo, para aqueles que não viveram o contexto inicial da Restinga, esse pertencimento ainda é bastante importante por motivos afetivos, não tanto por uma identificação com a comunidade. Há uma simultaneidade de pertencer a Restinga, “estar na fronteira” e “cruzar as fronteiras”, em diferentes aspectos: “uma demonstração do caráter ‘artificialmente’ imposto das identidades fixas (SILVA, 2000: 89).

A identidade da Tinga pode estar apenas mudando, transformando-se, mas também pode estar em crise, perdendo sua força. Outras identidades coexistem, e podem ser desestabilizadas e/ou desestabilizadoras (WOODWARD, 2000: 22). Há diversas negociações que podem ser assumidas de diferentes formas.

Que posicionamentos são tomados.

Há diversas formas pelas quais se procura investir em uma identidade da Tinga. Há vários projetos sociais empenhados em suprir necessidades tidas como históricas. A escola de samba Estado Maior da Restinga, com o slogan “Tinga, teu povo te ama”, é uma das primeiras lembranças quando a Restinga é mencionada. Por outro lado, parece que a Restinga é sempre polemizada na mídia; são mostrados casos de violência ou tentativas de amainar a miséria. Por fim, o que permanece como identidade da Tinga é um amor, ou luta, pela região e as pessoas que lá vivem, ou se é o estigma de marginalização, suavizado de algumas formas, mas sempre existente?

As identidades parecem invocar uma origem que residiria em um passado histórico com o qual elas continuariam a manter uma certa correspondência. Elas têm a ver, entretanto, com a questão da utilização dos recursos da história, da linguagem e da cultura para a produção não daquilo que nós somos, mas daquilo no qual nos tornamos. Têm a ver não tanto com as questões “quem nós somos” ou “de onde nós viemos”, mas muito mais com as questões “quem nós podemos nos tornar”, “como nós temos sido representados” e “como essa representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios”. (HALL, 2000: 108-109)

Para poder entender e problematizar uma identidade, é muito interessante e necessário investigar historicamente as formas pelas quais foram articulados representações e significados que amparam uma identidade socialmente compartilhada. Porém, para observar, questionar ou supor posicionamentos atuais e futuros, faz-se necessária uma perspectiva não-essencialista que pergunte pela forma como fomos representados e como temos nos tornado ou nos transformado em direção a uma ou mais identidades com as quais interagimos. Como somos produzidos em um determinado contexto, e de que formas podemos nos posicionar dentro dele?

A subjetividade envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais... Os sujeitos são, assim, sujeitados ao discurso e devem, eles próprios, assumi-lo como indivíduos que, dessa forma, se posicionam a si próprios... O conceito de subjetividade permite uma exploração dos sentimentos que estão envolvidos no processo de produção da identidade e do investimento pessoal que fazemos em posições específicas de identidade. (WOODWARD, 2000: 55-56)

Assumir um posicionamento frente a diferentes identidades que nos são acessíveis ou até incentivadas não significa apenas tomar um posicionamento pessoal, mas também social. É fazer parte do “processo de produção da identidade (que)3 oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê-la e a desestabilizá-la” (SILVA, 2000: 84).

Por isso, ao invés de questionar simplesmente os posicionamentos individuais em relação a determinadas identidades, como se essas fossem fixas e rígidas, bastando que cada pessoa escolhesse fazer ou não parte de um grupo, identificar-se com ele, importa que se investigue a construção e produção da identidade: sua perspectiva histórica, formas de oposição a outras características e grupos, pontos consonantes e contrastantes a outras identidades e os mecanismos pelos quais se procura fazer com que uma identidade persevere.

NOTAS:

1 Em 25 de setembro de 2009.

2 Parênteses meus.

3 Parênteses meus.

Bibliografía/Referencias


  • HALL, Stuart, 2000, “Quem precisa de identidade”, in Tomaz T. da SILVA (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, pp.103-133.

  • NUNES, Marion Kruse, 1990, Memória dos bairros: Restinga. Porto Alegre: SMC/Porto Alegre.

  • SILVA, Tomaz Tadeu da, 2000, “A produção social da identidade e da diferença”, in ______ (Org.), Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, pp. 7-72.

  • WOODWARD, Kathryn, 2000, “Identidade e diferença: uma questão conceitual”, in Tomaz T. da SILVA (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, pp.73-102.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.

  • Acesso em 25 set. 2009.


CC0 (Equivalente a Dominio Público)