IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Ponente/s


Resumen

A Internet redesenhou o modo de expressão e acelerou a designação das mídias e também revelou " nela " conteúdos do inconsciente. A maneira de ver, de ouvir, de se relacionar, de criar, de trabalhar, de incomodar, de destruir e construir, de ler, de aprender, de acreditar e de conceber a liberdade são distintamente categorizadas entre épocas: antes e após a Internet. O trabalho, por exemplo, pode ser deslocado de um espaço temporal para outro atemporal. A liberdade se tornou relativa, o terrorismo se acrescentou ao virtual e a possibilidade do caos é proporcional à dependência do sistema. As manifestações pessoais e os relacionamentos se tornaram sintéticos, como uma nova ordem plástica, nem sempre real; muitas vezes artificial.
Com esses pressupostos, nosso objetivo é apresentar reflexões sobre a Internet e o ser humano, as ações que são transformadas e que ao mesmo tempo refletem os antigos rituais da complexidade humana. Muitos desses rituais representam uma fusão antagônica e, em outros casos, são específicos do mundo virtual.

Contenido de la comunicación

Há milênios os seres humanos exteriorizam suas concepções através das mais diversificadas maneiras. Seja nas paredes das cavernas pré-históricas ou nos inúmeros rituais de agradecimento, de sacrifício ou de consagração. Todos esses rituais refletiram – e ainda refletem – o inconsciente submerso e pouco decifrado. Essas manifestações correspondem a uma influência que principia de modo consciente por um indivíduo, e após é reproduzida em elementos exteriorizados.

Qualquer modo de expressão no comportamento ou na linguagem, conduz à possibilidade de decodificar as intenções profundas. Essas manifestações podem evoluir com o passar dos tempos, seja em detalhes ou em transições abruptas como é o caso da Internet.

A Internet redesenhou o modo de expressão e acelerou a designação das mídias e também revelou – nela – conteúdos do inconsciente. A maneira de ver, de ouvir, de se relacionar, de criar, de trabalhar, de incomodar, de destruir e construir, de ler, de aprender, de acreditar e de conceber a liberdade são distintamente categorizadas entre épocas: antes e após a Internet. O trabalho, por exemplo, pode ser deslocado de um espaço temporal para outro atemporal. A liberdade se tornou relativa, o terrorismo se acrescentou ao virtual e a possibilidade do caos é proporcional à dependência do sistema. As manifestações pessoais e os relacionamentos se tornaram sintéticos, como uma nova ordem plástica, nem sempre real; muitas vezes artificial.

Com esses pressupostos, nosso objetivo é apresentar reflexões sobre a Internet e o ser humano, as ações que são transformadas e que ao mesmo tempo refletem os antigos rituais da complexidade humana. Muitos desses rituais representam uma fusão antagônica e, em outros casos, são específicos do mundo virtual.

O impacto na realidade

O impacto não está na tecnologia, mas nas brechas que ela desafia. No caso da Internet, os efeitos sobre o homem não são puros, são sincréticos, multifacetados, “novos” que contém os primitivos elementos humanos. Como uma serpente em seus múltiplos significados (fig. 01).

Os tabus são redesenhados, e todas as imperfeições são manifestadas tecnologicamente.

A discriminação, o medo e a insanidade tem seu véu tecnológico. “Uma vez que a tecnologia entra na vida humana – seja ela o fogo, a roda, o automóvel, o rádio, a televisão, ou a Internet -, a vida é transformada por ela de maneira que nunca podemos compreender inteiramente” (Gray, p. 31, 2006).


Foto 11: A serpente conectada

Nessa ininterrupta conexão, as pressuposições de Gray remetem a um progresso que reflete as concepções humanas. Todo objeto concreto possui um elemento racional - racionalizado na concepção freudiana - que conduz à fabricação de um produto; ele nunca deixa de mesclar a consciência ou a moral humana.

Outro exemplo pode estar na web arte com suas conexões duplicadas. Lá reside a história, a psicanálise do autor, o estilo, a mensagem clara ou velada e os links - nem sempre agradáveis – que direcionam aos patrocinadores. Em sua maioria, não são tão nobres como a arte. Como afirma Gray, a falta está em nós mesmos, pois o ser humano reproduz sua moral nas tecnologias.

Com a Internet, ainda sofremos com a subinformação, antes eram outras mídias, mas em ambos momentos, é o mesmo ser humano.

Continentes inteiros tornaram-se novamente desconhecidos, as antigas manchas brancas geográficas foram substituídas pelas imensas zonas de silêncio sociológico e político que são, ao mesmo tempo, zonas de informação-ficção. (MORIN, 2000, p. 32).

Como um insano, a Internet também abre espaço para a falácia compulsiva. Ela é um oráculo que devora a despeito de ser decifrado. Como um grande recipiente, ela se transforma num inconsciente digitalizado. Nela estão os sonhos, a discórdia, a esquizofrenia, o mal e o bem – um e outro ao mesmo tempo - a informação e a desinformação. Se considerarmos que todo os atos humanos são representações, esse grande inconsciente digitalizado revela o próprio homem.

Entre o pensamento e a dromo

É provável que as novas tecnologias digitais reconfigurem sensações na subjetividade com uma extensão e intensidade não identificada em meios de épocas anteriores. O caminho digital predomina, populariza e se destaca sobre as demais mídias. É possível associar outras reconfigurações: um “espaço” de manifestações culturais, artísticas, pessoais, coletivas e profissionais. Mas, no conjunto, é uma nova face do “espetáculo” debordiano, um inconsciente unplugged ou, como numa recomposição dos padrões junguianos, uma breve similaridade ao inconsciente coletivo.

Soma-se a velocidade – outra característica da Internet -. Se levarmos em conta a pressão proporcionada, poderíamos inserir a velocidade dos relacionamentos, da exclusão, do sonho ou da vida. Trivinho (2007), a propósito, utiliza o termo dromoaptidão para caracterizar a velocidade imposta aos diferentes agentes contemporâneos e a capacidade em atender as demandas da vigente realidade capitalista. E, se concebemos a existência de uma dromoaptidão, conseqüentemente temos uma dromoexclusão.

Num mundo regido pela velocidade, até a superficialidade da análise tem mais espaço na sociedade. Como diz Sennet (2006, p. 118) “a angústia do tempo leva as pessoas a deslizar na superfície, em vez de mergulhar”. E é nessa superfície que reside, muitas vezes, a informação incipiente ou falaciosa. Se o conhecimento requer conexões profundas, é pouco provável que a maior “parte” da Internet proporcione isso de um modo automático.

Os estudos de Myers (2006) demonstram que o aprendizado prepara nosso cérebro para o pensamento, para a linguagem e para as experiências posteriores, e isso não ocorre quando o conhecimento é incipiente ou falacioso. Esses fatores estão na multiplicidade de situações: nas empresas, nos relacionamentos ou na política. Tudo o que requer mais tempo tende em ser desconsiderado, se for algo extremamente necessário e financeiramente rentável, deverá ser disponibilizado na rede, num mundo em que o clipping se tornou o protagonista.

Na lógica humanista, se os problemas revelam a alma humana, eles também refletem o atual estágio humano.

A virtualização

Uma busca na Internet revela os recônditos do inconsciente. Lá estão as mensagens dos grupos de esquerda, de direita, de centro e de tantas outras definições políticas. A mensagem do Sumo Pontífice, dos rabinos, dos mulçumanos, dos presbiterianos, dos budistas e de todas as formas de devoção. Está a visita ao berçário e à necrópole. Há sugestões de alimentação de todo tipo, conversas do dia-a-dia, finanças, arte, verdades e mentiras numa aparente liberdade regida por uma “coleira digital” (termo utilizado por BEIGUELMAN, 2005). Se estiver armazenado em algum cérebro, existe a possibilidade de ser enviado para a grande rede; o inconsciente coletivo digital. Essa característica não é necessariamente positiva, visto que o inconsciente armazena dados que formam inúmeras conexões. Eles revelam a bondade e todo tipo de imperfeição.

As inúmeras maneiras de utilizar a Internet representam igualmente a face humana. Ela abarca o lado racional e a fuga. Mas, como diz Riesman (p.185), “pelo fato de o conceito de fuga ser muito escorregadio, devemos sempre perguntar: fuga de onde e para onde?

Todo individuo busca incessantemente o equilíbrio, ele revela esse aspecto no “real” e no virtual. A típica comparação do computador com o cérebro humano é - sem cultuar a psicanálise -, complementada com a Internet, visto que ela absorve informações do consciente e do inconsciente.

Turkle (1989), a propósito, analisou as questões da antropomorfização do computador num momento em que as máquinas proliferavam na vida pessoal e profissional. A denominação “segundo eu” representou bem a transposição das ações cotidianas para essa tecnologia. Logo após, as relações do individuo com a máquina foram acentuadas com o advento da Internet. Com ela, o culto à urgência, destacado por Aubert (2003), passou a caracterizar a sociedade contemporânea.

Assim, a Internet é inquieta e, como o cérebro humano, ela retém milhões de conexões que abarcam as centenas de pensamentos de um individuo aparentemente estático. Ela depende de uma máquina estática para gerar a utopia da liberdade, o inconsciente revelado.

NOTAS:

1 A serpente conectada. A fotografia de uma cerâmica andina com uma serpente e um cabo ADSL na borda é uma provocação, uma alegoria, um mito virtualmente transposto. A serpente, conforme Garber (2009), tem representado ao longo da história da humanidade uma série de símbolos; muitas vezes aparecendo como maléfica em certos mitos e benéfica em outros. Ela inclui representações simbólicas que os homens devem dominar. Em muitas culturas e mitos é o simbolismo de sabedoria ou poder. Envolve também o paradoxo no cerne do nosso ser, a dependência mútua de luz e trevas, criação e destruição. Para Campbell (1990, p.56) “a serpente representa a energia e a consciência imortais, engajadas na esfera do tempo, constantemente atirando fora a morte e renascendo. Com isso, a serpente carrega em si o sentido da fascinação e do terror da vida, simultaneamente”.

Bibliografía/Referencias


  • AUBERT, N. Le culte de l´urgence. Paris: Flamarion, 2003.

  • BEIGUELMAN, G. Link-se: arte/mídia/política/cibercultura. São Paulo: Peirópolis, 2005.

  • CAMPBELL, J. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

  • GARBER, M. El simbolismo de la serpiente. Disponível em: http://transdisciplinaria.com.ar/transpersonal/?p=138>. Acesso em: 27 fev. 2009.

  • GRAY, J. Cachorros de palha. São Paulo: Record, 2005.

  • MYERS, D. G. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.

  • MORIN, E. Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

  • RIESMAN, D. A multidão solitária. São Paulo: Perspectiva, 1971.

  • SENNET, R. A cultura do novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006.

  • TRIVINHO, E. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada: São Paulo: Paulus, 2007.

  • TURKLE, S. O segundo eu: os computadores e o espírito humano. Lisboa: Presença, 1989.


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