IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo C-20: Recursos sócio-técnicos para a participação política

A presença indígena na virtualidade: um estudo de caso do Blog Diários

Resumen

O presente artigo busca discutir a presença indígena na internet, observada a partir do Blog Diários, tendo em vista as questões referentes à tradição e identidade em sua relação com as tecnologias de comunicação e informação. A partir de enfoques que partem da atuação dos indivíduos no ciberespaço e não da materialidade técnica, procuramos enfatizar o processo comunicacional em sua capacidade de gerar vinculação, sendo assim, procuramos entender como, a partir da experiência do blog Diários, o espaço virtual torna-se válido, isto é, passa a ter um sentido partilhado por seus participantes.

Contenido de la comunicación

INTRODUÇÃO

A partir de um referencial teórico que busca explorar a atuação dos indivíduos no ciberespaço, entendendo-o enquanto um espaço social praticado, um local onde a relação entre os indivíduos é capaz de nos levar a compreensão não só do uso das chamadas tecnologias de comunicação, mas também em como esse ambiente se torna um espaço válido para as mais variadas formas de expressão humana, o presente artigo procura explorar a presença indígena na virtualidade, mais especificamente o espaço do Blog Diários, presente no website da Rede Índios On-Line. As páginas que se seguem partem de um primeiro olhar realizado pela pesquisadora sobre seu objeto de estudo, portanto, há, ainda, a predominância de um olhar mais exploratório, que, no entanto, se permite problematizar as imbricações entre comunicação e tecnologia para além do nível técnico, como forma de captar as complexidades da relação entre um “eu” e “outro” no processo vinculativo que faz do espaço virtual um local com sentido partilhado pelos sujeitos. Pretende-se, nas linhas que se seguem, contribuir para um pensamento comunicacional que leve em conta a dimensões sócio-culturais da comunicação, em detrimento à técnico-economica.

Ainda sob essa perspectiva, buscou-se problematizar as questões referentes à tradição e identidade em sua relação com as tecnologias de comunicação e informação. Desde que a cibercultura se tornou um tema corrente nas pesquisas acadêmicas, muito se tem falado sobre o fim do sujeito, como conseqüência de uma suposta crise de identidade do sujeito moderno. As múltiplas formas de conexão entre os indivíduos no ciberespaço e a possibilidade da participação e criação de comunidades virtuais reforçam essa visão que, apesar de parecer assunto novo e inusitado, insere-se em evoluções estruturais e processos de transformações que estão em curso há muito tempo. Nesse sentido, nos afastamos das concepções “apocalípticas” e “integradas”, para, a partir da observação do Blog Diários, entender como tais assuntos es~toa presentes (ou não) na atividade do blogging. Assim, despimo-nos da crença na morte do sujeito, para identificar como tais comunidades indígenas se relacionam com e no ambiente do blog, sem, contudo, decretar o fim daquilo que seria a identidade indígena (assunto que trataremos adiante).

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDEIA DE CIBERCULTURA

O termo cibercultura atesta senão uma fusão, ao menos uma aproximação entre cibernética e cultura. A presença dos artefatos tecnológicos na vida contemporânea e nossa relação, cada vez mais familiar, com as tecnologias de comunicação e informação nos dão a sensação de transformação e progresso, acresce-se a isso a noção de encurtamento de tempo, provocada pela aceleração dos fluxos de informação. A cada momento um novo celular com capacidade de memória inimaginável e possibilidade de conexão à internet, laptopos das mais variadas cores e tamanhos, jogos de simulação virtual, televisores de plasma em lojas, recepções e restaurantes, convidam-nos, a todo instante, a “entrar” na Era Tecnológica. Essa presença e sensação (por que não?) de desenvolvimento tecnológico ininterrupto, aliada as múltiplas formas de participação no universo online, tem sido defendida como o surgimento de uma nova cultura, a cultura ciber, ou cibercultura. No entanto, a presença dos artefatos tecnológicos em nosso cotidiano é suficiente para classificar uma nova cultura? A crescente conexão da rede mundial de computadores se caracterizaria como uma mudança revolucionaria? Outra pergunta possível: O quanto há de velho na idéia do novo, da novidade? Perguntas, no mínimo, inquietantes, cujo propósito, ao tentar desenvolvê-las, pauta-se na necessidade de justificar o olhar que estará presente no desenrolar deste artigo.

A relação homem-máquina sempre despertou interesse e curiosidade nos seres-humanos. A história do cinema guarda várias pérolas sobre essa temática, sendo um de seus ícones o famoso Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin. De maneira cômica o filme traduziu brilhantemente não só a exploração do operariado no contexto das fábricas, sobretudo após a crise norte-americana de 1929, mas também ironizou a presença das máquinas e sua relação com o cotidiano dos trabalhadores (lembrem-se da incrível máquina que diminuiria o tempo das refeições, cujo teste fora realizado justamente com o personagem de Chaplin e, também, dos tiques nervosos que a máquina e a rotina do trabalho lhe causaram). A partir do filme, podemos refletir sobre o significado da modernidade, isto é, em como o desenvolvimento tecnológico, com a proliferação das máquinas em nosso cotidiano, revelou a faceta frágil de um processo de modernização que, em verdade, remonta aos séculos XVII e XVIII, e que, apesar de toda a aposta na vitória da racionalidade e do maquinismo como saída para a transformação da sociedade rumo a um progresso controlável e igualitário, acabou por levar-nos a outros caminhos. Em um brilhante texto intitulado “Enigma pós-moderno”, Nicolau Sevcenko vale-se da seguinte passagem de Walter Benjamin, em suas Teses Sobre a Filosofia da História:

Existe um quadro de Paul Klee que se intitula ‘Angelus Novus’. Ele representa um anjo que parece ter a intenção de distanciar-se do lugar em que permanece imóvel. Seus olhos estão encarquilhados, sua boca aberta, suas asas estendidas. Tal é o aspecto que deve ter necessariamente o anjo da história. Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde se nos apresenta uma cadeia de eventos, ele não vê senão uma só e única catástrofe, que não cessa de amontoar ruínas sobre ruínas e as joga a seus pés. Ele bem que gostaria de se deter, acordar os mortos e reunir os vencidos. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se abate sobre suas asas, tão forte que o anjo não as pode tornar a fechar. Essa tempestade o empurra incessantemente para o futuro, para o qual ele tem as costas voltadas, enquanto diante dele as ruínas se acumulam até o céu. Essa tempestade é o que nós denominamos o progresso. (SEVCENKO, N: 1988: 46)

O fragmento acima é de 1940 e evidencia o desencanto de Benjamin com a “ideia” de progresso que ele mesmo ajudara a formar, não por acaso, no ano seguinte, ele seria um dos cadáveres sobre as ruínas que prenunciavam a II Guerra Mundial. Do que, afinal, lamenta-se Benjamin? De uma ânsia por progresso incapaz de resolver as malezas humanas do presente, incapaz, aliás, de deter-se no mesmo, posto que a direção da tempestade apontava para o futuro. Para (MATTELART, A: 2002: 165) uma das perguntas que surge no pós-guerra é entender em que medida as lógicas de enfrentamento planetárias entre Leste e Oeste configuram o quadro geopolítico no qual se desenvolve a inovação técnica? A guerra tecnológica iniciada a partir de 1945, mais conhecida como Guerra Fria, e o planejamento totalitário das sociedades nos dão a dimensão do questionamento feito anteriormente, como bem aponta (SEVCENKO, N: 1988: 47).

Voltando-nos novamente ao cinema, mais precisamente ao sci-fi, isto é, às produções de ficção científica, (BRISSAC & OLALQUIA: 1988: 76-79) percebem que as produções dos anos 50 celebraram o moderno e as possibilidades abertas pelo futuro, pautadas pelo encantamento com a tecnologia típico dos anos em questão. Ainda que tenham se deparado com a aposta na ciência, presente em o “Dia em que a Terra Parou” (The Day the Earth Stood Still, de Robert Wise, de 1951), e o medo de seu potencial destrutivo em “A Guerra dos Mundos” (The War of the Worlds, Byron Hanskin, de 1953), o encantamento tecnológico prevalece nas narrativas. Não por acaso, em 1968, temos “Barbarella” (de Roger Vadin), a heroína sexy representada por Jane Fonda, a bordo de uma nave espacial rosa, com botas prateadas e vestido de plumas. É a parodia e a fantasia que entram em cena e evidenciam as transformações do período, constituindo-se naquilo que (BRISSAC & OLALQUIA: 1988: 80) chamou de futuro do passado.

As máquinas automatizadas, os ambientes plastificados e os gadgets parecem irremediavelmente superados na era eletrônica. Suas formas amplas e aerodinâmicas, sugerindo espaços e movimento, pertencem à época das viagens. Símbolos modernos do futuro, já são monumentos de um mundo em desaparecimento. Tal como os antigos parques de diversão. Resquícios de um sonho de automação e mobilidade infinitas. Aquilo que nasceu como projeção do novo se tornou logo obsoleto. Estas imagens agora remetem ao passado, a uma utopia que virou nostalgia, carregada de lirismo de um futuro jamais realizado.

A utopia a que o texto se refere tem suas raízes na polarização ideológica dos anos em questão, representadas pelo capitalismo norte-americano e o socialismo soviético. Definitivamente, 1968, não foi um ano qualquer e a Primavera de Praga explicita de maneira trágica a noção de um futuro jamais realizado. Ao dar sinal verde às tropas cubanas e apoiar a invasão dos tanques soviéticos na antiga Tchecoslováquia, o governo de Fidel Castro, dava mostras da ditadura repressora e violenta do pensamento único. Em 1977, o clássico modelo stalinista de eliminar as divergências de opinião entraria mais uma vez em ação, desta vez em Angola. O MPLA, movimento conhecido por ter sido uma frente de luta pela independência da Angola, possuía dois líderes fortes, Agostinho Neto, formado em medicina em Portugal, um dos fundadores e presidente do MPLA, e Nito Alves, participante direto dos combates armados, das guerrilhas contra a dominação colonial e líder político e militar do MPLA na região dos Dembos, a nordeste da capital Luanda. Apesar de contar com o apoio da maioria da população, caso semelhante à Primavera de Praga, a corrente de Nito foi acusada de “fracionalista” e eliminada pelos cerca de 60 mil militares cubanos, que Fidel havia enviado a Angola. Eventos como esses ecoaram pelo mundo e contribuíram para polarizar, ainda mais, os blocos de esquerda, mas, talvez, o grande emblema do fim das utopias fique por conta da queda do Muro de Berlim, em 1989. Esse ano representa senão o fim, ao menos uma importante crise, do sonho de construção de uma sociedade socialista e, em contrapartida, o fortalecimento do capitalismo. A partir daí temos um cenário de desregulamentação da economia e de organização do mercado em escala global, onde o gerenciamento da informação passa a ser crucial para a produtividade e competitividade. Com as barreiras ideológicas enfraquecidas, o capitalismo se impõe enquanto único modelo de desenvolvimento possível. Nesse processo, não podemos nos esquecer do apoio norte-americano às ditaduras latino-americanas, fato que contribuiu, entre outras coisas, para um estreitamento de relações no campo cultural, já muito bem consolidadas na década de 80.

(BRISSAC & OLALQUIA: 1988: 80), ainda em suas análises sobre os filmes de ficção científica, percebem essas mudanças e pontuam que as produções desse período remetem à ausência de crenças, característica da cultura pós-industrial em sua incapacidade de qualquer projeção futura, sendo comum o sentimento de nostalgia como forma de contraposição a preocupação exagerada com o presente, característica do momento em questão. A fantasia do roubo do corpo e da desumanização revelam a presença de metáforas para a crise de identidade acentuada a partir da década de 80. Outra característica interessante das produções é a velocidade, as comunicações vídeo-eletrônicas e a arquitetura de fachadas espelhadas que suprimem as distâncias e a profundidade das paisagens. Como observam os autores, o movimento se faz sem se sair do lugar:

A viagem espacial dos anos 50, com sua tridimensionalidade, converteu-se em deslocamentos instantâneos numa superfície diagramada em que se dispõem elementos provenientes de todos os tempos e lugares. O espaço agora é mais texto do que contexto: um vídeo de informática. A profundidade é esquematizada eletronicamente, simulada, em vez de representada. (BRISSAC & OLALQUIA: 1988: 80)

Coincidentemente, ou não, é a partir da década de 90 que a internet comercial ganha força e forma, impulsionada pelo discurso neoliberal, apesar de seu surgimento relacionar-se ao contexto do pós-guerra. Tais transformações, como argumenta (MATTELART: 2002), aliada a chegada das novas tecnologias e das redes de comunicação e informação, levaram a valorização da informação enquanto dado estatístico e mercadoria, inaugurando uma nova forma de temporalidade marcada por uma aceleração incrível na distribuição da mesma. Na fluidez e velocidade do fluxo de informação se solidifica a idéia de unificação do mundo como uma “novidade” trazida pelo desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e informação quando, no entanto, “a ditadura do tempo curto faz com que se atribua uma patente de novidade e, portanto, de mudança revolucionária, àquilo que na verdade é produto de evoluções estruturais e de processos que estão em curso há muito tempo” (MATTELART: 2002: 171).

A afirmação do autor traz um elemento importante a essa discussão: o tempo. Refletir sobre o tempo “em tempos” de rápida inovação tecnológica, sobretudo no que diz respeito às tecnologias de comunicação e informação, nos coloca, mesmo que forçosamente, em contato com o que se vem chamando de paradigma pós-moderno. No entanto, não há um acordo sobre a significação do termo, nem mesmo sobre seu status de paradigma, fato que não diminui a importância de sua discussão. Uma das poucas certezas em relação ao pós-modernismo é seu caráter questionador em relação às certezas planas e unívocas e à homogeneidade, por isso, o uso corrente das palavras fluído, líquido e fragmentado para contextualizar a contemporaneidade. Os americanos, em geral, o consideram como mera correspondência na área cultural do advento da tecnologia pós-industrial, baseada nos recursos da cibernética e da informática. Outros autores, o concebem como a negação total das vanguardas e, numa postura nostálgica, exaltam o período anterior ao modernismo. Há, ainda, os niilistas que o veem como puro pastiche e pasteurização das vanguardas. Tais concepções partem dos apontamentos realizados por (SEVCENKO, N: 1988: 53) que as credita como reacionárias uma vez que a postura do movimento pós-moderno possui um senso crítico atrelado a outras demandas, as quais o autor considerou enquanto alternativas, como o feminismo, a ecologia, o pacifismo e os movimentos de liberação sexual. O interessante em seu ponto de vista é o apreço pelo aspecto positivo do “descontínuo”, “fragmentado” e “irônico”, elementos que nos levam não ao fim dos tempos, tão pouco ao fim do indivíduo, mas antes aos acasos e às contraditoriedades da história, às diferenças e incompletudes que marcam os indivíduos e ao prazer pelo prazer e, também, a desconstrução, sem qualquer outro tipo de finalidade. Segundo (CARDOSO DE OLIVEIRA: 1988: 17) poderíamos falar do surgimento de uma categoria da desordem, formulada a partir do movimento pós-moderno, a saber por sua revisão da ‘subjetividade, da história e dos indivíduos’, até então domesticados pelos paradigmas tradicionais. O trio, pondera o autor, ao ser reformulado abre possibilidades para se pensar a subjetividade em sua forma socializada (a intersubjetividade), a individualidade a partir do indivíduo socializado e a historicidade em sua forma interiorizada. Na antropologia, a influência do movimento pós-moderno se expressou na emergência do paradigma hermenêutico, representado pelos estudos da chamada “antropologia interpretativa”, caracterizada, justamente, por debruçar-se nos elementos da desordem de (CARDOSO DE OLIVEIRA: 1988: 17). Ao presente artigo, não cabe a tarefa de explanar detalhadamente a relação de tais elementos na antropologia interpretativa. No entanto, aquilo que realmente nos interessa diz respeito à possibilidade de um outro olhar sobre a ‘cibercultura’, distante da concepção dominante norte-americana de correspondência, como uma espécie de fusão, entre a cultura e as tecnologias da cibernética e informática, bem como de visões niilistas e/ou derrotistas que por vezes ganham força nessa temática.

No que concerne à comunicação, diante do contexto, brevemente, tratado, temos que o atual desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e informação transformam, de alguma forma, a construção da realidade em sua relação com a temporalidade. Sabe-se que a atuação da mídia sobre o tempo, enquanto organizadora do mesmo e sobre o factual, isto é, o aqui e agora do presente garante o realissimun de nossa consciência, fornecendo-nos a historicidade que determina a nossa situação no mundo. No entanto, em que medida o deslocamento do tempo em relação ao espaço e sua forma contínua, ininterrupta, devido as múltiplas possibilidades de conexão de tais artefatos tecnológicos, altera a noção de sujeito, posto que a subjetividade depende, cada vez mais, de tais tecnologias? Essa dependência poria fim à “essência” do sujeito? Ora, por acaso essas mesmas tecnologias não são formas desenvolvidas da própria subjetividade humana? Questões que nos colocam diante da necessidade de saber de que maneira os sujeitos se relacionam com tais artefatos e como repensar a cibercultura em outros termos que não meramente tecnológicos, restritos à cibernética e à informática, aonde nada se consolida, tudo é efêmero e fluido. Até onde, tal concepção não se alinha a determinados conceitos ideológicos que inviabilizam qualquer tentativa de construção de projetos a longo prazo, capazes de pensar o futuro? A seguir pretendemos dar continuidade a tais questionamentos partindo de outros caminhos que buscam entender a cibercultura a partir da participação dos sujeitos no espaço virtual.

OUTROS CAMINHOS POSSÍVEIS

A partir da abordagem de (GEERTZ: 1989: 10) sobre a definição de cultura, procuramos repensar a chamada cibercultura. Isso porque, como bem observou Rudiger (2003), ao revisitar obras de autores como Pierre Lévy, André Lemos, Manoel Castells, Paul Virillo, entre outros, a cibercultura quando não definida como uma nova cultura, formada pela fusão de cultura e tecnologia, é vista como uma emanação da máquina, uma coisa que serve para explicar um novo tipo de sujeito, uma nova relação do homem com a máquina, uma nova maneira de estar no mundo, um novo real concreto, etc. A insistência na palavra “novo” não é despropositada pois, além de referir-se a ideia de revolução, ruptura, revela a tendência, por parte de alguns autores, em extrair o sentido da técnica pela própria inovação técnica. Na visão de (GEERTZ: 1989: 10) a cultura não deve ser entendida enquanto um poder, mas sim um contexto dentro do qual, tal como o autor adverte, acontecimentos sociais, comportamentos e instituições podem ser descritos de forma inteligível. Partindo das considerações do autor, a cibercultura será vista e interpretada, como um produto cultural, o qual o significado emergirá através da descrição da trama complexa de práticas significativas que a mesma mobiliza. Entender a cibercultura enquanto produto cultural significa atribuir o caráter de mudança, não a tecnologia por si só, mas sim aos usos e significações que os sujeitos atribuem a mesma e maneira pelas quais a Internet é apropriada e tem seu significado negociado pelos indivíduos. Nem todo usuário da Internet, por exemplo, se considera “ciber-alguma coisa”. Ou, ainda que se expressem enquanto ciberartistas podem referir-se apenas à prática artística em ambiente virtual, o que não significa ruptura, como afirmam Como pontua (ARDÈVOL, MARTÍ, MAYANS: 2002: 14-15). Continuam fazendo o mesmo, mas de maneira diferente, isto é, nem as práticas, tampouco os indivíduos, podem ser consideradas novas somente porque nomenclaturas e meio o são. Porém, não sejamos ingênuos, ao marcarmos tal atividade como “nova”, “novidade” estamos atribuindo valor social e sentido, os quais podem mais tarde, inclusive, tornarem-se ótimas estratégias de mercado. No entanto, para (ANDRÉ LEMOS: 2007), em Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea, a popularidade do termo ciber atesta, não só, a existência de uma nova cultura, a cibercultura, mas também uma “nova” forma de estar no mundo:

Como podemos constatar, desde os terminais bancários até o acesso à Internet, o termo “ciber” está em todos os lugares: ciberpunk, cibersexo, coberespaço, cypherpunks,cibermoda, cibereconomia, ciber-raves, etc. Todos os termos mantêm suas particularidades e diferenças, formando no seu conjunto, a cibercultura. Todos eles atestam uma atitude, uma apropriação, vitalista, hedonista, tribal e presenteísta da tecnologia. (LEMOS, A.: 2007: 17-18)

O argumento do autor complica-se à medida que trata a cibercultura como a fusão entre cultura e técnica uma vez que, como aponta (RUDIGER: 2003), não se sabe ao certo em sua análise por que antes ambas estavam separadas. O fato é que o argumento não se sustenta e, ainda que tente se desvencilhar de uma visão determinista, acaba falho:

A Cibercultura é a cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais. Vivemos já a Cibercultura. Ela não é o futuro que vai chegar, mas o nosso presente (homerbanking,cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros). Trata-se assim de escapar, seja de um determinismo técnico, seja de um determinismo social. A Cibercultura representa a cultura contemporânea sendo conseqüência direta da evolução da cultura técnica moderna. (LEMOS, A: 2003: 12)

(LEMOS, A.: 2007, 2003) centra-se na relação homem/tecnologia e, em como a última está presente em nossas atividades cotidianas, sendo impossível mensurar sua presença nas atividades de nossas vidas. O fato é que, ao olhar a técnica e sua penetração na vida cotidiana, a fim de descrever essa nova cultura ciber, o autor avalia a vida contemporânea a partir das inovações técnicas e suas possibilidades. O emprego do termo ciber em diversas definições não é forte o suficiente para sustentar a idéia de um novo ser e de uma nova cultura. Não há homens sem cultura e cultura sem homens, já diria (GEERTZ: 1989: 37), isto porque os homens têm participação fundamental em sua construção. Ou seja, o entendimento de cibercultura enquanto uma nova cultura emergirá dos sujeitos envolvidos nesse mundo conectado e não a partir do desenvolvimento tecnológico. Como pontua (ARDÈVOL, MARTÍ, MAYANS: 2002: 14), falar de cibercultura consiste em não buscar sua definição fora dos próprios limites e contextos culturais no qual o termo ganha sentido. Para os autores, um bom começo seria indagar sobre quem fala de cibercultura, de onde fala e para que?, para assim, apreender a teia de significados que geram um contexto de inteligibilidade ao termo.

(MÁXIMO: 2007), em pesquisa etnográfica realizada no universo dos blogs, também a partir da concepção de (GEERTZ:1989) sobre a cultura, afirma que, ainda que a observação seja feita num dado registro, a possibilidade de determinados aspectos ou padrões comunicativos se estenderem a outros grupos e/ou outras modalidades de comunicação mediada por computador é válida. O olhar através desse foco permite, ainda segundo a autora, afastar as polarizações negativas e positivas a respeito da tecnologia, pois retira a atenção da idéia de “mundo paralelo” por vezes atribuída ao ciberespaço. A noção de ciberespaço como nova realidade e construção tecnológica perde força a partir das considerações realizadas até aqui, pois a indagação volta-se a como os indivíduos aceitam esse espaço virtual como um local válido para, entre outras coisas, se expressarem sócio-emocionalmente. Reid (1994 apud ARDÈVOL; MARTÍ; MAYANS: 2002), através de sua pesquisa sobre as interações em MUD – um sistema de realidade virtual baseado na descrição textual que pode ser utilizado por diversos participantes, desde que tenham os computadores interconectados – observou como os usuários criaram um contexto cultural rico, através da construção coletiva de um contexto de inteligibilidade, que permitiu, até mesmo, a criação de expressões próprias e regras de comportamento. Segundo Reid (1994 apud ARDÈVOL; MARTÍ; MAYANS: 2002) a dificuldade, a priori, estaria na não existência de interação face-a-face, pois “the words themselves tell only half the story--it is their presentation that completes the picture”. Isso porque nossa interação se dá a partir de sinais corporais e simbólicos, tais como, o tom de nossa fala, o estilo de se vestir e de escrever a mão, nossas posturas e expressões faciais, etc. Mas, como a autora observa em relação ao ambiente dos MUD’s, “although they cannot see, hear or touch one another, MUD players have developed ways to convey shades of expression that would usually be transmitted through these senses (REID: 1994). Com isso, são criados contextos de ações para os usuários e sistemas de significação sobre a tecnologia.

Em seus estudos (HINE: 1998) se concentra em entender não apenas como as pessoas usam a internet, mas também as práticas que conferem significados a esse uso em contextos locais. Quando se trata da internet é preciso aprender além dos manuais técnicos e interpretar aquilo que se lê na tela gélida do computador e também saber como utilizar o teclado de modo que aquilo que se escreve possa ser apreciado por alguém. Para (HINE: 1998) precisamos entender as relações sociais que transformam a internet em algo significativo para as pessoas. Nesse sentido, um caminho possível é aquele que retoma a importância do sujeito virtual no processo de construção desse espaço sintético proporcionado pela internet, comumente chamado de ciberespaço. (MAYANS I PLANELLS: 2006), em sua pesquisa com comunidades virtuais, afirma que há de se trabalhar esse espaço enquanto espaço social praticado e aponta para sua aparente banalidade, composta por conversações efêmeras, frágeis e fragmentadas, fato que, por vez, aponta o ciberespaço como um lugar ‘pouco sério’. O interessante nos trabalhos desse autor é que, ao longo de sua pesquisa em chats, (MAYANS I PLANELLS: 2006) foi percebendo que, justamente, esse banal possuía extrema relevância:

En la sucesión de chistes, burlas, juegos y comentarios banales sobre la actualidad o sobre el medio, se estaba produciendo, en realidad, un proceso constante de aseveración del vínculo y la significatividad social del propio espacio y del propio grupo social, por inestable y cambiante que éste fuera. En cada una de las palabras tecleadas rápidamente, con abreviatura y faltas de ortografia, que corrían por la pantalla condenadas a desaparecer al cabo de un par de minutos, se encontraban las auténticas partículas atómicas de la sociabilidad (MAYANS i PLANELLS: 2006).

Os estudos acima se mostram distantes da concepção de ciberespaço como novo meio surgido pela interconexão mundial dos computadores proposta por (LÉVY: 1996). As significações sobre a tecnologia em geral, dispersas em diferente atividades e implícitas em nosso senso comum, são entendidas a partir de redes de significação, de um sistema cultural, tal como propunha (GEERTZ: 1989). Tal perspectiva não busca definir um todo cultural, mas sim realizar análises parciais de uma prática social concreta para dar conta de compreender as múltiplas possibilidades de apropriação e significação da tecnologia. A preocupação com a “usabilidade” e a interação do sujeito/objeto é posta de lado em detrimento a comunicação operada num determinado sistema de práticas sociais on-line que, por sua, vez é descrito e interpretado com densidade a partir dos sujeitos envolvidos.

Discutimos nas linhas anteriores uma forma de olhar a cibercultura e o ciberespaço enquanto construções culturais de modo a (re)inserir a importância do sujeito em tal feito. Acreditamos que, ao afastarmo-nos das concepções que buscam entender tais conceitos a partir do desenvolvimento tecnológico, poderemos 1) captar a diversidade dos modos de ser presentes na virtualidade com profundidade e não a partir da variedade de nomenclaturas (ciberpunks, ciberativistas, etc); 2) questionar a ideia de “novo” e “diferente” atribuída às práticas sociais realizadas no ambiente virtual 3) centralizar a atenção nas imbricações entre comunicação e tecnologia para além do nível relacional, puramente técnico, como forma de captar as complexidades da relação entre um “eu” e “outro” no processo vinculativo, isto é, no momento em que um espaço virtual específico passa a ter um sentido partilhado pelos sujeitos, tornando-se válido. A seguir, exploraremos de maneira mais aprofundada essa última proposição.

COMUNICAÇÃO, VISIBILIDADE E VÍNCULO

Dedicar algumas linhas à comunicação mostrou-se tarefa necessária a esse artigo. Afinal, como estamos pensando, conceitualmente, a comunicação? Essa pergunta-chave é linha mestra das páginas a seguir, pois define uma maneira de olhar o lugar da comunicação na contemporaneidade. Em um momento em que as pessoas são, cada vez mais, convidadas a se comunicarem, qual sentido tal iniciativa acarreta ao próprio entendimento da comunicação?

Broadcast yourself (Youtube), Mostre quem você é! Comece um blog. (Wordpress), What you are doing? (Twitter), Compartilhe suas fotos e vídeos, explore o mundo (Flickr). As chamadas evidenciam as múltiplas formas de participação disponíveis no universo on-line e caracterizam-se por um elemento comum: “o mostre quem você é”. Seja por vídeo, imagem, ou texto, o importante é comunicar aos outros um pouco sobre você. Compartilhar a vida cotidiana e as experiências individuais é a ordem da vez. As noções de público e privado alteram-se na visibilidade da rede. Para tornar-se visível nada melhor do que tornar público o seu espaço privado. O interesse pela vida privada alheia não é algo novo, a história do jornalismo trás inúmeros exemplos de colunas sociais, com informações privadas sobre personalidades ilustres. A novidade está, não só na ampliação da visibilidade, devido às múltiplas possibilidades de conexão à rede, mas também na possibilidade do indivíduo comum tornar-se visível. A produção, edição, redação e seleção do que será posto a apreciação pública é, hoje, possível de ser realizada através de celulares, câmeras digitais, filmadoras, texto, etc. Blogs, Flickr, My Space ou Orkut tornam-se espaços onde os indivíduos tecem a narrativa de suas identidades à coletividade e também estabelecem novas formas de sociabilidade. Uma vez na rede, os próprios indivíduos são passíveis de se tornarem um evento midiático. A essa virtualização da existência humana, (SODRÉ: 2002) chama de midiatização. Esta, não nos diz o que é a comunicação, mas caracteriza-se como um pensamento comunicacional sustentado pela ideia de uma mutação sócio-cultural centrada no funcionamento atual das tecnologias de comunicação. Nesse sentido, o conceito nos serve como orientação à interpretação de determinados fenômenos contemporâneos alicerçados nas práticas midiáticas.

Numa ordem social organicamente constituída por informação (mídia em tempo real, computadores, satélites, ambientes virtuais, etc.), o espaço é a própria informação, portanto um novo “solo” para um novo bios. (SODRÉ: 2002: 195).

Ao converter-se em realidade midiática, isto é, ao existir e se apresentar na rede, o indivíduo se coloca diante de uma nova relação com as referências concretas, isto porque a dinâmica do “tornar-se visível” está estritamente ligada a produção performática, fato que confere uma interpretação distorcida da realidade.

(BERGER: 1985), ao questionar-se como a atividade humana produz o mundo das coisas, pontua que a realidade da vida cotidiana está organizada em torno do “aqui” de nosso corpo e do “agora” do presente, para em seguida dizer que aquilo que é “aqui e agora” é o realissimun de nossa consciência, isto porque a realidade da vida cotidiana já aparece objetivada antes mesmo de nosso nascimento e apresenta-se como um mundo intersubjetivo. Sabemos que participamos da realidade da vida cotidiana juntamente com outros homens, logo, entre as múltiplas realidades, esta se torna “a realidade” por excelência, por ser factidade não requer verificações.

Sei que minha atitude natural com relação a este mundo corresponde à atitude natural de outros, que eles também compreendem as objetivações graças às quais este mundo é ordenado, que eles também organizam este mundo em torno do “aqui e agora” de seu estar nele e têm projetos de trabalho nele. (BERGER, P.: 1985: 40).

Parece ser que nessa apresentação do eu na virtualidade, nessa virtualização da existência, a visibilidade da realidade da vida cotidiana ganha imenso valor. Dessa maneira a existência virtual é alimentada pela experiência cotidiana, marcada pela performance, mas, no entanto, partilhada com os outros, anônimos ou não, que se dispõem a assistir essa apresentação. Podemos falar então de um processo de narração da identidade e também da constituição de um jogo de poder calcado na dinâmica do “tornar-se visível”. Se para Focault (1977 apud THOMPSON: 2008) o jogo de poder da visibilidade se circunscrevia ao compartilhamento de um domínio comum, físico, o que presenciamos hoje é, ainda mais, complexo, afinal, como bem aponta (THOMPSON: 2008), podemos testemunhar acontecimentos “descolados” do tempo-espaço. Ou seja, as formas tradicionais de vinculação já não são suficientes para entender o processo constitutivo dessa realidade virtual. Por isso, como dito anteriormente, entender a cibercultura enquanto construção cultural pode auxiliar no entendimento dessa “nova” forma de vinculação, isto é, em como, a partir da virtualização da existência, vão se construindo contextos válidos para as ações dos indivíduos, bem como para sentimentos de pertença.

[...] num mundo onde a capacidade de experimentar não está mais ligada à atividade do encontro, como podem relacionar experiências mediadas aos contextos práticos da vida cotidiana? Como se podem relacionar com eventos que acontecem em locais distantes dos contextos em que vivem, e como podem assimilar a experiência de acontecimentos distantes numa trajetória coerente de vida que devem construir para si mesmos?” (THOMSPON, J. B.: 1998: 182)

Através da linguagem marcamos nossas vidas na sociedade e enchemos esta de significado, evidente que a comunicação e a interação são imprescindíveis para nossa existência na vida cotidiana. Se a linguagem produz realidade e sendo a mídia uma técnica política de linguagem, tal qual pontua (SODRÉ: 2002), a última torna-se formadora e interventora da consciência humana. Soma-se a isso a questão da temporalidade, uma vez que esta é propriedade intrínseca da consciência, como afirma (BERGER: 1985). “A estrutura temporal da vida cotidiana fornece a historicidade que determina minha situação no mundo da vida cotidiana” (BERGER: 1985: 44) e é, também, através dessa estrutura temporal que a vida cotidiana conserva seus sinais de realidade. Acontece que o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação vêm ampliando o alcance dos discursos (da linguagem) e alterando a noção de tempo. Uma vez que o tempo da rede, em última instância o tempo do fluxo de informação, vem sendo chamado de “tempo real”, temos o comprometimento da periodização de nossa própria existência. Talvez, por isso, (SODRÉ: 2002) acabe sendo um tanto quanto dramático em relação à identidade, que para ele, na virtualidade retornaria ao grau zero do sujeito, desprovida de sentido e acúmulo histórico de significações. Ainda segundo o autor, diante da configuração desse real atravessado pela virtualização a forma assumida pela consciência seria a da técnica. No entanto, esse ponto requer uma verificação mais aprofundada para não incorrermos em certos determinismos.

Posto isto, temos que em uma sociedade intensamente midiatizada, cada vez mais, as tecnologias de comunicação participam do relacionamento entre indivíduos e realidade e, mais do que isso, interferem diretamente sob os processos de individuação das consciências, alterando as formas de relação entre o sujeito e o real concreto. Se o núcleo teórico da comunicação compreende em entendê-la em sua capacidade de gerar vinculação, de modo que os indivíduos possam tornar o mundo inteligível de maneira afim, cabe aos pesquisadores da área buscar na rede não as formas de interação, mas sim os sujeitos e os usos que estão sendo feitos da tecnologia, ou seja, aquilo que leva alguém a estabelecer uma prática comunicativa em rede e a maneira como tal atividade se relaciona aos processos de formação do próprio sujeito e às atividades cotidianas. Tal postura contribui para diminuir rotulações tanto em relação ao atual momento, como ao sujeito contemporâneo, além de distanciar-se do aspecto técnico-interacional. Assim, devido ao intuito do presente artigo, buscamos explorar alguns questionamentos expostos até aqui no blog Diários, presente no site de um coletivo indígena específico, o Índio On-line.

A PRESENÇA INDÍGENA NA VIRTUALIDADE: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

É no mínimo curioso associar a palavra índio à virtualidade, afinal o termo “índio” nos remete a idéia de pureza e homogeneidade. Desde o legado de nossos romancistas, o índio é evocado para nos lembrarmos de nossas raízes culturais e de nossa identidade. Um índio, muitas vezes idealizado, basta recordar a bela Iracema, com seus lábios de mel e toda a descrição europeizada. O que de fato é recorrente em nossa memória, como bem aponta (BARBERO: 2001), é converter o índio como algo irreconciliável com a modernidade, logo privado de existência positiva. Numa outra vertente, o indígena é associado a uma resistência que o supervaloriza, com certos contornos exóticos, idealisticamente atribuindo sua capacidade de sobrevivência étnica-cultural diante do atual sistema capitalista. Ao compreendermos a cultura indígena remetendo-a a um tempo a-histórico ou negando a sua capacidade de desenvolver-se dentro do sistema capitalista, acabamos por entender o índio sempre como um ser primitivo e estático. Logo, a questão da simples presença de índios na internet, nos obriga a repensar esse “ser índio”. Mais do que isso, nos coloca diante das imbricações entre identidade e tecnologias de comunicação e suas relações com essa outra possibilidade de “habitar” que se verifica na contemporaneidade.

Interessante ressaltar que (PEREIRA: 2008), em sua pesquisa de mestrado, entre 2005 e 2007, fez um mapeamento da presença indígena brasileira na Internet e constatou, no ano de 2006, 27 sites. Posteriormente, já no ano de 2008, o número aumentara para 37 sites. Durante a pesquisa, (PEREIRA: 2008), percebeu que devido à dinâmica do ciberespaço se faz necessária a marcação de um registro temporal, uma vez que o aparecimento e, também, o desaparecimento dos sites é veloz. Outro apontamento pertinente diz respeito ao tipo de conteúdo mapeado, sendo categorizados como sites de organização (62,17%), sites pessoais (21,62%), sites de etnias (16,21%), o que revela a predominância da atuação indígena por meio de organizações, fato que pode evidenciar um tipo específico de entendimento sobre a Internet, bem como formas mais profissionais de participação. Estando o blog Diários dentro da rede Índios On-Line, formada a partir da parceria entre a THYDÊWÁ – associação civil de direito privado sem fins lucrativos, legalizada em agosto de 2002 que agrupa, atualmente, índios e não índios – e o Ministério da Cultura, através de seu programa Pontos de Cultura Viva e da ANAI (Associação Nacional de Apoio ao Índio), seria prudente classificar o blog Diários como uma forma de ciberativismo e seu conteúdo de contra-hegemônico? O que de fato ocorre no blog, isto é, qual sua finalidade? Que percepção seus participantes têm em relação ao uso do blog, bem como a essa presença na rede? Como se apresenta esse “índio” através dos posts1? A partir de tais questionamentos foi realizado o primeiro contato com o blog Diários, sempre levando em conta os conceitos e teorias abordados anteriormente. O que segue abaixo é o relato de um primeiro olhar ao conjunto de posts referentes ao mês de abril de 2009.

13.04.2009 – A PRIMEIRA VISITA

O próprio nome do blog, Diários, remete a um relato pessoal, afinal manter um diário significa confidenciar situações do dia-a-dia, pensamentos íntimos, emoções, ou seja, as experiências individuais pelas quais passamos. Paradoxalmente, manter um diário na Internet seria compartilhar a particularidade, tornar público algo que, supostamente, deveria manter-se no âmbito privado. Outra peculiaridade, no caso do blog Diários, é o nome em plural, afirmando uma presença coletiva no processo narrativo, uma pluralidade de autores. Ao observar os posts percebi que classificar o blog enquanto diário íntimo não seria satisfatório uma vez que a presença de posts de localizações variadas, eventos como congressos, palestras e encontros, bem como rituais específicos, entrevistas com políticos locais, reitores de universidades ou com os próprios indígenas, além de reflexões sobre o que é ser índio e medicina, entre outros assuntos, me levaram a entender o blog como uma expressão singular de determinados sujeitos, que constroem sua identidade nessa seleção, nesse recorte do que é apresentado. Não há uma seqüência diária de posts, evidenciando que aquilo que lemos não é o dia-a-dia de uma comunidade indígena, mas sim relatos fragmentados dos mais variados temas que, vistos em conjunto, corporificam uma identidade, configurando-se como uma apresentação do eu, tal qual (MÁXIMO: 2007) observou em suas pesquisas. Outro elemento que auxilia essa apresentação é o próprio layout do blog, que em termos técnicos traz 20 posts por páginas, com data e horário das postagens, assinados por cada autor e com o respectivo e-mail, há também opção para acesso aos arquivos e busca por palavras, no entanto é a seleção de elementos gráficos, evidentemente além do conteúdo, que contribui para corporificar o sujeito do blog, isto é o (s) autor (es). No blog Diários, os elementos gráficos que separam os posts remetem ao trançado de cestos de sisal e a seleção das cores, com tons marrons, remetem a terra, o que nos ativa determinada idéia de índio, nesse caso específico, àqueles que vivem em aldeias, ao menos em minha imaginação. Talvez, essa imagem tenha se construído no momento em que prestei atenção às fotos presentes em inúmeros posts. Cocares dos mais variados tipos e tamanhos, colares com dentes de tigre, sementes, trançados, rostos pintados, crianças com roupas típicas e flautas de bambu lembraram-me as gravuras de livros de escola. Tais constatações fizeram-me refletir sobre como os índios vêem a si mesmos, pois, a princípio, o blog remetia ao olhar do branco sobre o índio, mas no entanto, os autores, produtores dos conteúdos sabem que esse ambiente é público, ou seja, até que ponto não estaria sendo induzida a reforçar a idéia de um índio de arco e flecha, com pinturas no corpo, vivendo em aldeias, tal qual as apostilas de escola trazem em suas páginas? Ou seja, uma idéia de índio socialmente aceitável. Se, no entanto, o blog fosse desprovido dessas marcas simbólicas, será que não duvidaríamos de seus autores e nos afastaríamos da participação? Nesse caso, reforçar o imaginário socialmente aceitável e, no entanto, incorporá-lo no intuito de transformar esse referencial poderia ser uma boa saída. Posto isso, restou-me olhar atentamente o conteúdo.

Todos os cinqüenta e quatro posts do arquivo do mês de abril apresentam títulos em negrito e uma pequena parte do texto. Para lermos na íntegra precisamos abrí-lo através da indicação do “Leia Mais” e, assim, somos levados a página original do post, onde podemos ver, também, os comentários feitos pelos visitantes, além de podermos registrar a nossa própria apreciação. Embora, eu achasse que os textos evidenciariam certa dificuldade com a língua portuguesa, devido à tradição majoritariamente oral dos povos indígenas, o que se verificou foi, justamente, o contrário apenas dois textos (3,8%) demonstraram alguma dificuldade em relação à língua portuguesa. Realmente interessante nesse contato foi a quantidade de vídeos com a qual me deparei, de um total de cinqüenta e dois posts, trinta e quatro (65%) continham vídeo. O uso desse recurso é totalmente viável, sobretudo se pensarmos que essa ferramenta permite a permanência da comunicação oral, fato que facilita a participação da comunidade indígena, como pude observar nos diversos vídeos com depoimentos e reflexões de índios mais velhos. Apesar do blog permitir um agrupamento dos posts por categorias, percebi que o recurso não foi muito utilizado no mês de abril, somente sete (13%) foram agrupados (educação, política, história, eventos, atividades). Os demais ficaram sob o signo de “Abertura”, o que me levou a identificar que não haviam sido agrupados, uma vez que versavam sobre assuntos completamente distintos, como eventos, poesia, textos opinativos, entre outros. O conteúdo reforça a idéia de um povo guerreiro e sobrevivente e essa construção se faz, sobretudo a partir da própria dinâmica entre conteúdo e comentário, onde é possível perceber, também, a os constantes registros de uma pacifica relação entre índios e natureza. Embora, muitas vezes, as temáticas se afinem a uma construção de índio muito parecida à imagem que os brancos têm dos índios em geral, elas abordam os direitos indígenas não só ligados às questões de território, mas também à educação e política, paradoxalmente, há em alguns posts uma crítica a esse excesso de estereotipização fato que reforça o argumento feito anteriormente sobre a questão da apresentação do eu, dentro dos limites do socialmente aceitável. Ou seja, voltamos novamente a questão do que é ser índio, sobretudo dentro desse contexto das tecnologias de comunicação.

BREVES CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir de meu primeiro contato com o Blog Diários procurei levantar algumas questões pertinentes para a compreensão da relação entre novas tecnologias de informação e identidade, sempre guiada pelas discussões atuais que pautam os estudos de comunicação e também os contextos específicos onde os indivíduos se dão a ver na atualidade. Longe de estarmos diante de um novo índio, o que evidenciamos nos (des) caminhos do blog não é a “vida como ela é”, mas sim uma encenação, uma apresentação do eu, dentro de um contexto que se faz vivo pela olhar de um “outro”, que nas múltiplas possibilidades de trajetos, pelos posts fragmentados, tem a possibilidade de construir a própria biografia do blogueiro, tal qual observado por (MÁXIMO: 2007). Ainda que esses índios se apresentem com o olhar socialmente aceitável dos brancos, tal fato se configura mais como uma estratégia, um convite à leitura de outros imaginários possíveis. Não deixam de ser índios só por utilizarem a tecnologia, no entanto sabem muito bem que a aparência foi o pouco que lhes restou de autenticidade e, por isso, trabalham sobre essa construção milenar. Nas constantes referências, tanto nos comentários, quanto nos posts, às qualidades de guerreiros e sobreviventes fica a certeza de que reside, justamente nesses signos, o vínculo necessário para a formação de parentesco (o comum na comunidade), como mostram os posts de diferentes etnias presentes no blog. Mais do que interação, entramos num domínio onde o conceito de comunicação transcende sua visão instrumental de modo a estabelecer um sentimento de partilha, na difícil e conflituosa relação entre um “eu” e um “outro”, isto é, num meandro onde não só se expressam as experiências cotidianas, mas também se constroem e reconstroem identidades.

NOTA:

1 Definição de post pelo dicionário Oxford University Press On-line - PUBLIC NOTICE: to put a notice, etc. in a public place so that people can see it. “The results will be posted on the Internet”.

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CC0 (Equivalente a Dominio Público)