IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo D-28: Museus e patrimônios culturais

Museu digital dos ex-votos: Uma nova concepção museológica

Ponente/s


Resumen

O objetivo deste artigo é elucidar o Projeto Museu Digital dos Ex-votos e todo o processo para sua criação, bem como, sua importância como um espaço para pesquisas, estudos, divulgação e preservação de uma rica tradição popular e religiosa, parte do patrimônio cultural brasileiro. Tratar o ex-voto como um documento-testemunho, além de estudar, desvendar e entender o aspecto signológico desses objetos.

Contenido de la comunicación

O Projeto de Pesquisa Museu Digital dos Ex-votos surge em decorrência de estudos e análises realizados sobre ex-votos no Brasil, dentro do universo das salas de milagres e locais de desobriga nos santuários católicos, o que proporcionou a organização de um Banco de Dados Iconográficos (BDI) que culmina na criação do “Museu Digital dos Ex-votos.” A organização desse banco de dados permite uma rica análise da tipologia dos ex-votos, suas variações decorrentes das diferenças regionais e culturais, bem como estudar a iconografia e a iconologia dos mesmos através dos conteúdos sociais, artísticos e religiosos que esses documentos trazem.

A rápida expansão da internet no final do século XX e início do XXI possibilitaram a multiplicação de sítios intitulados de museus. Eles aparecem com freqüência sobre variadas denominações como webmuseus, cibermuseus, museu digital e muitos deles apresentam interfaces com o museu físico. A concepção tradicional de museu remete inevitavelmente a um espaço arquitetônico constituído, porém, os museus virtuais não dependem de um espaço físico para existirem, fator este que engrandece os debates ligados às novas tecnologias empregadas aos museus, sobretudo por se tratar de uma temática nova na museologia.

Malraux (2000) defendeu a idéia de um museu imaginário, tendo como base a fotografia, que era uma das tecnologias mais avançadas de sua época, um espaço de memória viva. Nesse caso, cada pessoa poderia ter o seu próprio museu imaginário e o museu virtual não seria uma reprodução do museu físico, mas funcionaria no ciberespaço traduzindo a linguagem museológica para o mundo virtual.

Em 1992 foi criado um Comitê Internacional de Documentação, o CIDOC, formado por um grupo de pesquisas sobre as novas tecnologias nos museus, especificamente sobre a internet e os museus. O objetivo dessa pesquisa, que inicialmente aconteceu em Québec no encontro do ICOM, é discutir as questões sobre multimídia e preservação do patrimônio através dessas novas tecnologias.

O ICOM define museu como “uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e exibe, para fins de estudo, educação e lazer, evidência material das pessoas e de seu meio ambiente”. Nota-se que essa definição não está distante do universo virtual, o que demonstra como o museu digital e o seu reconhecimento oficial são atuais, privilegiando uma idéia de museu permeada pela centralidade e não pela materialidade dos objetos e lugares físicos. A inclusão do novo apêndice permite pensar o museu como um amplo espaço de divulgação e elucidação da memória social, de maneira universal, o que permite ensejar novas concepções sobre o que se constitui um museu.

As ações museológicas veiculadas pela internet adquirem uma maior abrangência no espaço virtual em relação ao espaço físico. Além disso, representam uma maior interatividade com o público, propiciando visibilidade e acesso a um tema pouco pesquisado. O projeto totalmente digital possibilita a sistematização de BDI, potencializado pelas condições de acesso a comunicação e informação que a internet proporciona, devido à amplitude planetária que alcança.

O Museu Digital dos Ex-votos funcionará como um espaço virtual na web, no portal www.ufba.br para estudos, pesquisas, preservação e divulgação dos acervos das salas de milagres dos principais Santuários do Brasil, facilitando o acesso a todo esse material e fortalecendo o patrimônio cultural de cada região pesquisada. “Devemos, então, de qualquer maneira, garantir a compreensão de nossa memória social preservando o que for significativo dentro do nosso vasto repertório de elementos componentes do Patrimônio Cultural”. (LEMOS, 1985, p. 29) Isso significa dizer que preservar é uma forma de evitar o desaparecimento de significados realmente importantes dentro do contexto social e histórico em que vivemos. O Museu Digital dos Ex-votos possibilitará também avaliar o funcionamento de uma nova forma comunicação e preservação que prescinde do espaço físico dos tradicionais museus, enriquecendo assim as pesquisas nas áreas de novas tecnologias documentais de acervo.

EX-VOTOS E SEMIOLOGIA

Antes de tratar propriamente do Projeto de Pesquisa Museu Digital dos Ex-votos e de todo o processo para sua criação, será interessante abordar um pouco a questão da semiologia e de sua importância como uma ciência fornecedora de modelos teóricos vinculados a linguagens.

A semiologia é a ciência que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas de signos e fornece modelos teóricos que permitem ler, desvendar e entender o aspecto signológico dos fenômenos e dos objetos. Diferentemente da lingüística, que se restringe ao estudo dos signos lingüísticos, ou seja, da linguagem, a semiologia estuda todos os signos passíveis de serem visualizados em suas mais variadas formas (imagens, vestuário, gestos, ritos etc.) com o auxílio, evidente, de estudos interdisciplinares.

Signo é toda palavra, número, imagem ou gesto que representa indiretamente um referente. Existem dois tipos de signos, os digitais e os analógicos. Os digitais são descontínuos e arbitrários, não se assemelhando ao objeto representado, como por exemplo, as letras, os números e as línguas. Já os signos analógicos são contínuos e se assemelham ao objeto representado, permitindo um reconhecimento imediato, como por exemplo, fotografias, gráficos e desenhos.

Impreterivelmente o ser humano tem a necessidade de fazer uso de signos e símbolos para poder expressar suas idéias, experiências, emoções, enfim, formar sua própria cultura. A cultura é uma forma de linguagem, e como toda forma de linguagem é simbólica, precisa dos signos para se materializar.

Os ex-votos são objetos da crença popular, vinculados à fé religiosa, tendo propósitos variados, porém, não deixam de ser objetos da história social e da própria arte, assim sendo, funcionam como um documento-testemunho, um registro de uma cultura popular de uma determinada região. Não se pode desvincular do ex-voto também o seu caráter comunicativo, com toda sua carga de representações simbólicas, e a riqueza de significados passíveis de serem entendidos nos mesmos.

A semiologia e seus modelos de análise são importantes ferramentas para analisar a questão signa e simbólica dos ex-votos, à luz da iconografia e da iconologia, itens indispensáveis para a elucidação das mensagens religiosas, dos conteúdos sociais, históricos e artísticos que esses objetos trazem a partir de sua tipologia, categoria e gênero.

PESQUISA E METODOLOGIA

As pesquisas sobre ex-votos têm um histórico de doze anos, inicialmente realizada sobre ex-votos na Bahia, e desde o ano de 2006 ganha dimensão nacional através do Projeto de Pesquisa Ex-votos do Brasil. Um dos objetivos, já em curso, é o de analisar os ex-votos dos santuários das sete maiores salas de milagres do Brasil que são: Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, Bom Jesus de Matosinhos, em Minas Gerais, Padre Cícero e Canindé, no Ceará, Nossa Senhora do Círio de Nazaré, em Belém, Trindade, em Goiás e Santa Paulina, em Santa Catarina. Além disso, outros santuários e locais de desobriga de ex-votos de menor dimensão foram visitados e demarcados, é o caso de São Judas Tadeu, em Belo Horizonte e ambientes ex-votivos de Marechal Deodoro e Penedo, em Alagoas. Outros locais encontrados já foram inseridos no cronograma de pesquisa, como as Igrejas da Penha, em Vitória e no Rio de Janeiro, a Gruta da Lapinha, na Chapada Diamantina, e o santuário de Caravaggio, em Farroupilha.

Primeiramente, foi realizada uma pesquisa sobre as origens dos santuários, a identificação das tipologias de ex-votos e a análise da duração de cada objeto em cada sala de milagre. A partir dessas pesquisas, e o suporte do BDI, o Museu Digital ganha forma através da construção de um folheto eletrônico (http://ex-votosdobrasil.blogspot.com) que já funciona no ciberespaço.

A metodologia da pesquisa de campo empregada foi baseada na observação in loco dos santuários, o que possibilitou a captação de imagens em formato digital (JPEG) para DVD e fotografias, com análise bibliográfica. As duas bases teóricas da pesquisa são a Iconografia e a Folkcomunicação. A primeira consiste em analisar as estruturas físicas do objeto, ou seja, uma observação sistemática das variadas formas de ex-votos encontrados, independente de valor artístico atribuído a ele. Ancorado ao estudo iconográfico, a iconologia se faz presente através dos estudos que transcendem o objeto, que vai além dos seus aspectos físicos, táteis e perceptíveis, representando os significados intrínsecos, conteúdos e concepções trazidas pelos ex-votos.

A FOLKCOMUNICAÇÃO

A Folkcomunicação surge a partir dos estudos feitos pelo jornalista Luiz Beltrão em sua tese de doutorado (1967), que advêm de um artigo da revista Comunicações & Problemas (1965), a qual retratava os ex-votos registrados nas igrejas, possuidores de intenções informativas, veiculando através do jornalismo o potencial milagreiro dos santos protetores. Ele foi o pioneiro na introdução do estudo científico da Comunicação no Brasil e a fazer uma análise da comunicação popular, que a partir daí começou a se delinear, chamando à atenção para a dimensão social do folclore, difundindo-se no mundo inteiro. Diante disso, as tradições populares passaram a ser importantes fontes de pesquisa da Antropologia, a Etnografia e a História, diferentemente do que ocorria nas décadas de 60 e 70, na qual as teorias da Comunicação estavam voltadas para o estudo da semiologia.

A palavra Folk tem como significado o que é popular e espontâneo. O termo Comunicação refere-se à transmissão da informação e difusão da mesma. Logo, a Folkcomunicação dialoga com as classes chamadas por Beltrão de grupos marginalizados, que são constituídos de pessoas que habitam em locais isolados, carentes de infra-estrutura, informação, educação e qualidade de vida, e consequentemente, têm dificuldades na decodificação das mensagens transmitidas pelos meios de comunicação de massa, estes que mostram uma realidade incompatível com a realidade vivida por esses grupos. Assim, Beltrão caracteriza a Folkcomunicação como mecanismo que se utiliza das manifestações culturais para transmitir através de uma linguagem simbólica e popular mensagens veiculadas pela indústria cultural.

Estes mecanismos, chamados de artesanais de difusão, podem ser observados nas cantigas populares, brincadeiras típicas de crianças, ritos coletivos da religião popular, os poemas anônimos que são passados de geração em geração, o saber tecer e a sabedoria camponesa. Enfim, as coisas simples do povo que se constitui uma tradição e uma sobrevivência popular incorporado ao modo de vida coletivo da cultura específica de uma sociedade.

Deter-nos-emos, nesse caso, em estudar o ex-voto dentro do universo do Museu Digital, que são testemunhos de devoção popular colocados em salas de milagres de santuários católicos, com o intuito de pedir ou pagar por uma graça alcançada por intermédio de um santo de devoção. Trata-se de uma manifestação sócio-religiosa que se liga à arte popular, despertando interesses de antropólogos, historiadores da arte e cultura e arqueólogos.

Para Oliveira (1995), ex-votos são definidos como “objetos bi e tridimensionais que são colocados numa igreja, numa capela ou em um cruzeiro, em cumprimento de um voto ou promessa”. Assim, além de possuírem propósitos variados (motivacionais), podem assumir qualquer forma, pois seu significado é dado pelo próprio devoto.

Dentro da tipologia dos ex-votos pode-se encontrar de tudo, em todos os tamanhos e dimensões, e a cada dia novos tipos de objetos são deixados nos santuários espalhados pelo Brasil como forma de agradecimento e testemunho da graça alcançada. A questão se pauta em como classificar o ex-voto. Alguns estudiosos se prendem as características artísticas do objeto estudado, outros dão importância à questão da origem motivacional. Diante da enorme diversidade dos tipos e da grande variedade de materiais empregados na feitura dos mesmos, no processo de organização do Museu Digital buscou-se estabelecer uma tipologia adequada para servir como base de pesquisa e desenvolvimento do projeto.

Uma das classificações já existentes divide os ex-votos em quatro categorias: Antropomorfos (são os que representam o corpo humano, no todo ou em parte, ex: desenhos, pinturas, esculturas e fotografias); Zoomorfos (as representações de animais); Simples: (os objetos de uso cotidiano e/ou religioso) e os Especiais ou Representativos de Valor: (os ex-votos que, economicamente, têm valor monetário, ex: dinheiro, jóias, sacos de feijão, arroz, milho, etc.). Logo abaixo, um exemplo da variedade de tipologias de ex-votos encontrados nas salas de milagres dos santuários (v.fig. 1).

Fig. 1. Ex-votos aparelhos ortopédicos. Aparecida, São Paulo, Brasil.

O projeto de pesquisa vem criando uma tipologia mais específica, embora encontre dificuldades devido a grande diversidade dos tipos de objetos, além da infinidade de possibilidades de novas formas de ex-votos surgirem a cada instante. O que se pretende é criar uma tipologia aberta, capaz de alcançar as mudanças que vêm ocorrendo no cotidiano das pessoas, pois estas mudanças refletem diretamente no aparecimento de novas formas de ex-votos. A princípio estão sendo realizadas identificações a respeito das origens dos santuários e das tipologias de ex-votos encontradas, em seguida, através de sistemas de informática (Corel Draw), as imagens digitalizadas ganham legendas que descrevem cada ex-voto registrado, trabalho feito para facilitar as buscas de futuros pesquisadores e curiosos sobre a temática. (v.fig. 2).

Fig. 2 Ex-votos escultórico. Trindade, Goiás, Brasil.

A classificação tipológica dos ex-votos, até o presente momento, vem sendo feita em cima de quatro categorias criadas pelo Projeto de Pesquisa. De acordo com tal classificação, os ex-votos podem ser pictóricos (telas, quadros, desenhos, etc.), escultórico (esculturas de partes do corpo, imagens, etc.), fotográficos (fotografias de todas as dimensões) e biográficos (cartas, bilhetes, textos, etc.). Porém, novas categorias serão criadas, permitindo uma melhor identificação desses objetos.

Esse novo modelo de museu permite uma junção das novas tecnologias de comunicação com a sociedade, ampliando assim o caráter educativo dos museus, por possibilitar que todo o conteúdo informacional seja compartilhado entre pessoas do mundo inteiro, de uma maneira mais ampla e democrática.

O Museu Digital dos Ex-votos será uma ferramenta de preservação de uma importante tradição popular, entendendo a cultura como uma dimensão do processo social. A viabilização dessa nova concepção de museu não depende de um grande investimento financeiro, o que possibilita o surgimento de museus com temáticas pouco exploradas, porém de importância para a compreensão das sociedades contemporâneas, pois a cultura é um produto da história coletiva e merece que conheçamos mais sobre ela.

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