A cibercultura tem descortinado novas relações entre as pessoas, engendrando novas formas de comunidades e até um novo fazer político, seja pela reestruturação dos governos em governos eletrônicos, seja pelas diversas possibilidades de manifestação e articulação da sociedade frente aos governos. O presente artigo pretende discutir se as promessas do ciberespaço continuam meras teorias e desejos, ou se de fato há uma transformação política no agir da sociedade possibilitada pelas novas tecnologias. Iluminar a relevância dessas novas práticas e confrontá-las com as previsões dos principais teóricos da cibercultura consistem nos principais objetivos deste trabalho, que refletirá releituras do conceito de cidade, cidadania e democracia. A reflexão terá como base o estudo de caso da smart mob A Hora do Planeta
Introdução
Os movimentos sociais hodiernos têm como característica ultrapassar as fronteiras de classe, sexo, raça, nação, traduzindo a complexidade dos desafios que são propostos pela sociedade da informação, pós-industrial. O mundo globalizado desfia problemas também planetários, convocando uma nova tessitura para os movimentos sociais. As novas tecnologias traduzem essa necessidade e sustentam outras modalidades de manifestação articulação e expressão dos desafios globais. O presente trabalho busca refletir o uso das novas tecnologias de informação e comunicação como fios desta teia de articulação planetária necessária às reações da crise atual, no caso estudado a crise ambiental, que ameaça a qualidade de vida e a própria sobrevivência no planeta.
Teóricos da cibercultura há que negam seu potencial libertário e afirmam somente características paralisantes e ao mesmo tempo ressaltam que a aceleração imposta pelas novas tecnologias é um reflexo não humano, criticam o imediatismo como um desserviço à informação, devido sua velocidade, que inibe a assimilação. Virilio afirma que não crê num incremento democrático por meio das novas tecnologias, ao contrário a democracia é minada, pois é fundada em emoções coletivas, sem substância:
On croit qu'on défend la démocratie, en réalité, elle est minée. La démocratie s'adresse à un corps social réfléchi, pas à un agrégat d'individus rois faussement unis dans une émotion collective. Tant qu'on n'aura pas pensé ce problème, on n'arrivera pas à inventer une démocratie de notre temps. Il faut inventer une "économie politique de la vitesse".(VIRILIO, 2009)
Virilio reafirma, neste recente artigo, seu pensamento pessimista diante das transformações da cibercultura. A perda da experiência, perda da significação dos lugares, a internet como um impacto desagregador e desestruturador das sociabilidades, por sua imposição a uma aceleração, foram alguns dos pontos salientados pelo autor em obras anteriores. (VIRILIO, 1990, 1997) Auge vislumbra um descentramento e o surgimento de não-lugares, como resultado da sociedade pós–moderna, mediada pelos meios de comunicação e tecnologia. (1995).
Em outro ângulo, se distinguem olhares alentadores na perspectiva transformadora das novas tecnologias na re-construção da democracia, da cidadania e da cidade. Autores que percebem a capacidade de resignificação e complexificação descortinados pelas novas tecnologias. Essa construção teórica advoga a existência de uma cibercultura comprometida com a transformação da sociedade, pelo uso das novas tecnologias. Nesse sentido, Lemos, comenta o conceito de cibercidade e os diversos projetos que visam a articular o ciberespaço e a cidade (cibercidades):
Todos têm como objetivo principal aproveitar o potencial das novas tecnologias de informação e comunicação para, em tese, reaquecer o espaço público, recuperar o interesse pelos espaços concretos da cidade, criar novas formas de vínculo comunitário, dinamizar a participação política e ajudar a população na apropriação social dessas tecnologias (LEMOS, 2003, p. 21)
Neste sentido, Lemos identifica novos significados aos espaços urbanos permeados pelas tecnologias e por elas transformados, como as praças com wireless (acesso a internet sem fio), os jogos que incluem tecnologia digital nas ruas etc.
Teóricos da cibercultura, como Pierre Levy, refletem o ciberespaço não como um espaço de a substituição ou perda de experiências, mas complexificação e deslocamento dos centros de percepção, muitas vezes ampliando a capacidade de sentidos (Levy, 1998, p.10). Mas não há dúvidas de que a cidade está perdendo, em parte, seus marcos significativos. É crescente a desvalorização dos centros urbanos e há o fortalecimento de espaços homogeneizados e assépticos, como shopping centers e condomínios fechados. Levy também questiona a concepção de cidade e espaço público, que são desvalorizados pelos mais jovens, nascidos na cibercultura, mas como superar esses desafios? Pequenos grupos criam efeitos que irão nutrir instituições e novas formas de sociabilidade irão dissolver outras. Pessoas vão ganhar novos poderes ao mesmo tempo que perder antigas liberdades, é o que afirma Rheingold, teórico das smart mobs (RHENGOLD, 2002, xiii)
É possível identificar novos focos de poder na sociedade engendrados pelas novas tecnologias? É possível afirmar que se alicerça uma cidadania planetária tecida nas infovias das novas tecnologias? Estas questões são o foco do presente trabalho.
Cidadania Ecológica e Digital
O conceito de cidadania é histórico, não estagnado, se modifica ao longo do percurso de sua afirmação. (PINSKY, 13:2003). A cidadania que se invoca tem como escopo a busca de uma ética capaz de conciliar o tempo de reposição da base material dos processos naturais e o tempo de produção das necessidades materiais. (RIBEIRO,2003,:415) . A chamada cidadania ambiental ou ecológica, preocupada com dimensões de direitos difusos e coletivos, transgeracionais e planetários. A cidadania tem acepções que se engendram ao partilhamento do poder, às relações do cidadão com o Estado, e foi definitiva para a formação do Estado-nação. No entanto, nas raízes de sua concepção, nos textos Aristotélicos, é possível antever a ligação de cidadania com a vida social, com a civilidade, denotando uma cidadania política, social e cívica. Aristóteles afirmava que o homem é um ser social, e a cidadania o conjunto de todos os cidadãos, sendo a cidadania inerente ao homem. A cidadania é mais abrangente que uma relação com o Estado, emergindo das relações da sociedade, que hoje se encontra globalizada não só em sua economia, mas nos seus desafios e problemas:
Neste sentido recordemos primeiramente que a noção de cidadania é, em geral, avaliada na ótica do cidadão no tocante às possibilidades e potencialidades que este pode ou poderia desfrutar no seu relacionamento com o Estado e com sociedade no seu sentido mais amplo. A cidadania associar-se-ia a um modo de vida visceralmente regrado pela existência em comunidade, evidente na sua própria origem da palavra, decorrente do latim civitas. (WALDMAN, 2003: 546)
O fortalecimento das relações sociais, o aumento das comunicações, a troca de experiências e compartilhamento vivenciados pelo ciberespaço indiciam uma nova cidadania. A universalidade característica dos movimentos ecológicos o coloca como a tradução e reflexo da cidadania planetária que se constrói, por sua complexidade e permeabilidade. Como afirma VIOLA,(1992:69):
Os movimentos ecológicos e pacifistas constituem-se num ponto de inflexão na história da mobilização social e da ação coletiva: trata-se de movimentos portadores de valores e interesses universais que ultrapassam as fronteiras (...)
A deterioração da qualidade de vida afeta à todos. Sobre os efeitos negativos da vida moderna e suas deseconomias VIOLA afirma:
Entre os efeitos negativos da intervenção humana encontram-se: destruição do solo (...); inundações e alterações do clima; ameaça da vida biológica (...); envenenamento da atmosfera (...); até o ponto em que as deseconomias externas do congestionamento, da poluição e da alienação da moderna vida industrial e urbana anulam os ganhos em qualidade de vida obtida através do aumento do consumo material. (1992:66)
A demanda por uma mobilização em favor da proteção da vida no planeta implica também na capacidade de mobilizar e articular um movimento planetário. Dialeticamente, este fenômeno só se tornou possível a partir da capacidade ampliada de estar no mundo, influenciar o espaço e compreendê-lo, propiciado pelas novas tecnologias. Al Gore, no filme Verdade Inconveniente, afirma que o movimento ambientalista surgiu no dia em que vimos pela primeira vez a imagem da Terra, a foto que mostrou ao mundo a Terra vista da Lua na década de 70. A Terra azul, frágil, pequena e solta no espaço. O domínio e responsabilidades do ser humano de há muito ultrapassam as noções de vizinhança e de sua existência temporal, tratado inicialmente como um direito de vizinhança, o meio ambiente hoje se transformou num direito transgeracional e transfronteiriço, devido à ampliação da intervenção humana no espaço e no tempo.
O papel das Organizações não governamentais (ONGs) e dos movimentos ecológicos na construção das políticas públicas em defesa do meio ambiente é crucial e determinante. As conferências da ONU para o meio ambiente foram marcos na mobilização da sociedade civil, reconhecidos inclusive em diversos documentos internacionais, como por exemplo, a Agenda 21 que dedica um capítulo ao papel das ONGs na construção de uma agenda sustentável. O professor de Direito Internacional do Meio Ambiente Guido Soares destaca a relevância e protagonismo das ONGs e da sociedade civil nas reuniões internacionais sobre meio ambiente como impulsionadoras da transformação e democratização das relações internacionais, classifica, ainda como um dos quatro fenômenos que ocasionaram a emergência do Direito Internacional do Meio Ambiente:
a democratização das relações internacionais, com a exigência correlata da efetiva participação da opinião pública na feitura e nos controles de aplicação dos grandes tratados internacionais (SOARES, 2001:45).
As manifestações paralelas à reunião oficial, durante a I Conferência sobre Meio Ambiente (Estocolmo - 1972) é descrita por SOARES como: uma série de eventos científicos e artísticos promovidos pelas organizações não governamentais, que demonstraram sua pujança, como fatores de formação e conscientização da opinião pública mundial sobre as questões ambientais internacionais. (SOARES, 2001:55). A partir de então, o status das ONGs no cenário internacional tem crescido em legitimidade, figurando em todas as reuniões em caráter consultivo geral ou especial. O exercício do Secretariado da Convenção de Ramsar, em 1971, por uma ONG, no caso a Organização Não Governamental IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza é o reflexo da importância e reconhecimento do papel da sociedade civil na construção das políticas públicas. O ápice deste processo ocorreu após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, que teve como um dos seus mais importantes resultados a Agenda 21, que consagra em vários capítulos a participação das ONGs, em especial no Capítulo 27 (Fortalecimento do papel das ONGs: parceiros para o Desenvolvimento Sustentável). Definitivamente são atores importantes na determinação de políticas públicas e das normas de proteção ao meio ambiente. (SOARES, 2001: 68).
Rheingold1 (1993) no seu clássico Virtual Comunity (Comunidades Virtuais,1993) descreve com pormenores os avanços do uso dos computadores pelas organizações da sociedade civil e a formação das primeiras comunidades virtuais. O uso de correios eletrônicos, listas e comunidades ambientalistas têm conseguido superar as dificuldades financeiras, as barreiras acadêmicas na participação de congressos internacionais e sobretudo, difundido as mensagens ecológicas e popularizado termos científicos e técnicos.
A paisagem do século XXI nos remete a perigos invisíveis, a uma sociedade do risco, que enfrenta grandes processos de contaminação, ameaça nuclear, perda da biodiversidade e das florestas, e o maior e mais complexo dos problemas: o aquecimento global. Superar estes complexos e globais obstáculos requer uma articulação e acúmulo de forças também supranacionais. A sociedade do risco definida por BECK como a sociedade em que:
Os riscos não se limitam a lugares ou grupos, tem uma tendência à globalização, não respeita fronteiras e surgem como ameaças globais supranacionais e não específicas (...) Na modernidade a produção de riqueza é acompanhada pela produção social de riscos (1998:25)
Por estas características específicas, o movimento ecológico é protagonista de uma série de inovações e ampliações do exercício da cidadania na atualidade. Outros movimentos se beneficiam do ciberespaço, como os movimentos de gênero, pela liberdade de expressão, em defesa da infância e juventude, dos direitos humanos, todos compartilham como um grau de fortalecimento pela diminuição das distâncias e fluidez das comunicações proporcionadas pelas novas tecnologias. Mas é o movimento ecológico que pela primeira vez utiliza o ciberespaço numa manifestação planetária, engendrada pelas novas tecnologias, fortalecendo o conceito de uma cidadania digital. A smart mob a Hora do Planeta, a ser analisada a seguir consubstancia esta nova realidade da cidadania. Hauben cunhou a expressão netizens em 1992 no ebook Netizens: On the Impact andHistory of Usenet and the Internet, afirmando que não é o fato de estar interligado a rede que nos torna um netizen, mas a disposição de colaborar para o aumento do conhecimento coletivo, a intenção de ajudar e trocar informações úteis para a construção de um mundo melhor. Hauben (1992) afirma que a distancia geográfica é compensada pelo espaço virtual. O primeiro conceito de Hauben tratava de um neticitizen, mas a compreensão da desterritorialidade do cidadão da internet o fez retirar a referência ao local (city) do termo (tradução livre).
A cidadania interativa se encontra em ampla expansão, a cada dia amplia-se o engajamento, a participação, a influência e pressão aos governos e à opinião pública por meio das novas tecnologias. A Câmara dos Deputados registra um projeto de lei enviado pela internet por associação civil que se tornou lei, e mais de 15 intervenções da sociedade civil por meio eletrônico no ano de 2008. É o início de uma série de transformações na vida política. Santos define a cidadania interativa:
Por cidadania interativa entendemos a situação na qual indivíduos dispõem dos recursos simbólicos necessários para estabelecer relações interativas na sociedade, consideradas aqui como uma pré-condição indispensável para o reconhecimento do individuo por uma determinada comunidade. (SANTOS: 209)
Ou seja, está em formação e em rápida aceleração a consolidação de comunidades e grupos de pressão que só por meio da internet, celulares e outras formas construídas pelas novas tecnologias são capazes de articulação e ação concreta
A smart Mob A Hora do Planeta
Observando nas ruas de Tóquio e Helsinque os jovens cravados nas telas de seus celulares, máquinas automáticas que indicavam direções, código de barras lidos por celulares, Rheingold juntou as peças do quebra-cabeça do ciberespaço e descortinou um novo mundo que se avizinha com a convergência de dispositivos móveis, portáteis, pervasivos, locativos e intercomunicativos nutrindo novas formas de práticas sociais que tornam as novas tecnologias úteis para grupos como também para os indivíduos. Rheingold cunhou o termo smart mob. Principal teórico das smart mobs e da cibercultura nos Estados Unidos, ele as descreve e as analisa no livro Smart mobs: a próxima revolução social (Smart mobs. The next social revolution). As novas tecnologias propiciam ações coletivas e formas de agir que nunca seriam possíveis antes, amplificando os talentos humanos para cooperação (Rheingold). Smart mobs são manifestações que utilizam as novas tecnologias como forma de comunicar e atingir um maior número de pessoas que, em geral, não se conhecem, mas têm alguma causa em comum.
As novas formas de agregação e manifestação social descritas por Rheingold, podem ser de dois tipos: as smart mobs que têm caráter político, e são manifestações que utilizam a internet, por meio de blogs ou Twitter, ou as tecnologias do celular, principalmente o SMS (short message system) como forma de comunicação e mobilização. E as flash mobs que têm caráter lúdico, performático, artístico e não político.
A Hora do Planeta ocorre desde 2007, caracteriza-se por ser uma mobilização planetária, liderada pela Organização não governamental WWF (Fundo pela Conservação da Natureza). A mobilização consiste em apagar as luzes por uma hora em protesto contra o aquecimento global, pressionando os países a assumirem compromissos concretos para diminuir os gases do efeito estufa: , convocou o mundo para um gesto simples em defesa do Planeta: apague as luzes por uma hora no dia 28 de março às 20:30. Em 2009 esta manifestação ganhou contornos planetários, 88 países e foi aderida por 4.153 cidades ao redor do globo, que "apagaram" 1059 ícones e monumentos como a Torre Eiffel, em Paris; a Torre Aucland Sky, na Nova Zelândia; a Ópera de Sydney, na Austrália; o templo Rizal Shrine, um dos principais monumentos de Manila nas Filipinas; a estátua Merlion, e as torres gêmeas Petronas, de Cingapura; o ninho do Pássaro, em Pequim. Pela primeira vez a Hora do Planeta aconteceu no Brasil, em 2009.
A importância do evento ganha relevo devido se avizinhar a mais importante reunião mundial sobre o clima, a 15ª Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), que acontece em dezembro de 2009, em Copenhagen.
Não só as pirâmides, mas também o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e o Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, até a estátua do Padre Cícero, em Juazeiro, ficaram às escuras. São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, e diversas outras cidades pelo Brasil, realizaram manifestações nas ruas à luz de velas. Em informação por correio eletrônico, James Kissell, coordenador do evento do WWF enviou os seguintes dados:
1 bilhão de pessoas é a estimativa de participação na manifestação planetária; 80 milhões de pessoas no Estados Unidos;
85 milhões na China;
143 milhões de outros países que o WWF opera.
34 línguas comunicaram a manifestação A hora do planeta.
2,4 milhões de parceiros e mídias sócias apoiaram a manifestação.
3 milhões de exibições do vídeo oficial sobre a Hora do Planeta.
5,3 milhões de vezes foram exibidas as fotos do evento no Flirk.
8 milhões de pessoas passaram mensagens de celular sobre o evento no Quênia.
4.088 cidades em 88 países pelo globo participaram;
73 capitais nacionais participaram;
18 dos 20 países do G20 participaram;
9 entre as 10 mais populosas cidades do mundo participaram;
Cobertura por 24 horas pelos meios de comunicação;
O Vice Presidente dos Estados Unidos celebrou a Hora do Planeta com o Presidente do Chile
Os marcos mundiais mais importantes da Terra ficaram escuros: as Pirâmides (Egito), Burj Al Arab hotel (Dubai), Torre Eiffel (França), Vaticano (Itália), Acrópoles (Grécia), Big Ben (Reino Unido), Las Vegas Strip and Empire State Building (EUA), Cristo Redentor (Brasil), Estádio Ninho do Pássaro(China) e as Torres Gêmeas de Petronas (Malasia).
Durante a campanha de 2009 :
Foram encontradas 87 milhões de menções a Hora do Planeta na web. ;
Durante as 24 horas que transcorreram a Hora do Planeta foram exibidas mais de 8,3 milhões de vezes os vídeos e imagens do evento;
A Hora d Planeta foi mencionada 300 vezes por segundo na web;
O vídeo A Hora do Planeta foi visto 10 vezes em cada segundo;
A hora do Planeta foi o tópico mais mencionado no twitter no dia 28 de março. (WWF – Australia, 2009)
Kissel afirma que o sucesso da Hora do Planeta foi possível devido ao forte apoio da internet, dos celulares e mídias sociais
No Brasil mais de 100 cidades participaram, mais de 480 comunidades e associações, e mais de 1000 empresas deram apoio. (KISSELL, 2009).
A mensagem era clara: vote pelo Planeta. A idéia de um ciberativismo e o do exercício de uma cidadania planetária pelo meio ambiente foi difundida pela primeira vez de forma global, ao atingir a maior parte dos países do planeta. O uso de novas tecnologias foi fundamental para a mobilização. Apesar de no Brasil a ONG ter tido o apoio das mídias tradicionais, como a televisão, foi pela internet e pelos dispositivos móveis que o evento teve maior difusão e repercussão. A resposta da comunidade pode ser medida principalmente pelas visitas no sitio do WWF-Brasil no período da campanha, o aumento de acessos no mês de março foi de 250%, em relação ao mês anterior, atingindo 58.883 visitas somente no dia 28 de março, sendo o terceiro sitio mais visitado do mundo, dentre os sítios do WWF, neste dia. O mais visitado foi o sitio da Rússia com 91.768 pageviews, seguido pelo Reino Unido com 76.422 visitantes, em quarto lugar a Espanha com 27.238 visitas, seguido pelo Canadá com 18.025 visitantes (OLIVEIRA, 2009). Estes dados traduzem a importância das novas tecnologias como engendradoras de um manifesto planetário e indutoras de mobilizações em tempo real. O uso da internet pelos movimentos sociais contemporâneos, como o ambientalismo e os movimentos de gênero, têm longa caminhada.
Conclusões
A complexidade e desafios da contemporaneidade engendram necessidade de soluções e incitações mais elaboradas. O movimento ecológico tem reunido aspectos que correspondem a essa complexidade, pois se caracterizam como movimentos que ultrapassam as fronteiras de classes, de países, etnias.
As novas tecnologias têm nutrido a necessidade de reunir e aglutinar ações e informações que respondam aos desafios planetários engendrados pela crise ecológica global. O aquecimento global tem se mostrado o mais relevante desafio da humanidade no século XXI.
Ao contrário das afirmações de alguns teóricos que postulam um efeito paralisante e alienante das novas tecnologias, estas têm servido na construção de novas sociabilidades, no fortalecimento de comunidades e na articulação de mobilizações inovadoras, como as smart mobs.
A smart mob A Hora do Planeta (Earth Hour) reflete essa capacidade de articulação e demonstra a construção de uma cidadania planetária, com ações democráticas que ultrapassam as fronteiras dos países e reafirmam o exercício da cidadania no sentido mais genuíno deste termo, na reconstrução de uma identidade social e de uma solidariedade entre as pessoas em busca de um objetivo comum.
O chamamento a votar, iniciado pela Organização Não Governamental WWF enseja uma nova perspectiva democrática e renova o paradigma do exercício da cidadania. Inaugura um forte movimento de solidariedade planetário e transgeracional.
O movimento a Hora do Planeta só foi possível devido a articulação pela e na internet. Produziu um evento global que afirma os propósitos positivos e inovadores da cibercultura. Confirma a possibilidade de materializar as promessas da cibercultura em atos globais e locais em defesa da sustentabilidade planetária e do fortalecimento de uma cultura de colaboração mundial. O direito ao meio ambiente, à democracia e a vida digital, configuram os mais novos direitos, que alguns autores classificam como direitos a terceira, quarta e sétima dimensão de direitos (HOESCH, 2003), como forma didática de expor a historicidade dos direitos, ressaltando a necessária indivisibilidade dos direitos fundamentais.
NOTA:
1 Environmental scientists and activists are dispersed throughout the world, generally don't have the money to travel to international conferences, and are compartmentalized into academic institutions and disciplines. The uses of electronic mailing lists and grassroots computer networks began to spread through the scientific and scholarly parts of the ecoactivist grapevine through the late 1980s. Just as virtual communities emerged in part as a means of fulfilling the hunger for community felt by symbolic analysts, the explosive growth in electronic mailing lists covering environmental subjects has served as a vehicle for informal multidisciplinary discussions among those who want to focus on real-world problems rather than on the borders between nations or academic departments.
AUGE, Marc. Los no lugares. Espacio Del anonimato. Barcelona: Gedisa editorial. 1995
BECK, Ulrich. La sociedad Del risgo. Barcelona: Paidos Basica.1998
CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet – reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
DOWBOR, Labislau. Democracia Econômica: um passeio pelas teorias. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 2007.
ESTADO DE SÃO PAULO. Caderno Tecnologia. São Paulo: 2003. Disponível em http://www.estadao.com.br/arquivo/tecnologia/2003/not20030809p44075.htm. Acessado em 20 de abril de 2009.
GIDDENS, Anthony. Para além da esquerda e direita. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997.
GUERRA FILHO, Willis Santiago. Autopoiese do direito na sociedade pós-moderna. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1997.
HOESCHL, Hugo César. A vida digital e os direitos da sétima dimensão. Disponível em: <http://www.digesto.net/ddigital/digital/Panorama1.htm>.
HOBSBAWN, Eric. A crise atual das ideologias. O mundo depois da queda. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1995
LEVY, Pierre. Ciberdemocracia. Lisboa: Editions Odile Jacob. 2002.
LEVY, Pierre. O que é virtual. Trad. São Paulo: Ed. 34, 1996.
LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 31, 1999.
LEMOS E VALENTIN, Cibercultura e infraestrutura de redes sem fio no Brasil. Acessado em http://www.andrelemos.info/artigos, em 29 deabril de 2009
LEMOS, André. Manifesto das Mídias Locativas. Disponível em : http://www.andrelemos.info/ Acessado em 12 de maio de 2009
LEMOS, André (org). Cibercidade – as cidades na cibercultura. Rio de Janeiro: E-papers, 2004
LEMOS e CUNHA (org.) Olhares sobre a Cibercultura. Porto Alegre: Sulina,2003.
OLIVEIRA, Denise. Dados sobre a Hora do Planeta (mensagem eletrônica pessoal -email). Mensagem recebida por Geovana Cartaxo em 15 de abril de 2009
PADUA, José Augusto.Natureza e projeto nacional: as origens da ecologia política no Brasil. In. Ecologia e Política no Brasil (org) PADUA. Rio de Janeiro:Espaço e Tempo: IUPERJ, 1987.
VIOLA, Eduardo.O movimento Ecológico no Brasil. . In. Ecologia e Política no Brasil (org) PADUA. Rio de Janeiro:Espaço e Tempo: IUPERJ, 1987
VIRILIO, Paul. El cibermundo , la politica de lo peor. Madrid: Catedra, 1997
VIRILIO, Paul. La vitesse e La viellesse, 1990. Disponível em http://www.revue-chimeres.fr/drupal_chimeres/?q=taxonomy_menu/3/98
VIRILIO, Paul. L'instant contre la démocratie, par Paul Virilio, disponível em http://www.lejdd.fr/cmc/media/200928/l-instant-contre-la-democratie-par-paul-virilio_228585.html
RHEINGOLD, Howard. Virtual Community (1993). Acessado em http://www.rheingold.com/vc/book/9.html em 20 de abril de 2009.
RHEINGOLD, Howard. Smat Mobs. Perseus Publishing, 2002.
SANTOS, Hermílio. Cibercidades e o exercício da cidadania interativa, In: LEMOS, A. (org). Cibercidade – As cidades na cibercultura. Rio de Janeiro: e-papers , 2004
STEINBERG, Gustavo. Política em pedaços ou Política em bits. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.
SCHIEK, Monica. Flash mobs e Smart mobs: uma análise do cenário das metrópoles contemporâneas 2007. Disponível em http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und. Acessado em 21 de abril de 2009.
SOARES, Guido. Direito Internacional do Meio Ambiente. São Paulo :Editora Atlas., 2001.
WWF Brasil, 2009. Disponível em http://www.wwf.org.br/?19200/Mundo-votou-por-uma-ao-decisiva-contra-as-mudanas-climticas-no-enorme-evento-da-Hora-do-Planeta
WWF Austrália, 2009. Disponível em http://www.earthhourau.org/news, acessado em 14 de maio de 2009.
ZUGMAN, Fábio. Governo Eletrônico: Saiba tudo sobre essa revolução. São Paulo: Livro Pronto Editora, 2008.
