IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo F-36: Uso quotidiano e compartilhado de Internet

O papel da Ciência da Informação no desenho antropocêntrico das Tecnologias de Informação e Comunicação

Ponente/s


Resumen

Na atualidade a Ciência da Informação (CI) enfrenta o desafio de transformar a massa de dados operacionais disponíveis diariamente em informações consistentes que permitam a tomada de decisões e agreguem valor às atividades. Nesse contexto, solicita definições e redefinições de métodos que valorizem e destaquem os aspectos importantes da relação de disseminação, recuperação e compartilhamento de informações e conhecimentos. A presença da tecnologia no cotidiano das pessoas formando opinião, criando necessidades e determinando comportamentos torna a investigação sobre um desenho antropocêntrico das TICs a partir do olhar da Ciência da Informação extremamente importante no processo de formação reflexiva dos sujeitos no que se refere ao uso de recursos informacionais alocados nos mais diversos suportes e ambientes.

Contenido de la comunicación

Nos processos de transformação da informação em um mundo regido pelas Tecnologias de Informação e Comunicação ocorrem rearticulações das relações sociais e de produção em torno destas que têm papel significativo nas transformações econômicas e sociais da segunda metade do século XX e de primeiros anos do século XXI, anos de globalização1. Por constituir temática tão recente tornam necessários estudos científicos que possam criar os caminhos para pensá-las e aplicações práticas que contextualizem estes estudos.

É neste cenário que também a Ciência da Informação (CI) encontra o desafio de “transformar a massa de dados operacionais disponíveis diariamente em informações consistentes que permitam a tomada de decisões e agreguem valor às atividades”. (SANTOS; VIDOTTI, 2009:7). Como área do conhecimento que se consolida e se legitima contemporaneamente, a CI, por sua vez, solicita definições e redefinições de métodos que valorizem e destaquem os aspectos importantes da relação de disseminação, recuperação e compartilhamento de informações e conhecimentos, em especial os relacionados às TICs.

[...] a Ciência da Informação deveria ter ou criar mais espaços de investigação que permitam a compreensão das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) para a potencialização de competências informacionais, para a criação de arquiteturas informacionais e computacionais mais inclusivas, para a conceituação de usos da informação em ambientes informacionais digitais, para a aprendizagem de metalinguagens e para a representação da informação. (SANTOS, VIDOTTI, 2009: 5)

Na interação com os diversos suportes da informação, nas ambiências das Tecnologias de Informação e Comunicação realizam-se reflexões e buscam-se conceitos interligados à informação que se recebe e também de um conjunto de manifestações tácitas, existentes em cada indivíduo racional. São proposições que podem ser aplicadas a todos os tipos de estrutura de informação, e que influem na compreensão e na transformação da informação em conhecimento. Evidencia-se que o uso das tecnologias da informação e comunicação atrelado às metas da “sociedade da informação”, pode ser de grande valia, que seu desenvolvimento em ambientes digitais e virtuais pode ser considerado um fator importante na recuperação e transferência de informação.

Tendo claro que o desenvolvimento deve relacionar-se com o crescimento da qualidade de vida das pessoas e não com objetos, verifica-se que as necessidades básicas (ser, ter, fazer, interagir, subsistência, proteção, afeto, participação, compreensão, ócio, criação, identidade e liberdade) não mudam; o que muda são as coisas que as sociedades geram para satisfazer tais necessidades ou para incrementar a sensação de novas necessidades.

Neste contexto a sociedade contemporânea como um todo tem que enfrentar desafios para a real consolidação da propagada sociedade da informação, considerando principalmente políticas públicas de educação a serem efetivamente desenvolvidas em seu interior para o reconhecimento e a apropriação desta nova situação. O investimento em modelos de transferência de informação baseados nas novas tecnologias só se justifica pela idéia de que a apropriação de novos conhecimentos e ferramentas possa desenvolver consciência histórica, política e ética, associada a ações cidadãs para transformação social, ao mesmo tempo em que as pessoas se qualificam profissionalmente.

A partir da década de 1990 a Ciência da Informação acompanhou o movimento da sociedade e vive na sua terceira fase constitutiva, o tempo da sociedade da informação, marcado sistematicamente pelo desenvolvimento das TICs, pela convergência da base tecnológica e pela agregação de vários fenômenos ligados à informação e ao conhecimento. Com o avanço das TICs e com a valorização e disseminação da informação e do conhecimento carrega também a preocupação de atualizar e repensar seus métodos e processos de tratamento e organização da informação para participar de uma melhor distribuição do saber, sem gerar mais um tipo de exclusão, a digital.

A consciência de que o domínio das TIC pode contribuir para uma melhoria de vida do cidadão e de que uma das funções da disseminação da informação para sua apropriação é promover o desenvolvimento sócio-educacional do indivíduo dentro de um grupo ou sociedade, implica em entender que tal promoção só pode ocorrer quando há liberdade e condições reais de acesso, estoque, fluxo e transferência de informação.

Com o projeto da sociedade da informação, entende-se que outras competências são exigidas hoje do indivíduo para atuar na sociedade e desenvolver nela seu potencial de estudo, pesquisa e produção de conhecimento. Ampliar o acesso à tecnologia que vise a facilitar o acesso à informação e à produção do saber, incluindo capacitação continuada para melhor aproveitamento das tecnologias de informação e comunicação, é, portanto, meta a ser alcançada pela sociedade e por uma CI empreendedora, que conta com estratégias e metodologias apropriadas para tanto.

A Internet, por sua configuração rizomática, tem grande potencial como lócus e veículo de expressão da diversidade cultural, para a prestação de serviços on line, para o desenvolvimento de práticas capacitadoras inclusivas que utilizem recursos em sintonia com a Web 2.0.

Timothy Bernes-Lee (2007), idealizador da Web afirma que a habilidade da rede em permitir que as pessoas construam links transformam-na em um espaço abstrato de informação digital sobre todos os aspectos da vida, continuamente recriada hipertextualmente. Destaca que a Web descansa sobre protocolos tecnológicos e convenções sociais. Os protocolos tecnológicos determinam como os computadores interagem e as convenções sociais, com os inúmeros incentivos atuais à linkagem e a disponibilização de acesso a fontes valiosas, regras de engajamento em um site da rede social da Web, versam sobre como as pessoas gostam e estão possibilitadas a interagir.

Fernando Sáez Vacas2, dentro desta visão, propôs uma hibridez e redefinição entre as áreas de engenharia e humanidades. Subsistemas e redes múltiplas caminham para convergência e interoperabilidade: a R.U.D - Rede Universal Digital, que se projeta na arquitetura do ciberespaço como um imenso tecido heterogêneo de redes. Nelas estão conectados todos os tipos de plataformas informáticas por meio de interfaces e de sensores com o mundo natural das pessoas, das coisas e dos fenômenos físicos, compreendida em algo mais que comunicação. Percepção, pensamento, representação e controle formam o embrião de um sistema nervoso universal completo.

Sáez Vacas afirma que a Rede Universal, nela a Web e principalmente a blogosfera, assiste ao nascimento de uma nova formação de inteligência, que ele denomina noomorfosis digital (do grego noos=inteligência, mophorsis=formação).

Não se trata de que o uso intensivo da tecnologia da R.U.D. contribua para moldar uma inteligência maior ou menor -por exemplo que as crianças sejam mais prontas, como alguns dizem-, e sim de uma inteligência funcionalmente distinta, ou seja, armada com certas capacidades necessárias especialmente desenvolvidas para viver e operar no Novo Entorno Tecnosocial (N.E.T.) gerado por esta tecnologia. (SÁEZ VACAS, 2006: 2, tradução nossa)

O acesso e o uso da informação geram o poder de organização e propulsionam o desenvolvimento e ações criadoras promovendo o "empoderamento" individual e coletivo das pessoas envolvidas na vida comunitária. Empoderamento que é potencialização das comunidades e dos indivíduos por meio da educação, da informação e da comunicação, para que as pessoas possam controlar suas próprias vidas de modo a ter a possibilidade de interferir na construção de seu futuro. (SANTOS, 2008).

Por outro lado, formas sociais emergentes e declinantes determinam estruturas mentais distintas com matrizes de inteligência e comportamento. A presença da tecnologia no cotidiano das pessoas formando opinião, criando necessidades e determinando comportamentos torna a investigação dessa temática na Ciência da Informação extremamente importante no processo de formação reflexiva dos sujeitos no que se refere ao uso de recursos informacionais alocados nos mais diversos suportes e ambientes. É investigação importante também no favorecimento das estratégias do empoderamento enquanto ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões e de consciência social dos direitos sociais.

Assim, buscamos interdisciplinar e transdisciplinarmente investigar e dialogar com os diversos campos do conhecimento presentes na trama complexa das relações dos ambientes informacionais digitais com sujeitos autônomos conectados e a riqueza informacional que constituem estas relações, tendo claro que o importante são os efeitos sobre as formas sociais, as atividades e comportamentos humanos de variados tipos.

O cenário sócio-político-econômico atual contempla entre seus constituintes sujeitos pós-modernos inseridos em uma rede que abrange a formação de conhecimentos a partir das relações sociais, como uma teia de relações que não se inicia em uma estrutura linear. Neste sentido, é fundamental a articulação entre a idéia de rede e os processos de produção, de tratamento, de difusão, de recuperação e de (re)uso do conhecimento para o empoderamento.

Por outro lado, é imprescindível a percepção de redes informacionais estruturadas como modelos de ambientes colaborativos de inteligência coletiva como favorecedoras do fortalecimento das competências, da confiança e da capacidade humana.

No momento atual tal possibilidade de construção de um saber colaborativo é caracterizado pela potencialização de uma inteligência e de uma consciência coletivas em ações sociais de transferência de informação, com as redes sociais como ambiente antropológico de possibilidades. A transferência de informação presume a existência de um valor da informação partilhado pelos participantes, e requisita a utilização de procedimentos técnicos, expressivos ou normativos de dimensões cognitivas e comunicacionais no contexto de formação e preservação de memórias e na socialização do conhecimento.

Em uma rede social, estrutura social interconectada por um conjunto de nós (individuais ou grupais) que são interligados por um ou mais tipos de relacionamentos, a informação é o operador da relação nas estruturas sociais e também nos aparatos tecnológicos informacionais de sua geração e apropriação (ambientes digitais, estruturas de produção, tratamento, armazenamento e reprodução de recursos ou mensagens, produção de novos sistemas e modelos de armazenagem e acesso à informação, entre outros).

Os avanços sociais e tecnológicos e uma nova dinâmica de redes criaram a confluência que definiu o aparecimento da rede Web 2.0, aceita pela maioria dos teóricos como a Web Social ou a Web NG (NG refere-se à nova geração de usuários, os nativos digitais, que trafegam na rede). A metáfora da Web (rede, teia) é ampliada ao próprio design das aplicações; quando se faz referência a qualquer uma destas ferramentas de colaboração, de comunicação e de expressão se deve saber que por trás há sistemas técnicos de certa complexidade, que são parte dessa infra-estrutura invisível que se confunde com a tessitura da Rede Universal Digital (R.U.D.).

O conceito de interoperalidade entre redes foi reforçado na Conferência Web 2.0, hospedada por Tim O'Reilly, John Battelle e MediaLive, em 2004; desde então é sobre a interoperabilidade que se insiste como a base da própria Web 2.0. Os sites/serviços GMail, BitTorrent, Del.icio.us, FlickR e YouTube que particularmente atuam com integração e interoperabilidade de programas rodam na própria Internet, nos super-servidores das companhias e tornaram-se a nova encarnação da Nova Internet: “uma filosofia de participação e compartilhamento e um sentido de ação coletiva que inevitavelmente conduzirá para o bem maior” (O’REILLY apud LEVY, 2005: 2).

Atualmente, aspectos de interação das Ciências Cognitivas, da Computação e outras na utilização das interfaces da Web Social, proporcionam oportunidades de se pensar variadas questões relativas aos usuários da Web 2.0:

[...] como um universo maior do que aquele que compreende os que sabem associar um RSS ao seu blog. Se a tecnologia que permite as novas ferramentas deve ser extremamente amigável e acessível, como a do permalink, será necessário saber o que permite agregar comentários, publicar opiniões e fazer proliferar as conversas entre as comunidades de usuários de maneira invisível? Que adicionar um comentário a um blog de que se recebeu um RSS de atualização combina dois protocolos distintos? Ou não? Atravessa-se a ponte criada para a transmissão dos conteúdos e se obtém a satisfação imediata? (JORENTE, 2009: 188).

Por fim, muito se têm falado da Web Social e auto-organização da informação ultimamente; a tríplice convergência entre as tecnologias do pequeno (ou nanotecnologia), do vivo (ou biotecnologia), e do conhecimento (ou neurociências e ciências da cognição) é impulsionada por novas visões do próprio conceito de tecnologia. O fenômeno mundial denominado convergência NBIC (Nano-Bio-Info-Cogno) irá regular progressivamente a informação entre os variados setores do humano. Desde aqueles que envolvem imigrantes e nativos digitais, sobre os quais o crescente impacto ainda está por ser estudado e administrado, até a adição de uma inexplorada dimensão da representação do conhecimento, os valores das redes sociais dos criadores das etiquetas se auto-organizam organicamente. No âmbito desses fenômenos de auto-organização, a Web Social Semântica que se pretende como complementar da visão Semântica ao adicionar as perspectivas conceituais do apropriador da informação, só é possível por artifícios invisíveis das linguagens de descrição e ontologias estruturais anteriormente já inseridas nos programas da plataforma 2.0. Ao conceito de recuperação de informação substantiva-se uma abertura às cooperações: cria-se idealisticamente uma recuperação da informação aberta, que amplia sua metodologia no modelo hipertópico.

Taxonomias, folksonomias e ontologias propiciam juntas maiores capacidades de interoperabilidade em relação aos cruzamentos de domínios e compartilhamento de conhecimento, palavras tão referidas na história das Webs.

Sáez Vacas conjuga a preocupação apontada por Illich (1974), de que as tecnologias não deveriam gerar nem senhores nem escravos e o questionamento de Marinoff (2006, p.432): “são os computadores ferramentas digitais multifunções, que servem aos fins humanos ou somos nós ferramentas humanas multifunção que servimos de nós na rede digital?” Adiciona ainda considerações de Norman (1998: 135) e reafirma que, como seres humanos, somos seres analógicos presos em armadilhas de um mundo digital: entidades biológicas, adaptativas, tolerantes, sensíveis, que estamos, entretanto, construindo uma realidade mediada por máquinas rígidas, inflexíveis, precisas, exigentes e intolerantes.

Considere-se, portanto, que na atualidade todos nós somos uma combinação de amos e escravos e alternamos o comando de nossos aparatos digitais com a obediência a eles.

A solução para ao menos atenuar esse problema deve ser uma humanização das máquinas, pelo menos no sentido em que estas se comuniquem com o ser humano em sua língua natural, acoplando-se aos seus sentidos humanos por meio de um desenho antropocêntrico da tecnologia.

NOTAS:

1 [...] conjunto de idéias sobre uma nova forma de relacionamento internacional entre os governos, as empresas e os indivíduos; um conjunto de fatores, com elementos para a intensificação do comércio internacional de produtos e serviços, do intercâmbio cultural acentuado e de modo muito especial, do trânsito e da fluidez das informações (SANTOS; VIDOTTI, 2009: 7),

2 Em Sociotecnologia da Informação, Sáez Vacas constrói o modelo-teoria para definir e estudar o Novo Entorno Tecnosocial (N.E.T), segundo uma “visão geral sistêmica da infra-estrutura digital extremamente complexa, progressivamente reticular, com uma porcentagem cada vez maior de instrumentos tecnológicos  para usuários não técnicos” (SÁEZ VACAS, 2008: 12, tradução nossa).

Bibliografía/Referencias


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