IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo F-32: Menores e TIC

Quando as teclas falam, as palavras calam...

Resumen

É verdade que, desde OS primórdios DA humanidade, estamos dependentes das tecnologias, mas hoje mais do que nunca isso se verifica. São exemplo disso, O telemóvel e O Messenger. Estas duas recentes e populares tecnologias de informação e comunicação DA sociedade contemporânea cativaram as crianças não sendo, por isso, de estranhar O modo apaixonado como utilizam e manipulam, no quotidiano, estas tecnologias que privilegiam a escrita. Há uma nova geração, Com características de mobilidade e interactividade próprias, cujo quotidiano, subordinado às novas tecnologias, assenta numa forma de comunicar, relacionar e viver ainda pouco conhecido para nós.
Esta comunicação resulta de um estudo quantitativo realizado Com crianças do 5º e 6º ano de duas escolas do distrito de Braga, no sentido de aferir como utilizam O telemóvel e O Messenger no quotidiano.

Contenido de la comunicación

Quando as teclas falam… as crianças e as TIC

A ideia de infância é uma ideia moderna” (Sarmento, 2002:3) que começou a emergir como categoria social a partir do Renascimento. Até aí, as crianças eram encaradas como seres biológicos, inferiores, sem autonomia e sem estatuto social. Todavia, durante a modernidade vários factores concorreram para promoção, institucionalização e construção social da infância. Deste modo, e com o advento da 2ª modernidade e a entrada num mundo de progresso globalizado e desterritorializado, é reinventado o mundo de vida das crianças (Sarmento, 2002). Tendo em conta os tempos de mudança complexos e multifacetados que se vivem, o novo papel social que a criança desempenha insere-a na esfera da economia, do marketing e da publicidade.

Se é sabido que a família e a escola têm um papel preponderante ao longo do processo de socialização da criança (transmissão de valores, modos de vida, crenças, representações dos papéis sociais e modelos de comportamento) não podemos, no entanto, ignorar que em tempos de mutação e flutuação sociológica global (Lipovetsky, 1983), consequência directa de uma sociedade hiper-moderna voltada para o consumo e para o imediato, as tecnologias de informação e comunicação assumem-se como fortes concorrentes às instituições basilares que são a família e a escola. É, pois, inegável a influência que os meios de comunicação digital, como o telemóvel e o Messenger, exercem enquanto veículos de conteúdos (imagens, símbolos, valores, modelos, representações). Estes acessórios à comunicação e interacção penetraram com tal impacto no quotidiano das crianças e adolescentes que as suas consequências são para nós ainda desconhecidas. As crianças usam-nos fluentemente e de diversas formas. As crianças absorveram a cultura tecnológica, apropriaram-na para si e reelaboram as suas culturas de pares1. Assim, a par de outras mudanças, as tecnologias de informação e comunicação estão a mudar os modos de ser das crianças, bem como o papel e estatuto da infância nas sociedades contemporâneas, desafiando limites e oposições tidos como evidentes e garantidos outrora.

Com o advento do hipertexto e de novas possibilidades comunicacionais, vive-se, actualmente, uma mutação profunda quer ao nível dos paradigmas da comunicação como do relacionamento interpessoal que se irão repercutir no adulto de amanhã. Sem sombra de dúvida, o impacto e o uso crescente das novas tecnologias de informação e comunicação digitais modificaram a vida social contemporânea, o que resultou na emergência de uma nova cultura: a cibercultura. Segundo Lemos (1999) a cibercultura “forma-se precisamente da convergência entre o social e o tecnológico”, numa relação de simbiose que assenta na inter-conexão, interactividade e inter-relação entre o utilizador, a técnica e os outros utilizadores. Esta cultura redunda de um novo relacionamento entre tecnologia e sociedade, assente na abolição das barreiras espaciais e temporais e no prescindir do relacionamento assente na presença física, do qual resultam novas formas de comunicar e a consequente redefinição e vivência das relações sociais num novo espaço, que é o ciberespaço, o ambiente virtual e simulado como extensão da vida real, material corpórea. Em todo este processo relacional a técnica desempenha, inevitavelmente, um papel crucial, dado que há a passagem de uma “espécie de transformação da apropriação técnica do social, típica da modernidade, para uma apropriação social da técnica” que potencia e facilita o convívio e a manutenção dos laços sociais na pós-modernidade2 (Lemos, 1999). Na perspectiva de Maffesoli, as tecnologias digitais ajudam o homem, enquanto ser social, à realização fenomelógica da sua socialidade, possibilitando o ‘estar junto’ do(s) outro(s) que o interpela(m) à realização de uma comunicação-comunhão.

Um outro aspecto a considerar, segundo Lemos, prende-se com o facto das tecnologias de informação e comunicação, enquanto formas de agregação social electrónicas, efémeras e planetárias fomentarem a erosão das identidades sociais, desintegrando-as da sua individualidade e absorvendo-as no colectivo e normativo da tribo contemporânea. Perante a massificação da sua ‘persona’ na abertura ao outro, o indivíduo sente o apelo para viver o ‘eu’ múltiplo sem censura, ele assume as várias personagens e as diferentes máscaras no ciberespaço. No ciberespaço, a identidade deixa de ser fechada e abre-se à experiência. É evidente que no desempenho da vida social estamos familiarizados com o uso de máscaras, específicas e adequadas ao papel que desempenhámos ao longo do dia: mãe, filha, irmã, esposa, profissional... Contudo, na comunicação mediada por computador (CMC) (em especial as salas de conversação), permitimo-nos a explorar de modo psicoterapêutico o vestir a pele das ‘personae’ que vivem aprisionadas na imaginação, contraditórias ou complementares com o nosso eu, e cuja efemeridade depende apenas do indivíduo.

No que toca às crianças, que hoje crescem com a cultura do digital e do ciberespaço, não conseguimos prever que pessoas serão no futuro nem como se relacionarão, apenas sabemos, hoje, que é indiscutível que elas são mestres respeitados e fluentes no uso das tecnologias digitais, que sabem mais que os adultos e que criam laços de amizade através da rede com pessoas novas ou prolongando laços do mundo real para o mundo virtual. É na rede que se encontram com os amigos virtuais com quem conversam, namoram, jogam, tiram dúvidas e ocupam o seu tempo de ócio e de trabalho escolar. Neste contexto, é fundamental o papel da família de modo a criar parcerias do conhecimento e uso da comunicação digital, bem como é cada vez mais importante estudar o modo como a criança utiliza os meios de comunicação tecnológica e como os utiliza na relação de interacção interpessoal com o outro.

1. Crianças, telemóvel e status social

Ao contrário do tempo da nossa infância, as crianças de hoje crescem em convívio directo e natural com aparelhos tecnológicos como o computador e o telemóvel. Ora, tal facto pode ser positivo ou negativo consoante o caso. Segundo Plant (citada por Girmino, 2002), é um facto que o telemóvel está a tornar-se parte do ser pessoa, já que a acompanha 24 sobre 24 horas, é, metaforicamente, o cordão umbilical que a liga aos pais atarefados, à escola, aos amigos, dando-lhe uma sensação de companhia e de segurança e de organização e coordenação do seu dia-a-dia. Por outro lado, este aparelho dá-lhe um maior sentido de responsabilidade porque o telemóvel está à sua guarda e são responsáveis por tudo o que lhe acontece. Este instrumento também lhes confere um sentido simulado de privacidade, liberdade e independência que aproxima as crianças do mundo dos adultos.

Para os jovens não há tempos mortos. Os telefones móveis e as mensagens instantâneas expandiram a conectividade das crianças e o próximo. As mensagens viajam pelo espaço a uma velocidade alucinante. Há uma nova dimensão do tempo e do espaço se pensarmos que antes uma carta podia demorar meses a chegar ao seu destino. A validade das emoções e da ansiedade estendia-se pelo tempo e agora dilui-se e fragmenta-se em milésimos de segundos. Aliás, no que toca a estas formas de se relacionar que emergem tudo depende de decisões muito rápidas. Segundo Lévy (1997), o uso das novas tecnologias de comunicação fomenta as relações sociais, sendo que os usuários da Internet têm mais amigos e são mais sociáveis e relacionam-se mais com a família, o que refuta a ideia de isolamento inicialmente defendida por alguns pessimistas. As relações que se estabelecem através de dispositivos de comunicação como o telemóvel e o computador nem substituem o contacto face-a-face, nem impedem o contacto e as interacções de nenhuma ordem. “A imagem do indivíduo «isolado frente ao ecrã» é bem mais uma imagem fantasmagórica do que o resultado de um inquérito sociológico” (Lévy, 1997: 135), até porque a cibercultura proporciona o estabelecimento de relações ideias em comunidade desterritorializadas que se baseiam na partilha de interesses comuns e na aprendizagem cooperativa e colaborativa.

Segundo Rieffel (2003), ter telemóvel ou estar ligado à Internet é um modo de demonstrar que se está em sintonia com os tempos actuais, evitando uma desclassificação social. As crianças, que crescem hoje na cultura do telemóvel e das comunicações mediadas, sentem essa demanda de estar a par das novidades tecnológicas, sector que dominam, face aos adultos. As crianças sabem mais sobre o assunto, utilizam mais, melhor e mais rápido. Este é um fenómeno de tal modo global que se propagou rapidamente. De um estudo realizado entre 2001 e 2003 um pouco por todo o mundo: Japão, Finlândia, Itália e Reino Unido entre outros países (Ling, 2004), resultaram algumas conclusões de relevo para esta investigação:

  • A taxa de indivíduos de 13 anos com telemóvel era superior comparada com a de 18 anos;

  • Cerca de 90% dos jovens entrevistados tinha telemóvel;

  • O número de raparigas com telemóvel era superior ao dos rapazes;

  • No início do estudo (em 2001) os rapazes pareciam pioneiros no uso das funcionalidades, mas depois destes dispositivos integrados no dia-a-dia as raparigas revelaram-se mais fluentes;

  • Os jovens usam o telemóvel porque:

    • Garante uma sensação de segurança;

    • Permite a coordenação das actividades ao longo do dia;

    • Facilita a interacção social porque estão sempre acessíveis aos seus pares;

    • É um acessório de moda;

      • Os toques;

      • As cores;

      • O modelo;

    • Confere status social e promove a inclusão social;

      • Ter o telemóvel mais caro e mais na moda;

      • Dominar a linguagem dos SMS’s;

    • Garante a sensação de controlo do seu próprio canal de comunicação;

    • Proporciona um carácter ilícito à comunicação que pode ser realizada durante as aulas, a altas horas da noite e veículo de mensagens de teor sexual;

    • Concede a sensação de emancipação relativamente à forma como exploram as suas interacções sociais, permitindo um estado de pré-socialização mais próximo do estádio seguinte do seu crescimento. No caso dos pré-adolescentes que se sentem participantes do mundo dos adolescentes e dos adolescentes que se sentem a participar do mundo dos adultos.

Os telemóveis transformaram-se num dos principais meios de comunicação para crianças, cada vez mais jovens. Não é de estranhar, por isso, que esta relação se torne obsessiva ao ponto de não poderem viver sem estes aparelhos agarrados a elas. As crianças estão cada vez mais dependentes dos telemóveis não só pelo crescente papel que desempenham na comunicação com os seus pares e familiares, o que faz com que releguem para segundo plano a comunicação face-a-face, mas também pela companhia que este utensílio proporciona na ocupação dos momentos mais solitários, já que permite ler, ouvir música, conversar com os amigos, navegar na Internet ou jogar. O telemóvel para as crianças assume o papel de um amigo e, por isso, registam-se casos sérios de dependência um pouco por todo o mundo. Daí também que se sintam perdidos quando estão sem o telemóvel ou sem Internet, como se perdessem uma parte de si. Estes casos de dependência, segundo Girmino (2002) são preocupantes porque podem desencadear sérios perigos para a saúde, bem como distúrbios psicológicos que podem fazer com que, por exemplo, o confronto cara-a-cara seja um problema. Há jovens inclusive que nem para dormir se separam do telemóvel.

Um outro aspecto a reflectir prende-se com a facilidade com que as crianças cedem o contacto a terceiros transforma-os em vítimas de práticas de fraude, pedofilia ou de cyberbullying3, que é uma prática emergente entre os mais novos.

O multifacetado telemóvel ocupa um lugar central na vida das crianças, é um fenómeno global que tem, obviamente, as suas consequências se os pais não estiverem despertos para os sintomas de adição e dependência e educarem para o bom uso deste aparelho de comunicação digital. Existe já na Dinamarca uma clínica que trata de casos de ludopatia, o Projecto Homem, que ajuda no tratamento de pessoas que se tornaram escravo da tecnologia e que manifestam os sinais típicos da dependência: ansiedade, irritabilidade e baixos níveis de atenção.

2. Do Chat à cultura Messenger

Quando Charles Babbage inventou no século XIX, uma máquina de cálculo, que mais tarde se viria a chamar de computador, provavelmente não adivinhava que esta ferramenta viria a ocupar um lugar central na vida do homem contemporâneo. De facto, com o tempo, deixamos de olhar o computador como uma ferramenta que ajuda a executar tarefas de raciocínio e passamos a dar-lhe um novo significado e estabelecer uma relação de proximidade com a máquina.

A presença do computador na vida contemporânea é muito diferente do que era há algumas décadas atrás, segundo Turkle (1995) isto deve-se ao facto de na década de 70 em diante houve a passagem da cultura do cálculo à cultura da simulação. E esta cultura da simulação que emerge afecta o entendimento da nossa mente e do nosso corpo. Assim, se na década de 80 os computadores eram uma extensão do nosso intelecto, no fim do milénio e hoje passaram a ser uma extensão da presença física do indivíduo. É com os anos 80 que as crianças começam a conviver de uma forma mais próxima com os computadores. Os computadores são brinquedos que lhes permitem realizar actividades como jogar, divertir, conversar e ler. Este grau de interactividade fez com que crianças e computadores se tornassem amigos. Isto desencadeou uma mudança no modo como nos relacionamos com o computador e com as outras pessoas. O computador mudou o modo como pensamos e vivemos as nossas relações sociais e afectivas. Já que é através do computador que nos ligamos a um mundo virtual onde existe uma comunidade na qual encontramos os que nos são próximos: amigos, família, namorados… O computador deixou de ser uma máquina analítica e passou a ser visto como uma máquina íntima, como lhe chama Turkle. Esta máquina íntima permite estabelecer dois tipos de relação: pessoa – máquina e pessoa – outras pessoas. Assim, para além de o computador oferecer a ilusão de companhia quando estamos sozinhos, sendo que “one can be a loner yet never be alone” (Turkle, 1995: 30), proporciona a interacção com outros indivíduos, já que somos seres comunicacionais por natureza.
Com a passagem da sociedade agrícola para a industrial, o fenómeno da urbanização da sociedade informatizada restringiu os espaços de expressão lúdica da criança. Igualmente, os hábitos quotidianos da criança mudaram e o brincar na rua é perigoso, restringindo-se o encontro com outras crianças num espaço livre, onde se brinca e inventa jogos e brincadeiras e se vivem aventuras emocionantes. Sendo que hoje as possibilidades de acção lúdica da criança diminuem drasticamente como consequência do actual estilo de vida, o universo lúdico da criança torna-se mais sofisticado caro e tecnológico. De facto, foram vários os factores que aproximaram as crianças do computador e que fomentam uma utilização crescente dos meios tecnológicos em prol da comunicação mediada:

  • As crianças brincam menos com outras crianças, porque:  

    • Existe violência na rua;

    • Têm menos tempo para brincar, já que são aliciadas para diversas actividades, cujo intuito é prepará-las, desde cedo, para o mundo laboral: curso de línguas, música, dança, informática, desporto;

  • Há uma sobrevalorização dos brinquedos, de preferência caros, mas não se releva o ter com quem brincar;

    • O espaço das brincadeiras confina-se mais a quatro paredes e aos equipamentos electrónicos;

    • As famílias são menos numerosas.

  • Porque as crianças passam menos tempo em família:

    • Os pais trabalham mais para poder dar uma vida melhor aos filhos;

    • Por motivos pessoais e profissionais passam mais tempo fora de casa ou chegam a casa tarde e extremamente cansados;

    • O telemóvel é o cordão umbilical que liga pais e filhos.

Datam da década de 60, do século passado, os sistemas de time-sharing que permitiam a Comunicação Mediada por Computador (CMC), enviando palavras escritas de um computador para outro que se encontrava ligado ao mesmo tempo. No final da década de 80, populariza-se o Internet Relay Chat (IRC) com centenas de canais e milhares de indivíduos de todo o mundo que se ligavam para conversar na rede, através de canais de interesse, abertos 24 horas por dia. Os populares “chats”, cuja designação deriva do verbo inglês “to chat”, são salas abertas de conversa escrita, onde se conhecem pessoas de todos os cantos do mundo com quem se conversa em tempo real, se assumem múltiplas e distintas identidades, permutam informações e ficheiros, discutem assuntos mais ou menos sérios, enquanto se dá azo à diversão e às confidências, se namora e se criam e rompem laços. Tudo se passa assim (Bauman, 2003:54)

Entramos em canais de conversação (chats) e temos «amigos virtuais» com quem conversar. Os amigos virtuais, como bem sabe todo o viciado nestes canais, vêm e vão, entram e saem do circuito – mas há sempre em linha alguns ansiosos por inundar o silêncio com «mensagens». No relacionamento «virtual», não são as mensagens em si, mas o seu ir e vir, a sua circulação, que constituem e mensagem – não importa o conteúdo. Nós pertencemos ao fluxo constante de palavras e sentenças inconclusas (abreviadas, truncadas para acelerar a circulação). Pertencemos à conversa, não àquilo sobre o que se conversa.”

A Internet passou a ser um lugar de encontros e desencontros à velocidade de um clique sem barreiras de espaço ou de tempo onde novos tipos de relacionamentos emergiam, juntamente com novos valores sociais e culturais. Sempre que surge uma nova tecnologia que apela à interacção social, naturalmente, o ser humano tende para o despertar social através da construção de comunidades. O mesmo se passa no ciberespaço através de CMC, porque estas permitem “interagir de uma forma inovadora, fazendo coisas novas em conjunto – tal como o permitiram os telégrafos, os telefones e as televisões” (Rheingold, 1996: 19) que passa pela “nova capacidade de comunicação multilateral, de «muitos para muitos»” (idem: 19). A Comunicação Mediada por Computador alterou os modos de relacionamento entre as pessoas cujo contacto passa pelo ciberespaço e pela interactividade4.

Segundo as conclusões de um estudo sobre a utilização do ‘Messenger’, realizado pelo Centro de Investigação em Ciências da Comunicação da Universidade do Algarve5, concluíram que:

  • 77% dos jovens portugueses entre os 12 e os 18 anos utilizam sistemas de mensagens instantâneas da Internet (Messenger) e seis em cada dez fazem-no frequente e muito frequentemente, passando horas a conversar no computador;

  • Há uns anos dizia-se que as novas tecnologias iam isolar as pessoas, mas a realidade é que os jovens usam a Internet sobretudo para comunicar uns com os outros;

  • O Messenger permite satisfazer uma grande necessidade de comunicação sentida pelas crianças e jovens, sobretudo nas grandes cidades, onde actualmente são cada vez mais raras as "brincadeiras de rua" com os amigos, depois da escola;

  • O Messenger permite-lhes manter o contacto com os amigos, quando estão em casa;

  • Os jovens consideram muito importante estar sempre em contacto com os amigos e deixam o Messenger ligado, mesmo quando não estão em casa, para assim poderem ler o que os colegas lhes escreveram durante a sua ausência;

  • 60,6% utilizam o Messenger para falar com amigos, mas 11,4% confessam conversar até com pessoas que não conhecem, depois de obterem os seus e-mails através da Internet, por exemplo a partir de jogos em rede;

  • Mais de 90% dos alunos afirmam que os pais nunca ou raramente impõem restrições ao uso daquele sistema, limitando-se a controlar os custos de utilização da Internet e não tanto os conteúdos;

  • As salas de conversação (chat) na Internet registam uma utilização de apenas 13,4%, porque os miúdos sabem os riscos de falar com desconhecidos, já que os casos mediáticos relacionados com conversas com estranhos ajudaram a alertá-los para o perigo;

  • No Messenger, a taxa atinge o pico entre os 17 e os 18 anos no caso dos rapazes e entre os 14 e os 16 no caso das raparigas;

  • Portugal é o 4.º país onde os adolescentes mais utilizam este sistema, entre os nove países analisados.

Este meio de comunicação revolucionário que se baseia na comunicação escrita tem um papel fundamental na manutenção dos laços relacionais, já que permite um contacto ininterrupto e convida à confidência daquilo que não se tem coragem de dizer no face-a-face. Para além disso, tem um ar leve e divertido assessorado pelas imagens e sons que enfeitam a relação em curso. É impossível ignorar o Messenger, enquanto meio de comunicação, que não pára de ganhar cada vez mais simpatizantes em todo o mundo e que muito tem contribuído para redesenhar a comunicação interactiva entre os seres humanos.

Assim:

Instant messaging has become the digital communication backbone of teens’ daily lives. About half of instant-messaging teens — or roughly 32% of all teens — use IM every single day. As the platforms for instant messaging programs spread to cell phones and handheld devices, teens are starting to take textual communication with them into their busy and increasingly mobile lives. IM is a staple of teens’ daily internet diet and is used for a wide array of tasks — to make plans with friends, talk about homework assignments, joke around, check in with parents, and post “away messages” or notices about what they are doing when they are away from their computers.”6

3. A investigação

Esta investigação empírica visou estudar o fenómeno do uso do telemóvel e do Messenger por crianças do 5º e 6º ano do Ensino Básico de duas escolas do distrito de Braga (EB2,3 de Lamaçães e a EB 2,3 de Amares), de forma a perceber o fenómeno de atracção que existe entre crianças e as novas tecnologias.

De entre os vários estudos, nacionais e internacionais encontrados, verificou-se que há uma recorrente chamada de atenção para a necessidade de a investigação se debruçar sobre as faixas etárias mais jovens e, por outro lado, recolher dados sobre como as crianças usam as tecnologias – telemóvel e Messenger – no quotidiano

3.1. A Amostra

O estudo empírico foi circunscrito a 513 respondentes. A amostra refere-se a alunos do 2º ciclo do Ensino Básico (5º e 6º anos de escolaridade) com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos, 333 alunos da EB 2,3 de Lamaçães e 180 alunos da EB 2,3 de Amares.

3.2 Resultados sobre a utilização do Telemóvel

A partir do estudo efectuado, verifica-se que a taxa de inserção do telemóvel entre a população do 5º e 6º anos de escolaridade das escolas EB 2,3 de Lamaçães e de Amares, com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos de idade, ronda os 92%.

O valor médio da idade com que têm o primeiro telemóvel situa-se entre os 9 e os 10 anos, respectivamente com 25,9% e 36,7%, o que coincide com a entrada no 2º ciclo do ensino básico. Nestas idades, as crianças ganham uma maior autonomia e independência, já que passam mais tempo fora de casa em saídas com os amigos ou envolvidos em actividades extracurriculares, fugindo, desta forma, ao controlo presencial dos pais. O telemóvel surge como o cordão umbilical que liga os filhos aos pais. O telemóvel é utilizado não só como elo familiar, mas também na manutenção das relações de amizade com os seus pares.

Relativamente à questão da conectividade, apurou-se que 58,3% dos inquiridos não desliga o telemóvel, mas tira o som; 51,3% desliga o telemóvel e apenas 4,9% não desliga nem tira o som ao telemóvel em nenhuma circunstância.

Gráfico 10. Desligar ou não o telemóvel

Os inquiridos desligam o telemóvel nas seguintes situações: ‘nas aulas’ (67,5%); ‘quando estão a dormir’ (16,6%); 7,1% em ‘locais que exigem silêncio’ (igreja, biblioteca, avião, hospital, cinema…); ‘quando o telemóvel está sem bateria’ (7,1%) e ‘outras situações’ (5%), tais como: ‘quando é preciso’, ‘quando não querem ser chateados’ ou ‘quando apetece’.

Os respondentes tiram o som ao telemóvel nas seguintes circunstâncias: 78% ‘nas aulas’; 15% ‘locais ou situações em que não é permitido fazer barulho’ (missa, igreja, catequese, cerimónias, cinema, teatro, hospital, biblioteca) e 6% referiu ‘outras situações’ como: ‘em casa’, ‘estudar’, ‘durante as refeições’ e quando vai ‘dormir’.

Tendo em conta a forma como o telemóvel conquistou os mais jovens, e com o intuito de perceber o laço que liga estes jovens ao pequeno aparelho que mudou as rotinas diárias, colocou-se a seguinte questão: “Certamente já te aconteceu ficar sem telemóvel, porque por exemplo ficaste sem saldo ou sem bateria… O que sentiste nesse momento?”. Como opção de resposta, à questão de escolha múltipla, foram colocados sentimentos positivos, negativos e neutros de forma a perceber se esta tecnologia influencia, ou não, altera, ou não, o estado de espírito do utilizador. Assim, averigua-se que: 42% reage com ‘indiferença’ a tal imprevisto seguidamente, as maiores percentagens concentram-se em sentimentos negativos como: ‘tristeza’ (31,5%), ‘desespero’ (23,5%) e ‘tédio’ (14,8%); por fim são bem menos visíveis as percentagens de respostas associadas a sentimentos positivos como: ‘alívio’ (2,4%), ‘liberdade’ (2%) e ‘alegria’ (1,3%).

Tabela 13. O que sentem quando ficam sem telemóvel

Como estratégia para cobrir outros sentimentos que não os previstos, colocou-se como opção ‘Outro. Qual?’. 12,2% dos respondentes escolheram esta alternativa. Os sentimentos enunciados foram: nada/normal (37%); medo/aflição (14%) aborrecimento (14%); nervosismo/preocupação (10,5%); solidão/insegurança (8,8%); 8,7% respondeu vários (incontactável, dependente, vergonha) e raiva (7%). Afere-se que, de novo, o sentimento neutro se destaca, em primeiro lugar, sugerindo que estes jovens não são dependentes do telemóvel, mas depois surgem espelhados sentimentos como: ‘medo/aflição’; ‘aborrecimento’; ‘nervosismo/preocupação’; ‘solidão/insegurança’.

Tabela 14. Ficar sem telemóvel. Outro. Qual?

3.2 Resultados sobre a utilização do Messenger

Relativamente ao serviço de conversação instantânea, 67% dos inquiridos tem Messenger. Esta percentagem revela a popularidade que o serviço de conversação Messenger já representa entre os mais jovens.

Os mais jovens utilizam o Messenger por diversas razões, porém, salientam-se as seguintes: permite falar com várias pessoas ao mesmo tempo; permite conversar e fazer outras coisas ao mesmo tempo (multitasking); é parecido com uma conversa a sério; é divertido (recursos ao smiles, fotos, cor de letra…).

Em média, os inquiridos têm 52 interlocutores na sua lista de contactos, contudo, verificou-se que, em regra, estes jovens têm mais contactos no seu Messenger muito além do número com que fala regularmente. Apurou-se que 17% dos inquiridos contacta, via Messenger, com pessoas que conheceu na web. Este é um número considerável tendo em conta as idades dos indivíduos, o que pode reflectir já uma actividade consistente no ciberespaço.

Quando não gostam da atitude de uma pessoa no Messenger, 42,6% dos respondentes apenas bloqueia o contacto; 25,7% não faz nada; 24,6% bloqueia e exclui; e 8% apenas exclui o contacto.

3.3. Controlo parental e dependências do Telemóvel e Messenger

Relativamente ao controlo que os pais fazem acerca do tempo de uso do telemóvel, 42,5% dos inquiridos refere ‘nunca’ ter sentido esse controlo; 20,1% respondeu ‘raramente’; 18% ‘às vezes’; 9,9% ‘muitas vezes’ e 9,5% afirmam sentir-se ‘sempre’ controlado.

Gráfico 13. Controlo dos pais ao tempo de uso do telemóvel

No que toca ao controlo que os pais fazem acerca do tempo de uso do Messenger, regista-se a mesma tendência do que acontece com o telemóvel. Assim, 38,8% dos respondentes ‘nunca’ sentem o controlo dos pais; 24,1% ‘raramente’ sentem que os pais controlam o uso do Messenger; 18,3% respondeu sentir ‘às vezes’; 9,6% afirmam sentir-se ‘sempre’controlados e apenas 9,3% refere ‘muitas vezes’. De acordo com o próximo gráfico verifica-se haver uma discrepância de valores entre o ‘nunca’ e o ‘sempre’.

Gráfico 14. Controlo dos pais ao uso do Messenger

47,9% dos inquiridos afirma ser dependente do telemóvel, enquanto que 34,5% se consideram dependentes do Messenger. Face a estes números podemos concluir que em ambos os casos o número dos que não se consideram dependentes é superior aos que se consideram dependentes do telemóvel e Messenger; percentualmente regista-se um maior grau de dependência face ao telemóvel do que em relação ao Messenger.

Gráfico 15. Dependência do telemóvel

Gráfico 16. Dependência do Messenger

Acerca de como os indivíduos vêm os seus pares no que toca ao grau de dependência do telemóvel, descobrimos que:

  • Para 51,2% dos respondentes, rapazes e raparigas são igualmente dependentes do telemóvel;

  • 33,6% considera que as raparigas são mais dependentes do telemóvel;

  • 15,2% que considera serem os rapazes mais dependentes do telefone celular.

Relativamente ao uso das funções do telemóvel a maior parte atribui aos rapazes uma maior fluência no uso (38,9%) e logo a seguir, 36,3% consideram ser tantos os rapazes como as raparigas. Já 24,8% opina que as raparigas são mais fluentes no uso das funções do telemóvel.

Gráfico17. Quem é mais dependente do telemóvel

Gráfico 18. Quem utiliza melhor as funções do telemóvel

Relativamente ao grau de dependência do Messenger:

  • 54,4% considera serem tão dependentes rapazes como raparigas;

  • 25,2% defendem ser os rapazes;

  • 20,5% consideram serem as raparigas as mais dependentes do serviço de conversação.

 

Os respondentes acham que rapazes e raparigas são fluentes no uso das funções do Messenger (48,4%); 33,5% é de opinião que são mais fluentes os rapazes contra 18,2% que considera serem as raparigas.

Gráfico 19. Quem é mais dependente do Messenger

Gráfico 20. Quem utiliza melhor as funções do Messenger

Os respondentes quando conhecem alguém, como contacto, fornecem o número de telemóvel (53,8%); enquanto que 25,3% dá o contacto de Messenger e telemóvel e 21% o endereço do Messenger.

Nestes casos parecem não se colocar os problemas em relação às tecnologias, que tantas vezes eram apresentados na investigação, mostrando os rapazes como sendo mais aptos para a utilização dos computadores do que as raparigas. Embora esse não fosse o objectivo principal desta investigação, é sempre interessante observar-se mudanças relativas ao género.

Gráfico 21. 1º contacto que cedem

4. Conclusões

Tendo em conta a célere e profunda mutação da realidade, na qual as crianças ganharam destaque crescente enquanto actores sociais e utilizadores pioneiros das novas tecnologias de informação e comunicação, revestiu-se de toda a conveniência e importância a investigação realizada, no sentido de perceber os rituais destes consumidores tecnológicos.

Assim, no decurso desta investigação, procedeu-se a um enquadramento teórico da temática, de modo a adequar e concretizar o estudo efectuado em duas escolas do distrito de Braga (EB 2,3 de Lamaçães e EB 2,3 de Amares). Esta investigação visou contribuir para aprofundar a investigação no que toca à forma como, actualmente, crianças do 5º e 6º ano de escolaridade utilizam, no quotidiano, duas das mais populares tecnologias de informação e comunicação: o telemóvel e o serviço de conversação instantânea – Messenger.

Depois de observamos os resultados obtidos, concluímos que é um facto consumado que o uso do telemóvel e do Messenger se democratizou entre os mais novos, fazendo parte integrante do seu quotidiano. A idade com que os indivíduos adquirem o primeiro telemóvel coincide geralmente com a entrada para a escola, ou seja, quando as crianças iniciam o seu processo de maior emancipação, autonomia e socialização, fugindo ao controlo familiar. Enquanto que os indivíduos têm telemóvel cada mais jovens, no Messenger verifica-se que o maior grupo de utilizadores se situa entre os mais velhos. Sendo que, tendo em conta as idades dos inquiridos, o acesso a estes dois meios de comunicação é proporcionado pelos pais, verificou-se haver uma maior taxa de utilizadores do telemóvel do que do Messenger. Tal, prende-se com o facto do telemóvel ser um meio relativamente económico e acessível enquanto elo umbilical entre pais e filhos. Por sua vez, o Messenger, apesar de tudo, ainda depende de um certo investimento económico e de alguma fluência tecnológica, o seu acesso não é tão generalizado quanto o telemóvel. Para além disso, tem um carácter mais secundário, supérfluo e lúdico e, possivelmente, por isso, é relegado para segundo plano.

De seguida, procedeu-se a dar resposta aos objectivos estipulados para o desenvolvimento do estudo. Assim:

1. Quanto à importância, frequência e modos de utilização do telemóvel e do Messenger

Os inquiridos valorizam, em particular, o telemóvel enquanto mediador entre o utilizador, família e amigos (como meio de contacto ou como meio de comunicação em situações de emergência). Embora, o telemóvel seja dado às crianças para manutenção do controlo familiar, são outras as utilizações que estes fazem do aparelho. Assim, também apreciam as funcionalidades extra-comunicacionais do aparelho enquanto arquivador de memórias ou nas suas variadas funcionalidades: agenda, relógio, mp3, máquina fotográfica, Internet.

Apurou-se que a maior parte dos indivíduos desliga o telemóvel ou tira-lhe o som em situações como estar nas aulas, a dormir, locais e situações em que não é permitido atender (como, por exemplo, na missa, no médico, no cinema, entre outras…), sendo muito reduzida a percentagem de inquiridos que, em circunstância alguma, desliga ou tira o som ao seu celular.

Embora o Messenger se revele uma ferramenta de conversação bastante utilizada, entre os mais novos, ainda não tem tantos adeptos como o telemóvel. No entanto, cerca de 70% dos indivíduos que usam este serviço, usam-no regularmente.

Este serviço reveste-se de importância para os utilizadores porque é mais barato que o telemóvel e é útil para tirar dúvidas sobre os trabalhos da escola. O facto de o Messenger permitir conversar com várias pessoas ao mesmo tempo, simular a conversa ‘a sério’, permitir realizar múltiplas tarefas e permitir a partilha de ficheiros também é bastante considerado pelos inquiridos.

Em média, cada indivíduo tem 52 contactos no Messenger e fala em média com 18 utilizadores, sendo que para cerca de 20% dos inquiridos alguns são pessoas que conheceram na Internet. Porém, quando não gostam da atitude de uma pessoa no Messenger, mais de 40% respondeu que bloqueia o contacto.

Segundo os inquiridos, o controlo dos pais relativamente ao tempo de uso do telemóvel ou do Messenger, regra geral, ‘nunca’ se faz sentir. Talvez esta falta de controlo se deva a uma questão de iliteracia tecnológica ou desconhecimento dos potenciais perigos. Seria importante aprofundar esta questão em investigações futuras.

2. Quanto à relação de dependência que o telemóvel e o Messenger exerce na vida de crianças do 5º e 6º ano

Para mais de 40% dos respondentes, a situação temporária de ficar sem telemóvel não representa qualquer transtorno. Contudo, se observarmos que uma percentagem significativa se concentra em três sentimentos negativos, como a ‘tristeza’, ‘desespero’ e ‘tédio’, então, podemos concluir que para a maior parte dos respondentes ficar sem telemóvel altera negativamente o seu estado de espírito.

Cerca de 50% dos inquiridos afirma ser dependente do telemóvel, e apenas 35% se diz dependente do Messenger. Face a estes números podemos concluir que em ambos os casos, o número de não dependentes é superior ao de dependentes todavia, comparativamente, regista-se um maior grau de dependência do telemóvel do que do Messenger.

Os indivíduos inquiridos são de opinião que rapazes e raparigas são igualmente dependentes do telemóvel e do Messenger. No entanto, consideram que os rapazes são mais fluentes no uso das funções do telemóvel e que no Messenger tanto os rapazes como as raparigas são fluentes na utilização das funções.

Quando conhecem alguém, o primeiro contacto que os indivíduos fornecem é o número de telemóvel.

3. Quanto à influência das características sócio-demográficas na utilização do telemóvel e o Messenger

No que diz respeito às características sócio-demográficas, constatou-se que estas apresentam leituras suplementares, mas não representam flutuações, tão significativas como se esperava, quanto à utilização do telemóvel e do Messenger.

Quanto ao sexo, em situação de ficar temporariamente sem telemóvel, as raparigas sentem mais ‘indiferença’ e ‘tristeza’ enquanto que os rapazes sentem um maior ‘desespero’ e ‘tédio’.

No Messenger, registou-se que os rapazes são os mais dependentes do serviço de conversação instantânea e valorizam mais as potencialidades de entretenimento do serviço do que as raparigas. Relativamente às raparigas, é maior o número de rapazes que respondeu ter, na sua lista do Messenger, o contacto de pessoas que conheceram na Internet.

Rapazes e raparigas consideram-se identicamente dependentes do telemóvel e do Messenger, no entanto, eles opinam que percebem mais das funcionalidades do telemóvel e do Messenger, enquanto que as raparigas são menos sexistas, considerando que ambos o sexos são fluentes na utilização das funções destes dois meios de comunicação.

Relativamente à idade, tendo em conta que estas oscilavam desigualmente entre os 10 e os 14 anos, optou-se por considerar o ano escolar para fazer a distinção etária.

Deste modo, no que diz respeito ao telemóvel, os indivíduos mais velhos, que frequentam o 6º ano, têm uma maior relutância em desligar o telemóvel, optando por tirar o som. Curiosamente, é mais frequente entre os inquiridos do 5º ano nunca desligarem o telemóvel.

Em situação de ficar temporariamente sem telemóvel, apesar de revelarem o mesmo tipo de sentimentos, os alunos do 6º ano sentem mais ‘indiferença’ e ‘tristeza’ e os do 5º ‘desespero’ e ‘tédio’.

A percentagem de alunos com Messenger é superior entre os alunos do 6º ano, talvez porque têm uma vida social já mais desenvolvida que os aproxima mais da adolescência e dominam melhor a expressão escrita.

Quanto ao grau de dependência, verificou-se que, apesar, de obtermos valores aproximados, os indivíduos do 6º ano são ligeiramente mais dependentes do telemóvel do que os do 5º ano. Isto poderá ter a ver com o facto de terem telemóvel há mais tempo.

Segundo os inquiridos do 5º ano, são os rapazes que melhor utilizam as funções do telemóvel enquanto que para os indivíduos do 6º ano não há distinção entre sexos no que toca ao uso das funções do telemóvel.

Uma outra distinção que fizemos foi entre escolas já que nesta categoria se incluem (como foi sistematizado no capítulo 3) características de meio e de estratificação social divergentes.

É consideravelmente superior a percentagem de alunos que tem Messenger entre os alunos da EB 2,3 de Lamaçães em comparação com a EB 2,3 de Amares. Provavelmente, esse resultado explica-se porque a Escola de Lamaçães regista uma percentagem maioritária de alunos que vive na cidade e cujas famílias têm um nível socio-económico mais elevado. Porém, são os inquiridos da EB 2,3 de Amares que mais se correspondem com pessoas que conhecem na Internet. Isto poderá denotar uma menor informação ou sensibilização familiar para os perigos decorrentes da Internet.

É visível uma maior dependência do telemóvel e do Messenger entre os alunos da escola de Amares.

Para os indivíduos da escola de Lamaçães não há diferenças entre rapazes e raparigas na utilização das funções do telemóvel ou do Messenger, já os da escola de Amares consideram que quem utiliza melhor as funções do telemóvel e do Messenger são os rapazes.

5. Reflexões finais

É inegável a concorrência que as tecnologias presentemente exercem face às instituições basilares como a família e a escola no processo de socialização da criança. As tecnologias de informação e comunicação fazem sentir a sua influência e alteram a estrutura social, os costumes, a vida quotidiana. Há uma geração da cultura letrada, cujo quotidiano se subordina às novas tecnologia e que desenvolveu uma forma de estar no mundo independente do mundo adulto, cuja configuração assenta em novos moldes de comunicar, relacionar e viver que é desconhecido para nós. Não sabemos que adultos serão as crianças que hoje crescem com a cultura da ubiquidade e da interactividade comunicacional e relacional, mas temos provas, hoje, que utilizam doutamente tecnologias como o telemóvel e o Messenger para manter e alargar os laços de afectividade e de amizade. Antigamente, num passado ainda bem próximo, fazíamos amigos no face-a-face entre os vizinhos, os amigos dos amigos, os colegas da escola, actualmente, travam-se amizades, namora-se e pode ter-se uma “second life” na rede.

A criança desenvolveu uma relação íntima e natural com estes aparelhos que os conecta à família, à escola, aos amigos, desde tenra idade, proporcionando uma sensação de companhia, segurança e a gestão do dia-a-dia. Tudo está ao alcance de um botão que utilizam para comunicar através de páginas e páginas de texto que enviam sucessivamente para um destinatário invisível que, segundos depois, responde às suas missivas digitais. Não surpreende, por isso, que esta relação se torne um vício e se sintam desorientados quando estão sem o telemóvel ou sem Internet. No âmbito das comunicações, as inovações não estagnaram, prevêem-se mais revoluções no futuro próximo, já anunciadas, como é o caso da Playstation Portable (PSP) com funções de telefone via Internet em cooperação com a Skype7; dos ultramóveis mais pequenos que um telemóvel com acesso à Internet8; ou a anunciada GRID que tornará a Internet obsoleta9. As novidades, no âmbito das tecnologias de informação e comunicação são diárias, os mais jovens absorvem sofregamente tudo quanto desafia a sua curiosidade própria da idade, em simultâneo, constroem uma cultura com códigos, sinais e ritos, por vezes, camuflados, indecifráveis e silenciosos. Assim, neste contexto evolutivo, é fundamental o papel dos pais e dos adultos, em geral, no sentido de acompanhar e compreender as preferências da criança na construção da sua própria cultura, é que quando as teclas falam, as palavras calam…

NOTAS:

1 Segundo Corsaro (in Barra e Sarmento: 2002) é uma cultura comum ao grupo de crianças com as quais interage e partilha espaços e hábitos, rotinas, artefactos, valores ou preocupações.

2 Por pós-modernidade entendemos, à luz do pensamento de Lipovetsky (1983) e de Harvey (2001), uma época de mutação histórica (decorrente da década de 60) oposta à modernidade, que assenta na aceitação total do efémero, fragmentário, descontinuo e caótico e que privilegia, entre outros, o tempo colectivo, a tecnologia, as imagens, a informação, o consumo, os valores hedonistas e o individualismo. Foram vários os autores que exploraram o tema da pósmodernidade: Baudelaire. Foucault, Wiittgenstein, Lyotard, Marx, Simmel, D. Bell, Toffler, G. Debord, entre outros.

3 O Cyberbullying é uma forma de pressão psicológica e agressividade que é exercida através das tecnologias de informação e comunicação. Para mais informação sobre o assunto, consultar o sítio http://www.miudossegurosna.net [consultado a 6 de Março de 2008].

4 Interactivity is not a characteristic of the medium. It is the extent to which messages in a sequence relate to each other, and especially the extent to which later messages recount relatedness of earlier messages. in Jones, Quentin (1997) Virtual-Communities, Virtual Settlements & Cyber-Archaeology: a Theoretical Outline, disponível em http://jcmc.indiana.edu/vol3/issue3/jones.html [consultado a 18 de Março de 2008].

5 Publicado e consultado a 31 de Julho de 2006, acessível através do link: http://dn.sapo.pt/2006/07/31/media/77_adeptos_messenger.html .

6 in Teens and Technology (2005) Pew Internet and American Project Life Project, p. iii, disponível em http://www.pewinternet.org/ [consultado a 2 de Fevereiro de 2008].

7 Publicado a 05.01.2008, em http://diariodigital.sapo.pt/.

8 Publicado a 09.01.2008, em http://diariodigital.sapo.pt/.

9 Publicado a 07.07.2008, em http://cienciahoje.pt/.

Bibliografía/Referencias


  • Bauman, Zygmunt (2003). Amor líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos. Lisboa: Relógio d’Água Editores.

  • Girmino, José Manuel (2002). La generación del pulgar. Consultado a 15 de Março de 2008, em www.laflecha.net/canales/moviles/articulos/generacion_pulgar/ .

  • Harvey, David (2001). Condição Pós-Moderna (10ª edição) São Paulo: Edições Loyola.

  • Lemos, André (1999). Ciber-socialidade – Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea. Consultado a 17 de Março de 2008, em www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/cibersoc.html.

  • Lévy, Pierre (1997). Cibercultura – Relatório para o Conselho da Europa no quadro do projecto «Novas Tecnologias: cooperação cultural e comunicação. Éditions Odile Jacob/Éditions du Conseil de l’Europe. Instituto Piaget. (Colecção Epistemologia e Sociedade).

  • Ling, Rich, Kaufman, Morgan (2004). The Mobile Connection – The Cell Phone’s impact on society. San Francisco: Morgan Kaufman Publisher.

  • Lipovetsky, Gilles (1983). A Era do Vazio: Ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio d’Água Editores.

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  • Rieffel, Rémy (2003). Sociologia dos Media. Porto Editora. (Colecção Comunicação – 3).

  • Sarmento, Manuel Jacinto; Barra, Sandra (2002). Os saberes das crianças e as interacções na rede. Consultado a 17 de Fevereiro, em http://www.ced.ufsc.br/~zeroseis/1art14.doc.

  • Sarmento, Manuel Jacinto (2002). As culturas da infância nas encruzilhadas da 2ª modernidade. Consultado a 18 de Fevereiro, em http://cedic.iec.uminho.pt/.

  • Turkle, Sherry (1995). Life on the screen – Identity in the Age of the Internet. New York: Simon & Schuster Paperbacks.


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