IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo F-31: Redes sociais

Redes sociais e memes: a produção de significados em comunidades virtuais no Orkut

Ponente/s


Resumen

O presente trabalho tem como objetivo analisar a potencialidade dos memes como formadores de redes sociais na internet. O referencial teórico baseia-se nos estudos referentes ao interacionismo simbólico de G. H. Mead e H. Blumer, buscando compreender como os símbolos são apropriados e propagados nas interações realizadas em redes sociais. Partindo dos estudos das redes sociais (RECUERO, 2006) e do conceito de memes de R. Dawkins, foi analisado um tópico proposto em uma comunidade virtual alocada no site de relacionamentos Orkut. Assim, pretende-se verificar, através da observação da interação realizada entre os participantes da comunidade, qual o papel dos memes na produção de significados e na construção de redes sociais em comunidades virtuais na internet.

Contenido de la comunicación

Introdução

A partir da segunda metade do século XX as tecnologias da informação entraram num processo rápido e constante de aperfeiçoamento. O que na década de 50 começou com o desenvolvimento da informática e da cibernética, 40 anos depois se transformou em uma rede mundial de computadores interligados por todo o planeta. Assim, com o surgimento da web, as possibilidades de uma maior aproximação entre os sujeitos vêm estimulando a interação social e a interferência destes naquilo que é produzido no ciberespaço. Este novo contexto mistura-se ao nosso ambiente cultural quase que de maneira imperceptível.

Através do rápido progresso tecnológico surgem novas formas de socialidade que são proporcionadas e difundidas através de redes estabelecidas pelos meios digitais. Novas concepções sociais estão sendo construídas, revelando particularidades que são características da emergência que a sociedade atual tem em interferir no processo comunicacional. Neste sentido, pode-se observar que as formas dos sujeitos interagirem é alterada pelo desenvolvimento da internet e da web e pela potencialidade na qual esta última possui na ampliação do contato entre os indivíduos. Com sua descoberta, as referências de espaço-tempo que determinavam territorialmente o processo de comunicação entre os sujeitos foram sendo caracterizadas pela possibilidade de uma interação virtual mediada pelo computador.

Originada dentro de locais restritos com o propósito de estabelecer a comunicação entre os militares na década de 50, a Internet teve seu foco inicial em um sistema de comunicação invulnerável a ataques nucleares (CASTELLS, 2006: 82), desenvolvido através do trabalho de uma das agências mais inovadoras tecnologicamente da época: a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada- ARPA. Porém, somente após quarenta anos da criação da Internet, foi desenvolvida a Web – a Teia ou Rede mundial, criada por Tim Berners-Lee em 1990 trazendo uma revolução nas formas de pesquisa de informações e na interação desejadas na Internet. O www (World Wide Web) representa uma das grandes evoluções na transmissão de dados e informações na Rede.

Apoiados na interação mediada pelo computador, nosso trabalho tem como objetivo compreender como os indivíduos propagam significados e formam redes sociais na internet. Assim, este trabalho busca observar como estas formas de interação e construção de conteúdos podem propiciar relações sociais na Internet, a partir de uma análise do interacionismo simbólico realizado através da replicação de memes - idéias que são passadas de um cérebro a outro.

1. As comunidades virtuais e a formação de redes sociais

Procurar compreender como os indivíduos se manifestam individualmente e em coletivos, sempre fez parte das indagações sociais. Na sociedade atual, a qual o ciberespaço é o lugar comum de interação de milhares de pessoas no mundo inteiro, novas formas de relações sociais vão sendo construídas diariamente. Diante deste contexto atual, da sociedade em Rede (CASTELLS, 2006), é possível perceber que a ampliação das tecnologias foi fator determinante para a potencialização da comunicação entre os sujeitos, que passam cada vez mais a interagirem entre sí através de mediação de computadores e tecnologias de acesso à internet sem fio (telefones celulares, Wi-Fi). Para buscar compreender quais os impactos dessa interação, é necessário fazer uma referência sobre os aspectos do indivíduo enquanto ser humano e enquanto ser social.

Enquanto ser humano, o sujeito possui características referentes aos seus próprios sentimentos, impulsos e pensamentos contraditórios, e de algum modo deveria decidir com segurança interna entre suas diversas possibilidades de comportamentos. Já enquanto ser social, a determinação de regras e as orientações de ação dos grupos sociais seria caracterizada por uma “lei natural” que impulsiona as relações entre os indivíduos (SIMMEL, 2006) que a manifestam através de símbolos. Desta forma, é possível inferir que cada grupo se forma a partir de um contexto que une os sujeitos a partir de determinados interesses, que são compartilhados pelo grupo, formando assim redes sociais. Estas redes são observadas na relação entre atores (pessoas, instituições e grupos) e suas conexões, tratando-se de uma abordagem focada nas estruturas sociais (RECUERO, 2006).

No ciberespaço, estas redes são ampliadas devido à potencialidade da interação mediada pelo computador, o que determina que uma organização social diferenciada seja realizada entre os internautas. Destas organizações surgem as comunidades virtuais. Segundo Rheingold (1993), as comunidades virtuais são os agregados sociais surgidos na Rede (Web), quando os intervenientes de um debate o levam por diante em número e sentimento suficientes para formarem teias de relações pessoais no ciberespaço. Estas novas formas de agregações se apóiam em softwares (blogs, fóruns, chat’s e sites de relacionamentos) que permitem a construção e consolidação das interações. As comunidades virtuais podem ser tratadas como tentativas de explicar como se processam as redes sociais na Internet, através de seu potencial de interação.

A interação mediada pelo computador faz-se cada vez mais presente nas sociedades. Para Recuero (2006: 4) “é possível desconectar-se da presença física como empecilho da sociabilidade e reconectar-se aos demais unicamente através da interação mediada pelo computador”. Estas interações passam a ser realizadas no ciberespaço, podendo gerar comunidades virtuais. Neste caso, é necessário compreender como ocorrem estas relações, o que leva os indivíduos interagirem entre sí por um tempo indeterminado, a ponto de formar comunidades virtuais que reproduzem significados que se propagam entre os indivíduos gerando redes sociais.  

2. O Interacionismo simbólico de Mead e Blumer

O interacionismo simbólico nasceu no século XX, e foi a primeira teoria a tratar sociedade a partir da ótica da comunicação e da interação simbólica. Esta reflexão teórica propõe estudar os processos de comunicação dos indivíduos a partir de sua compreensão do contexto social enquanto seres que respondem aos estímulos produzidos por outros indivíduos. Segundo Rüdiger:

A sociedade se confunde com a cultura e é escandida por duas tendências fundamentais. As tendências à socialização e integração dos indivíduos constituem o seu próprio cimento; as tendências à individualização e competição entre seus membros constituem se fator de renovação.” (1998: 35)

Nesse sentido, a comunicação é o elo entre o indivíduo enquanto ser humano e enquanto ser social, promovendo um constante movimento de modificação da sociedade. O aspecto cultural é constantemente alterado pelo desenvolvimento das sociedades. A comunicação, processo mediado simbolicamente, é um dos fatores determinantes nesse desenvolvimento, remetendo um sentido nas trocas simbólicas entre os indivíduos que reciprocamente compartilham gestos, palavras, símbolos e se apropriam dando um significado que é reconhecido e reproduzido em determinado contexto social. “A comunicação representa um processo estruturado simbolicamente, constitui o emprego de símbolos comuns com vistas à interação, que funda a própria sociedade.” (RÜDIGER, 1998: 36)

A produção de significado deve ser vista como um produto da interação social e como uma condição de possibilidade da comunicação. As relações sociais se fundamentam nestes significados, e através da influência que os indivíduos possuem no mundo social em que vivem, conseguem alterar seu contexto e reestruturar novas formas de significação construindo novos significados que ao longo dos tempos vão sendo propagados e apropriados pelos indivíduos.

Assim, o interacionismo simbólico contém um núcleo de premissas comuns entre a comunicação e a sociedade. De forma ampla, envolvendo diversas teorias, o interacionismo é uma orientação teórica, que permite analisar a sociedade a partir da interação entre os indivíduos.

A mente o eu e a sociedade constituem processos de interação pessoal e interpessoal, que remetem a uma troca entre os seres que utiliza como mecanismo a linguagem, que faz com que os indivíduos internalizem os processos sociais. O ator define a situação de interação, e constitui o seu eu a partir de definições sociais e pessoais. “(...) a pessoa tem a sociedade em sí mesma (...)” (LITTLEJOHN, 1982: 66)

O homem é um ser social, e a partir da e da interação com outros seres humanos constrói uma realidade social. A comunicação, nesse sentido, pode ser vista como um processo de construção da própria civilização.

2.1 O ato social de Georg Herbert Mead

Considerado o pai do interacionismo simbólico, Gerog Herbert Mead destacou-se durante o período pós-darwinista, no qual diversos filósofos da época voltaram seus pensamentos para uma perspectiva evolucionista.

O teórico considerava-se um psicólogo social, pois procurava explicações da conduta nas questões humanas. Ele considerou, em suas obras, o potencial biológico herdado de uma pessoa um antecedente para o processo inteiro de sociabilização que culmina no eu e na mente (LITTLEJOHN, 1982).

A psicologia de Mead era distintamente humana, e usou o ato social como unidade básica de análise. Para ele a sociedade, o eu e a mente são ênfases diferentes sobre o processo do ato social. Todo ato tem uma origem e um resultado, o qual é percebido ou imaginado por ambos os atores durante a interação. “Os atos começam com um impulso; envolvem percepção e atribuição de significado, repetição mental e ponderação de alternativas na cabeça da pessoa, e consumação final.” (LITTLEJOHN, 1982: 68-69).

Partindo para o estudo da tríade proposta por Mead, iniciaremos por compreender o que ele descreve como sociedade. A sociedade, ou vida em grupo, é um aglomerado de comportamentos cooperativos por parte de seus membros. A cooperação é um dos aspectos que diferencia a sociedade humana da sociedade dos animais. O pensar as ações e intenções do outro e responder de modo apropriado é um primeiro passo na cooperação, é a essência da comunicação interpessoal, a resposta mútua.

O uso consciente de simbologias durante uma interação é comportamento único do homem em sociedade. Estes símbolos geram um significado, são interpretados pelo receptor. No entanto, ele já deve possuir um significado para ser compartilhado pelos indivíduos – um símbolo significante. “Em virtude de nossa capacidade para vocalizar símbolos significantes, podemos literalmente ouvir-nos e, assim, responder a nós próprios como os outros nos respondem.” (LITTLEJOHN, 1982: 70). Os símbolos pressupõem um consenso, estruturando não só a interação, mas o convívio social.

Em relação ao self – o “eu”, Mead sugere que o indivíduo pode atuar em relação a si mesmo. O modo como o homem se vê é a adoção de um papel. A linguagem é fator determinante no reconhecimento deste eu. Como atos do “eu”, Mead descreve três fases: a) preparatório: onde se age por imitação, não atribui significado, é a fase da criança; b) estágio teatral: a criança representa-se no outro, finge ser o outro, não desenvolvendo uma percepção singular de si, e c) estágio de jogo: o indivíduo passa a responder por muitos outros, relacionado a relação de grupo, equipe.

Dentro do estudo do “eu” Mead nos traz outro conceito, o do outro generalizado. Nessa abordagem o autor afirma que esta é a fase na qual o indivíduo passa a ver-se a si mesmo, percebendo como os outros o vêm. Para o autor o outro generalizado é o “mim”, a força de orientação e direção, e o eu-mesmo é força interna, impulsora das ações. Diante deste aspecto Mead traz o terceiro elemento de seus estudos, a “mente”, definida como a interação do indivíduo com ele próprio, é um processo essencial na vida humana. Segundo Littlejohn:

O motivo pelo qual a reflexão mental é tão importante para Mead é que ela fornece o fundamento lógico para ver a pessoa como um ator e não como um reator passivo. Os seres humanos constroem literalmente o ato antes de o consumarem.” (1982: 71)

É nesse processo de reflexão entre o “eu” e a “mente” que os indivíduos constroem seu poder de interação com o outro. O pensar, refletir sobre si mesmo é importante para a compreensão de como o outro percebe, imagina o processo interativo. Na vida humana o ser constrói objetos a partir de estímulos, conforme a necessidade o homem cria aparatos para melhor viver o cotidiano. As pessoas criam objetos a partir dos símbolos significantes que atribuem a ele. 

2.2 Herbert Blumer e a ação social

Foi o cunhador do termo Interacionismo simbólico, em 1937. Como apóstolo de Mead, Blumer seguiu os estudos acerca do interacionismo simbólico, complementando as teorias de seu mentor, para ele algumas questões deveriam ser acrescidas ao interacionismo simbólico: a) os seres agem a partir dos significados que as coisas possuem para eles; b) esse significado é decorrente da interação social do indivíduo e c) através do processo interpretativo, os significados são transmitidos, manipulados e modificados.

Para Blumer o significado, o qual assume papel central no processo social, pode ser visto: 1) pela ótica de que é inerente ao objeto; 2) como algo que surge como resultado das orientações psicológicas internas da pessoa e 3) como um produto da vida social. Segundo Littlejohn:

O que distingue a concepção interacionista de significado é a sua ênfase sobre a interpretação consciente. Um objeto passa a ter significado para a pessoa no momento em que o indivíduo considera conscientemente, reflete e pensa sobre o objeto, ou o interpreta.” (1982: 72)

Salientar a importância do significado é o eixo principal das idéias de Blumer. Nenhuma ação humana existe sem interação, dessa forma, todo processo comunicacional é fundamental para o convívio social. O objeto, para ele, adquire uma importância, pois é a ele que remetemos um significado, este objeto pode ser de três tipos: a) físico (coisas); b) sociais (pessoas) e c) abstratos (idéias). Os objetos possuem significados diferentes para as pessoas, que se apropriam e dão um valor a eles a partir contexto social no qual estão inseridos. O indivíduo por possui um eu, atua em relação a si mesmo como um objeto. Essa relação entre ação e o eu é fundamental no desenvolvimento da vida humana. (LITTLEJOHN, 1982). Os homens não agem em função das coisas, mas do significado que elas.

Blumer ainda faz referência à ação social ou em grupo. Para ele as ações geradas em grupo partem da ligação de ações individuais. Esses atos consistem em padrões instituídos que se baseiam em significados comuns e pré-estabelecidos. No entanto, Blumer adverte que mesmo em padrões grupais altamente repetitivos, as ações não são permanentes, os contextos sociais e culturais se alteram. Cada caso deve começar novamente com a ação individual. Essas ações individuais podem formar amplas cadeias, como redes sociais, ligando atores distantes entre si, que através da interação simbólica formam macrogrupos e instituições na sociedade.

Como método para o estudo do interacionismo simbólico Blumer propôs uma construção empírica da ciência do comportamento através da observação participativa, como um processo de descoberta da natureza do mundo. A observação parte de dois estágio 1) a exploração, como forma de obter informações com técnicas que se adaptem a situação e 2) o pesquisador deve, após realizar a exploração do fenômeno, iniciar a inspeção, examinando intensivamente o objeto. Nesse sentido, observamos que Blumer infere que o pesquisador deve perceber e observar como se manifestam os indivíduos nas relações sociais. A observação acerca dos fenômenos sociais se torna fator determinante no processo de compreensão de como os símbolos se propagam e auxiliam na construção de redes sociais.

Assim, podemos enfatizar que a comunicação é um processo estruturado de símbolos, que nos permite uma conversação interior e com os outros. A comunicação seria então como um processo de organização da vida social. A interação entre os indivíduos é fator crucial no desenvolvimento da sociedade.

É diante destas duas perspectivas acerca do interacionismo simbólico que realizaremos o estudo referente à comunidade virtual proposta como base para análise da formação de redes sociais na internet.

3. Os memes e a propagação de significados

O termo meme foi criado pelo biólogo evolucionista Richard Dawkins em seu livro “O gene egoísta” para estabelecer uma analogia com o termo gene, unidade fundamental da hereditariedade. O meme é relacionado às noções de genismo. O genismo entende os seres vivos como “máquinas perpetuadoras de genes”. Segundo o conceito formulado por Dawkins a espécie humana não se desenvolve somente a partir da genética, mas também das transformações culturais e do desenvolvimento das sociedades ao longo dos tempos. Para Dawkins, um meme é uma forma de reprodução daquilo que assimilamos durante nossa vida: “A transmissão cultural é análoga à transmissão genética no sentido de que embora seja basicamente conservadora, pode originar uma evolução.” (2001: 211). Por isso, para ele o meme é o “gene da cultura”, e a sua reprodução tem um caráter fundamental como disseminador de pensamentos e auxilia na proliferação de idéias que só possuem significado para quem os compartilhe.

Um ‘meme de idéia’ pode ser definido como uma entidade capaz de ser transmitida de um cérebro para outro. O meme da teoria de Darwin, portanto, é o fundamento essencial da idéia de que é compartilhado por todos os cérebros que a compreendem” (DAWKINS, 2001: 217-218).

E nesta propagação de memes, todos os símbolos que fazem sentido para os indivíduos são reunidos e transmitidos de um cérebro a outro através dos memes propagados.

Todo meme reproduzido carrega com ele uma união de símbolos, e sendo assim transmite todas as percepções individuais e as apropriações culturais que cada ser humano acumula durante a vida. Desta forma podemos perceber a ligação entre os memes e o interacionismo simbólico Sendo o meme um proliferador de símbolos que passam de um indivíduo a outro, seu papel está na ênfase que é dada a estes considerados como sendo importantes, possuem um significado, e que se sobressaem de outros de menor valor. E este valor é que dá origem ao meme.

Se os símbolos, seja em formato de texto, imagem ou outro tipo, não tiverem importância para os indivíduos, eles não terão um valor suficientemente importante para que sejam reproduzidos. Eles somente serão reconhecidos pelos sujeitos, mas sua reprodução é dada pelo valor que eles representam, originando assim a propagação de memes.

A partir destas considerações acerca destes dois conceitos e sua união para a construção de uma melhor percepção dos processos de como se manifestam as idéias entre os indivíduos no ciberespaço, utilizaremos as características apontadas por Dawkins (2001) para que possa se identificar a existência de um meme como replicador: a longevidade, a fecundidade e a fidelidade das cópias. A longevidade é a capacidade do meme de permanecer no tempo. A fecundidade é sua capacidade de gerar cópias. Por fim, a fidelidade é a capacidade de gerar cópias com maior semelhança ao meme original (RECUERO,2006, online).

As relações realizadas por Dawkins são fundamentais para que se observe a existência de um meme, mas também se torna necessário um maior detalhamento de cada uma destas características e para isto utilizaremos a Proposta de Taxonomia elaborada por Raquel Recuero (2006, online), na qual a autora, além de determinar subdivisões em cada característica estabelecida por Dawkins, acrescenta como outra característica o alcance, como uma forma de buscar compreender até onde é possível chegar a propagação de memes.

A Proposta de Taxonomia consiste em analisar os memes da seguinte maneira:

1) Quanto à fidelidade da cópia:

A fidelidade da cópia é compreendida como a semelhança do meme com o seu original. Essa fidelidade é associada com o reconhecimento do padrão do meme, com a retenção das características originais. Quanto menor a variação da idéia inicial, maior a fidelidade da cópia. Neste critério, os memes foram classificados como:

a) Replicadores: Nesta classificação os memes apresentam uma alta fidelidade à cópia original e desta forma sua variação na reprodução é reduzida. Este tipo tem como função principal a capacidade de informar sobre algum fato. São imitações simplesmente copiadas de um site, não há mudança no meme. Estes memes geralmente são muito difundidos com a intenção de gerar uma rede de sociabilidade que compartilhe uma informação de forma imutável, sem acréscimo de opiniões.

b) Metamórficos: Esta classificação trata dos memes que foram totalmente alterados quando passados adiante, ou seja, foram reformulados agregando novas percepções sobre o meme original. Enquanto metamórfico ele possui alto poder de recombinação e mutação. Ele geralmente se apresenta em um contexto de debate, onde a informação não é simplesmente repetida, mas discutida, transformada e recombinada. É como um estímulo à interação. O meme metamórfico agrega opiniões quando propagado. Neste caso não só uma informação é propagada, mas a discussão sobre o assunto também é, transmitindo as idéias e pensamentos críticos dos indivíduos que participaram deste processo de interação na troca do meme.

c) Miméticos: A classificação dos memes enquanto miméticos é diferenciada, pois embora ele sofra recombinações e mutações, sua essência permanece a mesma e podem ser facilmente referenciáveis como imitação. A essência do meme está na personalização, mantendo a essência e a ordem estabelecidas. Daí o nome mimético, pois são memes que mantém a estrutura, mas adaptam-se aos locais de propagação. Embora permita uma personalização a essência do meme permanece inalterada. Eles podem ser encontrados mais facilmente nos memes em que os indivíduos necessitam manifestar sua opinião como complemento do meme original. Um bom exemplo deste tipo de meme são as enquetes, onde a essência do meme é a mesma, mas o que se altera são as opiniões de cada um.

2) Quanto à longevidade da cópia:

A longevidade é a permanência do meme ao longo de um tempo. Desta forma, pode-se salientar que quanto maior a permanência do meme, mais chance ele tem de se replicar e maior é o seu grau de importância perante os indivíduos que o propagam.

a) Persistentes: São memes que permanecem sendo replicados durante um longo tempo, além disso, neste caso também se enquadram aqueles que desaparecem por um tempo, mas, depois, retornam e voltam a se replicarem. Este tipo parece associar-se com memes replicadores e miméticos, pois há pouca ou nenhuma variação. Por conta disso, podem ser identificados em um largo espaço de tempo.

b) Voláteis: Estes memes têm um curto espaço de propagação no tempo. Após replicarem-se eles são rapidamente esquecidos, ou transformam-se e dão origem a outros tipos de memes. Eles podem ser bastante copiados, mas apenas num curto espaço de tempo, caindo, depois, no ostracismo. Memes voláteis podem estar mais associados com memes metamorfos uma vez que seu desaparecimento não precisa representar o fim do meme, mas meramente, uma transformação do mesmo em outro.

3) Quanto à fecundidade da cópia:

Esta característica está associada à quantidade de reproduções do meme e sua rapidez. Desta forma a fecundidade está relacionada a capacidade de espalhamento do meme.

a) Epidêmicos: Memes epidêmicas são aquelas com grande fecundidade, que se espalham amplamente, por diversos locais. Este tipo de meme surge como uma epidemia, podendo ser considerados como modismos, e são mais difíceis de terem seu meme original devido a amplitude que ele alcança, pois não se sabe de onde se origina a epidemia.

b) Fecundos: Estes memes se espalham por grupos menores. Todos os memes são potencialmente fecundos e necessitam gerar descendência para sobreviver, mas possuem graus diferentes de fecundidade, isso vai depender do significado que este meme possui para quem o propaga, bem como ele recebe uma grande influência do contexto social em que o meme é reproduzido.

4) Quanto ao alcance da cópia:

O alcance de um meme é a característica que demonstra quais os nós que ele atinge em maior grau, ou seja, os que estão mais próximos ou mais distantes entre si.

a) Globais: São memes que alcançam grandes distancias, as interações construídas são de forma mais abrangente, aparecendo em pontos não próximos. Este tipo de meme também é difícil de ser rastreado.

b) Locais: São restritos a determinadas grupos que interagem de forma mais freqüente entre si. No entanto, eles possuem uma grande capacidade de se tornarem globais no decorrer do tempo, isso irá depender do crescimento das interações entre os indivíduos.

Assim, podemos afirmar que através dos memes é possível mapear a propagação de símbolos através das redes sociais na internet. Nossa análise irá se deter na observação de apenas algumas replicações de um dos meme difundido através da comunidade virtual estudada. Observamos que será realizado este recorte, devido ao grande alcance que este meme originou na Rede, e que não seria possível exemplificar todos estes nós.

4. Estudo de caso: os memes e o interacionismo simbólico

Para a compreensão de como o interacionismo simbólico pode ser aplicado num estudo acerca de um meme, analisaremos uma comunidade virtual situada no site de relacionamentos Orkut. O software Orkut foi criado em 2004, por Orkut Buyukokkten ex-aluno da Universidade de Stanford, como um site de relacionamentos onde ficam alocados os perfis e as comunidades de escolha de cada internauta. O site proporciona que os participantes formem suas identidades virtuais, a partir das informações descritas no perfil, bem como nas comunidades às quais estão vinculados.

A comunidade selecionada intitulada “NÃO ao projeto de Azeredo”, é uma comunidade pública e faz parte de um protesto que os internautas estão realizando desde julho de 2008, quando o Deputado Federal Eduardo Azeredo propôs ao Congresso uma lei que deveria ser punitiva aos usuários da internet, sob pena de reclusão de um a três anos e multa, que distribuíssem conteúdos sem prévia autorização A comunidade, que possui 6891 membros, é focada na construção de um debate acerca do tema proposto, utilizando-se da postagem de tópicos para promover a interação. Nesse sentido, selecionamos um destes tópicos que ainda nos dias atuais continua gerando comentários – “Assinem e divulguem a petição”, é um dos tópicos mais comentados do fórum da comunidade, tendo até a construção deste trabalho 118 comentários:

O número de interações deste post, já nos mostra a importância que o assunto teve para os participantes, o que já infere a formação de uma rede social, devido às conexões estabelecidas. Os significados produzidos pela interação na comunidade são um produto da interação social dos indivíduos e fundamentam as relações sociais. Através da influência que os indivíduos têm no mundo social, podem modificar seu contexto e reestruturar novas formas de significação, através da propagação de símbolos que aos poucos vão sendo reconstruídos carregando consigo novos significados, sendo reconhecidos pela sociedade. Assim, o interacionismo simbólico contém um núcleo de premissas comuns entre a comunicação e a sociedade, possibilitando um estudo acerca da interação social. Para este fim, nos utilizaremos dos memes para compreender como se reproduzem os significados no contexto das redes sociais na internet.

O embasamento teórico referente ao interacionismo simbólico nos proporcionou estudar essa interação observando inicialmente três eixos de análise: a mente, o eu e a sociedade, numa observação do ato social fazendo com que os indivíduos internalizem o processo social. O ato social, neste caso potencializado pelo meme, esta relacionado a um impulso, originado de uma espécie de indignação com o assunto. Ele envolve a percepção e atribuição de significado a algo, repetição mental e ponderação de alternativas. Ao compartilhar símbolos, o indivíduo se torna um ser social, potencializando seu eu, carregando consigo as características do estágio preparatório, o qual ele traz para a interação a imitação, particular da fase infantil, mas que ao longo de seu desenvolvimento cultural é arraigada na sua personalidade em sociedade, e também conduz a interação através o estágio teatral, no qual age pensando nas características particulares dos outros, representado-as em si mesmo. A característica do eu, mais presente nesta análise é o estágio de jogo, o qual o indivíduo passa a pensar no todo, no grupo, ele se remete como parte da rede social, reproduzindo os significados às questões sociais. O eu, foi observado nas relações do indivíduo com suas fases vividas, no caso da propagação do meme, o eu foi representado na manifestação das idéias de cada indivíduo.

A sociedade é relacionada a um processo de cooperação, que através da interação potencializa uma resposta mútua, essencial a comunicação interpessoal. Em sociedade o indivíduo se utiliza da mente, a partir de um processo de reflexão, como impulsora das ações, e do eu como força de orientação e direção. Estas fases são a base para a construção de um processo de interação social, e se representam, neste estudo, através dos significados propagados pela replicação dos memes entre os indivíduos.

As características de um meme replicador, além de estarem relacionados a mente, ao eu e a sociedade, estão presentes em todas as ações sociais, pois os seres agem a partir dos significados que as coisas possuem para eles, e estes são produtos gerados através da interação entre os indivíduos. O meme representa o que Blumer acrescentou em seus estudos acerca do interacionismo simbólico, salientando que através do processo interpretativo dos sujeitos, os significados são transmitidos, manipulados e modificados. Partindo destas premissas, realizamos a análise do meme como fator importante da interação simbólica entre os indivíduos que o interpretam e o reproduzem de forma consciente.

O meme estudado, enquanto a fidelidade da cópia possui característica metamórfica, pois ele representa a possibilidade de construção de novos significados. A proposta inicial postada no fórum, é amplamente apropriada pelos participantes que, a cada manifestação de opiniões, reconstroem o meme remetendo a eles novos significados e gerando novas idéias subsequentes.

A longevidade observada se manifesta de forma persistente. Embora a persistência de um meme seja geralmente observada em memes miméticos e replicadores, encontramos uma diferenciação nesta análise. A persistência do meme permaneceu durante um longo período, embora sendo metamórfico e modificado conforme a apropriação de cada indivíduo.

A fecundidade da cópia está relacionada à capacidade de espalhamento do meme, neste estudo constatamos que o meme é epidêmico, os deste tipo geralmente são ditos como modismos, mas neste caso, devido ao tema da comunidade, ele pode ser referido como um meme de protesto, uma manifestação acerca de um assunto de interesse em comum dos internautas, e com isso a epidemia rapidamente se espalhou pela web.

Por fim, o alcance do meme pode ser dito como global, pois ultrapassou os limites da comunidade, gerando novas redes sociais, as interações são construídas de forma mais abrangente, ampliando a rede na qual o meme foi gerado inicialmente.

Salientamos que exemplificamos nestas figuras apenas algumas das conexões realizadas pelo meme estudado, pois seria impossível descrevermos todos os links aos quais ele remeteu. Com isso, podemos analisar que a replicação desses memes amplia os significados dos símbolos propagados, e proporcionados pela interação entre os indivíduos. O eu, a mente e a sociedade, eixos fundamentais do interacionismo simbólico se representam na forma do indivíduo enquanto interagente e potencializador da interação entre atores e suas conexões, formando assim redes sociais.

Apontamentos finais:

Podemos perceber que durante a interação entre os indivíduos, a cooperação perante o assunto relacionado ao tema da comunidade fez parte do processo de reprodução dos memes, no entanto em diversos momentos o conflito entre os sujeitos foi algo percebido na divergência de opiniões. Em sociedade estas duas premissas são partes que compõem as estruturas sociais, e possibilitam que novos significados sejam adicionados aos símbolos propagados. Sem cooperação, no sentido de agir organizado, não há sociedade. Embora o conflito faça parte das relações sociais, ele não deve suplantar a cooperação provocando desgaste na rede social. O interacionismo simbólico proporciona que estas relações sociais se construam, mas a apropriação dos significados parte do interesse individual de cada ator social e do reconhecimento dos símbolos para que estes possam ser propagados.

Outro fator que nos chamou atenção é a busca de reputação social durante a propagação dos memes. Embora percebida de forma sutil e muitas vezes podendo ser reproduzida inconscientemente pelos indivíduos, ela foi observada durante a interação. A reputação em redes sociais pode ser compreendida, neste caso, como a percepção construída de alguém pelos demais atores e, portanto, implica na relação entre o eu, o outro e a interação entre eles. Os significados propagados apóiam essa tríade, e os memes são a forma na qual os indivíduos propagam esses significados.

Por fim, constatamos neste trabalho que dois eixos são fundamentais na construção de redes sociais na internet: a interação social entre os indivíduos e a propagação e difusão de símbolos através dos memes. Ambas permitem as conexões entre os atores, remetendo valores e significações aos símbolos reconhecidos pelos indivíduos em seu contexto social. A internet é uma ferramenta potencializadora destas conexões, ampliando os nós entre os atores sociais, e possibilitando a formação de relações que podem se tornar grandes mobilizações sociais as quais o seu alcance pode ser mapeado através da apropriação de difusão de símbolos proporcionados pela replicação de memes.

Bibliografía/Referencias


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  • SIMMEL, Georg, 2006. Questões fundamentais da sociologia. Rio de Janeiro: Zahar Jorge Zahar Editor.

CC0 (Equivalente a Dominio Público)