IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo B-9: Internet, tecnologias digitais e estilos de vida

Se tudo der errado... viro índio: marcas da diferença em comunidades do orkut

Ponente/s


Resumen

Este texto faz parte de uma pesquisa mais ampla e tem como objetivo analisar algumas representações de índio produzidas e veiculadas em comunidades do Orkut. Para isso, foram examinadas 213 comunidades que fazem uso do termo "índio" em seu perfil e que descrevem aspectos de seus estilos de vida. O referencial teórico-metodológico é o dos Estudos Culturais e as teorizações articulam, de modo especial, o pensamento de Stuart Hall, Tomaz Tadeu da Silva e Homi Bhabha. Consideramos, para efeitos de análise, especificamente, as descrições constantes no perfil e as fotos de apresentação, por considerarmos que o texto verbal e o imagético produzem sentidos múltiplos, nem sempre convergentes. As análises mostraram que há uma prevalência de representações que vinculam índio e natureza constituindo-os, deste modo, como sujeitos primitivos, exóticos, que vivem de maneira simples e em harmonia com o meio. Há, por outro lado, um conjunto de representações que apresenta os índios como sujeitos livres, descansados, descomprometidos porque estes viveriam longe das urgências do mundo urbano.

Contenido de la comunicación

Introdução

 Se tudo der errado viro ÍNDIO (147 membros)

Descrição: Índio não paga luz elétrica, água, telefone, internet, IPTU, IPVA, Juros de Mora, Seguro obrigatório, INSS, não paga NADA, o que eu tô fazendo nessa vida ainda? Haha

Se tudo der errado... Viro Índio (5 membros)

Descrição: Bom essa comunidade... eh para vc q ta cansado da vida... desiludido sem saber o q fazer... e a unica saída que esta restando é virar Indio !!! srsrsrrssrsrrsrrsrsrsrr. Pq naum existe vida melhor q a d índio ..fika debaixo d uma árvore só descansando..sem se preocupar com a vida!! [1]

As duas comunidades do Orkut acima descritas oferecem uma pequena amostra de significados produzidos (e, também, circulantes) sobre o índio[2] na contemporaneidade. Pode-se dizer que, nos exemplos destacados, o índio é representado como tendo uma vida “alternativa” (porque não atrelada ao consumo de bens e serviços), em contato com a natureza – que, por sua vez, é vista como eminentemente boa; por outro lado, ele também é mostrado como “inútil”, “descansado”, “preguiçoso” e “despreocupado”. Mesmo que o número de membros dessas duas comunidades não seja expressivo, tais representações não são, por assim dizer, exclusivas ou, ainda, particulares: trata-se de significados que circulam amplamente e que encontram “ecos” e “ressonâncias” em muitas instâncias culturais (tais como a literatura, a mídia e o cinema).

O objetivo do presente trabalho, inserido no campo dos Estudos Culturais e ancorado em teorizações de Hall (1997), Woodward (2000), Bhabha (2005), entre outros, é inventariar e problematizar algumas representações sobre índios em uma das redes de sociabilidade mais populares do Brasil: o Orkut[3]. Inicialmente, realizamos uma busca utilizando o termo índio e selecionamos, de um conjunto mais amplo, 213 comunidades[4], mapeando as recorrências em termos de enunciados. Em um momento posterior, selecionamos algumas dessas comunidades para a análise das representações sobre o índio, considerando, em especial, as descrições constantes no perfil e as fotos de apresentação. Tanto o texto verbal quanto o texto imagético produzem sentidos que podem ser convergentes ou divergentes e por essa razão, apresentamos, neste texto, uma análise que articula estes dois recursos textuais. A seguir, apresentaremos o referencial teórico e faremos uma breve discussão sobre o Orkut.

O Orkut produzindo e veiculando identidades e diferenças

Costa, Silveira e Sommer (2003) argumentam que, em análises desenvolvidas na contemporaneidade, é necessário levar em conta o papel constitutivo e central da cultura em todos os aspectos da vida social. Tal entendimento coloca-nos a necessidade de pensar que os significados vão sendo tecidos e articulados numa ampla rede de práticas, e alguns deles são apresentados e naturalizados em diferentes meios. Assim,

um noticiário de televisão, as imagens, gráficos, etc. de um livro didático ou as músicas de um grupo de rock, por exemplo, não são apenas manifestações culturais. Eles são artefatos produtivos, são práticas de representação, inventam sentidos que circulam e operam nas arenas culturais onde o significado é negociado e as hierarquias são estabelecidas (p. 38).

Diversas pesquisas realizadas na perspectiva dos Estudos Culturais põem em relevo a produtividade da mídia e das chamadas “novas tecnologias” na produção, circulação e consumo de informações, conhecimentos, produtos, modos de ser. Tais estudos têm mostrado que os espaços vinculados ao entretenimento, por exemplo, não apenas nos distraem e divertem como, também, instituem verdades, conformam nossas identidades e estabelecem diferenças.

Analisamos, então, o Orkut, como um artefato que se insere num conjunto amplo de práticas culturais contemporâneas e no qual se estabelecem difusas e variáveis relações de poder. O Orkut é um ambiente virtual que conecta cada usuário a uma rede de outros usuários, e o faz de modo flexível, com múltiplas possibilidades ao alcance e à escolha de cada um, o que não implica pensar que tal escolha seja inteiramente livre, uma vez que o sujeito é, ele mesmo, produtor e produto da linguagem e das representações, bem como das relações de poder nas quais está inserido. Também é importante destacar que as relações no Orkut são auto-reguladas – como qualquer relação social. Assim, uma comunidade com expressões do tipo “qual é a melhor forma de matar um índio?” ou “indígenas fedorentos” têm uma vida relativamente curta e, ao serem denunciadas, acabam sendo excluídas da rede.

Dados de uma pesquisa de Eisenberg e Lyra (2006) informam que existia, àquela época, mais de 68 milhões de membros cadastrados no Orkut, sendo que os principais interesses declarados nos perfis são: fazer amigos (91,07%), formar parcerias para atividades diversas (29,99%), fazer contatos profissionais (32,57%) e namorar (17,88%). Em um estudo mais recente, Assumpção (2008) indica que 72,91% dos usuários cadastrados nesta rede são brasileiros e, do total de usuários gerais, 52,57% teriam entre 18 aos 25 anos.

Além da expressiva quantidade de usuários brasileiros, o Orkut se configura num lócus produtivo de análise, visto que nele desfilam múltiplas comunidades e perfis individuais. Para Silveira (2006), por exemplo, o perfil corresponde “ao que os criadores do site julgaram interessante, atual e digno de figurar numa vitrine de identidades”; por outro lado, ela destaca que o Orkut é “atravessado pelos discursos, imagens, padrões, gostos, sonhos e vontades dos sujeitos das comunidades urbanas contemporâneas” (p. 138 e 139).

Assim, para a autora, não se trata de um mundo à parte, no qual são inventadas identidades fictícias e, sim, de um espaço no qual as identidades se enquadram, se encaixam, perfilam e se exibem numa “vitrine” constituída na efemeridade da cultura contemporânea. Identidades e diferenças se estabelecem neste ambiente virtual, no jogo de forças que define o que se considera normal ou anormal, desejável ou indesejável, útil ou descartável. Assim, podemos considerar, como Kellner (2001), que os momentos (cada vez mais) dedicados à interação virtual “ajudam a urdir o tecido da vida cotidiana, dominando o tempo de lazer, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais, e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua identidade”. Também nestes espaços vão sendo partilhados, reinventados, tensionados, negociados diferentes sentidos, crenças, pressupostos, valores, saberes.

Pensando nas vinculações estabelecidas entre os usuários através das comunidades do Orkut, poderíamos dizer que, nos termos de Bauman (2003), trata-se da constituição de “comunidades estéticas”, ou seja, aquelas que se unem em torno de um interesse comum, um tipo de consumo ou gosto por determinado artefato, um evento festivo recorrente, o “culto” a uma celebridade, uma banda de música, um ídolo dos esportes, entre outras. Em outra passagem de seu texto, o autor explica que, na atualidade, “a palavra comunidade soa como música aos nossos ouvidos. O que esta palavra evoca é tudo aquilo de que sentimos falta e de que precisamos para viver seguros e confiantes” (p. 9). E, no entanto, na vida atual, já não desejamos assumir responsabilidades mútuas, o que nos faz inventar novas formas de vinculação, mais voláteis e maleáveis.

O entendimento de comunidade estética parece ser adequado, especialmente porque, neste ambiente virtual, o pertencimento não estabelece responsabilidades comuns e não pressupõe que tais vinculações sejam duráveis, tal como se pode afirmar em relação à comunidade numa acepção sociológica e histórica. Bauman argumenta que, nas circunstâncias atuais, a comunidade já não é capaz de “tecer entre seus membros uma rede de responsabilidades éticas e, portanto, de compromissos a longo prazo” (p. 67). Passamos a pertencer a diversas comunidades ao mesmo tempo, constituindo vínculos sem conseqüências, em relações que devem ser experimentadas e não vistas como um destino comum. Nesta direção, observamos que há, nas comunidades, um esforço em conferir positividade a certas práticas, a certas celebridades (em especial aquelas organizadas por fãs), mas, ainda assim, os vínculos entre os sujeitos são fluidos e não implicam compromissos que vão além do ambiente virtual.

O que mobiliza os usuários no trânsito entre esses variados espaços parece ser o consumo transfigurado em espetáculo, no qual “consciências” e/ou comportamentos podem ser capturados, diz Canevacci (2005). Na mesma direção, ao analisar as vinculações dos usuários com certas comunidades, Pinheiro (2008) compara tal fato a um jogo de identidades, no qual as pessoas personalizam seus perfis compartilhando gostos, vídeos, programas de TV, música, etc. O consumo desses bens não se configura como princípio de identidade ou de estilização de vida, mas multiplica e intensifica os perfis na própria rede. A autora prossegue afirmando que a construção de perfis envolve a prática de cultivar e renovar gostos, e isso se liga à auto-elaboração (uma forma efetiva de atenção a si mesmo) e, ao mesmo tempo, de instabilidade e fragmentação das maneiras de ser e de estar no mundo.

Em outra direção, a rápida e cada vez mais ampla “adesão” ao ambiente virtual possibilita, no entender de Gonçalves (2006), um “encontro” entre pessoas de diferentes credos, etnias, classes, preferências. Neste sentido, “o Orkut acaba por se tornar uma cidade virtual moldada à imagem do espaço urbano de seus usuários”, conclui a autora (p. 33).

É importante considerar, ainda, os processos de produção das diferenças em comunidades do Orkut, uma vez que, de acordo com Woodward (2000) e Silva (2000), identidades e diferenças estão mutuamente implicadas e se estabelecem em relações assimétricas, que têm por base o pensamento binário (de um lado a identidade, que funcionaria como norma e padrão, situada na positividade e, de outro, a diferença, posicionada na negatividade).

Identidades e diferenças não são transcendentes nem essenciais: elas são, sim, posicionamentos construídos na cultura, em relações de poder e saber. Através de diferentes práticas culturais aprendemos a diferenciar, nomear, descrever, classificar e, assim, a definir quem são/como são os sujeitos, processo no qual se institui, ao mesmo tempo, os lugares sociais que cada um deverá ocupar num jogo que não é, nunca, estabelecido de maneira definitiva.

Especificamente neste texto, mostramos algumas formas pelas quais a diferença indígena é estabelecida e representada. Não pretendemos afirmar, contudo, que o Orkut seja o principal agente produtor de representações sobre os índios (afinal, aprendemos a reconhecê-los a partir de uma miríade de imagens produzidas na literatura, nos livros didáticos, no cinema, na televisão, na publicidade, nas conversas cotidianas, nas histórias que lemos, nas piadas que escutamos). No entanto, é inegável a visibilidade que esta rede virtual proporciona a certas maneiras de falar dos índios e, em alguns casos, se estabelece ainda uma possibilidade de interação com eles, quando participamos das mesmas comunidades, ainda que isso ocorra de modo pontual e momentâneo. Passamos a apresentar alguns resultados preliminares das análises empreendidas em comunidades do Orkut.

1. Sou Da Amazônia, Sou Indio: vinculações entre índio e natureza

As comunidades examinadas constituem e dão visibilidade a uma multiplicidade de representações sobre os índios e são atravessadas por disputas entre distintas formas de ver e diferentes posicionamentos, a saber: a) o distanciamento ou a recusa de uma suposta relação com índios (por exemplo, quando o estado da federação se situa na região amazônica, há um grande número de comunidades do tipo sou do Pará mas não sou índio; sou do Acre mas não sou índio, etc.); b) a exortação ao índio e à temática indígena; c) o uso da retórica do humor, na qual o termo índio é utilizado (e associado a outros contextos) de modo depreciativo; d) a apresentação dos sujeitos indígenas em diferentes contextos, incluindo o urbano[5]. Neste texto, estamos considerando apenas a prevalência da vinculação entre índio e natureza.

Entre as comunidades selecionadas para análise, observamos que a imagem prevalente de índio utilizada é aquela que “traduz” a diferença em termos de exotismo (eles estão “nus”, portando arco e flecha, enfeitados com cocares, botoques, brincos e colares). Destacam-se, a seguir, algumas fotos de perfis:     

 

As fotografias selecionadas pelos criadores de tais comunidades remontam a contextos de vida considerados mais naturais e “primitivos”, que colaboram para constituir representações de índios “puros”, ingênuos, inocentes, livres, que vivem numa floresta exuberante, em harmonia com a natureza. Tais representações estão fortemente vinculadas à Amazônia e têm sido constituídas e veiculadas em produções didáticas, no cinema, na publicidade, entre outras. Em obras de literatura, por exemplo, Wortmann (2007) e Bonin (2008) informam que os personagens indígenas são articulados ao mundo natural, em especial à floresta, e parecem levar uma vida privilegiada, em profunda intimidade com o seu meio. As imagens a seguir, extraídas de perfis de comunidades analisadas neste estudo, permitem afirmar que tal vinculação produz efeitos também neste contexto:

     
As duas imagens à esquerda estabelecem o enlace entre índio e natureza através do recurso da fusão entre fotografias: na primeira, um rosto sorridente se confunde com a paisagem natural, mostrando o contentamento decorrente do contato e da harmonia com a natureza. Na segunda, ocorre uma fusão entre um rosto humano e o de uma onça, constituindo muitas possibilidades de leitura: os índios seriam “selvagens”, “animalescos”, “primitivos”, “bravos”, “instintivos”, “caçadores”, “cruéis”, “traiçoeiros”, como os felinos são comumente caracterizados. Por outro lado, tal fusão permite pensar que a íntima relação com a natureza tornaria os índios exímios conhecedores dos animais, capazes de entendê-los, e de com eles estabelecer vínculos. Já as duas imagens à direita mostram esses sujeitos inseridos em ambientes rapidamente associados a um suposto modo de viver indígena – ou seja, um índio que vive de maneira mais coletiva, que pesca, que utiliza canoas, que prepara alimentos extraídos da natureza, que domina o seu ambiente e o torna produtivo.

Nos textos verbais dessas comunidades, os índios são posicionados como “protetores naturais” do meio ambiente e, em alguns casos, como sujeitos frágeis, desprotegidos e vulneráveis ou, ainda, como passivos e estáticos, assim como se imagina ser a própria natureza diante da ação humana. Destaca-se um exemplo:

De 2002 a 2003 a desflorestação da Amazónia aconteceu ao ritmo de aproximadamente 2.4 milhões de hectares por ano! Ou seja, desapareceram 11 campos de futebol por minuto! As tribos que lá vivem em paz e em harmonia com a Natureza, estão cada vez mais ameaçados (...) Esta comunidade é mais um ponto a favor da preservação da maior floresta do planeta e que, por direito, as suas humildes e inocentes tribos a merecem inteiramente para elas sem interferências gananciosas do homem da cidade (Amazonia & tribos, 1.343 membros)

Interessante observar que tais afirmações (o ritmo acelerado de devastação florestal, por exemplo) se valem de discursos ecológicos, notórios anunciadores de catástrofes ambientais decorrentes da ação humana. Neste caso, se estabelece uma distinção entre índios e não-índios, na medida em que os primeiros são considerados humildes e inocentes protetores da natureza e os outros são gananciosos e destruidores.

Observa-se, nos perfis examinados, que a diferença indígena é marcada especialmente nos corpos – pintados, nus, adornados. Eles aparecem, nas imagens escolhidas para representar as comunidades, em grupos ou individualmente, algumas vezes cercados pelos filhos. Tais representações configuram, também, uma suposta “alma indígena” universal, que poderia ser compartilhada, de algum modo, pelos “não-índios” que escolhessem viver de modo “natural”/em harmonia com a natureza. O texto da comunidade Espírito de Índio (975 membros) é exemplar neste sentido:

AHOW Ser!
Sente que seu espírito é de índio?
Sim?!
Se sente ligado a terra e ao cosmos ao mesmo tempo?
Se sente parte da Natureza?

Conforme referimos anteriormente, um efeito da aproximação entre índio e natureza é a noção de ingenuidade e de inocência atribuída a estes sujeitos. Mas tal noção é acionada de maneiras distintas – ora exortando a proteção destes povos, ora marcando-os como sujeitos incompletos (sem maturidade, discernimento, esperteza, etc.). No texto da comunidade "?" ? Intão eu sou Índio? "?" (378 membros) marca-se a ingenuidade como tolice:

Essa comunidade é para as pessoas que não caem em truques baratos ou pegadinhas estúpidas: pacto entre os membros: sempre que alguém quiser lhe fazer de bobo você responde: " Intão eu sou índio? " !!!

Em outra comunidade, destaca-se a diferença indígena como anormalidade:

Você é um tipo de pessoa que tem um comportamento anormal?
Alguém acha que você é doente mental? Você tem costume de fazer programas que têm 99,9% de chance de não dar em merda nenhuma?

(...) Se alguma dessas respostas foi sim, é provavel que você seja acusado de ser "índio" (Somos Índios, 21 membros)

Os dois exemplos parecem marcar, no sujeito, um excesso de ingenuidade (que implica ser feito de bobo) ou de inconseqüência (fazer programas que não dão em nada) e, assim, caracterizam um componente de “anormalidade”. Não é por acaso que a palavra índio é utilizada neste contexto, e que a “mensagem” é compreendida pelo leitor.

 A fixação de certas características físicas, sociais, culturais e morais é resultado de embates entre distintas representações e nunca se estabelece definitivamente. No entanto, tal caracterização fornece “quadros de referência” para a definição “do que é, mesmo, um índio” e tais referências vão sendo naturalizadas em nossa cultura – a tal ponto que nos parece estranho admitir que as culturas indígenas se modifiquem, e que estes sujeitos transitem em outros espaços, para além da floresta.

Imagens de índios vinculados à natureza, com atributos como exotismo, nobreza de caráter, altivez, lealdade e, ao mesmo tempo, subserviência são um legado de discursos fundacionais, em especial aqueles forjados no indianismo romântico de José de Alencar, ancorados no desejo de tornar aceitável esta “raiz” do povo brasileiro. A comunidade eu me fiz um Índio.... ..apaixonadamente, como Peri!..., por exemplo, mostra claramente as marcas da literatura romântica, ao vincular a identidade indígena ao personagem principal da obra O Guarani,  de José de Alencar, reinventada, porém, nos versos na canção de Caetano Veloso, Um índio, apresentada no perfil da referida comunidade.

Em grande medida, o cinema também atualiza e reinventa alguns discursos românticos, deixando suas marcas neste ambiente virtual, como se pode ver no exemplo a seguir:

O texto verbal coloca em destaque uma ampla lista de características que são tomadas como marcadores universais de “indianidade”. A imagem (peça publicitária do filme Dança com Lobos,) traz em destaque o ator Kevin Costner e, ao fundo, como sua sombra, um índio pertencente ao povo Sioux. A imagem deste índio projeta e distingue a do “homem branco”, do mesmo modo que os atributos dos “verdadeiros índios”, no texto verbal, são projeções de princípios e de condutas desejáveis sob uma perspectiva eurocêntrica e ocidental.  

Em outras comunidades, nas quais são enaltecidos aspectos da cultura indígena, também observamos o uso recorrente de alguns estereótipos[6] que são vinculados ao próprio sujeito da enunciação. Alguns exemplos:

se voce e morena e se acha com uma beleza exotica, e se orgulha quando alguem lhe diz que se paresse com uma bela india,seja bem vinda a essa comunidade (Eu pareço uma india, 732 membros)

Se você acha os traços indígenas lindos, é apaixonado pelos cabelos escuros compridos ou curtos, adora os olhinhos puxados, a pele morena e sonha em perpetuar estas características tendo um indiozinho ou uma indiazinha quando casar, então esta é a sua comunidade! (Quero casar e ter indiozinhos, 1.254 membros)

Se você acha que não herdou nada das diversas nações indígenas brasileiras, é porque ainda não toma banho todos os dias, né? (Indígenas do Brasil, 7.460 membros)

Para aqueles que são contra a extinção da nossa Amazônia, das nossas raízes, da nossa história, seja patriota, acredite no nosso BRASIL, SALVEM OS ÍNDIOS!!! Nao deixe morrer a nossa herança !!! (Salvem os indios do Brasil, 4.677 membros)

(...)Os índios ainda que poucos guardam o nosso maior tesouro, a Amazônia (Índio também é gente)

Todos tem um pouco de índio dentro de si. Nossa pele morena , nossos olhos puchados, escuros, nossa sombrancelha marcante, nosso cabelo "negro como a mais negra das gaúnas" formam um rosto inconfundível, único e sobretudo belo.
Somos parte da terra, e ela é parte de nós. Sejamos Índios! Índios de coração, Índios de espírito e alma! (Índio Siridiwê,...)

Nos perfis observam-se, de modo recorrente, estereótipos que reduzem os sujeitos indígenas a pessoas com características “naturais” (pontuais e particulares) tais como a pele morena, os olhos puxados, os cabelos pretos, a atitude de guerreiro, a alma da floresta, etc. Também é possível depreender certo sentido utilitário conferido aos índios e suas culturas – eles são “a nossa herança”, nos legaram certos hábitos específicos, eles “perpetuam” traços que admiramos, e que podem ser adquiridos, inclusive, se com eles nos “casarmos” (realçando, desse modo, a “beleza exótica” de nossa prole). A partir deste conjunto de representações mais ou menos fixas, as culturas indígenas são estrategicamente posicionadas de modo subordinado, como parte de uma totalidade maior (e mais importante) que seria a cultura nacional.

Outro aspecto que nos parece central, decorrente da articulação entre índio e natureza, é a noção de homogeneidade que se produz em relação aos sujeitos e às suas práticas culturais. Os índios são, então, descritos por características estáveis, são vinculados ao passado, se tornam o “o traço que nos resta de autenticidade [...] a pureza de nossas raízes” (MARTIN-BARBERO, 1997).  Nesta direção, é possível entender a ressalva colocada pela comunidade Indios Desamparados (651 membros):

Essa é a comunidade criada para discutir a atual politica indigena brasileira, principalmente para apoiar e defender somente os Indios Desamparados, ou seja aqueles que ainda nao foram ocidentalizados e perderam sua cultura, mantem suas tradicoes, e falam linguas indigenas ou portugues. Porque Indio falando ingles, com celular, calca jeans, e picape importada é tao indio ou tao brasileiro quanto eu e voce. (grifo nosso)

No perfil da comunidade Índio que é índio vive no mato (12 membros) também se destacam certas práticas atribuídas a uma suposta identidade indígena:

O índio é caracterizada como uma pessoa que vive em choupanas na selva, nada no rio, come mandioca, no entanto essa realidade tem se tornado algo irreal já que os mesmos invadiram as cidades se comportam como homens brancos exigindo direitos de índio, direitos estes que não deveriam existir ja que eles tem perdido ao longo do tempo toda sua identidade cultural. Se quiser falar com um índio não precisa ligar para a Funai, liga direto para o celular!

Tais representações impossibilitam pensar as culturas indígenas no seu dinamismo e, acionando o binômio cultura/natureza, também vão instituindo lugares sociais para os índios – o do primitivismo em oposição à civilidade, o do atraso em relação progresso (sendo que civilidade e progresso são tidas como características de estilos de vida ocidentais). Tal polarização é expandida em várias direções – por exemplo, ciência/magia; civilização/barbárie, racionalidade/irracionalidade, binômios que serviriam para confirmar a pretensa superioridade da cultura ocidental.

Em relação a esta tendência de homogeneização dos povos indígenas e de sua estrita vinculação com a natureza, estudiosos como Martin-Barbero (1997) e Edgardo Lander (2005), por exemplo, afirmam a impossibilidade de se pensar em “pureza” como signo de uma suposta essência indígena. Eles propõem que se considere o dinamismo das culturas destes povos, bem como os processos a partir dos quais elas se modificam e se transformam, como toda cultura, afinal.

A análise das comunidades do Orkut que tematizam o índio mostrou que esta rede constitui e dá visibilidade a distintas representações que têm relação com os sujeitos descritos, mas, também, com aqueles que os descrevem. Isso porque a diferença é significada na relação (sempre assimétrica) estabelecida com a identidade.

Nessa direção, a prevalência de representações que vinculam índios e natureza constitui, ao mesmo tempo, um vínculo dos sujeitos não-índios com o urbano, com o progresso, com o desenvolvimento tecnológico – características que são assumidas como positivas sem maiores questionamentos. Tal representação limita as formas de ser e de viver dos povos indígenas, bem como as formas de ser e de viver ocidentais, fixando os sujeitos a determinadas posições sociais.

NOTAS:

[1] Todos os textos do Orkut, aqui apresentados, serão mantidos com a grafia original (sem correções ou alterações de qualquer tipo).

[2] Neste texto vamos utilizar a designação índio, mesmo levando em conta o conjunto de teorizações que problematizam tal termo, cunhado em representações eurocêntricas e carregado de sentidos pejorativos. A razão para tal escolha é o uso recorrente da palavra índio em comunidades do Orkut (213 ocorrências, enquanto que a expressão povos indígenas aparece apenas 13 vezes).

[3] Site de relacionamentos criado em janeiro de 2004 por Orkut Büyükkokten, projetista chefe e engenheiro do Google.

[4] Ao todo, foram encontradas mais de mil ocorrências para a palavra índio, mas grande parte delas se relacionava a comunidades de fãs do jogador de futebol (Índio), a nomes de cidades (Rio dos Índios, Portal do Índio) ou apareciam como codinomes de usuários da rede.

[5] Tais práticas representacionais serão exploradas posteriormente, em outras publicações.

[6] Para Bhabha (2005), “o estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação” (p. 117). Para Silva (1999), “o estereótipo funciona reduzindo a diferença a um conjunto mínimo de signos, sem considerar nuances e sutilezas dos outros”. Já para Hall (1997), “o estereótipo reduz, essencializa, naturaliza e estabelece a diferença (p. 258).

Bibliografía/Referencias


  • BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

  • BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.

  • BONIN, Iara Tatiana. E por falar em povos indígenas... Quais narrativas contam em práticas pedagógicas? Porto Alegre: FACED/UFRGS, 2007 (Tese de Doutorado em Educação).

  • BRANDÃO, Maria de Fátima Morais. Representações da velhice nos discursos juvenis em comunidades do Orkut. Canoas: Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Luterana do Brasil, 2009 (Dissertação de Mestrado).

  • EISENBERG, José; LYRA, Diogo. A invasão brasileira do Orkut. Ciência Hoje, vol. 38, n. 226, maio de 2006 (p. 30-35).

  • HALL, Stuart. Representation: cultural representations and signifying practices. London: Sage, 1997.

  • ______. Identidade Cultural e Diáspora. Revista Comunicação & Cultura, Lisboa/Portugal: Universidade Católica Portuguesa, n. 1, 2006. p. 21-35.

  • KELLNER, Douglas. Introdução. In: _____. A cultura da mídia. Estudos Culturais, identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru, SP: EDUSC, 2001 (p. 9-21).

  • SILVA, Tomaz Tadeu da. O currículo como fetiche: a política e a poética do texto curricular. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

  • SILVEIRA, R. M. H. Identidades para serem exibidas – breve ensaio sobre o Orkut. In: SOMMER, Luís Henrique; BUJES, Maria Isabel Edelweiss (Orgs.). Educação e Cultura Contemporânea. Canoas: Editora da ULBRA, 2006, p.137-150.


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