IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo F-33: Identidades e relações em linha

"Seu Lunga Fã Clube": O imaginário cordelista nas comunidades do Orkut

Ponente/s


Resumen

Este artigo faz uma análise da construção da personagem Seu Lunga nos cordéis e sua propagação nas comunidades do Orkut. Objetivamos mostrar que as comunidades não funcionam em cima de uma discussão sobre quem é Seu Lunga, mas difundem o estereótipo que permanece em torno dele. Especificamos quem é o Seu Lunga real e a personagem. Analisamos alguns cordéis e duas comunidades que se referem ao Seu Lunga no Orkut, mostrando que elas não o discutem, mas perpetuam as piadas que já foram contadas por cordelistas. Por fim, realizaremos uma revisão bibliográfica a partir de conceitos como estereótipo, identidade e imaginário popular, associando-os à forma como Seu Lunga é apresentado no folheto de cordel, e como essa personagem é mostrada no Orkut.
Palavras chave: Seu Lunga, Cordel, Orkut, Comunidades Virtuais

Contenido de la comunicación

Introdução:

Seu Lunga é uma personagem que nasceu na cidade de Caririaçu, no Ceará. Atualmente mora em Juazeiro do Norte e é dono de uma sucata. Ele ficou conhecido por suas respostas grosseiras às “perguntas idiotas”. Seu Lunga é chamado de “homem mais zangado do mundo” pelos cordelistas que usam seu nome para fazer piada e vender cordéis.

Este trabalho pretende estudar as comunidades virtuais no site de relacionamento Orkut que falam sobre o Seu Lunga, com ênfase ma maior dela, “Seu Lunga Fã Clube”, no dia 15 de setembro de 2009 com 76.461 membros, e na que possui maior número de tópicos relacionados evolvendo a personagem, que é a “Seu Lunga”. Será analisado o imaginário criado em torno da personagem que sai da oralidade, passa pelos cordéis e chega à Internet.

Objetivamos contrapor o comportamento de Joaquim dos Santos Rodrigues (seu nome de batismo) que também se reconhece como “seu Lunga” ao personagem que é apresentado nos cordéis coletados. Este Seu Lunga dos cordéis é um homem grosseiro que chega, às vezes, a prejudicar a si próprio para não perder a oportunidade de responder de maneira rude a uma pergunta que ele considera idiota. A personagem é uma caricatura de alguém que não tolera perguntas mal formuladas.

Assim, pretendemos mostrar como a literatura de cordel consegue criar um personagem e, também, dar origem a um mito, a partir da imagem caricata de um homem. E como esse mito chega à Internet e é difundido pela mídia que é o Orkut.

Para isso será feito um levantamento bibliográfico em torno de conceitos como estereótipo e imaginário, destacando o contexto do surgimento desse estereótipo com relação aos nordestinos.

As comunidades serão analisadas a partir de conceitos de comunidade, identidade e imaginário virtual. Serão observados os tópicos criados pelos usuários e suas discussões nesses fóruns, o que se discute lá e quais estereótipos são reforçados nas mensagens.

Devido a falta de tempo e espaço, este trabalho faz uma traz uma discussão incial sobre essa incorporação das piadas do Seu Lunga pelas comunidades do Orkut, e de que forma essas comunidades servem para reproduzir um estereótipo, em vez de discuti-lo e analisá-lo.

Seu Lunga:

Joaquim dos Santos Rodrigues, Seu Lunga, se fez conhecer a partir de suas respostas impacientes para aqueles que fazem “perguntas imbecis”. Ele seria só mais um homem comum no interior do Ceará, não fossem aqueles que usaram sua paciência curta para fazer piada.

Seu Lunga mora em Juazeiro do Norte- Ceará, a 514Km da capital, Fortaleza. Juazeiro é a cidade onde Padre Cícero se consolidou enquanto santo não canonizado. Seu Lunga se diz devoto do padre. Ele é dono de uma sucata que vende de tudo, desde aparelhos de televisão que não se encontram mais em lojas, até laranjas, ao preço de 6 por R$1. Nasceu no município de Caririaçu em 1927 e recebeu o apelido de uma senhora, que era vizinha, e passou a chamá-lo de Calunga, que mais adiante se reduziu para Lunga.

A revista “Entrevista”, produzida pelos alunos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará, de número 9, ano 1999 traz seu Lunga como entrevistado. Na conversa ele falou sobre sua infância, a educação rígida recebida de seu pai, sobre a educação que deu a seus 13 filhos, opinou sobre o sistema político do país, enfim, mostrou-se um homem que entende e fala bem sobre qualquer assunto e com qualquer pessoa, como ele mesmo diz.

O pai Lunga reflete a rigidez do homem que deu origem a toda a construção da personagem pouco flexível, mas ao mesmo tempo deixa transparecer o orgulho comum a todos os pais: oferecer boa educação aos filhos.” (LINDOSO, 2000) Seu Lunga se orgulha dos filhos, todos com uma profissão, e se arrepende de não ter dado a mesma educação que recebeu do pai, por conta da esposa que era contra dar castigo aos filhos. Ele começou a trabalhar aos 8 anos de idade, na roça com o pai, e aos 16 anos foi morar no Juazeiro. Casou-se em 1951 com uma prima e teve com ela 13 filhos.

Sérgio Buarque de Holanda traz a definição de homem cordial, que seria uma característica comum ao povo brasileiro. “A lhaneza do trato, a hospitalidade, a generosidade” (1936) são características citadas no livro e que, seguramente, não convergem com as características de Seu Lunga. Ao chegarmos em sua sucata, o que percebemos é exatamente o contrário da hospitalidade. Durante os 30 minutos de conversa que tivemos, percebemos claramente o incômodo causado pelas perguntas, pelas pessoas que passam na rua e chamam seu nome. Seu Lunga nos disse que se sente incomodado de tanta gente ir lhe procurar para fazer entrevistas e para tirar fotos. Como prova disso, assim que chegamos para entrevistá-lo, a resposta para a primeira pergunta foi “isso é uma coisa que não interessa a você”. (A pergunta foi sobre o que ele acha da imagem dele, passada pelos cordéis). Em seguida chegou um grupo de turistas de Salvador-Bahia e pediram para tirar uma foto com ele. Seu Lunga respondeu perguntando se em Salvador, por acaso, não teria homem para tirar foto, pois foi necessário irem ao Juazeiro do Norte para isso.

Mesmo que Seu Lunga tenha, realmente, uma personalidade rude e não-cordial, ele se julga um homem injustiçado pelas “mentiras” que contam sobre ele.

Olhe, nós estamos num Brasil sem moral. Num Brasil sem respeito. Num Brasil sem Justiça. Porque tem um senhor aqui que escreve uns folhetozinhos (cordel) falando da minha pessoa. Dizendo o que eu não sou, inventando histórias, inventando isso e aqui outro, dizendo que sou o homem mais ignorante do mundo. Mais zangado do mundo. E fica inventando cada vez mais histórias. (http://www.opovo.com.br/opovo/paginasazuis/866386.html) Acesso: 15/05/2009

Uma situação curiosa é que Seu Lunga, mesmo incomodado, não se recusa a dar entrevista. Resiste, mas logo cede. Seria uma contradição ou uma forma de se explicar para as pessoas que acreditam que ele seja somente a figura caricaturada?

Seu Lunga admite ser um homem ignorante, mas se justifica dizendo que os brasileiros falam muito errado, as pessoas não pensam antes de falar ou de fazer uma pergunta. “Seu Lunga seria o herói civilizador, com a missão de ensinar o povo a formular corretamente suas perguntas”. (CARVALHO, p. 84, 2006)

Estereótipo e Identidade Nordestina:

Com relação à identidade social nordestina, Penna (1992) levanta condições para se ter essa identidade: naturalidade, vivência, cultura e auto-atribuição. O primeiro ponto refere-se à origem geográfica, o segundo à experiência adquirida pela vivência no local, práticas culturais e por fim é considerado nordestino aquele que se reconhece como tal.

A construção da identidade também diz respeito à apreensão e interpretação da realidade, uma vez que é um processo de representação simbólica, uma tentativa de compreensão de sua própria posição no mundo”.(LINDOSO, 2000). Seu Lunga é uma imagem, uma representação do homem rude sertanejo que foi construído pelas transmitidas pelos cordéis. Alexandre Barbalho, 2004, define representação como “algo descolado do concreto e próprio à esfera das idéias”. O personagem foi construído pelos cordéis, não é o homem real, mas sua representação. As representações são capazes de “impor um sentido consensual” de um sentimento de unidade e identidade.

A conotação social do termo estereótipo faz referencia a um conjunto de opiniões, sentimentos e reações, com relação às características de um grupo, previamente estabelecidas por imagens midiáticas. Trata-se da generalização de algumas características, que não se estendem a todo um grupo, uma espécie de preconceito. “O estereótipo é um pacote de conhecimentos acerca de traços de personalidade ou atributos físicos que assumimos serem verdadeiros para toda uma classe de pessoas” (ATKINSON ET AL., 1983 apud LIMA,1997)

Em suas “Considerações sobre o conceito de estereótipo”, Lima cita que estereótipos permitem construir uma memória de indivíduos, de grupos, alterando, frequentemente, sua realidade para que entre em acordo com os estereótipos já formados. “Estereótipo é uma construção simbólica que interpreta e simplifica a realidade, rotulando e dividindo essa realidade observada em classificações. Tudo o que assimilamos, classificamos em alguma categoria já determinada”. (LINDOSO, 2000)

A simples menção do termo “Nordeste” sugere uma diversidade de conceitos, significados e imagens. Estes, principalmente as últimas, surgem a partir dos estereótipos da idéia de nordestinidade, criados no próprio Nordeste, pelas elites políticas e pelos letrados deste espaço.

Verdadeiros mitos de origem serão criados pelos intelectuais de cada área, afirmando a diferença em relação ao seu espaço antagônico desde o início, explicando assim as profundas diferenças regionais que começavam a vir à tona, além de colocá-lo no centro do processo histórico do país. (ALBUQUERQUE JR., p. 102, 2007)

Estão vinculados à imagem do nordestino os tipos sociais vistos com maior desprezo, como o flagelado, o retirante, pau-de-arara, o fanático religioso, dentre outros. Um dos primeiros episódios que dá partida a essa identidade cultural do nordestino, segundo Albuquerque Jr., é a seca de 1877, pois ela acontece no auge da queda das elites locais, quando eles são, pela primeira vez, atingidos pela seca, recorrente na região. A existência de uma imprensa organizada e capaz de repercutir o acontecimento serviu para divulgar o fenômeno natural e associar as imagens da seca a todo o território. O próprio Seu Lunga disse considerar a seca como o maior problema do Nordeste, junto à má administração pública.

O discurso da seca, uma arma poderosa das elites nordestinas para reivindicar verbas, empregos, investimentos, privilégios de toda sorte junto ao governo federal, usada ao longo de todo o século XX, vai tomar este fenômeno como explicativo de todos os problemas econômicos, sociais e políticos enfrentados por este espaço.” (ALBUQUERQUE JR, p.107, 2007)

O Nordeste, assim como outras regiões, possui imagens de pessoas que se tornaram nacionalmente conhecidas através dos estereótipos concebidos pela mídia. São nordestinos magros, pequenos, amarelos, frágeis devido aos fenômenos da seca que destroem sua estrutura física e emocional. São os cangaceiros, violentos por terem tido suas famílias destruídas pela ganância dos coronéis. São também os fanáticos religiosos, romeiros que pagam promessas torturantes. É o Seu Lunga, homem rude, grosseiro, mal humorado.

Além da imagem da seca, tema recorrente nas obras literárias locais, o nordestino é associado ao atraso, como alguém que rejeita o mundo moderno, que repudia a sociedade burguesa. “Ainda hoje o Nordeste é pensado como um lugar de tradição, enquanto São Paulo é pensado como o lugar do moderno”. (ALBUQUERQUE JR, p. 101, 2007). O nordestino é reconhecido muitas vezes como uma figura masculina, rude, vinda da zona rural, onde a maioria não tem acesso aos códigos que controlam a vida na cidade grande, desconhecem seus hábitos, costumes, comportamentos e sua condição social ao chegar nas grandes capitais acabam reforçando o estereótipo.

O Nordeste é uma criação recente, uma tradição inventada há pouco” (BARBALHO, p. 157, 2004). A identidade nordestina é construída a partir de uma tradição, criada pelas elites locais, conservadora, contra o desenvolvimento que se estabelecia no sul do país com a indústria do café em detrimento da economia nordestina, baseada na cana-de-açúcar e no algodão. Soma-se a isso a necessidade da elite açucareira em evocar um passado glorioso, com uma tradição. Williams (1992) definiu tradição como um “processo de continuidade deliberada, uma continuidade não necessária, mas desejada”. (WILLIAMS, p.180, 1992). Essa tradição serviria para a manutenção de privilégios alcançados nos tempos em que o açúcar era o principal produto de exportação do país.

Imaginário Nordestino:

Imaginário trata-se de uma representação simbólica que atribui significados a uma dada realidade. É a “interpretação que os homens atribuem à realidade” (LAPLANTINE, 1997. Apud LINDOSO, 2000)

Por constituir-se de símbolos atribuídos pela imaginação, as representações do imaginário não precisam de comprovação, como por exemplo, quando nos referimos ao Nordeste, associamo-lo a símbolos, não à realidade em si, mas a representações mentais criadas pela mídia sobre o que chamamos de Nordeste. Os significantes de Nordeste são dotados de estereótipos que podem ter significados que remetam a amor ou a desprezo.

Essa polissemia e polivalência simbólica abre espaço para uma disputa de poder para associar determinados sentimentos a determinados símbolos representativos. No jogo de associações relativas ao Nordeste estão presentes os nordestinos e os não nordestinos. (...)Exemplo disso é percebido em Luiz Gonzaga, que canta para o nordestino que imigrou para o Sul, agenciando os símbolos nordestinos, evocando assim o sentimento de saudade e orgulho da terra natal. Ele traz nas suas indumentárias, no sotaque, nas letras e no ritmo de suas músicas símbolos capazes de trazer à mente de seus conterrâneos a realidade Nordeste. Essa realidade vem provida de uma interpretação própria, mobilizadas pelos e incluídas nos símbolos. Isso não quer dizer que essa significação não seja dinâmica. (LINDOSO, 2000)

O imaginário não é a negação total do real, mas apóia-se no real para transfigurá-lo e deslocá-lo, criando novas relações no aparente real." (LAPLANTINE, 1997. Apud LINDOSO, 2000). Tal representação acontece com a imagem de Seu Lunga. O que lemos e ouvimos sobre este homem trata-se de uma reação do imaginário na criação de um personagem engraçado, criado a partir das anedotas, das quais é personagem principal. Mas existe também o se Lunga real, que deu o “ponta-pé inicial” para a criação desse imaginário sobre suas respostas para perguntas que julga “idiotas”, justificando-se dizendo que ele não é bruto, são as pessoas que falam errado, e isso o irrita. Tal fato dá suporte ao imaginário criado sobre seu Lunga.

De acordo com Roland Barthes, 1972, “a imprensa, a arte, o senso comum mascaram continuamente uma realidade”. (p.07) Para o autor, o mito designa falsas evidências e representa um tipo de linguagem, um sistema de comunicação.

Tudo pode constituir um mito, desde que seja suscetível a ser julgado por um discurso. O mito não se define pelo objeto de sua mensagem, mas pela maneira como a profere: o mito tem limites formais, mas não substanciais.(...) A própria imagem [do mito]propõe diversos modos de leituras, uma caricatura, mais que um retrato. (BARTHES, p.131/132, 1972)

Seguindo o raciocínio semiótico, citado por Barthes, 1972, a relação entre o conceito de mito e seu sentido é uma relação de “deformação” em que o mito não esconde nenhum significado, mas deforma-o. O mito se trata de um valor.

Luiz Tavares Júnior, 1980, aponta como sinônimo do sentido corrente de mito a ilusão, a invenção, a ficção. Por exemplo, Seu Lunga é um homem, que quando é dito pelos cordéis, assume características pré-definidas, como o comportamento rude e mal humorado, adaptado a certo consumo, o da piada, investido das diversas imagens estereotipadas. Tal descrição mostra, ainda que de um modo superficial, que o imaginário cria um estereótipo.

O discurso regionalista como afirma Albuquerque Júnior, 2002, vai ser composto por clichês e estereótipos que permitem pensar no Nordeste a partir dos preconceitos de forma imediata. Apropria-se do recurso da memória para emitir o sentido de uma realidade “sem rupturas”. A instituição do Nordeste, enquanto região e cultura, precisou de um esforço para a elaboração de uma memória social e a literatura de cordel aparece para contribuir com essa criação, como uma arte, um tipo de texto que vem dar realidade e presença a uma tradição de pensamento.

O elemento folclórico está presente na obra de Luís da Câmara Cascudo, citado por Albuquerque Junior, 2002, como uma idealização do elemento popular, vendo-o como “um elemento decisivo na defesa da autenticidade regional”. Para os estudiosos do folclore, este é o responsável por revelar a essência de uma região “por ele ser uma sobrevivência emocional. (...) O folclore seria a expressão da mentalidade popular, e esta, por sua vez, da mentalidade regional”. (ALBUQUERQUE JR, p. 77/78 , 2002)

Os costumes são o ponto de união, de encontro de pessoas de uma mesma cultura. Facilitam a identidade regional, a perpetuação de costumes, hábitos, concepções e conceitos e são capazes de contribuir para a invenção de tradições. Os cordéis possuem em suas páginas uma produção artística que incorpora valores e colabora na difusão das imagens e idéias que criam a noção de Nordeste, fornecem uma visão tradicionalista, presente na maioria das produções artísticas da região.

A população sertaneja é descrita por Darcy Ribeiro em “O povo brasileiro” de um modo bem estereotipado. Coloca como expressões características do povo sertanejo o fanatismo religioso e a violência. Afirma que os sertanejos estão distantes física e culturalmente dos que vivem na costa litorânea e aponta esse fato como gerador de diversos conflitos entre ambos.

Em sua abordagem, Ribeiro aponta como traços “arcaicos” dos sertanejos uma mentalidade fatalista e conservadora, religiosidade que tende ao messianismo fanático e “carrancismo de hábitos, laconismo e rusticidade”. É a estes últimos que daremos ênfase, pois são essas as características estereotipadas do nordestino, que são mais visíveis na personalidade de Seu Lunga e que são tomadas como únicas nesse indivíduo.

Seu Lunga nos cordéis:

A identidade de seu Lunga, mostrada nos cordéis, nada mais é do que uma construção de vários discursos. Todo mundo já ouviu pelo menos uma anedota atribuída a Seu Lunga, e isso gera um ciclo em que cada um sabe uma história e conta-a com suas devidas distorções. Com suas histórias e causos, rimos através das respostas, nem sempre reais, mas que aparecem sempre quando é feita uma pergunta ou comentário “idiota”:

O filho de Lunga um dia

De uma bicicleta cai

A mãe não estava em casa

Seu Lunga ao hospital vai

Perguntou-lhe a enfermeira:

- Moço, o senhor é o pai?

Lunga disse: -Eu sou a mãe!

E a senhorita enfermeira

Pelo que vejo não serve

Nem para ser parteira

Devia ser mais sabida

E não perguntar besteira (Silva, p. 07)

A identidade de alguém, quando construída por algum tipo de mídia, adquire uma consistência que dificilmente será destruída. Seu Lunga deixa de ser Joaquim dos Santos Rodrigues e passa a ser apenas o homem rude, grosseiro, sertanejo, impaciente, cômico, zangado. Ele sofreu o que Muniz Sodré chama de mutação identitária. Joaquim é simultaneamente o zangado Seu Lunga e o sucateiro que apenas quer viver tranquilamente. Quando citamos Seu Lunga, dificilmente iremos nos lembrar do homem que vende sucata, mas certamente daquele com quem devemos ter cuidado na hora de conversar. É o estereótipo da grosseria que é caricaturizado.

Somos levados a acreditar que Seu Lunga possui as características das quais ouvimos falar. E ele realmente tem, mas a forma como nos são apresentadas é a do exagero, da caricatura. A representação, a transformação de Seu Lunga em um personagem destaca apenas uma única característica, que o faz ser lembrado pela simples menção de um nome. Por exemplo, quando conhecemos alguém que não é muito simpático, logo apelidamos de Seu Lunga.

Sua identidade se construiu a partir dos cordéis que circulam em todo o Nordeste com invenções, criações, estereótipos e caricaturas de Seu Lunga. Levam signos que serão decodificados com o riso. O riso, capaz de se espalhar com facilidade, viabiliza a consagração de uma identidade inventada. O Seu Lunga criado pelos cordéis passa a ser um bem de mercado, um produto, buscado por quem os compra para conhecer os novos causos.

Tudo começou com Abraão Batista, professor aposentado da Universidade Regional do Cariri, Urca, que em 1987 publicou a primeira edição do cordel “Se Lunga, o homem mais zangado do mundo”. Nasce aí o Seu Lunga personagem, o mito ao qual são atribuídas diversas anedotas que contam causos de perguntas que não receberam a resposta desejada. Depois da iniciativa de Abraão Batista, muitos outros cordelistas passaram a contar novos causos e repetir outros. Seu Lunga torna-se um mito do imaginário nordestino.

A irritação de Seu Lunga, suas respostas para perguntas e comentários que julga idiotas causam o riso. É um riso até de quem escuta as respostas. Já se vem explicando a irreverência cearense como uma “saída criativa para a crise ou uma alternativa aparentemente não violenta para reagir a outras agressões”. (CARVALHO, p. 608, 2006)

A graça dos cordéis que falam de Seu Lunga está no exagero dado à suas características, e para Propp o exagero é está intimamente ligado à paródia. “O exagero é cômico apenas quando desnuda um defeito. Se este não existe, o exagero já não se enquadra nos domínios da comicidade.” (PROPP, p. 88, 1992) o exagero é a essência da caricatura, e o que temos nos cordéis, o que lemos e ouvimos sobre Seu Lunga é uma caricatura de sua personalidade. O detalhe é levado ao exagero a ponto de tornar-se a única característica do personagem.

A caricatura sempre deforma um pouco (e às vezes de modo substancial) o que é representado” (PROPP, p. 89, 1992) Seu Lunga possui uma identidade fictícia. Depois da publicação do primeiro cordel, quando as pessoas começaram a levar e trazer novos causos, com a divulgação feita pelo “boca-a-boca”, esse homem passou a ser muito conhecido e a pairar no imaginário das pessoas que escutam suas histórias. Falar em seu Lunga nos leva a imaginar e acabar fazendo dele uma imagem estereotipada.

Porém essa fama não lhe agrada nem um pouco. Seu Lunga já está com o segundo advogado na tentativa de processar os cordelistas que usam seu nome para fazer piada. Ele disse que as pessoas que fazem isso são pessoas “cínicas, uma criatura sem caráter, uma criatura sem moral”. (ENTREVISTA, 1999, p. 5) Seu Lunga disse que o assédio dos curiosos sobre sua personalidade, além de ferir sua honra, prejudica seu comércio, pois algumas pessoas vão à sucata simplesmente para “perguntar bobagens”. Sem falar que ele “perde tempo” enquanto conversa com pessoas que vão entrevistá-lo. Quem chama atenção não é o homem Joaquim dos Santos, mas o Seu Lunga, zangado, ranzinza.

Seu Lunga no Orkut:

A criação de comunidades virtuais sobre a personagem Seu Lunga no site de relacionamento Orkut é a manifestação de um imaginário criado sobre um homem que se tornou conhecido por suas piadas, que começaram a circular por meio da oralidade, do “boca-a-boca” e foram difundidas pelos cordelistas nos livretos.

O Orkut é um site de relacionamento que pertence ao grupo Google. Foi criado por um engenheiro turco chamado Orkut Buyukkokten e seu objetivo era de que seus membros conseguissem manter suas amizades e estabelecer novos laços. O Orkut possibilita que seus usuários exponham sua própria vida e que “investiguem” a do outro. O usuário cria uma identidade na sua página principal, o chamado perfil, que real ou falso (fake), passa a ser, virtualmente, a identificação do internauta.

No Orkut, o usuário pode ainda integrar comunidades que expressam seus gostos, suas atividades, suas opiniões. As comunidades virtuais se apresentam como novas formas de sociabilidade, onde indivíduos que, muitas vezes, nunca se viram unem-se por possuírem algo em comum. “Pessoas não formam seus laços significativos em sociedades locais, não por terem raízes espaciais, mas por selecionarem suas relações com base em afinidades.” (CASTELLS, p.106).

As comunidades começam a se deslocar para a Internet, em decorrência das inúmeras possibilidades apresentadas por essa mídia, mas principalmente porque os indivíduos são capazes de encontrar-se com semelhantes em gostos, hábitos etc.. Compartilham-se atividades, trocam-se informações. Vínculos são estabelecidos, sejam eles de amizade ou simplesmente para troca de conteúdo.

Nas comunidades do Orkut, é possível estabelecer contato com outros usuários, criar fóruns de discussão onde os usuários debatem diversos assuntos. Os nomes das comunidades dizem o que liga os membros delas. Não é preciso muito descrevê-las, seus nomes já são o atrativo aos usuários.

A comunidade “Seu Lunga Fã-clube” possuía, em 15 de setembro de 2009, 76.461 membros. Essa comunidade pertence à Madalena Gomes, publicitária, formada pela Universidade Federal do Ceará. A descrição da comunidade traz: “Comunidade criada para congregar os admiradores deste cearense ‘arretado’ que não mede palavras frente a uma pergunta idiota.”.

É a maior comunidade do Orkut relacionada ao Seu Lunga. Refere-se a um fã-clube, ou seja, um grupo de pessoas que se une por admirar alguém que já é famoso. As pessoas que entram nessa comunidade o fazem por brincadeira, ou mesmo por compartilharem do imaginário criado em torno dessa personagem. Percebemos que, mesmo com um grande número de membros, essa comunidade não possui muitos tópicos relacionados ao que deveria ser o assunto central da comunidade: Seu Lunga.

Já uma outra comunidade, “Seu Lunga”, possuía 8.630 membros no dia 15 de setembro de 2009. Apesar de em menor número, seus participantes criam mais tópicos relacionados ao imaginário em torno da personagem. A comunidade é assim descrita:

Seu Lunga, uma pessoa delicada, fina, possuidor de uma paciência “felomenal”[...] Se você conhece, já ouviu falar, é amigo de alguém com suas características, gosta, detesta ou é fã dessa figura popular nordestina filie-se à nossa comunidade e divirta-se com os fatos que marcaram (ou ainda marcam?!) a vida dele! (Orkut, 2009).

As comunidades do Orkut aparecem mais como uma forma de divulgar um interesse que um lugar para trocar ideias, estabelecer vínculos, essas relações que definem uma comunidade. Comunidades virtuais são relações que se estabelecem entre grupos de pessoas com interesses comuns, e que criam uma sociabilidade para a troca de conteúdo.

Foi o que aconteceu com a comunidade “Seu Lunga Fã-Clube”. Muita gente participa, mas a troca de conteúdo não acontece. O que podemos observar em relação ao Seu Lunga nessa comunidade é a difusão das piadas que são contadas, a partir do estereótipo criado em torno da personagem. O tópico “piadas do Seu Lunga” tinha 406 postagens no dia 15 de setembro de 2009.

Neste tópico, encontramos as piadas de grosserias que são atribuídas ao Seu Lunga. As piadas que estão na página estão também nos cordéis, mas nestes, elas aparecem em forma de poesia. No tópico o que importa é contar a piada e propagar uma característica criada para essa personagem, que é a grosseria cômica.

A comicidade é gerada pelo exagero, característico da caricatura. É a caricatura do Seu Lunga que é divulgada. Uma característica de Seu Joaquim, a impaciência, é exagerada e transformada em piada. Essas piadas falam de uma personagem estereotipada. Poucos sabem que Seu Lunga faz poesia. É que isso não faz parte do imaginário do Seu Lunga.

O nome “Seu Lunga” remete à grosseria. E isso dos cordéis chegou à Internet. Chegou e, no Orkut, encontrou uma forma de afirmação. As comunidades do Orkut não têm a função de divulgar quem é seu Lunga, mas unir pessoas que já o conhecem, ou que pelo menos alguma vez já riram das piadas que contam sobre ele. A divulgação que acontece nas comunidades é sobre as piadas e causos. Quem entra na comunidade, já conhece a personagem.

Percebemos, assim, que as comunidades do Orkut apenas servem para exibir gostos e interesses dos usuários. Estes, dificilmente, levantam discussões sobre o assunto de que se trata a comunidade. Na comunidade “Seu Lunga Fã-Clube”, há um tópico que faz referência à habilidade do Seu Lunga de fazer poesia. Este tópico tem apenas um comentário que é o da própria pessoa que o criou.

Essas comunidades do Orkut fogem do conceito de comunidade virtual quando seus integrantes não trocam conteúdo, informações, conhecimento. Eles apenas estão unidos por um interesse comum, ficando esquecida a sociabilidade proposta por uma comunidade, seja ela virtual ou estabelecida pela proximidade física.

Nas comunidades, não se discute a imagem que é criada de Seu Lunga, se tal imagem trata-se ou não de um mito, de um estereótipo. Esse estereótipo é reforçado pelas piadas que são contadas nas comunidades. Tópicos como “Onde Seu Lunga vai passar o carnaval?”, da comunidade “Seu Lunga” (Orkut, 2009), têm respostas que dizem que ele vai encontrar Bin-Laden ou que viajará para Bagdá. Essas respostas associam a imagem de Seu Lunga, ainda que por brincadeira, ao terrorismo, à brutalidade e principalmente à falta de sensibilidade e de empatia.

As comunidades do Orkut que se referem ao Seu Lunga, como lugares de troca de conteúdo, funcionam apenas para divulgar e trocar piadas sobre esta personagem, e não para discutir quem é Seu Lunga, o que ele faz, o que ele pensa, como e quando a personagem foi criada, semelhanças e diferenças entre Seu Lunga real e Seu Lunga personagem. As comunidades são, portanto, apenas mais uma mídia que suporta as piadas e causos de Seu Lunga.

Considerações finais

Seu Joaquim, ou Seu Lunga, é um homem como todos os outros, que busca sossego e tranqüilidade. Mas a caricatura de seu temperamento difícil o transformou em um mito presente no imaginário nordestino. Tal identidade foi reforçada pelo estereótipo do nordestino como aquele homem que sofre com as dificuldades regionais, mas ainda assim é capaz de fazer graça, o estereótipo do sertanejo rude e ignorante.

Seu Lunga teve sua identidade construída pelos cordéis e pelas histórias contadas oralmente pelas pessoas que passam pelo Juazeiro ou simplesmente que ouviram falar. Seu Lunga se tornou um homem famoso, a mídia levou a imagem que foi construída no Nordeste para o cenário nacional.

O Orkut vem ajudando na construção dessa imagem caricata e reforçando-a com as comunidades que contam as piadas, assim como fazem os cordéis. As comunidades do Orkut fogem do conceito de comunidade virtual nesse aspecto. Nelas, dificilmente, acontecem discussões em torno do real, e no caso das comunidades do Seu Lunga, elas tratam do estereótipo. Os tópicos dessas comunidades estão servindo para propagar o estereótipo da personagem. Percebemos as comunidades do Orkut como mais uma mídia de suporte às piadas, em vez de um espaço para a discussão e troca de idéias em torno de um interesse comum.

Bibliografía/Referencias


Cordéis:

  • Seu Lunga: o rei do mau-humor- Rouxinol do Rinaré Vol. 07

  • Seu Lunga: o rei do mau-humor- Rouxinol do Rinaré Vol. 09

  • As proezas de seu Lunga: o rei da ignorância- Luiz Alves da Silva

  • Seu Lunga: o campeão do mau humor- Volume 1. Zé do Jati

  • Seu Lunga: o campeão do mau humor- Volume 2. Zé do Jati

  • Seu Lunga: o campeão do mau humor- Volume 3. Zé do Jati

  • Seu Lunga: o campeão do mau humor- Volume 4. Zé do Jati

  • Seu Lunga: o campeão do mau humor- Volume 5. Zé do Jati

Periódicos:

  • ENTREVISTA. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, n. 9, jan. 1999.

Outros:

  • ABBAGANANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982.

  • ABREU, Márcia. Então se forma a história bonita: relações entre o folheto de cordel e a literatura erudita. Porto Alegre: Horizontes antropológicos, 2004

  • ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de. Preconceito contra origem geográfica e de lugar: as fronteiras da discórdia. São Paulo: Cortez, 2007

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Comunidades Virtuais:


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