IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo B-9: Internet, tecnologias digitais e estilos de vida

Tecnologia: heroína e vilã do contemporâneo

Ponente/s


Resumen

A evolução da tecnologia mexe com as opiniões na vida contemporânea. Há pouca indiferença. A maioria das pessoas a julga como sendo algo benéfico ou como um poderoso inimigo. A paixão de alguns pelos aparatos desenvolvidos de forma eletrônica contrasta com a tecnofobia de muitos cidadãos, que trazem consigo um medo referente aos progressos da ciência.

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Tecnologia: heroína ou vilã do contemporâneo?

Cada época possui os seus próprios santos e demônios. Comumente, os deuses de um tempo, são os algozes da fase posterior. As entidades pagãs gregas e romanas foram relegadas com o crescimento do cristianismo, que considerava heresia a sua veneração. O Deus cristão, por sua vez, foi visto como uma ameaça pelo racionalismo iluminista, que pregava a valorização da razão em detrimento da fé. Tal movimento também apoiava o progresso da técnica, hoje visto como um possível vilão do futuro do homem. A tecnologia vive hoje um paradoxo. Por um lado é vista como a solução de todos os problemas; por outro, representa um grande perigo por ser de natureza incontrolável.

A modernidade é a expressão da existência de uma mentalidade técnica, de uma tecno-estrutura e de uma tecnocultura que se enraíza em instituições, incluindo toda a vida social na burocratização, na secularização da religião, no individualismo e na diferenciação institucionalizada das esferas da ciência, da arte e da moral (LEMOS: 2002:. 66).

A definição de mal é uma construção que depende do imaginário de cada época. De acordo com o Dicionário de Filosofia de Gerárd Durozoi e André Roussel (1993), o mal “designa tudo aquilo que constitui um obstáculo para a perfeição do homem” (p. 303). Para Kant, seria a desobediência da lei moral, para Platão, a impureza da vida terrena, e para Santo Agostinho, o castigo pela expulsão de Adão e Eva do Éden. Autores da contemporaneidade, tais como Maffesoli, Baudrillard, Foucault, Bataille, Morin, entre outros, referem que não existe bem, nem mal absoluto. Os seres humanos são dotados das duas característas em maior ou menor dose.

Não são as leis que vão definir o que é bem e o que é mal para uma determinada sociedade, mas uma conjuntura de condições, situações e definições que levam os indivíduos a pensar em algo como bom ou mau. É neste fluxo de informações que se compila a lei moral de cada tempo. Uma norma que não é padronizada, nem atemporal, que condiciona os modos de agir nas mais variadas sociedades. Através da moral, somos capazes de julgar as coisas como sendo boas ou más. Estes conceitos em nosso tempo não são unânimes, pelo contrário, são postos em discussão e muitas vezes encontram posições radicalmente opostas, como ocorre com a tecnologia.

O que é moral não se define, antes de tudo, como oposto de o que é imoral, nem o direito como o que imediatamente se opõe ao injusto, mas todo o domínio da moral e também do imoral se funda na subjetividade da vontade. (HEGEL: edição de 1997: 99)

O principal fomentador da possibilidade de a tecnologia gerar mal-estar foi Martin Heidegger (1994). No texto “A Questão da Técnica”, publicado no livro “Ensaios e Conferências”, ele revela que o homem pensa ser o senhor da técnica, mas que na verdade é ele quem está a mercê do que a técnica lhe impõe. Vivemos um momento egoísta e hedonista,em que as pessoas não estão preocupadas em fazer o que é moralmente certo, mas em viver intensamente e se realizar. Maffesoli (2004) diz que este é o momento de reconhecer o que cabe ao Diabo, mas cuidar em “dar-lhe bom uso para que não sufoque o corpo social” (p. 16). Trata-se de um tempo em que, ao invés de se preocupar com o como deveria ser, as pessoas se preocupam em como é.

Dois enfoques são as principais bandeiras dos tecnófobos: a robótica e a genética. Os tão sonhados robôs que acompanham o imaginário do homem moderno podem vir a se tornar seres criados pelo homem e superiores a ele, capazes de subjugá-lo. Na parte da genética, o que se questiona são as manipulações capazes de produzir seres humanos perfeitos, com características pré-determinadas: mais inteligentes, belos e resistentes. As anomalias resultantes das experiências genéticas também preocupam.

Estas questões poderiam ser discutidas a partir de um problema central: a falta de ética. As extrapolações do bom-senso no campo científico são geralmente limitadas por códigos que buscam controlar pesquisas de má fé. O problema, no entanto, é que boa parte dos males criados em laboratórios científicos não possuem uma má intenção inicial. Quando vírus adormecidos a séculos escapam durante procedimentos, na maioria das vezes não existe um objetivo de destruição, trata-se de uma fatalidade. O entusiasmo científico de nosso tempo permite o desenvolvimento não programado de aberrações. Fazendo uma analogia à Santo Agostinho, quando fala sobre a antítese Deus-existência do mal, pode-se afirmar: Deus não criou o mal, mas permitiu que ele existisse. Do mesmo modo: o homem pode não querer produzir seres grotescos, mas acabará fabricando-os.

É comum se observar nas mais diferentes formas de mídia da atualidade que a concepção da tecnologia como um mal é uma tendência desde os anos 60. O Hal de Stanlley Kubrick ( 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de 1968) foi uma das primeiras e das mais assustadoras máquinas vivas. O computador, que era representado por uma lente de luz vermelha, revelava pensar por si próprio e possuir sentimentos, como um ser vivo.

Em Blade Runner (1982), haviam os replicantes, seres robóticos extremamente semelhantes aos seres humanos que buscavam de forma violenta uma maneira de prolongar suas vidas. Eles se misturavam facilmente às outras pessoas, mas eram dotados de capacidades físicas superiores às do homem comum. Estes seres possuíam alguns tipos de emoções e expressavam um grande ressentimento por não possuir uma história de vida como a dos humanos.

Em A.I. (2001), de Steven Spielberg, o simpático menino-andróide protagonista é exibido como uma vítima dos seres humanos, que não conseguem enxergá-lo como um ser dotado de sentimentos. Ele é mostrado como uma ameaça possível ao filho legítimo da família. Depois de abandonado, o menino sofre com a perseguição feita por robôs mais potentes e, ao final, será ele quem permitirá a reconstrução da humanidade através de sua memória. O garotinho de Spielberg é o simulacro do homem biológico:

Hoje a abstracção não é do mapa, do duplo, do espelho ou do conceito. A simulação já não é uma simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos modernos de um real sem origem nem realidade. (BAUDRILLARD: 1991: 8)

É importante não confundir técnica com tecnologia. Gama (1986) define a tecnologia como o estudo, o conhecimento, da técnica. A técnica seria o procedimento, enquanto a tecnologia seria a aplicação da técnica. Silva (2003), analisando Heidegger constata: “toda nova tecnologia interpela o universo existente e, escapando ao controle de cada indivíduo, transforma o sujeito em objeto da técnica” (p.29).

Enquanto ainda não há evidência da construção real de uma inteligência artificial homóloga ao ser humano, muito se discute sobre este assunto, questionando qual seria a valia e a problemática gerada por tal ser, uma vez que teria autonomia e poderia questionar sua criação e seu criador. Neste ponto, é importante recordar a definição que Kant (edição de 2004) traz sobre autonomia, visto que o filósofo alemão construiu sobre este conceito sua “Crítica da Razão Prática”.

Outra paranóia tecnófoba é a do Big Brother. Teorias conspiratórias de que as sociedades serão totalmente monitoradas e que a liberdade individual ficará restrita são constantes, principalmente através de blogs e outras ferramentas da Internet, que permitem a livre expressão de idéias por parte dos mais variados tipos de usuários. Esta suposição, no entanto, possui aspectos verídicos.

As civilizações modernas vivem cercadas por câmeras de vigilância. São equipamentos instalados em prédios, escritórios, shopping centers, lojas, e, até mesmo, vias públicas. A recente criação do Google Earth, que permite a visualização de países, cidades e ruas através de imagens geradas em satélite, coloca em exposição municípios e suas idiossincrasias e, provavelmente, logo, permitirá o acompanhamento das atividades humanas. Ao mesmo tempo, estamos cada vez mais vulneráveis. Nas redes de relacionamento, muitos colocam informações de identificação pessoal que tornam seus dados acessíveis a qualquer pessoa física ou jurídica. Estes dados muitas vezes são inseridos em cadastros comerciais, permitindo que pessoal mal-intencionadas e empresas descubram alvos em potencial para seus interesses.

O espectro do Big Brother plana sobre as redes eletrônicas internacionais. Daqui para diante, todas as ações cotidianas que fazemos serão datadas, localizadas, fichadas, estocadas nas memórias de computadores e suscetíveis a servir de base de informação. (ROSNAY: 1997: 313)

A pedofilia é um dos diferentes crimes que se aproveitam da facilidade de comunicação proporcionada pelo ciberespaço. Salas de chat e sites de relacionamento são ambientes dominados por crianças e adolescentes com idades entre oito e 17 anos. A sensibilidade amorosa e a curiosidade sexual destes jovens os torna presa fácil para criminosos que se aproveitam da ingenuidade infantil para marcar encontros e descobrir locais frequentados.

Desta forma, as mesmas tecnologias que permitem ao ser humano ter mais segurança, mobilidade e integração podem ameaçar a liberdade do anonimato. Se, por um lado, estes elementos facilitam a vida cotidiana, por outro, provocam uma redução na privacidade.

O homem contemporâneo ocidental é absolutamente dependente da tecnologia. Fica desorientado quando falta energia elétrica e abismado com a sobrevivência atécnica de outras civilizações. A tecnologia é o Don Juan de nosso tempo: romântica, galanteadora, e ao mesmo tempo, traidora e cafajeste. Talvez não seja pertinente enquadrá-la nos conceitos maniqueístas de boa ou má. Nossa relação com a técnica tem dois lados, mas há que se superar os entusiasmos: se não há demônio, também não há santo.

Bibliografía/Referencias


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  • SILVA, Juremir Machado da, 2003, As Tecnologias do Imaginário, Porto Alegre: Sulina


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