O artigo traz uma importante contribuição para pensar a questão da indisciplina nas escolas de hoje, preocupação crescente entre professores, pais e que se reflete na mídia. Para compreender o que vem acontecendo, o que tornará possível buscar formas de superar o problema, é preciso lançar um olhar externo: não basta olhar o que acontece dentro da escola. O artigo mostra que os alunos que estão na escola, hoje, são muito diferentes daqueles de anos atrás: poderíamos dizer que se tratam de novos sujeitos, com modos de ser e estar no mundo bem diferentes daqueles de apenas há alguns anos atrás. Esses sujeitos têm dificuldades não apenas para adaptar-se aos regulamentos escolares, como, também, para compreendê-los e perceber sua importância. Parece-me que cada vez mais os alunos se afastam do modelo de aluno que a escola moderna inventou. Como seguiremos?
Enviado 16/11/2009 - 15:20 (GMT+1)
Asunto: Ré: Expansionismo digital e indisciplina escolar
Se formos analisar a questão pelo prisma do modelo de poder chamado de "ator-rede", esse modelo ignora que a pós-modernidade não apresenta interesse em desenvolver estruturas de conhecimento. Ele reduz a máquina como um mero objeto. Provavelmente, seja uma herança teórica da teoria matemática da Comunicação, criada por engenheiros militares nos EUA no peródo entre-guerras, na qual tudo se resumia ao modelo Emissor - Receptor e Mensagem.
Ao sairmos da égide do positivismo, do taylorismo-fordismo e do moral judaico-cristão (que não rege mais a grande maioria das ações dos jovens fragmentados e multidisciplinares desta era midiatizada), nos deparamos com uma geração de interagentes.
Como tudo passa pela mídia de massa (a nova ágora), hoje, em função da conectibilidade e do barateamento que viabiliza um maior acesso à possibilidade de produzir, editar e publicar conteúdo, a geração atual de adolescentes não é mais uma mera receptora. Acabou a passividade e a simples aceitação de receitas de bolo sociais.
Nesse ponto, a esmagadora maioria das secretarias estaduais e municipais de Educação - bem como muitos diretores de escolas públicas e professores - ainda não estão preparados para pensar e agir a favor de uma nova pedagogia. Isso se deve ao fato de que raríssimos foram doutrinados a pensar a tecnologia como um processo de trabalho. Nunca pensaram nas condições desse processo em termos socioculturais.
O uso da tecnologia em sala de aula não é apenas a adição de vídeos, fotos ou da permissão para o uso da internet: ele decorre da necessidade de abolir o pensamento meramente tecnicista, tecnófilo ou tecnófobo que o consumismo ou uma análise decorrente de uma visão materialista dialética pura costumam proporcionar.
Enfim, não estamos falando mais sobre hardware, sobre software, sobre hierarquia nem tampouco sobre como e por que utilizá-los: é preciso articular mentalmente a percepção de que os artefatos são atores e que os artefatos fazem política (não confundir com partidarismo mas, sim, com o ato de debater, de participar, de deliberar, de votar, de ponderar).
Cynthia Cockburn diz que todo produto tecnológico voltado para o desenvolvimento social precisa de aliados não necessariamente técnicos. Sob essa premissa, creio que grande parte dos professores deve se conscientizar de que são eles os aliados não-técnicos mais próximos daquilo que as crianças e os adolescentes precisam para não ficarem para trás.
Vejo com enorme preocupação o fato de que o barramento da conectibilidade pode - em muitas situações - ser muito mais excludente do que o analfabetismo. Afinal de contas, se o Brasil peca por ter queimado a etapa do letramento em massa ao passar da cultura oral quase diretamente para a cultura midiática, hoje é o uso pedagógico do digital que pode resgatar o tão necessário letramento.
Asunto: Expansionismo digital e indisciplina escolar
IV Congreso de la CiberSociedad
España
Enviado 12/11/2009 - 00:00 (GMT+1)