IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Grupo de Traballo B-54: TIC e Diversidade Funcional

Acessibilidade Web: aspectos epistemológicos e tecnológicos

Resumo

O presente artigo discorre sobre as Tecnologias de Informação e Comunicação, especificamente, padrões e recomendações internacionais, Arquitetura da Informação e metadados de acessibilidade para proporcionar acessibilidade web, que em um sentido amplo, significa garantir que uma determinada página web seja capaz de ser acessada plenamente, inclusive por usuários com necessidades especiais, sejam elas temporárias ou permanentes. A pesquisa sobre o tema se justifica dado o aumento de websites, e consequentemente de serviços web, esses ambientes tem que estar projetados para usuários com necessidades especiais incluindo-os no ambiente informacional digital, usuários esses que somam aproximadamente 15% da população mundial. Objetiva-se apontar os elementos de acessibilidade que permitam a promoção da inclusão informacional digital, de forma a destacar os referenciais da Arquitetura da Informação Digital, de recomendações internacionais e das estruturas de representação das informações, em especial dos metadados de acessibilidade, com o olhar da Ciência da Informação com foco nas Tecnologias de Informação e Comunicação. Verificam-se mudanças nos tipos de Interação Humano-Computador atuais dado a crescente participação do usuário no ambiente informacional digital, mudanças estas que estimularam pesquisas na área, como esta, trazendo benefícios consideráveis, fato este que favoreceu a inclusão, destacando-se a tecnologia como base para tal prospecção.

Texto da comunicación

Introdução

No contexto da Web 2.0, ou web colaborativa, onde o usuário tem uma participação mais ativa e pode-se afirmar que o seu nível de participação, ou interação, e por que não, envolvimento, que é muito subjetivo, sofreu alterações significativas trazendo inúmeros benefícios, inclusive para pessoas com necessidades especiais devido a pesquisas acerca da acessibilidade web e de pesquisadores da Ciência da Informação (CI) que tem participação ativa neste contexto, fato este que tem suprido os avanços em menor escala das estruturas já conhecidas da Interação Humano-Computador (IHC).

Dix (2008) afirma que as atuais necessidades e serviços oferecidos, mudaram as estruturas da IHC. Serviços web, o próprio crescimento da web, a Web 2.0, processamento de texto e planilhas online, todos esses são exemplo das atuais tecnologias, avanços e necessidades atuais. Todas estas mudanças tecnológicas levaram a alterações no ambiente da IHC, tanto com hardware quanto com software, causando um grande impacto em nível comercial e social.

Dix (2008) cita ainda que com o crescimento da web, muitos softwares que até então eram produtos, tornaram-se serviços na web, fato este que abriu portas para novas pesquisas acerca da IHC, tem-se um novo olhar sobre a interação.

Atualmente, de acordo com Dix (2009), muito se evidenciou no desenvolvimento os aspectos estéticos e de design, porém como nossos corpos são claramente coisas físicas, tem-se que pensar em ergonomia e acessibilidade, que também são alicerces da IHC.

Dado os fatos elencados, faz-se necessárias novas pesquisas área com aportes tecnológicos via metadados de acessibilidade, Arquitetura da Informação (AI) e acessibilidade web.

Atualmente, conta-se com novas tecnologias digitais, novas representações da informação, computadores ganharam mobilidade, sistemas embutidos, tornaram-se fatores de comunicação social, bem como canais de informação, trazendo ainda mais facilidades e benefícios ao acesso ao conteúdo informacional.

Tais benefícios se deram fortemente apoiados na tecnologia, fato este que está abordado na presente pesquisa epistemologicamente. Outro fator de grande importância é que pelo fato das pesquisas em tecnologia beneficiarem pessoas com necessidades especiais, garantiu também a participação de usuários com mobilidades reduzidas, sejam elas temporárias ou não, originadas ou não pelo avanço da idade ou outro motivo que seja.

O presente artigo discorre sobre as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) para a inclusão, especificamente, padrões e recomendações internacionais, Arquitetura da Informação e metadados de acessibilidade para proporcionar acessibilidade web. Trata-se de uma discussão epistemológica e da apresentação de pesquisas e resultados acerca do tema. As pesquisas apontam para o descobrimento em torno das reais necessidades dos usuários e da descrição das características de acessibilidade que cada recurso dispõe para garantir o acesso e acessibilidade ao conteúdo informacional digital, proporcionando assim a inclusão.

A preocupação com a acessibilidade web se justifica na medida em que os usuários com alguma necessidade especial somam aproximadamente 15% da população mundial (THATCHER et al., 2006). Sabendo-se que eles têm dificuldade em acessar os serviços presencialmente e devem ser capazes, e tem o direito garantido por lei, de fazer pleno uso desses serviços online para tornar sua vida integrada digital e socialmente é que se concentram esforços nos estudos epistemológicos acerca da acessibilidade web.

1. Ciência da Informação e Acessibilidade Digital

Um dos conceitos sobre CI que vem sendo utilizado é o de Shera & Cleveland1 (1977 : 265), resultado da conferência do Instituto de Tecnologia da Geórgia realizado em outubro de 1961 e abril de 1962. Os autores definem CI como a:

Ciência que investiga as propriedades e o comportamento da informação, as forças que regem o fluxo de informações, bem como os meios de tratamento da informação para otimizar a acessibilidade e a usabilidade. Os processos incluem a produção, difusão, coleta, organização, armazenamento, recuperação, interpretação e uso da informação. O campo é de derivado ou relacionado com a matemática, lógica, lingüística, psicologia, informática, pesquisas operacionais, artes gráficas, comunicação, biblioteconomia, gestão, e alguns outros campos.

Nota-se que nesse conceito a CI, dentre outras áreas de atuação não menos importantes, preocupasse com a acessibilidade, sendo essa o objeto de estudo foco desta pesquisa. A CI trata desse tema e do seu uso por indivíduos, instituições e no contexto social como um todo, sem deixar de lado os aspectos tecnológicos no tratamento destas questões. Tecnologia esta que serve de base para prospecções e resultados acerca da acessibilidade web.

Pesquisas apontam preocupações em torno da disponibilização de conteúdo informacional desde 1795, ano em que Alexandre Vandermonde, discorrendo a respeito do telégrafo, afirmava que a preocupação da comunicação a distância tinha o objetivo de democratizar a informação. No ano de 1837, Michel Chevalier citava que aperfeiçoar as comunicações é dar liberdade real, positiva e prática, que tal atitude constrói igualdade e democracia (citado por Vandermonde em 1795) (MATTELART, 2002).

Por volta do ano de 1890, Paul Otlet, personagem central no desenvolvimento da Documentação, lutou incansavelmente por décadas com aspectos técnicos, teóricos e organizacionais centrais de um problema central à sociedade: disponibilizar conhecimento registrado àqueles que precisam dele (BUCKLAND, 2007).

Vannevar Bush, em 1945 já demonstrava preocupação com o volume de informações; o qual chamou de “acúmulo da experiência humana”, que crescia em uma taxa, segundo Bush (1945), extraordinária, e que era necessário que avanços científicos promovessem a comunicação mais rápida entre indivíduos proporcionando o registro do seu pensamento e permitindo assim manipular e utilizar esses registros de modo que o conhecimento evoluísse.

Bush (1945) afirmava que “se um documento é importante para a ciência, deve ser preservado, armazenado, e principalmente consultado”. Nota-se então elementos importantes do que atualmente conhecemos por Ciência da Informação, e em especial, por ser o foco desta pesquisa, elementos acerca da preocupação com o uso destas informações.

Com a mesma finalidade, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1960, organizou uma reunião com um único objetivo: o Free Flow of Information (Fluxo Livre da Informação), demonstrando a preocupação e a importância do tema “acesso à informação” (MATTELART, 2002).

Constata-se que as pesquisas e preocupações acerca do acesso e da acessibilidade são temáticas estudadas desde longa data, porém, com os atuais avanços das TIC, tem-se então bases sólidas para maiores prospecções nesse sentido.

O uso das TIC no âmbito da CI e da Biblioteconomia tem promovido a otimização de recursos informacionais digitais, seja no uso de softwares para bibliotecas, seja na construção de bibliotecas digitais, no desenvolvimento de ambientes de repositórios institucionais, de websites entre outros. Desta forma, considerando-se o caráter interdisciplinar da CI em busca de soluções para problemas relacionados à informação e a comunicação, enfatiza-se sua inexorável ligação com as TIC com o uso de computadores e da computação, assim como sua participação na sociedade da informação (SARACEVIC, 1995, 1996; LE COADIC, 1996).

Esse fato já era indicado por Borko (1968) ao afirmar que na CI não há distinção entre pesquisa e tecnologia, sendo apenas uma questão de ênfase. Ingwersen (1992) corrobora o mesmo pensamento de Borko (1968) quando cita que o uso da informação armazenada depende dos processos de comunicação entre o usuário e a tecnologia.

2. Acessibilidade Web

É relativamente fácil navegar na web para uma pessoa sem necessidades especiais. Usar o mouse, ver uma tela com informações, ignorar ou ler as propagandas, se concentrar na área central onde está o conteúdo. Visualizando o cabeçalho da página, buscando uma figura interessante e após isso olhar em busca das informações, ou seja, liberdade de navegação.

Conforme dito, relativamente fácil e simples, isso se não se tem artrite, mal de Parkinson, esclerose múltipla, se tem controle motor necessário para mover o mouse pela tela. É simples ouvir a notícia de um site se não tem-se problemas auditivos, é fácil encontrar o conteúdo principal de uma página se sua visão está boa o suficiente para ler. Não há problema de navegação se ignorar todos aqueles anúncios piscantes e janelas de poup-ups, se não tiver uma déficit de atenção.

Atualmente prioriza-se o desenvolvimento de sites para pessoas que podem ver e utilizar o mouse, sendo que a idéia inicial da web e pela qual foi concebida era para ser utilizada sem o mouse, e sem os olhos, se necessário, dado o tipo de linguagem de marcação utilizada, o HyperText Markup Language (HTML), que permite utilizar marcadores (tags) específicos para facilitar os softwares leitores de tela.

É possível desenvolver um site com acessibilidade sem prejudicar a capacidade de atração do mesmo para usuários sem necessidades especiais, assim, possibilita-se que usuários com necessidades especiais possam perceber, explorar e compreender o conteúdo do site. Consequentemente, mais usuários terão a oportunidade de conhecer o site, a marca, adquirir produtos, ou participar em qualquer atividade na web.

De acordo com Thatcher et al. (2006), o princípio da acessibilidade é fazer com que se desenvolvam sites que sejam flexíveis, customizáveis e que se adaptem às necessidades dos usuários. Esta flexibilidade proporciona uma melhora significativa na usabilidade do mesmo e permite também pessoas sem necessidades especiais adaptem o conteúdo ao seu estilo ou preferência.

Acessibilidade, em um sentido amplo, significa garantir que uma determinada página web seja capaz de ser acessada. A acessibilidade não trata somente sobre necessidades especiais e nem deve ser tratada como assunto relacionado à necessidade especial, mas sim que se trata de usuários recebendo a informação da qual a visão compartilhada da web tornou-se um manifesto. Se aplicada, a acessibilidade trabalha como um fator democratizador da web pelo fato de atender a maioria dos usuários e dar oportunidades iguais a todos, portanto, a acessibilidade é uma questão social, de cidadania, é um direito e deve ser tratado via políticas públicas.

Quanto aos aspectos tecnológicos da acessibilidade web, destacam-se referenciais de padronização de renome, o World Wide Web Consortium (W3C) e a Web Accessibility Initiative (WAI), os metadados de acessibilidade são abordados pela framework Access For All (AFA) e a Arquitetura da Informação (AI) pesquisada foi a de Morville e Rosenfeld.

2.1 Web Accessibility Initiative (WAI)

O consórcio internacional para padrões web World Wide Web Consortium (W3C) abriga a Web Accessibility Initiative (WAI), que desenvolve estratégias, guias e recursos para tornar a web acessível para usuários com necessidades especiais.

A WAI/W3C, com seus padrões e guias, é uma parte da equação para o desenvolvimento de ambientes informacionais digitais com acessibilidade. Além dessa, é necessária uma AI preocupada com tal intento e a elaboração de metadados específicos que atendam a descrição dos recursos e a descrição das necessidades dos usuários.

Shawn Lawton Henry, responsável pela WAI, ao relacionar acessibilidade e usabilidade afirma que se “a usabilidade significa desenvolver uma interface que seja eficiente, eficaz e que satisfaça os usuários, a acessibilidade significa desenvolver uma interface que seja eficiente, eficaz e que satisfaça mais usuários” (HENRY, 2007 : 29), ou seja, a inclusão.

É uma linha tênue entre as questões de acessibilidade e usabilidade, para se saber onde cada uma atua, veja-se: problemas de usabilidade impactam igualmente em todos os usuários, ou seja, ser um usuário com necessidades especiais não é uma desvantagem no quesito usabilidade, já problemas de acessibilidade diminuem o acesso a um produto quando os usuários têm alguma necessidade especial, ficando assim, em desvantagem, tem-se então uma questão de acessibilidade. É de extrema importância se distinguir acessibilidade de usabilidade.

Henry (2007) usa a metodologia User-Centered Design (UCD) – Design Centrado no Usuário – e explica que essa metodologia é um processo com os mesmos objetivos da usabilidade, baseado nas características dos usuários, no seu ambiente, nas suas tarefas, e no fluxo do design da interface. UCD resume-se em uma série de métodos e técnicas de análise, design, desenvolvimento e avaliação de integração de hardware, software, e interfaces web, sendo o UCD um processo totalmente interativo.

Para tanto, o W3C/WAI dispõe de três guias essenciais para a composição da acessibilidade web:

  • Web Content Accessibility Guidelines (WCAG): suas diretrizes explicitam como tornar o conteúdo web acessível a pessoas com necessidades especiais. O principal objetivo é promover a acessibilidade. Estas diretrizes não visam de modo algum restringir a utilização de imagem, vídeo etc., e sim, explicam como tornar o conteúdo multimídia mais acessível a um público mais vasto (WCAG, 1999);

  • Authoring Tool Accessibility Guidelines (ATAG): fornece orientações para desenvolvedores. O seu duplo objetivo é ajudar os desenvolvedores a projetar sites que produzam conteúdos web acessíveis e a criar uma interface acessível. A adoção destas orientações contribui para a disseminação de conteúdo web que pode ser acessado por uma vasta gama de usuários (ATAG, 2000);

  • User Agent Accessibility Guidelines (UAAG): fornece orientações para os agentes do usuário (browsers e outros tipos de softwares que recuperaram e disponibilizam o conteúdo web) reduzirem as barreiras à acessibilidade web. Essas orientações ajudam todos os usuários e não apenas os usuários com necessidades especiais, é igualmente benéfica para desenvolvedores de tecnologias assistivas (leitores de tela, dispositivos e equipamentos), pois explica quais os tipos de informações e controles que uma tecnologia assistiva podem esperar de um agente do usuário (UAAG, 2002).

O WCAG ora citado é a versão 1.0, atualmente conta-se com a 2.0, que alçou status de recomendação do W3C WAI no dia 11 de dezembro de 2008, e existem duas principais diferenças em relação à versão 1.0.

Segundo Thatcher et al. (2006), a generalidade é a primeira diferença e que conduz a uma formulação, veja-se:

  • WCAG 1.0: cada link é associado com o texto a partir do qual a sua finalidade pode ser determinada;

  • WCAG 2.0: recomenda-se identificar claramente o destino de cada link.

A segunda diferença entre a versão 1.0 e 2.0 é que o critério de sucesso não é priorizado pela sua importância ou nível de prioridade como era no WCAG 1.0. Ao invés disso, o critério de sucesso é classificado pela extensão à qual o desenvolvedor pode modificar o processo de desenvolvimento a fim de satisfazer os critérios êxito. O ranking é por níveis, da seguinte forma (THATCHER et al., 2006 : 130):

  •  Nível 1 de critérios de sucesso:

1. atingir um nível mínimo de acessibilidade.

2. pode ser razoavelmente aplicado a todos os recursos web.

  •  Nível 2 de critérios de sucesso:

1. alcançar um maior nível de acessibilidade.

2. pode ser razoavelmente aplicado a todos os recursos web.

  •  Nível 3 de critérios de sucesso:

1. alcançar melhorias adicionais de acessibilidade.

2. não necessariamente pode ser aplicado a todos os recursos web.

Assim como no WCAG 1.0 para se obter o Nível de Conformidade “A” precisava-se atender todos os pontos de verificação da Prioridade 1, para se obter o Nível “A” de Conformidade no WCAG 2.0, é necessário atender a todos os itens do Nível 1 de critérios de sucesso.

A WAI conta ainda com validadores de conteúdo que avaliam a acessibilidade do conteúdo informacional e para tanto conta com níveis de prioridades. Com isso, a acessibilidade web depende do relacionamento entre diferentes componentes e conta com o aperfeiçoamento de componentes específicos para melhorar substancialmente as condições de acesso (HENRY, 2006), porém, precisa-se levar em conta a atual valorização do usuário que participa ativamente desse processo.

2.2 Access For All (AFA)

Vive-se, atualmente, em um novo contexto, tempo esse no qual o usuário, já não sem tempo, tem ganhado maior destaque e sua contribuição é cada vez mais relevante na web, estuda-se muito mais o seu comportamento, a sua forma de interação, suas necessidades com o objetivo de obter uma interação mais satisfatória e produtiva com a Web 2.0, ou Web Colaborativa.

Diante desse quadro, a acessibilidade não poderia ser deixada de lado, ou melhor, a Acessibilidade 2.0, expressão usada para descrever uma abordagem renovada à acessibilidade que tem por base trabalhos já desenvolvidos, mas prioriza a participação do usuário e suas necessidades (KELLY et al., 2007).

Com base na premissa de melhor atendimento às necessidades dos usuários, Liddy Nevile, pesquisadora australiana da La Trobe University, vem trabalhando em um framework chamado Access For All (AFA) – Acesso a todos, baseado em metadados. Basicamente, os metadados AFA destinam-se a identificar recursos que correspondam às preferências e necessidades do usuário (BONI et al., 2006).

O termo metadados simplesmente traduz-se por “dados sobre dados”, tradução essa que não é particularmente útil para explicar seu propósito e valor. Vellucci, citado por Batley (2007 : 101) define metadados mais detalhadamente como “dados que descrevem atributos de um recurso, caracterizam as suas relações, apóiam sua descoberta e uso efetivo, e que existem em ambiente eletrônico”.

Os argumentos de Nevile (2007) para os metadados AFA possuem forte abordagem inclusiva, fato esse que vem ao encontro com os propósitos desta pesquisa. Para tanto, a autora afirma que para haver integridade no conteúdo informacional esse deve ser inclusivo. A inclusão requer adaptabilidade para usuários e dispositivos diferentes.

A adaptabilidade é disposta em três dimensões para ser relevante para acessibilidade, a saber: conteúdo, apresentação e controle (NEVILE, 2005); dimensões estas que dizem respeito às necessidades e preferências dos usuários.

Ainda, a adaptabilidade trás benefício a curto e longo prazo (NEVILE, 2007):

  • em curto prazo, satisfaz a inclusão;

  • em longo prazo, resolve problemas relacionados à preservação da informação.

Para identificar e descrever os recursos, os metadados AFA se apóiam nos Functional Requirements for Bibliographic Records

(FRBR) – Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos, que objetivam o desenvolvimento de um enquadramento que identifique e defina, claramente, as entidades de interesse dos usuários dos registros bibliográficos, os atributos de cada uma das entidades e os tipos de relações que existem entre elas, ou seja, o modelo entidade-relacionamento (BNP, 2008).

Em termos de FRBR e no contexto desta pesquisa, diferentes usuários podem selecionar diferentes manifestações de um único trabalho, de acordo com suas necessidades de acessibilidade.

Atualmente, o problema consiste em que embora se tenham conteúdos equivalentes, o processo de seleção é crítico e ainda somente 50% dos elementos de descrição de acessibilidade dos recursos são passíveis de compreensão pelos FRBR (MOROZUMI et al., 2006).

Alguns usuários escolhem livros, outros podem escolher ler no computador e por exemplo: um usuário cego escolherá em áudio. O trabalho do AFA é identificar o tipo de atributo de acessibilidade escolhido pelo usuário com necessidade especial e comparar com os FRBR (MOROZUMI et al., 2006).

Morozumi et al. (2006) concluem que os FRBR não incluem atributos de acessibilidades suficientes. Os FRBR são úteis como um modelo para recursos, mas necessitam de extensão para descrever os atributos que dizem respeito à acessibilidade.

Confirma-se a necessidade de mais pesquisas acerca do tema permitindo que os FRBR sejam revistos/extendidos para incluir em suas descrições mais atributos de acessibilidade.

O AFA também concentra esforços em interoperar seus metadados com os metadados Dublin Core (DC). Para tanto, a pesquisadora Liddy Nevile modera a comunidade de acessibilidade Dublin Core Metadata Initiative (DCMI). O DCMI é um fórum de organizações e usuários envolvidos na execução do DC no contexto da acessibilidade. Sua fundação data do ano de 2001 e o objetivo é o de aumentar a interoperabilidade dos recursos acessíveis através da utilização de metadados DC.

Os metadados DC são usados para complementar os métodos existentes de indexação e recuperação de conteúdo informacional, sua base são os metadados web. Atualmente, a DCMI está centrando seus esforços em finalizar uma versão dos metadados AFA para usuários dos metadados DC (DCMI, 2008).

3. Arquitetura da Informação (AI)

Morville & Rosenfeld (2006) consideram a Arquitetura da Informação (AI) como o design estrutural de ambientes de informação compartilhados, por meio da combinação de organização, rotulagem, busca e navegação dentro de websites e das intranets.

Dessa forma, no âmbito dos ambientes informacionais digitais, preocupa-se com a estruturação e o planejamento de interfaces digitais, constituindo-se do design do site, disposição do conteúdo, acessibilidade e usabilidade desses espaços. Considera-se que os elementos da arquitetura da informação digital aplicam-se em diferentes ambientes digitais, tais como websites, sistemas ou aplicativos hipermídia em suportes e mídias diversas.

3.1 Elementos da Arquitetura para Acessibilidade Web

O planejamento e a implementação de ambientes digitais acessíveis requerem condições ampliadas de acesso e uso a usuários heterogêneos e interativos diante de interfaces digitais, as quais podem tanto possibilitar quanto limitar a IHC a partir da intersecção usuário-conteúdo-contexto (Morville & Rosenfeld, 2006).

De acordo com os autores, os principais elementos da AI combinam, a saber:

  • Sistema de Organização: refere-se a uma maneira lógica de classificação informacional, definindo os tipos de relacionamento entre itens de conteúdos e grupos;

  • Sistema de Navegação: apresenta a trajetória que o usuário terá disponível no website para acessar cada página com a distribuição de links;

  • Sistema de Rotulagem: representa o acesso aos conteúdos, geralmente encontrados em menus e nas barras de navegação;

  • Sistema de Busca: auxilia na localização e no acesso rápido a informações armazenadas no website.

Morville & Rosenfeld (2006), diante da nova realidade em Ciência e Tecnologia (C&T), adicionaram a esses sistemas a importância de tesauro, vocabulário controlado e de metadado na reflexão sobre a interação e interligação do conjunto de sistemas que compõem a arquitetura da informação:

  • Tesauro: dicionário de sinônimos e visa melhorar a navegação e a recuperação da informação dos sites e intranet. Com isso, no âmbito da AI, os autores o consideram como uma rede semântica de conceitos, ligando as palavras e seus sinônimos, homônimos, antônimos, termos mais amplos e mais restritos e termos relacionados;

  • Vocabulário Controlado: qualquer subconjunto da linguagem natural, caracterizado como uma lista de termos equivalentes, sob a forma de sinônimos, lista de termos preferenciais, o que pode diferenciar no resultado da recuperação da informação;

  • Metadado: pode conter informações descritivas sobre o contexto, a qualidade, a condição ou as características dos dados. Para os autores, em AI, os metadados são usados para descrever os documentos, sites, imagens, softwares, arquivos de áudio e vídeo, objetos e outros conteúdos para melhorar a navegação e recuperação da informação.

Para tanto, o planejamento de um website, assim como de qualquer ambiente informacional digital, requer a estruturação fundamentada em informações e tecnologias que possam assegurar o máximo de acessibilidade ao usuário. Muitos sites são criados por meio de linguagem de marcação HTML, sendo primordial seu mapeamento quanto à área de uso e navegabilidade, tipos de documento (textos, imagens, vídeos, sons), distribuição das informações na página (frames), conteúdo significativo para o público-alvo a que se destina.

Além disso, em conformidade com Morville & Rosenfeld (2006), os desenvolvedores podem e devem usar descrições de conteúdo em metadados em tags meta. Essas descrições em tags não são exibidas na interface do usuário, mas serão utilizadas pelos buscadores, além de beneficiarem no uso de softwares leitores de tela, considerados como tecnologias assistivas, que possibilitam a condição de acesso a usuários com necessidades especiais, em específico, em ambiente informacional digital. Ressalta-se a importância das tags meta e sua influência na performance dos buscadores, atuando como um elemento facilitador.

Contata-se neste estudo que Morville &e Rosenfeld (2006) não abordam efetivamente a acessibilidade digital, citam o uso da tag Alternate Text (ALT) quando se faz o uso de figuras/mapas de imagem e o uso de tags meta no caso do uso de buscadores e softwares leitores de tela.

Diante do exposto, reafirma-se que a AI é um conjunto de procedimentos metodológicos que visa estruturar ambientes hipermídia digitais flexíveis e customizáveis de modo a possibilitar ao usuário a busca, seleção, produção e interligação de documentos digitais, tendo no próprio usuário o elemento ativo e capaz de representar e inter-relacionar as informações segundo seus caminhos de exploração e de descoberta.

Para Vidotti, Cusin e Corradi (2008: 182),

[...] no contexto da Ciência da Informação, a Arquitetura da Informação enfoca, organização de conteúdos informacionais e as formas de armazenamento e preservação (sistemas de organização), representação, descrição e classificação (sistema de rotulagem, metadados, tesauro, vocabulário controlado), recuperação (sistema de busca), objetivando a criação de um sistema de interação (sistema de navegação) no qual o usuário deve interagir facilmente (usabilidade) com autonomia no acesso e uso do conteúdo (acessibilidade) no ambiente hipermídia informacional digital.

Assim, configura-se a necessidade de estudos em torno da acessibilidade atrelada a padrões web, uma AI mais abrangente e inclusiva refletindo mais sobre acessibilidade e a extensão dos metadados de acessibilidade visando possibilitar às pessoas com necessidades especiais o acesso, a análise e a interpretação da informação, atendendo assim uma ampla proporção de usuários, a partir de suas habilidades, preferências e necessidades, sejam essas temporárias ou permanentes.

Considerações finais

A relevância da presente pesquisa para a área da CI dá-se pelo fato da interdisciplinaridade da mesma que visa estudar epistemologicamente soluções para problemas relacionados à informação e a comunicação, em especial destaque nesta pesquisa, a acessibilidade web.

Dentre os benefícios advindos da acessibilidade web, destacam-se os ambientes web inclusivos a usuários com diferentes condições sensoriais, lingüísticas e motoras que visam melhorar a autonomia, independência e a qualidade de vida desses indivíduos na democratização do conhecimento. Acarreta, ainda, a possibilidade de (re)elaborar as informações e aprendizagem individual, que permite a assimilação de novos conhecimentos e habilidades que visam a real inclusão social.

As possibilidades de tratamento e distribuição de informações digitais, pelo impacto das tecnologias em informação e avanços no campo da informática permitem a inclusão de diferentes tipos de usuários, em conformidade com suas potencialidades. Desta forma, a aplicação da acessibilidade digital visa uma melhor usabilidade das interfaces, além de atender às exigências legislativas, padrões e recomendações nacionais e internacionais que envolvem as condições de acesso e de uso adequados em ambientes informacionais. Isto se deve a evolução nas TIC, aos recursos audiovisuais e as tecnologias hipermídia que aceleraram a divulgação de conteúdos e outras modalidades de tratamento da informação.

No âmbito da Ciência da Informação há preocupação crescente com a interface digital com destaque a recuperação, a distribuição, a busca, ao acesso e ao uso das informações hipermídia na IHC em ambientes digitais diversos.

Para se efetivar a inclusão destacada em discursos, deve-se estruturar adequadamente uma arquitetura da informação mais ampla, completa, uma arquitetura da informação com olhar sobre todos os aspectos desses ambientes, além de se divulgar as normas, padrões e leis vigentes. A participação de comunidades de usuários excluídos surge como aspecto democrático e inclusivo tanto no aspecto digital quanto no social.

As TIC aplicáveis em ambientes informacionais digitais, em especial, padrões e recomendações internacionais, Arquitetura da Informação e metadados de acessibilidade, devem ser projetadas e estruturadas com base nos sistemas da arquitetura da informação. Os elementos que compõem essa arquitetura, elementos também da IHC, podem envolver a acessibilidade e a usabilidade digital no desenvolvimento de interfaces que atendam às necessidades informacionais de usuários potenciais e reais com diferentes condições sensoriais, lingüísticas e motoras.

Finalizando, confirma-se a necessidade de mais pesquisas na área, pois os resultados desta pesquisa apontam que a arquitetura analisada indica a falta de elementos de acessibilidade, bem como a falta de foco nas necessidades dos usuários. As recomendações internacionais não contemplam elementos que atendam plenamente as necessidades dos usuários com necessidades especiais e as estruturas de representação dos conteúdos informacionais carecem de novos elementos.

NOTA:

1 The science that investigates the properties and behavior of information, the forces governing the flow of information, and the means of processing information for optimum accessibility and usability. The processes include the origination, dissemination, collection, organization, storage, retrieval, interpretation, and use of information. The field is derived from or related to mathematics, logic, linguistics, psychology, computer technology, operations research, the graphic arts, communications, library science, management, and some other fields.

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