Este texto tem a finalidade de abordar as concepções e relações que podem ser estabelecidas entre os conceitos de comunicação e cidadania. Além de se complementar, na sociedade atual, caracterizada pela relevância dos meios de comunicação, torna-se necessário debater como ambos os temas se entrecruzam e dialogam no intuito de provocar espaços mais abertos e democráticos destinados a prolongar as práticas cidadãs.
INTRODUÇÃO
Este texto tem por finalidade apresentar algumas considerações iniciais relacionadas com a nossa pesquisa atual, na qual procuramos problematizar o conceito de cidadania desde uma ótica critica partindo do âmbito da America Latina. Três partes compõem este trabalho. Na primeira apresentamos uma introdução geral destinada a evidenciar a importância da temática estudada notadamente por envolver temas como as novas tecnologias e o contexto no qual devem ser colocadas. Num segundo momento se discutem as possibilidades e embates destinados a entender como as novas tecnologias ocasionam ainda embates para concluir, num terceiro momento, delineando algumas considerações básicas para abordar a relação cidadania e Internet.
CONTEXTO E IDENTIDADES
Duas pessoas unidas, depois de muitos anos de separação, numa informação num site específico. Um debate sobre um tema juntando, instantaneamente, pessoas da Austrália, África e Canadá. Comprar um livro raro sem sair de casa. Situações inusitadas, reais e concretas, viabilizadas pelo uso das novas tecnologias, mais especificamente, pela Internet. Ninguém coloca em dúvida o potencial dessa ferramenta, notadamente quando se pensa na possibilidade de aumentar a interação, diminuir distâncias, acelerar respostas ou interligar pessoas das mais variadas partes do planeta. Entretanto, também não se podem ignorar suas limitações. Até o presente momento, por exemplo, a rede de contatos viabilizados pela Internet ocorre de maneira rápida, em tempo real, mas nem sempre se materializa o contato físico dos envolvidos nesse processo comunicacional. Uma pessoa emite uma mensagem e chega até a outra ocasionando desdobramentos mais complexos do que se pode, aparentemente, imaginar.
Efetivamente, o procedimento comunicativo não envolve, unicamente, a mensagem e sim um universo gerador de cultura, de história, de vivências e de realidades extremadamente peculiares originadas pelo contexto sócio-cultural no qual cada pessoa se encontra inserida. Ao entrar na Internet não se opera o isolamento ou a fuga do mundo no qual materializamos nossa existência. Obviamente o ato de dialogar, trocar experiências ou conhecer outros lugares ocasiona mudanças capazes de colocar em xeque valores e tradições, mas a transformação principal deve acontecer no espaço material responsável final pelo estabelecimento da sociabilidade.
As questões anteriores implicam na necessidade de realizar uma revisão crítica de algumas afirmações e manifestações provenientes de uma primeira impressão generalista, pouco sedimentada, que confundia a virtualidade com a realidade e pensava que a informação veiculada pela e na Internet interferia de maneira decisiva na transformação social. Em alguns momentos chegava-se a condicionar o desenvolvimento de uma determinada região ao número de usuários de Internet e aos investimentos realizados em Ciência e Tecnologia. Negar o êxito econômico proveniente da junção desses elementos resulta quase que impossível uma vez que muitos países apresentam números inquestionáveis sustentadores de tal premissa. Basta olhar para o registro de patentes depositados na Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) no ano de 2005, por exemplo, para comprovar essa relação. Das cerca de 600 mil patentes reconhecidas nesse ano observa-se uma alocação desproporcional nos países tecnologicamente mais avançados se comparados com regiões menos voltadas para os investimentos em tecnologia. Efetivamente, a lista de patentes concedidas em relação à população é liderada pelo Japão, seguido pela Coréia do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Austrália. O relatório aponta que o Japão tem cerca de 3 mil patentes obtidas para cada milhão de habitantes. Na Coréia do Sul, a proporção é de 2,5 mil para cada milhão. Nos Estados Unidos, Alemanha e Austrália são, respectivamente, 700, 600 e 500 patentes para cada milhão. A mesma OMPI aponta que os escritórios nacionais de registro de patentes que mais recebem demandas são os do Japão, Estados Unidos, China, Coréia do Sul e o Escritório Europeu de Patentes. De acordo com essa instituição, as cinco regiões representam 77% das demandas por depósitos de patentes e 74% das patentes concedidas em todo o mundo1.
Entretanto a crise mundial, deflagrada de maneira mais intensa em 2007, de maneira bastante clara e contundente coloca em xeque muitos desses argumentos ao apontar dados preocupantes nas economias ditas desenvolvidas e com alto nível de avanço tecnológico. Paradoxalmente, os países emergentes caminham em direção oposta. Não discutiremos neste texto os significados dessa contradição apenas registramos a problemática relação envolvida na junção tecnologia-desenvolvimento. Nela o capital joga um papel decisivo levantando indagações preocupantes ao se sustentar a idéia de linearidade entre desenvolvimento-tecnologia e acesso ao conhecimento.
Alguns cuidados devem ser levados em consideração. Na verdade é cedo para realizar qualquer avaliação sobre os desdobramentos dessa crise e sua relação com a Ciência e Tecnologia até porque, de certa forma, ainda sentimos seu impacto e não pode ser considerada como um fato do passado. Concretamente, pensando nos países mais pobres, aqueles onde a conjuntura da superação mostra previsões mais otimistas, vivenciam resultados desastrosos para as populações mais carentes justamente ocasionados pela tal crise econômica. Num informe da ONU, apresentado pelo secretário-geral, Ban Ki-moon, os dados descrevem um panorama pouco alentador. A crise colocou, em 2009, mais 90 milhões de pessoas no ranking dos que passam fome no planeta, um aumento de 6% em relação aos dados de 2008. A estimativa joga um balde de água fria nos Objetivos do Milênio, elaborados em 2000, nos quais se previa um programa de investimentos para conduzir países pobres ao desenvolvimento até 2015. No entanto, o relatório de 2009 indica que 17% dos 6,8 bilhões de habitantes do mundo estarão classificados como extremamente pobres no fim desse ano. Literalmente o relatório afirma que teremos "Em 2009, entre 55 a 90 milhões de pessoas a mais do que o previsto antes da crise vivendo em extrema pobreza". Intitulado "Relatório de Metas de Desenvolvimento do Milênio", o documento também alerta que o recente declínio na ajuda externa - apesar das promessas de países ricos de aumentar o fluxo de recursos - provavelmente vai causar mais doenças e agitação social no hemisfério sul2.
Esses dados rápidos nos introduzem no tema da cidadania. As práticas cidadãs, tradicionalmente, se enquadraram nas relações sociais emanadas do binômio público-privado, ou utilizando a expressão habermasiana esfera pública – esfera privada. A tensão inerente ao choque de interesses das duas esferas procurou ser solucionada pela criação de modelos políticos, econômicos e sociais geradores de fórmulas aceitas e referendadas pela aprovação da maioria. Não se deve esquecer o caráter evolutivo dessa relação, responsável final pela adoção de modelos sociais, políticos ou econômicos ora aprovados, ora rejeitados justamente por terem necessidade de se adequar aos desejos da sociedade.
A rigor o termo evolutivo deve ser explicitado por indicar a idéia de se chegar a um progresso nem sempre claro e previamente estabelecido. Ocorre sim, na dinâmica social, embates e divergências emanadas de visões e crenças inerentes ás concepções expressas por cada individuo ou grupo no intuito de definir parâmetros destinados a elaborar contextos e normas capazes de propiciar formas para melhorar a convivência e existência social. Por ser um processo dinâmico e determinado pelo contexto onde ocorrem os denominados fluxos de informação e de conhecimento produzidos pelos laços existentes entre os membros da comunidade dependem de características culturais, sociais, econômicas e políticas, que também determinam a participação de cada um.
Seguindo essa trajetória o contexto América Latina entra como um lócus específico no qual cidadania e mundo digital devém ser matizados, justamente, pelo ambiente onde se materializam. Partimos do pressuposto da impossibilidade de dissociar esses temas do contexto contemporâneo das sociedades latino-americanas nas quais predominam um conjunto de temas redefinidores de uma trajetória marcada pelo autoritarismo, desigualdade social e construção de dinâmicas e processos mais democráticos. Embutidos nessas mudanças aparecem uma serie de temas merecedores de um novo significado por se implementar em ambientes de consolidação democrática. Um dos críticos mais expoentes da incorporação e padronizações de modelos, sem apontar as nuances do particularismo, Gerardo Caetano (1994:168), apresenta um amplo leque de temas que mereceriam uma reflexão mais apurada no âmbito do hemisfério sul americano:
A sustentação das novas teorias democráticas; a consistência e especificidade do político; as relações entre partidos, Estado e sociedade civil; as pautas de reconfiguração das relações entre cultura e democracia; os fundamentos de uma nova cultura democrática; os cruzamentos entre lógicas cidadãs e lógicas corporativas; as redefinições em torno da noção de espaço público e suas modalidades de construção e conceptualização; a questão dos processos de constituição e renovação do significado das identidades políticas, sociais e culturais; as tensões na construção de cidadania, identidade e diferença, entre enfoques e tradições mais universalistas ou mais particularistas; os novos tópicos e itinerários dos debates sobre este particular entre liberalismo, republicanismo e comunitarismo; as reformas ou transformações nas instituições democráticas em tenta de melhorar suas capacidades representativas, com especial referência aos processos de modernização dos Parlamentos.
Si observamos atentamente essa longa lista veremos como surge a necessidade de considerar que o presente necessita do passado. O motivo é simples: a memória não se elabora, apenas, com o conhecimento do mundo onde nos encontramos. Carrega experiências e práticas que se debatem com o presente e lançam desafios para o futuro. Se até um determinado momento a cidadania e a comunicação transitavam por modelos controlados, sua superação exige uma construção ou reformulação das instâncias reguladoras da sociedade. Encontramo-nos diante da primeira complexidade no nosso continente. Tradicionalmente, o Estado permaneceu alheio às demandas sociais respondendo aos interesses de um grupo minoritário, geralmente, detentor das riquezas e controlador dos mecanismos de participação social sejam políticos, econômicos ou culturais.
Uma possível saída para esse dilema consiste na aceitação da pluralidade de manifestações e seu conseqüente reconhecimento e aceitação dentro da ordem legal estabelecida. Dito de outra maneira, a origem de qualquer compreensão diferente da mantida como hegemônica necessita da alteridade com ponto de arranque. Reivindicar a garantia de pluralidades interpretativas envolve o reconhecimento da heterogeneidade de culturas e formas de expressão dentro da América Latina, impedindo, dessa forma, a adoção de unanimidades sob as quais se geram os mecanismos de exclusão com a conseqüente negação do outro.
Observando a trajetória histórica das sociedades latino-americanas nitidamente se constatam as divergências sociais e culturais com as quais nos deparamos no interior deste continente. Aqui emerge uma pergunta inevitável: podem as novas tecnologias - como sua expressão máxima Internet - propiciar elementos capazes de se colocar a serviço de uma transformação social ou preservação das peculiaridades locais diante da sua irreversível universalização? Tal questão merece um detalhamento mais acurado baseado nas colocações de alguns estudiosos dessa questão.
TECNOLOGIAS E CONSTRUÇÃO SOCIAL
Para entender a importância das novas tecnologias da informação, recorremos a uma afirmação de Castells (1999:43). Segundo ele, a tecnologia é a sociedade. Esta não pode ser pensada ou representada sem as ferramentas tecnológicas. Para Castells (1999), a revolução tecnológica é centrada nas tecnologias da informação.
O surgimento de um novo meio sempre ocasiona expectativas e debates. Dantas (1996:35) relata que o dramaturgo Bertold Brecht, na ocasião do surgimento do rádio, vislumbrou a possibilidade de cada indivíduo ter o seu próprio programa de rádio e, por meio dele, criar assembléias nas quais todos pudessem opinar sobre o processo político. Em seguida, na década de 1920, houve a regulamentação da radiodifusão, a qual transformou as rádios em empresas de comunicação e a idéia do dramaturgo, em utopia.
Aconteceu o mesmo com as novas tecnologias de informação, em especial a internet. Nora e Minc (Apud: DANTAS, 1996:36) acreditam que a internet tem potencial democrático, por oferecer um espaço onde os cidadãos se reúnam e debatam assuntos de seu interesse. Os autores, inclusive, nomeiam esse espaço de “ágora informacional”, em referência ao local onde, na Grécia, os cidadãos atenienses se reuniam e apresentavam suas opiniões.
A internet acirrou as discussões sobre a democratização da informação por permitir debates nos quais o usuário pode, teoricamente, organizar-se e expressar-se de distintas maneiras relacionadas aos mais diversos fins e interesses.
Segundo Oliveira, Barreiros e Cardoso (2002), as inovações tecnológicas abrem caminho para maior participação social na comunicação por dar voz a diferentes atores sociais. Essa participação sustenta a afirmação de que a internet possibilita a construção de um processo democrático de integração e fortalecimento da opinião pública. Os autores afirmam, inclusive, que as novas tecnologias podem ser fundamentais na construção de sociedades mais democráticas. Ponto de vista com o qual resulta difícil, inicialmente, discordar.
Entretanto, Dantas (1996) alerta para o risco de submissão da internet à lógica da expansão do capital. Nesse sentido, os usuários não serão vistos como cidadãos, mas como consumidores. Para o autor, as novas tecnologias e a interatividade, ao contrário do que Nora e Minc (Apud: DANTAS, 1996:54) pressupunham, podem se transformar em instrumentos a serviço exclusivamente da lógica do capital, esquecendo-se o cidadão, tendo em vista o consumidor. Como conseqüência desse processo, o sonho de formação de uma “ágora informacional”, rede de computadores como um espaço para a discussão entre os cidadãos de maneira autônoma, pode não se concretizar, da mesma forma que o projeto de Brecht de tornar o rádio um espaço para a formação da esfera pública cidadã foi rejeitado com o estabelecimento da Lei do Rádio, que regulamentou a radiodifusão e estabeleceu que nem todos os que desejavam transmitir pudessem fazê-lo, pois os sinais interfeririam entre si e nenhum serviço poderia ser fornecido à audiência.
Na mesma linha de pensamento de Dantas (1996), Lima e Motter (1996:14) alertam que as novas tecnologias de comunicação, que apesar de historicamente anunciadas como solução para a democratização da área, tanto pela diversidade quanto pela interatividade, mostraram-se mais um meio de concentração de propriedades, ameaçador da propagada democracia digital.
Os autores afirmam que os media foram constituídos enquanto suporte de difusão da informação para atender às demandas da sociedade por parte do Estado de direito, pois esse necessitava dos meios para articular a economia, gestão e soberania. Em alguns países, inclusive, foram instrumentos de controle político-ideológico. Levando em consideração as considerações anteriores, percebemos a capacidade das novas tecnologias caso desejem direcionar e interferir nas decisões da sociedade.
Apesar de questionar-se muito a capacidade democrática da rede, principalmente pelo aspecto de que poucos têm acesso a ela, não se pode negar o aparecimento de espaços para divulgação de conhecimento que se tornam instâncias de luta ou mesmo de prática dos direitos relativos ao cidadão. Castells (2003:276) entende a rede como um instrumento de participação cidadã extraordinário e ainda observa que a maior parte dos movimentos sociais e políticos do mundo usam a internet como forma privilegiada de ação e organização: “A internet é a estrutura organizativa e o instrumento de comunicação que permite a flexibilidade e a temporalidade da mobilização, mantendo, porém, ao mesmo tempo, um caráter de coordenação e uma capacidade de enfoque dessa mobilização” (2003:277)
A noção do poder de influência dessa nova mídia despertou interesse em alguns setores da sociedade civil, que se organizaram para transformar esse poder em benefício de suas organizações. Essa consciência da importância do espaço aberto pela internet fez surgir, especialmente nos últimos anos, fontes alternativas de informação, principalmente fóruns para discussão de determinados temas, formação de comunidades e sites sem fins lucrativos, todos com a função de oferecer um novo canal para a comunicação.
Um exemplo de um site informativo alternativo é o Choike.org., um projeto do Instituto del Tercer Mundo3, com sede em Montevidéu.
“Choike es un portal destinado a mejorar la visibilidad de los contenidos producidos por las ONG del sur. Es una plataforma donde las ONG pueden difundir su trabajo y a su vez alimentarse de diversas fuentes de información organizadas desde la perspectiva de la sociedad civil del sur.
Choike ofrece:
- Un directorio de ONG organizado por temas. No se trata de un listado exhaustivo sino de una selección de sitios útiles y relevantes. El directorio comprende exclusivamente sitios de ONG del sur. La información relevante proveniente de otras fuentes tiene su lugar en otras secciones.
- Un buscador que permite rastrear información en los sitios de las ONG. Esta herramienta permite buscar en el conjunto acotado de páginas web que por su calidad y relevancia forman parte del directorio. Las ONG que deseen incorporar el buscador de Choike a su sitio pueden hacerlo a través del propio portal.
- Una selección de contenidos producidos por las ONG y de información relevante para la sociedad civil y quienes estén interesados en sus puntos de vista. Se accede a estos contenidos a través de los informes, las noticias y los recursos de información.
- Informes especiales sobre temas claves que proporcionan información básica y muestran los distintos puntos de vista, especialmente la posición que la sociedad civil ha adoptado frente a ellos.
- Difusión de acciones y campañas de las ONG. Choike es el nombre mapuche de la Cruz del Sur, la constelación que ayuda a los viajeros a encontrar su camino. Del mismo modo Choike.org ayuda a los usuarios de Internet a encontrar los mejores contenidos del sur en la red.
-Choike es un proyecto del Instituto del Tercer Mundo, ONG en estatus consultivo especial ante el Consejo Económico y Social de las Naciones Unidas con sede en Montevideo, Uruguay”
Essa participação ocorre, sobretudo, na rede, já que fora dela assistimos a uma crise de representatividade. Como afirma Castells (1999:41), experimentamos uma sensação de isolamento jamais sentida antes. Torna-se mais clara a necessidade de afirmação da identidade frente à rede, ou seja, o indivíduo busca sentido e significado social. Daí a “oposição bipolar”, colocada pelo autor, entre a rede e o ser. Essa oposição vai produzir fragmentação nos movimentos como um todo. Assim, os que vão se destacar são os que afirmam identidades dentro de uma área cultural e simbólica, como, por exemplo, os movimentos feministas, homossexuais e de minorias étnicas e religiosas. Mais especificamente, temos o Movimento Zapatista, no México; a Milícia Norte-Americana e os Patriotas dos anos 90, nos Estados Unidos; e a Seita Verdade Suprema, no Japão.
Ainda de acordo com Castells, entendemos que nesta sociedade obrigada a conviver com os avanços tecnológicos, os movimentos sociais são intimamente ligados a questões próprias da diversidade cultural, mobilização e identidade pessoal e social. A partir disso, dar-se-á a afirmação de Alan Tourine (Apud CASTELLS, 1999:59) de que o conceito de classe social (e, portanto de luta de classes) não explica as lutas atuais no espaço político e social. Como o autor afirma, há na sociedade saltos dos movimentos sociais organizados para os movimentos sociais em rede, esses últimos apoiados nos valores e projetos já constituídos por aqueles. Essa é a situação do citado anteriormente Choike.org, que visa a formar uma identidade da sociedade civil da América Latina utilizando o espaço oferecido pela Internet para divulgar sua existência.
Os sistemas digitais, tal como apresentados por Castells, consolidam a participação do sujeito na economia da informação. Nela a informação se converterá na principal fonte produtora de conhecimento. A base tecnológica será a digitalização e a medida será o tempo. Essa convergência multimídia, em especial a interatividade, faz com que todos queiram participar, ou seja, que sejam inseridos nessa lógica, a qual inclui o recebimento de diferentes conteúdos em um mesmo media (podemos receber conteúdos de áudio, imagens e texto em um mesmo suporte).
Assim, depois de ter acesso e conhecer essas linguagens especificas próprias da Internet, o usuário torna-se também produtor de conteúdo, como afirma Kerckhovee (1997:185), ou seja, tem o poder sobre qualquer ponto do ambiente, em qualquer momento, para qualquer fim. Essa possibilidade de participar não só como receptor, mas também produtor vai permitir ao usuário exercer seu papel de cidadão, diferentemente do que acontece em outros meios, em que se pode destacar a passividade de quem recebe a informação.
Assim, podemos afirmar que os recursos técnicos têm influência na configuração do modo de pensar tal como defende Johnson (2001:109). Com a nova forma de produção, as comunicações também tomam outra qualidade. Podemos afirmar que essa nova forma de produção afeta diretamente a relação sujeito-media. Com a chegada da Web, temos acesso a uma nova forma de linguagem, que vai influenciar inclusive nosso modo de expressão. A abreviação de palavras ao escrever reflete a velocidade da comunicação do computador, por exemplo.
Apesar de todos desejarem participar dessa rede, é necessário entender que a mesma velocidade que delineia um novo usuário também dificulta que a maioria das pessoas entenda o funcionamento dessas novas ferramentas, já que as mudanças são constantes. Seria o mesmo que afirmar que a rede só faz aumentar o abismo de conhecimento entre membros de uma sociedade. O debate também engloba a inclusão digital, já que o acesso à tecnologia é essencial para se construir um espaço digital para cidadania. Outra crítica às novas tecnologias diz respeito ao acesso aos meios. Embora seja um direito do cidadão, exercer a cidadania exige uma predisposição da pessoa para tal, além de um conhecimento das ferramentas tecnológicas para saber como usá-las e transformar informações e conhecimento em participação efetiva.
INFORMAÇÃO E CIDADANIA
Justamente nesse tema da oferta de informações e possibilidades de estabelecer outras formas de conhecimento provenientes dessa nova forma de entender a comunicação, se encontra um dos itens importantes na hora de se pensar na cidadania e na (re)elaboração e (re)interpretação dos contextos. Uma visão bastante pessimista é a apresentada pelos autores que veremos a seguir.
De acordo com Morley (In: CURRAN; MORLEY; WALKERDINE, 1998), vivenciamos a “cultura dos três minutos”. Isto representa uma situação na qual não há necessidade de prestar grande atenção às coisas. Os discursos desaparecem abrindo espaço para as manifestações rápidas e sem profundidade ou análise. A cultura predominante corresponde à das imagens. As notícias são passadas em fração de segundos, cada uma delas desconectada das anteriores. Estaríamos diante de uma cultura que evita pensar em grandes acontecimentos ou interpretações. As imagens explicam tudo. Em definitiva, verificamos a narrativa sendo suplantada pelo fluxo constante de informações sem nexos, a conexão pela desconexão e a seqüência pela aleatoriedade.
Os melhores exemplos da cultura dos “três minutos” se encontram nos comerciais veiculados nos meios de comunicação audiovisuais. Neles tudo é novo, tudo muda muito rápido. As propagandas são repetidas no mundo inteiro tornando o local cada vez mais universal e o universal mais local. Nesta nova situação nada é permanente, tudo se esquece rapidamente (cultura da amnésia). Baudrillard (1978), também concorda que estaríamos sendo seduzidos pelo mundo das imagens flutuantes lançadas no mundo virtual atrás das quais não existe nada de concreto. Estaríamos dominados pela sociedade de consumo na qual os produtos nada têm a ver com a satisfação das necessidades materiais, pois funcionam como símbolos sem referências. Ele acredita que na modernidade as imagens correspondiam com a realidade enquanto que na contemporaneidade as imagens mascaram a realidade chegando ao extremo de apresentar um mundo que na prática não existe. As imagens seriam apenas simulacros.
Temos sim um excesso de informação, mas carecemos de significados para essa inflação de informações. Parafraseando McLuhan, Baudrillard (1978) acredita que estamos numa aldeia global, mas numa aldeia em fase terminal na medida em que seus componentes vivem em estado de amnésia total e não esboçam qualquer tentativa de reação. Paradoxalmente, o autor afirma que esse imobilismo, de alguma forma, representa a salvação da sociedade, pois ao permanecer estática diante dos meios de comunicação, sem reagir, neutralizam sua ação devastadora.
Essa situação gera uma implosão do significado, pois o sistema consegue aplicar um circuito completo típico dos meios de comunicação: emissor – receptor – reação. Por isso, de acordo com Baudrillard (1978), as massas resistem, pois sua passividade impede que absorvam na totalidade os significados das mensagens. Resta, então, o espetáculo sem significado. Nesse contexto a televisão entra em cena sobressaindo sobre os outros meios de comunicação de massa. A única realidade visível é a que podemos observar na televisão, aliás, só pode ser considerado como real aquilo que é visto. Inevitavelmente, a crítica perdeu sua função de mostrar contradições ou imperfeições no sistema. Estendendo essas considerações corremos o risco de acabar com as grandes narrativas ou mesmo de reverter fatos considerados marcantes na trajetória da humanidade. Por exemplo: a Segunda Guerra Mundial não existiu, os campos de concentração são invenções e assim por diante.
Uma alternativa bastante sugestiva à argumentação descrita anteriormente pode ser extraída das observações de Martin-Barbero (1995). Esse autor propõe uma análise do estudo da recepção, pioneiro na América Latina, a partir de um lugar novo e não apenas de uma etapa, o que nos leva a rever e repensar o processo todo da comunicação. Significa romper com o modelo mecânico onde a recepção é apenas o local de chegada de um significado pronto, concluído. Concepção sustentada na epistemologia condutista, fundida com a epistemologia iluminista na qual o receptor é tábua rasa, vítima, ser manipulado, onde se encontram unidos elementos contraditórios como a politização da análise da mensagem e a despolitização do receptor, pensado individualmente.
A compreensão a partir de um novo lugar exige considerar as mediações. A reflexão de Martín-Barbero (1955:55) sobre a recepção avança no campo “do que fazem as pessoas com elas mesmas, o que elas fazem com os meios, sua leitura.” Tão importante quanto o que se lê é o que se consome. Assim, o estudo da recepção não pode estar desvinculado do processo de produção. Os gêneros devem ser interpretados tanto em termos de economia como de narrativa. A recepção é um processo de interação, de negociação do sentido com as mensagens, com a sociedade, com atores sociais. Tais afirmações implicam em aceitar e ver as pessoas como sujeitos ativos no processo comunicacional independente do meio que se escolha para ser estudado. Claro que uns atraem mais do que outros, mas no final, lembra Martin-Barbero, a negociação ocorre e nela nem sempre encontraremos formas de alienação ou manipulação efetivamente praticadas. O receptor é ativo, não passivo. Contudo é importante não esquecer a relevância da digitalização das informações tal como ocorre na atualidade.
O surgimento do primeiro modelo de interface em um computador pessoal (PC) iniciou um processo que se desenrola em ritmo frenético de renovação. A possibilidade de comunicação entre o ser humano e a máquina, através da criação de um espaço-informação (espaço virtual de armazenamento de dados por meio de bits), abriu as portas para enormes avanços em info-tele-comunicações. Se inicialmente o espaço-informação ficou restrito ao PC e às informações que o usuário nele inseria ou que já existiam em sua memória, a Internet veio para ampliar as possibilidades. Ao oferecer comunicação de baixo custo, praticamente instantânea, e feita de forma descentralizada, ela mudou paradigmas de tempo e espaço.
A digitalização da informação constitui a base técnica por excelência da produção social geral, cujo objeto, como vimos, é a informação social. Ao reduzir a informação a um mesmo meio de processamento e transporte, a digitalização viabiliza seu tratamento por uma mesma medida. Esta medida é o tempo: gerar e comunicar informação consome tempo de trabalho; porém receber informação poupa tempo de trabalho. O valor da informação reside justamente nessa poupança de tempo, que não se realiza pela troca na circulação, como na mercadoria, mas pela interação, na comunicação.
Se antes a informação tomava tempo para ser colhida, produzida e transmitida, no contexto da digitalização isso não acontece mais: o fluxo de informações é intenso o suficiente para que se consiga noticiar acontecimentos de além-mar de forma praticamente simultânea. E quem não consegue fazê-lo, se torna obsoleto no mercado. A capacidade de transmitir o maior número de informações no menor espaço de tempo é que torna sustentável, na atualidade, determinado meio de comunicação.
A digitalização, quando analisada tão próxima à questão da economia de tempo, altera a qualidade do produto noticioso. Com o aumento da velocidade de transmissão, os meios analógicos e tradicionais foram obrigados à readaptação e reformulação de seus paradigmas de produção, para que não perdessem em utilidade, novidade e, conseqüentemente, em vendas. Novas demandas foram atreladas ao jornalismo e também aos periódicos, revistas, emissoras de rádio etc, acirrando a competitividade na comunicação. Assim, muitos meios tradicionais acabaram por dar maior importância à forma em detrimento ao conteúdo, uma opção que culmina na superficialidade e homogeneização dos assuntos e acontecimentos, e acaba por prejudicar o receptor/enunciatário, muitas vezes excluído da realidade e dos processos sociais decisórios.
O conceito de “comunicação-mundo” pretende caracterizar tais lógicas de exclusão. (...) Ele volta a considerar a história das relações mundiais em suas desigualdades. Tributário da idéia de “economia-mundo” de Fernand Braudel, ele relembra que as redes, inseridas como estão na divisão internacional do trabalho, hierarquizam o espaço e conduzem a uma polarização sempre maior entre o(s) centro(s) e a(s) periferia(s).(MATTELART, 2000: 150)
A digitalização também criou a possibilidade de convergência da escrita, do som e da imagem em um único sistema simbólico, o multimídia. Os meios analógicos conseguem apenas construir versões digitais de sua produção, sucumbindo ao espaço-informação já que não conseguem combatê-lo ou ultrapassá-lo.
A conseqüência dessa convergência simbólica é a convergência econômica: as empresas de informática, telefonia e televisão também se fundem, criando os grandes monopólios midiáticos que cuidam de todo o percurso da informação, desde a criação da notícia (celebridades, escândalos, eventos, campanhas, etc...) até sua comercialização/transmissão, o que não é nada positivo em termos de “imparcialidade” ou compromisso social. No mesmo sentido, a representação da realidade também fica prejudicada:
Com o desdobramento do ciberespaço global, coloca-se a questão da modelização do saber por uma sociedade hegemônica que corre o perigo de praticar uma divisão seletiva quanto à sua propria memória coletiva.(MATTELART, 2000:180)
A nova configuração dos meios muda o caráter da interatividade entre o receptor e a mensagem, visto que o público tem acesso às fontes de informação sem a necessidade de mediação de um profissional. Assim, a função social do jornalista fica claramente abalada. Se antes ele era responsável não só pela transmissão como pela interpretação, articulação e comentário dos fatos, atualmente ele tem que assumir um papel muito próximo ao de um designer de interfaces, agindo da maneira mais imparcial e objetiva possível. O jornalista na atualidade deve se restringir a tornar uma dada informação inteligível para um determinado público, evitando ao máximo tecer opiniões sobre, aprofundar ou interpretar o tema/acontecimento abordado.
Se, por um lado, se está tendo acesso a uma gama de serviços on-line, por outro se está convivendo com uma nova faceta da mídia digital: a possibilidade de o usuário ser o objeto e o sujeito das ações dentro da mídia.(NICOLA, 2004: 27)
Assistimos à espetacularização da informação, ao Showrnalismo, conforme as palavras de Arbex Jr. O mundo da comunicação, antes promissor e útil, aderiu às causas do consumo e se aliou ao entretenimento, o que nos leva a compreender o sentido d’A Tirania da Comunicação descrita por Ignacio Ramonet. Neste cenário, o diretor do Le Monde Diplomatique lança a seguinte pergunta: “se cada cidadão se torna jornalista, o que restará propriamente aos jornalistas profissionais?”
A falta de prestígio do jornalismo - e do jornalista - é conseqüência direta da sustentação desses mitos de objetividade e de imparcialidade, da utilização de fontes “batidas” e de releases (que causam a sensação de homogeneidade na informação e alteram o modo de produção da notícia), da falta de crítica e reflexão na informação, do aumento do uso da imagem (não como informação prioritariamente, mas como publicidade) e, principalmente, da hiperinformação, da banalização da notícia, da avalanche de noticias diária, ou melhor, que se renova minuto à minuto, segundo à segundo, alimentada pelas incansáveis e globalizadas agências internacionais de notícias e pelas assessorias de imprensa. Mesmo um leitor capaz de ler mil palavras por minuto, oito horas por dia, precisaria de um mês e meio para ler as informações publicadas num único dia. (...) O projeto humanista de tudo ler, de tudo saber, tornou-se ilusório e vão.
CONCLUSÕES PROVISÓRIAS
Nesse processo da entrada de novos meios na configuração da realidade social, a participação se torna não só um ato político, mas também educativo, na medida em que, por meio dela, se vão dando passos cada vez maiores. A ampliação da cidadania levará o homem e a mulher a serem, cada vez mais, sujeitos, e não objetos da história. Boa parte dos problemas apontados, inerentes à entrada das novas tecnologias na sociedade latino-americana, não pode implicar na negação da identidade cultural das pessoas e muito menos inibir seu engajamento na transformação social. A cidadania trata de relações democráticas fundamentadas na igualdade entre as pessoas. Cidadão é uma palavra relacionada à cidade porque, em sua origem, significa responsabilidade pelo bem comum. Assim, é impossível pensá-la sem considerar a realidade social, cultural, política e econômica em que se vive nem que ela seja mediada por meios de comunicação nas suas mais diversas formas. O mundo virtual não nega o real, aliás se insere nele e, de certa forma acaba condicionado pela práxis cotidiana das pessoas. Nesse sentido acreditamos ter mostrado a riqueza que esse vasto universo digital apresenta, mas não ignoramos que a relação com o mundo real não pode ser ignorada.
NOTAS:
1 Registro de patentes cai no Brasil e cresce no resto do mundo. Agência FAPESP - 16/08/2007.
2 Crise mundial do capitalismo vai lançar 90 milhões de pessoas na miséria. IN://www.correiodobrasil.com.br/noticia.asp?c=154559. Acesso em 20 de setembro de 2009.
6/7/2009 11:31:53
3 O Instituto do Terceiro Mundo (ITeM), se auto define como uma organização da sociedade civil, ao serviço das sociedade civil que estimula a participação cidadã. ITeM é uma “ associação não-governamental (ONG), laica e não partidária, em status consultivo especial ante o Conselho Econômico e Social (ECOSOC) da ONU
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