IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Relator/es


Resumo

Com o advento das denominadas "novas tecnologias", em especial o desenvolvimento da internet, surgiram novas e interessantes discussões nas Ciências Sociais. Esta renovação exigiu refletir a respeito de temas caros a estas ciências, em especial à disciplina antropológica, como o papel do trabalho de campo, a escrita etnográfica e a relação com os informantes. Em meus textos anteriores (DIAS, 2005, 2007 e 2008), refleti a respeito dessas questões, e no presente artigo pretendo pensar, primeiramente, como a denominada WEB 2.0, com suas novas implicações para a sociabilidade e a comunicação, oferecem à discussão antropológica temas interessantes para sua interlocução. Para tanto, abordarei o ambientes da WEB demarcado pela folksonomia , a rede social e microblog, Twitter. A partir de dois casos paradigmáticos, as eleições iranianas e a discussão no cenário político brasileiro a respeito do controle da WEB nas eleições de 2010, pretendemos discutir alguns temas colocados pelo Twitter no cenário político.

Texto da comunicación

Introdução

Em fevereiro de 2009, o Twitter (twitter.com) era a terceira rede social mais usada (perdendo apenas para o Facebook, em primeiro lugar, seguido do MySpace1, já tendo ultrapassado o Orkut). A jovem ferramenta2, denominada pelo Alexa de “rede social e microblog, utilizada como serviço de mensagens instantâneas”, que pode ser acessado desde a WEB, ou por SMS, ou por outros dispositivos. O Twitter nasceu em 1992, segundo informou Jack Dorsey, um de seus fundadores, fruto da observação do funcionamento das cidades contemporâneas: ele afirmou que desde os quinze anos observava o diálogo entre os taxistas, que iam relatando os lugares por onde passava. Inspirado no software de rastreamento dos taxistas, Dorsey deseja desenvolver uma ferramenta que pudesse viabilizar a comunicação rápida e eficiente entre as pessoas, contemplando redes de interesse em comum. Em 2006 já era uma ferramenta interna de sua empresa, que ele resolveu compartilhar com o mundo. A concretização deste projeto foi possível com a parceria de Evam Willians, criador do Blogger.

Estudos apontam a existência de mais de 11 milhões de usuários3. O crescimento do número de usuários tem sido exponencial, e na medida em que se multiplicam os usuários, a discussão acerca do papel desempenhado por esta ferramenta se ampliou, em especial no que se refere ao aspecto da esfera pública e política. O propósito do presente artigo é revisar alguns estudos a respeito do Twitter neste campo, e discutir o possível uso político do mesmo nas eleições brasileira de 2010. Para tanto, analisaremos dois casos específicos de debate no Twitter: o debate acerca da eleição iraniana, e as discussões que surgiram a respeito da tentativa do Congresso brasileiro em controlar a propaganda política na rede, visando às eleições de 2010. Finalmente, a partir da análise destes dois casos modelos, traçaremos alguns comentários a respeito do que pode se esperar do uso do Twitter nas próximas eleições. A importância do Twitter como rede social tem sido destacada, porque nenhuma rede cresceu desta forma, em tão pouco tempo, na história4

O Twitter: algumas informações essenciais

O Twitter é um “mashup”, termo que designa os sites ou aplicações desenvolvidos a partir da integração de plataformas, linguagens, e padrões de programação diversos. Misto de rede social e microblog, o Twitter permite que os usuários cadastrados montem um perfil, no qual pode ser incluída uma descrição mínima de si (BIO, com no máximo 160 toques), um link para um site (normalmente blog ou site pessoal em caso de pessoas ou celebridades e institucional, no caso de empresas), a localidade em que se reside, ou tecla. É possível ainda personalizar sua página com um “papel de parede” personalizado e adequar as cores conforme o gosto pessoal. As postagens, de no máximo 140 toques, denominadas de 140#, são os tweets.

O símbolo da ferramenta, um passarinho, nos remete a idéia de que as mensagens, curtas, são como uma fala de pássaro, um piado. Curtas, elas se proliferam aos trilhões. Para montar a sua rede pessoal de contatos os usuários escolhem a quem seguirão (following), cujas postagens receberão em sua página principal. Também poderão ser seguidos por outros usuários, seus followers, que passarão a receber suas mensagens. Quando uma mensagem agrada a um seguidor, ele pode realizar um Retweet, ou seja, indicá-la ou encaminhá-la. É possível também enviar mensagens diretas (DM) a seus seguidores, sem publicá-las nos site.

Luke Wroblewski5 (2008), desenvolvedor de modelos para rede sociais na WEB, enumera algumas características das mesmas, quanto à forma de relacionamento entre os usuários: elas podem ser simétricas, quando a adição de contatos é mútua, ou em duas “vias” (como no Orkut que exige que os denominados “amigos” precisam confirmar que querem esta condição), ou assimétricas ou de via única, na qual você escolhe seus contatos, mas não se exige que, necessariamente, confirmem o contato. Para o autor,  as comunidades (ou grupos de interesse) podem ser definidas como públicas (qualquer participante entra, abre fóruns, posta eventos e mensagens, todos os usuários, mesmo que não participantes vêem as informações disponibilizadas), semi-públicas (os participantes produzem as informações, mas nem todas são disponíveis para todos usuários da rede social) ou privadas (apenas os usuários produzem e acessam os dados). No Twitter não há grupos, e os contatos (seguidores e seguidos) são assimétricos, não necessariamente se correspondem, mas alguns exigem permissão de acesso, bastando que o o usuário opte por não deixar suas postagens públicas. Há ainda a possibilidade de que se bloqueie usuários para não ter contato com eles.

Em um estudo, de junho de 2009, da Sysomos Inc., uma das principais empresas do mundo no setor de análise da comunicação social contemporânea, se contemplou o estudo do crescimento do Twitter e da sua forma de utilização pelos usuários. Foram estudadas as informações divulgadas em 11,5 milhões de contas Twitters. Uma das informações mais relevantes descreve exatamente o crescimento da rede: 72,5% de todos os usuários se filiaram ao Twitter durante os primeiros cinco meses de 2009. Como esse rápido crescimento da ferramenta a torna ainda mais visível nos outros meios de media, é inevitável que ela se desenvolva ainda mais nos próximos meses. Mas, outros dados apontam algumas questões interessantes: 85,3% de todos os usuários do Twitter postam menos de uma atualização / dia, 21% dos usuários nunca postaram. Esse dado é interessante por revelar a postura ainda bastante passiva dos internautas, eles ainda não se apropriaram, ao que parece, da possibilidade de construir conteúdo, fato que diferencia a denominada WEB 2.0, tida como “democrática”, exatamente por se caracterizar como uma nova possibilidade para o mundo digital, no qual todas as pessoas produziriam conhecimento e o partilhariam.

Outro dado interessante do estudo da Sysomos Inc. aponta para o fato de que a grande maioria dos usuários, 93,6%, têm menos de 100 seguidores, enquanto que 92,4% seguem a menos de 100 pessoas. Traduzindo estes dados se poderia problematizar o quanto ainda reina na WEB 2.0 o poder dos outros meios de comunicação: artistas, apresentadores de televisão, políticos conhecidos pela grande mídia, alcançam milhares de seguidores, enquanto que a grande maioria dos usuários restringe seu acesso (e o de seus tweets, como conseqüência) a uma rede de contatos, muito freqüentemente marcada pelos próprios contatos pessoais offline. É neste contexto, que se pode, enfim problematizar o fato que apenas 5% dos usuários do Twitter sejam responsáveis por 75% de toda a atividade. Por outro lado, Número de seguidores apenas 1,35% dos usuários têm mais de 500 seguidores, e apenas 0,68% mais de 1.000 seguidores, o que revela, ainda, uma grande dificuldade na capilaridade da informação na ferramenta.

Os países que mais possuem mais usuários ativos no Twitter segundo o Alexa são: Estados Unidos, com 40.0% dos usuários, seguido pela Alemanha, com 8.0% a Índia, a Inglaterra, e o Brasil com 3.2%. Os usuários brasileiros tem crescido de maneira vertiginosa nos últimos meses, e o português já é a segunda língua mais usada no Twitter (perdendo apenas para o inglês). Concentram usuários, em ordem decrescente, as cidades de Nova York Los Angeles, Toronto, São Francisco e Boston. Mais de 50% de todas as atualizações são publicados usando ferramentas, acessadas por telefones móveis ou pela rede, e o número de postagens produzidas por meio do próprio site do Twitter já é minoria. Segundo  ainda o estudo da Sysomos Inc., há mais mulheres (53%) que homens (47%) no Twitter. Ou melhor, há mais usuários que se identificam como mulheres. Outro dado interessante é o fato de que entre as pessoas que se identificam como profissionais de marketing, 15% seguem mais de 2.000 pessoas. Isso deve ser lido à luz do fato de que entre o todo de usuários, apenas 0,29% seguem mais de 2.000 pessoas. Este dado aponta diretamente para o fato de que a ferramenta tem servido para denunciar, rapidamente, fluxos de interesse e opiniões que podem ser traduzidas em campanhas. Quanto mais pessoas você segue, mais informação você recebe, e quanto mais diversos são os usuários que você escolhe escolher, mais diversificado o debate e os dados que você recebe na sua página principal.

O crescimento exponencial do Twitter em 2009 é um destaque em muitos meios de comunicação, e surgiram grandes discussões acerca de seu papel político. Saliente-se: desde o início do ano, se inscreveram 72,5% dos usuários atuais do Twitter. Em abril, houve a primeira disputa online entre usuários para alcançar um milhão de seguidores: Ashton Krutcher foi o primeiro a realizar o feito. Em 17 de abril, Oprah Winfrey começou a usar o Twitter, direto de seu programa, postando com a ajuda do co-fundador do Twitter, Evan Williams. No Brasil, o primeiro usuário a alcançar um milhão de seguidores foi o apresentador Luciano Huck, em setembro do corrente ano.

Outro estudo, realizado na Universidade de Harvard, utilizou uma amostra de 300.000 usuários,  também confirmando que o Twitter ultrapassou a marca de 11 milhões de usuários e que está crescendo mais rápido do que qualquer outra rede social na WEB, em toda história. A equipe de Harvard concluiu que mais da metade de todas as pessoas que usam Twitter atualizam sua página a cada 74 dias, ou mais. E confirmam também que a grande maioria dos usuários registrados postou apenas uma vez, ou não postou. Isso revela, segundo Bill Heil, um dos responsáveis pelo estudo produzido na Harvard Business School, numa entrevista a BBC que “certamente o Twitter não é um serviço no qual os internautas encontrarão identificação imediata6". Esta conclusão é possível porque segundo todos os estudos a respeito das redes sociais, até então, cerca de 10% dos usuários são responsáveis por 30% de toda produção de conteúdo. Há uma multidão silenciosa no Twitter, multidão que cresceu 1.382% entre fevereiro de 2008 e fevereiro de 2009, passando de 475.000 para sete milhões de usuários. Em abril alcançou mais de 10 milhões de usuários. Para efeito comparativo, note-se que o Facebook a maior das redes sociais, tem 200 milhões de usuários ativos, mas cresceu 228% durante o mesmo período. O estudo de Heil7 também aponta para o fato de que quanto mais seguidores um usuário possui, mais rápidos cresce o número dos seguidores do mesmo, e informa que, embora realmente exista mais mulheres que homens no Twitter, os homens possuem 15% mais seguidores do que as mulheres. E, é muito interessante o fato, de que, ao contrário do que ocorre nas outras redes sociais, em geral, homens no Twitter seguem mais homens do que mulheres. Heil denomina de "super usuários" aqueles que alcançam milhares ou mesmo centenas de milhares de seguidores. Um terceiro estudo, produzido pelo professor Mikolaj Jan Piskorski8, também da Universidade de Harvard, problematiza como muitos líderes de negócios estão se dedicando a redes sociais como forma de pensar, analisar e detectar mercados. Para ele, as pessoas interessadas nesta utilização das redes sociais devem considerar que as pessoas buscam nas redes sociais informação, entretenimento, e entendimento do mundo offline, e o uso diferenciado pelos diversos segmentos da sociedade das redes, em especial o uso diferente que delas fazem homens e mulheres. No Twitter esta diferença modifica inclusive a forma de gerir contatos, o que não se dava nas outras redes (nas quais a diferença se dava, principalmente quanto a forma de se elaborar perfis, publicar material e se filiar a comunidades).

O estudo da importância do Twitter para os processos eleitorais

Primeiro caso: as eleições no Irã

Um interessante estudo dos pesquisadores do Web Ecology Project , um grupo interdisciplinar de pesquisadores de Cambridge, Massachusetts, versou sobre o impacto do Twitter nas divulgação acerca das fraudes nas eleições iranianas. Os membros deste grupo de pesquisa são filiados ao Berkman Center for Internet & Society, ao Center for Future Civic Media, à Universidade de Harvard e ao Massachusetts Institute of Technology. Neste grupo de pesquisas se criam ferramentas e estudos que visam uma melhor compreensão dos fluxos “da cultura e da formação de comunidades na ecologia social complexo da web”, segundo afirmaram num artigo a respeito da eleição do Irã e as diversas postagens que este evento desencadeou no Twitter.

Os autores analisaram 479.780 usuários que contribuíram, de alguma forma, para o debate a respeito da eleição no Irã, e constataram que a média de postagens por usuário foi de 4,22 tweets. Como a maioria dos debates produzidos no Twitter, a participação nesta questão foi distribuída de forma bastante desigual. 59,3% dos usuários participaram com 14,1% das postagens. Por outro lado, 10% dos usuários, postaram ao menos seis vezes a respeito do tema, e foram responsáveis por 65,5% do total de tweets relevantes. Os usuários mais ativos, cerca de 1% (“tweetaram” sobre a eleição, pelo menos, 58 vezes) são responsáveis por 32,9% dos tweets relevantes.

Para os autores, os acontecimentos políticos que ocorreram durante e após a eleição iraniana de 2009 conquistaram a atenção mundial, por vários motivos, mas, principalmente, devido à suposta importância do Twitter na divulgação dos eventos, tanto dentro do país como para a audiência internacional. O uso do Twitter nestes eventos é um modelo considerável da propagação mimética de comportamentos e idéias online. Todos os dados foram coletados por servidores e programas, o que permitiu um alcance a grande número de postagens.

Desde 7 de junho de 2009 até a data da publicação do estudo (26 de Junho de 2009), foram registrados 2.024.166 tweets sobre as eleições no Irã. Participaram mais de 480.000 usuários, dos quais 59,3% “tweetou” apenas uma vez, e esses usuários contribuíram com 14,1% do número total de postagens. Outro dado importante é que um em quatro tweets sobre o Irã é um retweet do conteúdo de outro usuário.

O debate no Twitter sobre o Irã proporcionou uma oportunidade preciosa para pensar melhor a respeito da ecologia social complexa da web, notadamente em tempos de crise. Como polêmica se desenvolveu? Como os dados vieram a se tornar públicos? Quem são os indivíduos influentes na condução da conversa? Desde a eleição do Irã (12 de Junho de 2009), inúmeros artigos de imprensa foram publicados, especulando sobre o papel que desempenhou o Twitter neste evento. A pergunta central que guiou o estudo em questão foi como o Twitter foi usado como uma ferramenta de organização para os cidadãos iranianos e, em vez enfatizar a importância do Twitter como um sistema de divulgação de eventos no Irã para o resto do mundo.

Na pesquisa, os estudiosos coletaram e analisaram um número abrangente de tweets a respeito da eleição Irã. Reunimos todos os tweets que usaram alguns termos predeterminados (como Ahmadinejad, Basij, gr88, iranelection, Khameni, entre outros), indicados, quer como hashtags9 (precedido pelo símbolo #) ou como palavras (termos sem o símbolo #), entre as datas de 7 de junho de 2009 e 26 de Junho de 2009, abrangendo, portanto, cinco dias anteriores à data da eleição iraniana. O conteúdo destas postagens permitiu que o cenário internacional discutisse a questão das fraudes nas eleições locais e serviu de palco de denúncias quanto à tentativa do governo local de silenciar manifestações contestadoras. O laboratório ainda não publicou, no entanto, a análise qualitativa completa dos dados coletados.

A questão das eleições no Brasil

Dos quase 300 mil sites que linkam o Twitter, segundo o Alexa, pouco mais de 3% estão no Brasil. Estima-se que existam perto de 4 milhões de usuários da ferramenta em território nacional. Um dos momentos políticos de maior destaque que estes usuários puderam vislumbrar, no Twitter, até o momento, foi o debate que surgiu após o anúncio de que o Congresso brasileiro pretendia vetar, de várias formas, a propaganda política na WEB.

A idéia inicial era equiparar a web ao rádio e à TV, cujos conteúdos são rigidamente monitorados e não possuem liberdade para expor análises, comentários e peças humorísticas sobre os candidatos. As restrições estavam presentes no projeto de lei eleitoral aprovado na Câmara, uma das casas do poder legislativo nacional (o Brasil adota o sistema parlamentar bicameral). Os relatores do texto foram favoráveis à determinação de restrições e controles ao uso da internet na eleição de 2010 (que elegerá o novo presidente do país, governadores, senadores, deputados federais e estaduais). Estes senadores, Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), sofreram críticas de diversos colegas, principalmente depois que o debate chegou ao Twitter. A análise presente leva em consideração 26.298 postagens a respeito do tema, produzidas por 6.595 usuários no período de 20 de agosto a 20 de setembro de 2009. A média foi de 3,98 postagens por usuário, com 308 usuários detendo mais de 45% de todas as postagens. Uma em cada três foi um retweet. Na medida em que se aproximava a data de votação da lei no Senado, as postagens se multiplicavam, e os relatores eram questionados pelos internautas. No dia da votação, os senadores presentes na casa parlamentar criticaram a tentativa de controlar ou monitorar a Internet “que deveria permanecer livre”, citando diversas vezes, postagens sobre o tema no Twitter, sem contudo, citar esta fonte. O mais interessante é que os senadores, embora citassem estas postagens, demonstravam em suas falas, grande desconhecimento a respeito das ferramentas da WEB, em especial às redes sociais e às de comunicação instantânea.

Os usuários do Twitter descreviam em suas postagens a transmissão da TV Senado, que se dava ao vivo, nas diversas ocasiões em que este tema foi discutido nesta casa parlamentar. Os usuários discutiram, entre outras coisas, a incompreensão dos parlamentares acerca da rede, a tentativa de se censurar a discussão política na WEB (houve senador que se perguntou como seria possível controlar o MSN), a formação acadêmica do autor da lei (o Senador Azeredo PSDB-MG - “descobri ontem que o Sen. Eduardo Azeredo é um Engenheiro metido a especialização em Informática, por isso fica se passando com o AI lá10”, como postou um usuário), o descontentamento com a política nacional, a necessidade de reforma política. Além disso, duas campanhas se iniciaram no Twitter, uma pelo fim de censura na WEB (que fez muitos internautas marcarem o avatar de seu perfil com a palavra censurado numa faixa sobre sua foto ou desenho), e outra pelo fim do voto obrigatório.

Os usuários escreveram, muitas vezes, de forma muito bem humorada: ao questionar o que desejava o relator da lei, um participante postou: “vamos pedir ao Sen. Azeredo uma lei q regulamente as atividades sísmicas, deve ser tão fácil qto regular a internet...” Os senadores eram denominados de “dinossauros” (1308 vezes), “antigos” (312 vezes), “atrasados” (215 vezes), e a grande questão que parecia incomodar aos usuários do Twitter se centrava nesta incapacidade dos parlamentares brasileiros de compreender como seria absolutamente impossível, a monitoração de tal controle, se fosse efetivado por norma jurídica. Não apenas se incomodavam com a tentativa de controle, mas, ainda mais, com essa dificuldade de compreensão, que para os usuários significava um anacronismo, uma dificuldade dos Senadores em apreender o mundo que os cerca, no qual as novas tecnologias são tão presentes.

Na sessão, os líderes do PSDB, Arthur Virgílio (AM), e do PT, Aloizio Mercadante (SP), apresentaram fórmulas de retirar as restrições à internet. O petista ofereceu emenda para "eliminar a equiparação da internet ao rádio e à TV", mas garantiu um dispositivo que guarde o direito de defesa a quem se sentir ofendido. No dia 2 de setembro, com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, na publicação do acórdão quanto à Lei de Imprensa, um argumento jurídico se somou aos muitos argumentos dos internautas:

"Silenciando a Constituição quanto ao regime jurídico da Internet, não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente veiculador de idéias, debate, notícia e tudo o mais que se contenha no conceito essencial da plenitude de informação jornalística".

Rapidamente, o texto do acórdão era resumido, e postado, e inúmeros retweets o levavam  a outros usuários.

O Senador Eduardo Azeredo defendia que o YouTube deveria seguir “as regras de TV", Os internautas, no momento desta fala, postavam perguntas irônicas ou piadas a respeito de “como” poderia ser o monitoramento do site de compartilhamento de vídeos. Embora o Senador não tenha explicado como seria possível impedir alguém de fazer um vídeo e postá-lo no Youtube, ele insistiu que na internet deveria se utilizar as "regras de TV quando for semelhante à TV, e de rádio quando for semelhante ao rádio". Rádio e TV são concessões públicas, ao contrário da internet11. Os internautas que publicavam faziam piada a respeito do parco conhecimento que estas falas demonstravam, e propunham que o Brasil empregasse “toda a América Latina” para realizar tal tarefa.

Outros usuários questionavam a censura propriamente dita. Era interessante acompanhar o Twitter durante a transmissão da TV Senado, porque isto permitia ver frases postadas na rede social ditas no plenário. Quando um dos parlamentares afirmou que deveria se restringir os sites, mas não os blogs, os usuários questionaram, imediatamente, qual seria a efetiva diferença que isto faria.

Finalmente, um acordo entre os senadores deu fim ao impasse pertinente ao livre uso da internet durante a campanha eleitoral de 2010. Nova emenda ao PLC 141/09 afiançou a livre manifestação do pensamento a todo tipo de publicação na internet: sites e blogs partidários, sites jornalísticos e redes sociais. Como a Câmara manteve a restrição, coube ao presidente da República vetá-la.

Comentários finais: o que esperar para as eleições de 2010 no Brasil

O uso político do Twitter, quer como ferramenta para produção de debates, quer como ferramenta de distribuição destes ainda precisa ser detalhadamente estudo. Como a ferramenta é recente, e tem demonstrado se diferenciar das outras rede sociais quanto à forma, conteúdo e distribuição da produção do conhecimento e quanto a foram de estabelecimento da rede de contatos, estudos a respeito da mesma devem ser incentivados. Nos dois casos em questão, as eleições iranianas e o debate acerca das leis eleitorais no Brasil, o Twitter foi uma ferramenta importante, em especial, pela relação que conseguiu desenvolver com as outras ferramentas disponíveis na rede, em especial os jornais e blogs jornalísticos.

A progressão exponencial dos participantes destas novas funcionalidades permite uma inédita publicação e circulação de informações. Estas informações, nas mais variadas versões dos conteúdos da WEB 2.0, oferecem aos usuários uma maneira específica de vincular palavras chaves às suas publicações, comentários e postagens de modo a categorizá-las, classificá-las e facilitar o acesso das mesmas por outros usuários. Este processo de rotulação (ou tagging12 como também é conhecida) recebeu o nome de folksonomia, exatamente por permitir uma distribuição classificada do conteúdo disponível na WEB facilitando sua utilização e rápida reprodução. As mais diversas “tags” servem, tanto para facilitar o registro quanto para recuperá-lo, permitindo precisão e multiplicando seus usos (MATHES, 2004, p.7) 13. Por exemplo, um mesmo conteúdo pode ser registrado com dezenas de “tags” diferentes e, posteriormente, se torna possível recuperar dezenas de conteúdos diferentes a partir de uma mesma “tag”. As “tags”, que geram, por programação, links entre textos e conteúdos, são rizomas, e, como tais, se multiplicam aos milhões. Como escreveram Deleuze e Guattari, “cadeias semióticas de toda natureza são aí conectadas” (1980, p. 15), e, desta forma, conduzem a multiplicidade.

O tema da “ação e a comunicação coletiva”, é central nas discussões acerca da WEB 2.0, em especial no que se refere à nova forma de produção coletiva de conteúdo. Também é assim quanto ao Twitter: neste imaginário de democracia a WEB 2.0, no entanto, não prevê qualquer potencialidade séria para interferir nesse statu quo. Ainda que se concorde com a direção apontada por José Eisenberg e Marco Cepik (2002), que lêem na Internet a possibilidade de uma participação significativa de instituições políticas semiperiféricas, que, ainda que timidamente possam desenvolver uma luta contra déficits sociais e culturais, e que se defenda, ao lado destes autores, o direito ao acesso à Internet como configuração de cidadania, e reconhecendo, por outro lado, que o quadro de exclusão digital atual serve como uma expressiva barreira desta democratização é preciso pensar como esta relação entre produção de conteúdo e democracia na Internet revela aspectos outros das nossas concepções acerca da política. Basta um grande número de participantes para promover a democratização, efetivamente? Como se configura o espaço público da rede? No que a WEB 2.0 espelha esta relação entre este, que podemos nomear de “imaginário democrático” e a vida política contemporânea?

Uma análise desta esfera “democrática” da Internet e do Twitter exigiria um contínuo problematizar dos aspectos essenciais da vida política contemporânea. Uma vida política na qual se inscreve a ação e a comunicação coletiva, como a que se demarca na Internet remete diretamente à noção de esfera pública, conceito essencial na obra de Hannah Arendt. Para Arendt, a concepção de esfera pública abriga a necessidade de partilha entre todos. Seria preciso “ser visto e ouvido por outros é importante pelo fato de que todos vêem e ouvem de ângulos diferentes. É este o significado da vida pública... (ARENDT, 1981)”

Se é inegável, por um lado, o poder das novas tecnologias na produção de discursos políticos (basta rever a eleição do presidente estadunidense Barack Obama, e o papel essencial que a Internet desempenhou neste processo, ou o papel do Twitter na divulgação acerca das fraudes nas recentes eleições iranianas), também é inegável que a Internet e a enorme exclusão social que a envolve oligarquizaram a participação digital. A Internet não é democrática, em primeiro lugar, por conta da enorme exclusão digital. Como equacionar uma “esfera pública” na WEB sem a inclusão digital, sem que todos façam parte do processo? E é preciso lembrar que nem mesmo a nada simples “inclusão digital” resolva esta questão: todos produzirão conteúdo? O campo determinará a força dos agentes que deterão esta possibilidade, criando novas formas de distinção social? O quanto esta distinção gera na WEB 2.0, ou participa da geração das comunidades e das redes sociais? O que cria laços entre os internautas na WEB 2.0?

A importância do Twitter em eventos políticos tem merecido grande destaque na imprensa mundial. Em alguns estudos que se iniciam a respeito desta ferramenta, e que este artigo buscou apresentar, fica evidente a diferença entre esta rede social e as demais, tanto pelo crescimento específico, como pela capilaridade relacional, como pela assimetria de formação de contatos. Neste sentido, o Twitter corresponde a um modelo ainda mais rizomático, que todas as rede sociais já vistas. Por esta caracterização ele aponta diretamente para a idéia proposta por Gilles Deleuze e Félix Guatari, tendo em vista que as conexões no Twitter são claramente descentralizadas, e se demarcam sem pré-definições.

Ainda que surjam grandes usuários como milhões de seguidores e RTs, as ligações se estabelecem por meio de limites que podem interligar qualquer ponto com qualquer outro ponto, não respeitando nenhuma hierarquia. Não há uma unidade central, um eixo que governe o desenvolvimento de uma forma dicotômica ou genealógica, e as conexões sequer se correspondem. As conexões no Twitter operam, manifestadamente por multiplicidades, sem sujeito nem objeto. Verdadeiramente, os grandes usuários, são no máximo "Plateaux", platôs. O conceito de Plateau, cunhado por Deleuze e Gautarri foi inspirado na obra de Gregory Bateson, e pretende descrever o ambiente no qual a multiplicidade é conectável para permitir a formação, o desenvolvimento, a heterogeneidade e a desterritorialização do rizoma. Rizomático, o Twitter pode oferecer uma nova forma de problematizar “o pensar político” contemporâneo. Estas e outras questões abrem grande campo de estudo para pesquisadores interdisciplinares. Este artigo é um convite a eles.

NOTAS:

1Dados aferidos pelo Compete (http://compete.com/ ) e pelo Alexa (http://www.alexa.com/ ).

2O Facebook data de fevereiro de 2004, o MySpace, de 2003, e o Orkut, de janeiro de 2004.

3Um excelente estudo, produzido pela Sysomos Inc pode ser acessado em http://www.sysomos.com/insidetwitter/

4Talvez o Twitter venha nos supreender como o melhor exemplo da capacidade em“potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para a interação entre os participantes do processo”, como relatou Alex Primo (2006).

5Há muito material do autor a respeito de redes sociais em seu blog. http://www.lukew.com/ff/

9Nome dado à marcação de um vocábulo, para transformá-lo num termo de pesquisa automático. Por exemplo: #Obama, demarcaria uma indicação para pesquisar o termo.

10AI lá, uma expressão que significaria Analista de Informação, lá, no Senado.

12Walker expôs o processo de tagging como um “feral hypertext’, a structure out of control, where the same tag is assigned to different resources with different semantic senses, and thus associates otherwise unrelated resources” (WALKER, apud MARLOW et. al, 2006 ONLINE).

13Segundo Mathes (2004, p. 7), “a folksonomy represents a fundamental shift in that it is derived not from professionals or content creators, but from the users of information and documents. In this way, it directly reflects their choices in diction, terminology, and precision”.

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