IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Grupo de Traballo B-9: Internet, tecnologias digitais e estilos de vida

Embates de poder nas representações de Hacker

Resumo

Há um sentimento de ambivalência em relação à internet. Por um lado percebe-se uma euforia pelas possibilidades que ela oferece de liberdade, rapidez, acesso ilimitado a informações, quebra de barreiras espaciais, permitindo a comunicação rápida entre pessoas que talvez nunca se conheçam pessoalmente. Entretanto, há também um sentimento de desconfiança em relação à autenticidade das informações, das identidades, dos conceitos, etc. tem-se medo do roubo de informações, tem-se receio de sofrer fraudes, teme-se a invasão da privacidade, teme-se o "ataque dos hackers".
O presente artigo busca compreender as representações de hacker na internet e nos meios de comunicação, mostrando a ambivalência deste termo, pois no senso comum e na mídia esse termo é associado a criminosos que realizam crimes digitais, mas para a comunidade de software livre esse termo está associado a especialistas de computação.

Texto da comunicación

Ameaça Hacker?

É possível caracterizar o período histórico em que vivemos pelas rápidas revoluções tecnológicas centradas nas tecnologias digitais de informação e comunicação. Estas, por sua vez, inserem-se em um processo amplo de transformação multidimensional que influencia as relações sociais e de trabalho do sujeito contemporâneo, modificando seus valores e interesses. Nessa perspectiva, a internet, mais do que um mero suporte de linguagem, torna-se um agente de transformações socioculturais, na medida em que, através de sua estrutura tecnológica e de serviços, disponibiliza modos diferentes e inovadores de comunicação, que, por sua vez, interferem em nossas práticas sociais bem como em nossos sistemas culturais.

Desde o seu surgimento, acadêmicos e intelectuais têm demonstrado um sentimento de ambivalência em relação à internet (Bem & Kirchof, 2008, p. 109). Por um lado, percebe-se uma euforia pelas possibilidades que ela oferece em termos de liberdade, rapidez, acesso quase ilimitado a informações, rompimento de barreiras espaciais, permitindo a comunicação rápida entre pessoas que, talvez, nunca venham a se encontrar pessoalmente. Por outro lado, há também um sentimento de desconfiança em relação aos seus efeitos em larga escala. Pedagogos alarmistas desconfiam que a interação da criança com o computador pode levar a um perigoso empobrecimento cognitivo (p. ex. Armstrong & Casement, 2001). Obras de ficção cinematográfica projetam um mundo dominado pelas máquinas, individualista e desumanizado, no qual as pessoas abandonam a proximidade física em prol de relações puramente virtuais. Algumas das vertentes mais pessimistas antevêem um mundo dominado por um capitalismo desenfreado e voraz, alimentado pela globalização e praticado com o auxílio da rede mundial de computadores.

Nesse contexto de medos e representações apocalípticas, uma das principais preocupações diz respeito à autenticidade das informações no mundo virtual bem como à segurança dos próprios dados. Em poucos termos, nesse oceano virtual em que não se pode ter certeza sobre a veracidade do que é narrado e mostrado, surge a figura de um vilão capaz de se aproveitar das incertezas geradas nesse universo fluido, uma figura simultaneamente inteligente e perversa, que usa suas habilidades adquiridas arduamente na inteligência acadêmica para roubar informações, invadir e, por vezes, destruir sistemas computacionais. Em poucos termos, teme-se a invasão da privacidade, as fraudes, o roubo eletrônico: teme-se o “ataque dos hackers”.

Situado numa perspectiva teórica culturalista, o presente artigo não pretende estabelecer juízos de valor quanto à identidade do hacker, tampouco pretende tecer juízos avaliativos. Antes, a identidade hacker será compreendida como um construto representacional produzido em determinados contextos sociais e culturais e, por essa razão, não é isenta dos conflitos de poder que atravessam as representações de identidades. Como afirma Castells (2008, p. 423), na era da informação eletrônica, “a nova forma de poder reside nos códigos de informação e nas imagens de representação em torno das quais as sociedades organizam suas instituições e as pessoas constroem suas vidas e decidem o seu comportamento.” Assim sendo, a identidade do hacker é ambivalente e varia de acordo com as instâncias discursivas em que é formulada. No discurso predominante da mídia de largo alcance, principalmente a mídia televisiva e impressa, essa identidade é associada a criminosos que realizam crimes digitais; no contexto da comunidade de software livre, contudo, o termo está associado a especialistas de computação dotados de habilidades admiráveis.

Cultura e Internet

Segundo Stuart Hall (1997), “as revoluções da cultura a nível global causam impacto sobre os modos de viver, sobre o sentido que as pessoas dão à vida, sobre suas aspirações para o futuro, enfim, sobre a ‘cultura’ num sentido mais local”. Tais mudanças em âmbito global estão gerando rápidas transformações quanto às práticas sociais do sujeito contemporâneo e, portanto, também produzem deslocamentos e transformações culturais.

No contexto teórico do que se tem chamado de Estudos Culturais1, a cultura apresenta-se como um conceito central, pois permite pensar as transformações do mundo contemporâneo como produzidas a partir de certos sistemas de significação que passam por transformações contextualizadas historicamente e imiscuídas em conflitos de interesses e poder. Para Stuart Hall (1997), a expressão ‘centralidade da cultura’ relaciona-se com os modos pelos quais a cultura constitui, influencia e determina a vida social contemporânea. Além disso, a cultura também se torna central para a compreensão da constituição das identidades e, em um sentido mais profundo, da própria subjetividade, na medida em que se constitui de processos complexos de identificações.

A cultura pode ser compreendida a partir de significados partilhados por certas comunidades e, portanto, estudá-la significa investigar como se dá a produção desses significados bem como as práticas sociais em que tais significados são instituídos e passam a ser colocados em circulação. Em termos amplos, a cultura institui as maneiras como compreendemos o mundo ao nosso redor. Pertencer a uma cultura, portanto, é pertencer a um universo conceitual e lingüístico comum, sendo que nós sempre transitamos em meio a mais de um sistema cultural simultaneamente. Conseqüentemente, partilhar uma cultura é ver o mundo a partir de um mapa conceitual semelhante e entendê-lo através de sistemas lingüísticos semelhantes (Veiga-Neto: 2000).

Como um campo contestado de significação, produtora de discursos que incorporamos a nossa vida diária, a cultura não é imune a transformações tecnológicas e, muito menos, às mudanças referentes às tecnologias de informação e comunicação, que constantemente produzem novas maneiras para as pessoas interagirem, trocarem informações e, dessa forma, estabelecerem relações e práticas sociais. Segundo Castells (2009, p. 414), “o surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação caracterizado pelo seu alcance global, integração de todos os meios de comunicação e interatividade potencial está mudando e mudará para sempre nossa cultura”. A rede mundial de computadores, portanto, é um agente extremamente importante na arena da produção dos significados que estão na base do que chamamos de cultura contemporânea. Assim sendo, a internet participa ativamente da produção dos significados que dão sentido à experiência que temos de nós mesmos e que servem para a construção de nossas identidades.

Numa perspectiva mais restrita, a internet disponibiliza as condições tecnológicas para que se possam transmitir e receber fluxos de imagens, sons, informações e sociabilidade, que podem ser expressos como uma “organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funciona por meio de fluxos” (Castells: 2003). Dessa forma, a internet possibilita um ambiente heterogêneo, onde se utilizam inúmeras linguagens, onde se manifestam diferentes culturas e, portanto, onde se produzem múltiplas identidades. Como nos alerta Castells, não é possível reduzir a cultura da internet a algo homogêneo, pois ela acabou se transformando em um imenso complexo flexível de redes, no qual convivem interesses de instituições e indivíduos os mais variáveis, desde empresas, associações e pessoas físicas, o que propicia “agrupamentos de interesses e projetos na Rede” (Castells: 2009, p. 440). Por essa razão, não é possível falar em cultura da internet, mas em culturas.

Por outro lado, em sua constituição histórica, a internet foi profundamente marcada por quatro culturas específicas, que imprimiram suas visões de mundo no modo como esse aparato tecnológico acabou por ser construído e divulgado. Primeiramente, a cultura tecnomeriocrática, formada pelos membros da academia, forneceu as condições tecnológicas e científicas para a própria criação da internet. No entanto, a cultura hacker passou a contribuir para o desenvolvimento de tecnologias e para a disseminação do conceito de liberdade associado à internet, que se complementou, posteriormente, com a cultura da comunidade virtual, moldando suas formas sociais, processos e usos. Por fim, Castells acredita que a cultura empresarial logo percebeu o potencial da rede para fazer negócios e acabou por lhe imprimir vários traços.

A Cultura Tecnomeriocrática pode ser representada por aqueles indivíduos que acreditam que a técnica, a evolução tecnológica e o desenvolvimento científico são elementos decisivos para o progresso da humanidade. A academia e a ciência fornecem as condições de possibilidade para a constituição da cultura tecnomeritocrática, que considera a técnica e a tecnologia como o “bem” através do qual conseguiremos avanços para a sociedade.

Já a Cultura da Comunidade Virtual se define por uma dimensão social, onde ocorrem interações sociais seletivas, através de integrações simbólicas. É importante ressaltar novamente que não existe uma cultura comunitária unificada na rede, pois, através da interação social, todos os temas da sociedade são passíveis de se manifestarem: contracultura, representação de papéis e identidades falsas, sexualidade, movimentos sociais, comunicação livre, formação autônoma de redes, auto-organização, autonomia, etc. Castells (2003) acredita que “a cultura comunitária moldou suas [da internet] formas sociais, processos e usos”.

A Cultura Empresarial, por sua vez, passou a se aproveitar das práticas da internet para fazer negócios e, então, ganhar dinheiro. As empresas foram as grandes incentivadoras da internet na década de 90, gerando uma revolução na economia global. De um lado, a internet transformou as empresas, ajudando-lhes a desenvolver a dinâmica dos negócios no mundo globalizado: os empresários da internet vendem o futuro através dos tecnonegócios, que somam produção e inovação. De outro lado, contudo, essa apropriação por parte do mundo dos negócios acabou imprimindo significados oriundos do contexto cultural empresarial à rede mundial de computadores.

Como foi afirmado anteriormente, a cultura Hacker foi fundamental na origem histórica do desenvolvimento e da ampliação da internet. Tendo suas origens na cultura tecnomeritocrática, é representada originalmente por especialistas em computação. No entanto, sua especificidade reside no fato de que essa cultura é cultivada por aqueles especialistas que valorizam o conhecimento tecnológico associado a normas e costumes de boas práticas de desenvolvimento de sistemas livres, utilizando, para tanto, redes de cooperação. Assim sendo, a cultura Hacker se organiza através de comunidades virtuais, onde a autoridade está baseada na excelência tecnológica e na capacidade de contribuição pessoal para cumprir os objetivos de solução de problemas considerados interessantes. Os valores sobre a liberdade na internet foram instituídos, historicamente, pelos adeptos da cultura hacker: liberdade para criar, apropriar-se, redistribuir e alterar programas, com a finalidade de aperfeiçoá-los através da cooperação e da inovação tecnológica.

Cada uma dessas culturas tem se modificado ao longo dos anos e, dessa forma, tem agregado novas características. Elas não se apresentam isoladamente, mas mescladas e, na maioria das vezes, não é possível classificar os indivíduos em uma ou outra cultura exclusivamente, pois não é incomum encontrar hackers que se tornaram empresários, acadêmicos que se tornaram hackers, enfim, ocorre uma dinâmica de interação entre identidades que confirma a tese culturalista de Stuart Hall, segundo a qual as identidades, na contemporaneidade, são dinâmicas. Como exemplo, pode-se dizer que, nos últimos anos, a cultura hacker, de certo modo, instala uma conexão entre a cultura tecnomeritocrática e a cultura empresarial, pois torna utilizável a ciência criada na academia e, portanto, também cria produtos que podem ser comercializados, embora sua finalidade original seja criar produtos livres.

Representações da identidade Hacker

A sociedade contemporânea apresenta-se fragmentada, caótica, acelerada, levando ao deslocamento da compreensão que o sujeito tem acerca de si. Como têm afirmado vários pensadores identificados com os Estudos Culturais, esse fenômeno é responsável pela crise de identidade individual do homem no mundo pós-moderno, onde "as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado" (Hall: 1999).

Essa fragmentação gera sujeitos com múltiplas identidades culturais, que são móveis e temporárias, e também podem ser contraditórias, provisórias e problemáticas. Isso ocorre porque a construção da identidade se dá através dos processos de interação com os outros ao longo da vida  e "pelas formas através das quais nos imaginamos ser vistos por outros" (Hall: 1999). Hall (1997) nos diz que representar é significar; dessa maneira, os processos de representação/significação constroem, nas práticas discursivas, as interpretações que os sujeitos realizam de sua realidade social.

Em poucos termos, Stuart Hall (1997) define a identidade como constituída, na cultura, através de sistemas representacionais. A identidade, portanto, depende do modo como a representamos.  Nessa perspectiva, é possível afirmar que a identidade hacker é construída na medida em que os indivíduos identificados como hackers representam o mundo, o Outro (o não-hacker) e a si mesmos, ou seja, na medida em que constroem sua própria realidade social e cultural. Ao mesmo tempo, também são representados por indivíduos não identificados com a cultura hacker. Nessa multiplicidade de contextos discursivos muitas vezes antagônicos, portanto, surgem as diferentes identidades do hacker.

No presente artigo, pretendemos chamar atenção para algumas contradições típicas de identidades múltiplas que emergem na arena das representações culturais. Aqui serão apresentadas apenas três identidades do hacker, marcadas por três contextos discursivos distintos: o contexto do próprio hacker, quando este se auto-representa; o contexto do Outro, quando o hacker representa o não-hacker; o contexto do mesmo, quando o hacker é representado pelo(s) outro(s). A identidade do hacker, portanto, serve como um exemplo privilegiado para perceber os jogos de poder em que estão envolvidas as representações das identidades no mundo contemporâneo, tornando explícito que as identidades são construtos históricos e não possuem uma essência imutável.

Afinal, quem são os hackers?

O termo “hacker” tem sua origem no inglês e foi inicialmente utilizado para designar especialistas de qualquer área que se destacavam por suas habilidades em realizar determinada tarefa. Com a evolução da informática, o termo passou a ser utilizado para designar os especialistas em computação que desenvolvem e refinam softwares. No contexto de desenvolvedores de sistemas, o termo “hacker” é utilizado para designar especialistas em programação, administração e segurança de sistemas computacionais. O termo também pode ser utilizado como adjetivo para designar especialistas de outras áreas (eletrônica, engenharia, etc.) que se destacam por sua habilidade em propor e implementar soluções criativas para problemas complexos e não triviais. (Sá: 2005)

Na década de 60, nos laboratórios do Massachusetts Institute of Technology (MIT), estudantes passavam noites inteiras programando para conhecer os segredos dos sistemas. Eram programadores que estudavam e trabalhavam movidos principalmente pela curiosidade e pelo desafio de desvendar sistemas complexos. Esses programadores – que disputavam entre si na competência para invadir sistemas supostamente seguros, realizando a invasão de sistemas de áreas governamentais e de grandes corporações – passaram a ser denominados de hackers. Assim, historicamente, os assim chamados hackers estão ligados à academia e, por extensão, ao que Castells denomina de cultura tecnomeritocrática, embora se trate de especialistas que extrapolavam o âmbito restrito da academia. No entanto, essa ligação é muito forte ainda hoje, o que se percebe, por exemplo, nas regularidades entre as representações que os membros da academia fazem do hacker e a sua auto-representação, pois ambos definem o hacker como um especialista em computação. (Sá: 2005)

Quando os próprios hackers se auto-representam, normalmente se identificam com a cultura  das origens da internet, em que a inteligência tecnomeritocrática deveria servir para a democratização do próprio sistema tecnológico. Por outro lado, conforme Castells (2003), esses hackers valorizam o “dom” dos especialistas em programação, pois isto lhes denota prestígio, reputação, estima social e satisfação. Além disso, gostam de exibir suas engenhosidades (criações), reconhecendo que estas possuem valor de troca e de uso, possibilitando a produção de um objeto de valor, o que aproxima o mundo da programação ao mundo da “arte”. Os hackers explicam que realizam seu trabalho sempre em busca de mais conhecimento, freqüentemente exibindo, aos outros hackers, sua competência através do que são capazes de produzir.  Os hackers normalmente descrevem seu trabalho como uma busca para descobrir como os sistemas funcionam e é neste intuito que invadem os sistemas: para identificar problemas de segurança e, então, prover melhores recursos a fim de evitar invasões realizadas pelos “verdadeiros” criminosos, denominados, na cultura hacker, de crackers.

Para os hackers, a comunicação através de mecanismos de interação é fundamental, pois se trata de uma fonte de conhecimento e confiança que possibilita o estabelecimento de uma comunidade simbólica. A cultura hacker constitui, assim, uma fonte de significação cultural que possibilita a identificação entre seus membros, através de um sistema de representação. “No mundo dos hackers existem mitos, tradições e desejos de perpetuar, através de invasões e troca de informações, a herança cultural. Neste processo de hibridação cultural, estão se formando novas identidades”. (Mustaro: 2004)

Os hackers se definem como sujeitos que, ao se identificarem com a cultura hacker, assumem um sistema de crenças vinculado com a liberdade da informação. O seu principal objetivo, razão de seu trabalho, é a solução de problemas interessantes e inéditos, que deve ser partilhada com outros hackers, pois acreditam que, desse modo, possibilitarão a evolução dos sistemas. Assim, aqueles que desejam se tornar hackers submetem-se voluntariamente a desafios com dificuldades crescentes existentes na comunidade virtual de hackers, e dão sentido às suas vidas pela permanente busca por superar tais desafios. Assim, pode-se dizer que a cultura hacker está pautada pela reputação adquirida durante a resolução de problemas considerados interessantes pelos outros hackers. (Martins: 2006)

Por outro lado, na mídia (jornais, televisão, cinema, etc.), o termo hacker é geralmente associado à idéia de um criminoso virtual que cria vírus, gerando, dessa forma, problemas nos sistemas e perda de informações. O hacker também é freqüentemente definido como alguém que invade sistemas bancários e desvia recursos eletronicamente, que rouba senhas de acesso a sistemas e obtém vantagens ilícitas, que invade bases de dados de governos e organizações, corrompendo essas informações e causando danos a muitas pessoas. (Vilela: 2006)

Segundo Vilela (2006), a mídia constantemente reforça a representação do hacker como um criminoso. Mesmo ao tentar diferenciar os “hackers éticos” dos demais, ela institui a noção de que o hacker não é por natureza ético. Em várias reportagens (destacadas por Vilela), percebe-se a representação negativa veiculada pela mídia a respeito dos hackers: “Hacker é a principal ameaça em TI, dizem gestores”; “Esse é o primeiro passo para que 'hackers' criem um vírus ou worm que explore a falha não corrigida do Internet Explorer. Um código que explora uma falha, ainda não corrigida, foi publicado em diversos sites”; “Hackers: entre a ideologia libertária e o crime. [...] muitas vezes para promover a livre informação é preciso 'crackear', fazendo do legítimo 'hacker', também um 'cracker'.”; “Empresas de segurança apoiarão ferramentas ‘anti-hackers’”; “Hackers” buscaram dinheiro e não só a fama em 2005 [...] Pragas que buscam dinheiro e dados após infecção crescem quatro vezes mais que os vírus no período e ilustram novo perfil nos ataques.”

Conforme Martins, em seu artigo Tudo sobre os Hackers, a representação de hacker difundida pela mídia incomoda aos membros da cultura hacker, pois estes não se consideram criminosos ou instauradores do caos digital. Na sua definição, os verdadeiros criminosos digitais são denominados crackers. No entanto, a mídia não estabelece uma diferenciação clara entre hackers e crackers, pois considera ambos especialistas em computação que praticam crimes invadindo sistemas computacionais.

O termo cracker deriva do verbo em inglês “to crack”, que significa quebrar. Segundo os hackers, crackers são aficionados por informática que utilizam seu conhecimento para quebrar códigos de segurança, senhas de acesso a redes, códigos de programas, entre outras ações com fins criminosos (Martins: 2009). Para os hackers, os crackers são “Piratas Virtuais”. A palavra crack é utilizada para identificar programas que tiveram seu código-fonte, licença de uso ou chave de registro alteradas. Este tipo de programa geralmente é alterado para que versões shareware, trial ou demo funcionem de forma completa, sem que o usuário necessite comprar sua licença. (Sá: 2005) Por outro lado, conforme Vilela (2006), a mídia não faz diferenciação entre os termos hacker e cracker, pois representa a ambos como especialistas em computação que possuem habilidades que lhes permitem realizar invasões em sistemas. Desta forma, a mídia utiliza o termo hacker para se referir aos criminosos virtuais.

O significado do termo hacker está marcado pela oscilação entre o bem e o mal. Os hackers representam os crackers como sujeitos que não têm as mesmas habilidades de um hacker (não são especialistas) e que não seguem as normas comportamentais da comunidade hacker. Os hackers, por sua vez, ao invadirem um sistema, descrevem essa ação como uma exploração investigatória, sem intenções pessoais de obtenção de vantagens monetárias ou de informação, apenas no intuito de identificar vulnerabilidades nos sistemas. Por outro lado, quando um especialista em computação invade um sistema e obtém vantagens ilícitas, a mídia o identifica como hacker, mas os hackers o identificam como cracker.

Ao se identificar com uma cultura, tal como a cultura hacker, uma pessoa assume características específicas e passa a adotar as representações construídas no âmbito desta cultura como parte de sua própria subjetividade. Assim, a identidade hacker inclui/exclui pessoas (definindo quem são hackers e quem não é hacker); demarca fronteiras, identifica quem são os membros da cultura hacker e quem são “os outros” (crackers, etc.); classifica programadores, identificando os “verdadeiros” hackers (“bons”, “puros”, “desenvolvidos”, “experts”) e os outros (“maus”, geralmente os crackers, “impuros”, “primitivos”, “irracionais”).  Dessa forma, percebe-se que as identidades são marcadas por relações de poder, colocando-se sempre em oposição a um “Outro”, que representa uma identidade não assumida e não desejada.

Assim sendo, é possível concluir este artigo afirmando que não existem identidades essenciais e imutáveis. Como se procurou demonstrar através das análises, a identidade do hacker é fruto de representações realizadas historicamente na cultura, um produto da interação com a diferença, pois toda identidade é marcada pelo que se é (o hacker) e pelo que não se é (o cracker). Logo, a identidade do hacker não escapa aos jogos de poder inerentes às representações das identidades, que revela sempre um embate político de interesses distintos.




NOTAS:

1 O debate em torno da cultura como mediadora de significados insere-se no âmbito do campo de investigação e teorização conhecido como Estudos Culturais, que teve origem em 1964, a partir da fundação do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos, na Universidade de Birmingham, Inglaterra (Silva: 1999).

Bibliografía/Referencias


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