A integração e a comunicação entre diferentes estruturas sociais pode ser percebida pela variedade de ambientes informacionais surgidos nos últimos tempos, principalmente por meio de sistemas de informação em ambiente Web. Neste cenário, promover o acesso à informação nos diferentes ambientes informacionais disponíveis atualmente pela Web se constitui no ponto crítico a ser solucionado. Os estudos apontam a importância do uso de padrões de metadados, contudo, diante da variedade de padrões de metadados existentes, a área de Ciência da Informação se depara com o problema de como construir representações adequadas e normalizadas dos recursos informacionais para que a recuperação seja eficiente? Por meio de uma metodologia exploratória e descritiva, objetivou-se apontar algumas considerações sobre os metadados e os padrões para construção normalizada de representações na área de Ciência da Informação. Perante a evolução tecnológica verifica-se como resultado uma reavaliação dos métodos, técnicas e mecanismos de representação na tentativa de adequar o processamento da informação aos novos ambientes informacionais digitais. Assim, pode-se concluir que a construção de representações adequadas está pautada no uso de padrões de metadados e ferramentas de normalização dos metadados, tal como modelos conceituais e esquemas de representação.
1. INTRODUÇÃO
O início do século XXI vem sendo marcado por intensas mudanças na forma de difusão e aquisição de informações. A integração e a comunicação entre diferentes estruturas sociais pode ser percebida pela variedade de ambientes informacionais surgidos nos últimos tempos, principalmente por meio de sistemas de informação em ambiente Web. Desta forma, o acesso a informação se constitui como o principal quesito dos serviços de informação e das políticas públicas de informação de modo global.
Promover o acesso à informação nos diferentes ambientes informacionais disponíveis atualmente se constitui no ponto crítico a ser solucionado. Esses fatores, bem como a preocupação com a recuperação da informação em ambientes tecnológicos, se constituem como um aspecto de constante mudança e inerentes à Ciência da Informação.
A solução para esses problemas apontados concentra-se principalmente no processamento da informação, dessa forma, os metadados se constituem como um elemento protagonista da mudança de paradigma em ambientes de informação digital (MÉNDEZ RODRÍGUEZ, 2002).
Os metadados são inerentes aos sistemas de informação, contudo, existem em uma variedade de tipos e níveis. Somente a aplicação adequada e normalizada de metadados irá assegurar a efetividade dos sistemas. Em outras palavras isso significa que quanto maior padronização no uso de metadados maior será a economia dos sistemas, proporcionando uma recuperação com bons resultados.
A necessidade de representar as informações existe em diversas áreas do conhecimento, para atender a essa necessidade foram sendo criados vários padrões de metadados que variam de estruturas simples, passando por um tipo de padrão intermediário até padrões de estrutura mais complexas de descrição. O uso do padrão de metadados correspondente ao tipo específico de ambiente informacional, bem como a normalização ou construção adequada de representações se constitui na chave para a efetividade dos sistemas de informação nesses ambientes.
Entretanto, o que determina a aplicação de um padrão de metadados é o princípio pelo qual ele foi criado. Isso significa que o princípio norteará toda a característica, a finalidade e o uso do padrão e consequentemente a representação gerada a partir de sua estrutura descritiva. Dessa forma, quanto mais especifico for o ambiente informacional, maior será a exigência de especificidade na descrição e, portanto, deverá ser utilizado um padrão de metadados correspondente a essa necessidade. Caso isso não seja feito, a recuperação da informação será insuficiente.
Diante da variedade de padrões de metadados existentes, a área de Ciência da Informação se depara com o problema de: como construir representações adequadas e normalizadas dos recursos informacionais, garantindo sua unicidade, para que a recuperação seja eficiente?
Em um estudo anterior verificou-se a importância dos metadados e padrões de metadados em ambientes informacionais digitais como a Web e principalmente no desenvolvimento da Web Semântica (ALVES, 2005). Assim, os aspectos estudados possibilitaram o desenvolvimento detalhado do tema, em especial sobre os padrões de descrição da área de Ciência da Informação.
Por meio de uma metodologia exploratória e descritiva, objetivou-se apontar, neste trabalho, considerações preliminares sobre os metadados, padrões de metadados e padrões para a construção normalizada de representações na área de Ciência da Informação.
Como resultado preliminar pode-se verificar que neste cenário de mudança constante presencia-se na área de Ciência da Informação uma reavaliação dos métodos, técnicas e mecanismos de representação, na tentativa de melhor adequar o processamento da informação com os novos ambientes informacionais digitais.
2. METADADOS E PADRÕES DE METADADOS: algumas considerações sobre estruturas de descrição
Conforme aponta a literatura encontra-se uma diversidade de definições para o termo metadados. Sendo assim, considera-se metadados aqui como sendo atributos ou dados referenciais que representam um recurso, sendo que o conjunto codificado e padronizado de metadados (atributos) constitui o padrão de metadados ou formato de metadados (ALVES, 2005).
A aplicação apropriada do padrão de metadados garante uma descrição normalizada e como consequência uma representação de qualidade, facilitando o intercâmbio de informações, a interoperabilidade entre sistemas e a recuperação da informação.
Porém, a necessidade de solucionar os problemas de recuperação da informação em diferentes ambientes informacionais digitais ocasionou o desenvolvimento de uma variedade de tipos de padrões de metadados.
Assim, para o uso adequado dos padrões de metadados é necessário conhecer as particularidades e diferenças entre suas estruturas e níveis de especificidade, e principalmente conhecer o princípio que norteou sua criação, ou seja, o escopo pelo qual e para qual finalidade foi desenvolvido. Essas características determinam, não só a aplicação dos padrões de metadados como também direciona o seu uso, de tal forma que a recuperação baseada em metadados possa ser realizada com maior qualidade.
Segundo os estudos de Rosetto (2003) em que analisa os autores Dempsey e Heery (1997), os formatos ou padrões de metadados podem ser entendidos sob três tipologias ou níveis conforme aponta o quadro a seguir:

QUADRO 1: Tipologia de formatos de metadados. FONTE: Rosetto (2003, p. 54).
De acordo com as tipologias ou níveis, denominados no quadro anterior como Banda um, Banda dois e Banda três, é possível encontrar tipos diferentes de padrões de metadados que variam de estruturas mais simples de descrição, passando por uma estrutura intermediária até chegar em uma estrutura mais complexa de descrição. Esses tipos de padrões, também chamados de formatos de metadados apresentam as seguintes características conforme apontado nos estudos de Alves (2005):
Formatos de metadados simples: constituído por metadados não-estruturados, extraídos de forma automática por robôs, apresenta na maioria das vezes uma semântica reduzida. Ex.: MetaTag(s) e metadados utilizados na transferência de dados utilizado o protocolo HTTP - hipertext transfer protocol.
Formatos estruturados: constituído por metadados mais estruturados baseados em normas emergentes e que proporcionam uma descrição mínima do recurso para sua identificação, localização e recuperação. A descrição geralmente é feita em campos e nessa categoria começa a ser inserida a ajuda de especialistas em informação. Ex.: padrão de metadados Dublin Core – DC.
Formatos altamente estruturados ou ricos: constituído por metadados complexos, apresentam uma estrutura de descrição mais formal e detalhada. São baseados em normas e códigos especializados de um domínio particular, possibilita a descrição de um recurso informacional individual ou pertencente a uma coleção e facilitam a localização, recuperação, intercâmbio dos recursos informacionais. Ex.: padrão de metadados ou formato MARC 21, da área de Biblioteconomia.
Além das características básicas apontadas anteriormente é necessário saber que cada tipo de padrão apresenta uma funcionalidade e valor em ambientes informacionais digitais como a Web. No entanto, é importante que algumas considerações sejam traçadas para entender os motivos pelos quais o uso de padrões de metadados passou a ser considerado cada vez mais necessário.
Os padrões de metadados simples, como por exemplo, as MetaTag(s), URI (Uniform Resource Identifier) e os dados trocados na transferência do protocolo HTTP são iniciativas importantes na tentativa de estabelecer a localização e recuperação dos recursos informacionais na Web, porém insuficientes. As MetaTag(s) são os únicos elementos que comportam algum tipo de descrição dos recursos e se constituem na forma mais comum de uso de algum elemento descritivo na Web. O uso de MetaTag(s) descritivas auxilia a indexação feita pelas ferramentas de busca e consequentemente a recuperação, pois evita que o texto seja indexado na integra. Contudo, apresenta como desvantagem a falta de um controle formal na descrição, pois muitas vezes não são informadas nas Tag(s) as atualizações do recurso informacional. Por esse motivo, os padrões de metadados simples são considerados insuficientes quando se trata de propor uma descrição mais formal do recurso que possa auxiliar efetivamente na recuperação no mesmo.
Os padrões de metadados estruturados constituem-se como uma tendência atual a ser utilizada na Web no intuito de oferecer a descrição estruturada dos recursos informacionais. O padrão de metadados Dublin Core – DC – é um exemplo, foi originalmente criado para promover a descoberta de recursos informacionais na Web por meio de uma descrição e identificação mínima (WOODLEY, CLEMENT, WINN, 2005). Além disso, vem ganhando destaque em diversos ambientes informacionais devido a sua simplicidade, flexibilidade e abrangência. Sendo assim, o princípio de criação ou a razão da origem do padrão é promover a descoberta de recursos informacionais na Web. Esse princípio norteará as características da estrutura descritiva e conseqüentemente a representação dela originada.
Basicamente, o padrão de metadados DC apresenta um conjunto de elementos ou metadados descritivos que podem ser divididos em dois níveis de estrutura e especificidade:
Nível Simples, com quinze elementos de descrição, e;
Nível Qualificado, com sete elementos adicionais de descrição e duas classes de qualificadores, apontadas a seguir:
Elementos de refinamento: são qualificadores utilizados com o intuito de refinar ou restringir o significado dos elementos descritivos;
Esquemas de codificação: qualificadores que identificam esquemas para o valor do elemento, como por exemplo, vocabulário controlado, notações de sistemas de classificação, entre outros (HILLMANN, 2005).
Tanto os quinze elementos de descrição como os elementos adicionais, elementos de refinamento e esquemas, são descritos em uma estrutura de codificação simples em forma de pares como as Tags: . Ex.: .
Todos os elementos são opcionais e podem ser repetidos, além disso, o nível de especificidade proporcionado pelos elementos de refinamento e pelos esquemas de codificação também é opcional. Desta forma, existirá uma diversidade de estruturas descritivas com diferentes conjuntos de metadados de acordo com a necessidade de cada ambiente informacional. Cabe ao indivíduo responsável pela representação do recurso decidir qual estrutura descritiva adotará.
Contudo, é preciso destacar que mesmo sendo indicado para o domínio da Web, o padrão de metadados DC apresenta certa limitação quando se refere à descrição de acervos específicos disponíveis nesse ambiente, pois apresenta uma estrutura descritiva simples e genérica para abranger a maior variedade de tipos de recursos informacionais e, portanto, não possui a especificidade necessária de um domínio.
Muito embora os desenvolvedores do padrão DC estejam trabalhando para desenvolver meios de equilibrar a questão da simplicidade na descrição, com a necessidade de precisão na recuperação por meio de extensões em um domínio específico (HILLMANN, 2005), é preciso considerar que em muitas áreas ou domínios a construção de metadados já vem sendo realizada há muito tempo. É o que ocorre na área de Biblioteconomia, por exemplo, na qual encontramos padrões de metadados altamente estruturados.
Os formatos ou padrões de metadados altamente estruturados ou ricos caracterizam-se por serem específicos de um domínio. Apresentam uma estrutura de descrição formal, baseada em normas e códigos especializados; e um nível de descrição detalhado, ou seja, descreve o recurso informacional com especificidade. O formato MARC 21 se constitui como um exemplo de formato ou padrão de metadados desta tipologia na área de Biblioteconomia.
O formato MARC (MAchine-Readable Cataloguing) foi desenvolvido com o intuito de ser um formato padronizado para a criação, armazenamento e intercâmbio de registros bibliográficos legíveis por máquina (BRITISH LIBRARY, 2003). Desta forma, pode-se dizer que o princípio que norteou seu desenvolvimento, a razão de origem do formato MARC é ser uma estrutura padronizada e automatizada de descrição para compartilhamento de registros bibliográficos.
Porém, conforme apontam Milstead e Feldman (1999) é importante lembrar que catalogadores e indexadores produzem e padronizam metadados há séculos, desde as primeiras tentativas de organização da informação que se conhece na história da Biblioteconomia. Deste modo, o formato MARC reflete o grau de desenvolvimento e especificidade da área em relação à descrição de diversos tipos de recursos informacionais em uma unidade de informação.
Sua estrutura é complexa, apresenta elementos descritivos (metadados) codificados em campos; e por ser baseado em normas, códigos e princípios de catalogação, utiliza-se dessas ferramentas para a construção dos registros bibliográficos, por isso é considerado um padrão de metadados altamente estruturado.
A característica do padrão MARC é comum para os cinco formatos coordenados da família MARC, porém serão destacadas aqui algumas características específicas do formato MARC 21 para Dados Bibliográficos, que é o mais conhecido e utilizado pela comunidade bibliotecária.
Estrutura do registro: “[...] é uma implementação da American National Standard para o Intercâmbio de Informação Bibliográfica (ANSI / NISO Z39.2) e a sua ISSO 2709.” (FERREIRA, 2002, p. iii);
Indicação de conteúdo: “os códigos e convenções estabelecidos explicitamente para identificar e caracterizar os dados dentro do registro e permitir sua manipulação [...]” (FERREIRA, 2002, p.iii). A indicação de conteúdo é feita em campos ou etiquetas do tipo campos de dados variáveis dentro do diretório do formato. Os campos, etiquetas são codificadas e se constituem nos elementos de descrição do formato, conforme apontado resumidamente a seguir:
Campo: unidades lógicas que representa um tipo de informação bibliográfica;
Etiqueta: identifica o campo e a informação a ser representada, é composta por um número de três dígitos, algumas podem ser duplicadas;
Indicador: são as duas primeiras posições de caracteres após a etiqueta, sua função é definir com maior detalhe os dados descritos nos campos, cada posição apresenta um valor a ser processado pela máquina;
Subcampo: alguns campos são divididos em subcampos ou elementos descritivos que especificam ainda mais a informação a ser representada;
Código de subcampo: esses subcampos são representados por códigos formados por uma letra minúscula antecedida de um delimitador (símbolo), cada letra utilizada para a indicação do subcampo representa uma informação diferente a ser representada;
Designador de conteúdo: refere-se ao conjunto de etiquetas, indicadores e códigos de subcampo que, segundo Furrie (2001) se constituem como chave do sistema de notação MARC 21. Para este autor, “Os três tipos de designadores de conteúdo são os símbolos taquigráficos que marcam e explicam o conteúdo de um registro bibliográfico” (FURRIE, 2001). O designador de conteúdo pode ser considerado como um elemento complexo de representação na estrutura do formato MARC 21.
Conteúdo dos elementos que compõe o registro: o conteúdo dos elementos descritivos do formato MARC é composto pela representação de informações, geralmente definidas por padrões externos como, por exemplo, ISBD (International Standard Bibliographic Description), AACR2 (Anglo American Cataloging Rules – segunda edição), LCSH (Library of Congress Subject Headings) etc., com exceção do líder e campos 007 e 008 que são definidos no próprio MARC (FERREIRA, 2002).
Para visualização da estrutura do formato MARC apresenta-se a seguir o campo título e indicação de responsabilidade, codificada pela etiqueta 245 apresentada em vermelho. Em azul, as duas posições dos indicadores; em laranja, um separador de subcampo e a letra minúscula “a” correspondente ao subcampo título; em verde, um separador de subcampo e a letra “b” correspondente ao subcampo complemento do título; na cor rosa, o separador de subcampo e a letra “c” correspondente a indicação de responsabilidade. As informações em preto correspondem ao conteúdo (valor) do campo, normalizado por padrões externos, neste exemplo o código de catalogação AACR2.
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Essa estrutura possibilita a construção de registros bibliográficos de modo que o mesmo represente uma variedade de tipos de recursos informacionais no que diz respeito ao seu conteúdo e forma; facilita a recuperação dos recursos em sistemas informacionais específicos, como os catálogos de bibliotecas; e promove o intercâmbio e compartilhamento de registros bibliográficos.
A evolução nas versões do formato MARC possibilitou a inclusão do campo 856 para a indicação da URL (Uniform Resource Locator) do recurso e, mais recentemente, a versão do MARC na linguagem XML (eXtensible Markup Language) trouxe maior flexibilidade ao formato. Contudo, o formato MARC apresenta algumas desvantagens quando se trata de seu uso em ambientes não específicos como a Web: uma das desvantagens refere-se ao custo e manutenção dos registros no formato MARC, e principalmente, a complexidade implícita da estrutura do formato, exigindo uma equipe qualificada e conhecedora não só do formato mas também dos códigos e normas utilizados na catalogação, assim como software específico para sua aplicação. Contudo, constitui-se como um padrão de metadados mais completo para a descrição de diferentes tipos de recursos informacionais.
Deste modo, destaca-se aqui a importância do conhecimento sobre os formatos ou padrões de metadados, principalmente em relação ao seu princípio de criação, pois ele norteará a toda sua característica, principalmente em relação à estrutura de descrição do formato e sua aplicação em ambientes informacionais.
Com base no exposto é possível traçar as seguintes considerações em relação aos padrões de metadados Dublin Core (DC) e MARC 21:
Devido à variedade de padrões de metadados é possível encontrar uma diversidade de tipos diferentes de representações de um mesmo recurso informacional. Quanto mais detalhada for a descrição, mais completa será a representação, pois existirá maior quantidade de pontos de acesso ao recurso informacional e consequentemente, melhor será a possibilidade de busca e recuperação.
Entretanto, é preciso levar em consideração o princípio e objetivo de cada padrão de metadados. O padrão de metadados DC não apresenta especificidade descritiva suficiente para representar os tipos de recursos de uma unidade de informação. Enquanto que o formato MARC 21 apresenta uma estrutura descritiva complexa para ser utilizada por qualquer indivíduo que não tenha conhecimento especializado da área de Biblioteconomia.
Quando se trata de um domínio específico, ou seja, quanto mais especializado for o ambiente informacional, maior será a necessidade de descrições detalhadas, ou ainda, maior será a necessidade de uso de um padrão de metadados altamente estruturado para garantir a especificidade de descrição necessária ao ambiente, neste caso a presença de especialistas em tratamento informacional é indispensável para garantir uma descrição adequada do recurso.
Contrariamente, quanto mais abrangente for o ambiente informacional, maior a necessidade de um padrão de metadados menos estruturado, que contenha apenas descrições mais gerais e que possa ser utilizado por indivíduos não especialistas em tratamento informacional.
Portanto, ressalta-se a importância do conhecimento sobre o propósito de uso do padrão de metadados, ou seja, é importante saber se o princípio pelo qual o padrão de metadados foi criado corresponde ao tipo de ambiente informacional no qual será aplicado, para que possa fornecer uma representação adequada dos recursos e uma recuperação eficiente.
3. PADRÕES PARA A CONSTRUÇÃO NORMALIZADA DE REPRESENTAÇÕES: modelos e esquemas da Ciência da Informação
A construção de representações por formatos ou padrões de metadados é algo complexo, de acordo com Méndez Rodríguez (2002, p. 192, tradução nossa) “Nos metadados convergem todos os aspectos relacionados com a normalização documental e todos aqueles relacionados com padrões técnicos de infraestrutura de comunicações na rede.”
Assim, percebe-se que o acesso às informações disponibilizada em rede depende de dois aspectos: a infraestrutura tecnológica aliada às iniciativas que estabelecem normas e procedimentos padronizados para a difusão e intercâmbio automatizado de informações entre sistemas e ambientes (MÉNDEZ RODRÍGUEZ, 2002).
Neste cenário de mudanças observa-se a solidificação de uma nova tendência em relação aos padrões de metadados: o desenvolvimento, a aplicação e o aprimoramento de padrões para a construção normalizada de representações nas estruturas de descrição (padrões de metadados).
No contexto da Web, a normalização dos padrões de metadados estruturados exige a aplicação consistente de MetaTag(s), contudo, “Os metadados requerem uma consistência em seu conteúdo e estilo para assegurar o intercâmbio de informação” (MÉNDEZ RODRÍGUEZ, 2002, p. 195, tradução nossa). Nesse sentido, em padrões estruturados como o Dublin Core, esta tendência pode ser observada no uso de esquemas de codificação nos elementos de refinamento do padrão, conforme apontado anteriormente.
Nos padrões de metadados altamente estruturados essa tendência é um requisito para que o padrão apresente uma formalidade na estrutura descritiva, especificidade e precisão na representação gerada, conforme pode ser observado pela estrutura do padrão de metadados MARC 21 abordada anteriormente.
Assim, percebe-se que essa tendência sempre esteve presente na área de Ciência da Informação, em especial na Biblioteconomia, que ao longo do tempo desenvolveu métodos e ferramentas para a representação informacional de modo consistente.
Contudo, atualmente presencia-se uma reavaliação dos métodos, técnicas e mecanismos de representação, com o intuito de melhorar o processamento da informação nos novos ambientes informacionais digitais.
Essa necessidade deu origem a um novo instrumento para a normalização dos metadados específicos da área, esse instrumento é o modelo conceitual, que desencadeou a revisão e aprimoramento dos esquemas de representação da área.
Muito estudado atualmente os FRBR (Functional Requirements for Bibliographic Records) – Requisitos Funcionais para os Registros Bibliográficos constituem-se como um modelo conceitual que oferece um modo de entender as relações em uma representação ou registro bibliográfico.
De acordo com a IFLA (2005), seu propósito é “recomendar um nível básico de funcionalidade e uma exigência básica dos elementos para os registros criados pelas agências bibliográficas nacionais”.
De acordo com Moreno (2005, p. 19, grifo do autor), o modelo FRBR pode ser explicado como sendo “[...] uma recomendação para reestruturar os registros bibliográficos de maneira a refletir a estrutura conceitual de buscas de informação [...]”.
De acordo com a IFLA (1998), o FRBR representa uma tentativa inicial de se estabelecer critérios para a compreensão e desenvolvimento de registros bibliográficos. Sua metodologia é baseada na teoria de Entidade-Relacionamento proposta por Peter Chen e se constitui em um modelo que atua no nível conceitual, estabelecendo relações entre entidades, atributos e relacionamentos. De acordo com Peter Chen (1990, p. 20), “Uma entidade é uma ‘coisa’ que pode ser distintamente identificada.”, essa identificação é dada pelos atributos, que são as características de uma entidade. As associações entre as entidades são determinadas pelos relacionamentos e suas propriedades.
Os FRBR foram estabelecidos com base nos princípios de catalogação, nos códigos de representação e padrões ou formatos de metadados da Biblioteconomia e sendo um modelo conceitual, auxilia na modelagem do banco de dados refletindo o universo bibliográfico; além disso, define por meio de suas entidades, atributos e relacionamentos os requisitos necessários para a construção de representações bibliográficas adequadas.
Portanto, os FRBR constituem-se como o mais novo modelo de requisitos para a modelagem de catálogos e bancos de dados a partir da construção normalizada de representações bibliográficas.
O aprimoramento dos esquemas de representação da área reflete a necessidade de consonância com o modelo conceitual, pois serão os esquemas que proporcionarão a normalização necessária aos padrões ou formatos de metadados da área.
De acordo com Méndez Rodríguez (2002), os esquemas podem ser considerados como códigos e regras externas que auxiliam na construção de representações nos padrões de metadados correspondentes. Em outras palavras, os esquemas auxiliam na definição e construção dos valores a serem preenchidos nos elementos descritivos do padrão de metadados.
Como exemplos de esquemas na área de Biblioteconomia, em especial na catalogação, podem ser citados: o código AACR2 (Anglo American Cataloging Rules – Código de Catalogação Anglo Americano, 2ª edição), as ISBD(s) (International Standard Bibliographic Description – Padrão Internacional de Descrição Bibliográfica) e o novo código RDA (Resource Description and Access – Descrição do Recurso e Acesso).
O AACR2 constitui-se como um código que apresenta um conjunto e regras e normas para a construção e padronização da representação bibliográfica de diversos recursos informacionais. De modo geral suas regras definem a forma de transcrição dos valores, onde podem ser encontrados, o que deve ser feito em casos especiais, quais valores devem estar contidos em um determinado elemento de descrição, entre outras regras. Pode-se dizer que o AACR2 normaliza a representação (valores) no formato ou padrão de metadados MARC 21 e devido a sua aceitação passou a ser considerado como um código de uso internacional (ALVES, 2005).
O RDA vem ganhando destaque por estar sendo construído de modo alinhado ao modelo conceitual FRBR e de acordo com a explicação de Gómez (2007), está organizado da seguinte forma: divide-se em duas grandes partes descrição e controle de pontos de acesso. Na primeira parte há outra divisão, uma para a descrição e a outra para as relações entre as entidades. Contudo o diferencial é que o RDA não estará organizado por tipo de material, mas pelos distintos atributos utilizados para a descrição de cada recurso (título, variações do título, indicação de responsabilidade etc).
Além disso, será possível estabelecer diferentes níveis de detalhe na catalogação, ou seja, escolher diferentes níveis de especificidade sem, contudo, perder a formalidade do esquema de descrição e as regras para a construção da representação no formato.
Não se sabe até o momento qual será seu alcance a aceitação na comunidade bibliotecária, assim não é objetivo aqui traçar todas as características do novo código, mas apenas destacá-lo como um novo esquema para a construção de representações normalizadas e que está em consonância com o modelo conceitual da área.
De acordo com Gómez (2007) a aplicação do modelo conceitual e do novo esquema de representação proporcionará um ótimo aproveitamento das tecnologias (GÓMEZ, 2007).
Porém, destaca-se que independente de qual esquema se consolidará na área, o importante é seu uso, pois garante a normalização adequada aos padrões de metadados da área.
Desta forma, pode-se dizer que o uso apropriado de um padrão de metadados proporciona uma descrição normalizada e a construção de representações concisas, claras e de qualidade, facilitando assim o intercâmbio de informações, interoperabilidade entre sistemas e a recuperação da informação.
4. CONSIDERAÇÕES
A construção de representações normalizadas dos recursos informacionais sempre foi uma preocupação da área de Ciência da Informação, em especial da Biblioteconomia. Ao longo do tempo foram sendo desenvolvidas e aperfeiçoadas várias metodologias, técnicas e ferramentas para a construção e normalização de representações.
A aplicação adequada do padrão de metadados em relação ao tipo de ambiente informacional ou ao tipo de propósito que se pretende atingir garantirá uma representação adequada nestes ambientes.
Entretanto, conforme aponta Méndez Rodríguez (2002) é importante que os metadados não sejam iniciativas caprichosas de áreas científicas distintas, devem responder às necessidades de recuperação da informação e constituir-se como padrões reconhecidos e compartilhados nessas áreas para facilitar o intercâmbio de informações.
Com base no exposto, considera-se que a construção de representações adequadas está pautada no uso de padrões de metadados correspondentes ao tipo de ambiente informacional, bem como o uso de ferramentas de normalização dos metadados, tal como os modelos conceituais e os esquemas de representação.
Acredita-se que o uso dessas ferramentas garante construção de representações de qualidade, facilitando assim a busca e recuperação baseada em metadados.
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