IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Grupo de Traballo C-20: Recursos sócio-técnicos para a participação política

Mudanças estruturais no trabalho causada pelas novas mídias - por uma consciência cidadã

Resumo

As alterações provocadas pela evolução digital nos fazem refletir sobre a prática cidadã diante dos desafios do profissional de comunicação no atual mercado de trabalho. Quando Canclini (2006) menciona as necessidades locais em meio à globalização, verificamos a disparidade existente entre os avanços tecnológicos e seus benefícios. Ao direcionarmos nosso olhar para o trabalhador de mídia, percebemos novas vítimas do sistema exploratório do mercado, o que prejudica as práticas de cidadania e o estímulo para provocar mudanças. De acordo com Santos (2002), evoluímos o suficiente para avaliar a nossa própria condição e provocar melhorias em todas as direções. Nesse sentido, o sujeito que se encontra em uma situação de exploração, ciente da evolução tecnológica, acaba ignorando seu potencial para diminuir as diferenças sociais. A partir dessa reflexão e utilizando diferentes autores como proposta metodológica, este artigo procura contribuir para fortalecer a cidadania na sociedade contemporânea, com especial no profissional jornalista que almeja melhores condições de vida e atua por uma sociedade menos injusta.

Texto da comunicación

Introdução

As novas mídias, ao mesmo tempo que promovem as interligações entre povos e sistemas e fazem ressaltar os impactos da globalização, provocam a intensificação de tarefas para os trabalhadores do campo da comunicação social. Profissionais que atuam perante a multiplicação de carências e a contínua redução de empregos, por serem atores sociais, são afetados pelos impactos advindos das mudanças causadas pela evolução tecnológica.

Surgiram novas frentes para atuação do jornalista nas quais se podem cumprir suas funções em favor dos interesses voltados para o cumprimento de direitos e deveres do cidadão. No entanto, essas frentes de trabalho vieram acompanhadas de preocupações pelos riscos e condições impostos, o que deixa o profissional inseguro. Pela subsistência pessoal, o jornalista enfrenta situação empregatícia contraditória ao que ele mesmo entende por cidadania.

Ante tantos impedimentos para que as garantias básicas do cidadão sejam cumpridas, existe o profissional que favorece as denúncias e provoca o cumprimento das obrigações de estruturas existentes. Enaltece o conceito de uma mídia que cobra os direitos ignorados por um sistema de abismos sociais, composto por situações onde ricos e pobres, coexistem com a sensação de faltar algo, entre necessidades materiais e imateriais.

No próprio embate pela promoção do bem comum,1 o jornalista não percebe a situação de trabalho onde se encontra, e se subjuga a imposições mercadológicas, aniquilando conquistas pessoais e seu domínio técnico. Situa-se em condições nas quais a “dignidade de cada indivíduo” é ferida ou anulada, e em locais de trabalho que impossibilitam o “exercício dos direitos humanos e de um pleno cumprimento dos respectivos deveres.” (MARCÍLIO, 2008, p.22).

Com isso, este artigo busca refletir sobre a cidadania do profissional de jornalismo que compreende a responsabilidade de suas práticas diante da sociedade, mas encontra-se tão ocupado nas suas funções que lhe falta autocrítica diante da exploração de seu próprio trabalho.

Sob o universo on e off

Ao refletirmos sobre os benefícios trazidos pela evolução digital, percebemos que esses vieram acompanhados pelo acréscimo dos problemas políticos, econômicos e sociais que já vinham afligindo a humanidade, apontando ser também a evolução da desigualdade humana.

Os últimos anos do século XX testemunharam grandes mudanças em toda a face da terra. O mundo torna-se unificado em virtude das novas condições técnicas, bases sólidas para uma ação humana mundializada. Esta, entretanto, impõe-se à maior parte da humanidade como uma globalização perversa. (SANTOS, 2001, p. 37).

Com a Internet, irrefreável causadora de impacto na sociedade, vieram as mil e uma possibilidades de aprendizado, alteração de sistemas organizacionais e inovação das formas de trabalho. Por ocasião de sua amplitude por força da abertura para fins comerciais na década de 1990, Negroponte (1995, p. 175) escreveu que os usuários da rede ocupariam o centro da vida cotidiana. O autor previu a criação de “um tecido social inteiramente novo e global”.

E eis que, em menos de duas décadas, as novas tecnologias estão em todos os campos possíveis e imagináveis, com praticamente tudo de nossas vidas percorrendo o mundo digital, como podemos inferir a partir das constatações como as de Castells (1999).

Formada por redes externas ou internas, a Internet traz informações acerca dos cuidados com a saúde da formação fetal ao retardamento da velhice, além de podermos consultar nossa vida financeira em que, da conta bancária, pagamos dívidas e efetuamos novas compras. Temos disponível toda espécie de lazer, tendo como consultar as nossas viagens e vermos se o hotel atende ao que pretendemos, ou conforme nosso gosto cultural, acompanharmos eventos, visitarmos museus e galerias, fazermos leituras ou nos divertirmos com jogos. Uma era em que se compartilham sentimentos e intimidades pelas novas mídias com familiares ou pessoas que nunca se viram.

De todas as interligações, o universo trabalhista é o campo de maior inserção e de estreita relação com as novas tecnologias e, por conseguinte, com a Internet. Com Castells (1999, p.262) compreendemos que, pelo amadurecimento das tecnologias da informação desencadeado na década de 90, o processo de trabalho sofreu grandes transformações, com novas formas de divisão técnica e social, principalmente em relação aos serviços ligados ao processamento da informação. Por consequência, vieram as reformulações das estruturas empregatícias, com fechamento de empresas e aumento de desemprego, com readequações de todo o mercado.

A busca pela completa automação somada à adoção de diversos tipos de controle tecnológico fez diminuir custos e também extinguir vagas, provocando a especialização de alguns e a busca por novas formas de sustento, desaparecendo profissões e ao mesmo tempo surgindo outras, com procura por novas ocupações e/ou atividades alternativas. Vieram os prestadores dos mais variados serviços e as terceirizações, enfim, formas que resultaram no barateamento do sistema trabalhista. Para Neves (2007, p.45) “a transição da era da Sociedade Pós-Industrial para a Era Digital tem como uma das características mais marcantes sua faceta de máquina de trituração e redução de empregos.”

Subsequentes a tais mudanças vieram as consequências psicoemotivas para aqueles que acompanharam o sistema digital ou se encontram nele incluso. Sem especificarmos sobre as muitas exigências da própria indústria trabalhista, é possível imaginarmos o quanto é massacrante para o ser humano atuar em concorrência com as máquinas, ainda mais quando existe certa crença na chamada inteligência artificial mais do que na humana.

A correria exige mais do que é possível ceder no espaço de 24 horas-dia. Há realidades em que, “para ir ao trabalho no dia-a-dia nas empresas, a grande maioria da massa de empregados deixa tanto o cérebro quanto o coração em casa.” (NEVES, 2007, p.59-60).

Com o caminhar do primeiro período de adequações e adaptações no campo trabalhista em relação às possibilidades digitais, notamos a entrega do ser humano de toda a sua vida a um sistema que o impede dividir melhor o seu tempo.

Talvez porque restem poucas coisas fora do universo online, o campo de sustentação financeira do indivíduo mesclou-se às suas possibilidades de fugas e dos momentos de folga. Entre as redes sociais existentes e outras atividades de sociabilidade que ocupam as pessoas diante dos computadores, ainda há quem consulte o universo online antes de sair para algum lugar real, buscando informações sobre como chegar e se o clima é favorável aos seus desejos. A informação parece integrar toda atividade humana, tal como na afirmação de Castells (1999, p.78) quando esse diz haver uma “penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias”.

São alterações citadas por alto que, acrescidas de outras, formam o contexto no qual os meios de comunicação, com os trabalhadores de mídia, estão inseridos e lidam em seus cotidianos. Trabalhadores envolvidos em um campo que, para Arnet (In. NOVAES, 1991, p.170) é uma “potência produtiva” de socialização, capaz de integrar e expandir mercados, e ainda impor “à desordem do mundo a ordem do jornal” pela forma que apresenta o mundo, tornando-o mais compreensível para as pessoas.

Mídia ubíqua, credível e contraditória

Não é de hoje que se reconhece o envolvimento dos meios de comunicação na vida social das pessoas e o favorecimento do acesso à informação por eles proporcionados, sendo considerados instrumentos de educação, construção de conhecimento e de participação cidadã. Vemos essas e outras qualidades com ênfase para as últimas décadas pela ampliação e consolidação dos meios, como especificam Erbolato (1982, p.24), Arnet (In.: NOVAES, 171-175, 1991) e em Ferreira quando esse nos fala da “(oni) presença dos meios de comunicação na vida social”, em que a “lógica social é engendrada nos e pelos meios de comunicação.” (FERREIRA, In.: GOBBI, 2008, p.93).

Para Canclini, quase tudo nos chega pela mídia, incluindo determinadas situações que acontecem ao nosso redor, tornando-a “a constituinte dominante do sentido “público” da cidade, a que simula integrar um imaginário urbano desagregado. (CANCLINI, 1998, p.288).

Devido à desagregação urbana, ainda de acordo com Canclini, a atuação dos meios de comunicação acaba substituindo as instituições existentes, com as pessoas indo “à rádio e à televisão para conseguir o que as instituições cidadãs não proporcionam: serviços, justiça, reparações ou simples atenção. (CANCLINI, 2006, p. 39).

Sob o império dessa (des)ordem mundial, buscam sentido, proteção ou também acompanhar cada passo das constantes mudanças mercadológicas. Sob as consequentes demissões, redução de salários, perdas das conquistas de direito e à margem da cidadania, usam a mídia como mediação para que suas vidas prossigam diante de inovações mais facilmente dominadas por gerações nascidas na fase humana mais veloz.

Contudo, a maior contribuição da mídia está em favorecer a manutenção do status quo – fluindo informações de uma “sociedade de desesperados e, portanto, a presa dos líderes.” (ADORNO, 2002, p. 53). É pelos meios de comunicação midiáticos que se reproduz o próprio sistema massificante, sendo força propulsora dos conglomerados e da continuidade do poderio vigente. Por ela flui “uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde” (SANTOS, 2001, p. 39), fazendo com que a sociedade prossiga nas mesmas condições de desigualdade, apesar de tanta evolução tecnológica.

Concomitante à atuação desfavorável em favor das maiorias, é pelo mesmo sistema de comunicação que se favorecem as interações sociais, a provocação de processos de cidadania e a geração de conhecimento. Nos atrevemos nesta reflexão a dizer da contribuição da mídia para a “pedagogia da existência”2 citada em Santos (2001, p. 116), em que as informações nos chegam e nos fazem enxergar as situações e as suas interdependências, possibilitando provocar o auto-conhecimento sobre nós, e do lugar onde nos encontramos. Em Santos (2001, p.116-169) a visão sistêmica argumentada pelo geógrafo nos faz compreender a interrelação de tudo que nos envolve, trazendo a noção de ser humano integral.

Dessa forma,

Se o processo comunicacional é estruturante da vida social, um de seus elementos-chave consiste no modo como os entes sociais percebem sua própria história. (...) No mundo em que vivemos, as mídias têm papel importante de criação, manutenção e desenvolvimento do simbólico e, consequentemente, da própria vida social. (LOPES, 2004, p. 106).

A mídia é ubíqua e contraditória porque atua ante os atores beneficiados e os massacrados pelo sistema e pelas funções mercadológicas, e também credível quando mediadora e porta-voz de ações favoráveis nesse mesmo sistema. Reúne uma multiplicidade de usos, em que seus executores e trabalhadores, por vezes, ressaltam interesses exclusivistas e, em outras ocasiões, ressaltam ações de cidadania e de provocação de debates.

Maior característica dos nossos tempos, acima do que a própria evolução do modo de fazer e de transmitir, é a de vivenciarmos um período em que o uso democrático dos meios de comunicação possibilita muito mais ser utilizado como representantes dos interesses públicos, como indica Canclini (2006, p.108) e capazes de renovar a espécie humana como apregoa Santos. (2001, p.169).

A evolução midiática atual possibilita propostas que favorecem a mobilização e maior participação, esteja essa caracterizada como meio convencional ou como nova mídia. Possui meios para provocar a participação que subtende maior percepção para lidar com as disparidades das ações globalizantes. Contempla comunicadores capacitados para a produção e a convergência entre as mídias, com desenvolvimento de projetos dinamizados e interativos para sistemas de TVs analógicas e digitais, possíveis de se veicularem pela web. Uma mídia agindo de modo local e intercontinental, com informativos e programas de rádio, textos em blogs e mensagens desafiadoras que podem ser enviadas via celulares e computadores pelo twitter ou MSN.

Está no ar um formato de mídia que ultrapassa as convencionalidades, capaz de atingir as pessoas pela proximidade, seja pela convivência ou por interesses comuns, de modo real ou virtual. Uma mídia que possui linguagens objetivas sem serem propriamente errôneas, que contribuem formando ou criando novos estilos. Uma mídia que consegue traduzir situações.

Cidadania exige período integral

Ao atentarmos para tudo o que envolve o nosso cotidiano, tornamo-nos perceptíveis para o que nos afeta e sensibilizados com o ambiente que nos rodeia. A partir da conscientização do que se vive, há provocação de mudanças, ora imperceptíveis, ora, somam-se a marcos históricos em favor da cidadania.

Para que possamos nos conduzir a autocrítica cotidiana, devemos nos referenciar, senão, reverenciar, toda a nossa evolução histórica, com ênfase, nesta reflexão, para a história do jornalismo, encontrando clareza diante dos primores e das fraquezas de outros tempos e do nosso próprio tempo. Assim nos alimentamos de condições para recusar o que nos tornam débeis pelas repetições de erros, e prosseguir em uma caminhada feita de indivíduos e de grupos em defesa do bem comum.

Ao percorrermos, os cem anos da história no Brasil (BAHIA 1990) desde a instalação da imprensa régia, em 1808, percebemos a passagem do amadorismo à profissionalização jornalística superada por aprendizados, sofrimentos e exemplos de grandes jornalistas e a instalação de escolas e faculdades para a formação de novos profissionais (RIBEIRO, 1994). É uma história de derrotas e vitórias com períodos que não podem ser esquecidos, como a ditadura,3 com jornalistas perseguidos, cassados, exilados e que, no conjunto das suas lutas e decisões, ajudaram no retorno à democracia.

Uma história tão viva e rica que na maior parte do tempo é relegada aos bancos escolares e esquecida no cotidiano de atuação, o que muito contribui à estagnação da caminhada pela evolução profissional se comparada ao salto tecnológico ocorrido nos últimos anos.

As exigências do cotidiano tornam imperceptíveis algum aviso de alerta e o trabalhador de mídia vive anestesiado pela própria rotina. Muitos apresentam atitudes que são repetidas desde os primórdios em que, o trabalhador sai de casa porque precisa lutar na busca de meios para sobreviver, em que o sujeito não sente mais a mesma razão de trabalhar que antigamente era a satisfação de admirar obras criadas pelas próprias mãos. (WEIL, 2001, p.23).

Resta pouco tempo para pensar se as aceitações e as decisões acabam afetando a composição humana a qual se faz parte (meio e categoria), obscurecendo a consciência sobre a condição de que cada ação individual completa a outra, e compõe o tecido social. Que o indivíduo é uno e igualmente uma soma na sociedade. “Nada escapa às dimensões econômicas, tecnológica, demográfica... toda vida, cada vida, a vida de toda sociedade, de cada sociedade só pode ser multidimensional.” (MORIN, 1986, p. 123).

Com algumas exceções, o que impera na categoria dos trabalhadores de mídia é o que acontece com a maioria dos trabalhadores: poucas vagas e muita competição, sem pensar muito nas consequências, a não ser no atendimento às necessidades básicas.

Frentes de trabalho dos agentes de mídia

Notamos que praticamente todas as formas de fluxo midiático passam pelo espaço virtual, ou encontram-se nele inseridos, com arquivamentos pessoais e em redes. Isso acontece com maior evidência no próprio uso das novas tecnologias como ferramentas de trabalho jornalístico, da organização de pesquisa, elaboração e transmissão, em que o emissor formula, dispõe e acompanha a receptividade do seu trabalho.

Essa lógica pode ser observada nos estudos sobre a produção de notícia, ou newsmaking (SOUZA, 2002, p.237-240; WOLF, 1999, p.220-252), quando constatamos a necessidade de elementos que facilitem e agilizem todo o processo de comunicação da informação, da sua recolha à transmissão. Com as novas tecnologias, a informação pode ser rastreada, pesquisada, acondicionada, produzida e, enfim, disposicionada para a ação e reação pública pela mídia.4

O jornalista atua em todas as frentes, mais ainda quando em início de carreira, buscando sua compreensão e o amadurecimento profissionais. Atua em “função multimídia” e prepara matérias que possibilitem as convergências entre as mídias, adaptando e distribuindo o conteúdo para o máximo possível que o sistema web possui, em blogs, you tube, orkut, my space, e também para mensagens no twitter, para os celulares e boletins para as diversas mídias, virtuais e convencionais. Para isso, é operador de equipamentos, pauteiro, fotógrafo, editor, produtor de áudio, tendo domínio do formato ‘tecnomídia’.5

Com a livre manifestação existente na web, em que o emissor é também receptor ou vice-versa, redobra-se a atenção do jornalista em acompanhar as transformações do meio e o fluxo das informações.

Há uma concentração de funções praticamente impossíveis de se cumprir, no entanto, acompanhar o processo de interatividade é imanente às funções, constatando o que os internautas opinam, com todos sendo parte do processo jornalístico. O alerta e a preocupação são constantes, devendo alimentar endereços eletrônicos, cuidar da audiência dos meios, da queda de vendas e negócios, da própria manutenção técnica onde atua. O trabalho gira em torno da reação dos outros, do que o colega de profissão pensa e faz, do chefe, do dono do veículo, da vizinhança, dos leitores.

Com isso, o jornalista mantém-se ocupado na correria sem sair da cadeira nem da frente de um monitor, atento para que as produções tenham tanto acesso ao veículo e página eletrônica que pouco ou nenhum tempo lhe sobra para outra ocupação, a não ser que tenha alguma relação com o que faz. Principalmente aquele que atua diretamente na mídia online, a ferramenta mais palpável é o teclado e o visor. A correria literal às ruas é feita quando muito necessário, geralmente, para complemento fotojornalístico.

Desde que o sistema midiático incluiu as ferramentas tecnológicas, o lazer mescla-se ao trabalho com os jornalistas que acompanham as informações em todos os momentos. As folgas que trazem relaxamento ou desligamento de tudo o que se faz no cotidiano são para um futuro distante. Tenta-se, primeiro, atender ao sistema de mercado e evitar suas consequências, incluindo a ameaça de extinção dos meios de comunicação que atua, e com isso, o desemprego.

Muitas conquistas estão se perdendo e aos poucos, cristalizam apenas como registro histórico:

Um número cada vez menor de pessoas está produzindo cada vez mais depressa e em maior quantidade e a nova geração da mídia é explorada. Emprego fixo, com carteira assinada e uma verba apreciável para despesas – como era praxe na grande imprensa e nas televisões estatais –, nem sonhar. (MARTIN e SCHUMANN, 1996, p. 145).

São situações que favorecem a alta rotatividade nas empresas jornalísticas e a pouca apuração no local dos acontecimentos. Sem adentrarmos no prejuízo que isso causa a conceitos básicos da função jornalística (objetividade, credibilidade, imparcialidade, factualidade) nos perguntamos: Como a mídia pode conceber processos de cidadania se os seus trabalhadores estão com direitos básicos violados em suas estruturas de atuação? Ainda que o sistema midiático possua condições propícias à mobilização e a maior participação, é possível a prática cidadã do jornalista sendo ele vítima do sistema exploratório de mercado?

Coesão e participação

Para que possamos discorrer sobre qualquer argumento que nos leve a alguma base de respostas, novamente nos voltamos a evidenciar sobre o conhecimento adquirido pelos jornalistas, acionado pela sua formação técnica. Ao longo de sua caminhada profissional acabam tornando-se detentores de um conjunto de informações técnicas suficientes para procederem de acordo à evolução do seu tempo. Para contribuir com nossa reflexão, trazemos Bertrand6 quando esse diz:

Na Web, qualquer um pode dizer o que lhe der na telha. Eis aí uma democratização inesperada. Mas o que a ciência da computação conseguiu foi o que Jürgen Habermas chamou de “democracia radical”, em que todos têm acesso à opinião pública, por mais ignorantes, papalvos, insanos e maliciosos que sejam. Como nunca antes, os cidadãos necessitam de uma garantia de autenticidade, de um selo de qualidade nas notícias. E, como nunca antes, há lugar para jornalistas competentes e honestos, aptos a filtrar, confirmar e comentar as informações disponíveis. (BERTRAND, 2002, p. 16).

Por essa constatação, vemos que os atores envolvidos para a efetivação dos processos de mídia estão cada vez mais diversificados, ressaltando, no entanto aqueles que reconhecem e se conduzem pela compreensão e a reflexão crítica dos meios. Inferimos que, para o exercício pleno da cidadania, as pessoas prescindem da informação credível, apurada e coesa para que possam decidir e fazer suas escolhas representativas. Para tanto, os profissionais de comunicação capacitados podem conceber uma mídia realmente mediadora “entre a realidade mutante, cada vez mais mutante, e a sociedade.” (DINES, 1990, p. 39).

Os trabalhadores relacionados com a transmissão do conhecimento e da informação, incidindo diretamente no profissional jornalista, recebem encargos naturais por atuarem com a informação e a comunicação, sendo simultaneamente responsáveis tanto pelo meio quanto pela mensagem, suscitando aqui um dos conceitos de McLuhan.

Independente da discussão de se prescindir ou não de diploma, em nosso tempo ainda cabe a esse profissional ser protagonista na composição da comunicação menos truncada, seletiva para determinados veículos, sistemas culturais e/ou localidades específicas.

O aumento cada vez maior de descumprimentos dos deveres e obrigações, das injustiças sociais e do fosso separatista provocado pelo poderio e riqueza faz dessa profissão uma “das poucas – ou das únicas – que não permitem o silêncio quando se quer ou se precisa calar” (BAHIA, 1990, p.32).

Há os valores éticos e deontológicos profissionais (KARAM, 1997), os direcionamentos e responsabilidades sociais inerentes ao jornalista (Medina, 1982) e ainda o cumprimento de deveres como cidadão, além da própria condição humana de contribuir com o meio onde se vive.

Contudo, é um profissional que está de tal modo envolvido com a correria que acaba ignorando a dimensão do que pratica. Aquém do meio, age sem sentir-se atingido ou sente-se apenas parte de uma composição geral, sem um sentido pessoal.

O modo de vida urbano sob todos os seus aspectos as pressões cronométricas, as sobrecargas, as necessidades imediatas, a pressa, a imprensa tendem a aniquilar toda possibilidade de rever, repensar, refletir. (MORIN, 1986, p.249).

Dispomos da tecnologia, dos portais do conhecimento, das instituições sedimentadas, de uma história de lutas e de aprendizados e, no entanto, o cotidiano da categoria jornalística é também marcado por infrações dos direitos trabalhistas. É uma profissão que atua à frente da interatividade midiática, conhece as possibilidades para as ações cidadãs e as cobram por meio de diversas formas, mas se deixam levar por um temor que lhes paralisa a compreensão sobre o que realmente os afeta.

O aceite das condições impostas pelo mercado é a obediência cega por uma competividade injustificada para o jornalista devido a sua condição de usuário das inovações midiáticas, de divulgador dos últimos acontecimentos e com preparo suficiente para estar atento às capacidades de evolução humanas. Isso faz do aceite em permanecer atuante em condições inadequadas um indivíduo que faz mau uso tanto das próprias ferramentas intelectuais quanto tecnológicas.

De acordo com o geógrafo Milton Santos (2002, p.39),

Os instrumentos com que contamos hoje já bastam para produzir uma nova ordem mundial que seja humana. As tecnologias à disposição são acessíveis e não escravizam o homem como antigamente. Ao contrário, o libertam. Está tudo aí. Temos tudo na mão para fazer um mundo gostoso.

Por mais que a evolução do meio tecnológico seja muito além do que a evolução do jornalista como profissional, evoluímos. Existem razões suficientes para a consciência crítica, de não-aceitação de condições impostas pelo sistema exploratório, e muito menos de se encontrar sob condições que ferem a ética cidadã.

Dessa forma, partindo do pressuposto de que a cidadania emana das individualidades para a coletividade, a dignidade da pessoa e os direitos violados por conta das atuais pressões devem ser combatidas por todos os trabalhadores afetados, e com muito mais afinco pelo agente midiático, devido a força e características que possui.

Se a aceleração e intensidades tecnológicas são sinônimos de evolução, a dignidade e a vontade humana devem esforçar-se por acompanhá-las e provocar tendências para o que é bom, manter o que é justo e repulsar as contrariedades aos preceitos estabelecidos. O incentivo à cidadania exige do jornalista uma postura de autodefesa contra os sistemas exploratórios nas sociedades. Assim, gera coesão com o que defende, caso contrário, há incontestável conflito entre o que se prega e o que se pratica.

Falta maior aceite do que se é, do que se tem como indivíduo, da capacidade de soma, de cooperação e de participação. Apesar do que conquistamos e o que evoluímos em ferramentas tecnológicas, domínio da técnica e da capacidade de raciocínio, avaliamos a profissão de jornalista ainda por baixo ao aceitarmos condições de subemprego.

Assim como todos os brasileiros, o trabalhador de mídia padece de uma costumeira subserviência oriunda do seu passado histórico – escravidão, dependência e ditadura. Assim como a maioria da população, aponta a responsabilidade no outro, no grupo, na política, no sistema. É raro enfrentarmos nossos medos para compreendermos as nossas capacidades, e de tudo, ver o que se pode fazer com o que temos e o que somos.

Conclusões

A ideia principal desta reflexão é provocar, além da autocrítica, maior aceitação da profissão de jornalista como uma categoria detentora de capacidades altamente modificadoras e condizentes com o seu tempo. É uma profissão que carrega valores, formada por indivíduos capazes de fortalecer a categoria que representam.

Refletir sobre a nossa realidade é fundamental para enfrentar, com argumentos convincentes, as situações de exploração e encontrar saídas. Estamos em tempos de discussões democráticas das quais devem participar os profissionais de comunicação.

A questão do fim da exigência do diploma de jornalismo afetou diretamente o profissional da área. Apesar de tudo, novos profissionais continuam sendo preparados pelas faculdades e lançados no mercado de trabalho. Uma das maiores consequências da decisão do Supremo Tribunal Federal foram os debates e sua repercussão na sociedade. Essa discussão democrática poderá encontrar uma forma mais adequada na estruturação da profissão.

A decisão provocou também maior mobilização de jornalistas nas discussões em torno da realização da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), a qual tem como tema “Comunicação: Meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital.”7 No site da Comissão Nacional Pró-Conferência de Comunicação, constatamos a presença de jornalista nas suas estruturações e entidades representativas. Nas 22 comissões instituídas, consta a participação da Federação de Jornalistas, de sindicatos de jornalistas, de departamentos de comunicação de universidades, associações, organização não-governamentais com componentes da área, dentre outras instituições (PRÓ-CONFERÊNCIA, 2009). De acordo com o fórum de debates do site da Pró-Conferência (2009), os envolvidos buscam provocar mobilizações para que se discutam os aspectos legais e mercadológicos da comunicação social no Brasil bem como a democratização dos meios.

Enfim, estas são boas oportunidades para promover reflexão sobre as condições cotidianas do profissional de jornalismo e revisar valores diante da evolução tecnológica que tanto afeta a profissão.

NOTAS:

1 Por ocasião da comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, as recomendações pela busca do bem comum, baseando-se na ética e nos valores sociais. (MARCÍLIO, 2008, p.22).

2 O geógrafo Milton Santos utiliza o termo para explicitar condições em favor da tomada de consciência: “Para isso, é fundamental viver a própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. Então a existência é produtora de sua própria pedagogia” (2001, p.116).

3 Para não a esquecermos, temos, dentre outros, os registros de jornalistas como Zuenir Ventura, em “1968, O ano que não terminou”; e Paolo Marconi em “A censura política na imprensa brasileira: 1968-1978”.

4 A esta menção de mídia como representante de todo o complexo midiático, tanto das mídias oriundas da evolução tecnológica, quanto das anteriores, em vista de as produções de rádio ou TVs também fazerem uso de computadores e da rede mundial para desenvolvimento de suas pautas.

5 A junção das palavras tecnologia e mídia é aqui utilizada para subentender o domínio das ferramentas tecnológicas em relação às novas mídias.

6 Bertrand comunga com esta reflexão a partir de sua dedicação à investigação e divulgação de sistemas de responsabilização dos media (MAS – Media Accountability Systems), o que inclui os códigos de conduta e os conselhos, a informação crítica e a alfabetização mediática. Cria na possibilidade de se garantir, ao mesmo tempo, a liberdade e a excelência dos meios de comunicação.

7 O Decreto presidencial, publicado no dia 16 de abril de 2009, traz a data da realização da Confecom para os dia 01, 02 e 03 de dezembro de 2009 (PRÓ-CONFERÊNCIA, 2009).

Bibliografía/Referencias


  • ADORNO, Theodor. Indústria Cultural e Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2º edição, 2002.

  • ARNET, Ricardo. A Desordem do Mundo e a Ordem do Jornal. In.: NOVAES, Adauto (org.). Rede Imaginária: Televisão e Democracia. São Paulo: Cia das Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 1991.

  • BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica: História da Imprensa Brasileira. São Paulo: Ática, 4ª edição, Vol. I, 1990.

  • BERTRAND, Claude-Jean. O Arsenal da Democracia: Sistemas de Responsabilização da Mídia. Bauru-Sp: EDUSC, 2002.

  • CANCLINI, Nestor García. Consumidores e Cidadãos. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 6º edição, 2006.

  • ______. Culturas Híbridas: Estratégias para Entrar e sair da Modernidade. 2ª edição, São Paulo: Editora da USP, 1998.

  • CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

  • COMISSÃO NACIONAL PRÓ-CONFERÊNCIA DE COMUNICAÇÃO. Comissões Estaduais. Disponível em http://proconferencia.org.br/. Acesso em 30/09/2009.

  • DINES, Alberto; NASSAR, Paulo; KUNSCH, Waldemar Luiz (orgs.) Seminário de Comunicação Banco do Brasil: Estado, Mercado e Interesse Público: A Comunicação e os Discursos Organizacionais. Brasília: Banco do Brasil, 1990.

  • FERREIRA, Giovandro Marcus. A Construção da Democracia Midiática na Sociedade Digital: Das Políticas Públicas às Ações Comunitárias. In GOBBI, Maria Cristina (org.). Ciências da Comunicação no Brasil Democrático. São Paulo: Intercom, 2008

  • KARAM, Francisco José. Jornalismo, Ética e Liberdade. São Paulo: Summus, 1997.

  • LOPES, Luiz Carlos. O Culto às Mídias: Interpretação, Cultura e Contratos. São Carlos, EdUFSCar, 2004.

  • MARCÍLIO, Maria Luiza (org.). A Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sessenta Anos: Sonhos e Realidades. São Paulo: Editora da USP, 2008.

  • MARCONI, Paolo. A Censura Política na Imprensa Brasileira: 1968-1978. São Paulo: Global, 1980.

  • MARTIN e SCHUMANN, Hans-Peter e Harald. A Armadilha da Globalização: O Assalto à Democracia e ao Bem-estar Social. São Paulo: Editora Globo, 3º edição, 1996.

  • MEDINA, Cremilda. Profissão Jornalista: Responsabilidade Social. São Paulo: Forense, 1982.

  • MORIN, Edgar. Para Sair do Século XX. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1986.

  • NEGROPONTE, Nicholas. A Vida Digital. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

  • NEVES, Ricardo. O Novo Mundo Digital: você já está nele: Oportunidades, ameaças e as mudanças que estamos vivendo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2007.

  • RIBEIRO, Jorge Cláudio. Sempre Alerta: Condições e Contradições do Trabalho Jornalístico. 2ª edição, São Paulo: Brasiliense, 1994.

  • SANTOS, Milton. Por uma globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. 5ª edição, Rio de Janeiro: Record, 2001.

  • ______ O País distorcido: O Brasil, a globalização e a cidadania. São Paulo: Publifolha, 2002.

  • SOUZA, Jorge Pedro. Teorias da Notícia e do Jornalismo. Chapecó, Argos, 2002.

  • VENTURA, Zuenir. 1968: O Ano que não Terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

  • WEIL, Pierre. Relações Humanas na Família e no Trabalho. Vozes, Petrópolis, 2001.

  • WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação: Mass Media: Contextos e Paradigmas, Novas Tendências, Efeitos a Longo Prazo, o Newsmaking. 5ª edição, Editorial Presença: Lisboa, 1999.


© Tódolos dereitos reservados