IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Relator/es


Resumo

O pressuposto da investigação é que as demandas sociais da cidadania, apesar de relevantes, não formariam um conjunto de assuntos destacado no conjunto do noticiário. O jornalismo só tangenciaria as questões sociais, em especial nos eventos pontuais agudos (acidentes, calamidades, ocupações), de modo que os direitos sociais ligados da cidadania não formam um assunto privilegiado pela imprensa. Aparentemente, só em circunstâncias dramáticas um assunto da esfera da cidadania social assomaria o campo do noticiário da grande imprensa. Como hipótese, a verificar analiticamente, poderíamos dizer que os meios noticiosos, embora representem bem as questões do mercado, da política institucional e da classe média (consumidora, compradora e leitora dos jornais e revistas), o fariam de forma limitada em relação aos temas que afligem as maiorias de forma crônica.

Texto da comunicación

JORNALISMO E CIDADANIA

A primeira forma de entender as relações entre o jornalismo e cidadania é a partir da concepção da informação como um direito civil, um dos direitos relativos à esfera pública, como a liberdade de opinião e de expressão, de imprensa, de reunião e de associação, que se manifesta pelas liberdades de difundir informações sem censura e de criar jornais. O acesso à informação é um “direito-meio”, que dá acesso aos demais direitos, entendidos como “direitos-fim”. É por meio da informação que os cidadãos podem fazer escolhas e julgamentos de forma autônoma, de modo que ela os auxilia a exercerem suas prerrogativas, tornando mais acessíveis os demais direitos por meio de sua divulgação (GENTILLI 2005).

Michael Schudson, indo além das considerações sobre a natureza jurídica, identifica obrigações éticas que o jornalismo teria com a cidadania, de tal modo que, segundo ele, os meios deveriam aspirar à realização de algumas missões:

1) proporcionar informação justa e completa para que os cidadãos possam tomar boas decisões;

2) prover quadros de referência que ajudem os cidadãos a compreenderem o universo político, analisando e interpretando a política de modo a habilitar os cidadãos a terem discernimento político e a agirem;

3) servir como veículos das perspectivas dos grupos da sociedade (o que em certo sentido contraria o item 2, observa Schudson, já que não pode haver uma coerência articulando perspectivas opostas);

4) oferecer a quantidade e qualidade de notícias, segundo a vontade das pessoas, ou seja, atender ao mercado;

5) representar o público e falar em defesa do interesse público, de modo a pressionar para que o governo preste contas à sociedade;

6) evocar simpatia e promover compreensão entre os cidadãos para que sintam compaixão por seres humanos;

7) prover um fórum para o diálogo entre cidadãos que não apenas informe as tomadas de decisão democráticas, mas seja um elemento do processo (SCHUDSON, 2003, p. 29).

A partir da postulação desses compromissos, este trabalho pretende analisar a ação da imprensa em relação à cidadania, pelo exame de dois jornais da grande imprensa. O pressuposto da investigação é que as demandas sociais da cidadania, apesar de relevantes, não formariam um conjunto de assuntos destacado no conjunto do noticiário. O jornalismo só tangenciaria as questões sociais, em especial nos eventos pontuais agudos (acidentes, calamidades, ocupações), de modo que os direitos sociais ligados da cidadania não formam um assunto privilegiado pela imprensa. Aparentemente, só em circunstâncias dramáticas um assunto da esfera da cidadania social assomaria o campo do noticiário da grande imprensa. Como hipótese, a verificar analiticamente, poderíamos dizer que os meios noticiosos, embora representem bem as questões do mercado, da política institucional e da classe média (consumidora, compradora e leitora dos jornais e revistas), o fariam de forma limitada em relação aos temas que afligem as maiorias de forma crônica.

Partimos da suposição de que, embora os meios pareçam representar razoavelmente as questões de cidadania relativas à classe média, isso aparentemente não ocorre com igual intensidade no caso das maiorias, nem no caso de categorias marginalizadas. Haveria uma preocupação limitada dos meios em incluir demandas sociais da cidadania social ampliada. A prática recorrente dos meios parece ser a da cobertura preferencial do “status quo”, dando espaço maior a temas de política e economia, sem destacar sua contrapartida social, ou seja, a questão da desigualdade da sociedade brasileira e a situação calamitosa das classes subalternas. Há também uma preferência por temas políticos institucionais, relacionados aos poderes Executivo e Legislativo, aos processos eleitorais, dedicando, por outro lado, espaço reduzido aos protestos e às formas de luta política conduzidas pelos movimentos sociais (MIGUEL, 2001).

Por outro lado, presumimos que o problema da sub-representação das questões da cidadania social decorreria também da natureza do jornalismo baseado em critérios de noticiabilidade que privilegiam os acontecimentos pontuais, as pessoas importantes, o número, o impacto imediato e não os processos de longa duração. Nesse caso, as camadas mais pobres da sociedade só alcançariam visibilidade no noticiário em ocorrências pontuais extremas: acidentes, chacinas, confrontações, calamidades, ocupações, situações que apresentam valores-notícia, ou seja, que se inserem nos critérios de noticiabilidade pelo número de pessoas envolvidas, pela negatividade ou pelo tom emocional das histórias pessoais e não como expressões das injustiças, das assimetrias sociais, da desigualdade de oportunidades e de renda, da exclusão histórica, da condição de moradia, etc. Desse modo, cessadas as circunstâncias imediatas do acontecimento, o assunto tenderia a desaparecer do noticiário ou a restringir-se a pequenas notas.

A ANÁLISE

Indicado, em suas linhas gerais, o quadro de referências teóricas, procuraremos verificar a acuidade das críticas à cobertura dos temas de cidadania pelos meios, desenvolvendo a análise de uma amostra da imprensa brasileira diária. A análise foi realizada sobre reportagens dos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo com relação a temas de cidadania, tendo como corpus uma amostra dos jornais paulistas de maior circulação, no período de 6 a 27 de novembro de 2008. Identificamos os itens do noticiário dos diários sobre a temática da cidadania e criamos categorias para situá-los, de modo a produzir uma tabela quantificando a área dos jornais dedicada aos diversos assuntos, estabelecendo a ordem de importância das coberturas jornalísticas da cidadania nos dois jornais. A área dedicada pelos jornais para cada sub-tema é comparada e são feitas inferências. Algumas perguntas básicas conduziram a descrição dos resultados:

- Quais temas de cidadania foram pautados e com qual freqüência?

- Que importância (em termos de extensão das matérias) cada um dos jornais analisados atribui aos temas de cidadania de interesse das camadas majoritárias da sociedade?

- É possível estabelecer critérios de noticiabilidade, a partir das pautas?

- Os jornais tomaram a iniciativa de agendar temas?

Verificamos que os assuntos relacionados aos direitos sociais da cidadania corresponderam a 10,2% do conjunto das matérias jornalísticas dos cadernos da Folha destinados a questões públicas nacionais (Brasil, Cotidiano, Dinheiro) e a 8,5% dos cadernos de O Estado (Nacional, Economia & Negócios, Cidades). Por decisão metodológica, ficaram fora do cômputo os conteúdos editoriais sobre esporte, cultura, consumo, entretenimento, ciência, informática, vestibulares, além do noticiário internacional, de modo a restringir o estudo às questões sociais, políticas e sócio-econômicas, em âmbito nacional.

A Tabela 1 apresenta os resultados em termos quantitativos, permitindo identificar quais direitos de cidadania foram cobertos, bem como a ordem de importância que foi atribuída a cada um deles em cada jornal, com base nos percentuais de espaço dedicado a eles na amostra, em relação ao total das matérias sobre cidadania.

Tabela 1 - Importância dos temas de cidadania nos jornais

OESP e FSP, no período de 6 a 27 de novembro de 2008.

Vamos analisar os resultados e avançar algumas interpretações genéricas sobre eles, tentando ultrapassar o nível puramente descritivo, embora conscientes de que se trata de uma sondagem preliminar, sobre um corpus relativamente limitado.

Primeiramente, vemos que o tema relativo aos direitos sociais com maior espaço nos dois diários no período estudado foi o das relações de cor, com cerca de 22% do total, incluindo as matérias tratando de questões relacionadas aos negros e índios no Brasil. Esse resultado decorre da publicação pela Folha, no dia 23/11, de um suplemento especial intitulado Racismo, dedicado totalmente à questão do negro no Brasil, fato que também explica a grande diferença entre os dois jornais com relação ao espaço dado a esse tema. A realização da pesquisa e a publicação do suplemento foi motivada pela proximidade do Dia da Consciência Negra (20/11), com suas comemorações e homenagens, bem como à aprovação, pela Câmara, do projeto de lei que determina a reserva de das vagas nas universidades federais e escolas técnicas de ensino médio a alunos de baixa renda ou que se autodeclaram negros ou índios. Em ambos os jornais, foram publicadas várias reportagens, artigos de opinião sobre a questão das cotas, além de matérias sobre os primeiros cotistas, que sofrem preconceito, apesar de terem desempenho acadêmico dentro da média e também uma entrevista com Carlos Vogt, estudioso de quilombos, sobre a integração do negro.

O segundo tema em importância, com 17% do espaço das matérias sobre cidadania, tragédias/clima, se refere às reportagens sobre as populações afetadas por chuvas e enchentes no Brasil, especialmente em Santa Catarina, no mês de novembro de 2008, com mortes e desalojamento de milhares de pessoas. Trazendo muitos textos, a cobertura da Folha utilizou também um espaço considerável para fotos e histórias pessoais, razão pela qual a área dedicada ao assunto é quase o dobro daquela de O Estado. Catástrofes constituem um tema aos quais jornais tradicionalmente abrem grande espaço e cuja importância jornalística deriva de diversos critérios clássicos, a saber: acontecimento inédito, apresentando grande interesse humano, ocorrido na proximidade, alcançando grandes contingentes populacionais, com conseqüências graves para a sociedade. Confirmou-se, aqui, portanto essa tendência da cobertura, a qual, no entanto não deixa de ser sensível a um tema que alcança os direitos da cidadania, na medida em que envolve aspectos políticos, como planejamento urbano, prevenção de calamidades, capacidade de socorro pela defesa civil, necessidade de apoio às populações atingidas, além da responsabilidade da ação humana nos climáticos radicais. Pensando em termos de “direitos”, que consubstanciam o conceito de cidadania, o tema das calamidades trata de um direito a um ambiente seguro e ao oferecimento pelos governos de dispositivos de socorro e apoio às vítimas de calamidades.

O terceiro assunto em ordem de importância no noticiário sobre temas sociais, com 16% do espaço das matérias sobre temas sociais da cidadania, diz respeito às questões envolvendo o desemprego e a renda. A importância atribuída ao tema reflete a crise econômica mundial desencadeada pela desvalorização imobiliária nos Estados Unidos, que começava a apresentar impactos na economia brasileira, no período da amostra. Destaca-se a enorme disparidade entre os espaços dedicados ao tema nos dois jornais: O Estado esteve muito mais atento e publicou mais reportagens e artigos sobre diferentes aspectos do desemprego e renda, revelando uma preocupação maior com a análise dos desdobramentos das questões tratadas.

Em quarto lugar, com 15% do espaço sobre direitos de cidadania, figuram saúde e saneamento. Nesta categoria foram selecionados os textos que tratavam da saúde pública em geral, trazendo tanto informações sobre a saúde da população e sobre saneamento, quanto sobre o sistema público de saúde. O espaço dos textos informativos sobre saúde foi um pouco maior em O Estado, enquanto, em sentido oposto, Folha apresentou maior extensão de conteúdo opinativo. Há diferenças nos assuntos noticiados, bem como nos posicionamentos. Ambos os jornais, no entanto, publicaram dois artigos opinativos por ocasião da divulgação de uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas sobre o saneamento no Brasil. Observa-se, portanto, seja pela posição do assunto na ordem de espaço editorial, seja pelas matérias opinativas, que as questões de saúde coletiva figuraram com certo relevo nas pautas das edições da amostra.

Em quinto lugar, em termos de importância, com 10,6% do espaço relativo às matérias sobre cidadania, a educação pública apresentou a maioria das matérias baseadas em dados de pesquisas divulgadas pelo próprio governo, desdobrando-se em outras reportagens e em artigos opinativos. No começo do período analisado, por exemplo, os dois jornais publicaram pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (ligado ao Ministério da Educação) revelando que o gasto do governo federal com educação não acompanhou o crescimento da economia. Já na questão das cotas raciais e sociais de acesso à universidade, provavelmente devido ao caráter controvertido do assunto, os jornais trouxeram diferentes opiniões, em reportagens e artigos opinativos, além de simplesmente reproduzir as fontes oficiais.

Na categoria “anistia/regime militar”, sexta em ordem de importância, com 7,6% do espaço da amostra, estão as reportagens e artigos que envolvem reparações das violações dos direitos humanos cometidas pelo governo brasileiro durante o regime militar e sobre a interpretação da Lei de Anistia. Como mostra a tabela, o assunto recebeu espaço bem maior do jornal O Estado de S. Paulo, que trouxe mais análises de especialistas e atores da sociedade civil sobre a questão, recurso menos utilizado pela Folha. As discussões sobre a Lei de Anistia (Lei 6.683/79) apareceram na imprensa depois que, em maio de 2008, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, defenderam publicamente punições aos militares torturadores, que teriam praticado, durante a ditadura militar, crimes comuns de violência física e psicológica, e não “crimes políticos”.

As matérias referente ao assunto “greve”, sétimo em importância na amostra, com 4,2% do espaço médio dos jornais, foram quase exclusivamente sobre a paralisação da polícia civil no estado de São Paulo, deflagrada em setembro de 2008, com exceção de uma reportagem na Folha sobre greve na empresa Johnson. A Folha abriu um espaço quatro vezes maior e deu um tratamento mais abrangente à greve, acompanhando as negociações com o governo e o desfecho da paralisação, trazendo matérias sobre os salários pagos na área da Segurança Pública no Brasil e entrevistas com especialistas. Já O Estado trouxe somente os fatos necessários para o leitor acompanhar o andamento da greve, sem confrontar argumentos.

Apesar da gravidade dos atos ilegais do aparelho policial, em desrespeito aos direitos civis dos cidadãos, o assunto “violência policial” ficou em oitava posição, com 3,7% da área dos jornais dedicada à cidadania. A área dessas informações é maior em O Estado e não houve, em nenhum dos jornais analisados artigos de opinião sobre o assunto. Os dois jornais trouxeram as controvérsias do caso de dois rapazes, um de 23 anos e outro de 16, flagrados fumando maconha em uma área militar no Rio de Janeiro, sendo que o menor teria sido queimado por um líquido e recebido choques elétricos. Os acusados foram cinco militares que alegaram só terem usado spray de pimenta para deter os dois invasores da área, que teriam tentado fugir. A Folha e O Estado também publicaram reportagem sobre a apuração de tortura de presos, revelada por meio de um vídeo divulgado na internet. A Folha veiculou reportagem sobre a morte de um rapaz de 18 anos, que teria sido obrigado por seis policiais da zona leste de São Paulo a beber lança-perfume. Por fim, o jornal publicou duas reportagens atualizando o caso de uma acusação ao Exército, de que teria torturado índios de uma tribo no Amazonas em 2007.

Embora seja um tema da maior relevância, num país que apresenta indicadores muito insatisfatórios sobre essas questões, as reportagens sobre “pobreza e desigualdade” ficaram em antepenúltimo lugar, na escala de área dedicada nos dois jornais, com menos de dois por cento da área média das matérias de cidadania, fortemente concentradas em O Estado. A grande disparidade entre a cobertura de O Estado em relação à Folha na temática da pobreza deve-se à publicação de um estudo que detalhou a miséria brasileira, publicado por O Estado. Como desdobramento dessa reportagem, foram publicadas mais quatro, tratando de exemplos extremos de municípios no Brasil com os melhores e piores índices. As outras reportagens dos dois jornais se basearam em informações de fontes do governo. A Folha noticiou um novo índice a ser criado para medir o nível social das famílias brasileiras e a seca no Nordeste, que fez 291 municípios decretarem estado de emergência. Já O Estado teve reportagens sobre os ajustes no orçamento da Prefeitura de São Paulo e a área social, assim como declarações de Lula sobre sua intenção de manter os programas de complemento de renda.

O espaço dedicado à questão da habitação, penúltimo assunto da tabela, é bastante parecido nos dois jornais, principalmente no que concerne a conteúdos opinativos, somando 1,7% do espaço investigado. Na Folha, houve um artigo de opinião sobre o direito de morar e as submoradias, enquanto O Estado, trouxe texto opinativo sobre a atuação da Prefeitura de São Paulo na implantação de infra-estrutura em loteamentos irregulares na periferia. Quanto ao jornalismo informativo, em ambos os jornais, as notícias que mais tiveram destaque foram sobre um incêndio em uma favela da zona sul de São Paulo. Apesar de motivar matérias com muitos detalhes, o episódio não provocou discussões nos dois jornais envolvendo o tema da habitação. Dois atos de protesto do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto foram noticiados pela Folha, apenas com uma foto e sua legenda, nos dias 12 e 26/11. Essas reportagens reafirmam a suposição de que restrições crônicas dos direitos da cidadania social costumam ser abordadas apenas em situações-limite.

O assunto com menor área nos jornais foi o da reforma agrária e movimentos sociais no campo, limitado a 1% do espaço editorial examinado. Houve grande disparidade entre os jornais na cobertura deste assunto: enquanto O Estado cobriu o tema com reportagens sobre diversos acontecimentos, a Folha publicou apenas uma nota sobre uma indenização que o governo deveria pagar, por conta de uma desapropriação de terras. O Estado publicou matérias e notas sobre casos de protestos e ocupações de terras e duas reportagens sobre a queda do número de assentamentos em 2008. Entretanto, não houve textos opinativos e a cobertura dos protestos e ocupações foi superficial. Somente as matérias sobre a diminuição dos assentamentos foram mais desenvolvidas. Da mesma forma que o item anterior, habitação, reportagens sobre a questão fundiária são geralmente provocadas por ocupações e ações de protesto e, neste caso, apresentam certa sazonalidade, na dependência das manifestações do MST.

INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

Em primeiro lugar, pesquisa demonstrou que os jornais analisados (dois diários importantes, com influência sobre outros meios) cobrem os temas de cidadania, embora concedam a eles um espaço reduzido (em média 9,3% da área das matérias sobre assuntos públicos correntes). Apesar dessa limitação da importância, documentamos que temas de cidadania foram reportados, corrigindo certa crítica linear radical que identifica os jornais exclusivamente com os interesses particularistas das classes proprietárias. A pesquisa permitiu identificar onze temas, relacionados na Tabela 1, revelando a gama diversificada da agenda dos dois diários sobre temas de interesse para a cidadania.

No entanto, a ordem de importância dos temas, aparentemente, confirma a suposição inicial de que a agenda dos jornais revela um forte viés de classe. Podemos observar uma ordem de precedência na Tabela 1, que mostra os temas de interesse da classe média contemplados prioritariamente. A ordem de importância dos temas com mais espaço nos jornais revela graficamente essa primazia da representação da classe média, como se pode observar:

1) o racismo (existe uma classe média negra no Brasil);

2) as calamidades (que atingiram a toda a população, sendo que muitos atingidos eram proprietários, sitiantes);

3) o desemprego (que alcançou também executivos e funcionários administrativos);

4) a saúde (tema de interesse universal, porque o SUS também cobre serviços usados por quem tem convênio particular);

5) a educação (a classe média freqüenta fortemente as universidades públicas);

6) a anistia (militantes do período autoritário pertencem à classe média);

7) as greves (a maioria do noticiário foi sobre a paralisação de policiais civis, incluindo delegados de polícia).

Na medida em que editores, jornalistas, conforme observamos anteriormente, pertencem à classe média, tenderiam a ser mais sensíveis aos temas que dizem respeito a sua classe social ou também a ela e a agendá-los mais extensamente. Como os leitores também fazem parte majoritariamente da classe média, podemos supor que o seu interesse por essas matérias seja predominante, encorajando as seleções feitas pelos editores, reforçando a característica.

Em sentido contrário temas como “violência policial”, “pobreza/desigualdade”, “habitação” e “reforma agrária”, que se referem diretamente a problemas das camadas subalternas da sociedade brasileira foram exatamente os quatro últimos, com menor espaço relativo no noticiário sobre cidadania, somando apenas 8,4% da área dedicada ao tema. À falta de interesse de jornais (e de leitores?) por temas que não digam respeito à classe média, adiciona-se, o fato de que, por razões de natureza jornalística, os jornais cobrem mal questões permanentes, problemas persistentes, os quais afligem as maiorias, uma vez que essas circunstâncias não constituem novidade. Somados ambos os fatores, o de classe e o critério profissional de agendamento dos assuntos, tenderia a diminuir ainda mais a visibilidade dos temas sociais das classes populares.

Confirmamos analiticamente a suposição de que o noticiário da cidadania é fortemente influenciado pelos valores-notícia intrínsecos dos acontecimentos, como é o caso das crises humanitárias provocadas pelas calamidades climáticas em Santa Catarina ou o do desemprego resultante da crise econômica de 2008. Esses dois temas, situados em segundo e em terceiro lugares em termos de espaço editorial, foram agendados sistematicamente provavelmente porque contêm muitos fatores que os tornam fortemente noticiáveis, como o número de pessoas envolvidas, o impacto na sociedade, a atualidade, o ineditismo, a negatividade. Jornais diários praticamente se definem pelo compromisso tácito com os leitores em torno de destaques de atualidade mas, nem por isso, o agendamento pelo noticiário de temas de interesse social deixa de ter um papel importante, ao dar visibilidade a temas de interesse das camadas populares. Também foi possível confirmar que os jornais, geralmente, não fazem investigações jornalísticas próprias sobre temas sociais, valendo-se da divulgação de dados de pesquisa liberados por fontes oficiais.

Porém, esta não é uma característica absoluta. Considerando o tema “minorias” (que obteve maior espaço na média entre os dois diários, em virtude do suplemento Racismo da Folha), vemos que jornais podem tomar a iniciativa de agendar temas de cidadania que não sejam os de maior impacto ou determinados pelo momento. Ou seja, os jornais têm uma relativa autonomia para construir suas pautas, podendo fazê-lo a partir de critérios de relevância propostos pelas redações ou por editores.

Essas observações apontam a existência de dois fatores relacionados ao agendamento de temas de cidadania social pelos jornais diários: os critérios profissionais de noticiabilidade e a iniciativa do veículo. Os temas da cidadania podem ser agendados pelos jornais a partir de sua noticiabilidade, mas, neste caso, as reportagens estariam na dependência de algum atributo que os inclua no critério, como citamos, o impacto sobre a nação; o número de pessoas envolvidas; a importância para o desenvolvimento de uma questão; a importância ou notoriedade de pessoas envolvidas; a negatividade; a mobilização social, entre outros. Esse critério, como já observamos, tem como conseqüência diminuir a visibilidade dos problemas crônicos, de longo prazo, das maiorias.

O suplemento Racismo é um exemplo do segundo princípio: a redação planeja uma série de reportagens, encomenda uma pesquisa, a fim de editar todo um caderno sobre um tema que pode não apresentar um interesse imediato para a média dos leitores ou não se apoiar num fator de oportunidade ou circunstância especial. O que conta nesse tipo de cobertura é a iniciativa dos jornalistas, dos editores ou do publisher, entendendo que haja pessoas em posição de tomar decisões editoriais importantes, eventualmente, na contramão das práticas rotineiras. A iniciativa pode ser estimulada por agentes externos, como organizações e movimentos sociais, entidades da sociedade civil ligadas às lutas da cidadania, que agem deliberadamente de forma dar visibilidade e a defender matérias pela imprensa (advocacy). Esses seriam tipos de ação que poderiam, eventualmente, fomentar as transformações graduais na cobertura jornalística, a que nos referíamos anteriormente. O exemplo mais destacado que temos no Brasil é o da ANDI, que permanentemente sinaliza à imprensa sobre o relevo das questões da infância e da juventude, encorajando coberturas sobre esses assuntos.

O trabalho sugere, portanto, que, embora jornais diários sejam em grande parte orientados para os temas da atualidade, constituem um espaço tenso que, eventualmente, pode disputado por setores da sociedade, por meio de ações que confiram saliência aos temas da cidadania, a ponto de serem pautados pelas editorias. Como tratamos em outro texto (SOARES, 2007), a atenção a temas e questões cidadania pela imprensa poderia ser interpretada como concessão das classes hegemônicas aos interesses das demais classes, com vistas à liderança política e cultural. Essa abordagem permite substituir as antinomias sobre o papel da imprensa nas sociedades democráticas (condenando-a ou elogiando seu papel) por uma abordagem dinâmica, salientando a possibilidade de ampliação do espaço de representação de categorias sociais em desvantagem.

Ficou claro, por outro lado, que a agenda noticiosa dos jornais é fortemente afetada pelo acaso das próprias ocorrências (como o caso das catástrofes), de modo que se este estudo fosse aplicado em outro período de tempo, a ordem dos assuntos, segundo o espaço conferido a eles, provavelmente, seria diferente. Daí, a necessidade de um observatório de mídia e cidadania, que produza séries históricas, nas quais, os resultados apareceriam refinados, corrigindo a influência da aleatoriedade dos fatos, revelando os temas mais freqüentes no médio prazo. Os resultados desse monitoramento da imprensa serviriam, além do mais, como referência para pesquisadores, editores, jornalistas, entidades da sociedade civil e leitores sobre a importância que a imprensa está conferindo, ao longo do tempo, à cobertura dos direitos de cidadania.

Finalmente, mas não menos importante, além do acompanhamento da cobertura dos temas pela imprensa, são necessários estudos sobre os enquadramentos jornalísticos, a fim de verificar de que forma os jornais pesquisados representam os acontecimentos e fatos, qualificando suas posições em relação aos direitos de cidadania.

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