IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Grupo de Traballo C-20: Recursos sócio-técnicos para a participação política

Os meios de comunicação como espaço-sujeito da sociedade contemporânea

Resumo

Este artigo tenta entender a mídia como um espaço de mediação cultural ou, mais especificamente, como um tecnoator. O espaço de mediação cultural, que é um espaço importante no qual as sociedades definem seus conflitos e seus consensos coletivos, sofreu grandes transformações após o advento da Modernidade. Ele deixou de ser um espaço geograficamente delimitado e com certo controle estatal para se tornar um espaço fluido e móvel, controlado por classes hegemônicas. Essa transformação permitiu o surgimento de um processo paradoxal que definimos aqui como espaço-ator ou tecnoator, visto que se manifesta, ao mesmo tempo, como ator social e como espaço social. Esse novo entendimento gerou um enfraquecimento de grupos sociais que tiveram redução de suas capacidades de diálogo e de produção de espaços de mediação cultural.

Texto da comunicación

Este artigo tenta entender os meios de comunicação como espaços mediadores culturais. Esse conceito deve ser compreendido como um ambiente em que se dá um movimento híbrido entre espaço e ação, de forma a mediar as transformações e decisões presentes no processo de desenvolvimento e interação humana. Nesse sentido, a importância dessa análise está em compreender como os meios de comunicação ocuparam parte de um espaço que é intrínseco à formação de agrupamentos e coletividades. Ou seja, como a grande mídia ocupou parte de um espaço socialmente constituído.

Historicamente, se se quiser definir locais específicos para os espaços mediadores culturais antes da constituição dos meios de comunicação, pode-se pensar na ágora da Antiguidade, nas praças públicas medievais ou, recentemente, nas câmaras, assembleias legislativas e parlamentos da Modernidade. Veja que todos esses locais citados são espaços de mediação e de interação face a face, geográfico, de contiguidade física.

Nas sociedades modernas as mídias ganham importância graças à distensão do espaço social. Com o desenvolvimento de todos os tipos de transporte e de comunicação, expansão das cidades e aumento populacional jamais visto, a relação interpessoal na contemporaneidade tornou-se intensamente midiatizada. A experiência de conhecimento coletivo está mediada pela tecnologia dos transportes e das comunicações.

É certo que o conceito de mídia é muito amplo. Por isso, entre todas as mídias presentes na sociedade atual, trata-se aqui mais especificamente dos grandes espaços concentradores da mediação cultural; são espaços capazes de mediar, como um almanaque, todas as áreas do pensamento humano e principalmente a política que, de certa forma, é o campo em que se dá o estabelecimento dos projetos coletivos. Esses espaços são os grandes meios aglutinadores de imagens, fatos e ideias. São jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e, mais recentemente, os portais da Internet. Eles se apropriam de um novo espaço comum, um espaço de conhecimento, manipulação, doutrinamento, reflexão e entendimento da sociedade e do ambiente como um todo.

O espaço mediador político, como uma subdivisão, é um dos processos mais importantes da mediação cultural. Em alguns momentos históricos, por exemplo, ele se desloca da mediação cultural, ganha autonomia e se torna um espaço oficial, no sentido de ser estatal, com valor normatizador da sociedade. Isso pode ser notado, por exemplo, na Antiguidade ateniense, quando as assembleias deixam ágora e se deslocam para o pnyx (FINLEY, 1998; 1997), construído especificamente para servir de espaço mediador político. Nessa mudança, o espaço mediador distinguiu claramente seus aspectos políticos extra-oficiais e informais - que continuaram a existir em ágora e em outros espaços - dos aspectos oficiais e normativos presentes no pnyx.

Ao jogar um olhar sobre a Idade Média, vê-se que o espaço mediador político não se separa do espaço mediador cultural da praça pública. As ações oficiais (estatais) e não-oficiais ocupam comumente o mesmo espaço. Essa indistinção pode ser exemplificado com execuções, suplícios, ordenamentos, cantigas, jograis, feiras, comércio e todo o universo de ações constituintes da praça medieval (FOUCAULT, 1987; BAKHTIN, 1999)

Sem querer estabelecer qualquer relação entre processos históricos bastante diferenciados, pode-se também fazer um esforço de entendimento desse espaço na Modernidade. O processo de ascensão e constituição da esfera pública burguesa (HABERMAS, 1984) fomenta uma nova separação do espaço mediador político, além da grande transformação técnica provocada no espaço mediador cultural como um todo. O novo espaço da mediação política com características oficiais e normativas será formado nos parlamentos, enquanto que a mediação política informal e não-normativa, mas não menos política, vai se constituir dentro do espaço da mediação cultural ocupado pelos meios de comunicação. Com o processo de distensão do espaço geográfico para a interação social e o desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte, o espaço mediador também se desloca e é condensado em um processo tecnológico capaz de percorrer distâncias e conter o universo simbólico humano. É nesse sentido que Ianni diz que na contemporaneidade “grande parte do que é a vida política de indivíduos e coletividades, classes e grupos sociais, governos e regimes, parece localizar-se na mídia” (IANNI, 2000, p.25). Na realidade, a mídia deve ser considerada como um espaço mediador cultural por excelência do período hodierno.

Mas a mídia é vista muitas vezes, tanto pelo senso comum como pela ciência, como um poder, algo distante, sedutor, que molda realidades, que auxilia os grupos de pressão e que muitas vezes os ignoram. Diferentemente, na concepção que se estabelece com o espaço mediador, a mídia também é um poder, mas se diferencia dos outros poderes justamente por transformar radicalmente a relação tempo/espaço. Ela possui idiossincrasias que não podem ser negligenciadas na comparação com os poderes, por exemplo, estatais. A mídia é ubíqua e fragmentada ao mesmo tempo; ela está em todos os lugares, mas não tem a mesma face, ou se quiserem, a mesma ideologia, visão de mundo. Ela não respeita padrões determinados por convenções políticas; têm interesses diversos ainda que pouco divergentes com relação à classe hegemônica. A mídia não tem um centro; ela é uma espécie de redes de centros, com objetivos distintos e semelhantes, abertos e fechados, compondo ora com um grupo, ora com outro. Ela está presente diariamente no cotidiano das pessoas, diferentemente dos poderes tradicionais: Judiciário, Legislativo e Executivo. Ela não tem normas políticas que a fundam como esses três poderes; não tem limite geográfico, não tem prazos e não tem alternância de poder dentro de seus centros. Normalmente, a mídia expõe um poder em que a sociedade experimenta uma lente no lugar da retórica ideológica. Lente não é domesticação ideológica explícita, ou seja, faz parte de uma realidade menos densa, menos cromática, menos nítida. Para entendê-la é preciso perceber a diferença entre definir o mundo e explicá-lo ao seu modo.

Na sociedade contemporânea, o mundo do trabalho, a ideologia e a bandeira política já não têm tanto espaço como um dia teve. A mídia não pode mais ser entendida dentro do conceito de indústria cultural ou simplesmente como um baluarte dos interesses capitalistas, ainda que assim possa ser analisada e compreendida. Talvez esse seja um dos seus segredos, um paradoxo. Ela fala pelo não-dito. Ela mobiliza sem se propor a mobilizar. Ela é uma cultura e não uma ideologia. E ser cultura é entender o mundo de uma forma imprecisa e processual; não proferir ou racionalizar qual a forma correta. Cultura implica em uma forma de se emocionar, de se apaixonar, de ver, de descobrir o mundo, o que é muito diferente de fazer uma conceituação do mundo o tempo todo. No jargão da imprensa existe um termo muito próprio para a ideologização do discurso, que é o editorial. Editorializar significa emitir opinião, ou seja, tentar incutir uma ideia, boa ou ruim, de forma racionalizada. Para o espaço mediador, editorializar é restringir o espaço, delimitar um contexto. É por isso que, no jornal, o mais tradicional dos veículos, o texto editorializado explicitamente ocupa cerca de 0,7% do seu espaço durante a semana e, aos domingos, dia de passear na praça, menos de 0,5%. (CORTEZ, 2005) No restante dos discursos do jornal, a opinião continua a existir, mas mesclada a um mosaico de informação, mexericos, artes, entretenimento e conhecimento. No rádio e televisão, a porcentagem explicitamente editorializada é insignificante, praticamente zero. Pode-se dizer que a informação tem matiz ideológico, mas não se pode afirmar que é editorializada. O mais significativo na mídia pode ser tanto o que ela busca esconder, como o que ela procura mostrar.

Mas o grande segredo da mídia é não se limitar ao espaço e ao tempo; é ser também velocidade, imaterialidade e fluidez. Com a mídia, está-se diante de um espaço que se reconstrói a cada dia, que se transmuta e, ao fim de alguns minutos ou horas, já não é o mesmo. Está-se diante de um espaço que se apresenta como um espaço público não-estatal (CORTEZ, 2006), mas um espaço público que hoje se desfaz e ressurge amanhã em uma nova edição. O programa radiofônico A Voz do Brasil, programa oficial do governo brasileiro que noticia acontecimentos dos poderes Legislativo e Executivo é uma metalinguagem do espaço público da comunicação. Apesar de ter atualmente ter um formato jornalístico e não editorializado, ou seja, uma lógica semelhante a usada pela mídia para se portar como espaço público de discussão e informação, o programa tem dificuldade de se apresentar como um espaço público. Ao tentar colocar um espaço dentro do outro, ou seja, o Executivo (ou Legislativo) dentro do midiático, ele perde seu caráter mediador.

Segundo Ortiz, a importância da mídia é que ela não se circunscreve às fronteiras da política.

Ela se dedica a um conjunto de atividades, envolvendo diferentes dimensões da vida humana, como informação, divertimento, ficção etc. E isso ela faz de forma contínua, permanente. Sua rotina – através dos jornais, televisão, rádio, publicidade – garante a conformação das personalidades. Daí sua superioridade sobre os partidos e movimentos sociais. As questões de poder são difundidas de forma abrangente e diluídas como cotidianidade (ORTIZ, 2000, p.132).

Na vida em sociedade, as regras definidas pelos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo afetam diretamente as pessoas, queiram ou não. Não dá para desligar esses poderes. Tudo o que eles normatizam, torna-se obrigatório, oficial. Eles definem a conduta em sociedade e trazem prejuízos ou benefícios, dependendo da medida governamental. Essa é a experiência concreta do poder formal e é o que a mídia não detém. Uma utopia da mídia é se apresentar como um filtro do mundo; um filtro pelo qual se enxerga o mundo.

No entanto, há algo na superioridade da mídia que está além do seu formato e que a diferencia dos poderes estabelecidos. Como ela não é um poder constituído, ela só pode conformar personalidades se houver personalidades dispostas a se conformarem. Se um indivíduo desligar o rádio, a televisão e deixar de ver jornais, acessar a internet etc, ele elimina boa parte da atuação contínua e permanente da mídia. Isso é teoricamente possível, mas bastante difícil para pessoas que necessitam circular pela urbanidade, que respiram nesse ambiente de relações mediadas pela técnica. Ao capturar as funções, características e formas do espaço mediador cultural coletivo, a mídia se torna uma necessidade. A mídia traz o mundo da vida (ficção, dramas, informações, divertimento etc) porque ela é gerada em um momento em que precisa ser suprida uma necessidade social de fluidez do universo imaginário. Se se criou ruas, avenidas, parques, praças, cafés, bares, estalagens e rodoviárias é porque havia a necessidade social desses lugares, desses espaços públicos. A mídia surge da necessidade de se criar um novo espaço da mediação cultural. Um espaço diferente, é certo; não físico, não delimitado, mas um espaço técnico em que a vida se manifesta diante da distensão da geografia das relações interpessoais.

O fato de ter ficção, realidade, informação, divertimento, lazer, sociabilidade - de envolver diferentes dimensões da vida humana privada, da vida em coletividade, da vida em relação ao meio ambiente natural etc - se dá justamente porque a mídia se constituiu como um mediador cultural, como espaço de ação coletiva, mas também como um espaço público político. Ela tem essa forma porque a sociedade assim a constituiu para poder viver melhor, se socializar, se locomover com mais segurança. No entanto, isso não exclui aspectos ideológicos; ela é uma forma proeminente de se conhecer o mundo em que se vive, ou seja, um mundo grande demais para o limite dos nossos sentidos, não só para o olho nu, mas para toda experiência sensorial.

Ao eliminar as distâncias, ao produzir velocidade, o homem é forçado a adentrar num ambiente técnico para poder sobreviver e compreender o mundo. Por isso, de certa forma, manifestações sociais que param o trânsito estão, na realidade, cortando o fluidez e a sociabilidade dos cidadãos das grandes cidades. No espaço técnico, circular significa respirar, conviver, existir1. Daí a ira irremediável de quem fica preso no trânsito e talvez daí também a fraqueza dos movimentos sociais atualmente. Estar preso no trânsito dos grandes centros, por interferência alheia, é morrer um pouco. Vejam as ambulâncias em disparada. Elas são uma espécie de metáfora da tecnosfera; a vida passou a depender do espaço técnico e da velocidade. Em vez de criar espaço, as manifestações sociais que tentam parar a cidade retiram espaço, comprimindo o ar e a vida das pessoas. Diferentemente, a mídia e toda a tecnologia - de estradas ao telefone - dão espaços, abrem espaços, criam espaços que encurtam as distâncias geográficas e do tempo, aproximam pessoas e permitem passagens de ar e de sobrevivência. Ou seja, a experiência da mídia nos mostra que não é e nunca será possível um diálogo entre o espaço geográfico e o espaço midiático.

O fato de a mídia pertencer a grupos privados em vários países não a impede de se comportar como um espaço mediador cultural. Há um processo histórico de institucionalização (RIBEIRO, 2004). Ela pode não ser governamental, mas isso não a impede de se portar como um espaço mediador político, no sentido do que se entende por espaços públicos da sociedade contemporânea. Há uma necessidade de se constituir como espaço hegemônico (GRAMSCI, 1978; 1979).

A superioridade da mídia realmente não é uma superioridade advinda do poder; ela não é um poder no sentido tradicional. Também não é apenas uma superioridade proveniente somente de sua ubiquidade, intensidade, continuidade, diluição e abrangência, de sua proeminência na tecnosfera. A sua superioridade está em se portar além do poder. Ela se porta como um meio para a sociedade se entender, redefinir e a afinar conflitos e consensos; é um espaço de mediação cultural, uma espécie de parlamento independente, de utopia dialógica (CORTEZ, 2005).

Para Ianni (1995), a mídia é eficaz em desenhar e tecer o imaginário de todo o mundo e em constituir a realidade e a ilusão da aldeia global. Obviamente não querendo naturalizar a discussão, mas apenas para efeito didático, é nessa perspectiva de Ianni que se usa o espaço mediador como metáfora de uma tecnosfera. A compreensão e a experiência social no mundo contemporâneo está submersa à tecnologia, visto que esta envolve todo campo de ação e todo espaço de compreensão do mundo. Na vida cotidiana das grandes cidades, a experiência comunitária está quase que totalmente midiatizada, graças a “proliferação e generalização dos meios impressos e eletrônicos de comunicação, articulados em teias multimídias alcançando todo o mundo” (IANNI, 1995, p.93). Para Ianni, a mídia eletrônica se converteu em um poderoso instrumento não só de comunicação e informação, mais de compreensão, explicação e imaginação do que vai pelo mundo. A mídia pauta com eficiência as necessidades e os gostos ou, nas palavras de Ianni: “a mídia se apresenta como o grande e ‘ubíquo partido político’, uma espécie de ‘príncipe eletrônico’, influenciando decisivamente corações e mentes” (IANNI, 2000, p.18). O príncipe eletrônico a que Ianni se refere é retomado do conceito de príncipe elaborado por Gramsci a partir de Maquiavel.

O moderno príncipe, o mito-príncipe, não pode ser uma pessoa real, um indivíduo concreto; só pode ser um organismo; um elemento complexo da sociedade no qual já tenha se iniciado a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e fundamentada parcialmente na ação. Este organismo já é determinado pelo desenvolvimento histórico, é o partido político: a primeira célula na qual se aglomeram germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais (GRAMSCI, 1968, p.06).

Gramsci pensa no partido político, mas a interpretação da mídia de Ianni como “príncipe eletrônico” permite novos entendimentos dessa realidade. Parafraseando Gramsci, a mídia pode ser entendida como um elemento complexo da sociedade no qual se tem a concretização de uma vontade coletiva, não necessariamente da maioria. Mas essa vontade coletiva é oriunda da esfera pública burguesa, na qual, por meio da mídia, expressa as vontades coletivas de uma classe que buscam se tornar universais e totais. Pode-se dizer que a mídia tomou o lugar das instituições tradicionais na formação da opinião e na criação de conjunturas que definem os rumos dos acontecimentos, como os partidos, o governo, os sindicatos2. Mas na ótica do espaço mediador, a mídia não tomou o lugar, ela construiu o lugar, ou melhor, construiu o espaço em que atuam as instituições tradicionais; instituições estas que são contemporâneas da mídia e que dialogam dentro da tecnosfera. Essa diferença altera todo o entendimento sobre essa experiência social.

Numa sociedade em que as inter-relações se dão dentro de um espaço técnico, de uma tecnosfera, o príncipe e, consequentemente, os atores (seja partido político ou outra forma de ação) só podem existir enquanto tecnoatores, ou seja, capazes de entender e atuar dentro do espaço técnico, transmutados em organismos técnicos. Com o declínio do espaço mediador geográfico, físico, não é mais possível a emergência de atores tradicionais, de pessoas reais, concretas, nem de pessoas jurídicas simplesmente. Vive-se na contemporaneidade o diálogo dos tecnoatores; praticamente toda a mediação cultural se dá através do ambiente técnico manifestado pelo complexo de mídias. A pauta da sociedade, as preocupações, seus embates políticos, culturais, sociais, psicológicos são os embates e discussões que estão presentes nesses espaços mediadores midiáticos ou em grandes espaços mediadores políticos3. Não existe mais o espaço físico de ágora ou da praça pública medieval; o discurso não percorre mais as ondas sonoras estabelecidas pela voz diante do espaço geográfico, da distância de interlocução face a face entre os homens. O discurso está condensado em bits, digitalizado, processado em imagens e códigos que são retraduzidos ao receptor. Todas as realizações políticas, sejam decretos, normas, benefícios, construções físicas etc são projetadas, planificadas e dialogadas em um espaço imaginário entre mídias, entre espaços mediadores culturais. O diálogo só se realiza por meio de complexos técnicos e grandes espaços mediadores.

Isso não significa simplesmente possuir ou controlar extensões técnicas capazes de amplificar a voz do sujeito real. Esse pensamento seria um grande equívoco, visto que os tecnoatores não podem ser reduzidos simplesmente a intermediadores. Não é o sujeito real que está submerso ou por trás da técnica. O diálogo não se dá mais entre sujeitos através da técnica, mas entre espaços mediadores técnicos que são novos sujeitos. O paradoxo da realidade é que os espaços se fragmentaram e se transmutaram em atores. O espaço não simplesmente contém a ação; o espaço é a ação. Ou como afirma Milton Santos (2002), o espaço é um híbrido entra ação e objeto. Por isso Ianni dirá que a mídia se comporta como um intelectual orgânico. O espaço, vale ressaltar, não é simplesmente um ambiente físico e de ação de terceiros; o espaço transformou-se em sujeito4.

Juntamente com a imprensa, a mídia eletrônica passa a desempenhar o singular papel de intelectual orgânico dos centros mundiais de poder, dos grupos dirigentes, das classes dominantes...Transfigura o jornalista, o escritor, o cientista social, o publicitário, o locutor, o âncora, o cenógrafo, o técnico de som, o especialista em efeitos visuais coloridos e sonoros, o artífice da estética eletrônica e muitos outros em um vasto trabalhador coletivo, um intelectual orgânico ainda pouco conhecido”(IANNI, 1995, p.95).

Apesar da presença de diversos profissionais que constroem e fazem funcionar a mídia, não são eles os intelectuais orgânicos, não são eles que definem exclusivamente os tecnoatores. Esses profissionais formam um único intelectual orgânico que é, na realidade, pode ter uma face de objeto, ou pessoa jurídica, empresa ou um conjunto de empresas. O intelectual orgânico deixa de ser um grupo de pessoas físicas, reais, para a concretização de uma vontade coletiva; ele agora é um sujeito constituído dentro de um espaço técnico, um tecnosujeito (ou tecnoator) capaz de certa autonomia, mesmo diante dos indivíduos que o compõem.

No espaço técnico da mediação cultural, os partidos políticos e as organizações da sociedade civil são mais frágeis e incapazes quanto mais dependem do sujeito real, do líder, ou quando mais imaginarem que o espaço técnico se comporta apenas como uma extensão do homem. O espaço técnico é um autômato do homem. Nesse novo ambiente técnico, a constituição tecnojurídica ganha o seu valor máximo de expressão e se transmuta em ator. Não basta ser uma organização, ser um corpo coletivo, ser um corpo jurídico, um partido; é preciso ser também espaço; espaço de diálogo entre tecnosujeitos, ou melhor, entre os próprios espaços mediadores culturais.

E essa é uma diferença crucial. Os tecnoatores (tecnosujeitos) não podem ser entendidos como atores técnicos (sujeitos tecnificados). Eles não são uma transposição simplesmente do sujeito físico para uma espécie de tecnologia ou pessoa jurídica. Os tecnoatores não se posicionam (pelo menos não incessantemente; precisam de uma intermitência) e não tomam partido como regra. Eles atuam como mediadores, como intermediadores; eles dirigem o diálogo e justificam o que se deve pensar ao invés de dizer simplesmente como pensar. É uma espécie de paradoxo porque são sujeitos e espaços ao mesmo tempo. A percepção se altera de acordo com o ângulo que se observa. Os tecnoatores se comportam como intelectuais orgânicos ao implicar uma conexão com um grupo e, como príncipe, ao buscar valores universais. São príncipes e intelectuais orgânicos ao mesmo tempo.

Os tecnoatores são ainda um pouco desconhecidos, mas é inegável que possuem sua essência fundada dentro do espaço mediador técnico da sociedade contemporânea. É por isso, de certa forma, que os indivíduos ou grupos da sociedade civil que tentam dialogar ou discutir com o tecnoator dentro do espaço físico, geográfico, estão condenados ao fracasso. O espaço mediador técnico é disseminado, fluido, planetário, globalizado, enquanto o espaço físico é local, restrito, limitado. Virilio (1996) dirá que a mídia é a única das instituições capaz de funcionar fora de qualquer controle democrático eficaz, já que toda crítica independente (leia-se geográfica) dirigida contra ela e toda solução alternativa (leia-se fora do espaço técnico), permanecem desconhecidas do grande público simplesmente porque não têm nenhuma chance de serem amplamente difundidas.

Com certeza, a mídia não é a única instituição capaz de funcionar sem um controle democrático, visto que praticamente todas as instituições possuem controles democráticos muito frágeis. Mas a mídia se porta acima de qualquer controle porque ela existe dentro de uma nova experiência humana; se constitui dentro de um espaço mediador técnico-político enquanto os atores sociais tentam travar disputas no espaço mediador físico-político. Não há como dialogar, visto que são dois planos de realidade diferenciados. O primeiro é móvel, veloz, desconhece distâncias e tem capacidade de se metamorfosear, enquanto o segundo é estático, lento, limitado pelas distâncias e mantenedor de tradições e originalidade. O sintoma ou o resultado desse paradoxo pode ser observado nas palavras de Ianni:

Na época da globalização, a sociedade civil nacional parece enfraquecer-se, desorganizar-se, perder-se, tornar-se amorfa, gelatinosa. Também é assim que os partidos políticos, os sindicatos, os movimentos sociais e as correntes de opinião pública confundem-se, perdem a capacidade de expressar a dinâmica das forças sociais, entram em crise. Um fenômeno que se agrava com a transformação da mídia, cartelizada pelas forças que predominam no âmbito da globalização (IANNI, 2000, p.25).

A sociedade civil que Ianni se refere atua dentro da primeira natureza, no ambiente delimitado pela geometria, por medidas do espaço físico. Ela negligencia os tecnoatores por entendê-los simplesmente como atores. A história nos ensina que a única forma do espaço físico vencer o espaço midiático é através da implantação da censura e repressão. A sociedade civil não pode mais ignorar que a mídia - ao se institucionalizar e capturar o espaço da mediação cultural dentro do processo da esfera pública burguesa e, portanto, gerada numa utopia de uma classe social que se tornou hegemônica - construiu-se em um campo de ação isolado, exatamente como um príncipe; um príncipe que vai além de Maquiavel ou Gramsci porque estabelecem em sua natureza contradições, paradoxos, fragmentações, inconstâncias e ressurgências. A mídia é uma produtora de espaços.

NOTAS:

1 A tecnosfera pode ser compreendida aqui como um atrofiamento das relações interpessoais em decorrência do desenvolvimento técnico da sociedade. O partir do momento que o homem passa a se relacionar mais intensamente com o outro por meio de equipamentos técnicos em detrimento do relacionamento direto, ele também passa a habitar um novo ambiente. A natureza e o outro estão interpostos por elementos técnicos oriundos de um universo industrial sem precedentes, iniciado com a ascensão do capitalismo.

2 Cf. SHAW, M. Civil society and media global crises. London, Pinter. Apud: GOHN, Maria da Glória. Mídia, Terceiro Setor e MST. Petrópolis, Vozes, 2000. pág. 20.

3Nesse sentido, o espaço mediador reconhece a importância do conceito de Agenda Setting, mas não se resume a relação meio/receptor, mas estabelece um outro diálogo meio/meio. Ver: PENA (2005), SOUSA (2002).

4 O termo sujeito é usado aqui como uma referência à capacidade de ação. Não se pretende estabelecer uma discussão sobre a noção de sujeito. Ainda mais porque, como disse Sader, poucas noções são tão ambíguas, carregadas de sutilezas e mal-entendidos como essa. “Da filosofia à linguística, passando pela psicanálise, pisamos num terreno minado, palco das mais acesas polêmicas”. SADER, Eder. Quando Novos Personagens Entram em Cena. São Paulo, Paz e Terra, 1995. pág. 50.

Bibliografía/Referencias


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