IV Congreso da CiberSociedade 2009. Crise analóxica, futuro dixital

Grupo de Traballo F-34: Jornalismo digital

Jornalismo Científico na Era Digital: os portais de notícias do Estado do Maranhão - Brasil

Resumo

O Jornalismo Científico no limiar da Era digital veio se desenvolvendo juntamente com uma nova perspectiva da área: o jornalismo digital. Neste contexto, consideramos a importância da divulgação científica como instrumento para o exercício pleno da cidadania bem como para a democratização do conhecimento através das novas possibilidades de interação que a digitalização proporciona. Em vista disso, tomamos como objeto de análise a contribuiçao da mídia para o debate social acerca da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) no Brasil, especificamente no Estado do Maranhão, região que ainda está muito aquém do grande avanço da Era digital. Neste artigo, consideramos a perspectiva da atuação social cidadã e suas consequências sobre a população.

Texto da comunicación

INTRODUÇÃO

Temas ligados à Ciência e Tecnologia vêm obtendo cada vez mais espaço no cenário midiático em todo o mundo. Isto se deve à sua influência, e crescente pela estreita relação entre ciência e sociedade. Aliada a este fator encontram-se questões culturais, políticas e econômicas que se transformam em velocidade nunca antes vista e tem como pivô desta rapidez a transmissão de informação, inclusive (e essencialmente) a de caráter jornalístico.

Nesse sentido, a compreensão pública da ciência se torna agente determinante sobre o modo de ser e estar no mundo em que vivemos. Centrados nesta perspectiva, acreditamos que o jornalismo científico surge como um instrumento capaz de conciliar o conhecimento à cidadania, por exercer uma função informativa e formativa sobre a população.

Contudo, muitos aspectos importantes para a coletividade vem tendo sua importância suprimida por diversos fatores. Podemos, de maneira geral, identificar estes aspectos relacionando-os ao uso da linguagem empregada na notícia, á contextualização do assunto para o leitor e à postura crítica a que deve remeter a matéria, contudo, a presença ou ausência de tais elementos reflete a conjuntura histórico-social que vive o país, ou o estado, como iremos analisar especificamente no caso do maranhão.

Tendo por base estas observações, este artigo pretende explanar sobre o desempenho do discurso jornalístico nas matérias de portais de notícias do estado do Maranhão durante o mês de junho de 2009. Para tanto, iniciaremos traçando um breve panorama do contexto em que se dá a imprensa no Maranhão. É a partir dessa primeira leitura da conjuntura midiática no Maranhão, que pretendemos compreender como se dá a transmissão do conteúdo jornalístico de caráter tecno-científico no estado.

Em seguida apresentaremos os resultados da pesquisa, feita sob uma análise estritamente qualitativa baseada na coleta de unidades noticiosas dos principais portais de notícias da região. Entenda-se unidade noticiosa por todos os itens identificados nos portais com relação à ciência, tecnologia e meio ambiente e confeccionadas nos mais diversos gêneros do fazer jornalístico.

Por fim, serão expressos os resultados, tais como explanações do quão o Maranhão se encaixa no perfil descrito pelos principais estudiosos do Brasil nesta área do jornalismo e algumas constatações sobre as razões pelas quais o jornalismo científico no estado se apresenta desta maneira.

1. Jornalismo Maranhense: Panorama Histórico, Social e Econômico

A vinda da família real para o Brasil, em 1808, alterou de maneira brusca o status político e econômico do país, sendo acompanhado por um surto de progresso. A partir de então houve a necessidade de divulgar as notícias referentes à Coroa e aos atos do governo. Desse modo, implantou-se a imprensa no Brasil, com a chegada do Rei. A presença real na nação brasileira foi uma ocasião bastante propícia ao desenvolvimento e progresso do país, bem como da imprensa.

O surgimento da imprensa no Maranhão, contudo, data de 1821, com o jornal O Conciliador do Maranhão. Porém, a grande maioria de outros jornais, inclusive de outras localidades do estado, surge na segundo metade do século XIX e no decorrer do século XX. De acordo com o professor e pesquisador Sebastião Jorge, os jornais maranhenses são frutos de uma época em que predominava a exaltação dos princípios do liberalismo e o entusiasmo pela independência do Brasil de do Maranhão. O surgimento tardio da imprensa no Maranhão tem suas razões intrínsecas condizentes com o ostracismo em que se encontrava o estado em relação aos interesses da coroa.

Embora representasse um cenário de contradições porque não superou integralmente as causas socioculturais apontadas como obstáculos para chegada da imprensa, a região Norte (São Luís e Viana, principalmente) do estado reuniu os municípios inicialmente mais prósperos, onde a economia se desenvolveu, a máquina estatal se fez presente, dotando-a minimamente de infra-estrutura, com uma população que teve aos poucos acesso à escolarização e com relativo progresso social. A partir deste ponto, a imprensa espalhou-se aos poucos para as outras regiões do estado, sempre acompanhando o progresso econômico dos municípios.

A partir de meados da década de 1940, a ciência brasileira entra na pauta do governo e da sociedade, sob a influência da Segunda Guerra Mundial e dos avanços tecnológicos demonstrados pelos Aliados. Em 1948, foi criada a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entidade que reúne as sociedades científicas do país. José Reis é considerado o primeiro jornalista científico do Brasil. A Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) foi criada em 1977 e a primeira tese de doutorado sobre Jornalismo Científico foi defendida em 1984, na USP, por Wilson da Costa Bueno.

Esse cenário, aliado a outros indicadores, tais como poucos cursos/programas de pós-graduação em compreensão pública da ciência no Brasil e o baixíssimo número de periódicos especializados no assunto, mostra como essa subárea da Comunicação ainda tem muito a ser explorada e desenvolvida em âmbito nacional e regional.

Nesse sentido, o Maranhão está muito atrás, considerando que possui uma ínfima produção tecnológica e científica em relação aos grandes centros do país. Portanto, a grande maioria dos incentivos ao jornalismo científico parte de estados da região Sul e Sudeste. Nesta pesquisa, não encontramos estudos ou registros referentes a cursos de pós-graduação ou fomento a esta área do jornalismo, exceto de iniciativas como a do CNPq, que confere prêmios de divulgação científica. Podemos ainda citar o interesse recente da Universidade Federal do Maranhão ao apresentar o projeto do curso de pós-graduação em Comunicação, Ciência e Tecnologia, criado em parceria com a Fapema (Instituição de Amparo à Pesquisa do Estado do Maranhão), instituição de fomento a pesquisa.

No que diz respeito ao surgimento dos portais de notícia, a digitalização da informação na década de 90 se espalhou quase que instantaneamente por todos os lugares. Após a euforia da estréia na Rede, os grupos editoriais assim como as empresas jornalísticas perceberam que para seus respectivos sites terem visibilidade precisariam ser acessados e, para isso, era necessário ofertar conteúdos exclusivos para além daquele disponível nas edições impressas, implementando canais de notícias em tempo real para despertar e criar o hábito da leitura da versão on-line.

Um novo momento de diferenciação para o jornalismo vai acontecer com a ascensão dos portais - páginas que centralizam informações gerais e especializadas, serviços de e-mail, canais de chat e relacionamento, shoppings virtuais, mecanismos de busca na Web, entre outros, e cuja intenção é ser a porta principal de acesso a orientar a navegação do usuário pela rede. Foram os americanos que criaram e batizaram esses sites de “portais”. O ano de adoção desse modelo no Brasil foi 1998.

Os portais são emissores de grande conteúdo e neles o jornalismo é uma das maiores fontes de geração de tráfego e acesso. Tanto que, no geral, eles abarcam as edições online dos grandes jornais (nacionais e internacionais até), além de garantirem conteúdo próprio produzido por equipes de jornalistas, muitos dos quais trazidos da mídia impressa.

Nesse ínterim os portais maranhenses são caracterizados pela sua dependência em significativa parte do conteúdo de grandes empresas de notícias, geralmente da região Sul e Sudeste, para cobertura de notícias nacionais e internacionais, encarregando-se assim quase que exclusivamente da cobertura local. Este é um fator determinante na publicação de conteúdo de CT&I, pois a maior parte destas matérias são incorporadas dos grandes portais de notícias, apresentando pouca cobertura local deste segmento.

2. Os Portais de Notícia do Estado do Maranhão: a Pesquisa

Assuntos ligados a C&T estão presentes em todas as mídias, seja ela impressa, eletrônica ou digital. Os avanços da ciência e as surpreendentes invenções da tecnologia chamam a atenção dos espectadores. O cerne do problema do Jornalismo Científico hoje, especialmente no Brasil, diz respeito mais a forma como os assuntos são abordados do que se eles estão sendo abordados.

Centrado nesta perspectiva, apresenta-se o estudo do mês de junho de 2009 sobre as notícias que possuem alguma relação com CT&I dos principais portais de notícias do estado do Maranhão. Pretende-se verificar a forma como esses portais trabalham tais temas, fazendo uma análise geral das matérias dentro dos parâmetros concernentes ao jornalismo científico.

As variadas funções que o Jornalismo Científico assume diante da sociedade vem sendo cada vez mais consideradas por pesquisadores justamente pelo alcance e participação da mídia no cotidiano da população. A hipótese do agenda-setting expressa bem este fenômeno ao afirmar que as discussões levantadas no âmbito social têm relação direta com a pauta corrente na mídia. Esta hipótese se apóia na idéia de que o público dá atenção ou ignora as discussões em detrimento da transmissão de informações pelos meios de comunicação, como grifa Wolf (2003: 143).

"As pessoas tendem a incluir ou excluir dos próprios conhecimentos o que a mídia inclui ou exclui do próprio conteúdo. Além disso, o público tende a conferir ao que ele inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelos meios de comunicação de massa aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas (SHAW: 1979: 96)".

É neste contexto que vários autores enfatizam funções do jornalismo tais como a educativa, a de formar e informar, a de criticar e a de emancipar através do conhecimento, entre outros.

Aspectos metodológicos

Este é um pequeno estudo de natureza estritamente qualitativa com caráter analítico. Como corpus da pesquisa foram utilizados cinco portais de notícias do estado do Maranhão (Brasil), todos da capital. São estes: Zill (www.zill.brasilportais.com.br), Tribuna do Maranhão (www.tribunadomaranhao.com.br), Portal do Maranhão (www.portaldomaranhao.com.br), Jornal Pequeno (www.jornalpequeno.com.br), O Imparcial (www.oimparcial.com.br).

Inicialmente, foram identificados onze portais, entretanto, no decorrer da pesquisa foi verificado a inatividade do portal ou a ausência total de matérias relacionadas à CT&I no período de 3 a 30 de junho de 2009, sendo assim excluídos do estudo. Assim, os critérios utilizados para seleção dos sites são: haver publicações envolvendo CT&I no período observado, ser editado no Maranhão, ter conteúdo livre e não ser blog.

As amostras selecionadas para esta pesquisa passaram pelo método de tratamento e análise de informações, consubstanciadas em cópias virtuais do material publicado. Este processo foi feito com base em Bardin (1977), que conceitua este método como um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.

A pesquisa não baseou-se somente nas coletas feitas, mas também na consulta bibliográfica, - como verificado no início do artigo - imprescindível para a compreensão das condições histórico-sociais em que são elaboradas as matérias.

Resultados

Para a apreciação dos resultados e estudo foi utilizado o arcabouço conceitual de Wilson Bueno (1984) sobre jornalismo científico, no qual se refere às suas funções. Segundo o autor, há seis funções para o Jornalismo Científico, sendo estas: a informativa, educativa, social, cultural, econômica e político-ideológica.

Nesta perspectiva, temos que:

      1) A função informativa remete à prática intrínseca do jornalismo de informar.

      2) A função educativa considera que os jornalistas devem pensar a mídia como a única via de obtenção de informações sobre C&T para algumas pessoas, ou seja, o profissional é responsável por “informar, formar e conscientizar” sobre a implicância das questões relativas à C&T.

      3) A função social corresponde ao caráter mediador exercido pelo jornalista entre Cientistas e a sociedade, bem como a discussão sobre os impactos da C&T na sociedade.

      4) A função cultural concerne à postura crítica adotada pelo público em relação ao que foi divulgado.

      5) A função econômica trata da relação entre desenvolvimento e divulgação científica e o setor produtivo.

      6) A função político-ideológica refere-se ao compromisso do jornalista com a sociedade, de maneira que ele não venha a favorecer interesses privados em detrimento dos direitos do cidadão.

       Segue abaixo a análise geral das características observadas em conformidade com estas funções.

* Função informativa:

A função informativa é clara e basicamente exercida pelos portais. Entretanto observou-se um cuidado e seleção maior dos portais O Imparcial, Zill e Jornal Pequeno em relação aos demais neste âmbito, pois cobriram assuntos mais pertinentes à população, como avisos, anúncios de eventos, de novas resoluções. Já os portais Tribuna do Maranhão e Portal do Maranhão, apesar de terem editorias específicas, publicaram apenas matérias de grande repercussão local, nacional ou internacional, suprimindo por várias vezes as notícias do cotidiano, e atribuindo noticiabilidade somente àquelas que causaram forte impacto na mídia. Isto provavelmente está relacionado ao porte destes sites, ou seja, à sua amplitude. Assim, como são menores, têm um menor poder de cobertura.

Uma forte característica que merece destaque é o desempenho de O Imparcial ao incluir notas e quadros explicativos de assuntos de CT&I em matérias que são originalmente de outras áreas, como política ou economia, explicando como se dá determinado processo.

* Função Educativa:

A função educativa é observada apenas nos portais O Imparcial e Jornal Pequeno. A diferença, entre estes, porém, é que em O Imparcial, mesmo não tendo nenhuma editoria específica relacionada à CT&I, a redação está tem sempre a preocupação em todas as matérias de orientar o leitor quanto aos significados do que está sendo falando e sua funcionalidade. Como exemplo pode-se citar o caso da gripe suína, no qual houve várias matérias, e em todas elas houve um resgate do que é a gripe e de como ocorre o contágio, usando linguagem simplificada e esquemas explicativos.

Já o Jornal Pequeno apresenta esta característica apenas na editoria JP Saúde. No entanto as notícias observadas não estavam relacionadas a assuntos correntes na mídia, ou ao cotidiano, mas sim a assuntos específicos e algumas novidades no campo da medicina.

Os outros jornais não apresentaram traços de preocupação com a função educativa segundo Bueno.

* Função social:

Observa-se uma grande precariedade quanto a relação de mediação entre cientista e a sociedade no âmbito local. Isto se acontece em decorrência muitas vezes da também precária produção científica no estado. O que ocorre em todos os referidos portais é que a preocupação social, que deveria estar intrínseca, está na realidade, comprometida pelo imediatismo da publicação e, portanto, não se observou nas amostras discussão dos impactos da CT&I sobre a sociedade, exceto por uma matéria do portal Tribuna do Maranhão sobre agronegócios, porém apresentando muitos termos técnicos e sendo de difícil compreensão para o grande público.

* Funções cultural:

Não há constatações em nenhuma das amostras coletadas referentes à preocupação com a postura crítica. Nesse caso, há uma precariedade generalizada em todos os portais. Eles são estritamente informativos, ou buscam explicar o acontecimento para um melhor entendimento. No entanto, não apresentam nenhum posicionamento crítico em relação ao acontecimento.

* Função econômica:

Identifica-se a função econômica melhor expressa apenas no portal Zill, nas notícias relacionadas com o campo. Isto se deve provavelmente ao fato de que este portal está ligado mais intimamente ao interior do estado, e notícias relacionadas a agronegócios ou sustentabilidade são freqüentes.

* Função político-ideológica:

Não se pode aferir total imparcialidade quanto à política e ideologia por parte dos jornais do estado, pois estes fatores constituem a história da imprensa no Maranhão. No entanto, não há em nenhuma das amostras analisadas indicadores claros de tendenciosidade por parte dos jornalistas.

3. Conclusão

A região delimitada pela pesquisa, ou seja, o Maranhão possui grandes lacunas quanto a sua produção cientifica e tecnológica, pois se trata de um estado que teve progresso econômico desfavorável ao fomento científico tecnológico ao longo de sua história, e portanto, não se constituiu como pólo de produção.

Diante das mudanças no perfil social, com o advento de novas tecnologias, o cenário midiático maranhense ainda carece de mecanismos para a divulgação dos avanços científicos e tecnológicos, mantendo o público distante destes processos.

A produção local de C&T não está sendo significativa na pauta para a mídia on-line, seja pela falta de Assessorias de Imprensa nas instituições de fomento de ciência ou pela falha das assessorias que já existem em algumas instituições, ou ainda pela falta de especialização dos jornalistas que ao tratarem deste assunto não conseguem exercer com responsabilidade o papel de divulgador científico com todas as suas atribuições.

Com as constatações efetuadas podemos perceber o reflexo que os atrasos econômico e social provocam na produção local. Porém se verificou que a produção científica é pautada pela mídia on-line maranhense de forma modesta, não sendo contemplada como deveria. A produção de matérias com abordagens locais, sobre pesquisas, eventos ou qualquer outro assunto ligado a C&T no período aqui analisado é consideravelmente ínfima, quando comparado com a cobertura nacional e internacional destes mesmos assuntos. Ainda tem-se muito presente a necessidade de independência dos pólos de produção de conhecimento do Sul e Sudeste, e o incentivo à produção e divulgação local.

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