IV Congresso da CiberSociedade. Crise analógica, futuro digital

Grupo de Trabalho F-33: Identidades e relações em linha

Imitando os desfiles de escola de samba na internet: o corpo e suas folias carnavalescas em um novo ambiente

Resumo

Este artigo se baseia na dissertação: "O Samba-em-rede: da rua ao ciberespaço", Silva (2005). Trata-se de uma análise a respeito das metamorfoses e da complexidade presente na linguagem dos desfiles de escola de samba do Rio de Janeiro onde existem versões virtuais dos desfiles tradicionais. Analisaremos que o trânsito entre as informações que o corpo constrói nas performances que cria em co-evolução com os diversos ambientes por onde se movimenta é fundamental neste processo.

Texto da comunicação

não é possível olhar o passado sem imaginar o futuro” Pierre Francastel

1. Introdução

Este trabalho pretende discutir a relação entre a linguagem das escolas de samba do carnaval brasileiro e ciberespaço, tendo como objeto de análise os desfiles virtuais: uma versão digital do carnaval de rua. Em 2003 é fundada a LIESV1, ou Liga das escolas de samba virtuais, uma entidade com endereço na “Teia de alcance mundial” ou WWW. Além de cumprir o papel de comunidade virtual (com fóruns de discussão), a LIESV, funciona como entidade que regulamenta os desfiles virtuais. Estes desfiles são adaptações dos desfiles de rua para o ambiente virtual e não tem caráter comercial (por enquanto), parecendo sugerir uma espécie de valorização dos desfiles de rua sendo uma forma de apreciação, e até mesmo paródia dos mesmos. Desta forma, o desenvolvimento desta pesquisa enfatiza a comunicação como complexidade sistêmica observando para isto os diversos acordos em movimento entre corpo e ambiente, e as linguagens resultantes destas relações. Outra questão importante que aparece entrelaçada às questões que o trabalho levanta diz respeito à crescente utilização da internet como “espaço” de representação.

Assim, discutindo fundamentalmente as metamorfoses da linguagem do carnaval, onde o corpo tem papel preponderante, este trabalho ressalta como ponto de partida uma idéia importante: o carnaval é ritual2 em processo de “mestiçagem”, uma performance coletiva que na ação de repetir-se ciclicamente contamina e é contaminado pelo “calor das fricções” 3 que faz com sua própria história, as regras sociais, as mudanças tecnológicas da sociedade e também e outras manifestações culturais.

Sob tal perspectiva, discutiremos que as mudanças nas linguagens dos desfiles de escolas de samba significam a própria vida desta linguagem. Nas palavras do historiador José Carlos Sebe (1997), as mudanças do carnaval são paradoxalmente o sentido de “sempre o mesmo, mas sempre o novo.”

2. (Des) Ordem na Linguagem dos Desfiles Virtuais

Desta forma, argumenta-se que a organização de padrões de linguagem é um jogo que engendra complexidade. Uma operação que envolve a existência do acaso e de níveis de ordem/desordem como possibilidade de reconfiguração das fronteiras geográficas das linguagens. A própria noção de desordem é familiar ao carnaval. É comum escutar, no senso comum, expressões metafóricas que designam situações caóticas que se associam à idéia de carnaval: “Seu quarto está um carnaval!”. Isto acontece pelo fato de que no senso comum a idéia que permeia a noção de desordem e carnaval refere-se à bagunça. No entanto, para entendermos a linguagem das escolas virtuais em relação ao corpo, o significado de desordem que interessa aqui é primordialmente o fato de que as linguagens são vivas, e a vida organiza-se no fluxo permanente de organizar-se, desorganizar-se, não necessariamente nesta ordem. Os desfiles virtuais sugerem uma relação de reorganização para os processos de criação de linguagens pelo corpo, onde não há substituições lineares de elementos, mas sim, conexões entre o passado e o presente deste corpo.

Esta reflexão nos sugere como metáfora a utilização da imagem de terremotos. Aqueles são eventos da natureza que movimentam as paisagens geográficas e alertam para a existência permanente de mudanças no espaço e no corpo. São momentos que assinalam transformações, desestabilizações, abalos que provocam reconfigurações no desenho geográfico, o que por sua vez, altera as perfomances dos corpos que estejam percorrendo estas novas paisagens. E um corpo que percorre um determinado terreno vai modificar suas perfomances caso este espaço modifique-se e ao mesmo tempo em que tece prováveis modificações neste espaço que é resultado de modificações. Visto assim, Performances são deslocamentos que reorganizam o entrelaçamento das linguagens do corpo4. Neste sentido, é que utilizamos a idéia do terremoto como metáfora, no entendimento da reorganização das linguagens carnavalescas e suas paisagens em um ambiente virtual.

Assim, o ciberespaço é uma “nova paisagem” que sublinha outra ordem para os acordos entre corpo e ambiente. Acordos não são regras estáticas. São instâncias que a natureza vive realizando para manter a vida. Adaptações (algumas perceptíveis e outras imperceptíveis) à situações especificas entre corpo e ambiente, que conseqüentemente se refazem pela criação de outros acordos. Assim, a linguagem dos desfiles virtuais nada mais é do que acordos entre corpo e ciberespaço, diferentes das negociações que o desfile de rua estabelece entre corpo e avenida. Para encontramos alguma estabilidade e sobrevivermos nestas paisagens em transformação, criamos negociações, sempre provisórias, entre tais instâncias. A própria forma como as escolas virtuais estão utilizando os recursos do ciberespaço, neste primeiro momento, parece indicar um acordo provisório em relação às possibilidades do próprio desfile virtual vir a diferenciar-se no futuro.

3. Conexões Entre Linguagens

Estes apontamentos esclarecem que o corpo e suas linguagens têm aptidão para se transformar, e que o carnaval como linguagem não foge à regra. Mapear os processos de transformação de uma linguagem é uma tarefa para titãs! O atual paradigma das escolas de samba virtuais é um exemplo do processo de complexidade e mestiçagem cultural. Sua estrutura é um movimento de elementos que se misturam. Mas tais misturas não são um processo heterogêneo5, pelo contrário, demonstram serem uma mistura de elementos que já são em si mesmos sistemas complexos Estes sistemas complexos se misturam a outros e passamos a não definir precisamente suas fronteiras.

Os desfiles virtuais, como processo de criação de acordos complexos entre sistemas, são uma operação de bricolage. Este conceito, desenvolvido por Levy- Strauss (2005), ao ser utilizado neste trabalho, vincula o carnaval à idéia de criatividade e reinvenção, processos de construção de coisas novas a partir de partes canibalizadas de outros. Esta bricolage é singularizada pela natureza da web, a digitalização da informação.

A linguagem do carnaval virtual6 é uma negociação entre a linguagem plástica tridimensional presente nos desfiles de rua e a linguagem gráfica tridimensional proporcionada pelo ciberespaço. São acordos conectados ao sentido de que o desfile virtual se relaciona fundamentalmente com a simulação do “real” pela linguagem gráfica e interatividade. Assim, sua construção nasce da conexão intertextual e, ao mesmo tempo, da tradução entre textos da cultura dos aspectos do desfile de rua adaptando-os para as condições ambientais do ciberespaço.

Os desfiles de rua dependem das condições da avenida para construir seus desfiles, largura, altura e comprimento da avenida, e os desfiles virtuais se constroem pelas possibilidades geométricas de utilização do Ciberespaço. Como veremos, colocar a plasticidade do carnaval na Internet é literalmente digitalizar aspectos como desenhos e músicas.

Na Internet, o evento baseia-se na apreciação de desenhos feitos manualmente com lápis e papel que depois passam pelo scanner ou desenhos feitos com softwares como o CORELDRAW. O desfile virtual faz lembrar a apresentação audiovisual de croquis7. Estes desenhos simulam graficamente o corpo e representam os diversos setores da escola (alas, bateria, baianas, mestre- sala e porta bandeira). A perspectiva destes desfiles pode ser chamada de naif,8 há no mesmo espaço, a sugestão de pontos de vista bastante diferentes. Trata-se de uma perspectiva muito próxima daquela utilizada na idade média, onde diferentemente da perspectiva renascentista, a representação do espaço não era construída em função de um ponto central já dado, mas levava em conta relações não lineares entre sujeito e espaço.

Algo interessante é que nestes desenhos, percebemos singularidades corporais em ação, já que os desenhos que representam as escolas virtuais têm traços bastantes diferentes uma das outras, e percebemos que as habilidades para o desenho são diferentes entre os participantes dos desfiles. Mas, isto não tem causado censura na participação neste evento.

O desenrolar do desfile acontece quando o internauta move o desfile pela barra de rolagem da página, e isto lembra o “desenrolar” de um desfile de rua pela avenida. Como dissemos sobre o fato de que o atual paradigma destes desfiles virtuais serem um acordo provisório, nem todas as possibilidades na linguagem do ciberespaço foram aproveitadas por estas escolas de samba virtuais. A estrutura hipertextual ainda não foi “incorporada” a estes desfiles virtuais. Da mesma forma, recursos como animações em 2D ou 3D, fotografias e vídeo digitais ainda são possíveis “devires”.

Metaforizando a arquibancada há um chat onde os internautas conversam sobre o desfile. Há o samba que é transmitido por uma rádio on-line. Há um locutor que explica o enredo de cada escola. E de suas respectivas casas os responsáveis pelos desfiles, mixando a função de webmasters e carnavalescos, gerenciam os desfiles que criaram. O que é observável a “olho nu” em todo processo de construção da linguagem das escolas de samba virtuais é que estas são contaminadas pelo desfile de rua e todo seu universo Kitsch9. No trabalho dos responsáveis pelos desfiles, os textos que estruturam os desfiles de rua, quadra, barracão, disputa de samba, quesitos, e fundamentalmente o corpo vão metaforizar o desenvolvimento dos desfiles na Internet. Se o carnaval já é paródia, como demonstra Bahkthin (1983) os desfiles virtuais são uma “metaparódia”. Os desfiles virtuais, parodiando de forma despretensiosa o desfile de rua, nascem da imitação de um desfile de rua no ciberespaço.

Esta “imitação” do desfile de rua, estes acordos diferentes, entre diferentes ambientes, é um ponto importante a ser observado neste processo. Entender o funcionamento do desfile virtual é notar que há cláusulas comuns entre este e o desfile de rua. Para efetivar seus jogos espaciais cada escola de samba (virtual e de rua) apresenta anualmente um enredo sobre algum tema obedecendo a uma estrutura comum a todas as agremiações: o desfile começa com a apresentação da comissão de frente10, depois o abre-alas11, e logo depois uma seqüência que intercala alas com fantasiados e carros alegóricos. Vale ressaltar o significado de algumas destas alas dentro do desfile como a ala das baianas- as ”mães” do desfile, a ala com percussionistas, o “coração” da escola, e as duas alas que significam a memória do carnaval em ação: a velha guarda e a ala das crianças.

Uma comissão de jurados avalia o desfile seguindo alguns quesitos12 consagrando uma escola a campeã. A últimas colocadas saem do grupo onde estão e entram nos grupos antecedentes. Esta organização é anualmente utilizada. Com a diferença de que a apresentação dos desfiles virtuais nunca coincide com a época do carnaval de rua, vindo a se realizar no mês de julho. Sua realização, além de deslocar-se no espaço/ambiente, ao utilizar o ciberespaço como “local” de apresentação, também se desloca no tempo. Isto não chega a ser uma novidade, visto que existem “carnavais fora de época”.

4. Imitando o Trabalho do Carnavalesco

Os desfiles acontecem após a escolha de um enredo, uma trama que será fiada. Esta trama será transformada visualmente em alegorias e fantasias. Seu desenvolvimento cabe ao carnavalesco, ”O termo é bem engraçado, porque não possui a conotação de folião. O significado verdadeiro da palavra seria cenógrafo, figurinista e uma espécie de diretor de cena.” Magalhães (1996:45). No caso dos desfiles virtuais, a trama gráfica será desenvolvida pelo o que estamos chamando de “webcarnavalescos”.

Desde seu surgimento, o carnavalesco é visto como uma espécie de mediador cultural, uma “interface” entre o erudito e o popular, enredando arte popular e técnicas “pertencentes” ao universo da ciência. Na década de 60, Fernando Pamplona, então aluno da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, criou o trabalho visual da escola de samba “Acadêmicos do Salgueiro” trazendo à estética dos desfiles jogos coregráficos e idéias sobre figurinos que causaram bastante sucesso.

Mas a história da participação de “artistas profissionais” nas criações visuais dos desfiles é anterior. A Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro já tinha tradição em “emprestar” diversos de seus professores para trabalhar com o carnaval. Artistas como Chamberlein, e o casal Dirceu e Marie Louise Nery desenhavam estandartes para os blocos, e são apenas algumas das personalidades que demonstraram que o “erudito” mistura-se ao popular desfazendo as fronteiras normalmente erguidas entre tais categorias 13.

Mas a presença do carnavalesco tornou-se marcante a partir da década de 1970 quando a festa passa pelo seu grande momento de transformação visual, com o trabalho de Joãosinho Trinta e que não sendo necessariamente um destes profissionais oriundos do “universo erudito” foi o responsável pelas “literalmente maiores14” mudanças visuais do desfile de rua, que a partir de então inicia uma fase de crescente reorganização estética. A festa passa pelo seu grande momento de transformação visual. O desfile começa a se relacionar com a cidade de outra maneira. Acompanhando o crescimento urbano, existe agora um número muito maior de pessoas que participa do evento, o que contribui, e continua contribuindo, para a expansão da festa em termos de linguagem visual: maiores carros alegóricos, fantasias mais elaboradas, utilização de mídias interativas. A linguagem do desfile de rua parece ter se sintonizado ao crescimento urbanístico da cidade do Rio de Janeiro.

Esta (re)organização estética parece ter estimulado a presença do carnavalesco nos desfiles. Sob criticas que centralizavam a presença desta figura como a “morte e a banalização das raízes do samba15”, no entanto, o trabalho do carnavalesco enreda-se à identidade da escola e à própria apresentação visual desta. É comum conhecer expressões do tipo “estilo Joãosinho Trinta” ou “a Imperatriz de Rosa Magalhães”.

Desenhistas, professores, arquitetos, diretores e atores teatrais, artistas plásticos, ou seja, de um universo variado de ocupações surgiram outros nomes que se tornaram carnavalescos: Max Lopes, Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Viriato Ferreira, Renato Lage. Recentemente o carnavalesco Paulo Barros apresentou algumas alternativas estéticas para o desfile e que começam a chamar atenção.

A criação de um desfile é o conjunto de alegorias e fantasias. Porém, tal experiência não é elaborada individualmente. “(...) Concebidas pelo carnavalesco, o processo de sua criação no barracão reúne em torno de um objetivo comum uma equipe de especialistas e seus ajudantes.” Cavalcanti (1995:56)

Barracão é uma espécie de oficina onde o processo de montar e desmontar o carnaval é exercido, todas as alegorias e fantasias são construídas anuamente para os desfiles. Este lugar é um micro-cosmos que agrega diferentes atividades simultâneas por meio da divisão de trabalho constituindo-se em um verdadeiro sistema comunicativo que se organiza em função da construção do desfile, ocupando-se principalmente na construção das alegorias. Blass (2000) reflete sobre o trabalho no barracão, afirmando que se trata de uma atividade fundada no conhecimento artesanal e que mobiliza a inteligência criativa em seu exercício. Aponta ainda que a noção de trabalho criada e imaginada na modernidade européia sobre a separação entre trabalho e lazer, e conclui que o barracão tem despertado a atenção de muitos consultores empresariais que buscam formas criativas de gestão de trabalho e produção. Já as escolas virtuais, não tendo um endereço fixo, têm como barracão o quarto, o escritório, a sala ou qualquer lugar onde esteja o computador na residência dos responsáveis pelos desfiles. E toda a equipe que ajuda na construção do desfile virtual encontra-se em suas respectivas casas conectados pela web.

A quadra é outro espaço dentro do universo dos desfiles. É o local onde são realizados os ensaios e os encontros da comunidade16. Neste espaço também acontece uma parte fundamental do processo de construção do carnaval: a competição que vai escolher o samba que será cantado no desfile17. A “disputa de sambas”, como é conhecida, é outro ritual dentro do ritual dos desfiles. Existem alas de compositores nas escolas que fazem parte desta disputa, mas na prática qualquer um pode inscrever seus sambas e competir. Sabendo que se trata de um processo coletivo, muitas vezes até o carnavalesco entre nesta questão18.

Os sambas das escolas de samba virtuais, cuja “quadra” fica no ciberespaço, imitam todo o processo de “disputa do samba”, mediando-o pela Internet. Os sambas são enviados, por qualquer um que queira concorrer, na forma de arquivos digitais e escolhidos pelas respectivas comissões organizadoras de cada escola.

Em todo este processo de replicar a idéia do desfile de escolas de samba de rua na Internet, imitar o trabalho do carnavalesco é uma ação importante que conectou-se a este processo. Boa parte da brincadeira dos desfiles virtuais consiste basicamente em imitar o trabalho de concepção visual feito pelo carnavalesco, e a reunião de habilidades singulares individuais em torno de objetivos comuns. Construir um desfile virtual significa reunir pessoas que criem o samba, que desenhem ou alguém que entenda de informática, ou seja, a criação das chamadas inteligências coletivas, Levy (2004)

Portanto, as inteligências coletivas organizadas na rede apenas apresentam um processo de evolução da inteligência coletiva já presente nos barracões das escolas de rua. Não sabemos exatamente por que imitamos ou por que escolhemos imitar alguma coisa em detrimento de outras, mas sabemos que a imitação é um modo da cultura construir sua permanência para comunidades futuras19. É uma memória em ação, em movimento. Toda vez que há transferência de informação por imitação, irrigam-se cadeias de informações diferentes. No corpo de cada indivíduo há memórias de suas linguagens que estão em permanente transformação. Estas memórias se correlacionam com a memória coletiva onde este encontra-se inserido. Como corpo e cultura estão entrelaçados, a memória do carnaval está sujeita a estas mudanças presentes nas próprias memórias do corpo. É impossível não perceber que há uma relação entre os diferentes caminhos de uma memória corporal de um indivíduo20 e os diferentes caminhos da memória de uma sociedade.

Assim fica claro que Imitar não é reproduzir, mas sim, conectar o já adquirido ao “estranho”. E desta forma, imitar um gesto qualquer cria cadeias que conectam informações diferentes naquilo que foi imitado. Diferenças inseridas em contextos singulares. Por exemplo, no ciberespaço, imitar a ação de carnavalescos é lidar com a complexidade de outras singularidades: uma alegoria “de rua” é copiada/traduzida tendo também o “pixel” das telas como recurso.

Neste contexto, construir um carro alegórico no ciberespaço é conectar diferentes processos de habilidades cognitivas que vão alterando o design gestual do corpo: continuam informações como lidar com desenho manual, lápis e papel, mas no caso dos desfiles virtuais, tais ações corporais também lidam com o teclado, ao invés de se usar formões ou lixas, por exemplo na criação de uma escultura, que no ciberespaço é tridimensionalmente digital, o que ocasiona o uso de softwares para modelagem. Toda uma cadeia de acordos e conhecimentos “já instalados” e possibilidades cognitivas em devir vem pela seleção destas imitações. Como estamos dizendo, por imitação o corpo e suas linguagens têm mantido suas memórias. E as memórias culturais têm se mantidos vivas, e também se transformado possibilitando que novas memórias nasçam.

Outra questão interessante é que muitos dos responsáveis pelos desfiles virtuais, como moram em lugares distantes do Rio de Janeiro, vêem o desfile carioca principalmente pela televisão21. “Aprendem o ofício” através deste meio. Isto nos sugere que o corpo seja uma “interface cognitiva”, no sentido de que esta constantemente contaminando e sendo contaminado pelas informações.

Quando essa informação habita redes distributivas poderosas como meios de divulgação de massa (televisão, rádio, jornal, internet etc), a primeira conseqüência é sua proliferação rápida. Sendo o corpo ele mesmo uma espécie de mídia, a informação que passa por ele colabora com seu design, pois desenha simultaneamente as famílias de suas interfaces.” Katz & Greiner (1999:95)

Se os fundadores da Liesv estavam pensando em uma solução para que as pessoas que não moram no Rio de Janeiro pudessem brincar o carnaval, a “simples decisão” de brincar o carnaval imitando “à distância” o processo coletivo de montar o carnaval nos mostra que o corpo e suas linguagens são suscetíveis a constantes (re)desenhos. Mapas redesenhados que assinalam as mudanças do lado de fora em conexão com as redes de informação internas do corpo. Os mapas de linguagens que o corpo já adquiriu se conectando a outros mapas, que sem estarem determinados, podem ainda ser organizados.

Considerações finais: A Fragmentação da Identidade da linguagem dos desfiles Virtuais como metáfora a busca de Identidades.

Como dissemos, construir um desfile virtual significa a criação das chamadas inteligências coletivas através de comunidades virtuais, como discutida por Reinghold (2009)22 e Costa (2002).

Portanto, as inteligências coletivas organizadas na rede apenas apresentam um processo de evolução da inteligência coletiva já presente processo de construção das escolas de rua. Não sabemos exatamente por que imitamos ou por que escolhemos imitar alguma coisa em detrimento de outras, mas sabemos que a imitação é um modo da cultura construir sua permanência para comunidades futuras. É uma memória em ação, em movimento. E toda vez que há transferência de informação por imitação, irrigam-se cadeias de informações diferentes. No corpo de cada indivíduo há memórias de suas linguagens que estão em permanente transformação. Estas memórias se correlacionam com as memórias coletivas onde aquele se encontra inserido. Como corpo e cultura estão entrelaçados, a memória do carnaval está sujeita a estas mudanças presentes nas próprias memórias do corpo. É impossível não perceber que há uma relação entre os diferentes caminhos de uma memória corporal de um indivíduo23 e os diferentes caminhos da memória de uma sociedade.

A organização de padrões e o surgimento de alternativas para tais padrões são instâncias em processo de co-evolução. Desta forma, a idéia destes desfiles virtuais sublinha que as soluções organizativas buscam outros caminhos para revelar-se. A visão dicotômica acerca do ciberespaço baseia-se no tradicional “medo da substituição” que enxerga a novo como o “anúncio do fim”. A lógica da substituição, como atesta Levy (1999), deve ser repensada pela própria observação da história: quando o cinema surgiu, previsões apocalípticas sugeriram que o teatro estaria acabado; quando a televisão surgiu, previu-se o fim do cinema. No entanto, essas linguagens co-existem e estão se misturando e dando origem a novos meios e modos de comunicação, caso da própria internet. Linguagens que emergem do novo são uma parte fundamental do processo de conhecer, uma vez que demonstram a capacidade da vida social reagir e poder se entrelaçar ao reavaliar os sentidos que atribui aos seus fluxos de existência. O surgimento destes desfiles virtuais não deve ser razão para a criação de uma ‘nova’ dicotomia – desfile virtual versus desfile de rua –, até porque não consegue dar conta da complexidade dos universos local e virtual.

Esta questão, por exemplo, pode ser percebida no discurso de um dos fundadores da LIESV, ao explicar o nascimento da idéia:

Março de 2003, acabou o carnaval, e agora? Fiz essa pergunta a mim algumas vezes, até que um dia me veio uma luz. Pensei muito nas pessoas que não moram no Rio e que por isso não tem muito acesso às escolas. Por que não criar um carnaval pela Internet? Assim todos podem participar, mas como fazer isso? As idéias foram surgindo e divulgadas. Não faltaram críticas e elogios, e as escolas começaram a se inscrever, esse foi o primeiro sinal de que o projeto daria certo. Passadas as disputas de samba (bem interessantes) chegou o carnaval virtual, o carnaval do sacrifício, que apesar de todos os problemas, dificuldades e brigas, deu certo e fez sucesso. Hoje o principal objetivo é revelar novos talentos e que mais pessoas do meio carnavalesco saibam sobre a existência de nosso carnaval virtual, um projeto levado muito a sério, mas que apesar disso, não deixa de ser uma brincadeira.”24

O que este discurso deixa à vista é o fato de hoje, o sujeito atravessa por diversos e complexos processos identitários. Tendo em vista que estamos na pós-modernidade como argumenta Hall (2004) ao propor que o sujeito contemporâneo cruza diferentes processos de construção de identidades, argumentamos que este processo é contextualizado pela fragmentação do sujeito, ou seja, há diversos e complexos processos de mediação que impossibilitam que a identidade deste sujeito na contemporaneidade seja algo estável. Estas diferentes formas de relação com a linguagem dos desfiles dizem respeito à fragmentação dos processos de construção de identidade dos sujeitos contemporâneos, uma vez que os mesmos estão mergulhados em diferentes processos de mediação provocados, dentre outras questões, pelas diversas tecnologias comunicativas. Como estamos falando de linguagens dos desfiles de escolas de samba, esta idéia de fragmentação das identidades do sujeito contemporâneo ajuda a perceber que os processos comunicativos construídos pelo desfile, tanto de rua quanto virtual, são também diversos e muitas vezes fragmentados, uma vez que há diversos processos de mediação envolvidos neste contexto.

E sem que nos esqueçamos que inverter regras é algo inerente ao próprio carnaval (DaMATTA, 1987), argumentamos, ainda, que estes desfiles virtuais, invertem a lógica do carnaval que tradicionalmente acontece no lado de fora, na rua, levando o mesmo para dentro, através do uso do computador, e que também parecem tratar de diversos sentidos de self25 buscando organizar outras singularidades, diferentes daquelas referentes à rigidez do espetáculo oficial, daquilo que é aceitável como norma. Normas que incluem, também, aquilo que diz respeito às linguagens que o corpo constantemente (re)cria e que compõem suas identidades também em permanente processo de (re)construção.

NOTAS:

1 Já existem outras ligas virtuais. No entanto, este trabalho tem como foco a primeira delas, no caso, a Liesv.

2 O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica. Ele é constituído de seqüências ordenadas e padronizadas de palavras e atos, em geral expressos por múltiplos meios. Estas seqüências têm conteúdo e arranjo caracterizados por graus variados de formalidade (convencionalidade), esteriotipia (rigidez), condensação (fusão) e redundância (repetição). A ação ritual nos seus traços constitutivos pode ser vista como “performativa” em três sentidos: 1) no sentido pelo qual dizer é também fazer alguma coisa como um ato convencional [como quando se diz “sim” à pergunta do padre em um casamento]; 2) no sentido pelo qual os participantes experimentam intensamente uma performance que utiliza vários meios de comunicação [um exemplo seria nosso carnaval] e 3), finalmente no sentido de valores sendo inferidos e criados pelos atores durante a performance [por exemplo, quando identificamos como “Brasil” o time de futebol campeão do mundo]”. Peirano (2003:11)

3 Como atesta Pinheiro, (1995:9) “...a mente trabalha os signos neste continente, mais pela fricção de superabundâncias alógenas( daquilo que alegoricamente diz o outro) do que pelos mecanismos binários de inclusão e exclusão.”

4 Quando nos referimos ao entrelaçamento das performances e linguagens do corpo, estamos observando o pensamento de Ivan Bystrina que entende o funcionamento das diversas linguagens pela existência de códigos . Há três tipos de códigos entrelaçados: 1- Códigos hipolinguais-processos informativos que possibilitam a sobrevivência biológica, intra-individual, intra-organica. 2- Códigos linguais- língua natural e permite a sobrevivência através da sincronização das atividades de organização coletiva. 3- Códigos hiperlinguais são os que trabalham os textos da culturas, como mitos, história , lendas, crenças, religiões em que o insolúvel, como a morte, é resolvido e o inevitável é evitado”. Menezes (2002:55).

5 Para Prigogine & Stengers (1988) o homogêneo é mais complexo que o heterogêneo. Enquanto as coisas estão separadas existe heterogeneidade. Ao contrário, misturar, homogeneizar significa um processo irreversível.

6 Um vídeo que pode apresentar uma breve idéia sobre estes desfiles pode ser visto em: http://www.youtube.com/watch?v=wcGJmPhb2KA&feature=PlayList&p=1FFBDE432DF4D301&index=0&playnext=1 acesso em outubro de 2009

7 As escolas de samba “de rua” expõem as fantasias de seus desfiles em seus respectivos sites com o objetivo de venda. Aparentemente a apresentação dos desfiles virtuais se assemelha a esta apresentação virtual das fantasias das escolas de rua. Ver, por exemplo, o site da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro: http://www.salgueiro.com.br/S2008/CA.asp?2008 acesso em Outubro de 2009.

8 Expressão francesa que traduz a idéia de ingenuidade. Aparece para designar a pintura de Henry Rouseeau, cujo trabalho se caracterizava por traços infantilizados, daí ingênuos. A arte naif tem no país grande expressividade. José Antônio da Silva e Heitor dos Prazeres são nomes importantes desta linguagem no Brasil.

9 “Mau gosto” elevado à categoria de novidade. Sobre isto ver “O Kitsch” de Moles (1972)

10 Grupo que apresenta a escola.

11 Primeiro carro alegórico.

12 A idéia de um ‘corpo’ de jurados remete aos festivais de música. Os jurados dos desfiles carnavalescos são responsáveis por escolher a escola vencedora. Para se sagrar campeã do desfile, é preciso alcançar a nota máxima nos dez quesitos: Enredo, Samba-Enredo, Bateria, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Fantasia, Alegoria, Comissão de Frente, Evolução, Conjunto e Harmonia. O tema do enredo deve estar perfeitamente integrado aos quesitos, sobretudo no que diz respeito à Evolução, ao Conjunto e à Harmonia.

13 Sobre esta questão o artigo “O erudito e o popular. A estética das escolas de samba” (1997), da antropóloga Maria Lúcia Montes é bastante pontual, pois discute, entre outras coisas, a questão de que o carnaval desfaça as fronteiras entre tais categorias.

14 Em “ Sonhar com rei dá leão”, desfile da Beija-Flor de 1974, contando a história do jogo do bicho e enfatizando os significados do sonho para o homem, este carnavalesco aumentou a proporção dos carros alegóricos e das fantasias. Nos anos seguintes todas as escolas foram aderindo à esta nova estética. Acusado de ter dado à festa uma dimensão Hollywodiana” anos depois proferiu a célebre frase: “ O povo gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual!". Analisando esta nova realidade e sobre o que este luxo representa para o carnaval Betty Milan diz( 1994: 1): “Quer dizer, o luxo do carnaval é o da fantasia realizada, é o triunfo da imaginação que aliás nos valemos o ano inteiro para driblar a realidade, apostando no jogo do bicho ou na loteria esportiva, ignorando a miséria na esperança da riqueza e assim nos recriando enquanto brasileiros.”

15 A figura do carnavalesco tem sido discutida como um fator que “interfere” na “essência” do carnaval. Algumas criticas à figura do carnavalesco podem ser vistas “As escolas de samba do Rio de Janeiro” Cabral(1996)

16 Na quadra acontecem diversas atividades como casamentos, velórios, batizados.

17 Nem sempre o samba foi associado ao carnaval: “No início do século XX o campo da música popular ouvida no Brasil era regido por uma extrema variedade de estilos e ritmos. O próprio carnaval, descrito por Oswald de Andrade como ‘o acontecimento religioso da raça’, não era festa movida por músicas brasileiras. Ao contrário, os maiores sucessos da folia, desde que ela se organizou em bailes (tanto aristocráticos como populares), eram polcas, valsas, tangos, mazurcas, schottishes e outras novidades norte-americanas como o charleston e o fox-trot. Do lado nacional a variedade também imperava: ouviam-se maxixe, modas, marchas, cateretês e desafios sertanejos......Foi só nos anos 30 que o samba carioca começou a colonizar o carnaval brasileiro, transformando-se em símbolo nacional.” Viana (1995:110-111)

18 É interessante apontar que a disputa do samba não se trate de um processo fechado. Os próprios carnavalescos, algumas vezes, contaminam este processo. Um exemplo é o samba enredo da Beija-Flor , de 1976, “Vovó e o rei da saturnália”. Joaosinho Trinta compôs boa parte dos versos do samba. Esta ação é passível de críticas, mas fica como fatoo para exemplificar a complexidade da questão da autoria.

19 Sobre esta questão há vários estudos. Vamos pensar a imitação no contexto cognitivo. Katz e Greiner (1999:87) conceituam que “A imitação tem sido apontada como uma habilidade importante no que se refere aso estudos da cultura e vem sendo tratada como um aspecto fundamental para a compreensão do trânsito entre as informações que estão no mundo e a sua possibilidade de internalização. Blackmore (1999) explica que a imitação envolve:

1-decisão sobre o que imitar. O que conta como sendo o mesmo ou similar;

2- transformações complexas de um ponto devista para outro;

3- a produção de ações corporais

Quando copiamos uns aos outros, algo aparentemente intangível é passado. Essa seria uma chave importante para a organização cultural e esse ‘algo’ a ser transmitido, um aspecto importante da questão”

20 Sobre a questão da memória o neurologista Gerald Edelman tem uma importante teoria sobre o cruzamento de diferentes mapas neuronais. “A memória é imprescindível. Para Edelman, a memória não é apenas um processo passivo de armazenamento, mas um processo ativo de recategorização alicerçado em categorizações prévias.” Searle (1998:69)

21 Em um bate papo pelo messenger com alguns destes webcarnavalescos, descobri que muitos deles só haviam assistido ao desfile de rua no Rio de Janeiro na Marquês de Sapucaí, apenas uma vez.

22 Fonte WWW.reinghold.com acesso em dezembro de 2008

23 Sobre a questão da memória o neurologista Gerald Edelman tem uma importante teoria sobre o cruzamento de diferentes mapas neuronais. “A memória é imprescindível. Para Edelman, a memória não é apenas um processo passivo de armazenamento, mas um processo ativo de recategorização alicerçado em categorizações prévias.” Searle (1998:69)

24 Disponível no site WWW.liesv.net (acesso em maio de 2005)

25 Conceito discutido por Damásio (2000) que diz respeito ao constante processo de construção de nossa consciência, questão que inclui discussões sobre nossa própria identidade.

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