IV Congresso da CiberSociedade. Crise analógica, futuro digital

Grupo de Trabalho F-31: Redes sociais

Memórias anônimas: buscando trilhas conceituais para investigar algumas interfaces do passado na web

Resumo

Como é possível entender as memórias anônimas em circulação na rede mundial de computadores? Que referenciais teóricos nos possibilitam compreender os artefatos que transpõe o passado para tela? A partir de uma navegação analítica no portal BBC Memoryshare e na comunidade PostSecret, nos propomos a encontrar algumas possibilidades conceituais. Esta comunicação indica algumas questões colocadas por tais práticas frente à sociologia da memória, ao mesmo tempo que empreende um levantamento bibliográfico sobre os desenvolvimentos teóricos mais recentes para o estudo das relações entre memória social e novas tecnologias da informação. A aposta é fazer emergir reflexões mais acuradas sobre tais relações a partir do confrontamento entre os dados empíricos dos artefatos escolhidos e as abordagens teóricas selecionadas. A partir daí propomos três enquadramentos possíveis para pensar as memórias anônimas em suporte digital.

Texto da comunicação

Transparent Screen 2. Foto de Oddgeir Auklend1.

Uma epígrafe-imagem. Uma epígrafe- pergunta: onde estão as fronteiras entre a tela e o mundo? O olhar deste fotógrafo, que publicou uma série intitulada Transparent Screens, nos remete diretamente à nossa questão. É neste espaço, que na foto supomos inexistente, entre a tecnologia e o mundo, que situamos nossa problemática. A ilusão construída pelo artista nos faz pensar nas formas de mediação cultural implicadas nas práticas contemporâneas com as novas tecnologias da informação. Neste amplo cenário , caracterizado pela ubiqüidade tecnológica, nos interessa pensar sobre as formas de registro do passado, sobre as configurações da memória social em meio digital. Na foto, a transparência é apenas uma ilusão meticulosamente construída no Photoshop. Os registros do passado na web, por sua vez, não se constituem em princípio como uma continuidade ilusória do mundo concreto.

Nem sempre é possível distinguir as fronteiras, mas podemos nos perguntar sobre os modos implicados nas práticas contemporâneas de registro em bits. E mais ainda: podemos nos perguntar em que medida tais práticas podem gerar uma reflexão sobre nossos instrumentais teóricos sobre a memória social. Nas linhas que se seguem nos propomos o seguinte percurso: pensar os registros digitais através de dois projetos (Postsecret e Memoryshare), investigando de que modo tais objetos podem colocar questões para o modelo teórico sobre a memória social proposto pioneiramente na obra de Maurice Halbwachs (1950). Embora o pensamento do sociólogo fançês já tenha sido alvo de muitas controvérsias, sua obra inaugural ainda exerce uma centralidade no campo de estudos sobre a memória social (Klein,2000). Nossa modesta proposta neste artigo é tratar alguns problemas conceituais da contemporaneidade a partir do enigma das memórias anônimas e apontar algumas possibilidades teóricas para abordar tal fenômeno. A seguir faremos uma descrição dos objetos selecionados, já tecendo nossa argumentação que tomará forma no item final deste trabalho.

1.1 Memoryshare ou é possível compartilhar memórias via internet?

O projeto MemoryShare criado, em julho de 2007, pela BBC de Londres tem por objetivo o registro de memórias a partir de 1900 até os dias de hoje. Os usuários da plataforma digital podem compor suas reminescências não apenas com palavras, mas também com fotos e vídeos. Cada integrante do projeto possui um cadastro e pode inserir suas memórias, apagar as anteriores ou editá-las a qualquer momento. Há registros autorais, ou seja, que contém nome completo do autor, porém, há também uma grande quantidade de registros anônimos ou com assinaturas que serão reconhecidas apenas por um determinado grupo. Importa notar que a autoria não é obrigatória para inclusão do relato ou foto no acervo digital. Esse é um aspecto bastante interessante deste arquivo que transpões para o universo dos registros de memória um aspecto comum em redes sócias na web, nas quais não é obrigatória uma identificação completa.

A partir de uma navegação impressionista no acervo Memoryshare podemos dizer que se trata de um artefato de caráter bastante fragmentário e que atende às demandas da BBC para criação de conteúdos para futuros documentários e programas de rádio e TV. De fato, há uma vasta gama de temas ali registrados: casamentos, eventos públicos, guerras, encontros, etc. Todos estes registros inserem-se em um software de visualização que apresenta cada “memória” como um ponto numa linha do tempo em aspiral, compondo uma imagem psicodélica e proporcionando uma escolha dos itens de uma maneira bastante diversa daquela de um leitor de uma lista em ordem alfabética, por exemplo. Descrever este sistema de apresentação dos registros é um esforço de transpor em palavras este tipo de navegação que, no entanto, é uma das características mais importantes do website. Assim, neste experimento narrativo, apresentarei três telas a seguir. A primeira com a página de abertura do acervo, a segunda captura o momento de escolha de uma memória e a terceira mostra o item escolhido.

Interface 01: iniciando a navegação

Na parte superior vê-se o instantâneo do programa de visualização, onde cada grão corresponde a um registro. A cor é gerada a partir do dia da semana da memória em foco, porém não consegui descobrir qual o mecanismo quando não é mencionado o dia...A forma de cada “ponto” deriva de uma abstração com a primeira letra do registro2. Vemos aí a imagem parada, porém vale lembrar que ela move-se com uma velocidade razoável e que para conseguir clicar na memória escolhida é bom ter uma certa desenvoltura com o mouse.

 

Interface 02: escolhendo/acessando um registro

Como o título acima “My memories of Today” muitos outros vão aparecendo e desaparecendo da tela à medida que navegamos com o mouse. Outra possibilidade é a busca a partir da linha do tempo que existe na lateral esquerda da moldura.

 

Interface 03: lendo/vendo/navegando em um registro

Este registro “batom , pó e palmada” conta a primeira lembrança de Janooo, ocorrida em primeiro de janeiro de 1976. Não sabemos quem é a autora, mas passamos a conhecer sua narrativa da infância e podemos nos perguntar como no século XXI a primeira recordação torna-se um selo de identidade ou assim possa ser. De todo modo, não sabemos quem é Janoo, mas ali na nossa frente seu relato está entre os muitos outros possíveis.

Nas três imagens escolhidas podemos perceber alguns aspectos desta plataforma de registros digitais. A fragmentação dos temas e a ausência de qualquer esforço reflexivo sobre as memórias ali registradas, parece nos colocar diante daquilo que Beatriz Sarlo (2007:9-22) chamou de uma cultura de memória ausente de pensamento sobre a memória. Por outro lado, onde encontramos alguma elaboração encontramos uma proposta de criar uma “história dos cidadãos” como lemos no trecho abaixo retirado do editorial do site:

Memoryshare is about putting your memories online to build up a unique picture of living in the British isles since 1900. It's unique because Memoryshare is about building up a picture of our history from Britain's citizens. Anyone who lives, learns, works or plays in this country can contribute to recording what life was like living in the 20th century and continuing into the 21st.”3

De alguma forma, esta passagem nos revela um “desejo de memória” associado a um projeto nacional que se quer perpetuar para as futuras gerações. Como entender tal projeto amalgamado em uma plataforma de visualização tão fragmentária? Como pensar a possibilidade de unidade de tais registros compostos a partir de computadores pessoais espalhados pelo mundo? Como pensar a construção de indentidade a partir de registros anônimos? Eis algumas questões colocadas por este artefato cultural do nosso ciberespaço, o portal Memoryshare.

2. PostSecret - o que são os segredos públicos da nossa rede digital?

PostSecret é um website criado em novembro de 2004 por Frank Warren, um artista norteamericano, cujo objetivo é publicar postais anônimos que contem um segredo. De início, Frank Warren distribuiu aproximadamente 300 postais já selados nas ruas de Washington (DC) para que as pessoas pudessem enviar pelo correio e assim participar de seu projeto. Este foi o ponto de partida do projeto que tornou-se um dos sites mais visitados da web norteamericana. Hoje a comunidade virtual PostSecret já possui versões em espanhol, françês, alemão e coreano. Desde então, Warren recebeu aproximadamente 175 mil cartões postais e publicou apenas uma porcentagem dos mesmos. Recentemente foi criado um outro website, denominado PostSecret Archive para publicar uma parte dos postais não escolhidos ao longo dos anos4.

O número significativo de postais recebidos pelo projeto nos coloca diante de uma das questões fundamentais sobre a internet: a exposição da vida privada. Ou melhor, como destacam alguns autores, o que está em jogo é uma redefinição do público e do privado (van Dijk, 2007:53-66). Os blogs são relatos de escrita íntima, porém diferentemente dos diários do século XIX , são escritos para serem imediatamente consumidos. Este é o caso do PostSecret, que diferentemente do MemoryShare não possui um discurso de construção de uma memória, mas nos aponta para a questão da formação de um acervo de “pequenos testemunhos” selecionados e de caráter anônimo. Ao mesmo tempo, trata-se de um projeto artístico de interação com o público que denota uma certa possibilidade de narração do cotidiano. Trouxemos este exemplo por ser algo significativo na cultura da rede, citado por muitos blogs, eleito em 2006 como melhor blog norteamericano e publicado em uma série de livros.

As telas abaixo revelam um pouco deste projeto.A primeira mostra a abertura da comunidade virtual e algumas formas ali disponíveis, como quadro de mensagens e os eventos. A segunda mostra a interface do arquivo com um meta-cartão-postal sobre tudo que é descartado. E a terceira imagem nos mostra um cartão postal disponível, escolhido por Frank Warren para permanecer online por uma semana5.

 

 

Embora PostSecret não seja a rigor um projeto de memória, o arquivamento de tais mensagens nos coloca diante de um emaranhado de questões sobre as práticas contemporâneas de viver, narrar e arquivar o cotidiano. O anonimato está ali posto como condição de enunciação e assim será preservado. Como pensar a construção de um acervo de relatos individuais e anônimos? Que categorias podem ser manejadas para pensar tal elaboração? É possível pensar na categoria de grupo ou estamos diante de um artefato cultural que embora coletivo não pressupõe laços sociais entre os seus membros? E mais: como pensar a circulação da tecnologia ali envolvida que vai do velho cartão postal que é scaneado e transposto para web? Essas são algumas das questões que podem ser pensadas a partir de uma breve análise deste artefato que torna as fronteiras entre arte, registro e memória e bastante difusas.

3. Memórias anônimas online: possíveis conexões teóricas

A pesquisa sobre a memória social está associada, desde a emergência deste campo de saber, com o enfrentamento de questões relacionadas aos grupos e identidades.

Neste começo de século XXI, qualquer estudo que se proponha a enveredar no campo tumultuado da memória social há de - em algum momento - mencionar a obra de Maurice Halbwachs. Seja para opor-se a ela ou para reconhecer-se como parte de uma linha investigativa devedora dos estudos inaugurais desenvolvidos pelo sociólogo francês. A obrigatória referência aos estudos desenvolvidos por Halbwachs não significa que haja um consenso sobre a nomenclatura ou interpretações, nem mesmo entre aqueles que se dizem seus herdeiros. Dialogando com a psicologia, sobretudo Freud, e a filosofia, principalmente Bergson, e construindo uma abordagem alicerçada nos pressupostos da sociologia de Durkheim, o pensamento de Maurice Halbwachs constitui um marco na apreensão da memória a partir de um enfoque social. Sua importância situa-se justamente na criação de uma nova ordem de questões relacionadas à memória, que deixava de ser perscrutada unicamente como um atributo individual (Sepúlveda,2003, Hutton,1993). Na acepção de Halbwachs, só se pode entender os atos de lembrar e esquecer se percebermos suas associações com o todo social. A memória é coletiva na medida em que seria constituída por imagens e esquemas do passado que estão diretamente associados à coesão dos grupos. Os indivíduos não recordam sozinhos. As lembranças são frutos destes esquemas ou quadros socialmente adquiridos e exercem uma função relevante na dinâmica social.

A partir de Halbwachs este foi um nó fundamental e autores contemporâneos, que mesmo afastando-se do pai-fundador da pesquisa sociológica sobre a memória, ainda colocam em pauta o problema da identidade ao se questionar sobre a constituição de uma cultura de memória. Esta é, sem dúvida, uma questão que acreditamos ainda ser um ponto crucial a ser enfrentado pelos pesquisadores deste passado presente a que chamamos memória. Porém, diante da existência de artefatos sociais que se constituem em registros de memória de caráter anônimo, como os que abordamos, recolocamos a nossa pergunta: como podemos articular uma pesquisa empírica a um modelo cuja categoria central é a “memória coletiva”?

De uma certa forma a questão acima reedita uma velha controvérsia do campo de estudos da memória social: a questão dos conflitos. Como vários autores já apontaram a perspectiva durkheiminiana de Halbwachs focalizou o problema da coesão não abordando as disputas envolvidas na elaboração das memórias em sociedade. Herdeiros desta tradição, como, por exemplo, Michael Pollack (1989), propuseram um olhar construcionista sobre a memória social, dando a ver os embates no processo de constituição das memórias coletivas. Tais estudos, porém, não trataram sobre os dissensos entre as memórias individuais e as memórias coletivas, um nó fundamental para nossa problemática.

Em recente balanço teórico sobre o tema, o sociólogo norteamericano Jeffrey K. Olick propõe abandonar o termo “memória coletiva” em favor da expressão “sociologia das práticas e produtos menemônicos” que agregaria os insights mais relevantes da obra de Halbwachs. Para Olick: “To focus on collective memory as a variety os products and practices is thus to reframe the antagonism between individualist and collectivist approaches to memory more productively as a mater of moment in a dynamic process.”(2007:158). A noção central adotada é de que a memória é simultâneamente individual e coletiva, tratando-se de um fenômeno que se expressa de múltiplas formas e em mídias diversas. Mas, então, como apreender tal fenômeno? Olick aponta a necessidade da questão entre indivíduo e sociedade, especialmente no que se refere `as práticas relacionadas à memória, devem ser perscrutadas teoricamente , mas em conjunção com pesquisas empíricas. Ou seja, para o pesquisador discernir entre individual e coletivo é uma tarefa de todos os estudos empíricos sobre o tema que procuram desvelar as nuances possíveis em determinados objetos.

Do mesmo modo, o modelo conceitual proposto por José van Dijk (2007) de uma memória mediada, ao mesmo tempo social e individual pode ser uma possibilidade analítica para enfrentar as modalidades contemporâneas de estabelecimentos de vínculos entre o passado e o presente. A pesquisadora holandesa elege como objeto de estudo registros de caráter marcadamente individual como os álbuns de fotografias digitais ou vídeos caseiros, tratando-os como objetos de análise cultural. A tecnologia e sua relação com a constituição de uma ecologia cognitiva (Levy, 1998) são incorporados como problemas centrais na argumentação da autora, que oferece um rico panorama teórico sobre o tema entrelaçado a análises empíricas relevantes. O seguinte trecho elucida essa interessante proposta teórica:

Mediated memories are the activities and objects we produce and appropriate by means of media technologies, for creating and re-creating a sense of past, present and future of ourselves in relation to others. Mediated memory objects and acts are crucial sites for negociating the relationship between self and culture at a large, between what counts as private and what as public, and how individuality relates to collectivity. (...) Mediated memories refers both to acts of memory(construing relational identity etched in dimension of time) and to memory products(personal memory objects as sites where individual minds and collective culture meets). (2007:21-2)

O pressuposto de J.van Dijk é o de que os artefatos individuais estão inseridos em modos compartilhados socialmente de registrar e rememorar o passado. Tais modos estão, por sua vez, estreitamente relacionados às mídias utilizadas. Fotografias ou imagens em movimentos do núcleo familiar evidenciam uma prática compartilhada de viver o presente. Tal como J. Olick, a autora reconhece a importância de M. Halbwachs para a fundamentação de um campo de saber sobre a memória, porém distintamente do pesquisador norteamericano J.van Dijk propõe um modelo teórico que transcende o pai fundador da sociologia da memória. As obras de H. Bergson e G. Deleuze constituem-se em pontos importantes da sua abordagem que procura estabelecer relações com o campo da psicologia cognitiva. A partir deste diálogo teórico emerge um modelo que trata também da possibilidade criativa nos registros da memória, mas que se propõe a uma investigação de caráter cultural ampliando as premissas de Bergson e Deleuze.(2007:127-9). As aproximações teóricas e as análises empíricas propostas em Mediated Memory in Digital Age (2007) fazem deste trabalho uma referência importante para aqueles que pretendem investigar as conexões entre as elaborações da memória no mundo contemporâneo.

A partir das trilhas conceituais abordadas é que nos propomos a tecer algumas reflexões sobre os artefatos digitais escolhidos, Memoryshare e Postsecret, que nos colocam diante de um modo específico de relação com o passado e, ao mesmo tempo, com as diferentes possibilidades teóricas de pensar tais práticas. A relação anônima e fragmentada com o vivido é um fenômeno comum nos dois objetos culturais, muito embora haja distinções entre os mesmos. No caso do projeto da BBC o anonimato não é obrigatório, mas uma navegação impressionista nos mostrou uma grande quantidade de memórias anônimas ou com codinomes compartilhados em grupos restritos. Tal observação nos coloca diante da necessidade de refutar uma associação automática entre memória e identidade. Estaríamos então diante de um novo paradigma da memória social? De que maneira tais artefatos digitais, tais mediações da memória, poderiam evidenciar tal virada?

É preciso redobrar nossa cautela ao embarcarmos em tais reflexões. Em primeiro lugar, é bom ressaltar que nossos objetos estão mergulhados em um universo múltiplo de conexões, entre as mídias e entre outras formas de registros do passado, como a oralidade ou os monumentos públicos. O esforço de pesquisar e pensar sobre os problemas trazidos por tais objetos nas novas mídias não exclui todo um universo paralelo, onde as questões de identidade e de grupo são fundamentais para compreender as mais diversas práticas memorialísticas. Nesse sentido, o primeiro ponto relevante a mencionar é que tais objetos só podem ser plenamente compreendidos a partir de uma investigação minuciosa que integre sua relação com outras mídias e com as práticas sociais mais amplas. No caso do projeto Memoryshare seria fundamental cotejar os usos dados pela BBC ao conteúdo ali gerado e, ao mesmo tempo, relacionar o estilo das contribuições com outras formas de relato em circulação, como o Weblog.

A partir de nossas considerações acima, redobrando o cuidado com generalizações apressadas, pensamos poder apontar três pontos cardeais para a análise de tais artefatos de memória em suporte digital. Eis os limites possíveis desta comunicação: apontar caminhos e relações entre concepções teóricas e tais objetos do ciberespaço.

Primeiro:as escritas e a tela. As interfaces do passado em plataforma digitais refletem e criam as novas formas de registrar e de ler na tela do computador. Os estudos sobre as novas práticas de leitura nos mostram o quanto os percursos mutáveis e a velocidade de apreensão de um texto tornaram-se variáveis fundamentais na contemporaneidade. Assim, ao tratar dos fragmentos do passado encontrados no Memoryshare é preciso situá-los neste contexto de letramento digital. Investigar como vem se processando na rede mundial de computadores a construção das memórias sociais, em milhares de redes, em imensos agregados informacionais, em novos e distintos acervos digitais, é também enveredar neste universo de novas práticas de registro, associadas a uma produção e a uma recepção distinta utilizando os termos de Roger Chartier, historiador das práticas de leitura que possui uma obra fundamental sobre o tema (2000).Assim, ao pensar sobre os cartões postais de Postsecret seria interessante situá-los dentre o universo cada vez mais curto e fragmentário dos registros online. Do blog ao microbloguing, assistimos hoje ao encurtamento das sentenças e a incorporação das imagens na lógica da comunicação interpessoal. A estética da colagem está presente nos mais diversos artefatos culturais e emerge a partir da confluência de fatores culturais e tecnológicos; emerge na própria delineação da mediações (van Dijk, 2007:149-50).

Segundo:Memórias do imediato. Tratando-se de objetos culturais situados de natureza fluida a partir de que categoria poderíamos propor uma análise? O conceito de uma memória de distribuição e elaboração imediata (“memory on-the-fly”), proposto por Andrew Hoskins (2009), nos traz importantes possibilidades analíticas. O sociólogo inglês cria tal conceito a partir de uma categoria de criação de programação de informática; “on-the-fly” é um modo de programar softwares à medida em que eles estão em funcionamento. Ao trazer esta imagem, estreitamente associada ao mundo digital, Hoskins aponta para a necessidade de trazer perspectivas de análise próprias a este meio de difusão e criação das memórias sociais. Relativamente aos nossos artefatos podemos vislumbrar a necessidade de criar metodologia que inclua a própria mídia digital na coleta dos dados ali presentes. Assim é que paralelamente à discussão teórica iremos criar, numa segunda fase da pesquisa, um artefato digital capaz de fornecer o percurso de navegação e coleta. O próprio procedimento de pesquisa do objeto fluido deve ser pensado e os instantâneos escolhidos podem então ser avaliados a partir de um referencial on-the-fly6.

Terceiro:Memórias e mídias. As interfaces entre a tela e os indivíduos são também perpassadas por outras janelas midiáticas. Seguindo a reflexão de Peter Burke, sobre a história social da mídia, pensamos ser fundamental situar cada mídia em uma temporalidade, explicitando que as novas mídias não excluem sistemas anteriores. Articulando essa idéia geral com o campo da memória, pensamos ser fundamental a intenção de situar os objetos em relação a outras produções. Por exemplo, seria factível pensar numa aproximação visual entre o caleidoscópio de pontos, que se constitui a forma de categorizar os registros no portal Memoryshare, e a representação cinematográfica dos circuitos de memória do filme Eternal Sunshine of a Spotless Mind quando os funcionários da Lacuna procuram apagar os vestígios de Clementine, vê-se cenas aleatórias numa espécie de tornado em aspiral com muitas cores e abstrações. De que maneira ambas as representações remetem e recriam pressupostos comuns sobre a memória individual? Esta seria uma via possível de alargar o entendimento da plataforma Memoryshare onde o aspecto visual não deve ser menosprezado. Seguimos, neste ponto, os encaminhamentos propostos por Martin Zierold para os estudo sobre memória e mídia: “Considering the various contrary tendencies and the trend towards a pluralization of process of remembrances in society, the connection between the media and memory cannot be described only in theoretical manner, but must also be observed in detail empirically.” (2007:406). Zierold acredita que estudos comparativos e de caráter empírico podem ajudar a trazer novas nuances teóricas para o estudo das mais recentes formas de registro e apropriação do passado.

Esta é também a nossa aposta. Ao selecionarmos dentre o vasto universo entre as telas e os homens estes dois artefatos (Memoryshare e Postsecret) pensamos poder trazer alguns elementos para ampliar nosso conhecimento sobre as tendências em curso. Trata-se de propor aproximações que impliquem em redimensionar algumas questões teóricas e , ao mesmo tempo, propor aproximações entre objetos de caráter distintos ( um comercial e outro artístico). Em contraponto com nossa epígrafe visual, podemos afirmar que nada é transparente nas práticas culturais que envolvem as novas tecnologias da informação. Mas, a ilusão da transparência é ainda algo presente nos pressupostos em circulação em alguns projetos de memória. No entanto, é no caráter translúcido, fragmentado e anônimo, dos artefatos digitais que pensamos poder encontrar alguns nós que podem nos ajudar a pensar sobre os modos possíveis de se elaborar a memória na rede mundial de computadores.

NOTAS:

1 Disponível em:http://www.flickr.com/photos/photobyoddgeir/3348158767/

(acesso em 01 de agosto de 2009)

2 Tentamos entrar em contato com a equipe, porém até agora não recebemos resposta. As informações sobre o software advém, principalmente, de uma caixa de diálogo de um blog que obteve a participação de um membro da BBC. http://mediaarthistories.blogspot.com/2009/06/bbcs-memoryshare-place-to-share-and.html ( acessado em 15 de agosto de 2009)

3 What is memoryshare?, Disponível em: http://www.bbc.co.uk/humber/content/articles/2008/01/15/02_memory_share_what_feature.shtml (acessado em 15 de agosto de 2009).

4 Ver, entrevista com Frank Warren disponível em: http://blog.guykawasaki.com/2007/10/ten-questions-w.html#axzz0PCuVeVKt

(acessado em 10 de agosto de 2009)

5 Ver, http://postsecret.blogspot.com/ (acessado em 20 de agosto de 2009)

6 De acordo com Hoskins: “the array of technological advances that have transformed the temporality, spatiality, and indeed the ‘mobility’ of memories to an extent that even the dynamics of the emergent field of memory studies seem unable to keep pace with what I propose here is a new ‘distribution’ of memory. That is to say, the very condition of remembering in our new media ecology is that which is actively and re-actively constructed ‘on-the-fly’, notably through a range of everyday digital media”.(2009:67)

Bibliografía/Referencias


  • ABREU, Regina (2005). Chicletes eu misturo com bananas? Acerca da relação entre teoria e pesquisa em memória social. IN: In: Gondar, Jô e Dodebei, Vera. O que é memória social? Rio de Janeiro; Contracapa/PPGMS.

  • ARTIERES, Philippe (1998). Arquivar a própria vida. Estudos Históricos,1998.Disponível em:www.cpdoc.fgv.br (acessado em 15 de fevereiro de 2008).

  • BRIGGS, Asa e BURKE, Peter.(2006) Uma história social da mídia – de Guttenbergh à internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

  • BOONSTRA, BREURE, DOORN.(2004) Past, present and future of historical information science. Historical Social Research / Historische Sozialforschung, Vol. 29 (2004), No. 2. Disponível em:http://www.niwi.knaw.nl/en/geschiedenis/onderzoek/onderzoeksprojecten/ppf_of_his/final_report/toonplaatje (acessado em setembro de 2008).

  • CHARTIER, Roger.(1999)A aventura do livro – do leitor ao navegador. São Paulo: Ed. Unesp/ Imprensa Oficial.

  • __________,Roger. (2000)Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp.

  • CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo, Paz e Terra, 2000.

  • __________, Manuel. A galáxia da internet – reflexões sobre a internet , os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,2003.

  • CRARY, Jonathan. Suspensions of perception: attention, spectacle and modern culture. Cambridge(MA): MIT Press, 2001.

  • DANTAS, Camila Guimarães. O passado em bits: memórias e histórias na internet. Rio de Janeiro, Dissertação de mestrado (PPGMS/UNIRIO), março de 2008.

  • DODEBEI, Vera Lúcia Doyle. Espaços míticos e imagéticos da memória social. In: Memória e espaço. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000.

  • __________, Vera L.D. Patrimônio e memória digital. Morpheus, Revista Eletrônica em Ciências Humanas,Ano 4 N. 8, 2006.Disponível em: http://www.unirio.br/morpheusonline/numero08-2006/veradodebei.htm (acessado em 10 de outubro de 2007).

  • GONDAR, Jô. (2005).Quatro proposições sobre memória social. In: Gondar, Jô e Dodebei, Vera. O que é memória social? Rio de Janeiro; Contracapa/PPGMS, 2005.(p.11-27).

  • HOSKINS, A (2009) 'Digital Network Memory' in Mediation, Remediation, and the Dynamics of Cultural Memory, Editors: Erll, A and Rigney, A, Berlin: Mouton de Gruyter.

  • HALBWACHS, Maurice.(1950/1990) A memória coletiva. São Paulo: Editora revista do tribunais ( primeira edição 1950).

  • HUYSSEN, Andreas.(2000) Seduzidos pela memória, Rio de Janeiro, Aeroplano, 2000.

  • KLEIN, Kerwin Lee (2000). On the emergency of memory in historical discourse. Representations. N. 69. Special Issue: Grounds for remembering. Winter (p. 127-150)

  • LÉVY, Pierre.(1993)As tecnologias da inteligência – o futuro do pensamento na era da informática. Rio de janeiro: Ed. 34, 1993.

  • ______, Pierre.(2007) Abrir o espaço semântico em prol da inteligência coletiva. RECIIS – R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde. Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 129-140, jan-jun, 2007. Disponível em: http://www.reciis.cict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/43/37 (acessado em 15 de fevereiro de 2008).

  • OLICK, Jeffrey K. (2007). From Collective memory to the Sociology of Mnemonic Practices and Products. In: ERLL, Astrid NUNNING, Ansgar (org). Cultural Memory Studies.Berlim/New York: Walter de Gruyter.

  • O’REILLY, Tim. What is web 2.0? (2005). Disponível em : http://www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web-20.html (acessado em 5 de março de 2008)

  • PARENTE, André (org.) (2004) Tramas da rede – novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre: Sulina.

  • POLLACK, Michael.(1989) Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.2, nº 3, 1989.

  • ROUSSO, Henry.(2002) “A memória não é mais o que era”. IN: FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína. Usos e Abusos da História Oral. RJ: FGV, 2002.

  • SARLO, Beatriz. Tempo Passado – cultura da memória e guinada subjetiva.(2007) São Paulo, Cia das Letras; Belo Horizonte, UFMG.

  • SCHITTINE, Denise(2004). Blog: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

  • DIJCK, José van.(2007) Mediated memories in the digital age. Stanford: Stanford University Press, 2007.

  • ZIEROLD, Martin. (2007) Memory and media cultures. In: ERLL, Astrid NUNNING, Ansgar (org). Cultural Memory Studies.Berlim/New York: Walter de Gruyter.


Reconhecimento (CC-by 3.0 ou qualquer outra posterior)