IV Congresso da CiberSociedade. Crise analógica, futuro digital

Grupo de Trabalho C-23: Cidades e territórios digitais

Walt Disney's Celebration City . Uma experiencia na cidade informacional

Conferente/s


Resumo

Este artigo é resultado de uma pesquisa de campo em Celebration/Florida/EUA aqui considerada e analisada a partir do conceito de Cidade Informacional. Para dar conta das necessárias relações que foram efetuadas, utilizamos como referencial teórico Milton Santos, Michel Serres, Manuel Castells entre outros. Ao abordarmos as novas tecnologias da comunicação, encontramos ainda vários autores de muita projeção nos meios de comunicação de massa, entre eles, Jean Baudrillard, Paul Virilio, Pierre Lèvy, Nicolas Negroponte, todos com grande aceitação entre acadêmicos e leitores em geral, devido à projeção de suas idéias. Foi dada, ainda, ênfase ao conceito de Mensageirias proposto por Serres como "aquelas mensagens que atravessam paredes" uma clara indicação das mensagens que trafegam pelas redes informáticas atuais. Vale ressaltar que o artigo utiliza também a metodologia dos diários de viagem para descrever as impressões da cidade informacional de Celebration.

Texto da comunicação

Introdução

Estamos em um ready-made ou, no dizer de James Joyce, “A work in progress”. Assim, a característica de ready-made duchampiano, no qual o momento decisivo está na escolha e serve à reflexão, é muito importante em toda a trajetória deste artigo. Desde a escolha dos autores, como Serres e Lèvy, até a viagem à Celebration, cidade do entorno de Orlando (Florida/EUA), criada em 1995 e administrada pela Disney Co. até 2005, quando foi entregue ao condado de Osceola, como projeto de cidade do futuro ou cidade informacional.

O acaso também contribuiu bastante. Acasos e escolhas foram constantes. De Michel Serres emprestamos, de A Lenda dos Anjos, o conceito de mensageirias1, que deve ser entendida como “produção de mensagens que transpõe os espaços, os tempos e as muralhas, guarda, indica, atravessa as portas fechadas”. Dessa forma, a produção de mensagens é um processo de criação, geração, realização em um mundo de fluxos, de volatilidade dos “espectros expressivos”, nos quais as novas tecnologias da informação e da comunicação podem ser consideradas como novos estruturadores do espaço.

Esse autor é considerado, por muitos, como obscuro, esperançoso e até esotérico. Na verdade, seu estilo, muito literário, foge do padrão convencional de pensamento acadêmico ou científico, estética defendida por grande parte dos intelectuais2. Porém, a leitura de suas obras aponta para um entendimento filosófico das redes e da informação, constituindo uma fonte para as reflexões atuais no mundo da comunicação. Não é por acaso que o subtítulo da obra, “A lenda dos anjos”, aponta que é “um ensaio sobre a comunicação”.

Ao abordarmos as novas tecnologias da comunicação, encontramos ainda vários autores de muita projeção nos meios de comunicação de massa, entre eles, Jean Baudrillard, Paul Virilio, Pierre Lèvy, Nicolas Negroponte, todos com grande aceitação entre acadêmicos e leitores em geral, devido à projeção de suas idéias.

Como Partimos da premissa de que o espaço (e o tempo também) não foi banido da experiência humana como acreditam alguns pessimistas. Assim, a relação virtual ? espaço concreto precisa ser abordada, levando em consideração:

  1. A materialidade da vida cotidiana e

  2. O virtual que não se coloca como suspensão do cotidiano, único e intransferível.

Aceitamos a concretude do espaço, pois ele é sempre a atualização e a dinâmica social como sua virtualização. Assim, só podemos falar em espaço virtual enquanto metáfora.

Alertamos que não estamos negando a importância das redes, tecnologias e de tudo o que elas movem globalmente. Ao contrário, a virtualidade, como fluxo que é, participa de uma “Totalidade” maior que é o espaço geográfico. As redes e as tecnologias são suportes para a realização do virtual, ou seja, são objetos técnicos.

Ao considerarmos os fixos e os fluxos e sua riqueza informativa, podemos analisar o virtual e suas implicações na vida cotidiana, sem pessimismo ou apologias. É possível analisar, também, a dimensão atingida pela tecnologia, no mundo do trabalho fordista, e a transformação para a flexibilidade em curso.

Para compreender o fordismo e o pós-fordismo da sociedade flexível em rede, apoiamo-nos em David Harvey e Edward Soja. O primeiro aborda temas como acumulação flexível e a compressão espaço-tempo e, o segundo propõe aceitar o desafio da construção de uma geografia pós-moderna, na qual está em jogo a espacialidade própria do capitalismo. Completa o quadro de nossas referências, o sociólogo Manuel Castells. Devemos muito às reflexões propostas por Milton Santos, principalmente aquelas da obra ‘A natureza do Espaço’, no capítulo sobre as Redes (cap. 11) e os Espaços da racionalidade (cap. 13). Suas afirmações possibilitaram a busca pelo entendimento do tema, partindo do estudo conceitual sobre a problemática do momento atual, denominado pelo autor como período técnico-científico-informacional. Depois de tudo isso, resta-nos reafirmar nossa hipótese de que o espaço virtual não é o espaço geográfico e as (chamadas) cidades virtuais e cidades eletrônicas são concretizações desse período técnico-científico-informacional. Devemos também a Félix Guattari, quando trata da cidade subjetiva e abre questões sobre o devir urbano nas sociedades informatizadas.

De nossa estada na cidade norte-americana, optamos por apresentá-la por meio do que denominamos de ESBOÇO DE APRECIAÇÕES SOBRE CELEBRATION, que como paradigma o slogan: “Você não tem que viver aqui para amar isto”, e vem em forma de um diário de impressões sobre nossas visitas aos inúmeros espaços dessa cidade.

Assim, acreditamos que essa formatação pareceu-nos a mais honesta, uma vez que, naqueles dias em que vivenciamos a experiência do misto de turista-pesquisador, “nossos companheiros de tour” afirmaram, em uma das vezes, que nos dirigíamos a Celebration e que, portanto, “estamos aqui somente para passear e vislumbrar-nos com a beleza e a organização, desse lugar que parece mágico. Então, nem pensar em estudar”.

A pesquisa, utilizando o tema da tecnologia da informação, é sempre datada; caso contrário, não teria fim, são redes e redes ad infinitum.

Onde estamos?

Notamos que nossa casa não está mais na Rua AAA, n° XX, mas sim no endereço eletrônico seguido de um @aol.com. Isso parece valer, atualmente, para todo mundo ou, nas palavras de Nicolas Negroponte:

A maneira antiga, ninguém sabe onde fica @aol.com, é um endereço virtual3.O mais interessante nisso tudo, é que para esse endereço virtual as mensagens são enviadas e não dependem nem da minha presença: ... o que se tem não é apenas uma mudança de espaço, mas de tempo também”4.

Logo, o tempo real, nesse contexto, será menos importante. O mesmo processo, sucessivamente, acontece com a noção de espaço. Isso pode parecer uma generalização perigosa ou exagerada mas, ao menos, essa era, e continua sendo, a esperança-conclusão, não apenas de Nicolas Negroponte, mas de Bill Gates, Paul Virilio, Jean Baudrillard, entre outros conhecidos nomes preocupados com o tema das novas tecnologias da informação e da comunicação.

Assim, ao pensarmos na possibilidade aberta pela miniaturização, para a comunicação global, podemos começar a refletir sobre a existência de um homem-global, em que cada um é um sistema interligado a outros sistemas, isso graças à convergência cada dia mais efetiva das mídias. Assim, o homem-global carrega a “Prótese de Silício, alta tecnologia acoplada ao corpo, terminais nervosos de redes diversas pós-Internet.

Em um artigo do jornal Folha de S. Paulo, de 10 de outubro de 1997, intitulado Artista discute o pós-humano, a jornalista Giselle Beiguelman, apresentando o trabalho de Eduardo Kac, indicava a discussão daquele momento: “Estamos humanizando as máquinas ou maquinizando os corpos? (p. 4-13)”. O mesmo jornal, dois dias depois, informava sobre a obra de Kac, em artigo intitulado “Artista introduz chip em seu corpo” (p. 3-6):

“Foi preciso de cerca de três minutos para o artista eletrônico Eduardo Kac implantar um microchip em seu tornozelo esquerdo, realizando a obra "Cápsula do Tempo", ontem na Casa das Rosas, abrindo a mostra "Arte, Suporte, Computador". O microchip traz dados de identificação do artista processo similar ao de catalogação de animais. Inicialmente o microchip seria introduzido em seu braço, numa referência às marcas dos judeus durante a Segunda Guerra. No entanto, como o artista fez todo o processo sozinho (supervisionado por um médico), necessitava ter as mãos livres. O tornozelo surge como uma referência às marcas feitas a ferro nos escravos. Rodeado por câmeras de TV, máquinas fotográficas e sob um forte calor, Kac iniciou o processo às 22h16. Pôs uma bolsa de gelo no local, desinfetou-o com iodo e inseriu uma agulha com a peça. O processo foi concluído às 22h19. Os dados do "Identity Chip" foram transmitidos eletronicamente para o banco de dados da empresa fabricante, nos EUA”.

Da normalidade com que o artigo informa a obra de Kac, somos levados a pensar – e talvez aceitar – que o corpo social se transforma. Se formos retomar, em breves momentos nossa história humana na Terra, veremos que os contatos primeiro foram humano-físicos, depois maquínicos em agenciamentos diversos. Agora, vemos que são híbridos e formam uma simbiose de homem-máquina com componentes – literalmente – ligados ao corpo para comunicação global. O homem semicondutor em contato com outros semicondutores.

Uma outra possibilidade da virtualidade do humano é a de ser “tocado” e, também, manipulado a qualquer hora, quando estou ‘gravado e salvo’ no computador de alguém, como parte de um programa qualquer de imagens e, mais recentemente, no ambiente Second Life, um simulador da vida real, em um mundo virtual totalmente em três dimensões, no qual se pode interagir com jogadores de diversas partes do mundo em tempo real, pode-se ainda criar objetos, personalizar o seu personagem – ali chamado de Avatar, fazer transações financeiras com o Linden dollar (L$); enfim, ter sua vida virtual. Apenas imagens? Não, nem imagem 3-D. Mas, algo como a realidade virtual, porém, sólida... Nas palavras de Virilio: “Portanto, não tenhamos mais certeza: a terceira dimensão não é mais o padrão da extensão, o relevo não é mais a realidade... o móvel principal será o assento, a poltrona ergonômica do inválido motor” 5.A imobilidade é outra questão aberta e discutível. Isso se considerarmos que estamos “presentes” no computador de alguém, em qualquer parte do mundo e, mesmo em várias partes, como podemos falar em “mobilidade/ imobilidade”?

Estamos diante de novos fenômenos sociais engendrados pela possibilidade da tecnologia da informação e comunicação. A sociedade que se adapta e se instala não parece que abolirá os contatos físicos entre as pessoas, ao contrário, ampliará as formas desses contatos. Pelo que vemos hoje, em nossas experiências cotidianas, a tendência futura, parodiando Marx, é a libertação do homem das atividades rotineiras, possíveis de serem executadas pelas máquinas, com ganho de tempo para o convívio social humano, porém, ao mesmo tempo permitindo e exigindo um “estar” contínuo em nossas atividades de trabalho, ultrapassando a barreira das horas máximas de trabalho vividas no período fordista, às oito horas, por exemplo.

Tecnologicamente falando, embora isso possa ser relativizado, caso levemos em conta o enorme número de telefones celulares utilizados por várias faixas da população com muitas funções e não apenas computadores residenciais ou móveis. Também isso é uma hipótese que nossa prática atual sugere continuidade. Negroponte assim se expressa sobre o assunto:“Os bits não são comestíveis nesse sentido, não são capazes de acabar com a fome. Os computadores, por sua vez, são amorais: não podem resolver questões complexas como as do direito à vida e à morte”6. E apresenta as quatro características que determinarão o triunfo da era digital: descentralização, globalização, harmonização e capacitação. Dessas características, a mais otimista para o autor é a capacitação. Diz ele:

“... O acesso, a mobilidade e a capacidade de produzir mudança são os fatores que tornarão o futuro tão diferente do presente.... Meu otimismo não é alimentado pela antevisão de alguma invenção ou descoberta. Encontrar uma cura para o câncer e para a AIDS, descobrir uma forma aceitável de controle populacional ou inventar uma máquina capaz de respirar o nosso ar, beber nossos oceanos e devolvê-los depois, livres da poluição, são sonhos que podem ou não se realizar. A vida digital é outra coisa. Não estamos esperando por uma qualquer invenção. Ela está aí agora. E é quase genética em sua natureza, pois cada geração vai se tornar mais digital que a anterior. Os bits de controle do futuro estão mais do que nunca nas mãos dos jovens. Nada seria capaz de me deixar mais feliz do que isso7”.

Outra informação nos parece importante para a reflexão atual. Em 1995, a RAND, organização não lucrativa americana, publicou, via INTERNET, seus estudos sobre a velocidade com que nos chegaram telefone, rádio, TV, videocassete, computador, etc. e sugere acesso universal ao correio eletrônico (E-mail), como forma de garantir a democracia eletrônica. Dizia Ercília, em sua coluna semanal, no jornal Folha de S. Paulo:“... A desagradável idéia de uma estrutura de informação e comunicação internacional que só reforça abismos sociais é a realidade hoje....Ironicamente, talvez a população da INTERNET seja a maior amostra de injustiça social que se pode encontrar hoje, com toda a conversa de democracia eletrônica”. E concluía: “Por outro lado, a lógica do acesso universal acaba sendo uma lógica da classe média. Os mais pobres são excluídos do acesso e os realmente ricos não se interessam tanto por ele, já que sempre tiveram suas próprias redes de informação, com ou sem computador”. 8

Por mais lugar-comum que seja a conclusão da articulista, ou a visão da RAND sobre ‘democracia eletrônica’, serve para ilustrar, junto com citações anteriores o lado pessimista dos novos fenômenos abertos pela tecnologia.

São muitos os conceitos utilizados e visíveis em todos os media: Cidade, Cidade-eletrônica, Cotidiano, Imaginário, Prótese de silício, Imobilidade, Imagens, Cyberspace, Tempo, Novos signos, Repetição, Fragmentos... A condição atual fragmenta, mais e mais, o homem no mundo. O cotidiano passa a ser estilhaços de vida pela velocidade, cada vez maior, dos fenômenos revistos à exaustão nos diversos meios de comunicação disponíveis às pessoas. A experiência na rede, ou nas diversas redes em que estamos imersos (internet, bancária, profissional, etc.), é um conjunto de fragmentos virtuais fugidios. De repente, o ‘cidadão eletrônico’ pode perder o contato em um rush virtual.

O mundo do homem é o de classes sociais, diferenças gritantes. Nos países subdesenvolvidos, um número crescente de homens, de todas as idades, tem como virtual apenas o básico: alimentação, transporte, saúde, consumidos em imagens eletrônicas de painéis e televisões. O re-pensar no mundo do homem não é uma busca da totalidade, mas da intensidade da condição humana no mundo colorido da estética.

O debate ético da condição material da estética, da possibilidade de possuir, cede lugar para a estética em-si-mesmo. Ter a imagem de, ser a imagem de, vale mais que do a própria imagem real. Podemos dizer que não é a cópia, pois esta é, ou pode ser entendida como imagem dotada de semelhança. É, na verdade, imagem sem semelhança: SIMULACRO. É o que Michel Foucault chamou de heterotopia: a coexistência num espaço impossível de um grande número de mundos possíveis fragmentários (HARVEY, 1989:52).

E esse espaço virtual apresenta-se como condição à impossibilidade de discuti-lo como condição histórico-geográfica (HARVEY, 1989:293), não está em nenhum lugar e pode ser acessado de qualquer lugar. Não exige tempo real, porém possibilita isso. Tudo soa como passageiro; mas, na verdade, o processo é medido em velocidades cada vez maiores. Isso nos possibilita pensar que a democracia eletrônica divulgada é mais estética que ética. É imagem, pois se resume em ser informatizado ou não.

Olhemos ao lado. Teorizar já não é mais a mesma coisa que antes. A teoria é um flash, algo rápido, instantâneo. A profundidade não é mais uma necessidade intelectual. Contudo, devemos buscar subsídios que nos ajudem a compreender as possibilidades abertas do período atual, assim que o debate sobre a categoria “espaço”, torna-se premente.

O Espaço

Entendemos que o espaço não pode estar, assim, tão em segundo plano quanto parece, porque, na verdade, o virtual é, sim, o simulacro daquilo que conhecemos como espaço real, mas, mesmo assim, é um espaço. E, embora o virtual não ocupe um espaço, no conceito material do termo, em redes, é, em tese, o espaço. Nesse contexto, pode-se empregar uma expressão cunhada por Augusto de Campos, a “prima-azia” do tempo? Contextualização, que é, certa forma, exclusividade de alguns marxistas, como querem alguns ortodoxos, senão ortodoxos, pelo menos pouco afeitos às mudanças. Trabalhando na busca de uma nova teoria social crítica, o geógrafo Edward Soja (1993:116) cita Berger: “...A profecia implica, agora, uma projeção mais geográfica do que histórica; é o espaço, e não o tempo, que esconde de nós as conseqüências”.

E, mesmo assim, temos que ter clareza de que a História da humanidade não acabou e nem o espaço ‘aflorou’; mas sim as nossas experiências espaço-temporais é que foram alteradas pelas novas tecnologias. Exemplo cotidiano dessa alteração da sensibilidade diante do tempo e das tecnologias, é o fato de que a maioria das pessoas tem mais paciência na fila do ônibus do que diante do caixa eletrônico do banco ou para esperar alguém encontrar algo em um DVD, ou seja, o ato de esperar uma condução, fluxo de um momento tecnológico anterior ou da velocidade fordista já foi incorporado e apreendido socialmente, porém, com as tecnologias mais recentes, a exigência de uma velocidade cada vez maior é premente.

Buscando reflexões em outras fontes, citamos Félix Guattari em sua passagem pelo Brasil no ano de 1992, ocasião em que participou do colóquio organizado pela UNESCO9, apresentando o tema “Restauração da Cidade Subjetiva” 10e retiramos algumas “sugestões” para as indagações. Conceituando a Cidade Subjetiva (1992:170) afirma: “... engaja tanto os níveis mais singulares da pessoa quanto os níveis mais coletivos. De fato, trata-se de todo o porvir do planeta e da biosfera.” E segue Guattari levantando a questão do “que serão as mentalidades urbanas do futuro?” Ele mesmo oferece um caminho, acrescentando que “...levantar essa questão já é um pleonasmo, na medida em que o porvir da humanidade parece inseparável do devir urbano (Idem:idem.)

O devir urbano está ligado à forma como pensamos hoje, como hoje conhecemos o mundo. E a forma como muitas gerações conheceram o mundo foi por meio da visão fordista que na definição de Gramsci (HARVEY, 1996:121): “... O fordismo e o americanismo equivaliam ao maior esforço coletivo até para criar, com velocidade sem precedentes, e com uma consciência de propósito sem igual na história, um novo tipo de trabalhador e um novo tipo de homem ‘. Os novos métodos de trabalho ‘são inseparáveis de um modo específico de viver e pensar e sentir a vida”.

Ou seja: o fordismo como uma nova forma de ver o mundo.

Mas, estaríamos ainda vivendo nesse mundo? Não seria necessário romper até mesmo com o pensamento seriado? O geógrafo Edward Soja, tratando das reflexões de uma nova teoria para a geografia humana no mundo contemporâneo, nos indica que:

“...[A] geografia humana crítica pós-moderna deve continuar a se basear numa desconstrução radical...A desconstrução espacial...também deve ser suficientemente flexível...Entretanto, a desconstrução por si só não basta...Ela deve ser acompanhada por uma reconstrução ao menos provisória , baseada nas exigências políticas e teóricas do mundo contemporâneo...E deve estar especialmente em sintonia com as particularidades dos processos contemporâneos de reestruturação e com os regimes emergentes de acumulação “flexível” e de regulação social, mas a fim de contribuir para um pós-modernismo radical de resistência”.11

Dentro dessa lnha raciocínio, chamamos a atenção do leitor para mais uma citação, pois esta nos parece de extrema importância para o entendimento da sociedade contemporânea, é a do conceito de Acumulação Flexível que devemos entender como sendo marcada:

“...por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões de desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado “setor de serviços”, bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (tais como a “Terceira Itália”, Flandres, ou vários vales e gargantas do silício, para não falar da vasta profusão de atividades dos países recém-industrializados) ” 12

A Emoção

Diante do exposto, ou melhor, dizendo, imposto para a grande maioria da população mundial, podemos indagar o mundo: que mundo é esse, onde tudo parece que se perde em teorizações e a vida acontece, rapidamente, nas ruas das cidades “independente” delas? Surge, então, um novo momento das pesquisas e do interesse transdisciplinar, e “um dos eixos centrais para a compreensão da sociedade atual13 e, talvez, o mais importante deste final de século: a EMOÇÃO!

O mundo globalizado aponta sua contradição mais evidente: a fragmentação. Quanto mais globalizado, mais fragmentado o mundo reaparece. Nesse globalizar-fragmentar, grupos e grupelhos14 afloram. A vizinhança passa a ser uma escala geográfica importante na vida das pessoas. Vizinhança que pode ser não apenas física, mas cultural, religiosa, de trabalho, etc.

A noção de co-presença, sob um prisma informacional, ganha nova dimensão quando associada à noção e à realidade geográfica da vizinhança... O território compartido impõe a interdependência como práxis.15

E, mais importante, o intercâmbio efetivo entre pessoas é a matriz da densidade social e do entendimento holístico...e que constituem a condição desses acontecimentos infinitos, dessas solicitações sem-número, dessas relações que se acumulam, matrizes simbólicas que se multiplicam, diversificam e renovam. A noção de “emoração” encontra seu fundamento nessas trocas simbólicas que unem emoção e razão16.

Uma experiência, com relação à emoção e a confiança, pode ser relatada, quando na primeira de suas viagens ao Brasil, o italiano Massimo Canevacci chegou à cidade de São Paulo exatamente no período de carnaval, quando tudo pára no país. Sem conhecer ninguém e nada, o italiano foi auxiliado por uma funcionária do Instituto Italiano de Cultura, que chegou a ajudá-lo financeiramente, pois não tinha cruzeiros no bolso e os bancos estavam fechados17.

O antes estrangeiro emociona-se com uma nova composição da cidade que explora. Dialeticamente as emoções vão trabalhando um novo cotidiano e um novo imaginário. Assim, descobre-se aquilo que Milton Santos colocava como a quinta dimensão do espaço, exatamente o vivido, o cotidiano vivido.

Contudo, junto ao concreto vivido nas ruas da cidade, a vizinhança e toda materialidade do espaço, a existência das redes telemáticas somam-se às percepções cotidianas em um aprendizado constante para muitas e cada vez mais pessoas. Já que somos “obrigados” a dominar, mesmo que seja apenas o básico, para completarmos tarefas, diríamos simples, de sacar dinheiro de um banco no dia do pagamento. Então, sem nos assustarmos ou estranharmos, temos um cartão magnético e uma senha e devemos entender a lógica do caixa eletrônico que nos indica as próximas ações. E mesmo em um formulário, por exemplo, para solicitar um emprego, além do endereço e telefone, nos pedem um endereço eletrônico para contato.

Incorporamos ações, palavras e novos discursos ao nosso fazer diário, todos eles ligados ao que se popularizou chamar de virtualidade. Para compreender essa virtualidade, na seqüência, trataremos das Mensageirias, que representam uma categoria cunhada pelo filósofo francês Michel Serres. Diferente das mensagens, nossas Mensageirias atuais avançam, ultrapassam as barreiras físicas, são fluídas e flexíveis.

Porém, elas não se encontram apenas em suportes e situações aparentes, aqui optamos por aquelas menos evidentes, que nos façam refletir sobre as inúmeras possibilidades da Comunicação. Mensageirias em suportes que o senso comum não percebe a profundidade e que alguns intelectuais, mais tradicionais, renegam ao segundo plano como fonte de pesquisa e de interpretação.

Mensageirias

O conceito de mensageiria desenvolvido pelo filósofo francês Michel Serres na obra A Lenda dos Anjos, Um ensaio sobre a comunicação indica a “produção de mensagens que transpõe os espaços, os tempos e as muralhas, guarda, indica, atravessa as portas fechadas” (1995: 293). Na explicação do próprio Serres, isto quer dizer que (1999: 157):

Olhe o céu, aqui acima de nós, atravessado por aviões, satélites artificiais, ondas eletromagnéticas, televisão, rádio, fax, correio eletrônico. O mundo no qual nos banhamos é um espaço-tempo de comunicação. Por que não falaria de espoco dos anjos, já que esta expressão significa os mensageiros, os conjuntos de fatores, de transmissões prestes a passar, ou o espaço dos passes? Você sabe, por exemplo, que a todo momento há pelo menos um milhão de homens em vias de voar, acima da atmosfera, como que imóveis e suspensos, invariantes por meio de variações? Sim, vivemos no século dos anjos... Os anjos são as mensagens, seu corpo é uma mensagem...Imagino que a cada anjo corresponde uma preposição. Mas, uma preposição não transporta mensagem, ela indica um conjunto de caminhos possíveis, no espaço ou no tempo.

Dessa forma, buscamos, no cotidiano, algumas das Mensageirias que indicam possíveis nesse espaço de fluxos comunicacionais em que estamos imersos e, muitas vezes, não nos damos conta.

Mensageiria 1

A TV zappeada passa pelo canal MTV Brasil, conectada via cabo. Na tela, um desenho futurista apresenta, em traços sujos, personagens estranhos. Um Sci-Fi Cartoon. Aparentemente é um casal querendo salvar o planeta. A mulher guarda traços humanos, o homem não. Outros personagens, mais evoluídos transmitem mensagens telepáticas e suas pernas se ligam a um tronco pequeno, tudo leva a crer que apenas o aparelho respiratório está nesse tronco. A rede central armazena e produz seres, libertando-os do trabalho de dar continuidade à espécie.

O Sci-Fi Cartoon chama-se Aeon Flux18.

Mensageiria 2

Uma das histórias do Tio Patinhas tem como título ‘Turismo Virtual’19.

Na ganância, conhecida de todos, o velho tio monta uma fábrica de robôs que serão os olhos dos turistas. Na agência de turismo, os interessados adquirem o hardware e os softwares para interagir com o local escolhido. Tudo parece maravilhoso se nosso Tio não quisesse ganhar em tudo: os robôs mostram os lugares, mas os suvenires são comprados nas lojas Patinhas. Uma grande manifestação mundial proíbe tais máquinas de existirem nas cidades...

Mensageiria 3

Outra HQ, considerada para adultos, apresenta a história do “Motoqueiro Fantasma 2099”20. Uma nova realidade é apresentada: a cibernatural. O herói, Ken Cochrane, morre conectado ao cyberspace e transforma-se em Zero Cochrane, pois sua mente foi salva e ele pode voltar como o Motoqueiro Fantasma.

Tudo se passa na Transversal City. Lugar entre Detroit e Chicago com dez andares, vinte pistas e 800 mil Km de caos e violência. Escondidos na rede mundial, os ciberespectros (entidades digitais formadas por mentes daqueles que morreram conectados) tentam sobreviver aos ataques das empresas Alchemax e Stark-Fujikawa, que buscam escravizá-los ou exterminá-los.

Mensageiria 4

O VCR (Video Cassete Record) começa a rodar. Na fita alugada, MIB – Mens in Black21 ou, no Brasil, Homens de Preto. A história gira em torno de um grupo “acima de qualquer governo” que procura garantir a sobrevivência de ‘extraterrestres expatriados’, vivendo na Terra.

Para ser um MIB, é necessário não existir para nada e para ninguém, todos os registros são deletados e, então, uma nova identidade criada artificialmente.

A cidade é Manhatan, nada pacata, nada futurista e feliz por achar – e ter essa opinião garantida pelos MIBs – de que os humanos são únicos no universo.

Mensageiria 5

CD Player toca uma música estranha. O grupo RadioHead em OK Compute22 lançado em 1997, foi a revelação do pop pelas revistas especializadas no mundo.Os acordes e a colocação do vocal clamam por um “futurismo nostálgico”, ou seja, o futuro é apenas mais um momento que o passado-presente irá alcançar, não existe motivo algum para apologias ou desespero.

Mensageiria 6

Mensageiria do terceiro e do quarto mundos, a miséria revela-nos uma existência e um tempo, fundamentais, que a História jamais ensinou. Mais que pobres e indigentes, os miseráveis correm o risco de ver destruída, neles e ao seu redor, por esta terrível agressão, a própria humanidade. Só se tornaria um homem aquele que enfrentasse o risco da destruição, nele próprio, da humanidade?

No mundo inteiro, do Rio a Osaka, de Paris a Brazzaville, ricos ou não, mulheres e homens sem fogo nem lugar, não têm abrigo. Também deixaram sua casa: Diógenes, o Cínico, filósofo da Antigüidade grega, refugiado em praça pública, dentro de um tonel; São Francisco de Assis, viajante e eremita da Porciúncula; Jesus, andarilho, de quem os Evangelhos não dão o endereço23.

Mensageiria 7

Sarcófagos para nômades”24= Vestimenta para homelless paulistas, misto de jaqueta e saco de dormir com sensor de presença, identidade eletrônica com sons e imagens de seu portador, é fabricada com tecido da Du Pont, sendo à prova de balas e de propagação de chamas. A criação e o desenvolvimento dessa roupa foi de José Wagner Garcia, arquiteto e media artista.

 As mensageirias citadas, certamente podem fazer parte da experiência de muitas pessoas. Interessam-nos, porém, questões levantadas ou propostas por eles. Primeiramente, todos são fluxos midiáticos, os quais são carregados com seus respectivos suportes tecnológicos, que para muitos, são até banais: TV e controle remoto, histórias em quadrinhos, videocassete, CD player. Ramificações de redes encontradas com facilidade para consumo e uso.

Na verdade, as cinco mensageirias iniciais tratam de ficção, de criações literárias ou televisivas e apontam para o universo do desenvolvimento. Um mundo onde a tecnologia predomina e atinge a todos ou, pelo menos, sugere isso.

Anjos re-criados, as histórias em quadrinhos povoam o imaginário de boa parte da massa urbana, a ideologia esconde-se por entre os feitos e afetos de seus personagens.

Mensageiros futuristas, os personagens de Aeon-Flux: fluxos de entidades abstratas futuristas querem salvar o universo. Uma nova gnose anunciada, via destruição, para sobrar apenas fluxos que se desvanecem por entre sobras. Porém, não menos mensageirias, já que estas não anunciam apenas aquilo que gostaríamos...

O ‘turismo virtual’, fonte de renda fácil para o multimilionário Patinhas, que representando o empresariado fomentador, investe em tecnologia para que todos possam viajar virtualmente. A esse não interessam os meios, apenas os fins lucrativos. Mensageiro do capital nos ensina que a luta entre o bem (capital) e o mal (consumo) são relações intermináveis, nas quais temos – ele tem – que ganhar sempre. Mensagem capitalizada, os pobres são seus serviçais. Seus parentes mais próximos esperam que ele mude sua atitude e trabalham sabendo que nada ganharão, mas que ele também não é eterno como gostaria. Num final, Donald é o mensageiro da velha forma de viver, idílica e passada. Seu temperamento explosivo é apenas a confirmação disso. Insuportável para o mensageiro do capitalista Patinhas.

Mensageiro do ódio, o motoqueiro fantasma passeia pela vida?morte anunciando a presença da pós-vida virtual. A narrativa aborda a vingança nos espaços informatizados. Retoma o velho tema – talvez o sempre tema – que o perigo e a maldade espreitam pelas ruas das grandes megalópoles. Aponta um futuro sombrio e sem expectativas. Parece não perceber que sobre-vive virtualmente apenas para proteger espectros digitais que estão além dele em tudo, principalmente conhecimento.

As duas mensageirias seguintes estão reproduzidas em suporte tecnológico: um filme e um disco. Ambos futuristas, mas em um futuro que apenas transpassa os espaços e as pessoas, parece nada dizer a elas. Estranhos, anunciam a não-anunciação, a contra corrente da redenção da humanidade em relação ao futuro. Nada de classes, de sociedade, de lutas entre humanos. Nosso Outro escondido na própria humanidade, porém não-humano – no filme são Aliens - é quem deve ser combatido. Também não é uma apatia total, filme e disco sugerem um ideal de apenas SER, a nemesis do viver (no sentido de vingança da vida).

Nossas duas últimas mensageirias são fixadas no espaço-tempo, são virtualidades e atualizações geográficas, plasticidades do terceiro mundo. Pobres e Sem-teto – ou homelless – os andarilhos dos novos evangelhos distribuem mensageirias por onde passam, não anunciam a ‘boa nova’. Agora, seu anúncio é de humanidade, buscam entre escombros e entulhos as partes de um chão que abriga. Os sarcófagos criados por Garcia e, assim, batizados por Milton Santos, reúnem ruínas e tecnologia, chips e história de vida, imagens e imaginação, pares dialéticos que seu criador prefere querer superar pelo pragmatismo peirceano, sugerindo “estabelecer um vínculo filosófico entre os valores estéticos de um projeto artístico e a contrapartida em valores éticos”31. Com uma roupa dessa, o andarilho poderia suportar-superar a sua vida? As questões que essa obra sugere são muitas, a própria impossibilidade de tê-la já é uma...

Passemos a outro ponto: a teorização do virtual.

O virtual

As mensageirias fluem pelos sistemas e redes. Querendo findar a questão, Viana diz: “...O ciberespaço não é melhor nem pior que nosso mundinho real...é apenas um mundo diferente mas - certamente – é mais espaço. E quanto mais espaço, melhor32” Porém, não é tão simples assim, pois ainda que concordemos que quanto mais espaço melhor, a questão da virtualidade ganha consistência à medida que o mundo sofisticado confronta-se, paradoxalmente, com comunidades que convivem com a inexistência de um mínimo de conforto, como água encanada e rede de esgoto, por exemplo.

Entretanto no cyberspace os fluxos não são distribuídos como produto para todos e o espaço configura-se como uma metáfora essencial, vista pelo internauta como uma materialidade que associada aos padrões de sua experiência no mundo físico, assim, os sites são lugares, o ciberespaço um espaço topográgico, o e-mail um endereço33 e, ainda como uma analogia da sociabilidade física, é no segredo, no qual está o valor, ou seja,, aquilo que está disponibilizado como informação geral não é o bem circulante que atravessa as barreiras.34

Explicando o sentido do espaço como metáfora necessária, Aranha Filho afirma:

Alguns autores chegaram a afirmar que o virtual abole a distância e o tempo e ela aboliria a duração, o ritmo-em-atraso propício à reflexão e ao jogo do político. Em certo sentido, podemos contra-argumentar que é o operador segredo que possibilita novos contornos, fronteiras, regiões de exclusão no espaço virtual. Se não, por que concebermos o funcionamento da rede como um espaço, qual o sentido desta metáfora? A sua pertinência deve estar na disputa e ocupação de áreas, na formação de fronteiras, nos movimentos de territorialização da matéria virtual. A grosso modo, dentro da rede toda desigualdade baseia-se na distribuição diferencial de um código de acesso, no agenciamento de um segredo35.

Temos visto muita discussão em torno do fim do espaço, abordado como não mais necessário às relações humanas. Vários autores comungam dessa visão e, sem dúvida, os franceses Jean Baudrillard e Paul Virilio são os mais conhecidos expoentes dessa corrente. Ambos falam do espaço e ambos esquecem o espaço... É como se o espaço de que falam esses autores fosse apenas abstração. O abstrato como única dimensão teórica possível para o espaço.

O conceito de virtual não é uma novidade do nosso momento técnico-científico-informacional. Conforme Pierre Lévy:

...A palavra virtual vem do latim medieval virtualis derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado, no entanto, à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes36.

O que Pierre Lèvy chama de atualidade e virtualidade, Milton Santos (1996:99), chama de Possibilidade e Realidade: “Miliujin (1963, p.226) distingue entre possibilidade e realidade. Para ele, a possibilidade representa uma tendência real, oculta nos objetos e fenômenos, que caracterizam as diversas direções no desenvolvimento do sistema. Já a realidade é tudo quanto existe objetivamente, como possibilidade a ser realizada”.

Assim, a sociedade seria o Ser, a existência em potência e, o Espaço a existência, o ser em ato. Porém, a relação entre ambos é inevitável, pois são processos e partes de outros processos. Separados, seriam abstrações, como essas que vemos em algumas obras onde o cyberspace tem vida própria, independente de seu construto e de seu construtor. Mais parecendo a Sci-Fi citada anteriormente, com seus cybersprectros em Transversal City.

O Espaço virtual também é uma existência em ato, mas, e ao mesmo tempo, em potência, é espaço e sociedade. Aliás, o tempo que rege o espaço virtual difere do tempo das sociedades. É o que Michel Serres trabalha em seu livro Atlas (1997:179-80) , o Ser aí e o Ser fora-aqui. Sendo que o segundo é o Virtual. “Os espaços virtuais, actualmente tecidos pelas virtuosas técnicas da distância e do tempo em parte abolidos, são há muito tempo frequentados por todas as disciplinas do saber e das culturas...Retomando uma meditação sobre os Anjos, enchemos de aparelhos o nosso velho hors là”.

Dessa forma, e aceitando que o espaço pode ser entendido como um sistema de Fixos e Fluxos (SANTOS, 1996:19), temos uma fluidez das mensageirias e, os novos anjos, que são os sistemas de comunicação e informação, por exemplo, formam esses fluxos, ultrapassando os espaços e tempos, muralhas e guardas, ligando e desligando fixos em fluxos através de – sempre – novos e mais velozes aparatos tecnológicos de virtualização ou, como afirma (LÉVY, 1997:23) “... a invenção de novas velocidades é o primeiro grau da virtualização”, portanto, o tempo.

Uma outra possibilidade para o viver contemporâneo, em uma tentativa de “recriar” as cidades em um contexto de globalização, são as chamadas cidades informacionais que veremos a seguir.

As Cidades Informacionais

As Cidades Informacionais ampliam a pluralidade de espaços existentes. Entende Manuel Castells, em sua obra sobre o tema das cidades informacionais37, que nem toda cidade, na qual a informação representa um papel importante e a afeta em todos os aspectos, é uma cidade informacional, ao contrário, todas seriam cidades informacionais. O exemplo que usa é a distinção entre indústria e industrial, pois, nem todas as sociedades em que há industriais são sociedades industriais; mas sim, onde esse processo alcança e penetra todas as esferas. E, ainda, em entrevista quando esteve, no Brasil, para lançamento do volume I de sua trilogia sobre a Sociedade em Rede, afirmava:“...O grande desafio da cidade informacional é a articulação do espaço de fluxos globais, dos quais dependem a riqueza e a informação das cidades, com o esforço dos espaços locais, nos quais constrói o significado da experiência cotidiana e da tradição histórica38”.

Exemplificando, Castells indica Barcelona e Amsterdã como cidades que estão buscando a articulação entre o novo e o tradicional, ao mesmo tempo em que informatizam a vida cotidiana, também oferecem espaços públicos de atividades para a população. A cidade de Amsterdã também é usada como exemplo de cidade digital por Pierre Lévy no texto ‘Cities and Cibercities’39: “...De ‘Digitale Stad' de Amsterdã, um serviço grátis na Internet, mas só em holandês. Esta cidade digital oferece um tipo de cópia de todos os serviços e agências de uma cidade tradicional: informação do governo da cidade, seus serviços, biblioteca catalogada, e assim por diante... A Cidade Digital de Amsterdã ainda é jovem, mas tem crescido a um passo fixo, desde que foi fundada e é um sucesso enorme com a população”.

Porém, o caminho e o objetivo de cada um diferem. Castells busca entender a cidade informacional através de um prisma que alia cidade tradicional e cidade virtual; para Lèvy, é por meio do conhecimento, podemos dizer busca uma nova Teoria do Conhecimento, preocupa-se com o virtual, com a cidade digital. Assim, Castells estaria “mais perto da preocupação geográfica”, enquanto Lèvy, de uma epistemologia das novas tecnologias da comunicação. E ambos focam um novo espaço que se apresenta para quase todos.

6.1. Hermes e as Redes

Mensageiro dos deuses, Hermes protegia os comerciantes, os ladrões e os médicos. Com seu capacete e sandálias aladas, rapidamente transmitia as mensagens, construía as redes. Hoje, nós,como Hermes pós-modernos conectados e conectando, traduzindo, informando, interferindo em mensagens alheias, como fluxos percorrendo espaços distantes ou nem tão distantes, estamos em rede.

Sem muita novidade, para alguns de nossos sentidos, a rede facilita os fluxos e o acontecer no espaço. Desde o telégrafo percorrendo os oceanos com seus cabos, depois o telefone a “encurtar distâncias”, as redes preenchem as nossas vidas modernas.

A definição do que vem a ser uma rede foi trabalhada por vários autores, aqui citamos Manuel Castells, Milton Santos, Michel Serres, Eugênio Trivinho com intuito conceitual.

Castells (1999: 498) apresenta o conceito de rede como central na era da informação, “um conjunto de nós interconectados” com possibilidade ilimitada de expansão, sendo que a redução do tempo-espaço depende dos dois pontos do nó estarem na mesma rede, facilitando, assim, os fluxos. As redes apresentam-se como instrumentos do capitalismo flexível, seja ele: econômico, financeiro, cultural ou doméstico.

Santos (1996:218) busca uma geografia das redes, apresentando os sentidos que o conceito vem adquirindo e insistindo, também na importância da fluidez, na composição das redes, baseadas em tecnologia e informação, concentradoras e dispersoras, por isso, um misto, híbrido que traz sua ambigüidade entre o local e o global e deve ser superado pela Geografia.

Serres (1994:139-49) aponta que os lugares são, de certa forma, apagados e, mesmo que estejam conectados (todo lugar tido como global) ocorrerá uma identificação com o mundo, mas, agora, com a idéia de um mundo virtual. Construído pelos novos arquitetos – os construtores de chips – o cosmo microscópico, o local passa pela conexão, a rede falando e ouvindo, o lugar falando e ouvindo na tangível era da informação tecnológica, em que o simulacro é fator determinante, em favor da velocidade da própria mensagem.

Outra contribuição é de Trivinho (1988:26) em seu livro “Redes – Obliterações no fim do século (São Paulo: AnnaBlume,1988)”, marcado por autores como Baudrillard e Virilio, principalmente, em cuja obra analisa o impacto das redes comunicacionais no mundo atual. Porém, ele e outros autores da comunicação40 abordam a extinção da geografia com o fim do território e do lugar, afirma Trivinho: “Fenomenologicamente, a formação e potencialização das redes se devem a um esgotamento das possibilidades de expansão do capitalismo pelos territórios”.

Insistimos nesse ponto. Várias áreas do conhecimento apropriam-se de conceitos e categorias, propondo leituras e interpretações sem, ao menos, definirem esses conceitos. No caso da Comunicação, estes transformam, através das mídias, as categorias em metáforas que são utilizadas pelas pessoas cotidianamente. Contudo, as mídias parecem não perceber que as redes técnicas são, hoje, a possibilidade empírica de se estudar o mundo. Quando Santos dizia que o mundo está aberto a ser estudado e entendido, empiricamente, é sobre a importância das redes técnica, a nosso ver, que ele está dizendo.

Mas, devemos estar atentos, a época de ouro da geografia que Santos afirmava, está sendo mais bem aproveitada pela comunicação, contudo, sem preocupação conceitual, sofrendo uma banalização, através da utilização indiscriminada feita pelos meios de comunicação e, isso, implica em um não fazer geográfico, ou seja, a sociedade mundial aparece fragmentada e des-espacializada e, portanto, não acontece.

Tal des-espacialização impõe outras perspectivas e outros fazeres geográficos. O estudo das redes é essencial para entendermos como se dá a acumulação flexível em países como o Brasil, que apresenta “outros tempos”, em relação aos países desenvolvidos. Fluxos que Hermes carrega para diferentes lugares em tempos diferentes. Isso não implica a Ideologia da Interatividade ou, até, a Pedagogia da Interatividade que, na verdade, é a Ditadura da Interatividade. Isso porque, prega-se tanto a virtualidade/interatividade e estamos tanto em rede quanto outros países. A questão é de que os fluxos não são os mesmos e, se esse é nosso problema, também pode ser uma vantagem, já que o tempo cronológico nosso é o do cotidiano.

Aliar conectividade e cotidiano é a intenção das cidades informacionais. Em se tratando de Brasil, isso já ocorre. Certamente que não para todos. Mas, não aceitamos a imposição dos info-excluídos, ciberexcluídos, etcexcluídos. A ditadura da interatividade/conectividade sugere a homogeneidade e isso não ocorre nem no tempo nem no espaço. Exemplo disso é a insistência em conectar os idosos para “garantir sua cidadania”. De que idosos estamos falando? Declaradamente, Carlos Heitor Cony, escritor e cronista do Jornal Folha de S. Paulo, não queria saber do computador e da Internet, tendo declarado isso muitas vezes em suas colunas, os exemplos seriam muitos, mas limitamo-nos a esse. Sem querer entrar no mérito e no senso comum, dignidade não é conexão apenas, talvez um dos aspectos. A grande questão continua sendo de desigualdade e desequilíbrio informacional.

Assim, a questão da rede sugere vários temas, é complexa, heterogênea. Apoiamo-nos nela para falar da cidade informacional. Em outro trabalho, por nós já publicado41, mostramos como Barcelona, com seu intuito de se tornar uma cidade mundial e paradigma de cidade para a Europa, investiu na implantação da alta tecnologia em um bairro, anteriormente industrial, criando um distrito @ para indústrias e serviços na área de tecnologia e informação. Para este, escolhemos uma experiência norte-americana, uma cidade que, a princípio, pareceu-nos uma grande inovação – e o é realmente em termos de urbanização e criação de cidades como novos paradigmas. Diferentemente de Barcelona, donde pudemos inserir-nos no cotidiano Barcelonês, por meio de uma instância de 13 meses de convivência e estudos, em Celebration, na Flórida/ EUA, localizada junto ao complexo de parques da Disney World, estávamos inseridos como turistas, permanecendo ali durante cerca de metade do mês de setembro de 1998.

Dessa forma, nossa opção para descrever a cidade foi em forma de um diário de impressões, isto é, em um misto turista-pesquisador fomos deixando que a cidade se mostrasse para nós. Com isso, o que descrevemos a seguir são os registros dessas impressões, apontadas no próprio lugar, seja através de um mini- gravador cassete ou de uma agenda de turista a venda nas livrarias brasileiras.

Pedimos ao leitor que nos acompanhe nesse descobrir a cidade em “10 passos”, que nos serviram para evitar os pré-conceitos comuns que surgem quando aparece o nome Disney ligado aos estudos.

7. ESBOÇO DE APRECIAÇÕES EM CELEBRATION

Ponto de Partida

14 de outubro de 1988, uma quarta-feira cinzenta. Sou avisado que o avião partirá,às 12 horas, rumo a Orlando sem escalas. Estou na Sala Vip. Lá fora, aviões taxiam, a sala está vazia... Questions: onde estão todos? Sala errada... Cheguei. São 21 horas – hora local – e o hotel, embora não traga a marca de um “cinco estrelas”, é plenamente confortável para uma viajante cansado. Por coincidência ou não, A TV está ligada em um canal da Disney.

De súbito, indago a mim mesmo: Onde estará Celebration neste lugar? Por sinal, este não é meu lugar, não existe uma ligação, nenhuma ligação possível com o aparente mundo a minha volta. E o lugar supõe isso, fragmento carregado de simbolização, de sentido, carregado de mim. Logo mais partiremos – Eu e o motorista da agência, rumo à primeira visita a Celebration.

2

Manhã americana, o Sol está forte hoje. Noto que está muito quente, embora seja um clima de outono. Meio inquieto, perambulo pelas redondezas do hotel. O lugar parece tranqüilo, agora, é só esperar a condução chegar. Chegou. Fiquei em Celebration e o motorista só voltará daqui a 4 horas para me buscar.

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Logo na entrada de Celebration, já era possível perceber o “ar de cidade antiga americana”. Depois de dar um giro de carro, por algumas ruas, ruelas e avenidas, fiquei no centro da cidade (Town Center). Agora, é comigo mesmo e a pé.

Então, dirigi-me para o Celebration Realty, Inc, um prédio fabuloso, ou melhor, interessante, com um mirante de onde é possível ver toda a extensão plana da cidade. No local, fui atendido por uma senhora chamada Maria Luz, que permitiu que eu gravasse as informações que estavam sendo transmitidas em espanhol. Por certo, isso facilitou o entendimento, pelo menos!

Em seguida, caminho por cerca de uma milha (1,61 km) com a missão de visitar uma “casa-modelo”, em exposição, a qual conta com toda tecnologia que está e que será disponível na cidade.

Quis sentir a cidade da forma mais tangível possível, por isso, optei por caminhar e muito. Fui observando os detalhes daquela cidade projetada com a marca dos princípios futuristas, em que a tecnologia é preponderante em todos os sentidos. Assim... ando...ando... e ando.

Logo, a Celebration Avenue parece não ter fim, mas meu destino é North Village, onde estão as famosas Model Homes. Confesso que essas arrojadas moradias, realmente, não decepcionam, são residências projetas para seduzir quem deseja viver nos braços do conforto tecnológico. Os preços também são surpreendentes. Há vários modelos e inúmeros preços, a partir de US$ 187,455 e podendo chegar a US$ 449,112.

Também chama atenção a quantidade de pessoas que visitam, continuamente, as casas e a prória cidade, contudo, é bom que se diga: não são pessoas de baixa renda, assim como a população local, que já reside nessa novo conceito de morar, também não o é. Outro aspecto importante a ser ressaltado: a cidade apresenta-se muito pacata. Fica, de certa forma, a impressão de que a maioria é composta de turistas, gente que está atrás de novidades.

Uma curiosidade, vê-se poucas crianças pelas ruas e as pessoas que aparecem nas casas são, em boa parte, idosas Talvez, as crianças estejam na escola, neste horário, que fica perto do Town Center. Quando voltar, pretendo chegar à escola.

Quanto às moradias, além da arquitetura que surpreende, sou informado, por um guia-vendedor, que todas as casas estão equipadas com uma Intranet – uma rede local – e é possível, por exemplo, assistir à reunião de professores ou de pais, na escola, pelo monitor de sua casa. O mesmo me informa, ainda, que, em breve, será possível fazer compras, no supermercado, via Intranet. É o futuro mais que o futuro, a comodidade de uma aparente realidade estável, na qual, a vida fora de Celebration passa a ser perigosa e impraticável. Assim, é impossível na vislumbrar o ar de fantasia que ronda por aqui é igual ao dos parques.

Quem sedimenta essa percepção é a senhora Elaine McHenry, uma brasileira que reside na cidade:

Eu gosto de morar em Celebration, é como estar de férias, lá você pode andar, ir ao DownTown, ao Restaurant. Mudei para Celebration por causa da escola que é diferente. Não tem nota 70, 100 ou A , B; os professores não apresentam o ponto e marcam o teste. De cada assunto é feito um projeto de pesquisa que o aluno precisa buscar. No final é dado : feito ou não-feito.

Tal depoimento me fez refletir sobre os rumos da educação brasileira e que caminhos nos apontam propostas como a de Celebration. Após uma série de visitas às imponentes residências, é hora de voltar para Town Center, mais uma milha de caminhada. O ar está parado. Mas, nota-se, também, a ausência de poluição de veículos pelas largas avenidas dessa cidade que teima em mostrar-se como uma opção para o convívio saudável entre o homem e a paisagem à qual se integra. Aliás, a paisagem, aqui, é marcadamente coesa por áreas verdes e um agradável campo de golfe, que completa o cenário, antes pantanoso. No caminho, também, encontramos um clube só para os moradores.

4

Algo me chamou a atenção, no banco do Town Center, uma frase categórica, impressa, no folder distribuído pela imobiliária: “You Don’t Have to live here to love it” (Você não tem que viver aqui para amar isto).

A minha sensação/percepção é de que Celebration Será, ainda não É. Minha questão ontológica leva-me a refletir sobre o papel das novas tecnologias na urbanização. Certamente, alteram as perspectivas e percepções de habitar um lugar; mas, seria uma cidade informacional a saída para resolver os problemas das metrópoles saturadas de trânsito e conflitos urbanos de toda ordem?

Tal reflexão está longe de ter uma resposta imediata, posto que esta cidade já nasceu sob o signo do novo, fora totalmente projetada, a fim de parecer tradicional e, ao mesmo tempo, moderna e funcional em todos aspectos urbanísticos possíveis. Isso fica evidente graças a sua infra-estrutura, que é surpreendentemente diferenciada da maioria das cidades médias americanas. Em termos de ocupação, há outro aspecto que também deve ser levado em conta: o projeto prevê em torno de 20.000 habitantes em 8.000 residências ao final de 10 anos (iniciado em 1995).

Todavia, o grande questionamento que fica patente é: ‘Por que a Disney Co. investiu em uma cidade real, numa área de 4.900 acres, e não em mais um parque?. Na verdade, afirma-se que o próprio Walt Disney projetou, na década de 60, uma cidade para os funcionários dos parques, porém, sua idéia acabou por se transformar no Epcot Center.

Assim, a atual Disney Co. estaria “realizando o sonho de seu fundador”. Mas, no fundo, isso é somente uma aparência. Pois, o consórcio de empresas mostra que é mesmo a sede pelo lucro que motivou a Disney Co a investir em tal projeto; porém, isso também é lugar-comum, obviamente que estão lucrando!

Afinal, para dar cabo desse projeto, The Celebration Company conta com alianças estratégicas feitas com empresas de vários ramos: a AT&T, responsável pelas redes de comunicação, equipamentos de computador e telefonia para as lojas de comércio, bancos e residências; o Florida Hospital, que administra o Celebration Health, compreendendo vários serviços médico-hospitalares incluindo o Fitness Center, centro de reabilitação, planos de saúde, centro de pesquisas comportamentais, centro odontológico, entre outros; a GE Company, com sua gama de produtos elétricos e suporte na iluminação de residências e hospital; a Honeywell Home Control, com produtos, sistemas e serviços para incrementar o conforto, proteção e economia para as residências (alarmes, sistemas de ventilação, etc.); Sun Trust, oferecendo serviços bancários; a Stetson University, responsável pela The Celebration School, uma escola pública para crianças e adolescentes.

Além disso, também, é responsável pela The Celebration Teaching Academy, a qual desenvolve cursos de extensão e especialização para professores e interessados. O Celebration Hotel com 105 quartos e 10 suítes com design da década de 1920, desenvolvido pela Owner & Developer, inaugurado em 1999.

Desde um simples banco de praça com um bebedouro “antigo” ao lado, temos de aceitar: a cidade impressiona mesmo! Isso sob vários aspectos, pois o projeto contempla os detalhes e, assim, somos levados pela mágica do lugar. Uma frase da Srª. Elaine marcou bastante:

Essa cidade era o grande sonho de Walt Disney. A Disney de hoje só visa dinheiro, Walt Disney era um visionário”. Vive-se num paraíso, mas nada tem de paraíso. É bonita, bem cuidada, limpa, até um carro de polícia anda por aqui. Da visão de Walt Disney pouco sobrou, os empregados dos parques moram, em sua maioria, em Kissimmee ou Osceola County, locais dos arredores de Celebration, por ser mais barato o custo de vida, aluguel e o valor do metro quadrado para compra de imóvel.

Fica evidente: nota-se a presença de uma elite endinheirada, principalmente nas casas, os apartamentos são menores e de preços, teoricamente, mais acessíveis.

Uma cidade informacional? Sim, em tese, sob o prisma do novo associado à tradição.

Posto que a cidade informacional alia tradição e alta tecnologia para todos seus moradores. Aqui, encontramos alta tecnologia e formas tradicionais. Esta cidade já nasceu sob o signo da tecnologia, mas não da tradição. Pessoas caminham desatentas e lembro-me da afirmação da moradora: “Como é uma coisa nova, cada morador veio imaginando uma cidade, ou seja, a sua cidade. Aquilo que achamos o ideal de cidade. Mas, há um rico detalhe, é preciso se adaptar às normas”.

Normas. Essa palavra, de certa forma, por incrível que pareça, está presente em todos os sentidos desta cidade, principalmente no que se refere à segurança de todos os aqui moram Afinal, muitos acreditam que são justamente as regras que reduzem a liberdade das pessoas, com fino propósito de que haja, de fato, convivência harmoniosa entre todos. Nisto, traduzo, a seguir, textos sobre o tema na mesa do quarto de hotel, que encontrei na Internet em Frequently Asked Questions, compiled by Kenny Cottrell – http://www.home.ptd.net/~glisman/cele2.htm:

Celebration in texts

Todo proprietário em Celebration será membro da Associação de Proprietários do Residencial Celebration (a Associação) e pagará o preço da manutenção para a Associação. Esses pagamentos serão usados pela Associação para pagar pelos serviços e providências, incluindo manutenção do Lakeside Park e outras áreas comuns dentro da jurisdição da Associação. Com exceção da Townhomes, onde a Associação manterá os gramados e paisagens em frente às casas. A Associação não manterá os gramados e paisagens individuais.

5

Apesar de ser uma cidade pensada em seus aspectos urbanísticos, arquitetônicos e tecnológicos, o projeto não encontra respaldo pleno na sociedade norte-americana. Ao pesquisar essa questão, encontrei alguns artigos na Internet que mostram a insatisfação de muitos para com o empreendimento, a web

pesquisada foi http://www.rtuf.nwu.edu/classroom/c43/dsnycelb.html :

Disney anuncia a qualquer um que esteja interessado em viver o modo Disney de vida e seguir as condições viventes rígidas que Celebration impõe a seus residentes. Envia para possíveis consumidores, campanhas publicitárias que defendem o tipo de comunidade que Celebration pretende ser.

Em geral, Celebration atrai as pessoas que estão procurando uma sensação de comunidade. A maioria desses que se esforçam para ser um residente de Celebration querem, na verdade, ver aspectos da Disney ao longo da cidade, até mesmo nos nomes de rua; as duas estradas principais serão “ Zip-a-Dee-Doo-Dah Drive and Hip-Hip-Hooray Highway” .”

“Tudo soma-se à etiqueta Disney e ao modo Disney de vida”. Essa é uma avaliação de Celebration, feita por McKenzie, que continua: "A noção que você pode adquirir, longe do conflito social e crime, é uma idéia supervalorizada. Não é possível. É relativo ao escapismo e dissidência. (The Economist)”.

Talvez, isto é exatamente o que Disney notou que a pessoas querem e, nesse caso, Disney também os quer”.Celebration é menos como uma cidade e mais como uma subsidiária de a corporate-run subsidiary: Nenhum governo da cidade, a associação de nenhum proprietário de imóvel, e nenhum comércio livre; além de um "Livro Padrão de regulamentos”, rígido e relativo ao olhar e à manutenção da propriedade que seus residentes " possuem ". Na maioria dos casos, este tipo de cidade é chamado uma ditadura, na Disney é Celebration. A suposição é que a corporação fará a cidade, razoavelmente, mais eficaz e pensativamente que os governos representativos fazem e criarão um ambiente vivente melhor. Disney sentiu o ambiente econômico de famílias com muito dinheiro, um pouco de nostalgia e, também, intenso descontentamento com suas comunidades. Assim, é o momento e lugar perfeito para comercializar os seus produtos.”

6

É visível que tudo em Celebration tem um aspecto de ambiente higienizado, pois seus parques são bem cuidados, visualmente bonitos e organizados, todos criados para os Magic Moments. Aqueles momentos propostos por Walt Disney, nos quais, cada visitante dessas áreas verdes destinadas ao lazer, deveria passar ao menos uma vez. Momentos simples, mas de grande impacto para o morador-visitante. Por exemplo: Se uma chupeta de criança cai no chão, logo deve aparecer um funcionário do parque com uma outra novíssima e limpa para entregar a mãe, a fim de evitar transtornos à família.

Em certa ocasião, conversei com Miguel, proprietário da Loja Miguel Brasil, que observou: “Celebration? Ah! São casas para os funcionários. Eu me lembro de ter ouvido sobre isso. Aqui, as coisas funcionam tão bem que você nem liga para economia, política ou crises mundiais, pois tudo está, aparentemente, em ordem. Por ventura, se você perguntar quem é o prefeito de Orlando, eu sei que é uma mulher, mas não sei o nome”.

Enfim, andar, andar, andar... como em outros parques, é tudo para consumo! Olhar e ver (e respirar) são os detalhes. Consumir é o que importa. É assustador o ‘Spaceship Earth’, apresentado pela AT&T. A estrada do futuro de Al Gore, em miniatura. Começa com os homens da caverna e termina com equipamentos que ainda não estão à venda no mercado: redes, monitores de tela plana com alguns centímetros, comunicação à distância em tempo real(mesmo!).

No ‘American Adventure’, almocei no ‘Liberty Inn’, tudo patrocinado pela Coca-Cola. Isso sim é interessante, a Disney Co., Não gasta nada! Todos pagam para isso aqui funcionar. Almoçar na Aventura Americana, no Restaurante Liberdade, é o que tem de mais americano. A ideologia escorre pelo Catchup e a Batata frita way of Life...É o sonho do padrão americano de vida elevado ao quadrado.

Volto para Michel Serres, trouxe o Atlas para localizar-me adequadamente. Logo, percebo, tudo aqui está povoado de mensageirias e, na página 250, o filósofo afirma: “Por meio de uma extensão virtual da Geografia, saber fundamental por que, nós, seres vivos, habitamos este mundo, como árvores de fruto ou animais num vale, em direção a uma cartografia nova, contendo espaços virtuais... Não temos, no entanto, qualquer certeza de que este prolongamento se prossiga, um a um: a sua transitividade interrompe-se mais freqüentemente do que continua”.

Andar, andar, andar... Assim, aqui, a transitividade é grande, cada turista, criando o seu mapa virtual, o mapa de suas possibilidades dentro da “mágica” do constatar “in loco” o admirável mundo novo. Ver, ver, consumir, ver, consumir... É, no fundo, o círculo contínuo que mantém a permanente sensação de que estamos vivos porque estamos consumindo. A cartografia do virtual mapeada em lojas de quinquilharias, encantada geografia nesta Torre de Babel do eterno consumir.

Assim, percebo, realmente voltarei à Celebration outras vezes.

7

Minha viagem contínua. Agora, no corredor do Hotel. Na estrada que (es)corre ao lado, representantes maquínicos do sonho americano. Esperar, esperar, esperar... Voltar para Celebration com a filmadora e perceber, através de um visor, o quanto a tecnologia pode traduzir de conforto para uma sociedade que dispõem de recursos financeiros que sustentam o sonho de uma cidade idealizada para poucos afortunados. “O suporte não tem interesse, a não ser por meio do transporte que torna possível”, salienta o filósofo francês, na página 141 do Atlas.

Assim, sedento por processar a informação coletada, minha filmadora registra tudo: a estrada, arredores e caminhos para Celebration com seu olhar mecânico. Marcada pelo aparato tecnológico, todavia, acredito que esse suporte precisará ser re-lido, editado.

Aos poucos, vou arquivando tudo na memória da máquina: Arquitetura, Escola, Hospital, centro da cidade, casas de demonstração (paraísos-modelos), comércio, praça central, estacionamento, ruas, centro comercial, etc. Isto é uma cidade? Sim, apontam-me seus sinalizadores, mas minha mente tem dúvidas.

Este último registro em vídeo de Celebration tem como principal objetivo, a forma. A vida que percorre este lugar parece não importar muito aos seus idealizadores. As pessoas, como personagens, aparecerão no horário marcado?

Claro que não! Pessoas-habitantes e não personagens-habitantes. A marca Disney não importa para as pessoas comuns que aqui habitam... Bom, aquela marca das discussões acadêmicas, pelo menos. Essa Elite que paga mais por tudo para morar “num sonho”, virtualiza uma urbanidade que pode nem mesmo vir-a-ser futura.

Presente-futuro pré-sentem/pré-enchem o cotidiano dos Celebrationanos(?) e percebo, em meio às minhas elucubrações, interessante a população mais idosa contrastando com a tecnologia e complementando a paisagem século XIX. Crianças na Celebration School, são crianças em uma escola, apenas.

Não é uma “cidade dos autômatos” como diz Umberto Eco em relação aos parques Disney, é uma cidade...

Todavia, na aparente simplicidade de ser apenas uma cidade, escondem-se as contradições de toda cidade superficial. Assim, ao olhar pela lente da máquina, a paisagem flui e fragmenta-se, no ligar/desligar da máquina que capta as imagens, escolhendo, fixando-se mais em algumas cenas, nas quais se escondem o segredo para a edição. Então, quando essa fita estiver editada, será outra cidade em outro momento?

8

No hotel, re-vejo a fita gravada, re-vejo as interrogações. Que mensageirias carregariam as imagens da cidade? De novo com Serres no “Livro a lenda dos Anjos”, anoto da página 72:

Eis o novo em nossa história: única e indestrutível, universal, a nova cidade não nos deixa ter esperanças senão nela mesma e em suas performances; ninguém entra se não tiver acesso a todos os lugares. Ora, antes o Paraíso era sentido e pensado como o lugar da Esperança inacessível. Nem a mais sagrada tradição, nem o gênio de Dante, previram que um dia saberíamos penetrar todos os lugares com tecnologias semelhantes aos ramos de ouro.

Em minha fita, vejo a forma deslizar, penso sobre a edição, fragmento ainda mais o que já está fragmentado. Troco o ético pelo estético, como pós-modernamente é possível. Sem totalidade para buscar, sem sujeitos totais, a alienação fica descartada. Assim, Celebration foi construída “para as pessoas, e não para o Homem”, como escreve David Harvey em “A Condição Pós-moderna” que, agora, não me recordo da página [1989: 45].

O cotidiano-intenso toma forma nas imagens. Nisto, me vem à memória a afirmação do poeta multimídia português Melo e Castro, para quem a fotografia é uma saída espacial para a escrita [1993, p. 230-2]. Isso é do livro “O fim visual do século XX”. Estupefato, acrescento: o vídeo também é outra saída espacial para a escrita! Acrescento mais uma ao poeta: A realidade sempre é mais e maior que seus registros, já que nada nos garante, no texto ou na fotografia, que neste momento vemos e lemos, que os seus referentes tenham alguma vez existido materialmente, isto é, tenham sido reais...tangíveis. Contudo, diante da contemplação de Celebration, procuro fugir dessa discussão ontológica do ser da imagem. Assim, de súbito, pausa. O apelo comercial é mais evidente. Desloco-me ao Wall Mart.

9

Outro momento de contemplação: sentado no banco da entrada do hotel, imagens e palavras fluem à minha volta Num cartaz, um poema de Gertrude Stein, que já vi no livro O anticrítico, do poeta concretista Augusto de Campos [Cia das letras, 1986:180]:

It is it is it is is.

If it and as if is

if it or as if it

And it is as if it and as if is

Or as if is

No fundo, são palavras desconexas que ocupam os espaços do papel, numa desordem lingüística que traduzem a ansiedade do entendimento do mundo sintético que nos cerca. São expressões que se deslocam para lá e para cá, formando o que o leitor quiser, ao acaso, dispondo os termos ao vento... só os sons preenchem os vazios.

Aqui, a lembrança de Celebration ainda poderá ser atualizada. Logo mais, no Brasil, as imagens serão partes de uma etapa passada, e não mais poderão ser atualizadas. Só o agora é que me detém. E, assim, tais imagens (reais/virtuais) não mais poderão ser atualizadas na memória que ficou afixada em algum vidro revestido de insulfime.. Será, outro tempo-espaço. Como na poesia, os vazios poderão ser preenchidos pelos sons, aqueles mentais e/ou gravados em vídeo.

Para mim, as mensageirias daqui, recordadas lá, então, outras mensageirias.

É hora de voltar para casa! Tenho a súbita impressão de que o mundo real, pós-Celebration, espera-me mais lúcido para que possa mensurar as mensagens que captei em minha quase virtual odisséia.

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Mas antes... Ainda, no banco, mais recordações:

Assim, a questão permanece: Celebration é uma cidade informacional ou... apenas uma aparente utopia futurista?

Celebration é, a seu modo, mensageiria do capital internacional. A vida que corre nas casas completa as redes que trafegam em fluxos cibernéticos e mecânicos – cabos coaxiais, ruas, avenidas, fibra ótica. Aparente ausência do humano ou quase inumana cidade.

Seu complexo centro financeiro-econômico acomoda empresas de capital global: AT&T, GE Co., Sun Trust, Honey Home Control, Florida Hospital, reunidos no Business Park. São convivências aparentemente pacíficas do capital a serviço do capital.

Os moradores reunidos em “sua Associação de moradores” completam esse “novo contrato” de cidadania do amanhã ou uma nova ordem social, nitidamente baseada nas redes, como diria Manuel Castells [1999: 505]. Ainda com o sociólogo espanhol, é a arquitetura da nudez e da mensagem do silêncio que pretende não dizer nada [1999: 445].

Ordem que parece estranha às pessoas que estão fora, ordem que transmite uma sensação de castração da liberdade, pela imposição da própria existência da rede.

Com a sensação de uma aparente ausência do cenário urbano dessa cidade, passeio pelas streets e avenues, casas decoradas para o Halloweeen. Típica cena americana? Se um dia caçaram as bruxas, hoje, a serviço do capital, as celebram. Cabeças silenciosas de abóboras de plástico nas varandas e calçadas. Mistura de arquitetura antiga construída com a mais alta tecnologia disponível no mercado, paradoxos da civilização ocidental pós-modernista cibernética virtualizante.. A tradição, que não existe ainda no lugar, mas que traduz uma idéia de aparente tradicionalismo, com a história nacional americana. É a insistente busca de uma identidade local fora do tempo e do espaço dos magic moments de Orlando. Nada de vanguarda no projeto e, mesmo assim, vanguarda por todo lado, para o norte-americano ver, contemplar e vislumbrar. Aborrecer-se ou endeusar. Ou seja, design! O novo reinventado a cada momento no toque digital da existência cibernética.

Aparente aritmética social: Virtual?Atual?Real?Informacional?Rede que formaram a paisagem pós-moderna na frente da minha câmera-olhar.

8 . FIM DE VIAGEM E UMA CONCLUSÃO

Celebration poderia ser mais ou menos informacional? Acredito que não. Como uma cidade pode ser mais ou menos? Acredito que Celebration possa ser considerada uma cidade informacional pelas características que apresenta.

O próprio debate “interno” sobre Celebration a coloca entre as cidades informacionais, em que a informação é o principal produto e matéria-prima de trabalho e valor, de renda. Mas, apenas isso não a faria informacional, no máximo seria uma cidade polêmica com tecnologia de ponta. No entanto, Celebration coloca-se como uma outra possibilidade de ganho no mundo da acumulação flexível.

Concebida e em execução, dentro de novos parâmetros capitalistas, Celebration une a cidade virtual, com sua Intranet e sua vida intranet, à dinâmica da cidade informacional, situação gerada pelo capital tecnológico acumulado principalmente na área de serviços.

A própria concepção da cidade está relacionada à flexibilidade, visto que a primeira questão que nos surge é por que a Disney Co. não criou mais um parque no lugar da cidade?

Assim, quando o óbvio fordista seria investir no setor do entretenimento, a Disney Co., dentro de um “consórcio”, prefere falar em “Aliança Estratégica” (Strategic Alliances)42, com várias empresas que colocam em ação um “sonho” do próprio visionário Walt Disney, acreditando na força, primeiro da própria grife em que se tornou o conceito Disney de entretenimento; depois, no impacto da tecnologia na vida das pessoas, até chegar ao USA Today, de 18/10/95, página 5B, então, início das obras, a perguntar: “Will it work for the late 20th century? A picture-perfect town, but will it work?“43

Cinco anos depois, vemos que é realmente uma possibilidade de cidade para o americano médio, independente do seu preço mais alto, em relação a outras áreas na própria Orlando. A Disney Co. soube trabalhar inclusive com o imaginário das pessoas, passando inclusive o próprio marketing de uma empresa americana preocupada, principalmente, com os valores americanos, nos quais morar bem está além de um conceito meramente convencional, para implementar uma idéia de futuro associada à tradição. Logo, valores que têm preço e eles não são tão altos, quando a credibilidade é garantida. Quando se fala em segurança, conforto e estabilidade.

Assim, a criação de Celebration é, tão somente, ainda uma tentativa, ao que parece até agora bem- sucedida, de criar, também, uma identidade para os habitantes de lá, já que estes chegam de diversas partes (inclusive brasileiros) com significados de cidade, às vezes, muito diferentes.

Quanto à tradição aliada à tecnologia, Celebration, em seu design, dos séculos XIX e início do XX, retrata a possibilidade pós-moderna do simulacro. Isso na prática. Apresenta, então, traços de uma arquitetura mais perfeita, implantada no século XIX e copiada do século XIX – XX, apresentando tais características como uma proposta real de solução para a urbanização do século XXI.

É a própria imagem sem semelhança. Do conceito medieval de burgo à cidade futurista, que preserva as tradições sem abrir mão da tecnologia, como instrumento de conforto e integração do homem à virtualidade dos novos tempos.

É, também, heterotopia: cada casa, cada cidadão como um mundo possível, fragmentado con-vivendo num espaço “impossível”. Impossível dentro da rigidez fordista de um mundo industrial em transformação. Transformação rápida e constante. Assim, vê-se que antropofágico vai deglutindo tudo à sua frente, bem à moda oswaldiana.

Logo, Celebration vai incorporando essa velocidade de processamento das informações, conseguindo, com isso, a premiação de um mercado imobiliário voraz que se adapta à flexibilidade, mantendo nítida a tese de renovação permante: The Nacional Association of Homebuilders nomeou, em 1997, Celebration como The Best New Community in América, com o Best in American Living Award. Reconhecimento para um empreendimento em apenas três dos dez anos que o projeto prevê.

As casas recém-construídas sempre oferecem a última tecnologia possível. Conectividade e integração são características fundamentais para o funcionamento dessa cidade.Mas, não são apenas máquinas que se alteram, é a própria forma de relacionamento com e via máquina, que tornam novos e possíveis inúmeros processos interativos tecnológicos para qualquer cidadão dessa cidade programada para funcionar. Uma outra forma de entender e ver o mundo oferecido aos cidadãos pelo “poder público”, aqui, misturado entre privado e público.

Essa é outra característica importante de Celebration e alvo de muitos questionamentos: quem manda em Celebration, a Disney ou os Governantes escolhidos?

A cidade não é uma cidade independente, faz parte de Osceola County, sendo administrada por pessoas que compõem um consórcio de empresas em parceria com a Associação de Moradores que, no final dos dez anos do projeto, será entregue totalmente ao condado de Osceola. Cria-se, assim, outra forma de gerenciar uma cidade, aliando iniciativa privada, participação popular e governo, como forma de se buscar saídas para os problemas e contradições que são tão evidentes numa cidade convencional.

Desse modo, procurar entender Celebration dentro dos modelos comuns de cidade é incorrer em erro de análise. É uma proposta nova e, assim, deve ser entendida. Com isso, por meio do que foi escrito até agora, busquei esse novo entendimento sempre que possível. Está claro que tal concepção de cidade está longe de ser um “paraíso terrestre”, a cidade, que ainda está em formação, sugere novas formas de design urbano e de planejamento.

O trabalho e as relações sócio-espaciais, baseadas na flexibilidade pós-fordista, ganharam nova dimensão cósmica com a associação dos três elementos sociais que, poderiam ter interesses contraditórios. O que se mostrou foram interesses diferentes e não contraditórios, aspectos possíveis de serem direcionados para a continuidade da acumulação do capital, assim como de uma governabilidade e de uma satisfação do consumidor-cidadão.

Tem-se, então, uma nova realidade administrativa: formas diferentes de ganhos unidos a formas diferentes de administração pública. Se o fordismo não foi hegemônico, no seu início, aqui também a flexibilidade – ainda – é pontual, uma experiência a ser assumida e interiorizada, talvez em prazo menor, que o ocorrido com o modelo anterior. Muitas coisas estão em jogo e entre elas (quem sabe) a mais importante seja a clareza, para todos, desenvolvidos e subdesenvolvidos e, aqui, falo de nós brasileiros, afinal, em tese, a tecnologia não determina a sociedade, mas a sociedade é que foca a tecnologia a partir da sua própria condição econômica face à realidade financeira de que dispõe.

O recorte tecnológico que faço, nesse momento, é meramente teórico, assim como não é possível a tecnologia sem a sociedade, também impossível à sociedade sem a sua tecnologia. Já faz bom tempo que Milton Santos vem reforçando essa dialética social, numa dinâmica, que juntamente com muitos outros intelectuais que partem desse mesmo pressuposto e insistem naquilo que se convencionou chamar de período técnico científico informacional. Sob essa perspectiva, Celebration é um movimento da estruturação espacial dentro desse período. Concretamente, a partir de meados da década de 90, quando a cidade finalmente pôde ter iniciada suas obras, as condições materiais para isso estavam sendo postas.

Na década de 60, quando Walt Disney pré-ideou (ou pré-idealizou) uma cidade com alta tecnologia e ela transformou-se no Epcot Center, essas condições materiais e, incluímos aí, com toda crítica possível, as pessoas e seus valores, não existiam. Ainda, hoje, vê-se que Epcot não é uma comunidade de funcionamento atual como sugere seu nome (Comunidade Experimental de Amanhã), mas um local de mostruário das idéias e Tecnologias do futuro (principalmente no setor Innoventions). Futuro determinado pelo mercado consumidor, diga-se logo. Pois, esse campo de teste é rapidamente banalizado e oferecido para o grande público, vide o – hoje – brinquedo de realidade virtual.

Hoje, as tecnologias informacionais utilizadas em Celebration criam projetos novos de vida, exemplo disso é a Celebration School, a qual renova, para o modelo americano, a forma do ensino–aprendizagem, tendo como base todo o aparato das tecnologias disponíveis para todos os alunos com uma proposta didático-pedagógica nova, isso em parceria com a Stetson University Center, localizada na 851 Celebration Avenue, que oferece, durante todo o ano, no Teaching & Learning Institutes, cursos voltados para aperfeiçoamento de professores, como Innovative Uses of New Technologies: Classroom Aplications, Teacher Rejuvenation, e outros, com preços entre US$ 400 e US$ 500 por participante44. Porém, conforme Ross45 que:

“também participou como professor voluntário do projeto educacional, no qual teve visão privilegiada de uma outra grande fonte de conflitos. Aos poucos, muitos pais passaram a questionar o novo método introduzido aos seus filhos, com queixas quanto a várias carências: de ênfase em disciplinas clássicas como matemática e ciências; de comportamento mais disciplinado; de incentivos de competitividade para melhor desempenho; de notas, o que no futuro poderia barrar a entrada nas universidades.

Frente aos protestos, a administração escolar respondera a princípio que os insatisfeitos poderiam buscar outras escolas, o que soava estranho por se tratar de uma escola pública; mas, também, porque, em tese, os gastos, com a compra das casas, impossibilitava-os de inserir os filhos numa escola privada. Quase um ano depois, a luta por um currículo mais tradicional ganhara muitos adeptos e a escola fora obrigada a ceder em muitos aspectos, sem falar da construção de uma outra escola pública na região.

Aos poucos, tem-se um quadro em que, ao invés da emergência de uma comunidade tal como planejada pelos administradores, observa-se um grupo reunido, sobretudo em resposta, como se viu, a adversidades concretas que envolviam seus interesses mais imediatos. Vínculos como esses, além de outros de caráter informal, passaram, inclusive, a se sobrepor aos esforços dos empreendedores de promover um sentimento comunitário, com as "festas de quarteirões" organizadas por profissionais orientados pela Disney, com o intuito de se criar uma espécie de identidade homogênea, sem "fraturas internas".

Outro setor, no qual, a tecnologia e a flexibilidade alteram o modo de vida é o da saúde com o Celebration Health, um complexo tecnológico de pesquisa e atendimento médico ligado ao Florida Hospital46 oferecendo serviços de saúde que incluem planos, instituto de estética, centro da mulher, centro comportamental, centro de reabilitação e outros. Não é apenas mais um hospital, mas um centro de pesquisa com produção acadêmica e prática voltada ao mercado farmacêutico. A propaganda da Celebration Health diz : “Tecnologia que realmente é amigável ao usuário” e “o futuro do cuidado da saúde”.

No momento em que um grupo de turistas visitava a cidade, o hospital e a escola eram as grandes marcas de Celebration. Outro empreendimento pronto no outono de 1999 é o Celebration Hotel, localizado na 700 Bloom St, um quatro estrelas com 115 quartos em três andares, com a “simplicidade do design da Florida dos anos 20” e, ainda, um local para convenções e reuniões para 100-125 pessoas com diárias variando entre US$ 279 a US$ 349 e taxas entre US$ 72 e US$ 9247, conforme a temporada.

Assim, Celebration, essa cidade retrofuturista, confirma as atividades principais da região, onde foi construída: Turismo/Serviços, Construção e Serviços Hospitalares48.

Mensageirias

Antes de finalizar este ensaio, cabe, aqui, um questionamento: como Celebration vai envelhecer?

Possivelmente, todas as mensageirias já tenham envelhecido neste momento. Envelhecidos no espaço de um livro e constantes là dehors. Constantes pelos seus suportes-fluxos, todos eles superando-superados, insisto, no espaço e não no tempo.

Todavia, a nossa questão não é temporal e sim espacial. Por isso, envelhecer no espaço, quando existe a possibilidade de upgrade dos fluxos é um dado, sem exageros, fora de cogitação. Todas as mensageirias indicam redes novas que vão se formando a partir de novas relações possíveis Ad instar.

Semelhança na diferença, dialética que se espalha pelo mundo todo, tornando todos os lugares apenas mais um, porém, únicos. No cotidiano intenso da pós-modernidade, o espetáculo ocorre nas ruas e nas redes (HARVEY,1989:57). As ruas, agora, redes não apenas do tráfego de veículos e automóveis, mas de mensagens, informações. Redes, agora ruas, por onde as informações, os remédios, as operações financeiras e médicas curam, receitam o próximo passo dos mercados.

Redes-ruas, nas quais, as crianças brincam, criando países para serem os ditadores ou democratas – ou ambos – e podem exercer o poder, a política, ter o destino virtual que quiserem. Redes-ruas que geram projetos para cidades eletrônicas, visando à cidadania para pessoas de países mega-ricos. Redes-ruas que possibilitam a arte de avançar para a não-geografia de Eduardo Kac e suas performances robóticas ou Wagner Garcia, com seus sarcófagos para nômades.

Experiências variadas que apontam para a sociedade informacional com seus novos parâmetros e desafios. Cotidianamente, o desafio é o de superar os obstáculos impostos pela invisibilidade dessas Redes-ruas-redes. Nesse estado, debates e mais debates surgem sobre a tecnologia em todas as ciências, sobre a tecnologia e a moralidade, novos ludistas, conforme a conveniência.

NOTAS:

1  SERRES, Michel. A Lenda dos Anjos. São Paulo: ALEPH, 1995, p. 293.

2 BOTTA, Ann - "The Double Face of Hermes in the Writings of Michel Serres. Available from http://www.nwe.ufl.edu/sls/program.html. tradução nossa.

3 Esse “ninguém sabe” é relativo, pois os hackers (piratas da rede) são peritos em descobrir endereços, senhas, número de cartões de crédito, etc..

4 NEGROPONTE, Nicolas – A vida Digital. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p.146

5 VIRILIO, Paul - O último veículo – Rio de Janeiro: Revista 34 letras n° 5/6, setembro/94, p. 406

6 NEGROPONTE, Nicholas - op.cit. p. 196

7 Idem, p. 198.

8 ERCILIA, Maria - E-MAIL para todos - Coluna NETVOX - Folha de S. Paulo, 28/11/95. O endereço eletrônico da RAND Available from http://www.rand.org

9 Colóquio “Homem, cidade, natureza: a cultura hoje” - Rio de Janeiro 25,26,27/05/92 - GUATTARI, Félix - CAOSMOSE um novo paradigma estético - Editora 34, RJ, 1992, p. 179.

10 Idem, páginas 169-178

11 SOJA op.cit. p. 93.

12  Idem, p. 140

13 RODRIGO, Miguel A. Teorías de la Comunicación. Ámbitos, Métodos y Perspectivas. València:Universitat de València; Castello de la Plana: Publicacions de la Universitat Jaume I; Barcelona: Universitat Pompeu Fabra; Bellaterra: Universitat Autònoma de Barcelona, Server de Publicacions, D.L., 2001, p. 63.

14 Grupelhos no sentido proposto por GUATTARI: grupos menores não hegemônicos.

15 SANTOS, Milton - A natureza do espaço - técnica e tempo razão e emoção São Paulo:HUCITEC, 1996:256.

16 SANTOS, Milton - A natureza do espaço - técnica e tempo razão e emoção São Paulo:HUCITEC, 1996:256.

17 CANEVACCI, Massimo - A cidade Polifônica - Ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana São Paulo: Studio Nobel, 1984, p 13.

18 O Cartoon Aeon Flux era exibido após as 23 horas na MTV Brasil, Canal 10 da NET.

19 Tio Patinhas n° 375, outubro de 1996, São Paulo: Editora Abril Jovem S.A., p. 67-97

20 Motoqueiro Fantasma IN X-Men 2099, n° 06, janeiro de 1995, São Paulo:Editora Abril Jovem S.A.,, p. 55-81

21 Mens in Black – Columbia Pictures, 1997, USA

22 RadioHead – OK Computer . Capitol Records, Ca, USA, 1997

23 SERRES, Michel – A lenda dos anjos, op. cit. p. 18-9.

24 KATZ, Helena – Artista cria ‘sarcófagos’ para nômades contemporâneos. Caderno 2, O Estado de S. Paulo, 4/3/99, p. D8-12.

31 GARCIA, José Wagner – Criador apoia-se na essência filosófica de Sanders Peirce Caderno 2, O Estado de S. Paulo, 4/3/99, p. D8

32 VIANA, Hermano – Novos sistemas, novos problemas. Folha de S. Paulo, 17/06/94, p.6-8.

33 ARANHA FILHO, Jayme – Tribos eletrônicas: metáforas do social IN Comunicação e Política V.III n°1, 1996, p.69.

34 Idem, p.74.

35 Idem, idem.

36 LÉVY, Pierre – O que é o Virtual –Rio de Janeiro: Editora 34, 1996, p.1

37 CASTELLS, Manuel - The informational City: Information Technology, Economic Restructuring and the Urban Regional Process – Oxford, UK, Cambridge, MA Blaclwell, 1989.

38 Castells adverte que vida em rede dá força a elites. Entrevista de Manuel Castells para a jornalista Beth Saad. Jornal O Estado de S. Paulo, Sábado, 28 de fevereiro de 1997, Caderno 2, p. D8.

39 Stad' of Amsterdam, a free service on the Internet, but only in Dutch. This digital city offers a sort of copy of all the services and agencies of a traditional city: information from city government, opening hours of city services, library catalogues, and so on. Also, several citizen's organizations have claimed their own 'place' in the digital city.. The Digital City of Amsterdam is still young, but has been growing at a steady pace since it was founded and is an enormous success with the population..Texto pode ainda ser encontrado na web page. http://isp2.projects.v2.nl/DEAF/96/nodes/LevyP/text.html

40 CARDOSO, Cláudio Notas sobre a geografia do Ciberespaço Available from www.facom.ufba.br/pretextos/claudio3.html Ver também de PEREIRA, Beltrina da P. da Côrte – São Paulo cidade misturada/ cidade inconclusa zapeando a metrópole metalizada, tese de doutoramento, ECA/USP/SP, 1997.

41 SILVA, Paulo Celso da e SILVA, Neide Maria Pérez da. POBLENOU. Território @ de Barcelona. Projeto 22@BCN estudos e considerações. Itu: Ottoni Editora, 2006

42 The Celebration Company has formed strategic alliances with a variety of prominent companies to help bring the latest products, services and technologies to Celebration. Relationships evolved during the last four years of planning. More alliances are yet to be forged. Alliance relationship encompass businesses in the building products, communications, health care, education, financial and civic areas. The following companies are discussing their participations in Celebration with Celebration Company. Fax recebido em 31.08.98 da The Celebration Company, 200 Celebration Place, Celebration, Flórida, 34747 F.(407)9391999

43Will it work for the late 20th century? A picture-perfect town, but will it work?“ pode ser traduzida livremente como “Irá funcionar para o falecido século XX ? É uma imagem –perfeição de cidade mas irá funcionar?”

45 ROSS, Andrew.: The Celebration Chronicles: Life, Liberty, and The Pursuit of Property Value in Disney’s New Town, New York: Ballantine, 1999. citado por:FRUGOLI JR., Heitor. Celebration: a busca da cidade perfeita e a vida real. EURE (Santiago). [online]. set. 2001, vol.27, no.81 [citado 06 Febrero 2007], p.123-127. Disponible en la World Wide Web: http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0250-71612001008100007&lng=es&nrm=iso>. ISSN 0250-7161.

47 Estes valores foram avaliados para o período de 01/03/2007 através de reserva por internet em http://www.hotel-rates.com/

48 Conforme informações do Osceola County Planning Departament. E-mail Address: oscear@magicnet.net

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