GRUPO DE TRABAJO |
GRUPOS DE TRABAJO |
DE COMUNICACIONES |
Ciberespaço como virtualização em rede.
A Internet como objetivação espectral do
capital
Prof. Dr. Giovanni
Alves
UNESP- Campus de
Marília
http://giovannialves.cjb.net
O objetivo deste ensaio que
apresento como comunicaçào é tecer considerações preliminares sobre a natureza
do ciberespaço numa perspectiva materialista, procurando apreende-lo sua
significação ontológica na esfera do ser social. Esta comunicação é apenas o
fragmento de um ensaio de maior envergadiura que deverá ser publicado no livro
que estamos organizando e que será intitulado “Dialética do Ciberespaço”, a ser
lançado brevemente. Evitei apresentar uma bibliografia ampla, tendo em vista o
caráter ensaístico da comunicação, permeada de hipóteses seminais sobre a
natureza do ciberespaço. Antes de dialogar com um rol de autores decidi,
portanto, tão-somente discorrer à solta
sobre o tema, elaborando, no bom sentido, uma especulação crítica. O surgimento do
ciberespaço colocou o problema de apreendermos as formas do virtual. Se
a dimensão do virtual e da virtualização é intrínseca à atividade
humano-genérica, da práxis sócio-antropológica, foi tão-somente no século XX,
sob as novas tecnologias informáticas e telemáticas, que ela assumiu um
estatuto ontológico mais desenvolvido. Ela tornou-se uma abstração-concreta
capaz de representar um novo espaço de sociabilidade humana. Na verdade, o
surgimento do ciberespaço propiciou um salto
qualitativo na concepção de “rede”, que deixou de ser meramente uma idéia formal-abstrata de cooperação social, para tornar-se a representação de um novo
arcabouço midiático técnico-material de comunicação (e de fluxo de
informações), reticular e complexo. A apreensão
conceitual do virtual e da virtualização como uma importante dimensão
sócio-antropológica ocorreu na última metade do século XX, com o
desenvolvimento do capitalismo tardio e de sua base técnica: as redes digitais
e o ciberespaço. O seu lastro sócio-histórico é o desenvolvimento do processo
civilizatório humano-genérico ampliado (como pressuposto negado pelo
capital como capitalismo). É a partir da forma virtual mais desenvolvida
– a virtualização em rede - que ocorreu a apreensão conceitual do virtual e da
virtualização (é de Marx a seguinte sugestão onto-metodológica: “a anatomia do
homem explica a anatomia do macaco”, isto é, o mais desenvolvido tende a
explicar o menos desenvolvido) (Marx, 1988). Apenas com o
surgimento da rede digital e do ciberespaço na última metade do século XX, é
que seria explicitado a centralidade ontológica da virtualização e do virtual
como um traço ineliminável da práxis humano-social. Mas, apesar da determinação
histórico-concreta, nem toda tradição filosófica ocidental “esqueceu” a
importância da virtualização e do virtual. Apenas não conseguiu discriminá-la
(e destacá-la) no sentido conceitual. Por isso é possível encontrar uma série
de reflexões filosóficas (e literárias), dos Antigos gregos às filosofias
dialético-idealistas do século XVIII e XIX (tais como Hegel e mesmo Kant), que
sugerem o virtual e a virtualização como determinações inelimináveis do devir
humano. Iremos sugerir
que o ciberespaço diz respeito a uma forma de virtual e de virtualização – a virtualização
em rede. Ou melhor ainda, podemos dizer que o ciberespaço não representa
apenas a virtualização informacional, que surge com as máquinas
computadorizadas, mas sim a virtualização informacional em rede (os
computadores passam a se “relacionar” uns com os outros). Através de um
arcabouço técnico – a rede – os homens, mediados pelos computadores, passam a
criar nexos simbólico-linguisticos capazes de instituir um novo espaço de
sociabilidade virtual, não-presencial, mas deveras efetivo. O surgimento da
virtualização informacional em rede ampliou a potentia de virtualização
humano-genérica, integrando em si e para si, com arranjos qualitativamente
novos, outras formas de virtual e de virtualização. O que se
constituiu como ciberespaço é um momento qualitativamente novo, de
exteriorização antecipadora, e, portanto, “espectral”, do poder socio-genérico
do homem (o que exige distinguir, pelo menos dois momentos – o de surgimento do
computador ou do personal computador e o de surgimento da Internet,
a rede das redes). Entretanto, por ocorrer sob o sistema sócio-metabólico do
capital, as redes digitais e o ciberespaço tendem a explicitar a virtualização
em rede não como um novo espaço de invenção e de heterogênese humana,
mas sim, como um novo locus de fetichismo, um momento de
“alienação” como ciberhominização. 1. O Que é o Virtual. A discussão sobre o que é o
virtual e a virtualização se desenvolve principalmente na década de 1980. Ela
acompanha o próprio surgimento e avanço do ciberespaço como virtualização em
rede. Um dos livros clássicos, que tratam do conceito de virtual, é O Que é
o Virtual (1995), de Pierre Lévy. Nesse pequeno livro, o autor tratou o
virtual e a virtualização como vetores do processo de hominização,
apreendendo-os, menos como um modo de ser particular e mais como um
processo de transformação (e passagem) de um modo de ser num outro. Ao
atribuir o virtual e a virtualização como vetores do processo de hominização,
ou seja, como nexo estrutural da passagem do macaco em homem, Lévy tende a
desprezar, nesse caso, a centralidade ontológica da categoria do trabalho. Na
verdade, como observa Georg Lukács, o homem é um animal que se faz homem
através da atividade do trabalho. A autocriação do homo sapiens ocorre
através da atividade do trabalho, isto é, da produção dos seus meios de vida
material. Podemos considerar que o
virtual e a virtualização é um modo de ser particular da atividade
humano-sensível, ou seja, são determinações inelimináveis da atividade do
trabalho e sua dialética estrutural entre teleologia e causalidade. Elas dizem
respeito a própria teleologia da atividade humana. O desenvolvimento ampliado
da produção da vida material, através do recuo das barreiras naturais, do
desenvolvimento das forças produtivas, significa o desenvolvimento das formas
de teleologia humano-genéricas, seja em sua forma primária, seja em suas formas
secundária. Na medida em que a atividade do trabalho se desenvolveu e tornou-se
complexa, a dimensão do virtual e da virtualização acompanhou tal
desenvolvimento humano-genérico. Não é possível compreender o desenvolvimento
do virtual e da virtualização sem vincula-la com o próprio desenvolvimento da
ativiodade complexa do trabalho como protoforma de toda práxis social. Ao
perder o nexo ontológico com a categoria do trabalho, Lévy tende a apreender o
processo de hominização e do próprio devir humano num sentido
genérico-abstrato. O processo do devir humano, a heterogênese humana ou o
“devir outro” não aparecem como processo civilizatório humano-genérico,
inserido em determinações histórico-concretas, sob a determinação do capital e
seu desenvolvimento contraditório. Nessa perspectiva, podemos afiormar que o
processo de virtualização e do virtual é não apenas um modo de ser particular
da atividade do trabalho, mas a passagem (ou a transformação) persistente,
através das possibilidades concretas abertas pela técnica, de um modo de ser
homem num outro modo mais desenvolvido de homo sapiens, emancipado ou não das
objetivações estranhadas constituídas por si em seu próprio devir humano. O que se percebe
em suas divagações sobre o virtual, é que Lévy nos apresenta uma concepção
demasiadamente ampla, tão geral e abstrata que dificulta a apreensão concreta
das diferenças verdadeiras entre as duas formas de virtual e (de
virtualização): Primeiro, a virtualização
(e o virtual) sócio-antropológico, que diz respeito a um processo
sócio-antropológico de longa duração, de devir humano, inscrito na própria
atividade do trabalho como protoforma da práxis social em seu momento de
teleologia secundária. É um momento ineliminável do processo de hominzação/humanização. Segundo, a virtualização
(e o virtual) histórico-sociológico, que diz respeito a um novo modo de
ser da teleologia humana, desenvolvida a partir das redes de informações
digitais e do ciberespaço e que representa um salto qualitativamente novo,
enquanto possibilidade concreta, para o processo de devir humano-genérico. Este
novo modo de ser da teleologia humano-genérica, baseado no desenvolvimento da
virtualização informacional em rede, é totalmente determinado, em si e para si,
pelo capital como capitalismo, o que implica a posição de contradições
candentes entre o seu sentido sócio-antropológico, apreendido, por edxemplo por
Lévy, e seu dado histórico-sociológico. É a incapacidade
analítica de apreender tal contradição sócio-histórica objetiva, entre as duas
formas de virtual (e de virtualização), que tende a limitar a leitura de Pierre
Lévy do fenomêno do ciberespaço. 2.0 O
significado (e a crítica) do conceito de virtual Apesar de seus limites
metodológicos, Pierre Lévy nos apresenta alguma sugestões sobre a natureza do
virtual e da virtualização como novo modo de ser da teleologia humana. Ele procura distinguir, por exemplo, atual e virtual, possível e real.
Ele nos apresenta, sob a influência de Derrida, uma nova leitura das
categorias de realidade, possibilidade, atualidade e virtualidade.
Essa nova sintaxe teria uma função heurística: destacar um aspecto do processo
de hominização não salientado, segundo ele, pela tradição filosófica
ocidental, sempre preocupada em analisar a passagem do possível ao real ou do atual ao virtual (supomos que sua crítica se dirige a tradição filosófica
cartesiano-empirista e não propriamente a tradição filosófica dialética). Lévy
sugere o inverso. Por isso, como iremos verificar, ele evitar reduzir o o
atual, concebido como objetivação não-reificada ou coisificada, ao real visto por ele como “coisa”
reificada. Para salientar a subjetividade criadora do virtual, ele a distingue do possível,
compreendido como um real fantasmático e “latente”. Enquanto o real é uma objetivação/exteriorização de
um possível, o atual é uma objetivação criadora do virtual (nesse caso, a partir de um sujeito livre e criador, o
homem que trabalha, diríamos nós). Na verdade, as novas significações de Lévy
constroem a sintaxe da autocriação humana a partir de uma subjetividade
perpétua, que rejeitando a sedimentação no atual,
tende a se auto-constituir no campo do virtual. A virtualização é, portanto, o
retorno à autocriação do sujeito propiciado pela “abertura” do atual. O atual é o “virtual” tornado objeto, um objeto que pressupõe o
sujeito (o homem). A passagem do virtual
para o atual, ou seja, o processo
de atualização, é o próprio processo de criação do novo, de um novo que
adquire o estatuto ontológico de objeto criado (pelo homem livre). É a
“solução” de um problema. Podemos dizer
que, o processo da atualização, que
diz respeito a objetivação/exteriorização, de criação do novo, possui como seu
inverso reflexivo, o processo de virtualização. O virtual, deste modo, é
o campo de uma não-presença efetiva, de um não-ser no sentido de
presença (dasein, em alemão), mas que possui uma efetividade
objetiva, no sentido de pôr em movimento séries causais (eis, portanto, as duas
determinações essenciais do virtual). O que coloca, portanto, o virtual e a
virtualização como um novo modo de ser da teleologia humano-genérica. Apesar de
sua natureza não-presencial, possui uma efetividade ontológica,
decorrente de seus nexos com a teleologia do trabalho como protoforma da práxis
social. Na verdade, Lévy
contrapõe o virtual ao atual e não propriamente ao real (deste modo, o virtual seria uma forma
do real e não propriamente o próprio “real” – poderimaos dizer: uma
“abertura” do real enquanto efetividade objetiva). É, entretanto, uma
contraposição reflexiva, pois ambos são momentos essenciais da criação humana,
inclusive porque a virtualização se dirige a uma atualização.
Poderíamos até dizer que, uma diz respeito ao objeto, o que o outro diz
respeito ao sujeito. Deste modo, um não poderia existir sem o outro. Mas, quais
seriam, segundo Pierre Lévy, as relações entre o virtual e o real? O virtual possui, como inverso reflexivo, o atual. Agora, o real é
seu antípoda absoluto, apesar de que o virtual
possa derivar para o real e não
apenas para o atual (o que seria
aquilo que Lévy indica como sendo a “alienação”). O inverso reflexivo do real é o possível, que é o real
fantasmático e latente. Poderia ser a dimensão da natureza que se contrapõe à
dimensão do homem, sujeito livre e racional. O processo de transformação do possível no real é denominado de realização,
que não significa para Lévy a “alienação” propriamente dita. Na verdade,
a “alienação” é uma ocorrência que pode atingir uma outra passagem (a do virtual para o real). Só o homem, e não a natureza, é capaz de
alienar-se de si mesmo, de se perder (Lévy não explicita as determinações
causais de tal perda ou alienação de si mesmo). Cabe salientar que inexiste em
Lévy uma teoria da alienação capaz de tornar claro as suas formas
sócio-históricas. Supõem-se que, para ele, “alienação” seja identificada com fetichismo
e, em alguns momentos, com exteriorização/objetivação (o que o aproxima
do idealismo hegeliano). Além disso, uma lacuna decisiva – a ausência de uma
teoria do capital, capaz de tornar claro as causalidades sócio-históricas da
“alienação” propriamnete dita. O que Lévy quer
ressaltar é o processo de virtualização, que é o tornar-se virtual do objeto atual
(ou da coisa real? - ele não deixa
claro). Por isso, a virtualização, que é a instauração de um campo virtual, e,
portanto, de (re)criação do humano enquanto subjetividade perpétua,
promove o movimento inverso, deslocando o ser
para a questão, a “solução” para um campo
problemático, no sentido de uma (1) desterritorialização e uma (2) mutação
de identidades (o que ele denomina de efeito Moebius). Seguindo a lógica
conceitual de Lévy, impregnada da tradição filosófica alemã clássica, diríamos:
o homem é um animal capaz de virtualização. Poderíamos dizer ainda que o
virtual e a virtualização em Hegel poderia ser o Espírito (Geist) (o
“Espírito” em Hegel é a Liberdade). Talvez, o virtual em Lévy seja tão-somente
a metáfora da Liberdade. Ou ainda, Lévy queira destacar aquilo que distingue o ser
do ente (na acepção de Martin Heidegger). A atualidade (ou a realidade) concebida como uma “solução” efetiva é remontada em
direção a uma problemática. Diz Lévy: “o virtual só eclode com a entrada da
subjetividade humana”. Tanto quanto o atual (ou o real), o virtual
possui uma efetividade não-presencial, mas prenhe de novas promessas de
objetivação. Estamos diante de um processo de criação humano-social onde se
salienta, não o pólo da constituição do objeto (o que seria a atualização), nem muito menos da coisa
(o que seria a realização), mas sim o
pólo da constituição da subjetividade perpétua, plena e irremediável, ou
ainda uma “inteligência coletiva” (expressão utilizada por Lévy). Ao tratar do
processo de virtualização, no nível filosófico-antropológico, Lévy tende a
assimilar a atividade humano-genérica à problemática da praxis social. O
momento de antropogenêse é o processo de atualização/virtualização (que é, na verdade, o eufemismo para o processo de trabalho),
sendo que a virtualização e o virtual é a expressão do pólo subjetivo (da ação
do sujeito coletivo) na atividade de objetivação social. A virtualização é a
objetivação de uma subjetividade que (re)põe seu telos e afirma sua
liberdade na medida em que promove a mutação de sua identidade dada. É nesse momento
que a reflexão filosófico-antropológica de Pierre Lévy demonstra tratar do
desenvolvimento tardio, e portanto, mais ampliado e complexo, da posição
teleológica humano-genérica, capaz de se auto-constituir, em si e para si, como
momento autônomo da própria atividade do trabalho como práxis social. É um novo
modo de ser da teleologia humano-genérica que tende a determinar cada vez mais
a própria produção da vida material. Em síntese,
podemos dizer que, para Pierre Lévy, o campo do virtual se caracteriza pela não-presença efetiva. É virtual o que não
está presente, mas tende a exercer uma efetividade criadora, prenhe de
promessas de um novo objeto, uma efetividade “aberta”, capaz de (re)criar novas
identidades. Apesar da sua não-presença, um objeto virtual é efetivo, uma
efetividade que provém da própria relação (inter)subjetiva, do fato de ser a
própria incrustação da subjetividade humana. Ora, o possível é para Lévy também uma
não-presença efetiva. Nesse caso, o que o diferenciaria do virtual? Se o atual e o real dizem respeito a realidades
manifestas, o virtual e o possível dizem respeito a realidades
não-manifestas, são não-presenças efetivas. Só que o virtual é para Lévy atributo de um sujeito livre (que seria o
próprio homem), enquanto o possível
seria atributo da natureza. O possível
seria uma efetividade não-presente que é incapaz de criação do novo, mas apenas
de “realizar” uma “natureza” prévia, reproduzir as identidades e delimitações
postas. O processo de “realização”, ao contrário do processo de virtualização,
é meramente um processo de reiteração do dado, não indo além do próprio dado
(Hegel diria da certeza sensível ou do entendimento). O processo
de “realização”, na acepção de Lévy, é a própria não-liberdade do homem,
possuindo, portanto, um caráter meramente instrumental (expressaria a razão
instrumental, diriam Horkheimer e Adorno). O campo do possível, diria Lévy, não é o campo da construção humano-genérica,
mas apenas da reiteração da coisa, do objeto fetichizado. Por outro lado, o
campo do virtual é o elán de uma inteligencia
coletiva, que seria o próprio espaço da criação humano-social. Deste
modo, o virtual é o campo da
interação humano-genérica no sentido da prévia-ideação; de um tipo particular
de posição teleológica elaborada antes da sua própria atualização. Tal como o processo de atualização, o processo de virtualização é um processo de
constituição de um objeto, um objeto
virtual, um objeto muito particular, que, a rigor, não seria um objeto
propriamente dito, pois é intangível e desterritorializado, de um
efetividade não-presente apreendida pelo sujeito como criação de suas próprias mãos. Um objeto com novas significações, diríamos, um objeto-subjetivo,
onde a sua materialidade estaria apenas pressuposta, e não mais posta, como na
atualização, pois o que estaria posto, no caso do virtual, seria o
meta-psiquismo humano, a subjetividade humana, a “inteligência coletiva”. Portanto,
para Lévy, o virtual se caracterizaria pela (1) desterritorialização e
pelo desprendimento do hic et nunc, do aqui e do agora (o não-presente), e pelo (2) efeito Moebius, isto é, a passagem do “interior” ao “exterior” e do
“exterior” ao “interior”, ou seja, a dissolução das fronteiras, a fluidificação
de distinções instituídas, a mutação das identidades constituídas (o que Lévy
está tentando traduzir, em suas divagações filosóficas é dimensão transcendente
da práxis sócio-histórica, com sua dialética concreta inscrita no conceito de aufhebung).
Ora,
Lévy observa que tais características do virtual e da virtualização dizem
respeito a uma “nova maneira de fazer a sociedade”. Ora, principalmente no que
observamos no efeito Moebius, ele trata de processos sócio-cognitivos
intrínsecos a rupturas revolucionárias da sociedade históricas. Ë a natureza de
um momento nascente da transformação social e que pertence, em si, à reprodução
social histórico-concreta. Por outro lado, é verdade que o efeito Moebius, mutatis
mutante, caracteriza o telos humano no ciberespaço, isto é, na
virtualização em rede, que permite, através de técnicas flexíveis, cada vez mais
apuradas, sociabilidades desterritorializadas e fluídas. Deste modo, o efeito
Moebius, diz respeito, de certo modo, apenas ao ciberespaço e ao espaço
social da virtualização em rede, e é ele – o efeito Moebius - que dá ao
ciberespaço sua capacidade de espectro antecipatório do processo
humano-genérico. É possível dizer, como hipótese, que as mutações de
identidades que ocorrem no ciberespaço são tão-somente reflexos espectrais
de um processo histórico-objetivo dominado pelo capital (que nega, no sentido
dialético, uma subjetividade criadora, plena e irremediável), sendo, portanto,
discutível reduzir uma projeção espectral, à sua condição histórico-real
(mesmo que ela tenha um significado antecipatório). Algumas
distinções que apresentamos como hipóteses são importantes. São elas: 1. O virtual e a
virtualização do ciberespaço não é
meramente a virtualização das máquinas computadorizadas em si (ou virtualização
informacional). O conceito de ciberespaço implica a idéia de “rede” como signo
civilizitário, como representação do em-si da genericidade humana,
que possui como objetivação estranhada as novas tecnologias de comunicação e de
informação. 2. O desenvolvimento da virtualização informacional em
rede, ou ciberespaço, a partir das novas tecnologias de comunicação e de
informação, nos colocou diante do conceito de virtual e de virtualização como
conceito sócio-antropológico (como nos apresentou Lévy). Só que a virtualização
informacional em rede, aquela que é intrínseca ao ciberespaço, é qualitativamente diferente da
virtualização sócio-antropológica, pressuposto histórico-ontológico da
atividade humano-genérica do trabalho e dos processos de criação humano-sociais
e culturais. Primeiro, o ciberespaço é uma objetivação sócio-técnica complexa e
do processo de trabalho e de autocriação humano-genérica. Segundo, por ser um objeto técnico complexo,
tende a incorporar em si, propriedades humano-genéricas em sua forma de rede
(que traduz a propriedade humano-genérica de cooperação social). Terceiro, o
ciberespaço, por se desenvolver sob o sistema sócio-metabílico do capital,
tende a não ser apreendido como objetivação humano-generica, como objeto
técnico estranhado afetado de novos fetichismos. É
claro que a linguagem, a técnica e o contrato,
considerados por Lévy como expressão da virtualização, pressupõem a idéia de
“rede”. Na verdade, é interessante que ele apreenda, a partir de uma lógica
“social” fetichizada no ciberespaço, algo que é intrínseco à atividade
humano-genérica. É apenas sob o capitalismo tardio, que a “rede” como signo
civilizatório, fetichizada através da técnica, tornou-se manifesta
(uma manifestação negada) como ciberespaço. Na verdade, através dele, a
“rede” adquiriu uma forma material, sócio-tecnológica, capaz de dar conteúdo
concreto às determinações essenciais do virtual e da virtualização contidas nos
atos humanos originários (produto da subjetividade humana). Com a “rede”, a liberdade,
que Hegel chegou a identificar com o Espírito, adquiriu seu objeto (ou sua
extensão) espectral efetiva, embora não-presente. 3.0 Uma IV
Revolução Tecnológica Foi a
partir da mundialização do capital que ocorreu o desenvolvimento do
ciberespaço, ou seja, a constituição das redes telemáticas e informáticas
digitais. Deste modo, como salientamos, o processo de virtualização em rede ou
ciberespaço é deveras recente, ao invés da virtualização e do virtual
propriamente dito, que é intrínseco à própria atividade humano-genérica do
trabalho como práxis sócio-histórica. É a distinção que salientamos alhures entre
virtualização no sentido sócio-antropológica e a virtualização no sentido
histórico-sociológica. O que podemos colocar, como hipótese, é que o surgimento
e o desenvolvimento do ciberespaço tendeu a intensificar (e tornar mais
complexa) a capacidade de virtualização (e de percepção do virtual), no sentido
sócio-antropológico. Na verdade, o ciberespaço propriamnete dito poderia ser
considerado uma importante dimensão do desenvolvimento complexo das bases
materiais do sistema sócio-metabólico do capital (o que Harvey denominou de
“regime de acumulação flexível”). Na verdade, é uma nova mutação
sócio-antropológica do homem que tendeu a ser apropriado de forma
contraditória, principalmente em seus desdobramentos cognitivo-sunjetivo, pelo
capital como sistema sócio-metabólico. Através do desenvolvimento da nova base
material ocorreram transformações sociais nos mais diversos campos da atividade
sócio-humana. É o que Castells nos apresentou como sendo a “sociedade em rede”.
Surgiram não apenas no campo da produção de mercadorias, as empresas em rede,
mas ocorreram importantes mutações sócio-culturais (e politicas) que atingiram
as mídias de virtualização em decorrência da aceleração dos meios de
comunicação e de informação. Constituiu-se um novo espaço de sociabilidade efetivo,
apesar de não-presencial (através da compressão espaço-tempo) com
impactos decisivos na produção de valor (a acumulação flexível) e na esfera da
indústria cultural e da sociabilidade (hipermídia e ciberespaço). Uma
das nossas hipóteses é que o surgimento do ciberespaço propriamente dito,
através do desenvolvimento de novas formas tecnológicas informáticas e
telemáticas em rede, deram origem a uma IV Revolução Tecnológica. Ela
não atingiria apenas a produção social de mercadorias, através das novas
tecnologias informáticas e telemáticas, ou contribuiria para o desenvolvimento de uma acumulação flexível
centrado numa nova forma de organização empresarial (a “empresa em rede”), mas
teria impactos decisivos principalmente na atividade sócio-cultural do homem e
suas “máquinas de virtualização”. Para
nós, as “máquinas de virtualização” seriam as “máquinas” sociais capazes de
projetar o homem para além do hic et nunc e promover uma descontinuidade
(ou compressão) espaço-temporal e que seriam apropriadas pelo capital para sua
auto-reprodução sistêmica. Por exemplo, a indústria cultural tenderia a
se apropriar das “máquinas de virtualização” para auferir lucros. Ela tende a
expressar uma disposição estrutural do “sujeito”capital, ou seja, ser capaz de
uma apropriação sistemática das qualidades humano-sóciais, como a qualidade da
virtualização intrínseca à espécie humana, para interverte-las em meio de
valorização do valor. Ora,
o surgimento do ciberespaço contribuiu para a constituição de um novo espaço
virtual de fluxos de mercadorias e de capitais, de objetivações
imateriais e de produção de subjetividades mais desenvolvidas. Seria uma
nova (e contraditória) dimensão humano-genérico desenvolvida pelo capital em
seu processo incontrolável de devassamento do mundo. Desde que encontrou uma
base técnica mais adequada para seu desenvolvimento expansivo e incontrolável
(a forma mecânica, com a I Revolução Tecnológica, nos primórdios do
século XIX) o capital ampliou sua capacidade de dominar e controlar o homem
e a Natureza, com a II Revolução Tecnológica e a III Revolução Tecnológica
desenvolvendo, em si e para si, as várias formas de máquinas. Elas
representam, de forma cumulativa, o recuo contínuo das barreiras naturais
e a construção tendencial de uma “Segunda Natureza” (da qual o ciberespaço
enquanto fetiche tardio do poder social estranhado é sua expressão mais
desenvolvida). Ora,
o que denominamos de IV Revolução Tecnológica ocorreria a partir de uma nova
concepção de organização das máquinas informacionais, que incorporariam
uma nova sinergia por meio da objetivação técnica (e tecnológica) da própria
idéia de “redes” (uma propriedade humano-genérica expressa na idéia de
cooperação social). Da virtualização meramente informacional, passaríamos à
virtualização informacional em rede. É com a constituição da “rede”
digital que tenderia a ocorrer um salto qualitativo no próprio caráter
das máquina informacionais, oriundas da III Revolução Tecnológica. A
“rede” seria a máquina total (ou o que Lévy denominou de
“máquina-universo”) com suas articulações tecnotrônica reproduzindo o espaço
social num espaço virtual-social, com a cooperação humano-social desdobrando-se
numa dimensão virtual (o ciberespaço). Ocorreria o surgimento (e
desenvolvimento) da integração flexível, tanto no campo da produção e
circulação de mercadorias, como nas relações de consumo, se disseminando a
conexão, a cabo ou wireless, dos novos aparatos microeletrônicos.
Consideramos que a maior expressão da IV Revolução Tecnológica é a Internet, a
“rede das redes”. No tocante a indústria culturas e seus aparatos de
virtualização, uma tendências do ciberespaço é integra-los cada vez mais,
desenvolvendo formas de hipermidias digitais (fotografia, telefone,
rádio, cinema, televisão, computador,fax, etc). 4.0 A
potentia de virtualização O
ciberespaço é um espaço sócio-virtual, baseado em técnicas
informacionais em rede, que, como quaisquer outros espaços sociais,
criados pelo trabalho social do homem, permite (e contribui para desenvolver) a
interação sócio-humana. Entretanto, o homo sapiens em seu processo de
hominização/humanização, sempre constituiu espaços virtuais propriamente
ditos, capazes de projeta-lo para além do hic et nunc. Como salientamos
acima, o homem é “um animal que se faz homem através do trabalho”, como observa
Lukács. Ao dizemos atividade do trabalho, dizemos o desenvolvimento ampliado
dos atos teleológicos, cada vez mais complexos, o que significa a constituição
de mundos virtuais. Portanto, o virtual e a virtualização é algo ineliminável
do ser genérico do homem. É intrínseca à própria evolução da técnica e da
atividade de objetivação do trabalho sócio-humano. Das pinturas pré-históricas
do homem de Neanderthal à indústria cultural do século XX vislumbramos o
desenvolvimento ampliado da potentia de virtualização. Da
escrita à elaboração do texto, através do desenvolvimento de
várias formas técnicas, é possível apreender os nexos de construção de
um mundo virtual do homem,. Por exemplo, através do texto literário, podemos
“atualizar” em nossa imaginação subjetiva, as virtualidades de um drama
romântico, sentindo emoções reais, cuja intensidade é proporcional à construção
lingüística (e simbólica) de um talento literário. É claro que uma obra
literária é uma produção social, mas a forma textual em si, só permite um tipo
de virtualização linear, com uma demarcação clara entre autor e público.
Por outro lado, o hipertexto, que surge com a virtualização
informacional, tende a ser uma forma de virtualização complexa,
assumindo novas qualidades com a virtualização informacional em rede. Através
da forma hipertextual em rede, é possível interagir (e cooperar) com
outros e abolir a demarcação rígida entre autor e público. Na verdade, a forma
textual não desaparece, até porque ela é uma conquista da individualidade em-si
e para-si do homem moderno. Mas a forma hipertextual tende incorpora-la às
condições sócio-históricas de um desenvolvimento ampliado do ser genérico
do homem. - A arte A
arte tout court e a literatura em particular é uma poderosa “máquina de
virtualização”, representando a disposição ontológica do homo sapiens em
criar novos mundos simbólico-virtuais (Ernst Cassirer dirá que o homem é um
“animal simbólico”). Ela expressa nossa potentia de virtualização e
representa, em si, mesmo em suas formas estranhadas, a idéia de comunidade
humano-genérica (como pressuposto negado). No século XX, a indústria
cultural se apropriou de uma potentia de virtualização cada vez mais
complexa e desenvolvida pela civilização do capital. O desenvolvimento do
capitalismo moderno produziu uma sociedade cada vez mais social e uma
individualidade subjetiva mais disposta à potentia da virtualização. Os
novos desenvolvimentos da base técnica de produção e reprodução da obra de
arte, por exemplo, permitem, cada vez mais, uma aproximação entre impressão virtual (predominante, por
exemplo, na literatura) e impressão real
(a “coisa”, representadas através da fotografia e do cinema no século XX)). Com
os novos meios técnicos de reprodução artística, o virtual e a virtualização
passou a ter impressa em si, a positividade do “espírito moderno”,
deixando cada vez menos de ser um campo de criação imaginária da
individualidade em si e para si. Seria no desenvolvimento das novas técnicas de
virtualização “mecânica” que o “espírito da positividade moderna” tenderia a se
impor à potentia de virtualização (coube ao jovem Hegel caracterizar a positividade
como uma das características da idade moderna). A partir da III Revolução
Tecnológica, surgiram novas tecnologias digitais de som e imagem que impõe à potentia
de virtualização, um realismo digital, que é tão-somente o
desenvolvimento mais avançado do realismo mecânico da arte moderna. Por
exemplo, Benjamin em seu ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade
Técnica” nos apresentou os significados sociais da reprodutibilidade mecânica
da obra de arte, destacando, por exemplo, o cinema. (o cinema seria a “arte
total”, a “arte-máquina”, do século XX, a síntese da positividade da potentia
de virtualização). Na verdade, com o realismo mecânico é como se ocorresse uma reificação
da virtualização (ou de perda da aura da obra de arte, na acepção de
Benjamin). Mas o surgimento de um realismo digital, principalmente através da
virtualização informacional, tende a instaurar novas formas de fetichismo da
virtualização (a ciberhominização). Através dele, o cinema e a música atingem
uma perfeição de reprodução técnica que permite à potentia de
virtualização maior integração e flexibilidade. Entretanto,
para não cairmos presas do próprio fetichismo da forma técnica, é importante
ressaltar que, a contradição candente posta pela forma social do capital diante
da nova base material, tende a irromper “fissuras” lancinantes na própria forma
de aparecimento do objeto técnico mais desenvolvido. É claro que o realismo
mecânico (e digital) instauram novos (e ampliados) tipos de fetichismo da
virtualização, mas abrem, em si e para si, a possibilidade de desenvolvimento
de novos conteúdos (e formas) contraditórios com a forma social dominante. - A religião e o dinheiro Mas
não é apenas arte que compõe a dimensão simbólico-subjetiva da práxis de
virtualização humano-genérica. É importante destacar a religião, que em
suas origens, se confundia com a arte. A religião sedimenta a potentia de
virtualização em duas dimensões sócio-ontológicas do homem: a primeira é
expressão simbólico-subjetiva de uma produção social estranhada intrínseca às
sociedades de classe, da divisão do trabalho e do Estado político. E depois,
representa, de forma invertida, a dimensão utópico-reflexiva de um ser genérico
limitado, em última instância, pelas barreiras naturais. Por outro lado, a potentia
de virtualização não diz respeito apenas à dimensão simbólico-subjetiva do
“mundo vivido”, mas diz respeito à dimensão simbólico-objetiva, do
“mundo sistêmico”. Se a arte e a religião dizem respeito a dimensão
simbólico-subjetiva, o dinheiro diz respeito a dimensão
simbólico-objetiva. Aliás,
religião e o dinheiro, em suas afinidades eletivas como potentia
de virtualização, tornaram-se objetos de reflexão de Karl Marx em sua crítica
da alienação. Em 1844, o jovem filósofo alemão percebeu a dimensão do virtual e
da virtualização nas objetivações sociais estranhadas, a religião e o dinheiro,
quando reconheceu que, mesmo acreditando em suas imaginações, um homem é capaz
de realizar atos bastante reais (no sentido de ser efetivo). O que
significa o reconhecimento da dimensão ontológica do virtual e da virtualização
como um campo sócio-humano genérico ineliminável. Na verdade, ao tratar das
religiões e do dinheiro como “proto-máquinas de virtualização”, lidamos com uma
concepção de virtualização que significa a capacidade de homens e mulheres
“projetarem” a sua subjetividade total em objetivações humano-genéricas criadas
por si mesmos (como observou Feuerbach). A idéia de “projeção” contém a
possibilidade sócio-histórica de alienação, de perda de si, inclusive do seu ser
genérico, é o que seria uma projeção “invertida” em decorrência de
condições sócio-históricas particulares. Por isso, tanto o dinheiro quanto a
religião, nas condições das sociedades de classe representam objetivações
estranhadas da potentia de virtualização humano-genérica. O
dinheiro constitui a sua potentia de virtualização em virtude de
sua função sócio-histórica de ser meio de troca e meio de circulação
de mercadorias, o que “projeta” em si todas as virtualidades estranhadas de uma
sociedade aquisitiva, e ser meio de pagamento, incorporando, para si, ao
instaurar uma descontinuidade no continuum espaóc-temporal (hic et
nunc), o sentido essencial do virtual e da virtualização. É o dinheiro como
meio de pagamento que torna possível algo que é indispensável para o
capitalismo: a presença não-efetiva de uma mercadoria. Nos Manuscritos
de 1844, o jovem Marx conseguiu apreender com maestria a potentia
virtual do dinheiro (com o surgimento do ciberespaço e sua virtualização em
rede, o dinheiro assume formas complexas, cada vez abstrata, expressando, de
uma forma exacerbada, sua dimensão de virtualização) (Alves, 1999). Ao
tratarmos das “proto-máquinas de virtualização”, como a religião e o dinheiro, lidamos apenas com formas
sócio-históricas de relações sociais e de sistemas sócio-históricos cada
vez mais complexos e diferenciados (o dinheiro virtual de hoje, representa
o maior exemplo da potentia de virtualização que lhe é intrínseco). Na
verdade, é o processo de cooperação humano-genérica, através do trabalho
social, que contribui para o surgimento e desenvolvimento da potentia de
virtualização intrínseca a homens e mulheres e às suas objetivações
estranhadas, como o dinheiro (ela assume, portanto, diversas formas
culturais com conteúdos sócio-históricas particulares). Portanto, o que essas
formas de objetivações culturais e simbólicas (e monetárias) representam em
si, são as próprias relações sociais dos homens entre si e dos homens
consigo mesmo no processo social de produção da vida material. 5.0 A Rede
Como Cooperação Complexa O
desenvolvimento das forças produtivas sociais sob o capitalismo tardio, através
do surgimento das novas tecnologias telemáticas e de informação em rede,
criaram, principalmente a partir da década de 1970, novas “máquinas de
virtualização”. Constituiu-se um novo espaço de sociabilidade virtual: o ciberespaço.
O que procuramos salientar é que o ciberespaço pressupõe, como substrato
ontológico, a idéia de rede, isto é, um campo de integração difusa e
flexível dos fluxos de informações e de comunicação entre máquinas
computadorizadas, um complexo mediador entre os homens baseado totalmente em
dispositivos técnicos, um novo espaço de interação sócio-humana criado pelas
novas máquinas e seus protocolos de comunicação, que tende a ser a extensão
virtual do espaço social propriamente dito. Na
verdade, a rede não é propriamente uma extensão do homem como
individuo social, mas sim a extensão do homem como ser humano-genérico.
É uma constatação paradoxal tendo em vista que ela ocorre sob a propalada
posição do individuo social. A rede é uma projeção espectral de
suas qualidades ontológicas que não pertencem propriamente a um individuo
social, mas apenas ao ser social em-si. Um computador pessoal (PC) pode
ser visto como uma extensão técnica de um individuo social. É, como se diz, um
“cérebro eletrônico”. Entretanto, a rede digital, constituída a partir
da conexão entre computadores, é um fato tecnológico superior, irredutível à
concepção da técnica como extensibilidade de órgãos vitais do homem como
individuo social. Se a técnica pode ser concebida como “corpo inorgânico do
homem” (Marx), a rede tenderia a traduzir a idéia de “corpo inorgânico” do ser
social, do ser humano-genérico e não apenas de alguns de seus órgãos vitais,
como os vários aparatos tecnológicos procuram expressar (por exemplo, a máquina
fotográfica como um olho técnico; o automóvel como pernas mecânicas; o
computador pessoal como o cérebro eletrônico, etc). Ora, a rede não
expressaria um órgão vital, mas uma qualidade imaterial – e essencial – do ser
humano-genérico: a cooperação social. Expressaria um desenvolvimento
sócio-técnico, que possui, no seu interior, uma tendência em aprofundar a
capacidade de autocriação humano-genérica, de heterogênese do homo sapiens. A
idéia de rede possui como substrato ontológico a categoria de trabalho,
mas o trabalho concebido como interação sócio-humana complexa, que constitui,
em si e para si, o homem como ser genérico. Temos salientado que,a
perspectiva histórico-materialista, o
homem é um animal que se fez homem através da atividade do trabalho. Mas cabe
salientar que a concepção de trabalho que diz respeito ao processo
civilizatório humano-genérico, é o trabalho em rede, ou seja, trabalho
social, cooperação complexa, dialógica e não tão-somente monológica, como
poderia supor um marxismo vulgar. Um complexo de trabalho que pressupõe,
em si, a interação sócio-humana, uma “comunidade social”, real e virtual,
e as três virtualizações que fizeram o humano: a linguagem, o
contrato e a técnica. Por isso, a potentia de virtualização e
o virtual, em suas múltiplas dimensões, se desenvolveram a partir do complexo
de trabalho (Lukács), um trabalho social cada vez mais socializado pelo
desenvolvimento técnico. Por isso, com a IV Revolução Tecnológica, a idéia (e
realização) da rede digital e seus fluxos de informações, significaram uma nova
etapa de desenvolvimento da sociabilidade moderna. (é possível dizer que a
invenção do TCP/IP em 1967, o protocolo que permite a comunicação entre as
“novas máquinas informacionais” tornou-se uma das principais, senão a
principal, revolução do século XXI, mais do que a do próprio PC, o Personal
Computer). A
virtualidade informacional em rede explicita um dos princípios constitutivos da
potentia de virtualização humano-genérica, isto é, seu caráter de
objetivação cooperada e social. A cooperação social como pressuposto ontológico
da atividade do trabalho (e do virtual e da virtualização). Nos Grundrisse,
Marx observou que “a primeira força produtiva foi a comunidade”,
salientando, deste modo, a centralidade ontológica da categoria cooperação.
No Livro I de O Capital, ele intitulou o capítulo 13 de “Cooperação” (um
capítulo importante tendo em vista que abre a seção IV onde ele discute as formas
de produção da mais-valia relativa, que representam o próprio processo
histórico-ontológico de consituição da sociabilidade capitalista). Deste modo,
a cooperação social não é uma determinação subjetivo-moral, sim, uma
determinação histórico-objetiva. Por isso ela não pode ser apreendida meramente
como solidariedade social (Durkheim). A
cooperação social pressupõe a idéia de “rede”. A rede passou a representar
hoje, uma forma de cooperação complexa. A constituição de uma “inteligência
coletiva”, através das redes digitais, é uma dimensão particular,
qualitativamente nova, do processo de virtualização, que é intrínseco a todas
as formas sócio-históricas de cooperação social. O que antes estava apenas pressuposto
e existia numa dimensão formal-subjetiva (a idéia de “rede”), assumiu,
por conta do desenvolvimento das forças produtivas sociais, uma dimensão objetivo-material.
Surge a “rede” como cooperação complexa como a verdadeira metáfora do ser-precisamente-assim
da espécie humana. Ela mesma tende a expressar a própria idéia de cooperação
social. A
idéia de “rede” como metáfora da cooperação social assumiu uma significação
concreta com o desenvolvimento do capitalismo industrial, ou seja, dos meios de
transporte e de comunicação a partir da era da máquina. Entretanto, ela
ainda não possuía uma objetivação material para si, tendo em vista que
não implicava em si, a produção da subjetividade. Era ainda apenas uma rede-de-máquinas.
Foi com o surgimento da Internet e das redes telemáticas e informáticas
propriamente ditas, que a idéia de “rede” assumiu um arcabouço concreto. Ela
passou a representar uma rede de homens-mediados-pelas-máquinas-informáticas.
É
interessante observar que a maior parte da literatura de ficção científica do
século XIX e da primeira metade do século XX, por exemplo, não conseguiu prever
a era das redes digitais, embora tenha previsto o “cérebro eletrônico”,
isto é, o computador pessoal. Entretanto, alguns filósofos (e teólogos) do
século XX, como Teihard du Chardin,
conseguiram intuír o surgimento da “rede”, passando a ver nela a
objetivação do ser-precisamente-assim do humano (e do divino). O
desenvolvimento da filosofia da linguagem no século XX pressupôs a “rede” como
a forma material de um campo linguístico-comunicativo (desprezando, por
outro lado, o complexo de trabalho, a verdadeira base ontológica da
atividade e do pensamento do homem). A
Internet, a rede das redes, com seus hipertextos, e-mails e chats,
e com seus fluxos digitais de informação, tornou-se uma poderosa “máquina de
virtualização” de novo tipo, que tende a instaurar uma forma sócio-histórica
particular de virtual e de virtualização (o ciberespaço). A partir dela, e com
ela, se dissemina um complexo de redes que tendem a se interligar
(surgimento da conexão wireless à Internet, e entre os múltiplos
aparatos digitais, tende a tornar mais densa e complexa o sistema “caótico” de
redes). Portanto, constitui-se, com maior densidade de fluxos, a virtualização
em rede, o ciberespaço. Finalmente,
podemos salientar os significados dos conceitos de virtualização em rede,
ciberespaço e Internet (a rede das redes) do seguinte modo: o ciberespaço
é uma extensão social da virtualização em rede (um objeto indutor de
“inteligência coletiva”, diria Pierre Lévy). É intangível, mas delimitado e
criado por aqueles que o constituem sob a forma de uma cooperação
não-presencial, mas efetiva - uma efetividade aberta e subjetiva, mas com
suportes objetivos, atuais e reais (o que significa que, mesmo a virtualização
em rede, é tensionada a atualizar-se ou realizar-se em objetos
ou coisas). A virtualização
em rede é o atributo do ciberespaço, enquanto a Internet, a
principal rede de troca humano-genérica (e de intercâmbio mercantil), é o
suporte técnico-material, do ciberespaço (com suas determinações atuais ou
reais). 6.0 Rede,
Capital e “Alienação” Uma das
nossas hipóteses é que a “rede digital” é uma metáfora do ser genérico
do homem. Através dela se tornou manifesta a necessidade da cooperação
sócio-humana, principalmente sob o sistema sócio-metabólico do capital, que se
desenvolve a partir da apropriação das forças histórico-naturais da sinergia da
cooperação social. “O homem é um animal social”, diria Aristóteles (a idéia de conexão
em rede é o eufemismo tecnológico da cooperação humano-genérica). Sob
a mundialização do capital, o ciberespaço tendeu a ser apropriado de múltiplas
formas pela lógica da valorização. Talvez o exemplo mais imediato seja o
desenvolvimento do comércio eletrônico (B2C). Mas o capital se apropria da
Internet e do ciberespaço não apenas para o comércio eletrônico, mas para
desenvolver uma nova sinergia da produção em rede e do trabalho imaterial,
integrando circuitos produtivos e as redes de subcontratação (B2B). O
modo de produção capitalista possui uma capacidade sócio-histórica
impressionante de produzir novas “máquinas de virtualização”, em virtude não
apenas de sua particularidade essencial, ou seja, ser comandado pelo capital
como “sujeito automático”, mas também de ser, por um lado, processo
civilizatório humano-genérico desenvolvido (que é um dos conteúdos dimensionais
da própria “globalização”) e, por outro lado, processo ampliado de
desenvolvimento das forças produtivas sociais a serviço da valorização do
valor. Com
a virtualização em rede duplicam-se e se multiplicam “novas dobras” sociais da
cooperação sócio-humana: atual, real, virtual, que utilizando as
técnicas das redes digitais, tendem a reproduzir/produzir o humano-genérico,
inclusive e principalmente, em suas formas fetichizadas (como a
ciberhominização – o que veremos mais adiante). A lógica civilizatória pressuposta
(e negada) no desenvolvimento do sistema sócio-metabílico do capital não é (nos
seus objetos de virtualização), em si, excludente ou exclusiva, nem muito menos
substitutiva, apesar de que possam ocorrer substituições recorrentes; mas sim,
includente, inclusiva e cumulativa, com saltos qualitativos no interior de
um processo sócio-históricas que produz e reproduz (nos seus agentes/sujeitos
humanos) a desigualdade, exploração e exclusão. Entretanto, a Internet ainda é
um artefato tecnológico rudimentar, cujas possibilidades da virtualização em
rede tendem a ser totalmente frustradas lógica do capital e cuja capacidade de se desenvolver, no
sentido de uma ampla apropriação social, é desafiada pela exclusão digital,
produto da lógica desigual e excludente do capital como capitalismo. Enquanto
objetivação humano-genérica nas condições de uma sociedade de classes, a
virtualização em rede tende a possuir um conteúdo fetichista irremediável.
O estranhamento e o fetichismo tendem a impregnar todo artefato
tecnológico da sociedade do capital. É a forma social (do capital) que
determina a forma material, apesar de que ela, a forma material,
possa criar novas possibilidades concretas de desenvolvimentos contraditórios
da forma social que tem sido posta como um processo de produção (e
reprodução) do capital, que possui, por outro lado, como pressuposto
ineliminável (embora negado) o processo civilizatório humano-genérico. É a
dialética irremediável do processo de hominização/humanização que ocorre
através do trabalho social e da técnica como “máquina de virtualização” (mais adiante
iremos sugerir uma interpretação tanto do que seja o sistema
sócio-metabólico do capital quanto da “alienação” em suas formas
sócio-históricas). O
surgimento da virtualização em rede sugere a possibilidade concreta de
uma nova mutação humano-genérica, talvez comparável à passagem histórica
da fase da coleta e da caça para a fase da agricultura e da constituição das
civilizações históricas. Mas cabe salientar, se não quisermos cair numa mera
ilusão espectral, que esta é tão-somente uma mera possibilidade concreta do
desenvolvimento civilizatório (que sob o metabolismo social, coloca, na mesma
medida, o barbarismo como fato histórico). Com a virtualização em rede,
multiplicaram-se e exacerbam-se, num crescimento acelerado, contínuo e
descontínuo, formas virtuais, atuais e reais de intersubjetividades
humanas. Por isso, pode-se dizer que a virtualização em rede permite que
sejamos muitos, apesar de sermos um, nós mesmos, rompendo identidades e limites
(o que Lévy denomina de efeito Moebius). Além disso, a partir de
“possíveis” tecnológicos, tende a multiplicar as ocasiões de produção de
sentido (o que é um dos traços essenciais do virtual e do processo de
virtualização). Mas, como temos salientado, tais desenvolvimentos
técnico-civilizatórios ocorrem no interior da sociabilidade do capital (o que
coloca limites estruturais às possibilidades concretas de desenvolvimento
humano-genérico). BIBLIOGRAFIA ALVES,
Giovanni. Dimensões da Globalização, Editora Práxis, 2001. ________.
Trabalho e Mundialização do Capital, Editora Práxis, 1999. BLOCH, Ernst. El Principio Esperanza,
Paidos, 1977. MARX,
Karl. Introdução à Critica da Economia Política, Editora Abril, 1985 ________.
O Capital – Crítica da Economia Política, Editora Abril, 1985 ADORNO,
Theodor e Horkheimer, Max. Dialética do Esclarecimento, Zahar Editores,
1988. LEVY, Pierre. O
que é o Virtual, Editora 34, 1993. ________.
Conexão Planetária, Editora 34, 1999. ________.
A Máquina-Universo, Editora 34, 1995. CASSIRER,
Ernst. A Função Simbólica do Homem, Marins Fontes, 1999. FUERBACH,
Ludwing. A Essência do Cristianismo, Editora papirus, 1988. HEGEL,
G.W.F, Fenomenologia do Espírito, Editora Vozes, 1998. CASTELLS,
Manuel. A Sociedade Em Rede, Editora Vozes, 1999.
|