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Livros virtuais A
literatura na rede Ivan Carlo Andrade de Oliveira
Mestre em Comunicação Científica e Tecnológica pela
Universidade Metodista de São Paulo 1 –
Introdução Fenômeno recente, os e-books ainda não foram
devidamente investigados e compreendidos. O que é um livro virtual? No futuro os
autores vão ganhar a vida escrevendo para a internet? A tela do computador irá
substituir o papel como suporte ideal para a literatura? As respostas a perguntas desse tipo são
as mais variadas possíveis. Há desde os apocalípticos, temerosos de que a
internet trará o fim do prazer da leitura, até os eufóricos, que preconizam na net
a solução para a emergência de novos e talentosos autores, atualmente ignorados
pelas editoras convencionais. Polêmicas à parte, a verdade é que os
e-books conquistaram uma fatia considerável de leitores, fazendo com que
autores desconhecidos tivessem seus livros lidos por milhares de pessoas. O objetivo deste paper é estudar os
livros virtuais, compreendê-los e em suas características, finalidades e
efeitos. O estudo tratará apenas da realidade das editoras virtuais
brasileiras. 1 - Histórico Os
livros virtuais, embora fossem experimentados desde a criação dos computadores
(alguns autores chegaram a lançar disquetes-livros, utilizando como ferramenta
de leitura o bloco de notas), só tiveram seu boom a partir do ano de 2000, com
o lançamento de Riding the Bullet, de Stephen King. King havia sido atropelado e, enquanto
se recuperava no hospital, para se distrair escreveu uma história de 66 páginas
sobre um homem que pega uma carona com um fantasma. O tamanho dessa noveleta tornava
inviável seu lançamento comercial, de modo que se tentou uma outra estratégia:
o lançamento exclusivo pela internet. Os sites Amazon e Barnes&Noble
ficaram responsáveis pela distribuição. A Amazon cobrava U$ 2,50 e a
Barnes&Noble utilizou o livro para fazer uma promoção, enviando-o
gratuitamente aos seus visitantes. O resultado foi um congestionamento que
tirou as páginas do ar. "Foi 15 vezes mais do que estávamos pensando", declarou Keith Loris, presidente da SoftLock.com, empresa responsável por colocar na rede o volume de 66 páginas. "Nossos servidores tiveram um tipo de colapso", acrescentou Loris, que trabalha para atender cerca de 200 mil pedidos. (Nova
obra de Stephen King congestiona a Internet. Disponível em: http://www.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1803200011.htm.
Visitado em 9 de junho de 2002 ) Estima-se
que milhões de leitores em todo o mundo tenham tido contato com a obra, o que
incentivou King a fazer uma nova incursão pela net. Em julho ele lançou a
novela The Plant pelo seu site pessoal. A idéia era que cada leitor
enviasse ao autor o valor de um dólar por capítulo. No
começo tudo funcionou e 170 000 cópias do primeiro capítulo foram capturadas na
rede. Mas, depois que apenas 74 000 leitores pagaram para ter o segundo
capítulo, o autor ameaçou suspender a publicação dos outros seis previstos.
“Não se rouba um pobre jornaleiro cego”, queixou-se ele. (O JORNALEIRO cego. Veja on line. Disponível
em: http://fws.uol.com.br/folio.pgi/veja2000.nfo/query=stephen+king/doc/{@1}/hit_headings/words=4/hits_only.
Visitado em 09 de junho de 2002) No
Brasil, o fenômeno chegou ainda em 2000. Em 10 de junho foi lançado no site
Submarino o livro Miséria e grandeza do amor de Benedita, de João Ubaldo
Ribeiro. Nas três primeiras semanas foram vendidas quatro mil cópias. Outra experiência, no
mesmo ano, foi de Mário Prata, que publicou no site Terra seu livro Anjos de
Badaró. Os capítulos eram publicados na medida em que eram escritos. O
autor foi pago pelo portal Terra. Ainda
em 2000 começaram a surgir as principais editoras virtuais da net brasileira,
interessadas em capitalizar o crescente interesse pelos e-books. Sem grande
capital para pagar escritores famosos, esses sites investiram primeiramente em
obras clássicas, cujos direitos autorais já haviam se expirado. Depois passaram
a investir em novos autores. Os
modelos eram os mais diversos. A Virtual Books (www.terra.com.br/virtualbooks)
, por exemplo, não cobrava pelos livros, mas também não remunerava de maneira
alguma os autores. Ainda
assim, teve grande afluência de autores interessados em publicar material de
pouco apelo comercial (dissertações de mestrado, poesias, ensaios filosóficos)
ou visando transformar a internet em uma vitrine em que exporiam seu talento
para editoras interessadas em uma renovação criativa de seus quadros. O
aspecto de vitrine foi explorado pela Hotbook (www.hotbook.com.br), que, em seu texto
destinado a novos autores afirmava: Inserida
no contexto atual, a HotBook convida você a fazer parte da elite literária do
novo século, que tem uma opção a mais, em uma ferramenta moderna como a
internet, para publicar suas obras. A HB é uma vitrine para talentos de
qualquer idade, sem burocracia, sem intermediários e de forma completamente
transparente. Você coloca a sua obra à disposição do público e da imprensa, de
forma direta. (Hotbook. http://www.hotbook.com.br/publique.htm.
9 de junho) A hotbok oferecia um sistema misto. Seus autores deveriam
pagar uma taxa de R$ 50,00 ou encontrar um patrocinador que pagasse a
hospedagem a R$ 200,00. Mais
convencional, a Escreva.com (www.escreva.com.br)cobrava uma taxa anual de R$
11,00 mais uma porcentagem das vendas. O total despreparo mercadológico de seus
realizadores (alguns livros eram lançados sem capa) fez com que as vendagens
fossem muito baixas e site foi vendido para o Foglio (www.foglio.com.br), que faliu
recentemente. A título de
exemplo, o livro A Face do Leviatã, escrito pelo autor deste paper,
vendeu apenas um exemplar e ainda assim constava na página inicial como sendo
um dos mais vendidos, o que dá a entender que alguns livros não vendiam nem
mesmo um exemplar. Isso se deve
ao fato de que, embora o produto fosse vanguardista, a forma de aquisição era
mais complicada que a compra de um livro convencional: o leitor imprimia um
boleto bancário, dirigia-se à agência, pagava, enviava o boleto à editora por
fax ou por e-mail e só então recebia uma senha que lhe permitia baixar o
e-book. Em
comparação, o modelo dos livros gratuitos parece ser muito mais acertado. Tanto
que o mesmo livro, com o título mudado para Teatro dos Vampiros e
acrescido de outras histórias, foi lido por mais de mil pessoas quando
publicado na Virtual Books. Um sistema
alternativo foi criado pela editora Monte Castelo. O leitor não paga por livro,
mas por sua participação em um clube de leitura. Pelo preço de R$ 19,90, o
integrante do clube pode baixar quantos livros quiser. William
Riga, o dono do site, diz que “os e-books começaram a
ser mais solicitados depois que implantamos o sistema do "clube do
livro", no qual o leitor assina o serviço e tem direito a fazer downloads
do título que quiser de nosso acervo”. (AUTORES desconhecidos ganham espaço no
mundo virtual. O Liberal, Macapá, 3 de março de 2002, p. 2-3) Riga acredita que os livros virtuais
serão um produto de sucesso com o tempo:
“nós
nascemos e crescemos lendo livros de papel e estamos habituados com esse
formato. Eu acredito que a nova geração, que já nasce com a "cultura da
informática" (computador, games, internet) aceitará muito bem o convívio
com livros em formato eletrônico, para serem lidos na tela do computador. Para
esses jovens será muito mais fácil”. 2 - Livros
virtuais ou e-books? Quando se fala em
livros virtuais, torna-se necessário definir o que é virtual. Segundo Pierre Levy, um erro corrente é considerar o virtual
como oposto de real, ou seja, uma pura e simples ausência de existência, de
realidade, de presença tangível. (LEVY, 2001: 15) Entretanto, a origem da palavra virtual remete ao latim virtualis,
derivado de força, potência. Para a filosofia escolástica,
virtual é aquilo que existe em potência, não em ato. Assim, a árvore está contida na
semente. Mas essa existência ocorre em termos de potência, de virtualidade. A
semente, no momento, não é árvore. Mas pode vir a sê-lo. Essa visão de virtualidade, embora
desfaça o equívoco de considerar virtual como não real, não nos serve. Olhar os livros virtuais sob a ótica da
potência é reduzir sua importância e singularidade, pois um livro virtual
seria, em potência, apenas um livro comum, que ainda não foi impresso. Pierre Lévy apresenta uma definição
segundo a qual virtual é o que não está presente geograficamente. Assim, “a empresa virtual não pode ser
situada precisamente. Seus elementos são nômades, dispersos, e a pertinência de
sua posição geográfica decresceu muito” (LEVY, 2001: 19) No caso da literatura, um texto
impresso da net é a atualização de um hipertexto de suporte informático, que
não existe geograficamente. Claro que é possível
atribuir um endereço a um arquivo digital. Mas, nessa era de informações on
line, esse endereço seria de qualquer modo transitório e de pouca importância.
Desterritorializado, presente por inteiro em cada uma de suas versões, de suas
cópias, de suas projeções, desprovido de inércia, habitante ubíquo do
ciberespaço, o hipertexto contribui para produzir aqui e acolá acontecimentos
de atualização textual, de navegação e leitura. Somente esses acontecimentos
são verdadeiramente situados. Embora necessite de suportes físicos pesados para
subsistir e atualizar-se, o imponderável hipertexto não possui um lugar. (
LÉVY, 2001: 19-20) O livro virtual existe como informação,
como um conjunto de bits circulando na rede e aportando, aqui e ali, nos
computadores dos usuários, não tendo existência geográfica concreta. O livro virtual perfeito seria aquele
que, para ser lido e compreendido, não pudesse ser impresso. Territorializá-lo seria matá-lo. Por outro lado,
a informação na internet pertence ao universo relacional. Magaroh Maruyama
propôs uma classificação da informação de acordo com três universos: o universo
classificador, característico da escrita e da ciência, hierárquico, em que a
informação é dividida em categorias mutuamente excludentes; o universo
relevante, que englobaria as informações relevantes para cada pessoa e,
finalmente o universo relacional. No universo relacional, o mais importante para uma informação
não é o que ela é, sua definição, mas como ela se relaciona com as outras
coisas: As
definições não são dadas pelas categorias e subcategorias, mas pelas interações
e inter-relações. Assim, por exemplo, a guerra é aquilo que acaba com a paz, e
a paz aquilo que acaba com a guerra. A esposa é a pessoa casada com o marido e
este a pessoa casada com a esposa. (MARUYAMA In: ESPTEIN, 1973: 157-158) Uma
visita descompromissada à internet demonstra muito bem o conceito de informação
relacional. Se, ao pesquisarmos um assunto, formos visitando os links presentes
nas páginas que abrimos, logo estaremos em assuntos que têm, com o assunto
original, apenas uma afinidade relacional. Como exemplo, podemos imaginar uma
pesquisa sobre Edgar Alan Poe. Em uma página sobre o autor americano
encontramos a referência de que o mesmo influenciou o argentino Jorge Luís
Borges e o link para a página do mestre argentino. Na página de Borges,
descobrimos algumas de suas obsessões: tigres, espadas e labirintos. Podemos
seguir por um desses três caminhos e no final, por exemplo, estaríamos numa
página sobre labirinto, quando nosso interesse inicial era Poe. Assim,
o bom livro virtual deveria ser lido na tela e deveria permitir uma leitura
relacional, o que nos levaria a algumas características: 1 – Capítulos curtos,
pois o leitor deve ler cada capítulo “de uma sentada”, como dizia Edgar Alan
Poe, para ter noção do todo; 2 – Os parágrafos devem
ser curtos, pois o leitor deve ter a visão da totalidade do parágrafo na tela; 3 – A possibilidade de
link deveria ser explorada, permitindo encaminhamentos diferenciados para a
trama. Nesse contexto, Riding the bullet
é tudo, menos um livro virtual. Para começo, só há um capítulo. Só o leitor
mais persistente seria capaz de ler o texto “de uma sentada”. Além disso,
alguns parágrafos são imensos, o que impede a leitura global dos mesmos. Por fim, Riding sofre do
principal defeito dos e-books: não há possibilidades de link ou de
interatividade. Claro que essa é uma limitação ocasionada pelos programas de
editoração e leitura de e-books. O mais popular, o Acrobat Reader, por exemplo,
não permite a criação de links no texto. Os verdadeiros livros virtuais só
aparecerão com o desenvolvimento dos softwares e com a emergência de uma nova
geração de escritores, acostumados com o universo relacional, característico da
internet. 3 - Direitos autorais A
midiologia, inspirada nas idéias do filósofo canadense Marshall McLuhan, diz
que as idéias de um certo período são condicionadas pelo suporte utilizado para
o envio da informação. É por isso que McLuhan diz que os meios são as
mensagens. O desenvolvimento da imprensa criou o
nacionalismo (os impressores logo descobriram que era mais barato publicar em
línguas nacionais), o individualismo (o barateamento dos livros tornou comum a
leitura solitária) e noção de autoria das obras de arte. Sintomaticamente, os artistas só
começaram a assinar suas obras depois do surgimento da imprensa. Durante a
Idade Média, um quadro valia não pela genialidade de seu autor, mas pelo seu
aspecto sagrado. O direito autoral é decorrência direta
do individualismo e da noção de autoria. A imprensa cria a idéia de que o autor
deveria receber pela fluição de seu trabalho intelectual. A internet mudou tudo. Com a
democratização da informação, o mais importante passou a ser a livre circulação
de idéias. Armand e Michèle Mattelart lembram que
a cibernética surge sob o signo da democracia informacional: A informação deve poder
circular. A sociedade da informação só pode existir sob a condição de troca sem
barreiras. Ela é por definição incompatível com o embargo ou com a prática do
segredo, com as desigualdades de acesso à informação e sua transformação em
mercadoria. (MATTELART, 2001:66) Essa premissa vai ser o princípio
básico dos ciberpunks. O mais importante é comunicar, e não necessariamente
receber pelo que se comunica. Ao ler um texto que considera
importante, o internauta o reproduz e manda por e-mail para os amigos. Muitas
vezes até coloca em um site ou listas de discussão. É provável que o autor
original jamais tenha idéia do alcance final de seu texto, mas parte-se do
princípio de que toda informação constante na rede é de uso público. Isso, que alguns consideram pirataria,
é, na verdade, um princípio básico da net. Ao introduzir um texto em um site, o
autor deve conformar-se com a idéia que este não mais lhe pertence. Um exemplo disso é o próprio autor
deste artigo. Ao digitar o pseudônimo Gian Danton no site Google (www.google.com.br) encontra-se 320
ocorrências. Dessas, muitas foram textos publicados sem autorização do autor. É
o caso dos sites Intervox (http://intervox.nce.ufrj.br/~tprobert/livcego.html) e o Ler.BR (http://www.vicosa.com.br/lerbr/textos.html) Mas é curioso notar que em nenhuma
delas o autor deixa de ser citado, o que nos revela uma nova ética. Ao
considerar um texto interessante, o internauta o reproduz, mas deixa claro que
o texto não é dele. A nova noção de direito autoral não é, portanto, plágio, ou
corrobora práticas equivalentes. Os universitários que copiam trabalhos da
internet estão longe do ideal da cibercultura. São apenas ladrões de idéias. 4 - Considerações finais Os
livros virtuais certamente não alcançaram o seu ponto mais importante de
desenvolvimento. Da mesma forma que o livro passou por várias alterações
(códice, papiro, pergaminho) até chegar à sua forma atual, os e-books parecem
estar em evolução. Várias inovações tecnológicas, como a popularização de
aparelhos portáteis e a fabricação de telas que tornam menos cansativa a
leitura podem ajudar nesse processo. É
difícil prever exatamente o que resultará dessa evolução, mas certamente os
e-books terão lugar garantido na história da literatura. E isso não na
qualidade de substituto dos livros convencionais. As
histórias em quadrinhos surgiram de uma mistura do desenho com a literatura. No
começo, trabalhos como os de Hall Foster em Tarzan davam a entender que as
histórias em quadrinhos seriam apenas uma variedade de literatura ilustrada.
Entretanto, o surgimento de trabalhos como os de Will Eisner em Spirit e, mais
recentemente, de Alan Moore e Frank Miller, mostraram que as histórias em
quadrinhos eram uma linguagem artística com características próprias. Trabalhos
como esses levaram os críticos de arte a nomearem os quadrinhos de nona arte. O
mesmo ocorrerá em breve com os livros virtuais. De simples transposição de
textos literários para as telas do computador, eles em breve se tornarão uma
nova forma de linguagem artística. Isso ocorrerá no momento em que os
escritores perceberem que estão com um novo e poderoso suporte em mãos e
começarem a explorar suas potencialidades. Aí então teremos livros virtuais de
verdade. Se
escritores poderão ou não ganhar dinheiro com seus livros virtuais, essa é uma
questão menor. O importante, nessa era de informação, é o princípio básico da
cibercultura: o importante é comunicar. BIBLIOGRAFIA AUTORES
desconhecidos ganham espaço no mundo virtual. O Liberal Amapá, Macapá, 3
de março de 2002, p. 2-3 EPSTEIN,
I. Cibernética e Comunicação (org.). São Paulo: Cultrix & Edusp,
1973. Hotbook.
Disponível em: www.hotbook.com.br .
Visitado em: 9 de junho de 2002. Monte
Castelo. Disponível em www.montecastelo.com.br
. Visitado em 2 de julho de 2002. LÉVY, P.
O que é virtual? São Paulo: 34, 2001. MATTELART,
A.; M. História das teorias da comunicação. São Paulo: Loyola, 2001. Nova
obra de Stephen King congestiona a Internet. http://www.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1803200011.htm
O
jornaleiro cego. Veja on line. http://fws.uol.com.br/folio.pgi/veja2000.nfo/query=stephen+king/doc/{@1}/hit_headings/words=4/hits_only?.
2000 WIENER,
N. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.
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