Após o encontro em Kyoto, sobre cidades digitais, muitas coisas mudaram. Hoje, boa parte da atividade mais lucrativa ou produtiva na rede está ligada à formação de comunidades. No Brasil, setores envolvidos com formas de vida digital, buscam um modelo econômico mais justo e sustentável que o registrado pela velha economia "real".
Segundo o professor André Lemos, da Universidade Federal da Bahia, há quem fale do risco de, com esse descolamento do espaço real a partir da experiência em espaços virtuais, perdermos o senso de realidade e que, ”por viver muitas horas da vida nesse espaço cibernético, estaríamos esvaziando a dimensão real do espaço concreto das cidades”.
Porém, experiências têm provado que comunidades virtuais reforçam a comunidade real, cidades virtuais potencializam a ocupação do espaço físico urbano, conhecido como uma prática social underground chamada de "infiltração" que mostra justamente como o ciberespaço potencializa e organiza essa ocupação.
O movimento de infiltração não é tão novo assim. Nas décadas de 60 e 70 grupos em São Francisco criaram o que era chamado de “guerrilha organizada de grupos de aventura”, com o mesmo intuito. Na web, o movimento tem se mostrado como amplificador da realidade. O ciberespaço tem ocupação de espaços inusitados de determinadas cidades. Dezenas de sites ajudam na divulgação de lugares e servem como ponto de encontro dessas novas tribos urbanas.
O objetivo dessas infiltrações é estar em lugares onde supostamente não deveríamos estar, se apropriar de sítios abandonados e vencer as barreiras imaginárias na ocupação do espaço urbano. Como afirma Deyo, um dos infiltradores urbanos: "Eu não acho que poderia haver um movimento de exploração urbana como hoje sem a Web. Esse é um bom exemplo sobre o que a Web pode fazer sociologicamente; pessoas ao redor do mundo têm enviado e-mails a cada dia. Nós temos ouvido casos de alguém que explorou um submarino nuclear na Rússia”.
Assim, o ciberespaço mostra mais uma vez que o virtual não é descolado do real e que ele pode, pelo potencial comunitário e associativo, reforçar vínculos sociais e agregar pessoas em busca de uma apropriação criativa e lúdica do espaço urbano. Talvez, quem sabe, o ciberespaço possa realmente ajudar no resgate daquilo que nossas grandes cidades vêm perdendo com o tempo: a dimensão do espaço público.
Dois tópicos importantes no estudo dessas novas sociedades são apontados por Lemos: o primeiro é quanto à apresentação aceptizada das cidades digitais. Segundo o professor, uma grande preocupação esta na incoerência entre a ideologia das cidades e o seu comportamento de fato. Cidades digitais se propõem a melhorar a relação humana, principalmente combatendo a exclusão social e se torna incoerente, pois, trata-se de uma tecnologia para poucos. Nesse ponto especificamente eu discordo por acreditar no vasto potencial social que as cibercidades proporcionam. Aproveito para sugerir algumas soluções para problemas de ordem social. Na minha cidade começaram a implantar pontos de computadores públicos conectados a web através de cartões telefônicos comuns. Nesses terminais poderiam disponibilizar uma gama de serviços de utilidade pública de imensa valia. Aproveitando, existem cartões do tipo de crédito que o governo dá para a população carente que poderia servir como um cartão de identificação multi uso. Isso converteria em uma imensa economia para o país. Estou elaborando um grande projeto de reforma tecnológica para oferecer ao governo nesse sentido.
O segundo tópico apontado pelo professor Lemos e que merece o meu destaque está associado à aceptização das cidades digitais. Segundo ele, as cidades não retratam a realidade e sim parte dela. Nesse retrato se é mostrado o lado bom das cidades deixando de fora os guetos e áreas consideradas perigosas e que fazem parte da sociedade como um todo. Analiso esse ponto por dois ângulos. O primeiro pela inviabilidade técnica de se retratar 100% de uma cidade grande por toda complexidade que há, pela constante transformação geográfica, afinal, as cidades estão em perpétuo movimento, além da dificuldade de se ter um banco de dados que suporte todas as informações de todas as áreas de uma cidade. Uma cidade é vista por muitos olhos, de muitos jeitos, por muitos gostos. Qual seria a ótica correta? Quem estaria certo?
O segundo ângulo que percebo é que a necessidade de se recriar uma cidade digital é inversamente proporcional à sua complexidade. Seria muito fácil se recriar uma cidade digital espelhada em uma cidade real de 3, 4 ou 10 mil habitantes. O trabalho seria minucioso. Só que em uma cidade desse porte não há necessidade dessa criação já que seria possível percorrer toda a cidade em alguns minutos apenas de bicicleta. Seria uma cidade onde praticamente todos se conhecem. A única utilidade que vejo é em linkar essa cidade ao resto do mundo. Por outro lado, numa metrópole com milhões de habitantes é nítida a necessidade de uma cidade digital multi serviços para facilitar a vida do cidadão. Porém por todos os motivos citados acima, é quase impossível com os recursos atuais se recriar na integra uma cidade desse porte.
Uma das soluções que proponho é se fazer uma cidade digital dinâmica em forma de rizoma, feita por muitas pessoas, com muitas fontes de informação, para que com uma coletividade pudesse se aproximar mais de uma cidade real.
BIBLIOGRAFIA
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NOTAS
[1] Nando Borges – Luiz Fernando Cerqueira Borges – é
aluno do primeiro curso superior de comunicação social com habilitação em
Hipermídia da América Latina – FTC Faculdade de Tecnologias e Ciência.