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Ensino-Aprendizagem e a nova Alquimia do
Virtual
Paula Carolei
Mestre em Educação pela
UNICAMP/Brasil
É impossível pensar nas virtualidades do ensino, nas suas novas dimensões, sem fazer uma busca mais profunda sobre os sentidos da aprendizagem, que é o maior mistério da Educação. Construí
esse texto a partir da busca que fiz durante toda minha dissertação de
mestrado, percorrendo muitos caminhos tentando vislumbrar saídas, encontrar
chaves, soluções para o entendimento desse mistério da aprendizagem. E depois
projetando um pouco dessa trajetória para as novas dimensões do virtual. Primeiro,
comecei a buscar livros e mestres que pudessem me trazer alguma informação
sobre o termo aprendizagem. Tentei as mais diversas teorias, fugindo dos
discursos de verdade que têm lugar em determinados momentos, que seguem os
"modismos". Confesso
que fazer uma busca bibliográfica pelos termos relacionados à aprendizagem foi
uma tarefa difícil. Encontram-se facilmente muitos títulos que têm essa palavra
chave, mas tratam da "arte de ensinar". Mesmo os que mencionam
teorias de aprendizagem muitas vezes são receitas de ensino, métodos
considerados eficazes. As
bibliotecas onde mais se encontra a palavra aprendizagem são na área de
Psicologia. Pappert (1994, p. 77-78) fez uma observação sobre esse fato: (...) não deveríamos nos deixar
enganar pelo fato de as bibliotecas dos departamentos acadêmicos de psicologia
com freqüência possuírem uma seção designada teoria da aprendizagem. (....)
apenas observar que eles não versam sobre a arte de aprender. Por exemplo, eles
não oferecem conselho para o rato (ou para o computador) sobre como aprender,
embora tenham muito a dizer ao psicólogo como treinar um rato. Às vezes são
adotados como base para treinar crianças, porém não consegui encontrar neles
nenhum conselho útil para melhorar a minha aprendizagem. Essa
é uma visão comum: da aprendizagem como resposta a um determinado estímulo. Foi
uma idéia desenvolvida pela psicologia comportamental e ainda é muito forte.
Muitas vezes considera-se que a pessoa aprendeu quando ela repete a resposta
esperada. Pappert
começou essa busca pela definição de aprendizagem propondo uma nova
nomenclatura, uma área de estudo que tratasse de aprendizagem. Ele questiona
que o termo Pedagogia se refere a "arte de ensinar". Ele propõe o
termo "mindstorms" para a área de estudo sobre aprendizagem, que ele
considera ausente. Nessa
trajetória, ele caminha na direção da aprendizagem como princípios para
resolver problemas, tentando ampliar esse conceito além das regras de
resolução. Ele diz que: "pensar
sobre um problema é brincar com ele". Essa
idéia de aprendizagem como resolução de problemas, realmente arrepia alguns
educadores. Pois cria uma associação com cálculos, números, medidas. As
idéias de Pappert até hoje fundamentam a produção de softwares educacionais,
claro que com sérias distorções. Os problemas propostos, em muitos materiais,
têm uma única solução esperada e caem no comportamentalismo[1]. O
interessante das propostas dele é o resgate do enigma. De "brincar com o
problema", de buscar aquilo que não conhecemos, da ação ser motivada pelo
mistério: o aprendiz buscando o que ainda não tem resposta e propondo novas
respostas. Pappert
busca ainda exemplos práticos de situações de aprendizagem e o que me chamou a
atenção foi um exemplo retirado de um filme. Ele faz isso usando muitas
justificativas, precavendo-se contra as críticas de seus colegas. Numa dessas
justificativas ele diz: Quero encorajar qualquer um que
esteja interessado em aprender a encarar a cultura geral como uma fonte de
idéias e uma base para discussões, no mesmo espírito que desejo encorajar a
confiança das experiências pessoais. Essa recomendação deriva de considerar
aprendizagem como uma dimensão da vida, como relacionamentos, espiritualidade
ou sensibilidade estética. Em todas essas dimensões, nós desenvolvemos
sofisticação e sensibilidade a partir de trabalhos com a imaginação - romances,
teatro, pintura. Estas obras podem ser "inventadas" em certo sentido,
mas em outro, transmitem tão profundas e com freqüência mais precisas do que
experiências conduzidas pelos cientistas para esclarecer esses tópicos.
Acredito que podemos aprender sobre aprendizagem de uma forma semelhante e
faríamos isso numa extensão ainda maior se praticássemos a discussão crítica
deste aspecto de arte. (1994, p. 119). O
filme escolhido foi Dirty Dancing.
Ele fez uma relação importante com a limpeza que fazemos no ensino: O relacionamento entre o
aprendiz e o professor é "limpo" no sentido em que, sob pena de
demissão, é confinado a um trabalho técnico impessoal para dominar uma
coletânea de passos. Por fim, e mais sutilmente, o relacionamento entre o
aprendiz e o que é aprendido é como uma limpa operação cirúrgica: o
conhecimento novo é absorvido com o mínimo de distúrbio do que já existe lá
dentro e certamente com o mínimo de impacto do aprendiz e da sociedade. (...) Nesse filme o professor de
dança ensina algo além de passos, ele pede para a personagem escutar a música
como um coração pulsando, não há um programa, há um novo relacionamento com ela
mesma. O que ela aprende é que dançar não é está confinado a um conjunto
limpamente delimitado de habilidades emocionais neutras. (Pappert, 1994, p.
121). A aprendizagem é influenciada pela cultura do próprio aprendiz e normalmente é "purificada" para minimizar as diferenças entre os outros aprendizes. O processo limpo é mais fácil de ser descrito, analisado, reproduzido. Eliminam-se as "falhas". Pappert
utiliza metáforas que levam a idéia do conexionismo, que é um conjunto de
idéias que sugere que a aprendizagem consiste em fazer conexões entre entidades
mentais já existentes. Ele diz que: "essas
novas entidades mentais parecem entrar em existência de forma mais sutis[2]
que escapam do controle consciente (...) Porque há conhecimentos que adquirimos
facilmente sem o ensino deliberado" (1994, p. 96) Sem
dúvida não há aprendizagem sem relações. Mas será que podemos reduzir
aprendizagem ao estudo de conexões neuronais? O
conexionismo de Pappert não me contenta, pois acredito que essa relação é mais
complexa. Não é uma relação linear, sujeito-objeto, direta, entre o novo e o
que já existe. Existem muitas possibilidades de relações e também existem as
mediações. Num
debate entre Pappert e Paulo Freire em 09/11/1995 sobre o "Futuro da
Escola"[3], Pappert
começa dizendo que o aprendizado deve ser autoguiado pelo indivíduo, deve ser
experimental. O aluno pergunta o que não pode vivenciar e aí é que ele aprende
pelo verbal, pelo que lhe é contado. Segundo ele, o aprendizado mediado
(contado, verbal) restringe a criatividade. Pappert, nesse momento acreditava
que a escola poderia ser substituída por programas eficientes em que o aluno
pudesse experimentar mais. Paulo
Freire não admite a separação entre ensino e aprendizagem e diz: "Não se
entenderá essa capacidade de aprender se não se compreender a capacidade
correspondente que é a de ensinar. É por isso que me espanta ainda a distância
que ficamos de compreender a simultaneidade dialética entre ensinar e
aprender". Ele
concorda com a autonomia do aluno perante o processo de aprendizagem, mas
reforça que o ensino é parte integrante desse aprendizado, que segundo ele, é
movido pela curiosidade. Paulo Freire propõe a Pedagogia da pergunta e não da
resposta. Acredita que as novas tecnologias apresentam novos estímulos e
desafios a essa curiosidade. Ele apela para os que escaparam da "morte da
escola"[4] que a
modifiquem, façam dela um novo ser tão atual quanto a tecnologia. "Pôr a
escola à altura do seu tempo não é soterrá-la, mas refazê-la". Um
conto de Isaac Asimov, intitulado Profissão,
descreve uma sociedade onde existiam "fitas de aprendizagem". Nessa
sociedade não havia escolas, existiam apenas dois grandes dias de instrução: o
dia da leitura e o dia da profissão. No dia da leitura o cérebro da criança
recebia a informação da fita de leitura e a criança tornava-se alfabetizada. No
dia da Profissão a pessoa recebia o conhecimento da profissão que lhe era
imposta. O conto narra a história de dois amigos: um deles recebeu a instrução
de uma determinada profissão e outro se rebelou, o programa não funcionou com
ele. As autoridades o protegeram e incentivaram esse seu instinto mental
diferente. Sobre o fato ele disse: "Era
como se a sua mente tivesse alguma noção a priori de sua falta de
capacidade de ser instruído e então se pusesse a fazer perguntas, a fim de
juntar os pedaços aqui e ali, o melhor que pudesse, e eles o encorajavam a
fazê-lo" (...) "As fitas são ruins. Ensinam demais; não exigem
qualquer esforço. Um homem que aprende dessa forma não sabe como aprender de
outra maneira". As
autoridades o protegeram porque precisavam de pessoas como ele para criar os
programas e fazer o sistema evoluir. O seu amigo que foi instruído acabou não
sendo escolhido para o emprego porque a fita que ele recebeu estava
desatualizada. É
claro que Pappert não propõe esse tipo de "programa", ele propõe que
devam ser feitos problemas e desafios. Mas Paulo Freire quer mais, quer que os
alunos criem seus desafios, suas perguntas. E o professor é a outra parte do
diálogo, é o que cria as condições, é a tensão ideal entre liberdade e
autoridade. Uma
outra idéia que é constante nas teorias de aprendizagem é a relação entre
aprendizagem e desenvolvimento. Tentando entender essas relações, encontrei
Maria Teresa de Assunção Freitas que reúne idéias Vygotsky e Bakthin e de
vários pesquisadores sobre esses autores. Ela
diz sobre a relação aprendizagem e desenvolvimento: A posição de Vygotsky é
inovadora. Depois de analisar em detalhes as três posições teóricas
(independência entre desenvolvimento e aprendizagem-Piaget; aprendizagem igual
a desenvolvimento-behavioristas; aprendizagem e desenvolvi-mento: processos
diferentes, mas mutuamente relacionados-gestaltistas), Vygotsky
rejeita-as e, refutando-as, apresenta uma nova solução para o problema.
Vygotsky afirma que "esta (aprendizagem) não é o desenvolvimento,
salientando, no entanto, que o
"aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e
põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma,
seriam impossíveis de acontecer. A
aprendizagem orienta e estimula processos internos de desenvolvimento. E diz ainda: Vygostky apresenta um conceito
inovador em relação a aprendizagem que é a zona de desenvolvimento proximal: Ela é a distância entre o nível
de desenvolvimento real que se costuma determinar através da solução
independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial determinado
através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração
de companheiros mais capazes. Desse modo a aprendizagem não é
desenvolvimento. Ela desperta uma série de processos evolutivos capazes de
operar apenas quando a criança está em interação com pessoas do seu meio e em
cooperação com algum semelhante. Uma vez que esses processos tenham se
internalizado, tornam-se parte das conquistas evolutivas independentes da
criança. (1998, p. 95-96). O que me interessa nessa teoria é a importância da interação e da mediação. Aprendizagem não é produto do desenvolvimento genético nem o contrário. Há a necessidade de uma interação para que ocorra uma nova reorganização. A aprendizagem é uma internalização que causa uma mudança. Nessa teoria o professor tem os papeis fundamentais da mediação e da interação. Essas
idéias trazem elementos interessantes para discussão. Os problemas são as
polaridades que se criam com essas teorias, quando se tornam verdades
absolutas, quando se radicalizam os pontos de vista. Por
exemplo: se radicalizarmos demais Pappert podemos chegar à base da
auto-instrução, na qual o aluno sozinho vai buscando informações e respostas.
Se radicalizarmos a teoria de Vigotsky poderemos colocar o professor como o
centro do processo de aprendizagem, sendo ele o principal responsável por criar
as interações, as situações de aprendizagem, desconsiderando o desejo do aluno.
Essa idéia de que a aprendizagem é uma internalização é perigosa quando
interpretada de uma forma redutora, em que a organização é imposta e não se
percebe a complexidade dessa reorganização que o aluno deve fazer. Segundo
o dicionário Aurélio, a palavra aprendizagem é a união de (Aprendiz + agem) e a
definição de aprender é "tomar conhecimento de algo, retê-lo na memória,
em conseqüência de estudo, observação, experiência, advertência, etc." Sobre
a atividade de conhecer Maturana (1999, p.67) diz: A
situação especial de conhecer como se conhece é tradicionalmente elusiva na
nossa cultura ocidental, centrada na ação e não na reflexão. Assim nossa vida
pessoal é cega a si mesma. É como se um tabu nos dissesse: É proibido conhecer
o conhecer. Na verdade não saber como se constitui nosso mundo de experiências,
que está de fato próximo de nós, é uma vergonha. A
definição do dicionário vem do aprender como reter algo, como se capturássemos
algo novo quando passamos por uma experiência. Normalmente, centramos os nossos
estudos no que foi capturado, na ação do aprendiz, mas não na reflexão dessa
ação, como adverte Maturana. A
experiência opera em nós uma transformação, mas para percebermos isso é
fundamental o autoconhecimento. Que normalmente nos é negado, que é limpo no
processo de ensino. Para
mim a aprendizagem também envolve uma transformação, por isso utilizo muito a
transmutação alquímica da matéria como analogia a esse processo. Para realizar
a transmutação é preciso considerar as propriedades da matéria a ser
transformada, pois dependendo das condições ela poderá reagir de várias formas.
Mas a ação externa é necessária para operar essa transformação. Como
cada pessoa é diferente, terá reações diferentes às experiências, às
provocações externas. É por isso que o aprendiz precisa se conhecer, saber de
que tipo de matéria é feito, como experimenta o mundo. Não é para simplesmente
prever as reações, mas para aproveitá-las melhor. Na
escola tradicional, busca-se a aprendizagem dentro de um processo de formação.
Espera-se um diploma que garanta o atestado que permita desempenhar
determinados papéis no mundo do trabalho. Mas quando limitamos o processo à
transmissão de conhecimentos, "às fitas de instrução", ele torna-se
obsoleto rapidamente e o aprendiz não sabe aprender de outras formas. Na
escola, o aprendiz encontra um espaço definido, um professor e recebe a
denominação de aluno. O programa normalmente já está estabelecido e as
avaliações, geralmente, são tarefas e as atividades que devem ser cumpridas
para demonstrar que aquele conhecimento foi "retido". Os recursos
didáticos são meios utilizados, em geral, para transmitir o conhecimento. Em
alguns momentos o aluno pode produzir textos ou outros materiais utilizando o
conhecimento apresentado. Porém, muitas vezes essa produção é apenas uma
reprodução. Nas
tradições alquímicas as pessoas tentam participar de sociedades secretas onde
circula o conhecimento. Ele deve ser iniciado encontrando-se as chaves para
compreender os rituais. Hutin,
ao falar do processo de iniciação, diz: "Descer em si mesmo. Mergulhar nas profundezas do ser; eis a condição
necessária preliminar para o novo nascimento do iniciado, com assimilação
simbólica do mundo subterrâneo no seio materno, no qual desenvolverá o embrião.
Toda iniciação, não é, por acaso, um novo nascimento?" (1979, p.186) A
iniciação é a primeira transformação, onde você mergulha na escuridão para
reconhecer a iluminação. Quando o processo de ensino-aprendizagem é
"limpo" ou "purificado" no início, retira-se a matéria
original, o barro a ser moldado e apresentam-se ao aprendiz elementos
artificiais, conceitos já prontos, que ele não buscou nas profundezas do seu
ser. A
iniciação nunca forma um indivíduo. Ela apenas dá algumas chaves para que ele
busque as soluções dos seus mistérios. O processo nunca acaba; há sempre
mistérios a serem descobertos. Mas,
quando ele tem certeza que quer seguir determinados caminhos ele busca um
mestre e torna-se um discípulo ou aprendiz. O mestre só abre as portas quando
reconhece que a pessoa pode compreendê-lo, que existe o desejo da busca e a fé.
O discípulo deve acreditar em si, no mestre e numa força universal. O
aprendiz escolhe o mestre por quem ele tem admiração. Às vezes, o mestre é quem
escolhe o aprendiz de acordo com o conhecimento que ele deseja movimentar e
como as habilidades que ele reconhece no novo discípulo. Mas a relação de
admiração está presente. Normalmente
a relação disciplinar é rígida, o aprendiz deve obediência absoluta ao mestre.
Ele busca a solução para os mistérios, mas muitos buscam apenas as promessas de
poder e riqueza e fracassam por não terem fé. O
papel do mestre é provocar o discípulo. Os rituais têm como função levar a uma
auto-observação, uma reflexão. Os rituais são necessários para o aprendiz
provar o seu valor e ser respeitado no grupo. O
mestre também transmite ao discípulo os seus métodos, mas na alquimia esse
processo não é direto. Normalmente ele é codificado, o que gera nos aprendizes
interpretações distintas. Quando você dá ao discípulo a receita pronta ele se
limita a segui-la, e não dispende qualquer esforço para interpretá-la. A
aprendizagem exige paciência e dedicação, para a construção do
"novo". Apesar
do resultado esperado e tão divulgado da alquimia ser a produção do ouro,
acredita-se que esse ouro seja simbólico. Que o importante é a experiência, o
trabalho com os ingredientes como uma maneira de reflexão espiritual, de
autoconhecimento. A pedra filosofal seria um ovo de um novo mundo, uma criação
sua, particular, que também tem a capacidade de transformar. E o elixir da
longa vida é a crença de que ao produzir algo novo, significativo, a pessoa
fique viva através do seu produto e na memória das pessoas. Mas
há um momento em que o aprendiz transcende o mestre, Esse é o verdadeiro
processo de individuação, ele se liberta. Os verdadeiros mestres desejam isso
dos seus discípulos, para que o conhecimento evolua. O mestre, mesmo superado,
ficará vivo na obra do seu discípulo. Nesses
novos tempos de mudança, é interessante resgatar alguns valores da alquimia que
foram esquecidos e massificados. Buscar o mistério, principalmente o que está
dentro de nós, para nos diferenciarmos do todo. Considerando
as idéias de Tapscott (1999) sobre o novo modelo de aprendizagem da geração
Net, podemos dizer que este deve basear-se na descoberta e na participação. Ser
hipermidiático, ou seja, não linear. O aluno deve ser o centro do processo, ele
aprende a aprender e nunca se forma. O professor pode ser denominado
facilitador, que seria, segundo o autor, uma espécie de consultor e conselheiro
da equipe. Quanto
ao papel do professor nesse novo contexto, Lévy (1999 p.171) acrescenta: O
professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao
seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das
aprendizagens: o incitamento à troca dos saberes, a mediação relacional e
simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem, etc. Esse
termo facilitador é até muito freqüente nos discursos educacionais. Considero
uma palavra complicada, pois parece que o professor está simplificando o
conteúdo para que o aluno consiga absorver. Na verdade o professor tem um papel
importantíssimo, como destaca Lévy, na
mediação relacional e simbólica. Ele vai provocar as interações, o uso das
linguagens, propor os desafios. A
codificação dos alquimistas tornava os textos herméticos, acessíveis apenas aos
iniciados. O aluno também deve passar por esses desafios simbólicos, para que
consiga decifrar os mais diversos códigos e utilizar adequadamente várias
linguagens. Segundo
Centeno (1985, p.98), quando fala da alquimia presente em Fausto de Goethe: "o herói está em permanente combate
contra as limitações, sempre em busca da linguagem divina que o tornará
ilimitado". Cabe
a essa relação professor aluno ou mestre aprendiz garantir uma evolução
contínua. Nada é pronto ou acabado, mas está em constante transformação, em
constante aprendizagem. Segundo
Lévy[5]:
Nós somos o que sabemos e nos tornamos o que
aprendemos. O importante do processo de aprendizagem é ir na direção do outro,
em direção à alteridade". Nesse caso ele esclarece a importância do outro
da aprendizagem, dizendo que a aprendizagem "é um ato de amor, pois é
impossível compreender alguém sem amá-lo e amar é sair de si e ir em direção ao
outro. Assim aprender é: abandonar velhos reflexos e preconceitos e penetrar
num conhecimento diferente e isso é doloroso, aceitar a nossa transformação,
aceitar ir em direção à alteridade. Mas para produzir algo novo somos obrigados
a nos tornar outra coisa. Deste
modo a busca do ouro, da positividade, da transmutação deve ocorrer dento de
nós, pois o produto é a materialização do processo. O caminho do conhecimento e
da pesquisa é solitário, diz Byington (1995, p65): "Desde o início, o
orientador ajuda, os professores ensinam, os colegas estimulam, mas na hora do
vamos ver, do parto, da criatividade e da morte, a gente está sozinho. A
vivência é forte, angustiante e dolorosa, mas confirma a autenticidade do
caminho". A
virtualização dos processos de ensino-aprendizagem muitas vezes segue o modelo
tradicional: eliminam-se as barreiras espaciais, mas não se aproveitam as
multidimensionalidades que os espaços virtuais têm. A
possibilidade de criar personagens ou mesmo de expor sua intimidade preservando
sua identidade também geram novas maneiras de “brincar" com os seus
problemas. Novas formas de experimentação. É o novo laboratório alquímico, onde
outros materiais podem ser criados, como formas de pensamento que alimentam uma
base de dados. E essa base de dados pode ser compartilhada e transformada por
outros usuários. Nesse
novo espaço de experiência, os aprendizes são usuários, podem ter várias vidas
e vários corpos, podem ter superpoderes, podem criar ambientes, podem trocar
saberes. Eles
podem distorcer o tempo, optando por relações assíncronas em que cada usuário
pode delimitar seu tempo de resposta. O "encontro" pode ocorrer em
tempos diferentes para cada usuário. Infelizmente
muitos sistemas de educação virtual querem chegar ao modelo de "fitas de
aprendizagem”. Buscam fórmulas mágicas, algoritmos que definam o aprender.
Falam em democratização do ensino, mas, na realidade, querem uma massificação,
pois propõem que muitos alunos (e professores) sejam treinados por um único
sistema criado com módulos fixos de conteúdos. Esses
projetos acreditam que a tecnologia é a resposta para todos os problemas da
educação, inclusive para a falta de acesso. Em casos mais absurdos a proposta é
que um grupo de professores construa um sistema que depois funcione
automaticamente. Assim os custos seriam menores e muitos alunos teriam acesso a
essa formação. É
o retrocesso tecnicista: a busca da automatização do ensino. Projetos assim
esquecem que a automatização limita o número de entradas e saídas de um
sistema. Só serve para um sistema de reprodução e não para um sistema de
aprendizagem, no qual esperamos que os indivíduos evoluam e sejam capazes de
criar algo novo. Essa criação do novo deve ser examinada dentro de uma
complexidade e da idéia de rede de relações. Sobre complexidade Morin (2001 p.
38) diz: Complexus significa o que foi
tecido junto; de fato há complexidade quando elementos diferentes são
inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o
sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e há um tecido
interdependente, interativo e inter-retroativo entre objeto de conhecimento e
seu contexto, as partes do todo, o todo das partes, as partes entre si. Sendo
assim, se há interdependência, sempre que transformamos, reorganizamos,
criamos, não afetamos apenas uma parte, o todo se modifica. Assim como o
processo criativo modifica a matéria que é transformada, ele afeta o ambiente,
o criador, as relações do criador. Sobre as mais antigas idéias de redes o Dicionário dos
Símbolos (2000, p. 773) diz: Nas tradições orientais, os
deuses são igualmente dotados de redes para prender os homens em seus laços ou
para atraí-los a eles. Os analistas vêem, nessas imagens, símbolos da busca, no
inconsciente, da anmenese, cuja função é a de trazer ao umbral da consciência,
como peixes das profundezas do mar, as mais longínquas e mais recalcadas
recordações (....) A rede simboliza também todas as
capacidades e virtualidades da humanidade na pessoa de Binyamin, criado por
Deus antes mesmo do mundo visível, e que representa o homem primordial voltado
à sublimação do seu ser. (...) Em todas essas representações simbólicas, a rede,
considerada como objeto sagrado, serve como veículo de uma força espiritual. Considero a idéia de Educação como rede fundamental no
mundo atual, onde o pensamento linear derivado da cultura escrita não dá conta
de entender essas conexões. Ao mesmo tempo em que a rede significa
possibilidades múltiplas de conexões e de expansão e virtualização de espaços,
também estamos cada dia mais presos a ela. Mas é entendendo essas conexões que
podemos buscar a profundidade de cada nó, entender os valores que fixam ou
desfazem cada laço. O pensamento complexo ou pensamento em rede é fundamental
para abandonar as velhas formas de automatização do ensino. A rede é feita de
laços, de relações que são criadas, reforçadas e/ou destruídas. Outro
ponto importante na idéia de Educação-rede é a cooperação ou sinergia. Essa
comunicação entre vários nós possibilita mais trocas e ações conjuntas.
Enquanto uma estrutura linear permite apenas a adesão ou o conflito, na
estrutura de rede podemos estar ligados a vários pontos ao mesmo tempo. Assim,
é possível que as pessoas pertençam a vários grupos. O
ambiente virtual é um outro espaço para a criação de comunidades de
aprendizagem, muitas vezes como novas formas de sociedades secretas, com
rituais e códigos, onde as pessoas buscam conhecimento, discutir valores, construir novas
identidades pessoais e coletivas. Nesses
sistemas complexos, as variáveis são tantas que ninguém se considera o mestre
absoluto. Principalmente dentro dessas comunidades virtuais e quando se trata
da criação de sistemas e ambientes. É preciso que haja sinergia. A construção é obra do conjunto de pessoas
e, às vezes, fica difícil decifrar quem foi o responsável por cada detalhe. Quando
pensamos em cursos virtuais o papel do mestre deve ser selecionar os tópicos
que serão discutidos, trazer referências, fazer mediações, propor os problemas,
e principalmente estimular a formação de grupos de aprendizagem e de colaboração.
Ao final da trajetória, os grupos devem apresentar os projetos e os produtos
construídos ao longo do curso. O
ambiente construído para esses cursos deve possibilitar essas trocas e
construções coletivas. Mas muitos ambientes virtuais de ensino não são verdadeiramente
colaborativos, não permitem a formação de grupos de aprendizagem. Não estimulam
a interação entre os alunos, apenas possibilitam a interação professor-aluno e,
nos piores casos, apenas interação entre uma base de dados e os alunos. Outro
detalhe curioso sobre o ensino virtual é uma preocupação com a validação dos
cursos à distância, pois existe o medo da fraude, de alguém fazer a avaliação
no lugar do outro. Mas
num sistema realmente sério, o professor sempre é capaz de reconhecer o trabalho
do seu aluno. Num processo de ensino adequado, em que não há massificação e o
professor realmente acompanha todos os passos da trajetória ele sabe perceber
se os produtos, ou mesmo, a avaliação final foi realmente construída por aquele
aluno. Nenhum aluno é igual ao outro. Numa educação que realmente busca uma
"Grande Obra", a criação de um conhecimento pelo aluno não tem como
ser fraudada, O professor saberá distinguir se o ouro foi realmente transmutado
pelo aluno, se é chumbo banhado de ouro ou ouro comprado. Mas
tudo isso exige qualidade e seriedade. Não é possível atender um número elevado
de alunos. A busca do conhecimento deve superar a distribuição de diplomas e
certificados. O conhecimento é mais que informação, faz parte de um projeto de
vida, um projeto de evolução contínua do ser humano, de participação num
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[1] Condicionar um comportamento através de
estímulo-resposta. A cada resposta certa (única) se dá um estímulo positivo, um
prêmio. [2] Nesse caso, essas formas mais sutis que
escapam do controle consciente seriam os conhecimentos culturais. [3] Publicado no Jornal da Tarde de 20/1/96,
p4 [4] Paulo Freire usa esse termo quando considera
que a Escola limita a autonomia do aluno matando sua capacidade de criar. [5] Em entrevista no programa Roda Viva
exibido pela TV Cultura no dia. 15/05/2000.
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