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A sessão
obsoleta
Marcela Antelo Se há
algo que pega de surpresa ao dispositivo analítico é a possibilidade que a
popularização dos recursos tecnológicos oferece, de criar encontros virtuais
que prescindam dos corpos reais. Para o ano 2006 o Senado francês calcula que
80 por cento dos usuários de computador contarão com realidade virtual
acessível nas suas telas. A sofisticação
de novos modos de presença que anima equipes de cientistas e aterroriza
ludditas, seduz à oferta terapêutica. Praticamente os cinco sentidos habitam a
paleta do cientista das presenças virtuais. Ameaçados pela remoção generalizada
das substâncias, cafê sem cafeína, cigarros sem nicotina, sexo sem contato
carnal, analistas sem divã, estamos forçados a dizer qué entendemos por
presença real do analista e por que é necessário o corpo se sua condição é não usa-lo. I seek you/ Te busco/ Cadê você? Longe de saciar a sede de encontros carnais a virtualização dos laços sociais atiça a demanda da presença do Outro ao mais alto grau. Este encontro é nossa prova. O psicanalista
francês Jacqeus-Alain Miller falou da
banalização da presênça para o jornal
Liberation que o consultava sobre o lugar do divã no século. O banal é o
que é para todos, "a common place", e foi interessante encontrar que
na sua orígem, antes de ser um adjetivo francês, banalizar significava
simplesmente falar, proclamar. Banalizada a presença virtual proclama Miller, a
presênça real será preciosa. Poder obter a
voz, a imagen do outro, poder manosea-la em três dimensões e lhe aplicar
qualquer lupa e a qualquer distância, poder até monitorar-lhe sua presão
arterial, é o regocijo tecnológico da época. Até o cinema revoluciona-se docemente, diz Raymond Bellour, quando a
presença dos sons que faziam obstáculo ao cinema moderno hoje se consagra.
Escutamos fósforos acender-se, suspiros exalar-se, batidas cardíacas, furacões
irados, efeitos especiais da presença do outro. A terca
vaidade da demanda se concentra na presença, no dom da presença, o mais além de toda demanda. Os "geradores
de presença" são especialistas que se dedicam a criar "imágens de
síntese" do outro para causar "efeitos de contato". O efeito de
contato tátil por exemplo, última vedette, se realiza por meio das energías
pneumática, elétrica e mecânica. Os odores e as temperaturas aguardam sua
oportunidade na prateleira. [Aliás, posso acrescentar hoje que os items dessa
prateleira já estão à venda.] Nos aprendimos
da mãe freudiana que sua ausência faz fundo para todas as presenças que o
sujeito possa encontrar no seu caminho.
A função do pai marca uma ausência diapasão que abre e fecha o devir do
sujeito, pulsa. Parece que o
tempo da inexistência do Outro condena o sujeito a perseguir seus signos com a
maleta tecnológica. Os objetos da presença do Outro, sua voz, sua mirada, sua
escritura, sua ira, seu ódio, seu corpo, seu gozo, são procurados sem cessar em
motores de buscas ao serviço do usuário. O sinistro Echelon objetado
recentemente pelo governo françês se oferece à obscenidade em jogo à hora de
produzir a presença do outro com o fim de aniquilá-lo melhor. Até timbres de
voz reconhece este programa de espionagem conveniado entre Estados Unidos e
Inglaterra na pós-guerra [intercepta 1.000 milhões de mensagens transmitidas
via satélite em meia hora, detecta palavras perigosas e se mantém, por
enquanto, entretido com espionagem
industrial] . Lacan diz que
a presença é uma expêriencia, é a experiência de um sentimento. Como conceito
não somente é ambíguo senão também complexo. No volume sobre “A transferência”
do Encontro do Campo Freudiano em Caracas, 8 anos atrás, pode-se lêr a
pergunta: "Estará mal escolhido o termo presença?" , tamanho o incômodo
que causa; Sartre livrou-se dela proclamando a auto-análise, a simples presença
de si mesmo. Um argumento
para orientar-se em Lacan é que a presença do analista, não passa pela sua
decisão de estar alí, pois trata-se de
uma presença súbita, viragem brusca, substância ligeira. É manifestação,
irrupção, e não o hábito de encaixar sua ossada na poltrona. A presença não
representa ao analista senão para o analista, assim como a hostia o faz para
Cristo e não a Cristo. Já no seu livro I Lacan apontava a dificuldade de viver,
se o sentimento da presença fosse constante: "É um sentimento que tendemos
incesantemente a apagar da vida [...] É um mistério que mantemos a distância e
ao qual, por assim dize-lo, nos hemos acostumado"[1].
Estar ali com o corpo não é estar ali. Mais adiante e
como modo de "restituir às coisas contemporâneas sua base paradoxal"
alojará a presença no registro do real. Quando o desejo habita, se instala,
poderíamos dizer, no lugar da presença
real, o povoa de fantasmas. Não há mais
intervalo nem virada brusca quando a presença real cai nas maõs do desejo. O
desejo nos defende da presença real, lição das primeiras histéricas freudianas. O amor, por
outro lado, nos conduz a desejar a presença de um número restringido de pessoas[2]
, o ódio a detestá-la. A presença se faz mola do mais-de- gozar. Ela se dota de
instrumentos, por exemplo: temos estado rindo do chicote que Lacan introduz no
seu recentemente estabelecido seminário V; podemos assim mesmo recordar, a
estreita relação que Freud tecia entre o telefone e o aumento dos apetites
modernos. A patente do
telefone e a psicanálise apareceram na mesma década. O telefone portátil, como
seu nome o indica, celular, tem se convertido em órgão do corpo, secreta a presença da voz da mãe dos dias de
hoje, quando não do olhar panóptico do outro doméstico, não somente da burguesa
como gostava Lacan de chama-la, senão também do proletário. Aquele que
possui um aparelho pode decidir se quer ou não a presença, apenas
contando com o número que supõe tal sujeito da enunciação. O uso do
primeiro plano como recurso cinematográfico também se impõe contemporaneamente
ao close-up das presenças que a psicanálise oferece. Como estranha experiência
da intimidade entre estranhos, a casa dos segredos que Freud inventa e que nos
assemelha definitivamente com qualquer Inspetor Dupin, levou-se ao cinema
incansáveis vezes. Apesar de até a mafia ir para o divã trata-se do cenário de
um encontro impossível de digitalizar, como qualquer quartinho obsoleto de
ventilador barulhento, fumaça de cigarro e lapis de grafitti, lugar de certa
pestilência de onde sai o analista, fogo fátuo dizia Lacan pois não ilumina
nada. A sessão é obsoleta, isto é: inadequada às
circunstâncias atuais, reza o dicionário, e é em tanto tal que devemos fazer
valer seu agalma. A tese que
Lacan sustenta é que há algo ininterpretável numa análise e que este algo é a presença do analista. Miller
o resumiu na sua primeira aula deste
ano dizendo que o analista encarna algo do gozo, a parte não simbolizada do
gozo, a parte impossível de digitalizar. Sem dúvida
alguma pode-se olhar dentro da alma de
qualquer um folheando seu diário, até
podem encontrar-se "gemas de suprema utilidade" segundo Freud, porém nada de provocar efeitos a não
ser arriscando a própria pele. Não há leitura do saber inconsciente sem
presença, sem pôr o corpo, disse Miller ao iniciar seu curso deste ano. Estar
alí sem o corpo não é estar ali. A transferência virtual E o que se pode digitalizar, que provoca? De onde provêm a animação que provoca que os jovens se despeçam, queiram despedir-se, para poder reencontrar-se tarde na madrugada nos seus chats? É uma presença
outra que desejam. Não se escondem do contato como predicam as pedagogas
preocupadas, últimas humanistas em ação incapazes de situar o gozo estranho dos
aficionados. Não é um full contact, não é o contato todo, é um outro contato
onde depositam a virtude de poder eliminar as vergonhas que o face a face lhes
depara, onde poder brincar a ser outros para eles mesmos. Lacan disse
que a transferência é o nome púdico de um gozo que se pode localizar
perfeitamente nesta experiência. "No fim das contas não é surpreendente
que a essa espécie de posta em co-vibração, co-vibração semiótica, seja
chamada, púdicamente, transferência." "A animação surge de alingua
que parasita e constitui sentido e suscita sentimento. Trata-se da animação no
sentido de um remexer, de uma coceira,
de um furor; para dize-lo tudo, a animação do gozo do corpo"[3].
Esta produção
conjunta de sentido supre o sexual; chamamos gozo fálico a esta suplência que
alingua como parasita possibilita. A transferência é o nome púdico deste gozo.
Não esqueçamos que a premissa universal
detectada por Freud fazia existir a presença do pênis. Dr. Sbaitso by Sacha Nacht Sacha Nacht, aquele que
irritava a Lacan em A direção da cura com sua sentênça "o analista atua
menos pelo que diz que pelo que é" toma a presença como um conjuro contra
o analista como espelho raso, superfície lisa e neutra. A presença é uma atitude,
útil sobretudo para dissolver o mundo alegórico do depressivo, nos diz no seu
livro A presença do analista[4].
Presença figura, tal como a que certos teólogos opuseram à presença real de Cristo na eucaristia. Em ocasião do
XX Congreso Internacional de Psicanálise, Paris 1957, Nacht se coloca como o pai do nome, apesar de dar em outro lado o
crédito a Racamier, pela definição de
presença: "atitude por meio da qual propomos ao sujeito uma forma
figurada, captável, não dissipável, não ambígua, de nossa existência e de nosso
interesse pelo enfermo" A presença é o artifício por meio do qual o
analista sai do mundo mítico da fantasia para entrar na vida real e plantar-se
frente ao paciente, com o que é e não com o que diz . Se a presença
é um "dom de uma forma figurada, captável, não dissipável, não
ambígua" do desejo do analista bem podería ser digitalizada e ainda mais
já foi feito. Não sei se alguns de vocês já tiveram a ocasião de um encontro
com o cordial Dr. Sbaitso que não é nada menos que um avatar de Sacha Nacht, um
analista 100% digital, um software ou melhor definido, um knowbot, um robot que
sabe, que se supõe que sabe e do qual
já se tem várias gerações, os mais audaciosos fabricados em Colonia, Alemanha.
Para programar um analista é preciso saber qué é um analista e Sacha Nacht o sabia. O paradoxal é
que Nacht, quem justamente foi um dos
primeiros ludditas de nossa prática pois já temia a máquina, disse: "a
atitude de presença pode evitar que o analista se converta em uma máquina de
interpretar até o infinito[5]".
Sacha Nacht só pode sustentar a presença como
necessidade técnica e não ética. "Sermoneio lacrimoso, ampulosidade
serosa, carícia pegajosa"[6]
imagem de síntese da presença do analista pela vaidade do seu discurso. Cyberser Na época do entendimento tecnológico do ser, sexto e último paradigma de Heiddeger, seus atuais discípulos encontram que a pergunta do século é ¿Como resistir à devastação que a tecnologia nos submete e como lhe mudar o signo?. Os críticos da
euforia digital caminham cada dia mais no
sentido de não opôr os mundos real e virtual. Não há tal coisa como dois
mundos, há instrumentos. Como o
chicote, os instrumentos estão a serviço do fantasma. A invenção de um novo
espaço onde o corpo seria obsoleto é um verdadeiro lastro do desejo que
foraclui o real e é a matriz com a qual se propõem experiências virtuais
liberadas do lastro do corpo. O argumento é
que se na sessão analítica o corpo do analista permanece inacessível, até fora
do ângulo de visão do sujeito, bem poderia gerar-se o cenário na tela. A perda de
realidade que tem gerado a tecnologia permite fantasiar com um analista como
suplemento artificial e protético que no campo descentrado do grande Outro
suplemente o fracasso do sujeito em apenas um click do mouse. O homem do rato. A presença
sustentada por um "ideal de funcionamiento", não produz a sessão como
avesso dos efeitos da ciência na vida cotidiana e é somente neste avesso que
podemos ex-sistir. O que chamamos
a extensão não é outra coisa que a extensão do desejo da presença do analista
e seu respeito pelo imprevisto.
Presença obsoleta pois, como a mesmíssima palavra obsoleta. Bahia 2002 NOTAS [1]
Lacan, Jacques. Livro I, Los escritos
técnicos de Freud, Buenos Aires: Paidós. P.73 [2]
Lacan, Jacques. Seminário XXI, Les non -dupes errent, inédito, [9/1/73] [3]
Lacan, Jacques.Ibid. Classe 19/6/68 [4]
Nacht, Sacha, La presencia del analista p.72. [5]
Ibid. P. 76 [6]
Lacan, Jacques. Seminário 11, Los cuatro conceptos fundamentales del
psicoanálisis. Cap.X. Rio de janeiro: Jorge Zahar.
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