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De onde teclas? Em busca do indivíduo conectivo Luciene Setta de Oliveira[1] Resumo
Se
examinarmos a tendência da era das comunicações desde meados do século passado,
veremos que existe uma aceleração no uso de comunicações alternativas com
crescente substituição da presença física. Pesquisadores contemporâneos afirmam
que a Internet, em especial a CMC, está afetando rapidamente este processo de
comunicação entre as pessoas, além de promover o estreitamento do conhecimento
comum a vários indivíduos. No virtual podemos colocar-nos diretamente num meio
em que assuntos que nos interessam são debatidos e travar conhecimento com
indivíduos que compartilham de nossos interesses e que podem nos seduzir pela
expressão escrita. Os estudos se completam através de pesquisas da telemática,
na qual é possível fazer parte de uma lista de discussão sobre qualquer desses
assuntos e iniciar um debate público ou privado (também denominado PVT) com
seus participantes, sem jamais havê-los encontrado. Em razão das questões
abordadas anteriormente consideramos em nosso trabalho a palavra indivíduo. A
medida em que nas sociedades individualistas há muitas pessoas qualitativamente
diferentes, uma massa anônima, formada de meros indivíduos, assim como na CMC.
Nos sites de relacionamento não encontramos sujeitos ou pessoas identificáveis.
Muito pelo contrário. Acreditamos que especificamente esses sites propiciam
movimentos em diversas direções: as pessoas renunciam mesmo que provisoriamente
seus nomes, profissões, para gozar e experimentar as múltiplas oportunidades
como meros indivíduos nos quais impera o vale tudo, ou seja, a busca pelo
namoro, amizade ou sexo, ou ainda todas ao mesmo tempo. Acreditamos que a compreensão do
indivíduo conectivo se dará mais facilmente dentro de uma história da própria
CMC. Já apresentamos que o ciberespaço, o virtual, é um "mundo"
criado por palavras, um mundo que na verdade vem existir através de linguagem
de computação. Além disso, o virtual é um mundo constituído por linguagem na
medida em que as relações e interações acontecem, grande parte por meio de
texto e diálogos e o que é mais importante; as pessoas são o que são,
personagens constituídos por palavras. Não existe, na verdade, um lugar físico
onde o indivíduo cibernético atua. No entanto, para ele os sites de
relacionamento são um local de encontro real. Algumas vezes, alguém pode ser um
“andarilho virtual”, ou seja, verificar os recados sem manter relações sociais
com as pessoas que estão naquele locus. Porém, na maior parte das vezes, o
usuário mantém uma certa assiduidade de conexão, e acessa com maior freqüência
os sites onde se sente mais à vontade e onde mantém contatos com pessoas com
quem deseja encontrar-se. E este é um ponto importante para compreender-se como
o ciberespaço, mesmo sem constituir-se um espaço físico e geográfico, age como
espaço onde as pessoas mantém relações sociais, procurando pontos comuns. Por
isso o ciberespaço é fundamental para a construção do indivíduo conectivo desta
nova sociedade. A sociedade tecnológica. Palavras-chave
comunicação
mediada por computador – internet - virtual Se examinarmos a
tendência da era das comunicações desde meados do século passado, veremos que
existe uma aceleração no uso de comunicações alternativas com crescente
substituição da presença física. Pesquisadores contemporâneos afirmam que a Internet, em especial a CMC, está
afetando rapidamente este processo de comunicação entre as pessoas, além de
promover o estreitamento do conhecimento comum a vários indivíduos. Portanto,
gostaríamos inicialmente de apresentar o pensamento de autores no que diz respeito a questão real/virtual antes de
entrarmos especificamente na questão do indivíduo conectivo. Pierre Lévy, um
dos estudiosos de maior renome mundial nesta área define o virtual como uma
palavra derivada do latim medieval, virtualis
derivado por sua vez de virtus ,
força, potência. Segundo ele, na filosofia escolástica, é virtual o que existe
em potência e não em ato. "O
virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização
efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos
rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual:
virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes". [2] A interseção do virtual com o real
proporciona o surgimento de novas formas de sociabilidade, denominadas por
Pierre Lévy de comunidades virtuais. Segundo pesquisadores contemporâneos,
estas comunidades são diferentes das reais, e ao mesmo tempo muito semelhantes.
Em uma comunidade virtual, podemos colocar-nos diretamente num meio em que
assuntos que nos interessam são debatidos e travar conhecimento com indivíduos
que compartilham de nossos interesses e que podem nos seduzir pela expressão
escrita. Os estudos se completam através de pesquisas da telemática, na qual é
possível fazer parte de uma lista de discussão[3]
sobre qualquer desses assuntos e iniciar um debate público ou privado (também
denominado PVT) com seus participantes, sem jamais havê-los encontrado. "As
chances de se fazer amizades crescem em proporção de dez, com relação aos
métodos tradicionais (...) Outra peculiaridade no processo de estabelecimento
das relações no ciberespaço é que nas comunidades virtuais o sexo, idade, raça,
aspecto físico etc., dos participantes não são automaticamente discerníveis, a
não ser que o indivíduo decida dá-los a conhecer." [4] Outro
autor muito citado neste campo é Anthony Giddens (2000), que argumenta que o
indivíduo deseja fazer-se visível numa rede de pessoas que sejam capazes
de ajudar e a quem ele também seja capaz de ajudar, provocando assim uma troca
de relações. Giddens avalia ainda que uma das características distintivas da
modernidade é uma interconexão crescente entre os dois extremos da
"extensionalidade" e da "intencionalidade": de um lado
influências globalizantes e, de outro, disposições pessoais... Quanto mais a
tradição perde terreno, e quanto mais reconstitui-se a vida cotidiana em termos
de interação dialética, entre o local e o global, mais os indivíduos vêem-se
forçados a negociar por estilos de vida e meio a uma série de possibilidades...
O planejamento da vida organizada reflexivamente... torna-se característica
fundamental da estruturação da auto-indentidade. Segundo
Giddens em condições de alta modernidade vivemos em “um mundo” num sentido
diferente dos períodos históricos anteriores". Todos continuam a viver uma
vida local, e os constraints do corpo
asseguram que todos os indivíduos, a cada momento, estão contextualmente
situados no tempo e no espaço. No entanto, transformações do lugar e a
intromissão da distância em atividades locais, combinada com a centralidade da
experiência mediática, modificam radicalmente o que ‘o mundo atualmente é’. Isto
se aplica tanto ao nível do ‘mundo fenomênico’ do indivíduo quanto ao nível do
universo geral da atividade social, na qual a vida coletiva é encenada. Apesar
de todos viverem uma vida local, o mundo fenomênico é, na maior parte,
verdadeiramente global”. Para não
deixar de lado a semântica brasileira citaremos o que segundo o Dicionário
Brasileiro de Língua Portuguesa, apresenta sobre a palavra indivíduo (singular, masculino), derivada do latim individuum e significa ente ou ser que
constitui um todo distinto em relação à espécie; pessoa; exemplar de uma
espécie qualquer (fam); sujeito (bras. e Açores). Mas a definição de Aurélio
completa este pensamento dizendo que é indiviso; uma pessoa qualquer cujo nome
não se quer dizer sujeito , cidadão. Gostaríamos,
ainda, de apresentar duas citações do termo indivíduo. De acordo com o
Dicionário de Ciências Sociais do Instituto de Documentação da Fundação Getúlio
Vargas (1986), o substantivo indivíduo é sinônimo de pessoa ou ser humano. Na
literatura de Ciências Sociais, o termo indivíduo perdeu seu significado
original de indivisível e é usado como sinônimo de pessoa, ou ser humano
singular. O Vocabulário Técnico e
Crítico de Filosofia, de autoria de André Lalande (1996) cita este termo pela
ótica da Psicologia, indicando que o indivíduo opõe-se à pessoa moral, enquanto
a unidade e a identidade exteriores, biológicas, do ser humano se opõem à
unidade e à identidade interiores que resultam nela da reflexão e da vontade. O
conceito de individuo pode se expandir a partir do objeto de estudo proposto,
pois segundo o pesquisador Castells há três processos de identidade: legitimadora (introduzida pelas
instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua
dominação em relação aos atores sociais, tema este que segundo ele está no
cerne da teoria da autoridade e dominação de Sennett e se aplica a diversas
teorias do nacionalismo, de resistência
, criada por atores que se encontram em posições, condições desvalorizadas e/ou
estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de
resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam
as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos e a identidade de projeto, quando os atores
sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance,
constróem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao
fazê-lo, de buscar a transformação de toda uma estrutura social. Segundo
Castells (1999), este é o caso, por exemplo, do feminismo que abandona as
trincheiras de resistência da identidade e dos direitos da mulher para fazer
frente ao patriarcalismo, à família patriarcal e, assim, a toda a estrutura de
produção, reprodução, sexualidade e personalidade sobre a qual as sociedades
historicamente se estabeleceram. O autor ressalta que o terceiro processo de
construção de identidade, a identidade de projeto, produz "sujeitos",
adequando suas idéias às de Alain Touraine: "Chamo
de sujeito o desejo de ser um indivíduo, de criar sua história pessoal, de
atribuir significado a todo o conjunto de experiência da vida individual... A
transformação de indivíduos em sujeitos resulta da combinação necessária de
suas afirmações: a dos indivíduos contra as comunidades, e a dos indivíduos contra
o mercado". Para Castells sujeitos não são indivíduos, mesmo considerando que são
constituídos a partir de indivíduos. São
os atores sociais coletivos pelo qual indivíduo atinge o significado
holístico em sua experiência. Assim, segundo ele, a discussão estaria inserida
em um contexto específico, qual seja, o surgimento da sociedade em rede.
Avalia, ainda, que enquanto na modernidade a identidade de projeto fora
constituída a partir da sociedade civil (como por exemplo, no socialismo, com
base no movimento trabalhista), na sociedade em rede, a identidade de projeto,
se é que se pode desenvolver, origina-se a partir da resistência comunal. É
esse o significado real da nova primazia da política de identidade na sociedade
em rede. A análise dos processos, condições e resultados da transformação da
resistência comunal em indivíduos transformacionais é o terreno ideal para o
desenvolvimento de uma teoria de transformação social na era da informação.
O
pensamento de Goffan (1999) é similar
aos apresentados anteriormente pelos autores. Segundo ele, quando um indivíduo
representa um papel, implicitamente solicita de seus observadores que levem a
sério a impressão sustentada perante eles. Pede-lhes para acreditarem que o
personagem que vêem no momento possui os atributos que aparenta possuir, que o
papel que representa terá as conseqüências implicitamente pretendidas por ele e
que, de um modo geral, as coisas são o que parecem ser. Gostaríamos
de acrescentar o pensamento da pesquisadora Nizia Villaça (1999), no qual a
pessoa, a personalidade, o indivíduo, a individualidade são empiricamente
observáveis, e se inscrevem nas diferentes grades de interpretação da
antropologia, as sociologia ou da estética. O indivíduo e a modernidade Uma
nuance um pouco desviante dos conceitos habituais sobre o individuo é a
individualidade. Já no século XVIII, como assinala Stuart Hall (2000) ainda era
possível imaginar os grandes processos da vida moderna como estando
concentrados no indivíduo "sujeito-da-razão". As sociedades modernas
iniciam um processo mais complexo e adquirem uma forma mais coletiva e social.
Teorias clássicas liberais do governo (baseadas nos direitos e aceitações
individuais) sofreram o abalo das estruturas de estado-nação assim como a
democracia moderna (calcada nas grandes massas) provocando o fenômeno da
individualidade.. A industrialização, grande responsável pelo capitalismo
moderno, foi a mola mestra para que o cidadão entrasse em contato com as normas
de um estado moderno e o respeito a si próprio. A partir deste ponto surge uma
concepção mais social do indivíduo. Hall aponta para as transformações
ocorridas com o surgimento das ciências sociais. Luís
Cláudio Figueiredo (2000:140) lembra que o próprio termo -
"individualismo" - nasceu na França como conseqüência de uma reação
negativa do pensamento conservador romântico aos ideais e realizações da
Revolução Francesa e com este sentido pejorativo o termo invadiu outros ares
culturais, ressaltando que o século XIX pode ser e tem sido caracterizado como o
do apogeu do liberalismo e do individualismo como princípios de organização
econômica e política Concordamos
com o pensamento de Figueiredo, pois, apesar do individualismo ter se
apresentado inicialmente de uma forma negativa, houve uma nova fase de restauração
de formas orgânicas de vida social, valores, modos de relação entre os
indivíduos, trazendo de volta a espontaneidade da vida coletiva e individual. "Poderíamos, na verdade, dizer que numa certa medida
o sujeito moderno será sempre pensado como indivíduo, no sentido do que não se
divide, coincidindo ou vindo sempre a coincidir consigo mesmo, ou seja,
identificando-se." (Modos de subjetivação no Brasil e outros escritos,
2000: 34) A
discussão sobre a forma como as tecnologias reconfiguram as relações sociais e
as comunidades antecedem o surgimento do ciberespaço e das comunidades
virtuais. Ao longo do século XX, sociólogos questionam sobre a forma pela qual
os avanços tecnológicos da modernidade - acompanhada a burocratização,
industrialização, urbanização e capitalismo - afetam as comunidades,
desintegrando-as completamente, fazendo com que resistam na forma de vilarejos
fechados, distantes da cultura de massas ou que seus membros se livrassem da
pressão dos grupos de solidariedade tradicionais (Tönnies; 1957, Durkhiem;
1978, Simmel; 1979, Sennet; 1988). Os
teóricos da primeira geração da Escola de Frankfurt oferecem uma explicação
específica e original para o papel da comunicação de massa na configuração da
experiência do indivíduo em condições de modernidade avançada. Esses pensadores
consideram as grandes transformações produzidas pelas organizações industriais
e burocráticas de larga escala nas sociedades complexas e se mostraram
particularmente sensíveis à crescente mercantilização das formas culturais e à
emergência da chamada ‘indústria cultural’. Para eles, a produção e difusão
institucionalizada de bens simbólicos pelo rádio, televisão, revistas e
jornais, assim como a produção de filmes e de música popular para consumo de
massa, deixaram os indivíduos ainda mais dependentes e submissos a forças
sociais e econômicas fora de seu controle. Os teóricos de Frankfurt alegam,
assim, que a indústria cultural e os meios de comunicação de massa empurraram a
humanidade para uma nova e mais profunda forma de dominação. O
conceito de modernidade e suas conseqüências se bifurca para uma outra
percepção de mundo assumindo uma das características distintivas da modernidade
que é, de fato, uma “progressiva
interconexão entre os dois extremos de extensionalidade e de intencionalidade:
influências globalizantes, de um lado e disposições pessoais de outro”,
Abordando mais extensivamente Giddens verificamos que ele procura evidenciar
como as transformações introduzidas pelas instituições modernas se entrelaçam de
modo direto com a vida individual e, portanto, com o self. Contra o padrão de dependência, desorientação e perda de
controle usualmente evidenciado pelos modelos críticos da modernidade,
incluindo aqueles apontados acima, Giddens demonstra como, em condições de alta
modernidade, o self , assim como o
contexto social mais amplo no qual ele existe, devem ser reflexivamente
produzidos. O autor
desenvolve a sua argumentação articulando três eixos de análise que se
interpenetram: a reorganização de tempo-espaço, ao lado da radicalização dos
mecanismos de desencaixe - pelo que basicamente quer dizer que a suspensão de
relações sociais livres de determinações locais específicas se re combinam
através de longas distâncias de tempo-espaço; a referencialidade interna dos
sistemas sociais da modernidade -
aludindo à crença geral nas instituições modernas em criar ambientes de ação
ordenados em termos da própria dinâmica da modernidade, validados por critérios
próprios e rompendo com critérios externos; a reflexividade institucional - referindo-se à tendência das instituições modernas
em incorporar rotineiramente novos conhecimentos ou informações nos ambientes
de ação, os quais são por sua vez reconstituídos ou reorganizados. Nesta
verificação o pesquisador parte da premissa, que a modernidade expropria e que
a introdução das instituições modernas retira para organizações abstratas o
controle de questões cotidianas e existenciais que se encontravam mais
diretamente subordinadas ao controle dos indivíduos. No entanto, argumentando
que a impotência e a re-apropriação se interpenetram, demonstra como os
arranjos sociais modernos proporcionam uma série de oportunidades tanto em
nível individual quanto em nível coletivo para áreas de massivas
re-apropriações coletivas, conseqüentes da vida social moderna. Neste sentido,
os ambientes urbanos contemporâneos permitem o desenvolvimento de uma vida
pública cosmopolita, com mais oportunidades tanto para a associação com outros
de interesses semelhantes, assim como para o cultivo de uma maior diversidade
de interesses ou de demandas em geral, de modo não disponível em comunidades
mais tradicionais. Autores
que trabalham com o processo de urbanização e industrialização como Tönnies
afirmam que ele resulta da destruição da Gemeischaft
e conseqüentemente a destruição da comunidade tradicional. Essa distinção entre
comunidade e sociedade (ou associação) tem sido um ponto discutido sobre o
conceito de comunidade, seja on line
ou off line que já são estados
identificatórios do indivíduo Na obra clássica "Comunidade e
Sociedade" (1957) o autor
discute as transformações das relações sociais sob o impacto da modernidade e
elabora neste contexto dois conceitos: gemeinschaft
que diz respeito à comunidade tradicional, holista, homogênea, constituída
por membros que compartilham o território ao mesmo tempo que seus valores,
crenças e interesses do todo. As pessoas vivem em coesão, apoiam-se mutuamente
em qualquer ocasião e compartilham um senso orgânico de vida comum e têm como
valores básicos a família, a propriedade, o companheirismo e a solidariedade.
Em oposição ao primeiro conceito, Tönnies criou o que chamou de gesellschaft indicando o tipo de relação
que surge com a modernidade na qual desaparece a noção de comunidade solidária.
O autor lamenta que a comunidade homogênea tenha dado passagem para relações
mecânicas, transitórias e contratuais, racionalmente orientadas para interesses
específicos, marcadas pelos valores individualistas e pela crença no progresso.
Pós-Modernidade e Cibercultura
Não
pretendemos discutir a passagem para a Pós-Modernidade, muito menos
confrontá-la com a Modernidade, mas apresentá-la como uma era facilitadora do
surgimento de novas formas de contato e comunicação e no aparecimento de novas
tribos, as tribos cibernéticas, tecnológicas. Se a tecnologia apresentou-se na
Modernidade como um instrumento de separação, na Pós-Modernidade ela está sendo
um elemento fundamental para a o surgimento de uma nova cultura contemporânea,
a Cibercultura. Segundo André Lemos ela é o resultado da fusão das tecnologias
digitais e a "socialidade" pós-moderna., na qual buscamos uma nova
forma de agregação social, denominada por ele de agregação eletrônica "A
Cibercultura forma-se precisamente da convergência entre o social e o tecnológico,
sendo através da inclusão da "socialidade" na técnica que ela adquire
seus contornos mais nítidos. Não se trata obviamente de nenhum determinismo
social ou tecnológico e sim de um processo simbiótico onde nenhuma das partes
determina irreversivelmente a outra. A Cibercultura é a socialidade que se
apropria da técnica".[5] Esta
nova estética social alimentada pela cultura do ciberespaço, proveniente do
avanço de novas tecnologias e da desterritorialização, proporcionou o
aparecimento de diversas tribos eletrônicas formadas por indivíduos anônimos,
emancipados, livres para expressarem opiniões e fazerem do ciberespaço um lugar
anárquico e descompromissado de controle . A cibercultura nos abre o caminho
como indivíduos conectivos. Não abandonamos a coletividade mas partimos para um
novo momento: a era da conectividade, da interconexão. O
filósofo Pierre Lévy (Cibercultura, 1999, p: 127) o nosso pensamento com no livro Cibercultura no qual apresenta três
princípios fundamentais para o programa da Cibercultura: a interconexão, as
comunidades virtuais e a inteligência coletiva. Lévy afirma que a para a
cibercultura a conexão é sempre preferível ao isolamento, é um bem em si.. Para
além de uma física da comunicação, a interconexão constitui a humanidade em um
contínuo sem fronteiras. O segundo princípio prolonga o primeiro já que o
desenvolvimento das comunidades virtuais se apóia na interconexão. Uma
comunidade virtual baseia-se em afinidades de interesses, de conhecimentos, em
um processo de cooperação ou de troca, independente de proximidades
geográficas. Segundo Lévy o terceiro princípio, da inteligência coletiva, seria
sua perspectiva espiritual, sua finalidade última. Concordamos com o autor pois não há comunidade virtual sem
interconexão, não há inteligência coletiva em larga escala sem virtualização ou
desterritorialização das comunidades no ciberespaço e a interconexão
condiciona-as que são uma inteligência coletiva em potencial. Autores
como Tönnies lamentam que a comunidade homogênea tenha dado passagem para
relações mecânicas, transitórias e contratuais, racionalmente orientadas para
interesses específicos , marcadas pelos valores individualistas e pela crença
no progresso. Na mesma direção apontam as reflexões apresentadas por George
Simmel sobre o ethos cultural da vida
metropolitana, nas quais enfatiza-se a mobilidade moral e simbólica sem
precedentes da sociedade urbano-industrial, que expõe os indivíduos a sistema
de valores diferenciados e heterogêneos em relação ao mundo rural tomado como
referente. Neste sentido, se aproxima Simmel relacionando a atitude blasé, marcada pela indiferença e
reserva ao outro, com o excesso e diversidades de choques e estímulos da vida
urbana, o mundo rural se desenha como o espaço que se opõe a este ambiente metropolitano.
Desta forma, enquanto neste último as relações sociais se pautam pela
racionalidade, pelos interesses econômicos e pela individualidade - que faz os
homens parecerem frios e desalmados Simmel, no mundo pré-industrial há a
predominância das comunidades emocionais, de laços afetivos e relações
primárias, harmônicas e íntegras. Ao nosso
ver estes pensamentos são demasiadamente críticos e pessimistas. Não seria em
vão diversos autores afirmarem que nos últimos 10 anos, a Internet tornou-se a
ferramenta mais moderna de interação da vida contemporânea. Marc Augè constata
este pensamento ao ressaltar que o desenvolvimento sem precedente dos meios de
informação nos dá a sensação de que a história se acelera. O desenvolvimento
dos meios de transporte e de comunicação nos dá a sensação de que o planeta
está encolhendo. E na medida em que cada um é diretamente atacado pela
informação e pela imagem, na medida em que os meios de comunicação subsistem às
mediações, as referências individualizam-se ou se singularizam: cada um tem sua
cosmologia, mas cada um tem também a sua solidão. Há duas décadas os efeitos da
presença de um computador eram secundários, no sentido em que eles não eram
procurados pelo usuário comum. Hoje, as pessoas recorrem explicitamente aos
seus computadores pessoais (PC) em busca de experiências que possam alterar as
suas maneiras de pensar ou afetar a sua vida social e emocional. Por
outro lado, na concepção de Pierre Lévy as comunidades virtuais são os lugares
ideais de encontro para aqueles que compartilham afinidades uma vez que: A
Cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um laço social que não
seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais,
nem sobre relações de poder, mas sobre a reunião em torno de interesses comuns,
sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem
cooperativa, sobre processos abertos de cooperação. Segundo
Sherry Turkle algumas pessoas sentem-se encantadas por mundos virtuais que
parecem livres da desordem do real. Se uma pessoa receia a intimidade, mas
receia também a solidão, até mesmo um computador isolado (não conectado à uma
rede) oferece uma solução aparente. Interativo e reativo, o computador
proporciona a ilusão da companhia sem as exigências da amizade. Uma pessoas
pode ser solitária sem nunca estar sozinha. Uma referência à Steven Lukes e a
noção de privacidade, quarta idéia dos componentes do
individualismo": baseada na
existência privada no mundo público; uma área na qual o indivíduo é livre de
interferências e capaz de fazer e pensar qualquer coisa que escolha. Para Lukes
esta é a idéia central do liberalismo e que pressupõe uma imagem de homem para quem a privacidade é essencial, até
mesmo sagrada, para uma própria vida ser vivida. Em razão
das questões abordadas anteriormente consideramos em nosso trabalho a palavra
indivíduo. A medida em que nas sociedades individualistas há muitas pessoas
qualitativamente diferentes, uma massa anônima, formada de meros indivíduos,
assim como na CMC. Nos sites de relacionamento não encontramos sujeitos ou
pessoas identificáveis. Muito pelo contrário. Acreditamos que especificamente
esses sites propiciam movimentos em diversas direções: as pessoas renunciam
mesmo que provisoriamente seus nomes, profissões, para gozar e experimentar as
múltiplas oportunidades como meros indivíduos nos quais impera o vale tudo, ou
seja, a busca pelo namoro, amizade ou sexo, ou ainda todas ao mesmo tempo. Acreditamos que a compreensão do
indivíduo conectivo se dará mais facilmente dentro de uma história da própria
CMC. Já apresentamos que o ciberespaço, o virtual, é um "mundo"
criado por palavras, um mundo que na verdade vem existir através de linguagem
de computação. Além disso, o virtual é um mundo constituído por linguagem na
medida em que as relações e interações acontecem, grande parte por meio de
texto e diálogos e o que é mais importante; as pessoas são o que são,
personagens constituídos por palavras. Para Robert Park, não é provavelmente um mero acidente
histórico que a palavra "pessoa" em sua acepção primeira, queira
dizer máscara. Mas sim que todo homem está sempre e em todo lugar, mais ou
menos de forma consciente, representando um papel. Segundo ele, nesses papéis
que nos conhecemos uns aos outros; nesses papéis que nos conhecemos a nós
mesmos. "Em certo sentido, e na
medida em que esta máscara representa a concepção que formamos de nós mesmos -
o papel que nos esforçamos por chegar a viver - esta máscara é o nosso mais
verdadeiro eu, aquilo que gostaríamos de ser. Ao final, a concepção que temos
de nosso papel torna-se uma segunda natureza e parte integral de nossa
personalidade. Entramos no mundo como indivíduos, adquirimos um caráter e nos
tornamos pessoas" (Race and Culture, The Free Press, 1950:250) Não
existe, na verdade, um lugar físico onde o indivíduo cibernético atua. No
entanto, para ele os sites de relacionamentos são um local de encontro real.
Algumas vezes, alguém pode ser um “andarilho virtual”, ou seja, verificar os
recados sem manter relações sociais com as pessoas que estão naquele locus. Porém, na maior parte das vezes,
o usuário mantém uma certa assiduidade de conexão, e acessa com maior
freqüência os sites onde se sente mais à vontade e onde mantém contatos com
pessoas com quem deseja encontrar-se. E este é um ponto importante para
compreender-se como o ciberespaço, mesmo sem constituir-se um espaço físico e
geográfico, age como espaço onde as pessoas mantém relações sociais, procurando
pontos comuns. Por isso o ciberespaço é fundamental para a construção do
indivíduo cibernético. Conectividade e narcisismo
Margareth
Rago constata que a crescente homogeneização das aparências, possibilitada pela
produção maior de mercadorias, resulta num fechamento maior dos indivíduos em
si mesmos, temerosos diante da possibilidade de serem decifrados e devassados:
"as máscaras se transformam em rostos". Para
Margareth Rago paulatinamente os bares, tavernas, teatros e praças deixam de
reunir estranhos para conversas informais e passam a constituírem-se em espaços
de refúgio do indivíduo em busca da "solidão da diferença", isto é,
em busca da intimidade em meio à multidão. Penso que a Internet, é o meio no
qual se dá um processo semelhante, na busca pelo outro. Nos sites de
relacionamento, por exemplo, as pessoas encontram-se em um lugar que não existe
na realidade e a "solidão da diferença" deixa de existir. NOTAS [1]
Graduada em Comunicação Social - Habilitações: Jornalismo e Relações Públicas Mestranda do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
- UERJ Orientadora: Profª Dr ª
Regina Andrade - Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ [2]
Lévy, 1998. [3]
Ver Glossário [4]
Palácios, Marcos. 1998 [5]
Lemos, 1998.
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