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A Metodologia Recreação e Cidadania numa abordagem interdisciplinar

Autor/-a: Lisete Maria Massulini Pigatto


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Lisete Maria Massulini Pigatto
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Datos a partir del 03.03.2004. Artículo en el OCS desde el 09/09/2007

Introdução

Milênios antes da era cristã, a sobrevivência da humanidade dependia da força física do homem para caçar, defender dos inimigos a sua família e a sua comunidade. O cotidiano era uma sucessão de aventuras perigosas e os fenômenos naturais eram personagens cruéis no seu dia a dia. Tempestades, vulcões, secas, dilúvios pareciam aos ancestrais entidades ferozes e vingativas. Na impossibilidade de compreendê-los atribuíam dons sobrenaturais a esses fenômenos. O trovão era considerado uma entidade divina em varias culturas primitivas, diferentes e distantes entre si, assim como o vento e o fogo nas suas fantasias.

Na natureza, à medida que as manifestações foram consideradas entidades superiores, temperamentais, capazes de manifestar-se com fúria, surgiram os primeiros boatos e o medo acentuou-se. Posteriormente, apareceram às expressões sobre as verdades, as histórias, as personalidades, os feitos, as alianças e as inimizades entre as entidades. As histórias desses fenômenos foram transcritas oralmente por gerações. No processo foram aumentadas, adaptadas, combinadas e reformuladas de acordo com os objetivos.

Assim, surgiram os mitos , uma palavra de origem grega que significa narrativa, pois o mito foi há primeira criação espiritual do homem, afirma Froner (2007, p.2). Nas comunidades antigas o mito dava sentido à vida pelas suas vivencias, pela sua linguagem composta por símbolos e metáforas. Os relatos transmitidos oralmente continham muita sabedoria. Em virtude disso ganharam a imortalidade histórica, pois ajudaram o homem a compreender certos mistérios e demonstrar a sua realidade interna. Dessa forma ao mito associou-se o rito, e a este o seu modo de se pôr em ação ao mito na vida do homem, como as cerimônias, as danças, as orações e os sacrifícios como na mitologia grega, romana e na evolução da humanidade. O reconhecimento dos mitos auxilia na manifestação do inconsciente, traz uma consciência mais madura que contribui com as experiências e a humanização.

Sócrates, quando se referia ao mundo, costumava compará-lo a uma grande caverna. No mito da caverna os seus moradores viviam presos pelo medo, pois eram condicionados a olhar apenas há frente. Arriscar voltar à cabeça para a saída da gruta era perigoso, arriscado demais, pois não avistavam nada, além das sombras. Nesta passagem percebe-se o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica. Onde se imaginam os homens encerrados numa morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Dessa forma percebe-se a infância e a escola, onde os alunos têm as pernas presas, de modo que permaneçam imóveis e só percebam o obvio aquilo que está diante dos olhos. Devido aos condicionamentos sociais, não podem voltar o rosto, criar ou pensar diferente, pois atrás deles existe a educação tradicional, as suas regras e as normas.

A concepção de infância apresenta uma noção que passa a ter forma a partir dos séculos XVII e XVIII. Um valor cultuado pelos nobres e pela burguesia, os quais investiam na infância dos filhos, pois manifestavam aspirações futuras com relação a eles. Até então, a infância não tinha valor, logo que dispensavam os cuidados da mãe eram incluídos no mundo, como pequenas miniaturas adultas, sem uma devida atenção específica para esta fase.

Os filhos da classe erudita, ao contrário, estudavam durante muito tempo para alcançar os conhecimentos que só podiam aprender quando o espírito tivesse atingido um determinado grau de desenvolvimento e tivessem maturidade para lidar com determinadas questões.
Devido às rápidas transformações, filósofos e educadores procuravam compreender a infância como uma fase importante, distinta e particular na vida do ser humano. O pensamento pedagógico moderno ganhou uma dimensão significativa no séc. XVI e XVII, tendo como primeiro estudioso Comenius (1592-1670), que valorizou a criança como um ser de vontade própria, com necessidades de utilizar material e atividades diferentes nas fases distintas.

Rousseau (1712-1778) tornou-se um conhecido pedagogo, pois colocou a criança no centro da proposta pedagógica. Considerava a infância como “um período necessário à formação do homem.” Buscou a superação da educação tradicional, do ensino livresco, formal e rígido. Preconizava um mundo otimista e alegre, com uma educação que privilegiasse a autonomia, a liberdade e o respeito mútuo. Insistia na necessidade de que se respeitasse o ritmo de cada criança e suas vivências. Considerava a natureza, juntamente com os aspectos biológicos, como fatores importantes, os quais até hoje influenciam o processo ensino-aprendizagem, especialmente nos estudos relacionados às crianças, em que respeitam o ritmo e as suas experiências. Na sua concepção a criança não pode ser vista como um adulto.

O conceito de infância depende do contexto em que a criança está inserida. Não existe um conceito único de infância e de criança, pois a estratificação social, as diferentes culturas nas diferentes épocas influenciaram na construção deste conceito. Na percepção de Kramer (1992 p.19), “a idéia de infância não existiu sempre, e nem da mesma maneira”. Aparece com a sociedade capitalista urbano-industrial à medida que muda a inserção e o papel da criança. Os autores citados são os pioneiros da infância, importantes para a compreensão do processo de aceitação e reconhecimento, pois cada um percebeu a criança de acordo com o seu tempo.

A educação do novo milênio aponta a escola, como uma instituição voltada para o desenvolvimento da cidadania desde a infância. Na qual, não se questiona apenas a inteligência, os conteúdos e o currículo, mas a formação da pessoa humana no contexto. O desenvolvimento dos sonhos daquele que compartilha do nosso cotidiano. A descoberta dos saberes, dos temas universais, como a vida, o amor, a união, o perigo e tantos outros. Os métodos, as técnicas e a sua aplicabilidade como uma estratégia para se chegar à essência do ser. A rapidez, o excesso de informações atinge a civilização contemporânea e a infância com vulnerabilidade. Provocam a desvinculação do afetivo pela fusão entre espaço, tempo e velocidade, pela ruptura das relações intersubjetivas. Assim, se faz necessário fortalecer os vínculos pessoais, sociais e oferecer-lhe a possibilidade de sonhar com um mundo melhor.

A OEA, Organização dos Estados Americanos declarou a “Década das Américas: pelos direitos e pela dignidade das pessoas com deficiências” para o período de 2006-2016, elegeu como tema: igualdade, dignidade e participação. A declaração visa alcançar o reconhecimento, o pleno exercício dos direitos, da dignidade das pessoas.

A oportunidade de participar de fato e não apenas de direito da vida econômica, social, cultural e política. Do desenvolvimento da sociedade, em situação de igualdade. A isso se chama de Inclusão social, pois na realidade todos nos, de uma forma ou de outra, encontramo-nos incluídos em função das nossas carências, dificuldades ou potencialidades. As quais nem sempre se manifestam na aparência externa, mas na subjetividade pelos nossos hábitos e atitudes, de acordo com o comportamento. Nessa dimensão está a grandiosidade do projeto de inclusão social, instigar os acordos e as parceiras numa para a humanização entre os seres.

De acordo com a Organização dos Estados Americanos, OEA , cerca de 90 milhões de pessoas com deficiência vivem nos países da região, e, destas, 82% sobrevivem abaixo da linha da pobreza, sendo que a maioria delas são crianças. As pessoas com deficiência estão em todos os lugares, mas, freqüentemente encontram-se excluídas de suas comunidades por barreiras físicas, políticas, culturais, sociais, econômicas e de atitude, entre outras. Com o advento da Convenção dos Direitos das Pessoas com deficiência, aprovada pela Organização das Nações Unidas, ONU, a deficiência e os cidadãos com deficiência passaram a ser formalmente considerados uma questão de Direitos Humanos. No “ciclo da invisibilidade”, as pessoas com deficiência encontram-se excluídas, inclusive, das políticas públicas voltadas para os mais pobres, porque, com freqüência, os governos, as empresas e as organizações de cooperação internacional, buscam soluções para a pobreza e só depois para a deficiência.

No Manual sobre desenvolvimento inclusivo, RJ, Brasil: WVA Editora, 2005. O ciclo da invisibilidade obedece a seguinte lógica: as pessoas com deficiência não conseguem sair de casa e, portanto, não são vistas pela comunidade; Por não ser vista deixa de ser reconhecida como parte dela; Por não ser reconhecida como parte dela, os direitos e serviços, não é considerado um problema para a comunidade enfrentar e resolver; desta forma, sem acesso a serviços, não há como serem incluídas na sociedade; Uma vez não incluídas na sociedade, continuam sem identidade, alvo de freqüentes discriminações e maldades.

Além de todo o contexto, enfrenta-se no país uma crise de natureza estrutural. Uma crise nas finanças públicas, no modelo de gestão e no padrão de desenvolvimento. As crises produzem graves conseqüências na prestação de serviços públicos sociais, na infra-estrutura, na competitividade, na economia e no desempenho dos indicadores de qualidade Por outro lado o contexto socioeconômico, a situação política em que se encontra o país e a polarização ideológica cede lugar a um clima de discussão. Independente disso há um consenso social de que o momento é propicio para promover um pacto de todas as forças políticas e sociais em torno de uma agenda mínima de medidas convergentes que possam promover as mudanças necessárias, desenvolvendo no país um grande projeto de inclusão social.

Fundamentados no princípio de que o vínculo pobreza-deficiência é inquestionável, o enfoque do desenvolvimento inclusivo torna-se um instrumento valioso para elaboração e a implementação de políticas públicas de combate simultâneo à pobreza e à discriminação.

Nesta proposta de desenvolvimento inclusivo, as políticas públicas devem ser elaboradas de maneira transversal, sempre levando em consideração as pessoas e as suas peculiaridades. No intuito de que se minimize a distancia entre a teoria e a prática para consolidá-la. Nessa perspectiva, a inclusão social pode ser entendida como uma política, uma filosofia, uma ideologia que vem desenvolvendo-se no mundo em prol da melhoria da qualidade de vida de todos os seres humanos no planeta. Tem como objetivo favorecer o desenvolvimento da pessoa humana, independente das suas potencialidades ou dificuldades com acessibilidade na diversidade. A qual busca promover a integração das pessoas por meio da ação dinâmica da escola e da sociedade para que ocorra a transformação social.

O movimento mundial para incluir instiga todas as pessoas a olhar para há escola como uma instituição capaz de favorecer o desenvolvimento do processo inclusivo com eficácia. Dessa forma, reforça a idéia de que o exercício dos direitos das pessoas passa pela ampliação, pela adaptação dos tempos e dos espaços sociais. Pela possibilidade das pessoas falarem e agir por si mesmas, com independência e autonomia. Defender a sua opinião, aprender a escutar, a conhecer, a fazer, a conviver com o outro com respeito e compreensão. Sendo que este trabalho realizado de forma interdisciplinar e multidimensional pode ser percebido como uma mobilização pela humanização. Como uma sugestão para a inclusão de todos ao sistema, como um exercício democrático pela superação e pela emancipação do ser.

Constantemente, temos nos manifestado a favor da inclusão social, no intuito de mobilizar, sensibilizar e conscientizar a sociedade. Aos governos sobre os direitos fundamentais para garantir a cidadania plena, salientando os princípios que norteiam a inclusão social. O projeto é fruto dessas inquietações, pois tem como objetivo desenvolver a aprendizagem e a cidadania pró-ativa nos alunos. Utiliza a metodologia Recreação e Cidadania numa sucessão de temas ações e atividades educativas, conjuntamente com a Educação Fiscal numa proposta de educação emancipadora. Justifica-se pela ousadia, pela busca constante de informações e conhecimentos que são trabalhados por meio do diálogo e da problematização. Devido aos resultados significativos que apresenta com relação a aprendizagem, aos estímulos, a motivação e as oportunidades frente aos desafios enfrentados e principalmente por acreditar nas potencialidades dos seus alunos e os professores.

Em virtude disso, nessa pequena amostra de trabalho, percebe-se a importância do professor como um elemento mediador, fundamental no processo de ensino aprendizagem numa perspectiva inclusiva, pois o professor é capaz de instigar a aprendizagem e desmistificar muitas hipóteses levantadas. A grande maioria dos educadores concorda que a construção do conhecimento se dá de forma dinâmica e progressiva, ampliada a partir das experiências de vida e dos desafios intelectuais do aluno, mas é pela dinâmica do professor que este desenvolve habilidades, competências e leva a pessoa a sua integralidade como cidadão.

Nos meios educacionais a busca por novas metodologias e modos de avaliação é uma constante em função do processo inclusivo. A qual não se modificará por meio de leis e decretos, mas a partir da realidade social que se enfrenta e da ousadia do professor.

O processo de ensino aprendizagem representa o compromisso do professor em favorecer o desenvolvimento do aluno. Acompanhar o processo de aprendizagem, intervir, dialogar, problematizar a realidade com desafios, explicações e encaminhamentos pedagógicos. O processo avaliativo visa formar e emancipar o aluno para a cidadania pró-ativa. Manifesta-se de forma preventiva no sentido de que seja feita, uma atuação constante às potencialidades e dificuldades apresentadas pelos alunos. De forma que consiga conviver, adaptar-se ao meio e organizar a sua vida futura. Contempla a qualidade e a quantidade, favorecendo uma analise global do seu desenvolvimento.


1. O Projeto Recreação e Cidadania

O presente trabalho é uma experiência educativa que investiga as “Contribuições da Metodologia Recreação e Cidadania no processo de ensino aprendizagem” na Sala de Aula, nos Ambientes de Recreação e nas Oficinas de Sensibilização. A qual utiliza a Educação Fiscal como estratégia para chegar à integralidade do ser. Desenvolve-se com os (as) alunos (as) da 1ª a 9ª série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Edy Maia Bertoia, em Santa Maria, RS, numa Linha de Pesquisa em Políticas Públicas Educacionais.

Apresenta como eixo temático a Escola, o Estado e a Cidadania. Para realizar a pesquisa organizou-se um Programa de quatro anos abordando o saber e o saber ensinável, na área das Ciências Humanas, que prevê a Educação do Indivíduo e a sua Inclusão Social. No ano de 2004, trabalhou as questões referentes à Cidadania na perspectiva do Sistema e da Ordem. No ano de 2005 organizou um passeio pela Cidadania e pela Democracia acompanhadas pela Educação Fiscal e no ano de 2006 desenvolveu as questões relativas à Prefeitura, ao Banco, ao Empreendedor, salientando o relacionamento humano. No ano de 2007, abordou-se o cidadão no exercício efetivo de suas atribuições numa perspectiva inclusiva. Assim, além de resgatar a teoria e a prática das atividades anteriores, trabalhou-se com as primeiras noções sobre a redação oficial, as empresas e o projeto de vida.

O trabalho com a Recreação como metodologia para construir Cidadania, já se desenvolve na escola há quatro anos e justifica-se pelos estímulos, pelos motivadores e pelas oportunidades de ensino aprendizagem que proporcionou aos alunos e aos professores. O objetivo deste trabalho foi de despertar no aluno a Cidadania e o Programa da Educação Fiscal trouxe com ele o vínculo que faltava. O objeto do desejo, o foco da atenção e da concentração, “a moeda” e a oportunidade de aprender a lidar com o sistema. A partir deste programa se organizou um Planejamento Educativo para o desenvolvimento da cidadania e a Inclusão Social. De forma recreativa, associada ao calendário escolar e aos conteúdos concomitantemente. Provocou uma mudança de atitude na linguagem e no comportamento pelas dinâmicas promovidas independente das suas dificuldades de aprendizagem e adaptação social, pois cada um produziu de acordo com as suas potencialidades.

A Metodologia da Recreação e Cidadania requer um planejamento com a visão comprometida na educação integral do aluno. Que tenha metas e objetivos definidos de forma flexível. Organizado na forma de temas, ações e atividades educativas que contemplam um resultado esperado. Onde o aprender, o conhecer, o fazer e o conviver integram-se aos saberes que formam e emancipam o aluno. Contribuem para o exercício da cidadania pró-ativa, consciente, para a prática dos valores éticos, induzem a reflexão, a analise e a problematização de forma crítica. Nesse trabalho o professor atua como um mediador, instigando o aluno a iniciar-se no trabalho científico de forma recreativa.

A descobrir o problema, elaborar hipóteses, construir objetivos, buscar uma fundamentação teórica e criar alternativas para resolvê-los. A proposta pedagógica da escola onde se desenvolve o “Projeto Recreação e Cidadania” alicerça-se em 5 competências que favorecem o desenvolvimento integral da pessoa humana, que são: aprender a conhecer, a fazer, a conviver, a ser e a comunicar-se. A sua missão é trabalhar pela qualidade no processo de ensino aprendizagem e tem como visão a educação integral do aluno. Busca a satisfação da comunidade escolar com criatividade, liberdade e co-responsabilidade social no intuito de promover a aprendizagem e a inclusão social.

Aprender de forma recreativa provoca um desbloqueio emocional e ajuda a desenvolver as habilidades e as competências nos alunos, estimulando o desenvolvimento da sociabilidade. Recrear de forma sistematizada oportuniza ao aluno dialogar, elaborar e resolver os problemas. Vivenciar a experiência e a organizar-se, projetar e exercitar a sua vida futura, com mais tranqüilidade e segurança. Desta forma melhora consideravelmente o raciocínio lógico, instiga a pensar antes de agir, motiva os acordos e as parcerias, a tomar atitudes coerentes, de acordo com os objetivos propostos.




2. A experiência: O que tem por trás do bolo?

No mês de junho realizou-se na escola uma Oficina de Sensibilização com os filmes: “A Cidadania e Documentos Fiscais” e o “Orçamento e a Aplicação de Recursos” com o objetivo de trabalhar o tema: “O Bolo”. Após a escuta e a reflexão sobre os filmes se descobriu que tudo existe em função do ser humano, pois somos partes desse universo, dessa diversidade, que se encontra num processo de desenvolvimento e aprimoramento.

A educação contemporânea é percebida como um processo horizontal, que se dá ao longo de toda a vida. Dessa forma procura desenvolver as habilidades, no intuito de formar as competências e assim sucessivamente, para que os alunos possam exercitar a cidadania.
Assim, o desafio foi lançado com a seguinte pergunta:

- O que tem por trás do bolo?
- Impostos! Viu que eu sei Tia. Argumentou o menino. Feliz da vida, por conseguir elaborar a resposta, recebendo os cumprimentos dos colegas.
- Muito bem! Respondi, mas não é só isso.
- O que tem a mais, por trás do bolo? Logo os elementos que compõem o bolo começaram a surgir. Dessa forma começou a nossa pesquisa e as grandes descobertas. Na aula seguinte, conforme o combinado se fez um bolo de caixinha no Ambiente de Recreação ou diga-se, na cozinha da escola.

Desta forma inter, transdiciplinar e multidimensional trabalhou-se a importância da leitura, da escrita e da reflexão para a ação e a transformação. A importância das receitas no seu contexto histórico. Os seus componentes, a composição química, para que serve e o modo de como fazer. As quais foram desenvolvidas posteriormente com maiores detalhes, de acordo com o interesse dos alunos na Sala de Aula pelos professores.

Na Matemática abordaram-se as medidas, as quantidades, as frações e as porcentagens aplicadas nas taxas dos impostos. A evolução do bolo foi levantada nas disciplinas de História e Geografia. O compartilhar nas aulas de Religião, os componentes químicos nas aulas de Ciências. A interação dos elementos nas atividades recreativas nas aulas de Educação Física. A tradução e a versão das receitas nas aulas de Inglês. A arte final, bem como as embalagens nas aulas de artes e informática educacional.

A análise do processo foi realizada nas aulas de Português, na qual fizeram muitas descobertas sobre o bolo. Na operacionalização da receita os ingredientes foram substituídos e o bolo se partiu. As hipóteses foram levantadas e argumentadas. O leite foi substituído pelo suco da laranja, ao invés de três ovos foram colocados apenas dois, o que resultou na falta de liga e houve um excesso de gordura de acordo com a receita. Em decorrência disso aprenderam a fazer uma Carta Comercial para comunicar-se com o fabricante e as demais pessoas sobre as devidas conclusões e sugestões. Tiveram acesso ao Código de Defesa do Consumidor, reconhecendo os seus direitos e exercitando a sua cidadania pró-ativa.

As Séries iniciais trabalham nessa mesma perspectiva de acordo com o potencial do aluno, com algumas palavras, frases, receitas e problemas. Descobriram que com apenas dois reais é possível fazer um bolo. Contribuir com os impostos e receber em troca benefícios sociais. Perceberam que se faz parte de um sistema, o qual pode ser melhorado de acordo com a nossa participação. A seqüência do trabalho foi acompanhada com jogos e brincadeiras no Ambiente de Recreação Informatizado e nas Oficinas de Sensibilização, destacando a importância da leitura, da escrita, da reflexão, do cálculo e da problematização para internalizar valores, descobrir o outro, a vocação profissional e dar início ao Projeto de Vida.

O sucesso deste trabalho confirma a relevância da Metodologia Recreação e Cidadania no processo de ensino aprendizagem. A necessidade de favorecer o desenvolvimento da cidadania pró-ativa, a importância da gestão do professor na sala de aula, na forma de estabelecer acordos e parcerias com os alunos por meio do exercício da Educação Fiscal.

Para desenvolver este trabalho foi preciso planejamento, muito esforço, dedicação e disciplina. Estímulos, motivação e um trabalho de equipe, sincronizando todos os envolvidos na busca de um resultado significativo, desmistificando muitas teorias. A dinâmica desenvolvida esteve fundamentada numa relação de afeto, cognição e prazer comprovando que é possível desenvolver a humanização com acessibilidade na diversidade numa perspectiva inclusiva.

O projeto apresentou uma proposta de educação emancipadora, integrando teoria e prática concomitantemente, associada aos seus interesses dos alunos. No entanto, a Escola cabe vislumbrar uma Cultura voltada ao exercício da Cidadania pró-ativa. Instigar o desenvolvimento de lideranças capazes de estimular, motivar e participar com espírito democrático, pois o aluno de hoje é o Gestor (a) do Estado do amanhã.

Era o que Paulo Freire (1971) queria pelo diálogo a busca da autonomia pelo conhecimento científico, técnico ou pelo experencial. Ao problematizar o conhecimento os alunos redescobriram a importância da escola e resgataram a confiança no professor. Puderam constatar que a aprendizagem na escola reflete a vida exige lá fora. A pesquisa revelou também que as dificuldades de aprendizagem e adaptação social não se encontravam apenas no aluno, mas no contexto. Os resultados foram surpreendentes, pois além de trazer a família de volta para a escola, nos descobrimos como seres humanos, capazes de nos emancipar.



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(c) Lisete Maria Massulini Pigatto, 09/09/2007