INTRODUCCIÓN / RESUMEN
O trabalho busca estabelecer as marcas e condicionantes sociopolíticas do ambiente comunicacional formado pelo conjunto das mídias contemporâneas, que denominaremos noosfera midiatizada. Nossa hipótese é que se à primeira vista esse “lugar” parece estar disperso, neutro e intocável na atmosfera digital, na realidade ele vincula-se essencialmente aos interesses e disputas da sociabilidade presencial, articulada pelos interesses capitalísticos. Nesse sentido, com esta revisão de caráter teórico também visamos à caracterização da sociabilidade intrínseca a essa noosfera midiatizada e seus rebatimentos no mundo sensível, discutindo-a pelo viés da política, ou da noopolitik. São abordadas questões como identidade, cidadania, movimentos sociais, apropriações e usos político-governamentais, mercado e mídia.
1. Introdução
A oralidade nos confinava. A escrita nos dispersou. A imprensa nos espalhou. A telemática nos globaliza (1). No centro de disputas de poder político e econômico, ou na prosaica luta pela sobrevivência, os atos comunicacionais nos dão identidade - a comunicação nos faz Humanidade.
Começamos nossa caminhada presos ao chão limitado das tribos. Com a codificação da linguagem e a fixação dos saberes em suportes materiais, ampliamos nossos espaços de convivência, construímos cidades, impérios, Estados.
Quando a mensagem se digitalizou, compondo-se aqui, desintegrando-se em combinações incontáveis de zeros e uns, deslocando-se à velocidade da luz, e materializando-se instantaneamente em qualquer lugar, estamos no planeta, ocupamos o globo.
Buscamos aqui, especificamente, a caracterização dessa noosfera comunicacional, que estabelece relações socioeconômicas, políticas e culturais globais, discutindo-a pelo viés da política, a partir de temas como identidade, cidadania, movimentos sociais, apropriações e usos políticos e governamentais, mercado e mídia.
2. Noosfera midiatizada (2)
O conceito de noosfera foi elaborado no início do século passado pelo francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) (3). Crente da possibilidade e da vocação comum de ação compartilhada em benefício de uma nova Humanidade, o pensador cunhou um conceito que evoca o compartilhamento de idéias e pensamentos como oportunidade de se alcançar um mundo melhor.
De pronto, vale evidenciar a diferenciação entre cultura e noosfera. Sodré (2002) relaciona cultura com a ética: "é um modo de relacionamento com o mundo real, visível numa variedade de repertórios (representações, idéias, mitos, saberes) circulantes na vida real". Noosfera, esclarece, é "meio-ambiente vinculado a ecossistemas intelectivos ou ethos auto-organizado e mediador das relações de saber entre os sujeitos humanos e do indivíduo consigo mesmo" (p. 132).
2.1. A marca da midiatização
O conceito com o qual trabalharemos para buscar uma reflexão acerca da contemporaneidade amplia-se para além daquele original. Castells (2003) reporta-nos uma noosfera como "ambiente de informação global, que inclui o ciberespaço e todos os outros sistemas de informação - a mídia, por exemplo" (p. 132). Denominaremos tal espaço de noosfera midiatizada.
Tal escopo nos oferece base para estudarmos fenômenos, ocorrências e eventos que integram um mesmo movimento socioeconômico e político: a midiatização das relações sociais, baseada nas novas tecnologias de comunicação e sustentada pelo capitalismo cultural (4).
Estamos mergulhados naquilo que Castells (2001) denominou de "cultura da virtualidade real". Cultura engendrada por um sistema de comunicação "em que a própria realidade (a experiência simbólica/material das pessoas) é inteiramente captada, totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais no mundo do faz-de-conta, no qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora da experiência, mas se transformam na experiência" (p. 395).
O sistema de comunicação engendrado pelas tecnologias digitais desenvolvidas nos últimos 50 anos, que padronizaram a produção e a emissão de conteúdos e re-uniram as modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicação humana, por sua abrangência, penetração, extensão e inclusividade, passa a ser, de forma crescente, a base e a referência para a produção e a troca de símbolos, ou seja, para a experiência de realidade. Crescentemente, vivemos a partir de uma versão do mundo.
De acordo com Sodré (2002), as tecnologias digitais de comunicação viabilizam a instituição de um ethos (costume, hábito, regra, espaço de realização da ação humana) midiatizado na contemporaneidade. A sociedade atual "rege-se pela midiatização, pela tendência à 'virtualização' ou telerrealização das relações humanas" (p. 21), conclui.
Ao analisar especificamente os ambientes digitais (Internet e realidades artificiais e interativas), Sodré aponta a conformação de um novo bios, ou um quarto âmbito existencial (5): o "bios midiático", "um novo modo de presença do sujeito no mundo". O espaço virtual faz mais que replicar a realidade, ele oferece uma realidade lida, construída, mas que ainda pode ser modificada por operações viabilizadas por softwares. A Internet, por potencialmente interativa e concretamente amalgamadora das faculdades comunicacionais humanas até então dispersas em mídias estanques, faz emergir uma sensação de vida - ou um modo de vida pleno (6).
2.2 - Negócio capitalístico
A midiatização, possibilitada pela confluência das mídias lineares, ou tradicionais, atualizadas pelas novas tecnologias, e as originalmente digitais, avisa Sodré, surge com a imposição do valor máximo à informação enquanto capital e constitui uma tecnologia societal empenhada num outro tipo de hegemonia ético-política. Não é uma simples tecnologia da inteligência. A midiatização, pensada como tecnologia de sociabilidade ou de um novo bios, faz prevalecer a esfera dos negócios, com uma qualificação cultural própria, a tecnocultura.
Nesse sentido, para Moraes (2003), as corporações de mídia, que suportam a noosfera comunicacional, exercem uma dupla função na contemporaneidade: além de ser agentes operacionais e discursivos da globalização, produzindo uma cultura específica e cultivando consciências ajustadas aos interesses neoliberais, apresentam-se como uma das mais vigorosas máquinas da produção capitalista.
A noosfera midiatizada, envolvendo TV aberta e por assinatura, a cabo e por satélite, jornais, revistas, livros, rádio, Internet, cinema, quadrinhos, games etc., centrada na informação e no entretenimento, configura-se como um dos maiores empreendimentos do capital transnacional.
Os conglomerados de mídia contribuem para dar novo vigor ao modo de produção capitalista. Gitlin (2003) afirma que os EUA possuem um Banco Mundial de estilos e símbolos e um Fundo Cultural Mundial de imagens, sons e celebridades. Segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers, os gastos com mídia e entretenimento cresceram 8% em todo o mundo em 2004, alcançando U$ 1,3 trilhão. Foi o maior aumento desde 2000. Em sua sexta edição, o Global Entertainment and Media Outlook: 2005-2009 (7), produzido pela mesma empresa, que analisa os 14 maiores segmentos da indústria em cinco regiões do mundo - América Latina, Estados Unidos, Canadá, EMEA (Europa, Oriente Médio e África) e Ásia/Pacifico -, anuncia que a indústria cultural registrará uma taxa média anual de crescimento de 7,3% no período estudado. O movimento previsto é de US$ 1,8 trilhão em 2009.
A mídia é um negócio que, se guardava alguma peculiaridade em relação aos colossos do capitalismo, a partir dos anos 90, quando sua função extrapolou a simples oferta de notícias e entretenimento para ocupar o espaço da produção biopolítica e ser um dos grandes negócios do capitalismo em seu estágio atual, entrou na mesma lógica de produção de hambúrgueres e carros, considera Moraes.
Todas investem e atuam em mercados globais, organizam-se em corporações, constituem alianças e parcerias que potencializam lucros, diminuem custos e compartilham know-how e conteúdos, explorados em suas potencialidades multimidiáticas até mesmo por empresas que são concorrentes. A ordem é o lucro estratosférico, exatamente como em outros ramos do capital.
Gigantes dominam o negócio da mídia no mundo - a maioria delas sediada nos Estados Unidos. De acordo com Moraes, há uma concentração inaudita da mídia nas mãos de cerca de duas dezenas de conglomerados, com receitas entre US$ 5 bilhões e US$ 30 bilhões. Tais empresas, dentre elas a AOL-Time Warner, Vivendi Universal, Disney, News, Bertelsmann e Viacom - as seis primeiras do ranking de mídia e entretenimento -, veiculam dois terços das informações e dos entretenimentos disponíveis no planeta.
A revolução da linguagem digital, que hibridizou os antes distintos mundos do texto, da imagem e do som, as megafusões e parcerias, a rede mundial de comunicação, a informacionalização da produção, a concentração quase oligopolizada de produção e emissão de conteúdos e a desregulamentação dos mercados locais são a base para a configuração da noosfera comunicacional, hoje bem distinta do espaço de elevação intelectual vislumbrado por Teilhard de Chardin no início do século passado.
3. A emergência da noopolitik
A filosofia ressalta a importância do mundo das idéias, conferindo-lhe não apenas o status de oposição ou de complemento ao mundo das coisas, mas uma existência própria, mesmo que não desvinculada da chamada realidade concreta. Relembrando Platão, "para quem o mundo sensível não é mais do que imagem de essências ou idéias", Sodré (2002) afirma que o "pensado torna-se força-motriz".
Impossibilitados de enxergarmos uma dicotomia entre os processos sociais realizados no âmbito da noosfera midiatizada e as relações estabelecidas no âmbito presencial, é fundamental que reflitamos sobre a prática política engendrada na ambiência comunicacional, que mantém relação original e intrínseca com as batalhas, lutas e artimanhas do mundo das coisas, e vice-versa.
De acordo com Castells (2003, p.132), a noopolitik refere-se às questões políticas engendradas ou suscitadas pela noosfera comunicacional que se estabelece na contemporaneidade. Para ele, a noopolitik não anula a realpolitik - "abordagem tradicional em termos de promoção do Estado na arena internacional, mediante negociação, força ou uso potencial da força" -, mas lhe pode ser contraposta. Na Era da Informação, afirma, a realpolitik se mantém, mas permanece circunscrita ao Estado, "numa era organizada em torno de redes, inclusive redes de Estados".
A ação e a interferência na noosfera contemporânea, "o sistema de comunicação e representação em que as categorias são formadas e os modelos de comportamento, constituídos", são determinantes para qualquer projeto político, considera Castells. "Num mundo caracterizado por interdependência global e moldado pela informação e a comunicação, a capacidade de atuar sobre fluxos de informação, e sobre mensagens da mídia, torna-se uma ferramenta essencial". Pela vivência que propicia e pelo eco de suas ocorrências no mundo de relações presenciais, a noosfera midiatizada oferece "capacidade real de intervir no processo de representação mental subjacente à opinião pública e ao comportamento político coletivo".
Essa noosfera oferece alguns desafios aos agentes políticos da atualidade. O primeiro deles é conectar-se a esse ambiente midiático, corporificado pelas mídias tradicionais e pela Internet. Há que se aprender a sua gramática própria, codificada pelo tempo real, pelo efêmero e pela dramatização e emoção, dentre outros, o que, diga-se, parece-nos extremamente exótico ao modus operandi da política republicana, baseada no processo e na razão, para citarmos apenas duas de suas características essenciais.
Abarcando todas as expressões culturais e se tornando, crescentemente, a referência para a constituição da subjetividade, da percepção de realidade (experimentação de emoções, construção de saberes, convivência), a noosfera midiatizada impõe um sistema de presença/ausência, estar/não-estar.
Não se presume um receptor inerte, consumido conteúdos passivamente. A mensagem pode até ser modificada, transformada ou subvertida, mas o fato principal é: ficar fora dessa atmosfera comunicacional é estar fora da instância que mobiliza o inconsciente coletivo - é inexistir. A seguir, analisaremos alguns elementos estruturantes da ação política no ambiente da noosfera midiatizada, ou da noopolitik.
3.1 - Noosfera midiatizada e identidade
Entendendo-se identidade, individual ou coletiva, como um processo social em intermitente estado de constituição, que se dá essencialmente por intermédio de atos comunicacionais - lembrar e esquecer sobre um passado, pautado pelos interesses do presente e com vistas a um futuro desejável (8) -, é de se questionar o que está acontecendo diante de profundas mudanças que se verificam na contemporaneidade.
Primeiramente, necessário se faz estabelecer a importância da identidade como ato e fato político. As identidades estão na base da constituição das comunidades imaginadas, sejam elas povos, etnias, raças, Estados-nação, aldeia global (9). Por trás da estratégia de delimitação, auto-conscientização e diferenciação de identidades/comunidades está o projeto de poder político, econômico e/ou bélico.
Diz Weber (2001), ao analisar a conformação do conceito de nação, que a um grupo unido por uma comunidade de língua, de costume ou de destino, vincula-se a "idéia de organização de uma unidade política poderosa própria, já existente ou ainda aspirada, e que se torna tanto mais específica quanto mais ênfase se põe no poder" (p. 277).
Sendo a construção e reprodução de identidades um processo eminentemente baseado em diálogos comunicativos, abertos e dinâmicos, pode-se até salientar que as emissões midiáticas favoreçam a produção de níveis crescentes de complexidade cultural. A mídia potencializaria o jogo da identidade, à medida que expande o espaço de comunicação e aumenta o número de redes comunicativas, afirma Maia (2000). No entanto, tal reflexão nos pareceria perfeita se estivéssemos num mundo em que sociabilidades, espaço, tempo e comunicação - fatores determinantes da identidade - não se encontrassem em plena convulsão e sob domínio dos interesses capitalísticos.
A comunicação, como já salientamos, é negócio estratégico e preposto ideológico do capitalismo. A vivência presencial se enfraquece com a instituição do espaço global, a desarticulação da sociedade civil, a privatização dos lugares públicos e o desmonte da política moderna. Os valores são substituídos por desejos, criados pela mídia e satisfeitos com o consumo (10). O tempo real desarticulou as referências de passado, presente e futuro, essenciais à formação de lembranças e projetos políticos.
Parece-nos mais plausível, apesar de também mais triste, mas politicamente fundamental, a visão de que vivemos um tempo de absoluta volatilidade de caracteres, de identidades cambiantes, forjadas na fábrica midiática e do consumo, sustentáculos do capitalismo cultural, num regime de sociabilidade marcado pela fragilidade dos laços comunitários e dominado pelo individualismo.
Na contemporaneidade, a comunidade imaginada do Estado-nação, frontalmente contrária ao programa transnacional do capitalismo, padece sob ataque neoliberal, principalmente na periferia do poder hegemônico mundial.
As formas "voluntárias" de comunidades menores são articuladas basicamente em busca de segurança, da proteção do outro, ou em torno de eventos midiáticos e personalidades. Mas há também as comunidades involuntárias, ajuntadas pela miséria, encurraladas pelo preconceito.
A igualá-las, no entanto, o desprezo a fatores originais das comunidades, como projetos coletivos de bem-estar e prosperidade compartilhada. Em ambas, a criação de laços identitários mais profundos e permanentes é problemática. Na comunidade dos bem-sucedidos, mas inseguros, reina o preceito ideológico neoliberal de que união é alternativa de fracos e despojados de talento, mérito e coragem. Naquelas que agregam os despojados e fracos da contemporaneidade, a identificação com o próximo só faz ampliar a sensação de que se é perdedor e/ou fracassado - nem a dor agrega projetos comuns. Na pobreza e na riqueza, somos solitários (11).
3.2 - Cidadania midiatizada?
Se as comunidades/identidades estão em processo de convulsão, o que se registra com seu constituinte elementar, o cidadão? Entendendo-se cidadão como aquele que busca bem-estar próprio através do bem-estar da coletividade, assistimos à ascensão do seu oposto, o indivíduo, que, preso no seu mundo de angústias e interesses pessoais e insensibilidade para o social, vê na ação conjunta uma limitação à sua liberdade de buscar construir o que lhe parece adequado.
Ao cidadão republicano e moderno contrapõe-se o contemporâneo indivíduo, auto-suficiente, inexpugnável, cioso de sua agenda cotidiana e eternamente vigilante da concorrência que o outro representa. Vivemos a era da indiferença, em que cada um é responsável tanto pelo seu sucesso como pelo seu fracasso. Afinal, estamos na era da democratização das oportunidades, na ideologia neoliberal, acessíveis a todos.
O fortalecimento do individualismo frente ao esvaziamento das modalidades de representação associativas e comunitárias leva-nos a uma realidade fragmentária e dispersa em termos de contatos humanos e políticos, apesar de sistematicamente conectada, avalia Sodré (2002).
Quanto à possível interação social por intermédio da noosfera midiatizada, que faz vislumbrar um espaço de criatividade e liberdade, até mesmo um novo horizonte de cidadania, Sodré argumenta que, comumente, esquece-se de que o encolhimento do Estado e a expansão do mercado implicam diminuição da esfera social em que se desenvolve a cidadania. Para ele, é possível vislumbrar um novo tipo de cidadania, em que a técnica tenha o primado, mas não se pode negar o enfraquecimento da cidadania mediada pela relação ético-política do Estado com a demanda cívica e social das massas.
Cidadania, considera, é um conceito político fundamentalmente ligado à tradição republicana e não econômico-mercantilista. Um novo conceito de cidadania não pode atrelar-se aos dispositivos do mercado. A mídia fala do mundo para vendê-lo. Sua moral utilitarista, tendo o mercado como vetor de mudança, "não contempla a utilidade social, pelo contrário, é privatista e redutora da sensibilidade quanto ao coletivo" (p. 64).
As potencialidades da noosfera comunicacional, principalmente em sua porção interativa e articulada em rede de comunicação virtualmente horizontal e dialógica, certamente nos oferecem alento quanto a vislumbrar uma alternativa à "multidão de solitários" (12). Mas, como se sabe, a técnica não é panacéia para as relações humanas, pode, no limite, aprofundar suas práticas ou apresentar espaços potenciais a uma vivência emancipatória da Humanidade. Mas os caminhos dependem dos usos e das escolhas - ou, fundamentalmente, no mundo de hoje, atolado no pensamento único, da consciência de que há escolhas, alternativas.
3.3 - Movimentos sociais na noosfera comunicacional
E como se posicionam os movimentos sociais, que se articulam a partir das comunidades e da ação cidadã? Com os espaços nacionais, a ação política, a cidadania e a sociedade civil sob ataque neoliberal e em pleno desmonte, os movimentos sociais perdem as referências tradicionais de discurso, meios e ambientes de articulação e se vêem pautados pela reordenamento em outras bases de ação. Desprovidos dos meios tradicionais de protesto e reivindicação e tendo a mídia, preposto ideológico e negócio capitalístico, como o espaço majoritário na sociabilidade contemporânea, aos movimentos contestatórios da ordem vigente, e até mesmo àqueles que protestam sem enxergar além das bordas da felicidade neoliberal, só resta buscar alternativas de enunciação e mobilização.
Interditados na grande mídia, os movimentos sociais contemporâneos enxergam na Web um espaço privilegiado de atuação, que, descontada a exclusão digital, oferece atrativos como custos reduzidos, alcance planetário, fartos recursos comunicacionais, dentre outros. Se em grande parte a noosfera comunicacional está fechada à contestação, surge de sua própria estrutura a alternativa mais vistosa de luta na sociedade global e midiatizada: a Internet.
Castells (2003) oferece uma reflexão atualizada sobre esse deslocamento. Ele destaca que a rede não é usada apenas porque ela está disponível, mas porque ela se ajusta às características básicas da sociedade da Era da Informação. Hoje, diz, a rede equivale ao que foi a fábrica na Era Industrial, como infra-estrutura de uma determinada forma de organização social, além de ser um poderoso meio de comunicação.
Por que a Internet se torna indispensável aos movimentos sociais na sociedade em rede? Castells oferece várias respostas. Centrados em mudanças de valores culturais, os agentes dos movimentos sociais utilizam a mídia e a Internet porque é principalmente através delas que alcançam aqueles capazes de aderir a seus projetos, atingindo, a partir daí, a consciência da sociedade como um todo.
A migração também se dá porque os movimentos sociais estão órfãos das estruturas da Era Industrial. Partidos, sindicatos, associações cívicas formais estruturadas e permanentes, constituídas à imagem da burocracia e conglomerados do passado, estão em declínio. Movimentos com apelos emocionais e pontuais, desencadeados por eventos de mídia ou crises de vulto e articulados pela rede planetária de comunicação parecem ter mais força e eloqüência. Ademais, como o poder econômico vigente se baseia em redes globais, os movimentos sociais têm necessidade de obter o mesmo alcance global, exercendo seu próprio impacto sobre a mídia, através de ações simbólicas.
Argumentando que a globalização dos movimentos sociais não equivale à movimentação contra a globalização, que surge da consolidação de um terreno global disputado, Castells alerta: os movimentos sociais não podem ser destituídos de forte base local. Sugere que se deva inverter o dito popular: em vez de pensar globalmente e agir localmente, deve-se pensar localmente e agir globalmente. Para se alcançar poder real, é preciso estar legitimado e apoiado por grupos locais, mas ter capacidade de enunciação planetária, principalmente via noosfera midiatizada, fazendo uso da noopolitik.
3.4 - A potência e a realização do governo eletrônico
Por fim, analisamos a noosfera pelo viés da política institucional. Num ambiente de empalidecimento e descrédito da prática política e de inapetência à ação coletiva com propósitos emancipatórios, a Internet foi enxergada como a chance de redenção das ações político-governamentais. Seria o espaço de uma nova ágora, a ágora virtual.
Lévy (2003) considera que a Internet traz novos elementos ao espaço público, tais como a interconexão geral, a desintermediação e a comunicação de todos com todos, fomentando um novo estágio da democracia, a "ciberdemocracia". Juntamente com as comunidades virtuais e o voto eletrônico, o e-government completaria o quadro da democracia na "sociedade da informação".
Nogueira (2001) afirma que os governos enfrentam um discurso que demanda a melhoria de sua performance e o constrangem a uma "atualização" segundo as circunstâncias da globalização e das novas tecnologias, ao mesmo tempo em que são conclamados a ampliar a participação comunitária, a promover a integração com a sociedade. "O e-government é uma exigência do mundo real" (p.112).
Como se percebe, além de oferecer importantes chances de renovação da prática política contemporânea, o e-gov é visto como uma demanda dos tempos atuais. No entanto, entre a potencialidade da Internet para a interatividade, a participação, a transparência e a mobilização e um governo eletrônico com essas características há o espaço determinante da apropriação - tecnologia sozinha não faz política.
Infelizmente, a pragmática dos governos on-line está distante do projeto de ágora eletrônica. Segundo Castells (2003), esperava-se que a Internet fosse um instrumento ideal para promover a democracia, e ainda se espera. A transparência administrativa, acessibilidade às informações, expressão de opiniões, cobrança de respostas são algumas das possibilidades abertas pela Internet política. Em vez de vigiado, o povo vigiaria. Mas as experiências são melancólicas, observa.
O Brasil não foge à prática mundial que nos é relatada Castells. Analisados (13) os sites públicos das cinco maiores cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte) e da Capital Federal, constatamos que praticamente só há propaganda editada como notícia jornalística, informações da burocracia e serviços on-line. O e-gov se apresenta como balcão de serviços e mídia noticiosa, seguindo a receita de sucesso do capitalismo contemporâneo e seu modo de gerar hegemonia, baseado no consumo e em operações midiáticas. O cidadão é visto e alcançado como "cidadão-cliente". Estabelece-se uma relação de consumo, de notícias e de serviços, no lugar da participação e do debate políticos e da interação emancipatória.
A rede desenvolve e amplifica os movimentos da sociedade, não os reinventa. Nesse sentido, o e-gov copia a realidade. Infelizmente, uma realidade de política enfraquecida, individualismo e império do mercado. E o que é ainda mais desalentador: como se configura, a hibridação entre a política e as novas tecnologias de comunicação fortalece a empreitada de enfraquecimento do Estado e da política, a despeito da centralidade que lhes é devida.
Sobre a oferta de serviços on-line, a grande bandeira do e-gov, Nogueira (2001, p. 112) ressalta que eles são um benefício inquestionável, já que podem liberar os cidadãos de filas e mau atendimento. "Mas são apenas isso? Não acabarão por impor uma outra lógica à relação entre Estado e cidadão, transformando este último em mero usuário, em um "cliente" satisfeito e, em tese, menos preocupado em pensar criticamente o governar?".
Castells afirma que, num mundo de crise generalizada de legitimidade política e de indiferença, poucos se apropriam do canal interativo e multidirecional - só há burocracia e publicidade. Mas o autor mesmo alerta que a Internet não pode oferecer um conserto tecnológico para a crise da democracia, apesar de ela ter um papel central na dinâmica da política informacional, aquela em que o acesso ao governo e o seu julgamento se baseiam no desempenho midiático e em sistemas de informação.
4. Noosfera capitalística - à guisa de conclusão
Como demonstramos, a noosfera midiatizada é obra, negócio e preposto ideológico do capitalismo informacional, apesar de oferecer brechas e espaço, principalmente no âmbito da Internet, a uma comunicação reflexiva, contestatória e crítica acerca da contemporaneidade. No entanto, o investimento do capital nesse ecossistema comunicacional relevante para a sociabilidade atual parece assustador.
Vilches (2003) afirma que a tendência é o completo controle privado transnacional das redes do ciberespaço, ou seja, o absoluto controle privado do espaço da sociabilidade contemporânea, incluindo serviços públicos, informação institucional, lazer e entretenimento.
Especificamente sobre o negócio midiático, as intenções também não são menos ousadas ou lastimáveis. A comunicação se estrutura para ser a grande gestora do tempo humano, fazendo de nossa existência a principal mercadoria a ser ofertada aos anunciantes, afirma Vilches. Como? Na busca por fidelização do cliente, todos os programas são preparados para conter serviços (novelas e jornais vendem empresas, políticos, serviços e produtos). No lugar de produtos, ou conteúdos tradicionais, as redes investem na oferta de experiências comunicativas. São eventos para mercantilização de comunicação lúdica, baseados na mobilização solidária, no potencial de identificação entre espectadores e personagens e na capacidade de interferência dos consumidores, como o planetário Big Brother.
Uma outra estratégia nessa empreitada de reificação e comercialização da existência, que combina variadas mídias que se comunicam pela linguagem única digital e pelo interesse comum do lucro, é a constituição de comunidades em vez de audiências. O marketing não mais se interessa pelas grandes audiências, mas apenas pelos públicos restritos disponíveis para muitos serviços. O que se busca é uma "comunidade" e não a massa, de modo que a gestão do tempo humano se realize com eficácia, constata Vilches.
Falando de "sujeitos interconectados que chegam à fronteira da comunicação e do real", Vilches caracteriza esse lugar de chegada exatamente como aquele a que denominamos noosfera midiatizada: "Essa fronteira, que alguns chamam de ciberespaço, é o novo espaço de pensamento e de experiências humanas, formado pela coabitação de antigos meios e novas formas de hiper-realidade" (p.17).
E essa migração para a noosfera digital não se dá como marcha natural. Como ficou claro ao longo deste trabalho, é movimento do capital informacional-cultural, que se coloca como a única dimensão capaz de resolver a existência humana. Um movimento ideológico, que faz parecer que as ideologias morreram; um ato político, que diz que a política se carcomeu. Convencidas de que estão órfãs de alternativas de vida, de esperança e conforto em coletividade,
as massas inertes, indiferentes e socialmente indefinidas do pós-modernismo emigram para os novos territórios de uma sociedade que lhes oferece, junto com a comunicação e a informação, uma experiência vital, uma nova mística de pertencimento identitário, que nem as culturas locais, nem o nacionalismo, nem a religião ainda são capazes de oferecer às novas gerações (Vilches: 2003, p. 62).
A noosfera midiatizada se apresenta com espaço de plena liberdade - seu mais luminoso fetiche. Mas liberdade é palavra vilipendiada, afrontada. Termo tão caro a nós, principalmente neste mundo em que podemos viver libertos da presença, em que podemos ser indiferentes sob o manto do respeito à individualidade de quem quer que seja, liberdade é justificativa para a desconstrução da vida coletiva e a falta de compromisso com os valores universais da emancipação do homem.