Palavras chave:internetciberespaço jornalismo / jornalismo digital Portugal blogs / fotoblogs / videoblogs / podcasts |
Autor(-a/s):Luis Bonixe |
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Resumo:Partindo de um olhar que lançamos sobre a criação e desenvolvimento do podcasting em Portugal, analisamos, no presente artigo, as condições desta ferramenta online para se apresentar como um novo palco para a representação dos indivíduos no espaço público mediatizado e em particular na Internet. Através de um estudo sobre o podcasting em Portugal, propomos uma caracterização quanto aos formatos e diversidade de utilização do podcast, concluindo que o fenómeno se enquadra num registo de auto-representação do indivíduo na Internet e de forte ligação à linguagem radiofónica. |
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Texto da comunicação:
1. Introdução O podcasting é a distribuição de ficheiros áudio, vídeo ou texto através da Internet. A novidade é a possibilidade que dá aos seus utilizadores, mediante uma subscrição prévia, de descarregar um novo ficheiro de forma automática nos computadores pessoais sempre que ocorrer uma actualização, desde, é claro, que o utilizador possua o software agregador. Isto acontece devido à utilização da tecnologia RSS (Really Simple Sindication). O conceito de podcasting foi criado por Adam Curry que pretendia encontrar uma forma de evitar que os utilizadores tivessem de ir à procura de uma nova actualização de ficheiros de som sempre que tal ocorresse. O que aquele ex-apresentador de programas da MTV pretendia, era que o tal ficheiro de som, entretanto actualizado, fosse automaticamente descarregado nos computadores pessoais dos utilizadores e depois pudesse ser transferido para leitores portáteis de MP3, como o iPod da Apple. O termo podcasting resulta, aliás, da combinação de Pod com Broadcasting. Adam Curry define assim o conceito de podcasting: "How all that stuff that gets to your computer is something that we as users can completely control. We don't need some big music company or radio station to make that happen. It could just be some blogger posting a review of the song mix, say, and then attaching na MP3 audio file as na enclousure to it that then, thanks to RSS, is sent and downloaded right into you computer and then to your iPod". (KLINE & BURSTEIN, 2005: 276) O podcasting tem, na sua curta história, seduzido uma série de campos de actividade, desde entidades públicas a empresas, passando pelos meios de comunicação social. São exemplos o Pentágono, a Nasa, várias instituições religiosas, empresas, escolas, universidades, rádios, jornais ou televisões. A popularização do podcasting tem sido tal que o New Oxford American Dictionary elegeu o termo "Podcast" como a palavra do ano em 2005. As justificações para essa popularidade podem ser encontradas nas próprias características do podcasting. A sua gratuitidade e simplicidade para quem cria um podcast são duas das vantagens desta ferramenta. A portabilidade e a comodidade da audição são outros factores frequentemente apontados como vantagens. Vantagens essas que atraíram igualmente cidadãos anónimos que têm agora a possibilidade de criar o seu próprio programa de rádio ou simplesmente divulgarem para o Mundo os seus gostos musicais ou tendências políticas. O artigo que aqui apresentamos pretende caracterizar o cenário do podcasting em Portugal e ensaiar as potencialidades do novo meio enquanto palco alternativo para formas de expressão e exercício da cidadania. Excluímos deste estudo os podcasts criados no seio dos meios de comunicação social, na medida em que significam, tão-só, a transposição de conteúdos originais dos meios tradicionais que passam a estar disponíveis no novo formato. Daremos, neste artigo, especial atenção aos podcasts que resultaram da iniciativa de cidadãos anónimos. Excluímos igualmente desta análise os videocasts. 2. Internet e cidadania A emergência das novas tecnologias de comunicação, e em particular a Internet, colocou novas interrogações ao problema do acesso ao espaço público. A ideia de um espaço público igualitário e coerente, de acordo com a perspectiva de Jürgen Habermas baseava-se no conceito de liberdade individual dos indivíduos, através do uso público da razão. As perspectivas teóricas contemporâneas nesta matéria sugerem a existência de uma crise do espaço público que se caracteriza pela inexistência de condições de igualdade de acesso aos meios de comunicação social, hoje o palco privilegiado para o uso público da argumentação, tal como refere Rémy Rieffel: "Dito de outra forma, o espaço público constituir-se-ia no alvorecer do século XXI por um conjunto de dispositivos de comunicação gerados por mediadores (jornalistas), chefes de empresas, responsáveis pela comunicação, fugindo aos poucos ao controlo do público em geral. A assimetria entre decisores e cidadãos tornar-se-ia cada vez maior, uma vez que a troca dos argumentos é dominada pelos detentores dos media e das ferramentas de comunicação". (RIEFFEL, 2003:47). A constituição de grupos de resistência social ganha contornos de significativa relevância na contestação à esfera pública hegemónica enunciada no excerto de Rémy Rieffel. Essa resistência social por parte dos públicos afastados da esfera principal, tem alguma expressão nos modelos de comunicação que se apresentam, ou apresentaram ao longo da história, como alternativos. O movimento que varreu a Europa ocidental nos anos 70, com a proliferação de inúmeras rádios livres, constituiu-se como uma excelente ocasião para a veiculação de um discurso alternativo nos media, possibilitando até certa medida, a camadas da população expressar-se e emitir opiniões através de um meio de comunicação. É bom recordar que foram grupos sociais como ambientalistas, homossexuais ou defensores de perspectivas políticas afastadas do eixo do poder, que estiveram na origem do fenómeno das rádios livres em países como a Espanha, Itália ou França. O modelo inicialmente adoptado pela radiodifusão local acabou por falir, em boa parte devido ao mercantilismo emergente da comunicação social, fazendo-a depender das audiências e das receitas da publicidade para a sua sobrevivência. A rádio, a televisão, a imprensa e, recentemente, a Internet constituem-se como palcos privilegiados para a troca de pontos de vista acerca das questões públicas. Mas num modelo que favorece, como refere Rieffel (2003), os decisores e prejudica os cidadãos comuns no acesso aos meios de comunicação social com vista à expressão dos seus argumentos, poderão as novas tecnologias de comunicação, em especial a Internet, contribuir para resolver a crise contemporânea do espaço público? A história dos meios de comunicação tem-nos mostrado como o aparecimento do novo medium faz emergir receios e paixões quanto aos seus efeitos e consequências nas sociedades. Com relativa facilidade aparecem posições mais ou menos catastrofistas que sublinham a decadência do discurso e a perversão dos conteúdos, enquanto que do outro lado, visões entusiasmadas enaltecem as vantagens e a evolução tecnológica. Foi assim com a rádio, com a televisão e mais recentemente com a Internet. João Pissarra Esteves (2003) identifica dois tipos de discursos que têm sido gerados à volta do debate acerca da emergência da Internet e dos seus impactos sociais, políticos e culturais. Por um lado os optimistas, por outro os pessimistas. Diz o autor: "A primeira rejubila entusiasticamente com as novas possibilidades da Internet, na linha da mais pura ideologia da sociedade de informação anteriormente caracterizada, lançando mão de uma elaboração intelectual de um modo geral extremamente ingénua e simplista; a segunda apenas parece sensível aos aspectos negativos do medium, que sobrevaloriza, para daí deduzir uma antevisão mais ou menos catastrofista do seu significado político" (ESTEVES, 2003:185) Passados os primeiros anos de euforia caracterizados pelas visões de optimismo extremado, emergem hoje perspectivas mais coerentes e realistas acerca das potencialidades e limitações da Internet enquanto palco para a confrontação de argumentos acerca da coisa pública. Se é verdade que a Internet não poderá proporcionar que, de um momento para o outro, todos possam ter acesso ao espaço público mediatizado, emitindo opiniões e argumentos acerca de assuntos públicos, também não é menos verdadeiro que na World Wide Web se podem encontrar mecanismos que contribuem para potenciar a intervenção pública de grupos e indivíduos que em regra estão afastados do acesso aos media tradicionais. Nesse sentido, Esteves (2003:192) considera que a Internet possui dois importantes atributos. Um deles é a sua capacidade comunicacional, consubstanciada nas possibilidades de processamento de informação que as novas tecnologias conseguem disponibilizar virtualmente de uma forma ilimitada e ao alcance de todos os cidadãos. O outro atributo enunciado por Esteves, tem a ver com as capacidades interactivas da Internet na medida em que pode facilitar as relações sociais entre os indivíduos. Mas a Internet encerra, em si mesma, consequências para as relações entre os indivíduos aqui enumeradas por Rémy Rieffel (2003:48). A primeira tem a ver com a tecnicização, que se traduz na multiplicação de máquinas de comunicar presentes na nossa vida quotidiana. A segunda, relaciona-se com a mercantilização da informação que implica que o seu acesso seja pago. Rieffel enumera ainda a mundialização dos fluxos de informação que sugere que o debate não fica resumido à escala local e por fim, a fragmentação dos públicos como resultado do risco inerente do acesso ao espaço público proporcionado pela Internet se tornar um espaço privilegiado apenas para aqueles que detêm poder aquisitivo e conhecimentos para tal. Este último aspecto pode evidenciar um incremento das desigualdades entre indivíduos no acesso à arena de discussão pública. Manuel Castells (2004: 299-301) refere-se à existência de um "hiato considerável" entre o investimento nas novas tecnologias e a formação dos actores sociais nesta área. Mas o acesso a esse espaço continua, tal como sucede com os media tradicionais, dependente de determinado tipo de condicionantes. Se nos meios de comunicação social tradicionais se constata que o acesso dos indivíduos é definido em função das relações de poder (económica, política, etc.) a Internet introduz outras componentes. Embora o princípio da democratização dos media seja relevante quando se fala de Internet, um olhar mais atento permite concluir que o acesso a este novo espaço de comunicação está condicionado por factores que promovem a exclusão de partes significativas da sociedade. O poder aquisitivo dos indivíduos, o conhecimento técnico e tecnológico e a promoção do medium por parte dos Estados, possibilitando o seu usufruto a um maior número de indivíduos, são elementos que por si só, introduzem uma nova problemática nesta matéria. 3. Podcasting e expressividade A transformação da Internet num meio de massas conduziu a uma série de consequências no discurso nela produzido, muito contribuindo o desenvolvimento de conteúdos realizados por cidadãos anónimos, sem grandes expectativas quanto à rentabilidade dos projectos. A Internet pode, de facto, assumir-se como um agente potenciador de um grupo significativo de indivíduos ou grupos, que, não tendo acesso e não se vendo representados nos media tradicionais, encontram na Internet um importante cenário para a expressão dos seus argumentos. Depois da proliferação de páginas pessoais na Internet e da enorme adesão por parte dos indivíduos ao webblogging, o podcasting aparece como mais uma ferramenta capaz de criar novos discursos e formas culturais na Internet. É verdade que estaremos sobretudo a falar de auto-representação, mas não se deverá subestimar o papel importante que estas novas formas de comunicação desempenham na diversificação e pluralismo dos conteúdos disponibilizados online. Uma das potencialidades que as novas tecnologias de informação, e em particular a Internet, trouxe para a intervenção cívica dos indivíduos é o designado Jornalismo do Cidadão. Mark Glaser (2006) define assim o conceito: "The idea behind citizen journalism is that people without professional journalism training can use the tools of modern technology and the global distribution of the Internet to create, augment or fact-check media on their own or in collaboration with others. For example, you might write about a city council meeting on your blog or in an online forum". (GLASER, 2006). A ideia da prática de jornalismo por parte dos cidadãos, que não são efectivamente jornalistas, remete-nos para a possibilidade que os indivíduos passaram a ter para expor os seus pontos de vista sobre a coisa pública. É deste ponto de vista que J.D. Lasica vê o jornalismo praticado por cidadãos. "(...) the blogging phenomenon, a grassroots movement that may sow the seeds for new forms of journalism, public discourse, interactivity and online community" (LASICA, 2002:163). O caso relatado por Leo Magno (2006) exemplifica como dois cidadãos anónimos podem, utilizando as ferramentas que têm ao seu dispor, interferir no espaço público praticando aquilo que se designa por jornalismo do cidadão e neste caso recorrendo ao podcasting. "So what do an advertising analyst and a photographer have in common? Ooi is a blogger. Lee is a podcaster. They used new media but they did not get training on the methods employed by traditional media people such as newspaper journalists, radio announcers or TV reporters. Neither do they appear in any traditional medium like newspapers, radio nor TV. Still, their voices were heard (...)". (MAGNO, 2006) O podcasting é mais uma ferramenta ao dispor dos cidadãos, por isso são frequentes as referências que lhe são feitas à possibilidade de representar-se como mais um espaço para o exercício do designado jornalismo do cidadão. Para isso, muito contribuem as ténues barreiras existentes no acesso às ferramentas da World Wide Web. A facilidade com que se cria um blogue está, certamente, na base do florescimento e sucesso do fenómeno. Tal como refere Dominique Wolton (1999:80) "frente ao computador todos somos iguais". Para o autor, esta ideia representa o fim das hierarquias a priori, mas funda-se, ao mesmo tempo, numa utopia que envolve a expansão das tecnologias de informação. A aparente ideia de igualdade em frente à máquina esconde, porém, a desigualdade no seu acesso para o qual continua a ser determinante o domínio da técnica. Se um blogue é relativamente fácil de criar e manter, o podcasting, apesar de não ser de difícil concretização, encerra alguns procedimentos técnicos que poderão limitar o número de utilizadores e criadores. A sedução de fazer o próprio programa de rádio, divulgar os gostos musicais próprios ou talentos individuais, requer algum conhecimento específico na área da informática e da edição do som. O podcasting, do ponto de vista da sua produção, está mais condicionado, devido a exigências técnicas, do que os blogues, embora a realidade tenha demonstrado que tal não se traduz no afastamento dos cidadãos desta ferramenta, já que o fenómeno tem atingindo números impressionantes no mundo industrializado. Por outro lado, do ponto de vista da recepção, o podcasting implica uma nova atitude. Ao contrário da recepção da rádio, caracterizada pelo colectivo, o podcasting implica a escuta individual dos programas. O podcasting significa o consumo individualizado, enquanto que a rádio implica uma distribuição massificada das mensagens para um público heterogéneo. Para quem produz um podcast, a ideia de liberdade criadora e de poder divulgar visões pessoais sobre o Mundo é sedutora, pois o conceito está ainda livre de implicações comerciais. Fazer um podcast é gratuito, e como tal a actividade não implica gerir lucros para sobreviver o que aos olhos dos cidadãos é extremamente aliciante. 4. A realidade portuguesa O podcasting chegou a Portugal no primeiro trimestre de 2005. Pelos dados conhecidos, o primeiro podcaster português foi Duarte Velez Grilo que criou o Blitzkrieg Bop em Março daquele ano. Em Maio, o grupo Media Capital Rádios inicia-se no podcasting ao disponibilizar no seu portal Cotonete programas de opinião. Tratou-se do primeiro grupo de media português a disponibilizar programas de rádio naquele formato. O Cotonete foi também o primeiro directório de podcasts nacionais, ao incluir os podcasts produzidos no seio do grupo e os poucos existentes feitos por amadores. Em Setembro de 2005, Carlos Jorge Andrade criou o Lusocast, o primeiro directório criado exclusivamente para o podcasting português. Contudo, dada a pouca expressão inicial de podcasts produzidos em Portugal, o Lusocast começou por disponibilizar programas realizados no Brasil. O portal começou com cerca de 30 podcasts, sendo que menos de metade eram produzidos por portugueses. Entretanto, os meios de comunicação social portugueses começam a interessar-se pelo fenómeno. No dia 22 de Outubro de 2005 foi para o ar na rádio TSF o primeiro programa radiofónico português dedicado ao podcasting, de autoria do jornalista João Paulo Meneses. Em Dezembro de 2005 estavam registados nos directórios Lusocast e Cotonete cerca de três dezenas de podcasts portugueses realizados por amadores. O ano de 2006 começa com a adesão da rádio TSF ao podcasting disponibilizando seis programas daquela estação. Em Fevereiro do mesmo ano, a SIC tornou-se na primeira estação televisiva nacional a disponibilizar alguns dos seus programas em podcast. Um mês mais tarde, foi a vez do jornal Expresso disponibilizar, pela primeira vez em Portugal, conteúdos da imprensa em podcast. No caso, tratou-se de uma entrevista realizada pelo jornal ao primeiro-ministro português José Sócrates. O cenário do podcasting português caracterizou-se, nos meses seguintes, por uma maior diversidade, pois surgiram podcasts de educação, de alunos do ensino universitário e o primeiro dedicado a crianças. No dia 16 de Maio de 2006, a RDP, a rádio de serviço público português, entra no mundo do podcasting disponibilizando uma série de espaços radiofónicos emitidos originalmente nas emissoras do grupo. Ainda em Maio, o Grupo Media Capital criou a "Rádio Portugal", uma webradio para acompanhar o europeu de futebol de sub-21, realizado em Portugal, e o Mundial da Alemanha, disponibilizando alguns dos seus programas em podcast, como crónicas, espaços de opinião ou pequenas rubricas. No mesmo mês, o director de Marketing da Apple Portugal anunciava, no programa radiofónico Rádio.com, a implementação de um sistema na Universidade Lusíada em Lisboa, que permitiria aos professores disponibilizar na intranet daquele estabelecimento de ensino superior, conteúdos das aulas teóricas em podcasts. No último trimestre de 2006, o cenário do podcasting português caracteriza-se pela existência de podcasts de empresas de comunicação social (em particular de rádios) que disponibilizam os programas emitidos originalmente nas suas emissões regulares, podcasts criados no seio de organizações (comerciais, religiosas ou de ensino) e por podcasts surgidos por iniciativa de cidadãos anónimos. 5. Metodologia O objectivo do estudo que aqui apresentamos é caracterizar o cenário do podcasting português no primeiro ano de existência, dando especial relevância às potencialidades do meio para se constituir como um palco alternativo para a expressividade dos indivíduos e para o exercício da cidadania. Considerámos prioritário a análise aos podcasts realizados por cidadãos anónimos remetendo para um segundo plano os podcasts produzidos no seio de empresas de comunicação social. Com esse propósito analisámos o fenómeno em Portugal submetendo um inquérito aos primeiros podcasters amadores portugueses registados nos directórios Lusocast e Cotonete, que entre os dias 1 e 14 de Março de 2006 tivessem sido actualizados pelo menos uma vez nos últimos dois meses. Encontrámos 31 podcasts nestas condições. Para eles foi enviado, via mail, um questionário com o objectivo de recolher dados sobre o fenómeno em Portugal, o que dele pensam os seus protagonistas e quais as motivações para se iniciarem nesta prática. Responderam autores de 17 podcasts correspondendo a uma taxa de retorno de 54,84% Como os inquéritos foram enviados para o mail do podcast e não para cada autor individualmente, com a obtenção das respostas foi possível identificar 4 podcasts colectivos (duas ou mais pessoas) totalizando 23 podcasters. Foram ainda identificadas quatro instituições autoras de podcasts. Foi ainda nossa intenção analisar o discurso produzido nos podcasts portugueses realizados por amadores e por isso procedemos à audição de alguns dos programas disponíveis com o objectivo de analisar a estética e expressividade neles produzida. 6. Apresentação de dados Com base nas respostas obtidas através do inquérito, verificamos que nesta fase inicial do fenómeno em Portugal, a maior parte dos podcasters são do sexo masculino (73%), enquanto que apenas 23 % dos autores são mulheres. Outra característica do podcasting nacional é a sua maior incidência junto dos jovens. 76,19 % dos podcasters nacionais têm menos de 30 anos. Apenas 14,29% têm mais de 40 anos de idade. O facto de 78% dos respondentes terem formação superior é outro dado que merece destaque. Uma percentagem que inclui licenciados (60%), mestres (9%) e bacharéis (9%) O "Gosto pelas novas tecnologias" (76,47%) e o "gosto pela rádio" (70,59%) são as principais razões que motivaram os podcasters nacionais a criarem podcasts. 41,18% dos respondentes criou um podcast por significar uma nova forma de expressão. Uma forma de "Entretenimento" ou simples "Curiosidade" foram outros motivos indicados. Embora menos referidos, é de sublinhar a importância que os podcasters atribuem a esta ferramenta no capítulo da "evangelização" e da "educação" outras razões apontadas pelos respondentes, em particular os autores de podcasts de instituições religiosas ou de ensino, respectivamente. De acordo com os respondentes a este questionário, o pico de criação de podcasts em Portugal ocorreu entre Novembro de 2005 e Janeiro de 2006, tendo sido criados nessa altura 47% dos podcasts existentes em Março de 2006, quando o presente inquérito foi submetido. Para 76,47% dos podcasters respondentes, o podcasting representa uma "oportunidade de expressão". Os podcasts portugueses são maioritariamente criados por uma única pessoa (52%), embora se tenham encontrado, no grupo de respondentes, podcasts colectivos, ou seja criados por duas ou mais pessoas (24%) e outros produzidos no seio de instituições culturais, religiosas ou comerciais (24%). Convidados a classificar o conteúdo do seu podcast, 41% dos podcasters consideraram-no Informativo e 35,9% musical. De acordo com os respondentes, 52% dos podcasts portugueses têm uma duração média de 15 a 30 minutos. Encontram-se ainda episódios com uma duração média inferior a 15 minutos (12%), enquanto que apenas 6% dos respondentes revelaram que os episódios que produzem têm mais de uma hora de duração. Quanto à actualização do podcast verificou-se que alguns podcasters colocam online um novo episódio todos os dias (5,8%), mas a maior parte fá-lo semanalmente (64%). Outros, porém, admitem a não existência de periodicidade na actualização (11,76%). A totalidade dos respondentes tem associado ao podcast um blogue, um site ou ambos onde colocam informações sobre o programa, recebem comentários ou críticas de ouvintes. No universo estudado, 35,29% dos podcasters portugueses possui um blogue e um site associado ao podcast. A mesma percentagem possui apenas um site, enquanto que 29,41% dos respondentes associa apenas o podcast a um blogue. Esta associação de ferramentas favorece a existência de mecanismos de interacção dos autores dos podcasts com os seus ouvintes. 94% dos respondentes afirmou receber retorno por parte dos ouvintes. Tratam-se sobretudo de comentários (93,75%) críticas positivas (87,5) e sugestões (75%) e chegam maioritariamente via mail (87,5%) ou através de um comentário no blogue (68,75%). 7. Para uma tipologia do podcasting português Com base no cenário português, sugerimos uma tipologia quanto ao conteúdo dos podcasts existentes. Podcasts musicais: Constituem a maior parte dos podcasts portugueses. Adoptam um formato muito próximo do programa radiofónico (como veremos no ponto seguinte deste artigo). Preocupam-se com a divulgação de temas e grupos musicais que resultam do gosto individual do autor do podcast. Também por razões de ordem legal, procuram a divulgação de temas musicais que não estão protegidos por direitos autorais. Podcasts informativos: Tratam-se de podcasts cujo principal objectivo é disponibilizar informações sobre determinadas temáticas. Não estamos, neste ponto, a falar de podcasts sobre informação generalista, mas sim temática. No cenário português encontramos sobretudo podcasts sobre ciência e tecnologia, em particular fornecendo informações e conselhos de utilização de software livre. Podcasts humorísticos: São programas centrados no autor do podcast que utiliza esta plataforma para a divulgação dos seus "dotes" artísticos. O autor conta anedotas ou pequenas rábulas. São, normalmente, podcasts de curta duração e apontam para a auto-representação dos seus autores. Podcasts religiosos: Apesar de reduzido em número, o contexto português disponibilizou alguns podcasts criados no seio de instituições religiosas que pretendem divulgar o credo através desta plataforma. Podcasts educativos: Tratam-se de podcasts realizados no contexto educativo e que têm dois objectivos: apoiar actividades lectivas ou divulgar actividades realizadas pelos alunos. São realizados por professores, educadores ou estudantes. Podcasts radiofónicos: Incluímos aqui os podcasts que resultam da reedição de programas originalmente criados pelas rádios portuguesas e que depois são disponibilizados no formato podcasting. 8. O modelo radiofónico É frequente a associação entre podcasting e rádio. Um paralelismo que ocorre sobretudo por questões estruturais. Por um lado, tal como a rádio, o podcasting usa o som como o seu principal recurso expressivo e por outro, um dos objectivos da criação do podcasting foi possibilitar que determinados conteúdos sonoros pudessem ser ouvidos sem constrangimentos temporais ou espaciais próprios da escuta radiofónica. A comparação entre rádio e podcasting não tem sido favorável para o meio analógico, uma vez que é frequente atribuir à emergência da plataforma digital o declínio das emissões de rádio. Para André Lemos (2005) encarar assim o problema é um erro duplo, na medida em que estaríamos a falar do fim de um meio analógico e massivo e a sua substituição por outro com características diferentes, pois o podcasting é digital e personalizado. Diz o autor: "Primeiro, não é o fim do rádio como meio de comunicação. O podcast só tem a acrescentar aos diversos formatos broadcasting. Segundo, tampouco é o fim do rádio como nós o conhecemos hoje, em seus formatos AM e FM. O que estamos vendo é uma reconfiguração midiática em que ambos os formatos permanecem e têm seus nichos de usuários assegurados. É muito bom poder baixar um programa à la carte, mas também é muito bom ouvir um programa massivo no carro ou os comentários dos jogos de futebol nos estádios em tempo real com um radinho de pilha." (LEMOS, 2005) De facto, as semelhanças entre rádio e podcasting acabam nos seus modelos de concepção e na utilização dos mesmos elementos expressivos. Outras características da emissão radiofónica não são, nem poderiam ser, aplicadas a um conceito como o podcasting, como sejam o directo ou a emissão em contínuo consubstanciada numa grelha de programação. A identificação com a rádio ficar-se-á pela utilização dos mesmos elementos expressivos: o som e o silêncio, num primeiro nível, a voz, a música, os efeitos sonoros e a voz humana, num segundo plano. Podcasting e rádio são por isso complementares. A rádio oferece instantaneidade, ubiquidade e interacção. O podcasting possibilita portabilidade, personificação de conteúdos e, em particular aos seus criadores, liberdade de expressão e criação, atributos cada vez mais afastados da rádio comercial, ditada pelas regras do mercado. Como faz notar Mark Glaser, referindo-se ao exemplo da National Public Rádio (NPR), o podcasting deve ser mais do que simplesmente transferir a linguagem da rádio para um novo formato. "While a lot of Big Media companies have jumped on the podcasting bandwagon, much of the content is simply repurposed material from offline programming. While NPR has done that with most of its podcasts, the alt.NPR brand is a chance for NPR to look beyond the usual fare." (GLASER, 2005). Considerando a frequente associação entre rádio e podcasting, pretendemos saber junto dos primeiros podcasters portugueses, qual a relação existente entre estas duas plataformas de comunicação. Através das respostas obtidas, constatamos que a grande maioria nunca fez rádio. Apenas 22% dos respondentes são radialistas profissionais. Para estes, a criação de podcasts permite-lhes criar "um programa nosso que nunca iria para o ar numa rádio nacional", assumindo-se desta forma como um espaço livre e de criação não sujeito a imposições de ordem comercial. Por outro lado, para os autores de podcasts que nunca tiveram contacto com a produção radiofónica, o podcasting significa uma oportunidade para fazer "um programa de rádio" que nunca tiveram oportunidade de realizar numa emissora profissional. A concepção de podcasts está, nesta fase, muito ligada aos padrões da rádio. Tal como nos programas radiofónicos, os podcasts possuem uma abertura, na qual é apresentado o autor, alguns têm jingles, e fecho do programa. A apresentação de temas musicais e a inserção de um indicativo sonoro no início e no fim da sessão são outras marcas transpostas da rádio para o podcasting. O exemplo que se segue foi retirado do podcast Blitzkrieg Bop, de Abril de 2006. No excerto da abertura do programa pode ainda verificar-se o tom pessoal utilizado. "Olá bem-vindos ao Blitzkrieg Bop. Eu sou o Duarte Velez Grilo e o programa de hoje é dedicado … deste fim-de-semana … é dedicado ao concerto que Danko Jones deu na passada terça-feira (…) Eu fui e consegui falar um pouco com ele (…)" O fecho do podcast "Era Uma Vez", destinado a crianças, mostra como o modelo radiofónico de apresentação foi transferido para o formato podcasting, neste caso a técnica radiofónica é aplicada ao fecho do episódio: "E pronto chegou ao fim mais um episódio do podcast "Era Uma Vez". Obrigado pela vossa colaboração e pelos vossos comentários. Esperamos que tenham gostado. Muito brevemente haverá novidades, por isso vão preparando a vossa imaginação. Por outro lado, encontramos outros podcasts cuja identificação com os modelos estéticos da rádio é mais distante, como por exemplo o excerto que se segue retirado do Podcast educativo "Em Discurso Directo I", cuja autora utiliza um tom e ritmo coloquial e pausado próprio de uma sala de aula: "Neste episódio vamos falar do modernismo. Num Mundo em ruptura, uma arte de ruptura. O início do século XX corresponde na Europa a um período de crises e rupturas (…)". Tratando-se de um fenómeno recente e emergente, o podcasting encontra-se ainda, no que aos seus modelos estéticos diz respeito, numa fase em que procura uma autonomia face à rádio, à qual foi beber, como é natural, os modelos de realização, produção e apresentação. No entanto, é de sublinhar o carácter conceptual do podcasting que os seus percursores lhe atribuem. Esse conceito tem a ver com a liberdade de criação o que poderá sugerir a rejeição de regras rígidas de linguagem e discurso em termos de produção e apresentação. 9. Que expressividade no novo palco? O artigo que aqui apresentamos segue como linha teórica as possibilidades da Internet enquanto ferramenta potenciadora de novas formas conducentes ao alargamento do espaço público mediatizado a grupos e indivíduos afastados das arenas onde se dirimem argumentos e debatem a coisa pública. Desta forma, a Internet, através das suas variadas ferramentas, estaria a contribuir para o enriquecimento da esfera pública, convocando novos argumentos para o debate público. Que papel poderá, neste contexto, ser atribuído a uma ferramenta como o podcasting que tem conhecido, mais nos Estados Unidos, Brasil e alguns países europeus do que em Portugal, uma grande popularidade? Propõe-se, nas próximas linhas, uma análise ao discurso e temas seleccionados pelos autores dos podcasts nacionais. Para tal, cruzámos as respostas obtidas através do inquérito e a audição de alguns episódios disponíveis. O podcasting representa, no contexto português, uma interessante forma não só de auto-representação, na medida em que as escolhas são sempre do autor do podcast, mas também da representação do outro, mediante a divulgação de temas musicais, correntes artísticas ou argumentos sobre temáticas pouco frequentes nos media tradicionais. Com base no inquérito realizado, constata-se que a representação do outro, sobretudo através da adopção de formatos dialógicos, é frequente nos podcasts portugueses. 52% dos podcasters nacionais afirmaram, no inquérito que submetemos, possuir entrevistados com regularidade nos programas. Contudo, este indicador demonstra o carácter doméstico do fenómeno, uma vez que 77% dos entrevistados são amigos ou conhecidos dos autores dos podcasts. Apresentamos algumas das respostas obtidas através do inquérito que realizámos e que demonstram como a liberdade de criação é, do ponto de vista da produção, um dos factores mais sedutores do podcasting: Resposta A) "Permite a criatividade, e sobretudo permite uma abertura diferente na produção de conteúdos e na divulgação desses mesmos conteúdos". Resposta B) "Porque podem ser descobertos talentos que podem vir a integrar os quadros da rádio "tradicional", quer ao nível das pessoas, quer ao nível dos conteúdos". Resposta C) "Para quem cria, uma oportunidade de poder criar com toda a liberdade, sendo que a forma de distribuição ajuda à propagação do podcast, sendo que o ouvinte poderá escolher o que quer ouvir, quando quer ouvir e onde quer ouvir." As respostas recebidas dos podcasters portugueses permitem-nos, ainda, constatar a importância atribuída ao facto do podcasting poder representar um espaço de auto-representação em termos expressivos. Vejamos as respostas obtidas: Resposta A) "(…) uma forma alternativa de levar as pessoas a terem e a exprimirem as opiniões". Resposta B) "Possibilita uma maior reflexão social e consequente intervenção." Resposta C) "uma nova forma de disponibilizar outros conteúdos que não se enquadram nas "formatações" das rádios... às vezes, com bastante sucesso e até lucro!" Resposta D) "Maior liberdade para explanação de ideias e conteúdos diferentes, que actualmente por razões de audiências (sobrevivência), não estão no contexto Radiofónico". No contexto português identificámos podcasts com temáticas tão distintas como o humor, culinária, musicais, informativos (sobretudo de tecnologia), de desporto ou religiosos. A hipótese que aqui ensaiamos é a de saber em que medida pode o podcasting, enquanto ferramenta disponível ao alcance dos cidadãos, poder representar-se como um espaço alternativo para a expressão de novos argumentos e posições públicas, sejam elas de carácter político, social ou cultural. O cenário português não nos permite concluir que o podcasting realizado por cidadãos anónimos esteja a ser utilizado para a emergência de discursos alternativos sobre assuntos públicos. Verificamos que essa expressão é consubstanciada, sobretudo, pela divulgação de perspectivas culturais e artísticas dos criadores de que o excerto seguinte, retirado do podcast Gavez Dois de Maio de 2006, é um exemplo "Existe um mundo novo, onde a arte nos é dada a conhecer directamente pelo artista e nós encontramos para vocês a música legal, aquela que pode ser ouvida sem medo de ser apanhado. Gavez Dois – música sem preconceitos" Ao podcasting português ainda não chegaram actores sociais ou políticos nem sequer indivíduos que utilizem este meio para divulgar posições próprias acerca de assuntos públicos. Neste aspecto, pelo menos em Portugal e nesta fase embrionária do fenómeno, o podcasting difere dos blogues, onde existe uma significativa contribuição para a discussão pública dos mais variados assuntos. O tom pessoal e de auto-representação é, pois, uma tendência do podcasting nacional como se ilustra através do excerto retirado da apresentação do podcast "As Compras do Mês": "O único requisito para uma música surgir numa das edições é o facto de pertencer a um CD que eu tenha comprado durante o mês de publicação." Encontramos, no entanto, um discurso de contestação num aspecto particular: os direitos de autor que impedem a divulgação através desta plataforma de produtos culturais protegidos. 10. Conclusão O podcasting em Portugal é ainda de expressão muito reduzida, mas numa clara tendência de crescimento. No início de Abril de 2006 estavam registados no Lusocast e no Cotonete 55 podcasts realizados por cidadãos anónimos, distribuídos por categorias como humor, informação, desporto e especialmente musicais. Em Setembro o número ascende a cerca de 80 tendo-se registado igualmente um aumento de podcasts realizados no contexto dos meios de comunicação social, em particular das rádios portuguesas. Partindo da hipótese colocada neste artigo no qual pretendemos ensaiar as possibilidades do podcasting português enquanto palco para formas alternativas de expressão e exercício da cidadania, verificamos que essa expressividade se manifesta apenas no capítulo da divulgação cultural e artística através da promoção de actores culturais pouco divulgados nos media tradicionais. Por outro lado, as potencialidades do podcasting enquanto espaço livre de imposições comerciais, permite a criação de conteúdos pouco frequentes ou até inexistentes nos meios de comunicação social portugueses. São os casos de podcasts de confissões religiosas, de empresas de menor dimensão, educativos, de divulgação tecnológica, científica ou de modalidades desportivas de menor projecção. A componente da auto-representação é extremamente marcada no podcasting. Em regra, os autores dos podcasts preocupam-se em divulgar gostos musicais próprios, experiências pessoais ou dotes artísticos. Não se identificaram muitas formas de promoção de debate sobre temas públicos, de carácter social ou político. O carácter doméstico deve, igualmente ser sublinhado. Os convidados nos programas são amigos ou conhecidos dos autores do podcast, indiciando um fechamento à participação dos ouvintes. Essa interacção existe sobretudo nos blogues que suportam os podcasts. Quanto ao modelo estético adoptado, verificamos a dependência (normal?) do modelo radiofónico não só na linguagem utilizada como na utilização de elementos expressivos. Entendemos, por fim, que o universo do podcasting em Portugal está ainda longe da sua maturidade, não se assumindo, nesta fase, como um palco ao qual tenham chegado perspectivas e pontos de vista alternativos sobre assuntos públicos, tal como é definido, por exemplo por Mark Glaser (2006) quando se refere às potencialidades da Internet para o exercício de formas de cidadania consubstanciadas na prática do "jornalismo do cidaadão". "Because of the wide dispersion of so many excellent tools for capturing live events — from tiny digital cameras to videophones — the average citizen can now make news and distribute it globally, an act that was once the province of established journalists and media companies." (GLASER, 2006) O estudo que aqui apresentámos baseia-se na realidade do podcasting português no primeiro ano de existência, sugerindo, por essa razão, dada a enorme dinâmica deste fenómeno, a modificação de algumas práticas e resultados aqui demonstrados. 11. Bibliografia Journalism?". www.ojr.org/ojr/glaser/1097614994.php |
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