Resumo: A presente investigação apresenta brevemente o cenário da mídia impressa contemporânea, de forma crítica, no que tange à crise no jornalismo introduzindo os elementos contextuais- internos e externos ao âmbito jornalístico " que propiciaram o surgimento do formato jornalístico de leitura rápida " pós televisivo. Paralelamente articula-se uma composição conceitual ampliada da cidadania, no sentido de inferir a configuração de seu exercício através do formato jornalístico aludido enquanto esfera pública midiática, considerando-se as assimetrias da sociedade pós-moderna e um cidadão fragmentado e multidentirário nela inserido.
Cidadania – uma composição conceitual
A abordagem da temática da cidadania no âmbito do jornalismo contemporâneo implica em uma acomodação conceitual no que tange à cidadania inserida em um contexto social cunhado pelas novas tecnologias e subsequentes redefinições nas relações societárias. Estas, segundo Castells (2002, p. 119) primam por sua penetrabilidade em todos os domínios da atividade humana, na reestruturação do capitalismo, em seu reflexo sobre a economia mundial, a interdependência global, e o caráter mormente informacional dessa nova estrutura social.
Tais “fraturas” nas “paisagens sociais” (MATTELART & NEVEU, 2004, p. 110) forjam novas posturas de um indivíduo-cidadão, cujas objetividades e identidades fragmentadas são constantemente postas em cheque. Baudrillard (apud SIQUEIRA 2007) configura em tal perspectiva social um lugar do efêmero, da incerteza em que pontos de referência desaparecem e, mediante tal cenário inviabiliza-se a proposição conceitual clássica da cidadania circunscrita ao Estado-Nação.
Vieira (apud HAJE 2008) declara, a propósito, o enfraquecimento dos Estados Nacionais, em razão do próprio processo de globalização, propiciando as transformações operadas na democracia – ligada aos Estados-Nação - e na cidadania – relativa à identidade nacional, o que remete novamente a uma ampliação na noção de cidadania em conformidade com a realidade histórica imposta ao cidadão. Tal remodelação pode ser abordada, de acordo com Gohn (2003, p. 178) por seus atributos jurídicos, normativos (comportamento do cidadão) ou construídos pelas ciências sociais (igualdade/desigualdade, público/privado, pertencimento/desfiliação, etc.). Sendo assim, a perspectiva conceitual estática e ahistórica da cidadania não lhe cabe como categoria:
A cidadania contemporânea como categoria singular não deve ser aprisionada a um momento histórico particular – modernidade capitalista – ou a um horizonte teórico-ideológico singular – o iluminismo, mas se apresenta como um processo inacabado posto que, em sua permanente interação com as transformações societárias, vem adquirindo novos conteúdos (RUBIM, 2003: 109)
Ademais, o debate da cidadania prescinde da evocação de seu vínculo com o espaço (esfera) público - espaço legítimo do exercício e articulação dos interesses dos cidadãos por meio do “conjunto de instituições públicas, políticas, midiáticas nas quais uma sociedade se visibiliza, organiza o debate sobre seus valores e seu funcionamento.” (MATTELART & NEVEU 2004, p. 109, grifo da autora)
A “existência pública” dos entes políticos e sociais – inclusão digital e publicização – portanto, são para Rubim (2003, p. 109-113) requisitos necessários para o reconhecimento dos direitos dos cidadãos como atores públicos. Vieira (2008) ratifica tais pressupostos ao declarar a dependência da reativação da esfera pública como condição indispensável à legitimidade da democracia contemporânea e á prática cidadã, de modo a propiciar a ação coletiva em prol da deliberação comum com respeito aos interesses comunitários compartilhados.
E dentre os instrumentos de atuação na vida (espaço) pública e política a mídia -inclusive a impressa- exerce, por excelência, papel de “expressão e mediação” segundo Wolton (1995 apud Camponez, 2002, p. 90) bem como de exclusão, “hierarquização narrativa”, onde é possível distinguir bons e maus discursos permeados pela intermediação. Locus de geração de opinião pública, o espaço público - já adentrando ao âmbito jornalístico - para Dader (1992 apud CAMPONEZ 2002, p. 183, grifo da autora) “continuará sujeito ao que a atividade jornalística for sendo capaz ou esteja disposta a repetir.”
Charity (1995 apud CAMPONEZ 2002, p. 165) ao intervir na dimensão da saúde cívica dos cidadãos destaca, com relação ao interesse destes pelo jornalismo, uma relação existente preferencialmente entre o cidadão e a vida pública do que ente o leitor e seu jornal diário,
em especial quando a mídia impressa reproduz a vida pública dos cidadãos, em que estes últimos se sentem “membros de uma mesma comunidade de interesses” (CHARITY, loc.cit.)
Tal relação prevê uma atuação de tal cidadão em seu entorno social mesmo não evoluindo a um envolvimento na vida pública. Para o autor, o desinteresse a um engajamento efetivo na vida pública remete à ausência de espaço na vida social para tais debates bem como substancial responsabilidade à imprensa por suas prováveis e ocasionais omissões e superficialidade em suas intervenções no que tange à cidadania.
Jornalismo contemporâneo - Elementos Estruturais
Os elementos estruturais que contemplam a trajetória histórica no âmbito da comunicação constituem dados imprescindíveis para compreensão do contexto em que se inserem a evolução jornalística contemporânea, as transformações concernentes ao seu formato e o subsequente exercício da cidadania promovido nesta conjuntura.
Barbero (2001, p. 295) aponta para a complexidade desta nova conjuntura histórica, a que chama de transnacional; já Castells (2002, p. 178) ao abordá-la pelo viés da economia global assenta tal caráter não apenas a discursos tecnológicos, outrossim aponta atuações decisivas de agentes como governos e instituições internacionais, empreendedoras de políticas inter-relacionadas responsáveis pelos alicerces da globalização a saber: a desregulamentação dos mercados financeiros, a liberalização do comércio e investimentos internacionais e a privatização de empresas públicas.
Todavia a tecnologia certamente demarca, contextualmente, o campo de interesses na lógica organizacional da economia, fundando-se como o referencial por excelência em direção à lucratividade, parâmetro imperativo que, aliado à competitividade, segundo Castells (2002, p. 136), tornam-se responsáveis pela inovação tecnológica e consequente produtividade.
Observa Mcchesney (2003, p. 217- 223) que, a comunicação como um sistema de mídia comercial global, mais que desempenhar um papel central promove mercados globais e encoraja valores de consumo, por meio de oligopólios que se reproduzem por todo o planeta, obtendo força e prestígio pela lógica da convergência e consolidação (fusões, aquisições) alçadas pela “busca incessante de lucros”.
Além da evolução tecnológica, a vertente cultural oferta sua parcela de contribuição ao dar notoriedade à articulação de elementos culturais como desencadeadores de pensamentos e comportamentos do público receptor “ajustados aos valores, às instituições, às crenças e às práticas vigentes”, segundo Kellner (2001, p. 11, 29). Para o autor “[...] na economia as sedutoras formas culturais modelam a demanda dos consumidores, produzem necessidades e modelam o eu-mercadoria com valores consumistas”.
O pressuposto acima se verifica para Kellner (2001, p. 82-85) no poder da cultura da mídia, por meio de suas representações como veículo de discursos, imagens políticas, mundividências, pensamentos e ações cujo intento se limita a incorporar representações políticas desejáveis e a “conservar fronteiras e legitimar o domínio da classe, da raça, e do sexo hegemônico”.
Barbero (2001, p. 181) ratifica a convicção na articulação cultural, porém pelo viés da materialidade tecnológica que promove o imaginário popular como instrumento de mediação, mesmo que para tanto custe a integridade identitária da cultura popular em prol das demandas circunscritas ao mercado; o que para o autor (loc.cit.) “encobre o conflito entre as classes [...] assegurando assim o consentimento ativo dos dominados”
A construção hegemônica se realiza na indústria narrativa , conforme Barbero (2001, p. 144,154) por meio de processos de enculturação, inclusive na própria linguagem– onde ela se articula.
Tal processo “medeia entre e separa as classes” atuando não sobre “conceitos e generalizações”, mas por “imagens e situações” como estratégia de interpelação da audiência. O papel dos meios de comunicação na contemporaneidade, portanto, para Barbero (2001, p. 261) de mediadores entre instituições (Estado-Nação) e entre categorias societárias (rural/urbano, tradição/modernidade) passam a desarticular tais relações e transformam-se em lugar de mediação e simulacro.
Transferindo o âmbito de atuação da indústria cultural para o universo das novas tecnologias de informação, comunicação e entretenimento, Baudrillard (apud KELLNER, 2001, p. 378) o configura de simulacros, ou seja, experiências, formas, códigos, digitalidades que se apresentam mais reais que a própria realidade. O universo pós-moderno para Baudrillard (1993, p. 14 apud JAMESON 2008) é o da hiper-realidade, em que a única coisa que dá sentido às massas é o espetáculo, cujo fascínio está cada vez mais vinculado à condição pós-moderna, o que no entanto, não pode dissociar-se das novas tecnologias da informação e as subsequentes mudanças na economia.
Sustentando as mesmas proposições Guy Debord (1997 apud REY 2000) denomina de pós-moderna a sociedade do espetáculo, sendo que Jameson (1997 apud REY 2000) a identifica como a sociedade da informação, da eletrônica ,hightech e também do triunfo das imagens e da perda dos referencias. Rey diz comentando Jameson que nela impera:
A lógica de mercado, a mercantilização das relações sociais, a falta de profundidade, a inautenticidade, a recusa dos modelos e dos sentidos, a valorização da fragmentação, o desaparecimento da historicidade e do passado como referenciais e o triunfo do pastiche e das imagens (REY, 2000)
Assim ratifica-se o pressuposto da abordagem contextualizada do produto cultural e de que “precisamos entender as estruturas e a dinâmica de determinada sociedade para entender e interpretar sua cultura” (KELLNER, 2001, p. 13) bem como sua performance e práticas cidadãs.
Jornalismo crítico
A indústria jornalística como demais segmentos da sociedade, absorveu o impacto da Revolução tecnológica, acomodando-se aos novos ditames da era digital, da supremacia imagética e da instantaneidade da informação para resguardar seu espaço na mídia informativa.
A crise no jornalismo
A mídia jornalística impressa apresentou sinais de deslocamento ou perda de seus referenciais deontológicos na atualidade frente aos novos atores da globalização e suas grandes empresas que, segundo Ramonet (2003, p. 246) não representam o mundo da informação mas um “universo bem complexo” regido por dois grandes poderes, sendo o primeiro o poder econômico e financeiro e o segundo o poder midiático. A tal fenômeno Squeff e Wisnik (1980 apud BARBERO 2001, p. 304) denomina de mediacentrismo – perda de suas especificidades em prol de aspectos político-econômico e culturais.
Tecnologia e crise de credibilidade
Teóricos do jornalismo identificam inúmeros fatores para a temida crise no jornalismo. Queda no índice de leitura, advento da TV analógica, Internet, blogs, crise de credibilidade, padrão empresarial e mercantilista na administração jornalística, novas perspectivas no paradigma conceitual e deontológico no jornalismo, revolução no design gráfico, introdução do modelo televisivo na mídia jornalística impressa, etc., são alguns fatores que serão detalhados posteriormente. E, justamente no seio da tecnologia e seus inúmeros desdobramentos, no que tange à operacionalização (som/texto/imagem) do processo comunicativo, segundo Mcchesney (200, p. 219) observa-se o locus de convergência das causas apontadas acima para a crise que se assentou no setor jornalístico.
A crise de credibilidade no jornalismo - que, segundo Ramonet (apud AYDOS 2007) se legitima em parte devido à imitação do estilo televisivo de notícias – tem suas raízes em projetos de recuperação de leitores perdidos nos Estados Unidos como o idealizado pelo Projeto Ruth Clark. Por certo os rumos da tecnologia, das políticas neoliberais foram fortes aliados no desenrolar de todo esse processo.
Ramonet (apud SADER 2007) crê em uma crise de credibilidade no jornalismo em razão de fatores externos como a Internet, gratuidade de jornais, blogs, etc. bem como a ausência de credibilidade na imprensa escrita como fator interno, este último agravado pela proliferação de notícias falsas. Tal teoria é sustentada pela crise conceitual do jornalismo presentemente adotando o estilo televisivo de notícias, para atender à demanda imagética e submetendo-se ao imediatismo e instantaneidade doravante recorrentes na produção noticiosa em face da Sociedade da Informação, segundo Ramonet (2004, p. 74). O referido estilo que assume um discurso ultra-rápido compromete a veracidade da informação pois “não tem tempo de filtrar, de verificar, de comparar, porque, se perder muito tempo para fazê-lo, outros colegas tratarão do assunto antes dele. E, com certeza, sua hierarquia não o perdoará.” (RAMONET, loc.cit.)
Hoje valores deontológicos (ética/verdade) reverenciam paradigmas organizacionais, que por sua vez são geridos por critérios empresarias, que em última instância se reduzem a fatores puramente econômicos. Desenvolvem-se circunstâncias propícias ao descrédito na esfera jornalística.
Ramonet (2001, p.102) afirma ainda que, quanto mais a mídia impressa comunica, inserida na concepção televisiva de notícias, menos ela informa e, portanto, mais desinforma. E, assim configurado, o jornalismo transforma sua pertinência que, passa a valorizar mais o distrair e menos o informar.
Aliado a esse fator e seguindo uma lógica coerente de gestão empresarial e lucratividade, a crise de credibilidade do jornalismo, de acordo com Ramonet (2001, p. 102) nasce também do plano administrativo. A mídia impressa outrora administrada por membros da comunidade jornalística hoje é comandada por empresários, industriais que atuam nos mais diversos setores da economia, inclusive no de entretenimento e não raro no ramo desportivo – exclusivamente em razão de seu caráter empreendedor como um espetáculo.
Isto posto, na ótica empresarial a que está submetida a gestão de uma mídia jornalística impressa, para Ramonet (2004) pouco importa a veracidade da informação; do que se pode concluir, portanto que mais valem metas, índices e rankings de venda.
O Jornalismo pós-televisivo
O modelo televisivo implantado no jornalismo impresso configura-se como uma das soluções à crise no jornalismo em uma tentativa de ajustá-lo aos padrões televisivos – e agora aos ditames da Internet, blogs, jornalismo on-line, etc - revelando-se tal como uma “imitação do ecra” (ANDION, 1994), em subserviência a uma sociedade que para Vizuete (2004) “passou a perceber a realidade informativa através da imagem”.
Definição:
Segundo Margarita Ledo Andión (1993 apud SOUZA 2001, p. 366) tal formato jornalístico surge como uma nova tendência do design e ganha expressão nos jornais pós-televisivos tendo como precursor o USA Today, em setembro de 1982. Tais jornais, segundo Sousa (2001), citando os preceitos de Andión (ibid.):
Usam a cor e os infográficos em larga escala, usam fotografias essencialmente ilustrativas e de conteúdo claro, bem como fotografias ‘tipo passe’ [...] integram muitas notícias breves de um ou dois parágrafos (elaborados com base técnica da pirâmide invertida) e alguns artigos com um máximo de dois mil caracteres, redigidos num estilo próximo do ‘telejornalês’ (uma ou duas idéias por frase); frases muito curtas; períodos e parágrafos curtos; informação sintética; etc (SOUSA, 2001, p. 366)
No entanto, tal formato jornalístico surge, também, como resultado da evolução tecnológica de métodos de impressão e ajustes que se fizeram necessários no design de imprensa.
Design de imprensa
Sousa (2001, p. 339) afirma que nos dias de hoje reverencia-se muito o design de imprensa, mas nem sempre foi assim; em décadas passadas vigorava-se a opinião.
Com o passar do tempo gráficos, diagramas, mapas e “formas de hierarquizar e sistematizar a informação” reconfiguravam a paginação e o grafismo na imprensa, uma vez apurado que o leitor se mostrava mais receptivo ao obter um conteúdo interessante e uma paginação que lhe proporcionasse maior legibilidade, em um produto final que resultasse em um jornal visualmente atrativo.
Segundo Sousa (2001, p. 362, destaque da autora) tal poder atrativo atribuído ao design explicava-se, a princípio, em função da beleza, da sensualidade, com apelo emocional, no que tange à comunicação estética, de forma que o design transforma produtos culturais (jornais, revistas) em “objetos de contemplação e usufrutos artísticos”, pois segundo autor supra “não faz sentido publicar jornais ou revistas que ninguém queira ler ou se sinta atraído.”
Nas últimas décadas do século passado empresas jornalísticas iniciavam processos de reestruturação gráfica, (SOUSA, 2001, p. 362-363) em razão do potencial tecnológico, da evolução dos gostos, da “funcionalidade informativa e comunicativa” dos elementos infográficos e dos atuais conceitos outorgados à comunicação gráfica.O prestígio da televisão e a impressão em offset na década de 60 também contribuíram para o atual design da imprensa segundo Larequi (id). Implementa-se, nesse período a paginação modular ¹, familiar por sua funcionalidade.
Tal concepção gráfica nos jornais e revistas segundo Barnhurst (1994, p.190 apud SOUSA 2001, p. 363) foi reestruturado, proliferado nos EUA bem como exportado para o resto do mundo - estilo esse que seria, para o autor acima, o design jornalístico moderno “modular, funcional, claro, limpo, tranquilo”
A partir da apropriação tecnológica pelo grafismo e métodos de impressão jornalística, em meados dos anos oitenta e princípio dos anos noventa, de acordo com Souza (2001, p. 363) parte da imprensa jornalística impressa percorre os caminhos do design pós-moderno.
E, apesar de as evidências anunciarem o inverso, Sousa (2001, p. 364) declara que a despeito de as reformulações gráficas priorizarem o design, sua relevância reside, no entanto, na relação dos dispositivos visuais como indutores de significados.
Interessante observar que, dentre os fatores que contribuíram para o atual conceito de design na imprensa jornalística Souza em conformidade com Louis Guéry (cit por CANGA LAREQUI, 1994, p. 22 apud SOUSA 2001, p. 353 grifo da autora) aponta, além das técnicas de fabrico e a influência de outros meios (TV), a interferência da prática do consumo, ou seja, a evolução dos hábitos de leitura bem como modas pertinentes à apresentação gráfica dos jornais e revistas.
Dialética - forma x conteúdo
O fenômeno do jornalismo pós-televisivo provocou inúmeras questões relativas à sua formatação, seus reflexos na sociedade, na pertinência em se discutir ou não a legitimidade de tal formato.
A despeito de sua superficialidade discursiva é conferida relevância a tais formatos jornalísticos (ANDIÓN 1993, p. 48 apud SOUSA 2001, p. 367) como modelos de interação forma-conteúdo, triunfo do paradigma visual sobre o conteúdo profundo, direcionado àqueles que dispõem de dez minutos diários para dar uma olhada nos jornais, os quais terão à sua disposição muita informação de evasão (do sonhar), de criação (entretenimento, do prazer na leitura) e de serviços.
Questões de maior envergadura surgem ao redor da temática forma-conteúdo à medida que se avalia o grau de gratificação do leitor frente a um formato diverso ao pós-televisivo e mediante dados de pesquisa em hábitos de leitura
Sousa (2001, p. 366, grifo da autora) declara que “a aparente neutralidade das mudanças gráficas introduzidas pela imprensa pós-televisiva dissimularia uma realidade problemática.” E, prosseguindo, o autor apresenta as críticas ao design jornalístico da atualidade apontadas por Ledo Andión (1993, p. 48 apud SOUSA, 2001, p. 366), em que esta se remete às conclusões do II Simpósio da AIC:
a) A estratégia neotelevisiva tende a neutralizar as possibilidades comunicativas da escrita, apesar deste ser o elemento diferenciador da imprensa;
b) A imagem (fotografia, ilustração, gráficos, etc.) tende a manipular- se como um elemento sinalizador, como insignificante, ou como síntese de dados temporalmente efêmeros;
c) O discurso jornalístico organiza-se sob uma forma semelhante à de uma crônica de costumes;
d) O tempo de leitura termina logo no primeiro nível de aproximação do leitor ao jornal;
e) O design expressa-se como estilo e como organizador de materiais e não como uma das componentes comunicacionais (SOUSA, 2001, p. 366)
Garcia, Stark e Miller (1991 apud SOUSA 2001, p. 367) relatam em sua investigação que grande parte dos leitores não lê jornais senão os “observam”, “scaneiam” títulos, examinam imagens, lêem poucas linhas, detendo-se onde há interesse, predileção ou sensação de segurança proporcionada pela isenção da fatalidade alheia (crimes, acidentes, etc.).
Diante do exposto, Sousa (2001, p. 368) desafia estudiosos à reflexão do compromisso “forma-conteúdo-interesse” tendo em vista que o leitor de hoje se esquiva da grande informação - política e econômica - em detrimento da informação de evasão, desporto e serviços e o mesmo dificilmente será alavancado pela a imprensa de qualidade, segundo o autor mencionado, a não ser que sejam promovidas soluções, incluindo as gráficas, como forma de apresentação das informações, e a validação de conteúdos diversos. Ainda assim, o leitor mostrar-se-ia impotente perante a grande informação que não apresenta sinais de identificação com seu mundo e suas expectativas, e, portanto optaria pelo espetáculo e entretenimento presumindo estar informado.
Paralelamente à discussão forma-conteúdo, Ramonet (2003, p. 248-249) ao transcodificar o discurso da informação da cultura de massa, pontua seu diferencial na retórica, a qual pontua de “infantilizante”. Tal denominação se deve ao fato de a mesma se assemelhar a um discurso direcionado às crianças, ou seja, rápido, feito de frases curtas e títulos chocantes para impedir o tédio; simplicidade a nível vocabular e sintático para ampliar o acesso cognitivo e inclusão de elementos que compõem a dramatização ou espetacularização – riso,choro – com a finalidade de evocar a emoção.
A terceira característica mencionada por Ramonet (loc. cit.) é a gratuidade. Grandes mídias presenteiam a informação na atualidade, seja via suporte das rádios, TV ou por um simbólico valor no jornal impresso. E a explicação é simples: publicidade; “antes uma empresa jornalística vendia informação aos cidadãos [...] hoje uma empresa midiática vende consumidores a seus anunciantes” (2003. p. 248).
Considerações Finais
A prática e performance cidadãs concebidas através do jornalismo pós-televisivo prevê uma abordagem conceitual ampliada da cidadania, “em conformidade com a realidade histórica” (VIEIRA, 2008), não “aprisionada a um momento histórico particular” e agregando novos conteúdos de acordo com as transformações societárias (RUBIM, 2003, p. 109).
É certo que a superficialidade do formato pós-televisivo oblitera modelos de conhecimento em profundidade no que tange aos direitos do cidadão (e demais temáticas) e pouco o dota de informação que incentive a valorização bem como a conscientização da atitude participativa em um processo democrático.
De referida conjuntura, segundo Ledo Andión (1993 apud SOUSA 2001, p. 366) infere-se o risco da perda do papel central que caracteriza a imprensa na sociedade democrática ocidental, a saber, o de “cão de guarda” da sociedade vigiando seus interesses junto aos poderes,
esclarecendo, ajudando a decidir, fortalecendo o debate, enfim, participando, assim, da tomada de decisões em um processo democrático de direito. A cidadania se vê decerto ameaçada! Mas, como conceber a postura informativa do cidadão da pós-modernidade ?
Inserido em uma sociedade civil marcada por suas rupturas com modelos tradicionais, na qual, segundo Mattelart (2004, p. 181) celebra-se a apoteose do espaço em relação ao tempo, o “desaparecimento do referente histórico” e em que modelos de profundidade são substituídos por modelos de superfície ou “modelos de superfície múltiplos”, o cidadão de outrora, um sujeito unificado, convicto, imune a contradições se vê diante de um novo paradigma comportamental.
As lógicas impositivas que atuam na reformulação da sociedade desenham um sujeito fragmentado, “descentrado”, deslocado (HALL, 2000, p. 8), distinto, segundo Grossberg (1993, p. 40, 61 apud MATTELART & NEVEU 2004, p. 114) pelo movimento e mobilidade que é dado à sua consittuição identitária. Trata-se, de acordo com Mattelart (2004, p. 114) fazendo menção a Grossberg, de um “‘sujeito nômade’ chamado a se remodelar sempre, como ‘um conjunto móvel de vetores em um contexto fluido’” (grifo da autora). Tais assimetrias inerentes ao indivíduo cristalizam-se também no cidadão frente ao consumo de um produto cultural – no caso o jornalismo pós-televisivo.
O formato jornalístico aludido, conforme descrito anteriormente, como representante midiático e, portanto, do espaço público, segundo aponta Calhoun (1991) não é espaço de pura racionalidade, espaço de discursos aos cidadãos; ele é outrossim uma espécie de:
Mercado identitário, de estrutura de exibição e de ofertas em que, através dos discursos políticos, o fluxo da informação, os produtos culturais e mesmo as modas, circulam modelos de realização, a valorização de comportamentos, de séries de identidades, [...] a partir dos quais se operam, e uma mescla constante de racionalidade e de afetos, processos de construção de coletivos, de combinação de ‘eu’ e de ‘nós’. (CALHOUN 1991 apud MATTELART & NEVEU 2004, p. 109-110 grifo da autora)
Diante do exposto, a cidadania opera via novo estatuto – o do consumo. Interceptada pelo assédio de diferentes formas de linguagens (escrita –concisa-, infográfica, visual, sígnica) a prática cidadã se vê condicionada, segundo Canclini (1999, p.101) pela força dos hábitos e gostos dos consumidores, cujo que “se constitui em relação aos referentes artísticos e comunicacionais, às informações e aos entretenimentos preferidos.”
Se a prática e o exercício da cidadania se mostram prejudicados pelo formato jornalístico pós-televisivo, a problemática se aprofunda na medida em que o formato jornalístico em questão serve perfeitamente aos interesses, necessidades, estilo de vida e ao ritmo de grande parte da população leitora da atualidade.
Assim, em face dos paradigmas sociais introduzidos, a prática cidadã, por meio do formato jornalístico aludido, que desponta também como um jornalismo de prestação de serviços mostra-se perfeitamente conveniente a uma sociedade denominada sociedade de bem estar que anseia o ócio, a qualidade de vida e demandas informativas mais prementes, de modo a incorrer em uma ferramenta de facilitação de seu cotidiano; e isso o faz por meio do consumo rápido da informação impressa a ser complementada por outros meios de comunicação.
Assim, a esfera pública e o exercício da cidadania por intermédio do formato jornalístico investigado manifestam-se atravessados pela priorização de imagens e infografia como recurso para a organização e hierarquização noticiosa que, como indutoras de significado e de sentido deslocam o eixo de atenção do cidadão a uma realidade informativa visual, de entretenimento, nem sempre condizentes com a realidade dos fatos.
Ademais, a cidadania enquanto conhecimento, se forma, dessa forma, de fragmentos captados por uma leitura rápida de informações concisas, complementadas por outros meios de comunicação. Tal postura informativa revela-se sujeita a ambiguidades e distorções, posto que informações provenientes de veículos distintos supostamente confrontam versões diversas de uma mesma notícia.
O jornalismo pós-televisivo assentando rupturas com a continuidade inibe, portanto, o engajamento do cidadão em questões de interesse público, posto ser notório na conjuntura exposta o “declínio da historicidade e o descompromisso com a hermenêutica” (REY, 2000, p.4 ).
Procede, portanto, afirmação de Hall (apud MATTELLART & NEVEU 2004, p. 110) quanto à centralidade da cultura na gestão da sociedade e, portanto, na consideração da ação política.
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PACHELI, Rihab Abdel Hafiz. Mestre em Comunicação Midiática, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP, campus Bauru, rihab_pacheli@yahoo.com.br
