IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo B-10: Visualizaçao de redes e de outros dados

A transitoriedade da informação no ciberespaço: diálogo teórico reflexivo

Ponente/s


Resumen

Resumo

O presente artigo se propõe trazer uma discussão teórico reflexiva sobre a transitoriedade da informação e do conhecimento no ciberespaço. Para tanto, nos apoiamos nos aportes teóricos sobre o pensamento complexo e a transdiciplinariedade (MORAN, 1999; MORAES,1999; CAPRA,2002), além da cibercultura ( LEVY, 1995; SANTAELLA, 2002; LEÃO, 2005.) A discussão problematiza o caráter transitório que a informação e o conhecimento adquirem nas redes sociais presentes no ciberespaço. A lógica tradicional com sua linguagem e seu espaço (ou a relação espaço-tempo) não cabe no ciberespaço, guiado pela mobilidade e pelo desprendimento de cargas. Contrapõe-se a produção do conhecimento apoiada na perpetuação, na fixação do saber, na fragmentação em esquemas racionais e científicos para nos adensamentos digitais buscar a complexidade do processo de construção deste saber e viabilizara sua compreensão de forma ampla.

Palavras chaves- Transitoriedade, Ciberespaço, Informação, virtualidade, pensamento complexo.

Contenido de la comunicación

Introdução

A sociedade contemporânea nos remete a desempenhar novos papéis sociais à media que a noção de tempo e espaço passam por transformações radicais. Neste cenário a informação e o conhecimento são permeados pelas redes comunicacionais de dinâmicas não lineares. As reflexões construídas em torno destas estruturas levantam condições incertas, sobre a noção de tempo e espaço e novos padrões de organização. A dinâmica não-linear escolhe entremear-se em redes para criar condições de reconhecimento tangíveis e arranjos de vetores educacionais, sociais, econômicos, culturais, políticos, capazes de lidar com as perspectivas de futuro que já nos atingem. Agregamos à condição humana não só questões referentes aos elementos da natureza, mas também tudo o que construímos e realizamos. Neste cenário buscamos as referências teóricas nas áreas da virtualidade e cibercultura para estabelecer a paisagem que norteará esta discussão . A paisagem esta que abrigará a transdiciplinaridade/complexidade e que servirá para o entendimento da transitoriedade das informações e do conhecimento, especialmente na internet. Desta forma objetivamos contribuir para a discussão da produção epistemológica diante do novo arranjo da informação e do conhecimento.

1. O cenário

O cenário que se vislumbra nos faz entender que somos parte de um sistema complexo, múltiplo, rizomatico e sem núcleo comum. Cibercultura, virtualidade e transdiciplinaridade pelo viés do pensamento complexo são eixos estruturantes deste sistema que se entrelaça por meio do caráter transitório. Um saber fluxo dependente da transação de conhecimentos, seguindo o pensamento de Pierre Levy (LEVY, 2003).

[...] a linguagem humana, por ser de natureza simbólica, envolve antes de mais nada a comunicação de um significado, e que ações humanas decorrem do significado que atribuímos ao ambiente que nos rodeia” (CAPRA, 2002, p. 86).

No cenário virtual encontramos uma perspectiva de resultado transitório que se da em um gesto de atualização e dependente do trânsito entre sujeitos, das suas riquezas sociais e da dinâmica inerente ao processo de circulação. Assim, podemos dizer que as ciberdimensões (virtual, cultural, espacial e etc.) só se atualizam e realizam quando da sua relação com o sujeito, dentro da idéia de não-permanência, no tecer das conexões que revelam informações, dentro de um ecossistema. A comunicação em rede que inclui o significado possibilita a noção de local não como espaço, mas como contexto de revelação onde parte do todo pode ser perceptível pelo homem. A idéia que permeia esses contextos é a de que a lógica tradicional com sua linguagem e seu espaço (ou a relação espaço-tempo) não cabe dentro deste mundo leve de relações, guiado pela mobilidade e pelo desprendimento de cargas. No ciberespaço, qualquer informação e quaisquer dados podem ser arquitetônicos e habitáveis, resultantes de uma arquitetura líquida, onde não são desenhados objetos, mas princípios, variáveis, os quais geram objetos em relação ao tempo (NOVAK, 1991, p. 223, apud SANTAELLA, 2007)

Como se verá, linguagens antes consideradas do tempo – verbo, som, vídeo – espacializam-se nas cartografias líquidas e invisíveis do ciberespaço, assim como as linguagens tidas como espaciais – imagens, diagramas, fotos – fluidificam-se nas enxurradas e circunvoluções dos fluxos. (SANTAELLA, 2007: 24)

Podemos pensar a interface como um meio de organização dos signos em uma relação lógica e comunicativa (BRAGA, in LEÃO, 2005). Podemos dizer que é a camada que dá visibilidade e presença à interatividade, que codifica e decodifica a informação. Emerge na busca da construção de sentido, na relação do navegador com a informação, não com o objeto dentro desta arquitetura dita liquida.

O entendimento da transitoriedade das informações e do conhecimento, neste ambiente, nos leva a perceber este caráter que descreve dois aspectos complementares: aquilo que transita, ou seja, está em movimento constante entre agentes e, por outro lado, refere-se também ao que não é perene, estável, que não se consolida. A transitoriedade preserva a condição imaterial de complexidade e de processo, mas dota de significado o objeto relacionado, aderido ou o como sendo o próprio sujeito ao sujeito, resultando em articulação transversal do saber, tão caro ao caráter que defendemos.

O que parece transparecer neste percurso pelas relações é que os modelos que temos, estruturados em um mundo sólido, biocorporal, onde a realidade é dada por objetos estáveis, visíveis e comuns (BOCCARA, in LEÃO, 2005), não se sustentam frente ao espaço comunicativo e todas as suas potencialidades. A construção de sentido é constituída a partir de totalidades parciais, a partir de critérios pertinentes, mas não temos solidez e volume, temos mobilidade, mutações e devires. Talvez isto nos torne, lembrando Baudelaire, um flanêur de si mesmo, um viajante de passagem. Somos receptores e potenciais emissores de uma relação de fluxo de mensagens planetária, multimodal. “Formamos um ecossistema complexo com nossos objetos técnicos” (LEMOS, 2005: 261).

A universalização da cibercultura propaga a co-presença e a interação de quaisquer pontos do espaço físico, social ou informacional. Neste sentido, ela é complementar a uma segunda tendência fundamental, a virtualização. (LÉVY, 2003: 47)

Talvez o mais interessante esta em perceber a transitoriedade para a produção do conhecimento que originalmente, na perspectiva do paradigma vigente, se apóia na perpetuação, na fixação do saber, com a fragmentação em esquemas racionais e científicos para nos adensamentos digitais buscar a complexidade do processo de construção deste saber e viabilizar a compreensão de forma ampla: somos forma, matéria e processo, segundo Capra (2002).

Ubiqüidade da informação, documentos interativos interconectados, telecomunicação recíproca e assíncrona em grupo e entre grupos: as características virtualizante e desterritorializante do ciberespaço fazem dele o vetor de um universo aberto. (LÉVY, 2003: 49)

Para que a mensagem tenha sentido não pode prescindir do sujeito. “A realidade é subjetiva e só é conhecida se experienciada pelos indivíduos” (PINK, 2007: 24).

A cada movimento de corte, novas conexões se estabelecem, em um espaço não orientável, polidimensional e amorfo, o ciberespaço. São multiplicidades de planos em estado crescente, dependentes do ato de mediação, a conexão. A transitoriedade se dá em gestos de atualização, na perspectiva apresentada por Santaella o nômade da rede prefere, apesar de conhecer os pontos de ancoragem, o movimento dos caminhos entre os pontos.

São os caminhos que importam, pois a vida nômade pressupõe estar sempre no meio do caminho. Os espaços nômades são lisos, pois os caminhos também são móveis, apagam-se e deslocam-se na trajetória sem pouso. (2007: 235)

Somos levados a resgatar a idéia dos platôs e do rizoma, que não começa e não conclui, ele está no meio. Condição, segundo Delleuze & Guatarri (2007), pela qual no movimento transversal, o meio não é uma média, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade.

Como os fragmentos não são fixos e representações conflitantes não precisam ser resolvidas, o mundo descrito na tela é fluido, como construções da realidade mudam de acordo com novas perspectivas e informação. (COOVER, 2004: 22)

2. A complexidade e a transdisciplinaridade

A epistemologia contemporânea nos conduz para a transdiciplinaridade, que por sua vez é um processo transversal, o qual ocorre apoiado no pensamento complexo, no pensamento sistêmico e reflexivo.

Uma nova educação para a Era das Relações requer que a inteligência, a consciência e o pensamento, assim como o conhecimento, sejam vistos como processo, em continuidade, e que o produto resultante de cada uma dessas atividades nunca está completamente pronto e acabado, mas num movimento permanente de vir a ser – assim como o movimento das marés –, constituído de ondas de reflexão que se desdobram em ações e que se dobram e se concretizam em novos processos de reflexão. É um movimento recursivo de reflexão na ação e de reflexão sobre a ação. Requer a reflexão crítica sobre a práxis histórica. (MORAES,1997: 213)

Relacionando o processo transversal com a idéia de rizoma podemos identificá-lo como sendo, segundo Deleuze e Guatarri (2007), detentor dos seguintes princípios:

  • Princípios de conexão e de heterogeneidade, ou seja, qualquer ponto de um rizoma pode e deve ser conectado a qualquer outro.

  • Princípio de multiplicidade: quando o múltiplo é tratado como substantivo, ele então não tem mais relação com o uno como sujeito ou como objeto e assim assume seu perfil rizomático.

  • Princípio de ruptura a-significante: linhas em fuga rompem rizomas, mas se conectam a outros rizomas constituindo novos planos. As linhas se remetem umas às outras.

  • Princípio de cartografia e de decalcomania: o rizoma não suporta uma estrutura ou um eixo pivotante, a unidade se dá de forma subjetiva e em constante transformação. O objeto que se sobrecodifica e é reproduzível ao infinito é chamado de decalque, está pronto. Ao contrário, o mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói. É aberto, reversível, pode ser modificado sempre. São as múltiplas estradas do rizoma. O decalque é estável e traduz o mapa em imagem em uma articulação de redundâncias e estruturas a serem propagadas.

É um inter jogo entre sujeito e objeto através da interatividade entre o homem e os instrumentos oferecidos pela cultura. (MORAES, 1997).

O pensamento complexo vive uma tensão permanente entre a aspiração a um saber não fragmentado, não compartimentado, não redutor e o reconhecimento do inacabado e da incompletude de qualquer conhecimento. (MORIN, 2007: 07)

É pela complexidade que entramos nas caixas pretas, onde a renovação da concepção do objeto e mudança nas perspectivas epistemológicas do sujeito nos levam a aceitar a imprecisão para os fenômenos e também para os conceitos (trabalhar com o insuficiente e vago). A liberdade e a criatividade são fenômenos inexplicáveis fora do quadro complexo, que permite as suas presenças. Implica-se irremediavelmente o sujeito. “O sujeito e o objeto aparecem assim como as duas emergências últimas inseparáveis da relação sistema autoorganizador/ ecossistema” (ibidem: 39). Neste caminho não dispomos do homem como reduzido ao meio, mas integrado a ele. Somos levados a entender que a informação não pode ser toda abarcada por um canal de comunicação, uma vez que ela se apresenta a cada momento a partir de um vetor do sujeito: memória, saber, ou mensagem ou ainda programa, ou, parafraseando Santaella, matriz organizacional da linguagem e pensamento (sonora, visual, verbal) (SANTAELLA, 2001). E que, portanto, está em processo de articulação criando novas intersecções e projeções. Essa apropriação nos leva à relação nômade, cambiante e inclui como parte dessas combinações a virtualidade. A atualização, podemos dizer, de certa forma ordena o caos e nos dá as respostas transitórias. Os objetos não têm posições definidas, tudo está em um estado de constante fluxo.

A transdiciplinaridade pode se colocar como o processo necessário às relações de virtualidade e ciberespaço, dos seus desdobramentos complexos, porque todos estes campos têm como raiz comum incluir a subjetividade nas relações que se estabelecem: “O saber prendia-se ao fundamento, hoje se mostra como figura móvel. Tendia para a contemplação, para o imutável, ei-lo agora transformando em fluxo, alimentando as operações eficazes, ele próprio operação” (LÉVY, 2001: 55). Parece-nos possível dizer que a virtualidade é o campo da transdiciplinaridade e esta, por sua vez, o campo da virtualidade. A combinação está na proposição de que a virtualidade se realiza na presença dos sujeitos com toda a sua complexidade e necessidade transversal de arranjo das informações em um sistema aberto que permite o caos e a organização. Assim, não temos a compreensão das relações das coisas em separado, a internet nos proporciona a compreensão pelas relações e conexões. Novas estratégias pressupõem novos arranjos, sistemas abertos e complexos. São contornos imprecisos dos planos que formam a rede, composições de composições, como um rizoma, que, apesar das linhas que buscam novos horizontes, mantém-se em uma agremiação mais horizontal que vertical. No conceito de Sloterdijk (2006), são espumas (rizomas- espaço-interior) cujo princípio de verdade está nas configurações laterais, em condomínios planos ou associações de grupos de ilhas. “É verdade que a sociedade só pode compreender-se a partir de sua multiplicidade e espacialidade originárias junto com seus sintagmas de interconexão, [...]” (idem, 2006: 231).

3. A mobilidade local

A idéia de processo pressupõe uma articulação dinâmica entre local e global. A mobilidade e a incorporação de artefatos digitais, além do sistema de informação, contribuem para a dissociação entre proximidade espacial e as atividades mediadas por estes sistemas. Isso não significa necessariamente perder as características culturais das localidades, ao contrário, elas servem como indicadores de localização. Um conjunto de nós de informação que uma vez ativados delatam sua condição social, cultural, física e funcional. A virtualidade é a sua condição e, citando Castells (2006), sua mensagem é o silêncio porque estamos sob a suspensão do vazio da transição. As raízes deste rizoma estão nas pessoas e na cultura, portanto no entrelaçamento entre os sujeitos e seus lugares e seus significados, independentemente de uma contigüidade física. Dessa forma sempre estará atrelado a um contexto e como tal torna-se local. Todo evento fica condicionado ao contexto social de utilização, em uma simbiose entre tempos passados, presentes e futuros, e uma apropriação momentânea, efêmera, de acordo com a solicitação feita. Os processos intra e intersubjetivos que permeiam a rede entre pensamento e memória, entre o indivíduo e o grupo, nos mostram que as representações de um sujeito afetam, no compartilhamento de ambientes comuns, as representações de outros sujeitos. Neste limiar entre representações, as singularidades e compartilhamentos são construídos. O sujeito ser situado e datado é apenas um aspecto de um sistema de subjetividades e identidades incorporadas, transitáveis entre o eu e o outro. Podemos pensar em uma construção cooperativa de um contexto segundo o qual emissor e receptor ocupam um espaço não fixo, disposto pelos participantes por conta de seus centros de interesse e criando uma paisagem comum do sentido do saber. Resultam de negociações sobre significações, do reconhecimento dos acordos pela atividade de comunicação que se forma a partir de uma memória dinâmica, coletiva, comum e navegável. A dinâmica é horizontal sem pressupostos de hierarquia (o poder está entre parênteses, segundo Lévy, 2007). Isso nos faz pensar que o sujeito transitivo desemboca no objeto, ou seja, o ciberespaço, a virtualização, só encontra a sua consistência quando o sujeito/objeto está sendo construído e partilhado. É nesta relação entre sujeitos e objetos que o conhecimento encontra sua sustentação e na linguagem sua expressão “[...] relação sujeito/objeto faz nascer o conhecimento que é expresso pela linguagem” (MORAES, 1997, p. 91). Podemos pensar que o local, como forma de marcar circunstâncias, age sobre o global para depois tornar-se o próprio global em um exercício de dobras, onde o interno torna-se externo e vice-versa. O processo é constante, no exercício de modificação, reconstrução e negociação com o indivíduo. É sempre algo local, datado e transitório. Estamos construindo, segundo pontuação de Moraes (idem), uma era de relações que significa uma nova ecologia cognitiva traduzida em novos ambientes de aprendizagem, que privilegiam a circulação de informação, a construção do conhecimento, o desenvolvimento da compreensão e, se possível, o alcance da sabedoria objetivada pela evolução da consciência individual e coletiva. É uma prática reflexiva em que o indivíduo trata o problema de forma pessoal, baseado nas analogias, nas metáforas e na intuição, e utiliza esses elementos para criar a estrutura do problema. Só então estabelece um diálogo aberto com a situação prática.

Para Lev Manovich (2001), o objeto é constituído de uma ou várias interfaces resultantes do banco de dados, reformulando o conceito de narrativa. O sujeito atravessa, em uma relação transversal, o banco de dados seguindo links, que são as possibilidades estabelecidas em um primeiro momento pelo criador do projeto. Em uma narrativa tradicional, temos uma possibilidade apresentada entre tantas possíveis, mas que não se realizam. Em uma hipernarrativa todas elas podem ser apresentadas e estão disponíveis, a resposta é uma escolha singular. Aquilo que, na narrativa tradicional, era um objeto cultural, passa a ser uma fração de uma narrativa potencializada; de fato, a narrativa linear tradicional pode ser um caso particular da hipernarrativa.

Produzimos a sociedade e por ela somos produzidos. Com base neste entendimento podemos ancorar a mudança de estrutura na complexidade que tal dinâmica nos mostra, aprendendo a lidar com as incertezas e as verdades transitórias. Ao fazermos esse percurso, podemos articulá-lo através da interdisciplinaridade para criar estratégias de reconhecimento dos sujeitos frente ao mundo diverso, plural, que acolhe espaços e o ciberespaço, especialmente diante da mobilidade que nos faz contar pequenas histórias a cada fricção de tempo. Não importa a classificação deste tempo; se estamos na era das relações, da informação ou da conexão, temos urgência da subjetividade para contar pequenas histórias, entrelaçadas de complexidade e tecidas a luz transdiciplinar. “Assim como o rio de Heráclito, o hipertexto jamais é duas vezes o mesmo” (LÉVY, 2001: 48). Ou seja, tudo como parte do complexo virtual/atual e real não como condições excludentes ou opostos, mas como complementares e, portanto, sem separações. Esta estrutura é ordenada a partir do conhecimento (MORIN, 2007). O caráter transitório faz a ponte, pode ser colocado como uma condição para o entendimento da relação entre transdiciplinaridade e virtualidade, e só pode acontecer à medida que inclui, se relaciona, que se torna também a transitoriedade do sujeito e do conhecimento. “A crise da modernidade obriga-nos a fazer com que o modelo de árvore ceda lugar ao rizoma, que pulsa lateralmente, sem controle e sem eixo gerador, e que se espalha horizontalmente como os canais de Amsterdã” (LEMOS, 2005: 136). Estamos em movimento e neste movimento percebemos as trocas via internet como em transito porque só existem a partir de uma conexão entre os sujeitos/objetos, por um lado, e, por outro, porque são do tempo atual, efêmeras em sua duração.

Não é suficiente, para conceber o princípio de complexidade, associar noções antagônicas de maneira concorrente e complementar. É preciso considerar também o próprio caráter da associação. Não é somente uma relativização desses termos uns em relação aos outros; é a sua integração no seio do metassistema que transforma cada um desses termos noprocesso de um circuito retroativo e recursivo. (MORIN, 2005:460)

4. Concluindo - A transitoriedade

O caráter transitório realiza o fluxo em detrimento à fragmentação. O significado não é fixo, como pretendia a modernidade; o conhecimento é móvel, maleável, múltiplo e depende deste caráter para manter-se. Segundo Moraes (1997), as teorias transitórias são aproximações progressivas do conhecimento e não buscam a verdade absoluta, consideram-se algumas conexões e não todas as propriedades. “Um lugar de trânsito permanente entre situações de imersão e eversão, cruzando o infinitamente pequeno e desmedidamente grande, matéria descorporificada que só se comporta fisicamente como passagem” (NOVAK, apud BEIGUELMAN, 2008).

Para onde vamos?

[...] através do ciberespaço, qualquer que seja o lugar onde nos encontrarmos, dirigiremos nós mesmos nossos olhos a distância em direção à zona de realidade que escolhemos para observar, e a intensidade dos nossos olhares, como a força de nossas questões, fará nascer ao infinito novos detalhes. (LÉVY, in LEMOS, 2005: 13)

Assim, local é uma noção cultural que determina a qualidade da comunicação e da instalação da rede social. Pelo seu caráter cada vez mais corporal e nômade, que acontece em um tempo definido, ou seja, o da sua própria realização, podemos dizê-la oral e global. A partir deste conjunto refletimos sobre a possibilidade de aceitar o caráter transitório na internet como uma constatação importante no re-arranjo das vivências humanas vinculadas ao ciberespaço, dentro da nossa e-condição.

A estrutura subjetiva plural, capaz de reunir critérios individuais e universais, expressões culturais e sociais diversas, multiplicidade de valores e ações é inerente ao ser humano. Nosso funcionamento não é seqüencial e linear por natureza, podemos nos dizer dobras,como o Anel de Moebius, onde o interior é o exterior em dado momento, experimentando a identidade instável onde a posição do sujeito não está fechada. Dentro do ciberespaço potencializamos certos aspectos desta subjetividade,, em um jogo interativo que busca na mediação do outro a sustentabilidade da própria noção de sujeito. Estamos colados ao objeto pela interatividade, sem distância para uma apreciação e, portanto, tratamos de incorporação e não mais da possibilidade da identificação (SANTAELLA, apud LEÃO, 2004). O sujeito ser situado e datado é apenas um aspecto de um sistema de subjetividades e identidades incorporadas, transitáveis entre o eu e o outro.

De posse desta estrutura podemos resgatar o principio de construção de todo este trabalho: o entendimento do contexto fluido que neste momento chamanos de rede que nos leva ao uma outra inquietação, a urgência de uma fundamentação epistemológica para gerar processos de informação e conhecimento articulados com e na rede. O caráter transitório nos assegura um olhar diferenciado na escrita destes processos.

No mundo do ciberespaço a comunicação é de todos para todos, multiplicidade que nos faz participar de um processo que não se fecha, em mutação e acolhimento, em uma relação sensível que inclui transições para outras subjetividades, inclui inclusive a afetividade. Ao tecermos nossos contextos, tecemos também contextos de outros como somos tecidos por eles, o sujeito transborda-se além de si mesmo e como estamos de passagem, em processos articulatórios entre lexias, temos novas questões:

Em uma perspectiva das individualidades como será construído o coletivo, o colaborativo, tão importantes ao caráter transitório? Será uma cooperação, um coletivo de aspirações individuais?

Enfim, compreender o papel que a tecnologia informacional desempenha nas ecologias não-deterministas e polimorfas de um planeta conectado é uma das tarefas mais importantes a serem hoje enfrentadas, pois ecologias polimorfas exigem cognição polimorfa, capaz de negociações com contextos que se multiplicam. Tendo como subtexto o famoso ‘desencantamento do mundo’ de Weber, e contrapondo-se ao negativismo que está nele implícito, Peterson [...] afirma que o polimorfismo atual reclama por novas relações entre a engenharia e as humanidades, para que possamos dar conta da nossa e-condição. Que caminhos buscar para promover a criação e manutenção do ‘encantamento do mundo’ nas ecologias do presente e de um futuro próximo? Eis aí um magno desafio!” (SANTAELLA, 2007: 135).

Ancoramos o entendimento de todo esse contexto de conexão do mundo na tecnologia, na cultura, no espaço, na virtualidade, na cibercultura e no ciberespaço. Como forma de compor esse processo, dentro de um ecossistema, propomos a transdiciplinaridade pelo seu viés do pensamento complexo. O fato de pensarmos em uma sociedade plural, diversa, abre espaço para esta articulação.

Desta maneira fundamenta-se o caráter transitório da informação, modo inerente a este ecossistema, dando sentido ao desprendimento de cargas e arcabouço a emergência do processo epistemológico diante da convergência dos meios e da potencialidade da interatividade, em um caminho próprio das relações cognitivas frente às estruturas fluídas das arquiteturas.

Bibliografía/Referencias


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