IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo B-11: eSaúde e novos modelos de atenção

Aspectos biológicos e psicossociais do envelhecimento humano e suas implicações no desenvolvimento de interfaces digitais: contribuição para a inclusão digital de idosos

Ponente/s


Resumen

A Internet está sendo cada vez mais utilizada pelos idosos. Porém, sabemos que muitos desenvolvedores de interfaces digitais da World Wide Web não consideram as características específicas desse público. Nesse sentido, reconhecemos a importância de investigar os aspectos biológicos e psicossociais do envelhecimento humano para o desenvolvimento de ambientes informacionais digitais, o que contribui significativamente para o conhecimento dessa comunidade de usuários e para a identificação de elementos que podem ser implementados em interfaces digitais. Desse modo, podemos afirmar que o desenvolvimento de interfaces digitais orientada pela investigação de uma comunidade específica pode contribuir para sua inclusão digital.

Contenido de la comunicación

INTRODUÇÃO

Vivenciamos a evolução constante das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), as quais atuam em um cenário de mudanças significativas em todos os seguimentos da sociedade. Principalmente, desde o surgimento da World Wide Web (WWW), em meados da década de 1990, vemos a popularização desse serviço da Internet, o qual propicia fácil disponibilização de produtos e serviços por instituições e pelos próprios usuários em ambientes informacionais digitais.

A Ciência da Informação tem grande responsabilidade em estudos que consideram o contexto da Web, visto que há uma grande quantidade de informações para uma grande quantidade de usuários. Nessa perspectiva, é necessário discutir se os ambientes infomacionais digitais atendem aos interesses e às necessidades de seu público-alvo, especialmente no que diz respeito aos aspectos da interface.

Diante dessa premissa, discutimos particularmente interfaces digitais direcionadas ao público idoso. Os idosos possuem características e interesses diferenciados que precisam ser devidamente identificados para que seja possível atendê-los.

Podemos elencar, preliminarmente, algumas questões gerais sobre os idosos e o envelhecimento humano:

  • Com o aumento da expectativa de vida devido aos avanços da medicina, os idosos passaram a ter uma vida mais ativa e muitas vezes percebemos a obrigatoriedade de se tornarem auto-suficientes. Porém, a sociedade e os idosos de hoje não estão preparados para essa auto-suficiência, pois há falta de paciência e atenção pelos mais jovens. Além disso, a mídia cultua, cada vez mais, a beleza e o jovem, considerando que, há algumas décadas, o idoso era visto como alguém que acumulava conhecimento e experiências de vida; atuava como o chefe da família e um exemplo a ser seguido; além de ser tratado como aquele que mais merecia respeito e deveria receber cuidados. (WHITAKER, 2007);

  • Os idosos de hoje acompanharam a evolução das TIC’s, porém, em geral, não tiveram acesso ao paradigma atual da Web no que diz respeito às facilidades de disseminação, colaboração e acesso à informação. O computador e a Internet, para muitos, são grandes novidades que gostariam de dominar, porém existem barreiras como o medo, a dificuldade e a própria ansiedade na operação dos dispositivos e softwares;

  • Decorrentes do processo natural de envelhecimento existem alterações físicas e cognitivas que podem dificultar a Interação Humano-Computador (IHC). Essas alterações podem limitar o acesso às interfaces digitais se os desenvolvedores não as respeitarem. Em contrapartida, se houver planejamento dessas interfaces digitais por meio do estudo das características específicas desse público, a Web pode atuar numa perspectiva de inclusão, quaisquer sejam as limitações.

Entender o contexto psicossocial e biológico do envelhecimento humano possibilita a reflexão de como construir interfaces digitais inclusivas, considerando as limitações, as potencialidades e as necessidades reais desse público específico.

ENVELHECIMENTO, TECNOLOGIA E SOCIEDADE

Pesquisas recentes demonstram que, em paralelo à diminuição da taxa de natalidade, aumenta-se a expectativa de vida da população mundial. Destacamos o aumento da expectativa de vida, confirmado pelo avanço da medicina e pela disseminação da expressão “qualidade de vida” que reforça a idéia de prevenção. A Geriatria, campo da Medicina que investiga as patologias do envelhecimento humano, atua recentemente em conjunto com a Gerontologia, que se trata de

[...] um campo interdisciplinar que visa estudar as mudanças típicas do processo do envelhecimento e de seus determinantes biológicos, psicológicos e socioculturais. É um campo multiprofissional e multidisciplinar. Embora a Gerontologia envolva muitas disciplinas, a pesquisa repousa sobre um eixo formado pela Biologia, pela Psicologia e pelas Ciências Sociais. (CALDAS, 2006: 18).

A velhice pode ser considerada como o início de um período da vida humana, denominado Terceira Idade. Existem outras denominações para essa faixa etária, porém não se sabe exatamente em que momento da vida essa fase se inicia. De certa forma, discussões acerca da idade dos indivíduos e classificações quanto a ser idoso ou não se esvaem quando reflete-se sobre aqueles que parecem velhos aos 45 anos e outros que são jovens aos 70 anos, como aponta Baldessin (2002). “O fator biológico nesta época da vida tem seu valor mas não é o único aspecto na caracterização do envelhecimento” (KACHAR, 2003: 27).

O Quadro 1 que segue apresenta as considerações de Paschoal (2002) a respeito da demarcação que anuncia o início da velhice considerando alguns aspectos:


Quadro 1: Considerações a respeito do início da velhice.

Fonte: Adaptada de Paschoal (2002: 27).

Notamos, portanto, que as idades biológica, social e psicológica, principalmente nesse momento da vida, possuem diferenças significativas. Para Baldessin (2002: 492), “[...] não há uma consciência clara através das características físicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais que anunciam o começo da velhice”. De certo modo, o início da velhice depende de diversos aspectos e contexto.

Não são só os fatores intrínsecos preponderantes no envelhecimento do indivíduo. Há os fatores extrínsecos que agem benéfica ou maleficamente, ligados às condições externas a que cada pessoa está submetida, como meio ambiente, condições psicossociais etc.” (KACHAR, 2003: 29-30).

Embora exista grande preocupação com os idosos por conta do aumento da expectativa de vida, sabemos que, em muitos aspectos, essa preocupação ainda não ocorre. Mesmo com a conquista do Estatuto do Idoso1, questões relacionadas à identidade e imagem do idoso perante a sociedade ainda não estão resolvidas. Se, por um lado, os idosos tiveram várias conquistas e as próximas gerações se beneficiarão delas, por outro sua imagem é muitas vezes deflagrada, por exemplo, através da mídia, ao cultuar a beleza e o jovem.

Dulce Whitaker, professora universitária aposentada, em seu livro Envelhecimento e poder: a posição do idoso na contemporaneidade (2007), comenta, baseando-se em suas próprias vivências, como o idoso foi perdendo o poder e sua imagem perante a sociedade brasileira. Relaciona o idoso de hoje, aposentado, e o idoso de alguns anos atrás, proprietário de um pequeno ou um grande negócio, detendo um certo poder que, conseqüentemente, apontava para uma imagem de pessoa sábia e líder supremo no clã familiar. A autora elenca alguns motivos que direcionaram a essas mudanças:

  • O país se industrializou e se modernizou;

  • Chegaram as grandes corporações multinacionais e os pequenos negociantes foram esmagados pela competição que não conseguiram enfrentar;

  • Mulheres e jovens se assalariaram, indo trabalhar fora do clã familiar;

  • A família encolheu, reduzindo-se a marido, mulher e filhos, com alta porcentagem de mães sozinhas. (WHITAKER, 2007: 57-58).

Whitaker (2007: 60) reforça ainda:

Se, para os filhos, genros e noras do século passado, o idoso era o chefe do clã, venerável pela sabedoria acumulada (e pelo poder dado pela propriedade), alguém que deveria sempre “ser levado” ao médico, aos exames laboratoriais, às compras, hoje ele é incentivado a uma vida ativa, dinâmica e auto-suficiente.

Para a autora, o poder foi tirado do idoso por conta das modificações sociais e econômicas e podemos concluir que a própria cultura contribuiu para que a sociedade enxergasse os idosos com outros olhos. Ativos e dinâmicos, sim, qualitativos importantes nesse novo contexto, porém por que auto-suficientes? Vemos constantemente a falta de preocupação das pessoas com os idosos, seja em supermercados, ônibus urbanos, filas de banco que, embora preferenciais, não resolvem o problema da espera. O idoso não é incapaz, de forma alguma, mas precisa de cuidados específicos, como quaisquer pessoas em outras faixas etárias em determinadas condições. Para Garcia (2001, p.18),

Na maioria dos países em desenvolvimento não existe uma preocupação com o envelhecimento da população, motivo esse compreensível devido ao crescimento demográfico acelerado, êxodo rural muito acentuado, entre outros fatores. Apesar das pesquisas científicas terem conseguido ampliar um pouco mais o tempo da existência humana, a sociedade não acompanhou esse padrão de longevidade. Com isso, a situação dos idosos tem-se agravado progressivamente, pois os poderes públicos não dispõem de recursos suficientes para elaborar uma política social que atenda às necessidades reais deste grupo etário.

Além disso, a imagem relacionada ao idoso atualmente está associada a representações sociais negativas (CARVALHO & HORIGUELA, 2007), promovendo uma discriminação que habita principalmente na concepção de que tudo o que é velho está obsoleto e ultrapassado (VERAS, 2002). Estamos vivendo em um mundo em que os jovens são considerados consumidores ativos e todas as representações estão apontadas para esse público, bem como à saúde e à qualidade de vida, em que se enfatiza a beleza.

Porém, a sociedade capitalista está preocupada com o que ocorrerá daqui a alguns anos, pois, com o aumento da expectativa de vida, o número de idosos irá aumentar e, portanto, um novo perfil de consumidores precisará ser enfocado. Inclusive, muitos idosos estão inseridos nesse contexto, principalmente ao negar o que já é esperado e inevitável: o envelhecimento. Nesse sentido, a fase da velhice passou a ser chamada como fase da “melhor idade” dentre outras denominações positivas e, diante disso, Salzedas e Bruns (2007: 17-18) reforçam uma opinião crítica:

[...] a negação da velhice aparece nos codinomes “melhor idade”, “segunda adolescência”, “adulto maior”, criados pela ideologia do velamento da velhice, buscando assim atender aos padrões da sociedade de consumo que encontra na população de idosos possíveis adeptos de modismos vigentes e voláteis, como estilos de vestimentas que se modificam a cada estação ou novos pontos turísticos a serem conhecidos, investindo, mais uma vez, o tempo precioso e breve do ser humano para a finalidade da manutenção da ideologia capitalista.

A fixação pela imagem do jovem vem se orientando desde os anos 1960 na moda, na música, na propaganda e nos filmes, ou seja, em muitos aspectos relacionados à cultura, diversão e entretenimento. Isso culminou na criação de um grupo novo e imenso de consumidores. Muitos desses consumidores estão envelhecendo e acabou surgindo em nossa sociedade um infantilismo adulto, que marca a negação da velhice por meio de atitudes jovens (SCHIRRMACHER, 2005).

Muitas modificações estão a caminho nesses próximos anos. Abordamos nesse momento algumas delas a partir das reflexões de Schirrmacher (2005) e Schwartz (2003). Embora essas reflexões estejam bastante focadas nas ideologias capitalistas e não tenham sido pensadas no contexto de um país em desenvolvimento como o Brasil, podemos considerá-las e ampliá-las em nível mundial, pois o envelhecimento da população será uma realidade.

As pessoas nascidas entre 1950 e 1964 são consideradas babyboomers, pois houve uma explosão de nascimentos no período pós-guerra. Desde então, muita coisa mudou em nossa sociedade. E, a partir de 2010, começará um período em que essa geração irá se aposentar e haverá, portanto, uma explosão no número de idosos e aposentados (SCHIRRMACHER, 2005).

De acordo com Schirrmacher (2005), os babyboomers revolucionaram o mundo, mudando os conceitos de infância e juventude. “Transformaram o mundo com a sua pura massa, uma massa que criou um poder de compra que nunca estivera antes nas mãos de uma juventude” (SCHIRRMACHER, 2005: 55). Para Dychtwald (20002), citado por Schirrmacher (2005: 55-56),

  • Os boomers não ingeriram só alimentos – eles transformaram os lanches, os restaurantes e a indústria de supermercados;

  • Os boomers não só usaram roupas – eles mudaram a indústria da moda;

  • Os boomers não só compraram carros – eles transformaram a indústria automobilística;

  • Os boomers não tinham só encontros – eles mudaram as imagens dos papéis e práticas sexuais;

  • Os boomers não só foram ao trabalho – eles revolucionaram o local de trabalho;

  • Os boomers não só se casaram – eles mudaram, depois de milênios, a natureza das relações humanas e sua instituição;

  • Eles não só tomaram dinheiro emprestado – eles mudaram os mercados financeiros;

  • Eles não só usaram computadores – eles transformaram a tecnologia.

Schwartz (2003) considera importante prever algumas surpresas relacionadas ao futuro e aponta algumas tendências de como será a sociedade com um número maior de idosos. O autor ressalta que essas tendências não são aplicadas para todos os grupos ou países, bem como algumas delas dependem da evolução tecnológica. Apresentamos algumas dessas predições:

  • Dentro de 50 anos, muitas pessoas não irão se aposentar, pois se manterão produtivas até a morte, em idades que superarão os 100 anos;

  • Antes disso, em uma tendência de menor peso, a aposentadoria será dedicada a uma nova vida, uma oportunidade para que os idosos usem sua experiência e inteligência em contrapartida ao simples repouso e recreação, possibilitando prosseguir com uma vida produtiva;

  • Muitas doenças que são fatais serão totalmente ou quase eliminadas ou mesmo controladas, como muitas formas de câncer; a doença de Alzheimer e outras doenças; a diabetes; a paralisia cerebral; a esclerose múltipla; doenças cardíacas e várias doenças infecciosas;

  • A geração dos babyboomers bem como as próximas gerações tendem a se sentir mais jovens, mais saudáveis e mais lúcidas que seus predecessores. “Os idosos do futuro [...] trabalharão, viajarão, lerão, desfrutarão de uma vida sexual plena e, talvez, até mesmo criarão filhos pequenos aos 60, 70, 80 e 90 anos, com bem menos doenças da terceira idade do que hoje” (SCHWARTZ, 2003: 37);

  • As distinções sociais poderão ser ainda maiores e mais intensas. No que se refere à pobreza e à criminalidade, as pessoas que cometerem algum crime poderão cumprir suas penas e, ainda, voltarem à criminalidade, o que pode sugerir um aumento nesse sentido. Por outro lado, as pessoas atuarão no mercado de trabalho por mais 30 a 40 anos e os mais ricos, por exemplo, deixarão mais herança para seus filhos e ainda doarão parte de seu patrimônio para entidades filantrópicas. Desse modo, assistiremos um crescimento fenomenal na filantropia;

  • Mudanças também relacionadas ao estilo de vida são esperadas, por exemplo, as concepções de educação, em que as pessoas terão várias formações; casamento; família, pois poderão existir várias gerações; e trabalho, pois aumentarão as oportunidades de trabalho para indivíduos idosos.

Diante do exposto, podemos tentar compreender como os idosos de hoje podem se socializar e podem viver uma vida digna como cidadãos. Nesse contexto, as tecnologias de informação e comunicação podem facilitar a vida deles, culminando em seu afastamento de espaços que podem não se sentir bem ao utilizar. Fazer compras e pagar contas pela Internet, por exemplo, pode ser mais prazeroso do que suportar a impaciência das pessoas em ambientes físicos. Além disso, os idosos possuem limitações físicas e cognitivas decorrentes do processo natural de envelhecimento e podem encontrar nas TIC’s outras possibilidades para realizar suas tarefas cotidianas.

É importante comentar que os idosos de hoje acompanharam paralelamente o surgimento e a evolução das tecnologias de informação e comunicação (TIC’s), porém especificamente a Web, serviço da Internet que vem evoluindo progressivamente desde seu surgimento em meados da década de 1990, é uma ferramenta que muitos idosos nem sabem que existe. Aqueles que atuaram profissionalmente podem até ter tido algum contato com os primeiros computadores, mas a Web surgiu em um momento em que muitos já haviam se aposentado, não tendo, portanto, a oportunidade de aprender a utilizar.

A interação idoso-computador é um tema que está começando a ser desenvolvido em pesquisas científicas. Nessa perspectiva, a Ciência da Informação tem muito a contribuir com esse público específico, visto que possui necessidades de informação, busca informação nas mais variadas fontes e está interessado em utilizar os ambientes informacionais digitais da Web como fontes de informação para a vida cotidiana. Além disso, possui habilidades e competências construídas no decorrer de suas vidas que poderão auxiliar na interação com os recursos tecnológicos. Em contrapartida, a tecnologia também auxilia no desenvolvimento dessas habilidades e competências.

Uma das discussões recorrentes na Ciência da Informação é se estamos ou não vivendo em uma sociedade da informação. Se estamos, provavelmente, dentre os públicos não incluídos nesse contexto estão os idosos devido, dentre outros motivos, ao contexto sócio-econômico e cultural, bem como às dificuldades na interação humano-computador (IHC).

Nesse sentido, identificamos a importância da inclusão dessa comunidade através do uso das TIC’s. Percebemos, por sua vez, que os conceitos de inclusão digital e inclusão social trazem na sua própria essência a problemática da exclusão. A inclusão digital e social eqüitativa pode ser ilusória, mas quando conhecemos um determinado grupo e sabemos suas características e comportamentos, é possível traçar caminhos considerando a inclusão como meta.

Propostas que têm como foco a inclusão digital possuem, portanto, as TIC’s como ferramentas que podem viabilizar o desenvolvimento de habilidades e competências, direcionando o indivíduo para a inclusão social.

Um dos projetos de inclusão social mais importante para esse grupo etário é a educação continuada proposta como programa de extensão em algumas universidades, denominadas Universidades Abertas à Terceira Idade – UNATI.

A primeira universidade da terceira idade surgiu na França, em 1973, pela Universidade de Ciências Sociais de Toulouse. A partir daí, a idéia foi difundida para universidades de outros países, inclusive do Brasil, que adotaram essa modalidade de educação continuada. Baseando-se no modelo francês, mas com grande modificação, em 1981, na cidade de Cambridge, nasceu o modelo inglês (CACHIONI, 1999).

Basicamente, a diferença entre os modelos francês e inglês para esses programas são apontados por Cachioni (1999):

- o modelo francês originou-se do sistema tradicional universitário e passou a ser oferecido por diversas instituições atendendo uma variedade de pessoas. Os cursos oferecidos são abertos e concentram-se principalmente nas áreas de humanas e artes;

- no modelo inglês, os idosos que freqüentam o programa podem atuar tanto como alunos quanto como professores, podendo até engajar-se em pesquisas.

Cada programa de educação continuada possui suas particularidades, podendo concentrar características de um, outro ou ambos os modelos, somadas às características locais. O importante é que o programa atenda às necessidades de ensino dos alunos principalmente.

Jordão Neto (1998: 41) afirma que

[...] a criação das universidades representou uma oportunidade sem igual para fazer os idosos se reencontrarem, redescobrindo o seu potencial, e se perceberem como seres humanos que podiam e deviam se valorizar como cidadãos ativos e participantes; recuperando assim sua auto-estima; resgatando sua auto-imagem e mostrando aos familiares e à sociedade sua capacidade de pensar e de agir por si mesmos; sobretudo, de ir à luta pelos seus direitos e pela conquista de seu legítimo espaço social.

No Brasil, a primeira experiência de educação para a Terceira Idade foi implementada pelo Serviço Social do Comércio (SESC). Surgiu na década de 1960 com a mesma metodologia de serviço social aplicada para crianças, jovens e adultos, compreendendo basicamente as seguintes atividades: desenvolvimento físico-esportivo, recreação, turismo social, biblioteca, apresentações artísticas, cursos livres e supletivos entre outras atividades (CACHIONI, 1999).

Outras iniciativas semelhantes à do SESC surgiram no Brasil, mas grande parte não foi levada adiante. Somente a partir da década de 1980, “[...] as universidades começaram a abrir um espaço educacional, tanto para a população idosa como para profissionais interessados no estudo das questões do envelhecimento.” (CACHIONI, 1999: 161).

Nesse contexto, surgiram as UNATI da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) que, segundo Cordeiro (2003), desde 1993, atuam espalhadas em unidades por todo o Estado de São Paulo. Vinculadas à Pró-Reitoria de Extensão Universitária, desenvolvem atividades de ensino, pesquisa e extensão ligadas às questões de envelhecimento humano. A idade de ingresso dos alunos no programa pode variar de uma a outra. Como exemplo, a idade mínima para admissão na UNATI da UNESP, campus de Marília, é de 55 anos, independente do nível de escolaridade. No caso específico desta unidade, seu trabalho foi iniciado em 1995, oferecendo aos integrantes do programa as seguintes atividades: palestras, cursos de línguas, biblioterapia, informática, oficinas de teatro entre outras (CORDEIRO, 2003).

Outro programa que se destaca é a UNATI da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Seu surgimento data de maio de 1992, como prosseguimento de outro projeto em andamento, o Núcleo de Assistência ao Idoso (NAI), criado no final da década de 1980. Esse programa é dividido em três áreas: ensino (educação permanente e formação; desenvolvimento de recurso humanos em geriatria e gerontologia); extensão (atendimento ambulatorial, jurídico, nutricional e do serviço social; cursos introdutórios e mais específicos em gerontologia); e pesquisa (desenvolvimento de projetos que buscam investigar aspectos variados da comunidade). Os alunos podem ingressar no programa a partir dos 60 anos independente de seu nível de escolaridade (CACHIONI, 1999).

Através da breve descrição dos programas de educação continuada para a terceira idade da UNESP e da UERJ, pode-se afirmar que ambas, além de várias outras espalhadas pelo Brasil, possuem objetivos similares, tendo como principal a reintegração dos idosos na sociedade e o desenvolvimento de suas potencialidades.

Além de inclusão social, algumas UNATI se preocupam com a inclusão digital da comunidade da terceira idade, oferecendo cursos de informática, além de ambientes informacionais disponíveis na Web desenvolvidos especificamente para essa comunidade.

A UERJ – UNATI, em março de 1999, criou o Centro de Referência e Documentação sobre Envelhecimento (CRDE) que visa, sobretudo, a disponibilização de material pertinente à terceira idade. Prado, Amorim e Abreu (2003: 2) comentam que os objetivos mais gerais dessa biblioteca digital são:

[...] a organização, a sistematização e a disseminação de informações, através da implementação de bases de dados que contemplem as mais diversas áreas temáticas do conteúdo gerontológico e geriátrico e do estabelecimento de vínculos com instituições afins, buscando integrar redes de informação nesse âmbito do conhecimento.

O CRDE encontra-se disponível no web site da UERJ-UNATI3, onde é possível consultar: o acervo técnico e científico do CRDE; a base de dados bibliográficos referente às teses e dissertações sobre envelhecimento produzidas no Brasil, incluindo textos completos; os artigos, em versão integral, do periódico Textos sobre Envelhecimento4; as revistas científicas nacionais e internacionais sobre geriatria e gerontologia; os lançamentos editoriais da UNATI, incluindo textos completos; os programas brasileiros de pós-graduação que contam com linhas de pesquisa sobre envelhecimento; os grupos de pesquisa cadastrados no CNPq; e a legislação sobre idosos no Brasil (PRADO, AMORIM & ABREU, 2003: 3).

Outro projeto que se destaca pertence à Universidade Aberta à Terceira Idade da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP-UATI5), que inaugurou o primeiro curso virtual para pessoas cuja faixa etária abrange 50 anos ou mais, incentivando o uso do computador a partir de aulas fora do ambiente físico. Muniz (2003: 1) comenta que

A idéia de criar o primeiro curso virtual para os maiores de 50 anos surgiu com a parceria do projeto Universidade Aberta à Terceira Idade e o Laboratório de Ensino a Distância da Unifesp, o primeiro do Brasil especializado na área de saúde. Quando os funcionários do laboratório trabalharam em um oficina de informática na Uati, descobriram que cerca de 50% dos participantes, além de interessados no envelhecer com qualidade de vida, também tinham acesso à computadores e queriam se atualizar tecnologicamente.

Percebe-se que iniciativas para o uso das TIC’s pelos idosos possibilitam que os mesmos se sintam atraídos e queiram aprender e se familiarizar com elas. O problema é que o fato de querer vencer as barreiras pode colidir com o medo e resistência a essas tecnologias, não permitindo que o idoso consiga atingir seus objetivos. Isso já não ocorre com os jovens, os quais nasceram e aprenderam a utilizar os meios eletrônicos nessa geração e, provavelmente, não terão problemas no futuro. Garcia (2001: 32-33) comenta que

Os jovens de hoje aprendem a lidar com as novas tecnologias, acompanhando a evolução dos tempos e estão dispostos a aprender a utilizar o computador. São curiosos e com isso, aprendem com maior rapidez. O mesmo, porém, não ocorre com os idosos. Muitos sentem receio, têm medo e criam uma certa resistência em aprender a usar a informática, por acreditarem que vão manusear o computador erroneamente ou que venham a danificá-lo.

Mesmo assim, iniciativas de inclusão digital têm obtido resultados bastante positivos, possibilitando que o idoso possa se inserir no ambiente digital aos poucos, desenvolvendo suas potencialidades juntamente com os outros membros da comunidade com quem compartilha conhecimento e experiências de vida.

Uma outra iniciativa, além dos ambientes informacionais digitais com conteúdos específicos para essa comunidade, a qual tem colaborado para a inclusão digital, são os cursos de informática oferecidos pelas UNATI.

É natural que as pessoas tenham resistência quando se defrontam com o que é novo. Mas a partir do momento em que se conta com uma orientação, ou seja, uma colaboração de pessoas que dominem essa novidade, a tendência é que adquiram confiança, liberando os bloqueios que existem dentro de si. (GARCIA, 2001: 33)

Sendo assim, a educação para a inclusão digital dos idosos deve ser cuidadosamente refletida. Nesse sentido, os cursos de informática que as UNATI oferecem necessitam de metodologia adequada. Para Kachar (2003: 53),

Algumas universidades abertas para a terceira idade oferecem curso de introdução sobre os recursos do computador dentro do seu leque de opções, porém, como as pesquisas sobre o impacto da aprendizagem e utilização do computador pela terceira idade são escassas no Brasil, acredita-se que os cursos ainda não apresentem uma metodologia de ensino e aprendizagem específica para o idoso.

Dedicamos a seção seguinte para o levantamento de alterações físicas e cognitivas do processo natural de envelhecimento, tendo em vista a busca de elementos para implementação em interfaces de ambientes informacionais digitais específicos para idosos.

ALTERAÇÕES FÍSICAS E COGNITIVAS DO ENVELHECIMENTO E SUAS IMPLICAÇÕES NAS INTERFACES DE AMBIENTES INFORMACIONAIS DIGITAIS

Tomando como base o público idoso, consideramos necessária a reflexão quanto às características específicas dessa comunidade e suas implicações na construção de ambientes informacionais digitais.

Primeiramente, no que diz respeito ao desenvolvimento de uma interface, é necessário o estabelecimento de metodologia apropriada, bem como de uma equipe multidisciplinar, e que ambos atuem na perspectiva de considerar os fatores humanos envolvidos em face ao público-alvo estabelecido no projeto.

De acordo com Badre (2002), quando determinamos o contexto de usuário em um projeto, temos que observar se o público-alvo representa um segmento demográfico da população, como homens ou mulheres, deficientes, crianças, estudantes, idosos ou adultos.

Principalmente no que diz respeito aos idosos, os ambientes informacionais digitais específicos precisam ser desenvolvidos tendo como base a ampla gama de particularidades existentes, possibilitando a criação de interfaces que contribuam para a inclusão digital dessa comunidade, culminando em sua inclusão na sociedade da informação por meio de elementos que permitam acesso eqüitativo aos conteúdos digitais disponibilizados.

Os idosos, particularmente, possuem alterações físicas e cognitivas em função do processo de envelhecimento. Com relação às alterações físicas, podem ser citadas as mudanças de ordem osteomuscular, muscular e sensorial (SALES, 2002).

De acordo com Duarte (2002: 219), no envelhecimento

Ocorre geralmente uma atrofia muscular lenta e gradual, em especial no tronco e extremidades, levando a uma perda de força muscular e conseqüente diminuição de força, resistência e agilidade. Pode ocorrer a perda gradativa de cálcio tornando os ossos mais porosos e mais leves e, conseqüentemente, mais propensos a fraturas. Pode ocorrer ainda a calcificação dos ligamentos e o enrijecimento das articulações podendo ocasionar diminuição dos movimentos e a instalação de processos dolorosos.

As alterações de ordem osteomuscular e muscular podem afetar a interação humano-computador em face aos aspectos físicos de interação (hardware), como mobília utilizada, disposição e características particulares dos equipamentos dentre outros aspectos ergonômicos.

De acordo com Badre (2002), as dificuldades relacionadas à coordenação motora nos idosos afetam, principalmente, o uso do mouse no momento de navegação em interfaces digitais, bem como no posicionamento do cursor em um determinado objeto. Segundo o autor, os idosos têm dificuldades em posicionar o cursor em objetos pequenos, cuja precisão é de apenas 75% comparada a mais de 90% em objetos maiores.

As alterações de ordem sensorial (órgãos dos sentidos) em conjunto e relacionadas às alterações cognitivas, em contrapartida, afetam mais a interação dos idosos com as aplicações (software), dificultando atingir seus objetivos quando acessam conteúdos digitais que não disponibilizam elementos adequados às suas necessidades.

Com relação aos órgãos dos sentidos, é pertinente abordar as alterações na visão e na audição decorrentes do envelhecimento dos indivíduos, pois as alterações de olfato e de paladar não parecem ter efeito direto sobre a interação humano-computador (SALES, 2002).

No que diz respeito às alterações visuais, Mansur e Viude (2002) comentam que elas se iniciam por volta da metade da terceira década de vida e se caracterizam pelos seguintes fatores:

  • Dificuldades para acomodar a visão e discriminar detalhes de objetos próximos;

  • Dificuldades para leitura;

  • Necessidade de maior intensidade de iluminação, que se explica pela diminuição da sensação luminosa e da sensação cromática;

  • Dificuldades na acomodação rápida para mudanças de ambientes com diferentes luminosidades;

  • Dificuldade para enxergar à noite (MANSUR & VIUDE, 2002: 288).

Essas alterações devem ser respeitadas no desenvolvimento das interfaces. Os idosos possuem dificuldades em discriminar tons da mesma cor, portanto uma das possibilidades é contrastar, por exemplo, as cores de fundo das páginas e as cores dos textos. Além disso, é importante disponibilizar o recurso de acessibilidade que permite ampliar e reduzir o tamanho da fonte, a fim de possibilitar ao usuário customizar a interface para tornar os textos mais legíveis (BADRE, 2002).

Com relação à audição, Mansur e Viude (2002) comentam que este é o primeiro dos sentidos a apresentar perdas funcionais e isso ocorre em média aos 30 anos. As autoras apresentam alguns dados relacionados ao declínio auditivo:

  • A acuidade auditiva declina com a idade, tanto no homem quanto na mulher;

  • Predominam as perdas nas freqüências agudas;

  • O zumbido é queixa freqüente entre idosos, ou seja, de 3% na segunda década da vida e de 10% na sexta;

  • Em condições ideais, a inteligibilidade da fala em situação de conversação sofre leve declínio, porém piora em situações adversas como ruído ambiental, conversas em grupos (em que se deve administrar os recursos atencionais e realizar maior número de inferências contextuais, pois ocorre maior perda de material verbal);

  • Sons altos e vozes de grande intensidade são pouco tolerados. (MANSUR & VIUDE, 2002: 288).

A disponibilização de sons em ambientes informacionais digitais possibilita uma outra forma de acesso às informações, principalmente àqueles que possuem mais degradação visual. Portanto, pensando nesse público, principalmente naqueles com diminuição da capacidade auditiva, os projetistas precisam conferir se os sons disponíveis nesses ambientes não possuem falhas (BADRE, 2002).

No que diz respeito ao sistema nervoso, Duarte (2002) afirma que é um dos sistemas mais vulneráveis às alterações do envelhecimento. Dentre os 25 a 30 anos, inicia-se um processo de perda neuronial que progride no decorrer da vida. Esta dentre outras transformações podem trazer conseqüências na vida do idoso, por exemplo:

  • Alguns idosos apresentam diminuição de sua agilidade mental e de sua capacidade de raciocínio abstrato;

  • Outros apresentam diminuição na percepção, análise e integração de informação sensorial, diminuição da memória recente e alguma perda na habilidade de aprendizagem;

  • Pode-se observar também uma alteração na coordenação sensoriomotora, com reflexos no controle postural. (DUARTE, 2002: 225).

Essas alterações estão intimamente relacionadas às perdas cognitivas. No que diz respeito às alterações cognitivas, Mansur e Viude (2002) comentam que elas podem ser vistas sob duas óticas: fisiológica e patológica. As duas perspectivas consideram as mudanças morfológicas e cognitivas, porém as interpretam de modo diferente.

As alterações cognitivas afetam diretamente processos como a inteligência; atenção; a percepção; a memória; o aprendizado; a linguagem; a resolução de problemas, o planejamento, o raciocínio e a tomada de decisões.

Com relação à inteligência, Luders e Storani (2002) comentam que ela pode ser classificada em:

  • inteligência cristalizada: refere-se à fonte de informação geral, vocábulo ou conhecimento adquirido;

  • inteligência fluida: refere-se à habilidade em perceber as relações existentes entre as coisas, bem como à manipulação das informações.

De acordo com as autoras, estudos populacionais têm mostrado que as pessoas mantêm seu nível de inteligência cristalizada até os 70 anos e a partir desse momento inicia-se um declínio desta habilidade. A inteligência fluida, por sua vez, atinge um pico aos 20 anos e então segue um declínio progressivo nessa habilidade, considerando que aos 60 anos já existe um comprometimento considerável. Nesse sentido, as autoras comentam que, com o envelhecimento, “[...] as funções que exigem manipulação de novas informações são mais problemáticas do que as que requerem apenas o manuseio do conhecimento adquirido” (LUDERS & STORANI, 2002: 146).

De certo modo, os idosos experimentam com a World Wide Web uma nova forma de interação, ou seja, ela é mais ativa comparada à passividade de outros meios de comunicação de massa. Nesse sentido, a disponibilização linear de informação proporcionada pela TV, rádios e jornais dá espaço a uma disponibilização hipertextual de informações, análogo ao pensamento humano. Os idosos possuem dificuldades em meio a essa nova forma de acesso à informação, porém o principal problema reside na quantidade de informações disponibilizadas de uma só vez em interfaces Web. Portanto, um projeto que considere esse público como potencial para o ambiente informacional digital, precisa pensar em formas de disponibilizar informações mais relevantes para que os idosos não precisem manipular novas informações de uma só vez em uma só página Web.

No que diz respeito à atenção, Sales afirma que (2002: 26), “com o aumento da idade surge declínio em relação à atenção dividida”, ou seja, há dificuldade por parte dos indivíduos idosos quanto a se concentrarem em duas ou mais situações ao mesmo tempo, sendo obrigados a ativar a atenção seletiva, em que optarão por algo a partir de critérios estabelecidos individualmente.

De acordo com os estudos em IHC, Preece, Rogers e Sharp (2005) apontam como amenizar problemas relacionados à atenção na construção de uma interface, de acordo com os conceitos de design de interação e das reflexões sobre o desenvolvimento de ambientes informacionais específicos para a terceira idade abordadas nesse trabalho:

  • As informações referentes à execução de determinada tarefa pelos idosos devem estar visíveis;

  • Para tanto, é necessário utilizar-se de recursos do design gráfico apenas para ressaltar esse tipo de informação;

  • É importante que os idosos não tenham que utilizar a atenção seletiva dentre informações não relevantes que apresentam design gráfico inadequado;

  • Definição de interfaces simples e intuitivas.

Com relação às alterações de percepção nos idosos, Sales (2002: 25) comenta que “[...] há declínios na habilidade de descobrir figuras ou formas embutidas em padrões complexos e há declínios na habilidade para reconhecer objetos que são fragmentados ou incompletos”. As implicações quanto ao desenho da interface a partir desse processo cognitivo são apontadas por Preece, Rogers e Sharp (2005) e direcionado ao público idoso:

  • As representações gráficas devem ser reconhecidas facilmente pelos idosos;

  • Os sons disponibilizados devem ser claros e compreensíveis;

  • Legibilidade e cores contrastantes com o fundo facilitam a leitura de textos.

No que diz respeito à memória, as maiores alterações se referem à memória de curto prazo (KACHAR, 2003; BADRE, 2002). Na interação humano-computador, pode haver uma dificuldade de memorização durante o acesso a um ambiente informacional digital, dificultando a navegação em um sistema hipertextual que, provavelmente, dificultará o aprendizado. Para tal, a partir dos apontamentos de Preece, Rogers e Sharp (2005), verificamos que

  • Os procedimentos para a realização de tarefas devem ser simples para não sobrecarregar a memória de curto prazo dos idosos;

  • Interfaces projetadas com o objetivo de promover o reconhecimento de procedimentos através da percepção possibilitam acesso intuitivo dos idosos, contribuindo para que não precisem memorizar os passos para cumprir as tarefas.

Vários fatores podem desencadear na dificuldade de aprendizado no decorrer do envelhecimento humano, como dificuldades de atenção, percepção e memorização. Esses processos cognitivos, se refletidos no desenvolvimento de interfaces para esses usuários específicos, podem auxiliar no aprendizado no momento da interação. É importante que, como comentado anteriormente, sejam criadas interfaces intuitivas, permitindo o reconhecimento de elementos gerais, bem como itens específicos quando se trata de uma tarefa específica. Uma interface projetada com essas reflexões tende a auxiliar os indivíduos no contato com outras interfaces, bem como torná-los investigadores nesses ambientes, não sendo necessária a memorização de ações para o cumprimento de tarefas (PREECE, ROGERS & SHARP, 2005).

A leitura, a fala e a audição são processos significativos para a produção e recepção da linguagem, envolvendo os sistemas sensoriais visão e audição. As alterações relativas aos mesmos foram explicitadas anteriormente. A partir dos apontamentos de Preece, Rogers e Sharp (2005), entendemos que

  • O desenvolvimento de menus e instruções comandadas por voz deve limitar-se às categorias e subcategorias relevantes, possibilitando relações entre as mesmas e permitindo a condução da facilidade de aprendizado e da facilidade de memorização;

  • Discursos gerados artificialmente, como no caso dos sintetizadores de fala para cegos ou indivíduos com baixa visão, devem ser desenvolvidos tendo como base permitir que os usuários consigam ouvir claramente os sons disponíveis;

  • Devem ser oferecidas opções para ampliação do texto, como mencionado anteriormente, permitindo que pessoas com dificuldades para leitura consigam interagir diretamente com outras formas para entendimento da informação disponibilizada.

Com relação à resolução de problemas e processos afins, Woods e Birren (19916 apud KACHAR, 2003: 42) comentam que

É típico das pessoas da terceira idade experienciar algum declínio no desempenho envolvendo novos estímulos ou habilidades em resolver problemas, porém, muitos indivíduos entre 70 e 80 anos apresentam desempenho em testes psicológicos igual ou próximo ao dos jovens.

Levando em consideração as particularidades de cada indivíduo, os ambientes informacionais digitais devem fornecer recursos para os idosos que desejam executar ações com maior eficiência, como realizar buscas no próprio ambiente ou em toda a Web, juntamente com opções de refinamento de busca, permitindo que os idosos que já tenham uma dada experiência nesse tipo de ambiente possam resolver problemas, planejar, raciocinar e tomar decisões (PREECE, ROGERS & SHARP, 2005).

As reflexões acerca das características específicas de usuários idosos contribuem para o desenvolvimento de interfaces digitais, considerando os fatores humanos envolvidos e possibilitando direcionar a inclusão digital dessa comunidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do contexto de uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC’s) por indivíduos idosos, buscamos compreender esse público por meio de estudos relacionados ao envelhecimento humano no que tange aos aspectos psicossociais e biológicos.

O entendimento proporcionado por essa discussão contribuiu para a identificação de elementos específicos que podem ser implementados em ambientes informacionais digitais, especialmente em suas interfaces.

O projeto de ambientes informacionais digitais, ao considerar a importância da investigação contextual, do tratamento coerente do conteúdo e do planejamento de uma interface intuitiva, tendem a possibilitar a inclusão de mais pessoas no ambiente digital por motivos de facilidade de acesso e uso, quando comparado a um ambiente implantado sem considerar amplamente essas questões.

Grupos de pessoas excluídas socialmente, por terem necessidades especiais ou mesmo os idosos, podem se beneficiar na utilização de ambientes que promovam a comunicação com pessoas, especialmente aquelas que apresentam as mesmas condições.

Desse modo, a Web propicia a inclusão indiretamente, porém com grande abrangência, e pode ser considerada um meio democrático para produção e uso da informação. Isso justifica o fato de a Ciência da Informação se preocupar com as TIC’s e suas possibilidades em pesquisas atuais.

Portanto, indivíduos/sociedade e tecnologias estão interligados desde tempos remotos e devem ser investigados conjuntamente e com igual importância, a fim de possibilitar aos seres humanos a evolução que os concerne com todos os recursos que necessitam para viver em sociedade.

NOTAS:

1 Disponível em: , Acesso em 04 ago. 2009.

2 DYCHTWALD, K., 2000, Age power: how the 21st century will be ruled by the new old, New York.

3 Disponível em: , Acesso em: 25 mai. 2009.

4 Cujo título foi alterado para Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

5 Disponível em: , Acesso em: 25 mai. 2009.

6 WOODS, A. M.; BIRREN, J. E., 1991, The psychology of ageing, In: PATHY, M. S. J., Principles and practice of geriatric medicine, 2.ed, John Wiley & Sons Ltd.

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