IV Congreso de la CiberSociedad 2009. Crisis analógica, futuro digital

Grupo de trabajo A-2: Comunidades de prática

Formação continuada de tutores em ambiente virtual e gestão para o conhecimento

Resumen

A necessidade de formação continuada na atual conjuntura socioeconômica é uma prerrogativa para todos, especialmente para os profissionais da área de educação à distância. Neste sentido este artigo objetiva fazer uma breve reflexão de alguns aspectos teóricos relevantes ao tema e também apresentar os resultados da experiência em formação continuada de tutores via internet e gestão para o conhecimento por meio de uma comunidade de prática. Esta ação de formação foi organizada em dois momentos: o primeiro se configurou em um curso e o segundo em orientação pedagógica durante a atuação profissional de tutores. O primeiro momento foi validado em 2007 e seu resultado foi muito positivo, visto que os alunos tiveram oportunidade de aplicar de forma imediata o conhecimento adquirido no curso com acompanhamento, orientações, apoio e feedbacks diários contribuíram para sucesso desta ação. Os resultados dessa experiência estão sendo positivos, visto que a maioria dos tutores conseguiram aprimorar suas práticas tutorias com seus alunos.

Palavras-chave: Formação continuada, Tutoria, Gestão para o conhecimento, Comunidade de prática

Contenido de la comunicación

1. Introdução

É consenso que a internet revolucionou o processo de comunicação, encurtou distâncias tanto geográfica como temporal. Para a EaD educação à distância um dos grandes avanços centrou nas várias possibilidades de comunicação síncrona e assíncrona de um para um, de um para muitos ou de muitos para muitos. Aspecto este que sempre preocupou tanto pesquisadores como instituições provedoras de EaD. Porém como se sabe a tecnologia é o meio, ela não tem um fim em si mesma, por isso, sua utilização precisa estar ancorada em ações pedagógicas voltadas para o processo ensino - aprendizagem mediatizado e que primam pela construção do conhecimento de forma colaborativa.

Como já é sabido, o processo ensino-aprendizagem mediatizado, ocorre por meio de alguma tecnologia, devido ao fato de estudantes e corpo docente estarem separados no tempo e no espaço. Porém também se sabe que este processo ainda é motivo de preocupação de vários pesquisadores e instituições provedoras de ações de EaD. Para Guarezi (2004) as instituições precisam estruturar um processo ensino- aprendizagem ativo, significativo e dinâmico e elaborar estratégias pedagógicas voltadas para o desenvolvimento da autonomia e construção do conhecimento, por meio do que Holmberg (1985) denomina de comunicação didática guiada. Porém para se garantir uma comunicação didática guiada, o tutor também precisa ser um bom comunicador, e para isso segundo Belloni (2001) seu papel precisa ser redimensionado, pois além de entender como ocorre o processo ensino-aprendizagem mediatizado, também precisa saber elaborar mensagens para serem veiculadas pelos meios tecnológicos e por fim um mediador de aprendizagem entre os alunos.

Diante disso, um dos grandes desafios desta modalidade de educação é formar um corpo docente, mas precisamente tutores com competências e habilidades para exercer a função de mediador de construção de conhecimento para atuar neste cenário de grandes avanços tecnológicos, gerenciamento de informações e geração de conhecimento como nunca visto em sociedades anteriores. Entende-se como desafio, pois a maioria dos profissionais que atuam ou atuaram como tutores possuem uma cultura acadêmica como discente ou docente voltado para o processo de ensino face a face, diretivo e centrado na “transmissão do conhecimento”. Considerando o que foi exposto, a forma mais viável de se ter profissionais capazes de atuarem como mediadores de forma eficiente e eficaz neste novo cenário é por meio da formação continuada.

2. Formação continuada

A formação continuada é importante para o desenvolvimento do ser humano, porém no cenário atual se tornou imprescindível, especialmente para os profissionais ligados a área da educação. E não se limita ao repasse de informações e orientações, pressupõe a possibilidade de compartilhamento de dúvidas, angústias, dificuldades, certezas, incertezas, convicções, enfim a construção do conhecimento.

A literatura e a experiência na área de EaD nos têm sinalizado que para se ter profissionais com perfil voltado para a mediação da construção do conhecimento, as instituições precisam investir em formação continuada. Esta formação deve estar focada no que Jacques Dolors (2000) denomina de aquisição de habilidades e atitudes que estimulem o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a ser/conviver, ou seja, a formação continuada constitui-se no desejo da construção contínua do indivíduo, do seu saber, das suas aptidões, da sua capacidade de discernir e agir.

Porém, Perrenoud (1998) alerta que a formação contínua a serviço do desenvolvimento das competências profissionais é um desafio para muitas iniciativas de formação, pois é relativamente fácil trazer idéias, tecnologia, ferramentas, mas é muito difícil integrar esses aportes a uma gestão e a um sistema didático. Isso significa dizer que não adianta oferecer ingredientes para a construção tem de ser trabalhado a integração destes ingredientes com a prática. Por isso, a formação continuada tem de ocorrer em paralelo com a prática do dia a dia profissional.

Se oferecer iniciativas de formação continuada alinhada com a prática dos docentes é um desafio, podemos afirmar que o desafio é ainda maior se concebermos que não basta mais apenas construímos conhecimento precisamos fazer a gestão para o conhecimento.

3. Gestão para o conhecimento

Muito tem se pesquisado e publicado sobre gestão para o conhecimento, porém não há ainda um consenso sobre o conceito e sua aplicação. Para Nonaka (1997), o conhecimento está na mente das pessoas e pode ser classificado em tácito e explícito, sendo que o conhecimento explícito pode ser externalizado, e o tácito não.

Nesta mesma linha, Alvarenga Neto, Barbosa e Pereira (2007, p. 21) também concebem que o conhecimento existi somente “na mente humana e no espaço imaginário entre as fronteiras de mentes criativas em sinergia de propósitos” e o que esta fora da “mente humana é informação”. Por isso, o conhecimento não pode ser gerenciado, é no máximo estimulado a sua construção.

Sendo assim, pode-se concluir que conhecimento é a informação processada e significada por um sujeito. E que por isso, o conhecimento não é transferido de uma pessoa para outra, ele é eminentemente construído internamente por cada indivíduo com a influência é claro do meio no qual ele vive e dos seus esquemas mentais. O que se transfere é informação que dependendo de quem a processa poderá se transformar novamente em conhecimento ou não.

Então, se o conhecimento é construído internamente por cada individuo e o que se transfere é informação, entendemos que o que fazemos é gestão para o conhecimento. E o que se gerencia segundo Nonaka (1997) é o que ele denomina “contexto capacitante” ou “condições facilitadoras” que tem por objetivo estimular e facilitar a construção do conhecimento.

Fundamentado nessas reflexões, o Instituto de Estudos Avançados – IEA estruturou uma ação de formação continuada, via internet, focada no desenvolvimento de competências para os tutores do SEBRAE/ NA - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas Nacional que será relatado a seguir.

4. Formação continuada aos tutores do SEBRAE/NAC

Como já foi colocado anteriormente, esta ação de formação continuada foi estruturada em duas fases: a primeira se configurou em um curso via internet com carga horária equivalente a 20 horas/aula. E a segunda fase se configurou em orientação pedagógica com os tutores em exercício, por meio de uma comunidade de prática. Uma das premissas desta proposta é que fosse eminentemente continuada e que primasse pela construção dos conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias aos tutores do SEBRAE.

4.1 A primeira fase: o curso de capacitação

A proposta de formação continuada iniciou em 2007 com um curso de capacitação via internet com carga horária de 20 horas/aula. Com o objetivo de capacitar profissionais para o desempenho da tutoria à distância em programas de EaD voltada para a realidade do SEBRAE. Até o momento foram capacitados cerca de 112 tutores, a maioria (66%) do sexo masculino na faixa etária de 30 a 50 anos (56%), sendo 79% com pós-graduação, com experiência em micro e pequenas empresas, em praticamente todos os estados da federação brasileira.

4.2 A metodologia do curso

Como já foi pontuado, o curso foi estruturado para que fosse além do repasse de conteúdos, que Perrenoud chama de oferecer ingredientes, ou seja, repassar informações e orientações. Se buscou a construção dos conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias a ação tutorial voltada a realidade do SEBRAE, por meio de uma proposta metodológica que exigia dos alunos organização, disciplina e dedicação ao plano de estudo de pelo menos 2 horas de estudo diário durante o período do curso. Foi elaborado estratégias pedagógicas síncronas e assíncronas, enfatizando a aplicação dos conhecimentos com: dinâmicas de grupo, contextualização, desafios, material base de leitura, chat, fórum, atividades de aplicação para que os alunos fossem desafiados a refletirem sobre o aprimoramento de suas práticas. Como pode ser observada na figura a seguir, esta metodologia foi aprovada pela maioria dos alunos que responderam a pesquisa de satisfação.

Figura 01: Dados primários

Fonte: Pesquisa de satisfação realizada com os alunos /tutores em 2007

Como demonstra a figura 01, as atividades subjetivas e objetivas foram aprovadas pela maioria dos respondentes, sendo que 90% (noventa por cento) considerou entre ótimo e bom. As dinâmicas foram aprovadas por 99% (noventa e nove por cento) dos respondentes, deste percentual 95% (noventa e cinco por cento) considerou entre ótimo e bom. A duração o curso também foi aprovada por 99% (noventa e nove por cento) dos alunos, deste percentual 95% (noventa e cinco por cento) considerou entre ótimo e bom.

4.3 Objetivos e aplicação dos conteúdos do curso

Os objetivos, conteúdos e atividades foram elaborados para atender a necessidade de formação dos tutores, considerando o tipo de formação e experiência dos mesmos com a ação tutorial. Por isso, foram tratados os assuntos: o papel do educador na EaD; a comunicação no processo ensino-aprendizagem à distância; e o papel da tutoria no processo ensino-aprendizagem à distância. E como pode ser observado na figura a seguir, também foram foi aprovados pela maioria dos alunos.

Figura 02: Dados primários

Fonte: Pesquisa de satisfação realizada com os alunos /tutores em 2007

De acordo com os dados apresentados na figura 02, pode-se concluir que o conteúdo trabalhado no curso foi relevante para a maioria dos alunos; de fácil entendimento; apresentou coerência entre objetivos e atividades e é passível de ser aplicado na prática tutorial dos mesmos. Pois, 95% (noventa e cinco por cento) dos respondentes consideraram os objetivos propostos entre ótimo e bom. E para 100% (cem por cento) houve correspondência dos conteúdos e atividades com os objetivos propostos em cada oficina e afirmaram haver a possibilidade de aplicação dos conteúdos na atuação como tutor.

Enfim saber o nível de atendimento da expectativa pode ser tão ou mais relevante que descobrir que uma iniciativa foi um sucesso, tendo todos seus quesitos bem avaliados. Assim, ao perguntar quanto à expectativa que os alunos tinham com relação ao curso, obteve-se o seguinte resultado:

Figura 03: Dados primários

Fonte: Pesquisa de satisfação realizada com os alunos /tutores em 2007

Diante dos dados apresentados na figura 03 pode se concluir que o curso superou as expectativas da maioria dos alunos, visto que 86% (oitenta e seis por cento) dos respondentes afirmaram que o conteúdo, o ambiente e o apoio da tutoria e monitoria atendeu e superou suas expectativas.

4.4 Fase 2: Formação continuada por meio do acompanhamento e orientação pedagógica sistemática e personalizada

Após a conclusão do curso, os tutores passaram a serem acompanhados e a receberem atendimento pedagógico por meio de uma equipe de 4 (quatro) pedagogos especialistas em EaD. Esta segunda fase da iniciativa de formação continuada tem por objetivo consolidar os conhecimentos adquiridos no curso e apoiar o desenvolvimento das habilidades necessárias à tutoria de forma permanente.

Para isso, a assessoria e acompanhamento pedagógico se configura em acompanhamento e feedback individual de cada tutor, orientações em grupo e também individual de acordo com a necessidade apresentada dos 112 tutores atendidos nos 05 (cinco) cursos via internet do SEBRAE nacional: Aprender a Empreender, Análise e Planejamento Financeiro, Como Vender Mais e Melhor os tutores, D’ Olho na Qualidade e Iniciando um Pequeno Grande Negócio.

O acompanhamento individual diário dá subsídios para a orientação educacional conduzir orientações individuais e em grupo no sentido de dar prosseguimento a formação continuada. A formação continuada neste caso se configura em sugestões de leituras sobre os aspectos que os tutores demonstram ter dificuldades. Estas orientações são encaminhadas pela ferramenta correios e publicadas na webteca; discussões pela ferramenta fórum e conversas mais pontuais pela ferramenta chat, ambas as ferramentas disponível em uma comunidade de prática customizada para este fim.

5. Comunidade de prática: espaço essencial para a construção e gestão para o conhecimento

É por meio de uma comunidade de prática que ocorre a formação continuada acompanhamento e orientação pedagógica sistemática, personalizada e proativa. Esta comunidade de prática para os tutores do SEBRAE é uma comunidade on-line. Por ela ocorre todo o processo de comunicação, de ações de orientação, de estudo, de boas práticas e de trocas entre tutores e entre tutores e da equipe pedagógica se configurando na gestão para o conhecimento.

Com objetivo de compartilhamento de informações, recursos e expertise entre si, os tutores discutem sobre assuntos relacionados a prática tutorial, socializam suas experiências, seus resultados, recebem consultorias virtuais e orientações da equipe pedagógica.

A comunidade conta com diversas ferramentas: mural de informações, grupos (onde ficam os grupos de discussão) dúvidas (espaço para tirar dúvidas), fórum, Chat, correio, webteca (trocas de materiais permanentes), temporário (troca de materiais por tempo determinado).

A principal responsável pela dinamização da comunidade de prática é a equipe pedagógica, que realiza ações com o grande grupo de tutores estimulando-os a interagirem com o grande grupo e também a formarem grupos por interesses e finalidades para discutirem assuntos de interesses mais específicos. A equipe pedagógica propõe ações sistemáticas de acordo com a necessidade diagnosticada por meio do acompanhamento permanente (diário), sistematizado (planejado de acordo com as necessidades diagnosticas) e proativo (a partir do diagnóstico são realizadas ações de orientações e intervenções e oficinas individuais ou em grupo antes que uma ação do tutor possa se configurar em prejuízo ao aprendizado dos alunos). Ressalta-se que todo esse processo de acompanhamento que a equipe pedagógica realiza ocorre por meio de um LMS (onde ocorre todo o trabalho de mediação da construção do conhecimento que os tutores realizam com seus alunos) separado da comunidade de prática. Os tutores também são convidados pela equipe pedagógica a dinamizarem a comunidade por meio de trocas de experiências, indicação de leitura, discussões e socialização de boas práticas. Dentre as ações propostas, se fomenta discussões, se propõe chats e enquetes. Os dinamizadores se comunicam com os tutores por meio do Fórum, do Correio, do Chat, do Mural. Como resultado dessas ações os tutores elaboram e reelaboram estratégias e ações tutoriais para serem aplicadas com seus alunos permanentemente no LMS. Após a aplicação reavaliam e aprimoram o que for necessário.

Ressalta-se que alguns tutores se mostram ativos contribuindo e socializando resultados e dificuldades. Outros são menos ativos contribuindo pouco, devido em grande parte ao fato de terem dificuldade de conciliarem os objetivos comuns com características de individualistas. Mesmo assim estes são convidados a participarem, porém sua postura é respeitada. Mesmo havendo estas limitações pode ser afirmar que esta comunidade de prática tem favorecido a construção e a gestão para o conhecimento, pois os tutores são aprimorando continuamente suas práticas tutorais.

Em linhas gerais consideramos que a comunidade de prática vem se mostrando uma ótima ferramenta para se garantir a formação continuada de tutores. Esta afirmação pode ser visualizada pelo resultado da pesquisa de satisfação aplicada a 38 tutores do curso IPGN em 2009, na tabela a seguir.

Figura 4: Dados primários

Fonte: Pesquisa de satisfação realizada com os tutores do curso IPGN em 2009.

Como pode ser observado 80% (oitenta por cento) dos tutores afirmam que a comunidade de prática é uma “ferramenta” que contribui com a gestão da informação para a construção do conhecimento. Sendo que 31,43% (trinta e um por cento) deles estão muito satisfeitos. Estes dados podem ser identificados por meio de alguns comentários dos respondentes, tais como o comentário do tutor A: “Minha atuação já foi mediana e hoje caminha para a excelência, com o acompanhamento da OE.” E do tutor B “Bem, eu tinha no começo um estilo assim digamos bem poluído em todas as formas de comunicação, com o passar das orientações fui customizando a cada CT a cada orientação e sinto que meus resultados qualitativos melhoraram significativamente.... hoje me sinto digamos assim um tutor verdadeiramente. As orientações sempre pontuais nos fazer crescer como seres humanos antes de mais nada... me sinto a vontade hoje em dia de receber os feedsbacks... showwww”

6. Considerações finais

Oferecer ações de formação continuada com o foco no desenvolvimento de competências é sem dúvida algo desafiador, pois além de estruturar estratégias pedagógicas diretamente relacionadas com a prática do dia a dia profissional é necessário um trabalho intenso com os alunos, no sentido de auxiliá-los a rever suas verdades e certezas interiorizadas ao longo da sua experiência como aluno e como profissional, pois mudar cultura demanda tempo e persistência. Este processo de despojamento iniciou durante a realização do curso, porém só foi se concretizando com mais envolto no decorrer do segundo momento da forma, ou seja, por meio dos diálogos, feedbacks e orientações da equipe pedagógica. Como também das ações de formação com discussões realizadas na comunidade de prática. Enfim, é um desafio, porém é possível, pois já é possível visualizar mudanças claras de enfoque na atuação tutorial da maioria dos tutores.

Bibliografía/Referencias


  • BELLONI, Maria Luiza, 1999, Educação a Distância. Editora Autores Associados: Campinas

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